Mostrando postagens com marcador mentira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mentira. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

7 anos depois, Juca Kfouri tripudia sobre "furo" com lesão de Kaká

Em 2010, pouco antes da Copa do Mundo na África do Sul, o jogador Kaká entrou numa polêmica com o jornalista Juca Kfouri, a quem acusou de divulgar notícias falsas sobre seu real estado de saúde, denunciando que - em vez de ter dado um "furo" jornalístico -, Kfouri o perseguia pelo fato dele ser cristão enquanto o perseguidor é ateu, conforme noticiamos aqui no blog naquela época.

2010 foi um ano realmente complicado para Kaká, para dizer o mínimo.

No final daquele ano, ele romperia uma ligação antiga com os líderes da igreja Renascer em Cristo, o casal Hernandes, e entraria nos anos seguintes em uma crise conjugal que terminaria com a separação definitiva de sua então esposa Carol Celico.

O casamento acabou em 2015.

Agora, em entrevista ao Estadão, Kaká confirma - inadvertidamente - que Juca Kfouri estava certo quanto ao diagnóstico de seu quadro de saúde, ao que o jornalista não perdeu tempo em relembrar a confusão, tripudiando em seu blog no UOL:

Kaká confessa e prova que nada 
como um dia após o outro

No dia 21 de junho de 2010, em plena Copa do Mundo na África do Sul, publiquei a coluna abaixo cujo trecho inicial reproduzo:



Sabe-se lá por que, Kaká reagiu mal ao que era verdade e, bem considerado, valia como um elogio a ele, capaz de se sacrificar pela Seleção. Talvez a referência ao eventual abreviamento da carreira tenha falado mais alto, mas fato é que na entrevista coletiva no dia seguinte à publicação da coluna, sem que eu estivesse presente, Kaká desmentiu que houvesse problema maior e atribuiu a informação ao fato de ele ser evangélico e eu ateu.

Disse ele ao repórter da ESPN Brasil, André Kfouri, meu filho:

“Há algum tempo os canhões do seu pai são disparados contra mim. A artilharia dele está voltada contra mim. Eu queria aproveitar a pergunta para responder às críticas que ele vem fazendo, e o que me deixa triste é que o problema dele comigo não é profissional, mas porque ele não aceita minha religião. Porque eu sou uma pessoa que segue Jesus Cristo. Eu o respeito como ateu, e gostaria que ele me respeitasse como seguidor de Jesus Cristo, como alguém que professa a fé em Jesus Cristo. Não só a mim, mas a todos os milhões de brasileiros que creem em Deus.”

Bobagem maior, impossível, até porque não havia crítica alguma, mas assim foi.

Eis que hoje ele diz o seguinte, em entrevista ao repórter Robson Morelli, de “O Estado de S.Paulo”, publicada nesta segunda-feira:





sábado, 1 de abril de 2017

Você já sabia: repetição de mentiras = "ilusão da verdade". Mas como isso funciona?

A matéria é da BBC Brasil:

'Ilusão da verdade': A importância da repetição para o sucesso das mentiras

Tom Stafford*

A máxima de que "basta repetir uma mentira para que ela se torne verdade" é uma das regras básicas da propaganda política, constantemente atribuída ao nazista Joseph Goebbels.

Entre psicólogos, é conhecida como efeito da "ilusão da verdade". Um experimento típico mostra como isso funciona:

Voluntários avaliam o quanto de verdade há em algumas afirmações triviais. Algumas delas são reais e outras são mentiras muito parecidas com a verdade. Após um intervalo de alguns minutos ou de algumas semanas, os participantes fazem o teste novamente, mas desta vez algumas das afirmações são novas.

Os resultados mostram que as pessoas tendem a avaliar como sendo verdade afirmações que elas já ouviram antes, mesmo que sejam falsas. Isso porque simplesmente soam mais familiares.

E assim, em um laboratório de alguma universidade ou instituto de pesquisa, parece estar a explicação para essa ideia de que basta repetir uma mentira para ela ser percebida como verdade.

A importância do conhecimento

Se você olhar à sua volta, vai perceber que todo o mundo - de publicitários a políticos - parece estar tirando partido dessa característica da psicologia humana.

Mas se pudéssemos fabricar uma verdade apenas repetindo uma mentira, não haveria necessidade de tantas outras técnicas de persuasão que conhecemos.

Um obstáculo é aquilo que já sabemos. Mesmo quando uma mentira parece plausível, por que deixaríamos de lado aquilo que sabemos só porque a ouvimos repetidamente?

Recentemente, uma equipe da Universidade de Vanderbilt, nos Estados Unidos, começou a testar como a "ilusão da verdade" interage com nossos conhecimentos anteriores.

Eles usaram afirmações aos pares - uma verdadeira e outra falsa -, mas também as dividiram de acordo com a probabilidade de os participantes saberem a resposta.

O grupo concluiu que a "ilusão da verdade" funcionou da mesma maneira para as afirmações verdadeiras e para as falsas, o que sugere que o conhecimento anterior não evita erros de julgamento.

Para ter certeza de que estavam cobrindo todas as áreas, os pesquisadores então realizaram um estudo em que os participantes precisavam avaliar o grau de verdade de uma afirmação, de 1 a 6, e outro em que deviam apenas dizer "falso" ou "verdadeiro".

A repetição levou algumas afirmações ao topo da escala e aumentou as chances de classificá-las como verdadeiras - mesmo as frases falsas ganharam mais credibilidade.

Checar os fatos

A princípio, tudo isso parece ser uma enorme tragédia para a racionalidade humana. Mas precisamos olhar para os números quando interpretamos a ciência psicológica.

O que os especialistas americanos de fato descobriram foi que a maior influência na decisão de um julgamento sobre uma afirmação ser verdadeira era justamente o fato de ela ser verdadeira.

A repetição não conseguiu mascarar a verdade - com ou sem ela, as pessoas ainda tinham mais propensão a acreditar nos fatos do que nas mentiras.

Isso mostra algo fundamental sobre a maneira como atualizamos nossas crenças: a repetição tem o poder de fazer algo parecer mais verdadeiro, mas não se sobrepõe ao conhecimento.

Sendo assim, nos perguntamos: por quê? A resposta está relacionada com o esforço necessário para sermos rigidamente lógicos sobre qualquer informação que nos chega aos ouvidos.

Como precisamos fazer julgamentos rápidos, usamos atalhos - heurísticas que estão mais certas do que erradas.

Confiar na frequência com que ouvimos algo é apenas uma estratégia. Qualquer universo onde a verdade é repetida mais vezes do que a mentira terá isso como pressuposto para se julgar uma afirmação.

Nossas mentes são presa fácil para a "ilusão da verdade" porque nosso instinto é usar atalhos para fazermos esse julgamento - isso funciona na maioria das vezes.

Agora que já conhecemos esse efeito, podemos ficar mais atentos. Uma boa maneira é se perguntar por que acreditamos no que acreditamos: será que se trata de algo plausível porque é verdade ou apenas porque foi repetido várias vezes?

Mas outra maneira é reconhecer nossa obrigação de parar de repetir mentiras. Vivemos em um mundo onde os fatos são importantes e precisam ser importantes. Se repetirmos coisas sem nos preocuparmos com sua veracidade, estamos apenas ajudando a fazer deste um mundo onde mentiras e verdades se confundem com facilidade. Portanto, por favor, pense bem antes de repetir o que ouviu.

*Tom Stafford é psicólogo e cientista da cognição na Universidade de Sheffield, na Grã-Bretanha.



domingo, 5 de fevereiro de 2017

Condenados 4 linchadores de mulher inocente no Guarujá (SP)

Fabiane Maria de Jesus,
vítima da "gente de bem".
Nesses tempos bicudos em que vivemos, em que não só a verdade morreu, mas foi acompanhada pela mentira, trituradas que foram ambas pela "pós-verdade" e pelos "fatos alternativos", ainda há uma réstia de esperança quando se pune indivíduos que agem impensadamente com base apenas nos boatos maldosamente espalhados pelas redes sociais.

Claro que muitos mais deviam ter sido processados e condenados nesse triste episódio do linchamento da inocente dona de casa, mas num país em que os programas policiais comandados por apresentadores fascistas e demagogos continuam incentivando julgamentos definitivos e apressados na televisão todo fim de tarde, talvez já seja um começo para deter esses canalhas e covardes, que - não raro - se autointitulam "gente de bem" e compartilham mensagens religiosas em seus grupos cibernéticos.

Hipócritas!!!

A notícia é do G1 Santos e Região:

Acusados de linchar dona de casa após boato na web são condenados

Três homens foram condenados a 40 anos de reclusão, e outro a 26.
Crime ocorreu em maio de 2014. Vídeo mostra momento de agressão.

Três acusados de terem participado da morte da dona de casa Fabiane Maria de Jesus foram condenados a 40 anos de prisão, e outro a 26 anos de reclusão, nesta sexta-feira (27). O julgamento foi realizado no Fórum de Santos, no litoral de São Paulo. A vítima foi linchada no dia 3 de maio de 2014 e morreu dois dias depois. O caso ocorreu no bairro Morrinhos III, em Guarujá. A defesa do grupo irá recorrer da decisão.

O crime aconteceu após uma foto ter sido divulgada, junto com um boato nas redes sociais, de que uma mulher parecida com Fabiane sequestrava crianças e as utilizava em rituais de magia negra.

Em outubro de 2016, Lucas Rogério Fabrício Lopes, de 21 anos, já havia sido condenado a 30 anos de cadeia por participação no crime. Nesta sexta-feira, o juiz Edmundo Lellis Filho condenou Abel Vieira Batalha Júnior, de 21 anos, Carlos Alex Oliveira de Jesus, de 27, e Jair Batista dos Santos, de 38, a 40 anos de prisão em regime fechado. Valmir Dias Barbosa, de 51, foi condenado a 26 anos de detenção. Sua pena foi menor porque ele confessou participação no linchamento.

Imagens

Um vídeo divulgado na época do crime mostra Fabiane sendo carregada por diversos moradores do bairro Morrinhos III, logo após ela ter sido agredida. Convencidos de que ela seria a sequestradora de crianças cuja foto circulava por uma página do Facebook, alguns dos agressores amarraram os pulsos da mulher, que foi agredida repetidamente até a chegada da polícia.

Durante as investigações, cinco pessoas foram presas por terem participado do linchamento de Fabiane. Abel Vieira Batalha Júnior teria participado da agressão amarrando os pulsos da vítima e a arrastando pelo chão. Jair Batista dos Santos é acusado de agredir Fabiane, mas nega sua participação no linchamento. Lucas Rogério Fabrício Lopes teria passado por cima da dona de casa com uma bicicleta. Já Valmir Dias Barbosa foi reconhecido nas imagens do linchamento. Ele alegou ter filhos e que participou da ação por acreditar que as acusações à vítima eram verdadeiras. Carlos Alex Oliveira de Jesus aparece no vídeo segurando Fabiane pelos cabelos. Ele disse que não chegou a golpear a vítima, porque foi contido por duas primas.

Agressão

Fabiane Maria de Jesus tinha 33 anos, era casada e tinha duas filhas, uma de um ano e outra de 12. Ela tinha transtorno bipolar mas, segundo os familiares, não era uma pessoa agressiva.

Fabiane saiu de casa de bicicleta e foi até a igreja buscar uma bíblia que tinha esquecido no local. Depois, segundo a família, ela iria para a casa de uma prima, em Morrinhos III. De acordo com a polícia, ela foi abordada no caminho por um grupo de pessoas. Elas agarraram Fabiane, amarraram as mãos dela e a espancaram. O corpo dela foi arrastado até uma passarela. Ela foi encontrada por policiais militares em estado de saúde grave.

As cenas foram gravadas por um celular e mostram dezenas de pessoas ao redor de Fabiane. Algumas teriam visto, na página Guarujá Alerta, hospedada no Facebook, o retrato falado de uma mulher que estaria sequestrando crianças em Guarujá, e pensaram que se tratava de Fabiane.

Confusão

De acordo com o inquérito, o retrato falado atribuído a Fabiane havia sido feito por policiais do Rio de Janeiro, da 21ª DP (Bonsucesso), em agosto de 2012. Na ocasião, uma mulher foi acusada de tentar roubar um bebê do colo da mãe em uma rua de Ramos, na Zona Norte da cidade.

Imagens de câmeras de segurança divulgadas na época mostraram uma mulher passando com a filha de 15 dias no colo e sendo seguida pela suspeita. A vítima estava levando o bebê para fazer o teste do pezinho em um posto de saúde. Ao sair da unidade, foi surpreendida pela mulher.



domingo, 20 de novembro de 2016

A arte de mentir em tempos de pós-verdade

Eleitores de Trump e o próprio em êxtase.
Quanto desta cena é verdade?
Ou pós-verdade...

Sim, é isto mesmo o que você leu no título, a mentira virou uma forma de "arte" nesses tempos em que a verdade não basta mais por si só, ela precisa de um "plus".

Qualquer semelhança com o discurso político único supostamente "ético" que ouvimos diariamente no Brasil não é mera coincidência.

Leia o artigo abaixo, publicado no The Economist, traduzido e reproduzido no Estadão, que você vai entender o porquê:

Arte da mentira

Na política, a verdade já não é mais é falseada ou contestada; tornou-se secundária no debate público

Os políticos sempre mentiram. Faz alguma diferença se resolverem deixar a verdade totalmente de lado?

A essa altura deve estar claro que Donald Trump habita um mundo onde os fatos são, quando muito, imigrantes indesejáveis. Nesse mundo de fantasia, Barack Obama usa uma certidão de nascimento falsa e é o fundador do Estado Islâmico (EI), os Clinton são assassinos e o pai de um dos adversários do magnata nas primárias esteve com Lee Harvey Oswald quando este distribuía panfletos pró-Cuba.

Trump é o principal expoente da política “pós-verdade”, um estilo de atuação na esfera pública que se distingue pelo uso frequente de afirmações aparentemente verdadeiras, mas sem qualquer respaldo na realidade. O descaramento do bilionário não é penalizado, sendo antes tomado como prova de que o eleitor está diante de alguém que não abaixa a cabeça para as elites no poder.

E Trump não é o único. Na Grã-Bretanha, um dos argumentos utilizados pela campanha que venceu o referendo de junho foi o de que, se não aprovassem a saída da União Europeia (UE), os britânicos seriam invadidos por uma horda de imigrantes, já que a Turquia estaria prestes a ingressar no bloco.

Se, como The Economist, o leitor acredita que a política deve se basear em fatos, isso é preocupante. As democracias mais sólidas dispõem de mecanismos de defesa para se proteger da pós-verdade. Países autoritários são vulneráveis.

Mas a pós-verdade é mais que uma simples invenção de elites que ficaram a ver navios. A expressão põe em evidência o cerne do que há de novo na política: a verdade já não é falseada ou contestada; tornou-se secundária. No passado, o objetivo das mentiras políticas era criar uma visão enganosa do mundo. As mentiras de homens como Trump não funcionam assim. Seu intuito não é convencer, e sim reforçar preconceitos.

São os sentimentos, não os fatos, que importam nesse tipo de discurso. A incredulidade dos adversários legitima a mentalidade “nós-contra-eles” que os candidatos anti-establishment exploram com sucesso. E se os oponentes tentam mostrar que as palavras não correspondem à realidade, veem-se obrigados a lutar no campo de batalha escolhido pelos líderes pós-verdade. Quanto mais os defensores da permanência da Grã-Bretanha na UE se esforçavam para mostrar que os partidários do Brexit usavam cálculos superestimados ao determinar os valores gastos pelo país por fazer parte do bloco europeu, por mais tempo mantinham a magnitude desses gastos sob os holofotes.

A política pós-verdade tem muitos pais. Alguns são dignos de louvor. Submeter as instituições e as autoridades a questionamentos é uma virtude democrática. Assumir uma atitude cética e desafiadora diante dos líderes é o primeiro passo para reformar uma sociedade. O colapso do comunismo foi acelerado graças a pessoas corajosas para contestar a propaganda oficial.

Acontece que há também forças corrosivas em ação. Muitos eleitores sentem que foram enganados e deixados para trás, ao passo que as elites continuam a viver no bem-bom. Detestam os tecnocratas que diziam que o euro contribuiria para melhorar suas vidas . Nas democracias ocidentais, as pessoas já não confiam como antes nos especialistas e nas instituições.

Mídia. A evolução da mídia também ofereceu terreno fértil para que a pós-verdade florescesse. A fragmentação das fontes noticiosas criou um mundo atomizado, em que mentiras, rumores e fofocas se espalham com velocidade alarmante. Mentiras compartilhadas online, em redes cujos membros confiam mais uns nos outros do que em qualquer órgão tradicional de imprensa, rapidamente ganham aparência de verdade. Confrontadas com evidências que contradizem crenças que lhes são particularmente caras, as pessoas preferem fechar os olhos para a realidade. Práticas jornalísticas bem-intencionadas também têm culpa no cartório. A busca da “imparcialidade” na veiculação de notícias com frequência cria um falso equilíbrio, às custas da verdade. Os cientistas da Nasa dizem que Marte provavelmente é desabitado; o professor Zureta diz que pululam alienígenas no planeta. Opinião por opinião, cada qual que escolha a sua.

Quando a política começa a ficar parecida com um ringue de luta-livre, a sociedade arca com os custos. Ao insistir em dizer - para perplexidade de alguns dos conservadores mais empedernidos - que Obama fundou o EI, Trump impede a realização de um debate sério sobre como lidar com extremistas violentos. Governar é complicado; aos olhos da política pós-verdade, porém, a complexidade é só um truque ilusionista que os especialistas usam para levar todo mundo no bico.É tentador pensar que, quando ideias vendidas sem amparo na realidade começarem a soçobrar, os eleitores abrirão os olhos e perceberão que se deixaram levar por líderes que não se dão o trabalho nem de disfarçar as mentiras. A pior parte da pós-verdade, porém, é que não se deve contar com esse movimento de autocorreção. Quando as mentiras tornam o sistema político disfuncional, é possível que os resultados negativos acabem por realimentar a mesma alienação e o mesmo descrédito nas instituições que estão na própria origem da política pós-verdade.

Políticos “pró-verdade”, às armas. Para enfrentar essa situação, os políticos comprometidos com os fatos e com a democracia precisam partir para o contra-ataque e incorporar uma linguagem mais aguerrida . Assumir uma posição de humildade e reconhecer os equívocos a que foram levados pela arrogância e pelo excesso de confiança também ajudaria. A verdade conta com forças poderosas a seu lado.

As democracias também têm instituições que podem ajudar. Sistemas judiciários independentes dispõem de mecanismos para estabelecer a verdade. O mesmo se aplica a órgãos criados para orientar a implementação de políticas públicas - em especial os que têm laços com a comunidade científica.

Se Trump for derrotado em novembro, a política pós-verdade parecerá menos ameaçadora, muito embora o bilionário tenha feito sucesso demais nos últimos meses para que ela suma do mapa de uma hora para a outra. Bem mais preocupante é a situação de países como Rússia e Turquia, onde autocratas recorrem à pós-verdade para silenciar os adversários. Deixadas à deriva num oceano de mentiras, as pessoas não terão em que se agarrar. Embaladas pela novidade da política pós-verdade, correm o risco de se ver nas mãos da opressão à moda antiga. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER



Erasmo Carlos cantando "Pega na Mentira" em 1981. Premonitório?




terça-feira, 4 de outubro de 2016

Crivella questionado sobre exclusão de Lula em foto de campanha


A matéria é do Estadão:

Tribunal pode investigar foto da campanha de Crivella que 'deletou' Lula

O juiz Marcello Rubioli, coordenador estadual da fiscalização da propaganda eleitoral, disse nesta sexta-feira que a adulteração deverá ser investigada

Roberta Pennafort

Rio - O candidato do PRB à prefeitura do Rio, Marcelo Crivella, poderá ser levado a explicar ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) a foto manipulada que sua campanha exibiu em uma inserção de TV na noite de quinta-feira, 29. Na imagem, aparecem o candidato do PMDB a prefeito, Pedro Paulo, com o governador licenciado do Rio Luiz Fernando Pezão, o ex-governador Sergio Cabral, que o antecedeu, e o prefeito Eduardo Paes, todos do partido. No entanto, a foto real tem, ao lado de Pedro Paulo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. No programa, uma voz em off faz críticas ao PMDB.

O juiz Marcello Rubioli, coordenador estadual da fiscalização da propaganda eleitoral, disse nesta sexta-feira que a adulteração deverá ser investigada. Para que haja punições, como a perda de tempo de TV (neste caso, no segundo turno, se Crivella for um dos dois primeiros colocados, já que a propaganda eleitoral do primeiro turno terminou na quinta), é preciso que o prejudicado, ou seja, Pedro Paulo, assim o solicite ao TRE, esclareceu o magistrado.

"Tem irregularidade aí. Se o TRE receber a filmagem, eu instauro (um procedimento de investigação) hoje mesmo", afirmou Rubioli ao Estado nesta manhã. A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da campanha de Crivella, mas ainda não obteve resposta com um posicionamento do candidato.

A manipulação da imagem foi denunciada pelo jornalista Fernando Molica no Facebook, logo depois da veiculação da inserção. A foto foi feita em fevereiro do ano passado, quando PMDB e PT eram aliados. Mostra um momento de descontração entre os cinco políticos. À exceção de Cabral, todos apontam o dedo para Pedro Paulo. Lula está no centro da foto, abraçando Pedro Paulo e Cabral; a adulteração apagou a imagem do ex-presidente e faz com que Cabral pareça estar abraçando Pedro Paulo. O afilhado político de Eduardo Paes, seu secretário, era então virtual candidato a prefeito. Seu nome foi confirmado em julho deste ano.

A foto original tem sido compartilhada por opositores de Pedro Paulo no Facebook durante a campanha, como meme, acompanhada da frase: "Todos nós roubamos, mas quem bate em mulher é ele". É uma alusão ao fato de Pedro Paulo ter sido investigado por agredir a ex-mulher, Alexandra Marcondes, em 2008 e 2010, quando eram casados. A violência doméstica tem sido explorada por seus adversários durante o período pré-eleitoral. Em agosto, o Supremo Tribunal Federal arquivou a investigação sobre as agressões.

O último levantamento do Ibope confirmou a liderança isolada de Crivella (PRB), que apareceu com 34% das intenções de voto. Seguem-se, empatados com 10%, Pedro Paulo e Marcelo Freixo. Indio da Costa (PSD) tem 8%; Jandira Feghali e Flávio Bolsonaro (PSC), 7%; Carlos Osório (PSDB), 4%; Alessandro Molon (Rede), 1%. Ontem à noite, no último debate televisivo antes das eleições de domingo, Crivella, assim como os oponentes, concentrou esforços em atacar Pedro Paulo e o PMDB.

"Tudo que é escândalo o PMDB está envolvido, Lava Jato, mensalão, petróleo. Eu tenho idade para ser seu pai, muda de partido!", disse o candidato do PRB, num embate direto com Pedro Paulo.



domingo, 25 de outubro de 2015

Como seria uma cerimônia de casamento com polígrafo?


Divirta-se com a esquete abaixo:




quarta-feira, 1 de abril de 2015

Cachorros não caem na mentira


É o que se deduz da matéria publicada pela BBC Brasil:

Cachorros sabem quando alguém é desonesto, aponta pesquisa

Melissa Hogenboom

Cachorros podem não parecer incrivelmente inteligentes quando correm atrás de seus próprios rabos, mas usam outras maneiras para demonstrar como são criaturas espertas. Uma de suas melhores qualidades é que eles estão sempre atentos aos seres a sua volta, tanto humanos como outros cães.

Muitos estudos já demonstraram que cachorros são capazes de perceber as emoções humanas. Pesquisas recentes descobriram que eles podem notar a diferença entre rostos alegres e tristes, e conseguem até demonstrar ciúme.

Mas um trabalho que foi há pouco tempo publicado na revista científica Animal Cognition revelou que os cachorros também percebem quando uma pessoa não é confiável. E uma vez que decidem que determinado indivíduo é desonesto, param de seguir suas instruções.

O estudo foi realizado na Universidade de Kyoto, no Japão, pela equipe da cientista Akiko Takaoka. Partindo da noção já comprovada de que os cães entendem quando um humano aponta algo para eles, os investigadores puderam concluir que os animais também percebem rapidamente quando o gesto de um humano é enganoso.

A equipe liderada por Takaoka realizou três rodadas de experimentos com 34 cães.

Na primeira vez, uma pessoa apontava corretamente para um recipiente que escondia comida. Mas na segunda rodada, o indivíduo indicava um recipiente que acabava se revelando vazio.

Na terceira rodada, a mesma pessoa apontava de novo para um objeto contendo comida. Mas desta vez os cachorros não respondiam ao comando daquele indivíduo. Segundo Takaoka, isso sugere que os cães se baseiam em sua experiência anterior com aquela pessoa para avaliar se se trata de alguém confiável.

Depois das três experiências, outra pessoa completamente diferente repetia a primeira rodada, e novamente os cães seguiam avidamente suas orientações.

A cientista diz ter ficado surpresa com o fato de os cachorros restaurarem sua confiança em um humano tão rapidamente.

“Os cães têm uma inteligência social mais sofisticada do que pensávamos. Isso evoluiu seletivamente na longa história que esses animais têm com o ser humano”.

Segundo Takaoka, o próximo passo de sua equipe será testar espécies relacionadas aos cachorros, como os lobos. Isso poderia ajudar a revelar “os efeitos profundos da domesticação” na inteligência social dos cães.

Previsibilidade

Para John Bradshaw, da Universidade de Bristol, na Grã-Bretanha, a principal conclusão do estudo japonês é o fato de que cães gostam que as coisas sejam previsíveis.

Assim que os acontecimentos em suas vidas se tornam irregulares, eles procuram por atividades alternativas.

E se eles consistentemente ficam sem saber o que vai acontecer, podem se tornar agressivos ou medrosos. “Cachorros cujos donos são inconsistentes costumam apresentar distúrbios de comportamento”, afirma Bradshaw.

Cada vez mais nos convencemos de que os cães são mais inteligentes do que se acreditava no passado, mas, segundo Bradshaw, essa inteligência é diferente da nossa.

“Cachorros são muito sensíveis ao comportamento humano, mas eles têm menos pré-concepções”, diz o cientista. “Eles vivem no presente e não refletem sobre o passado de maneira abstrata, assim como também não planejam o futuro.”

Quando encontram uma situação, os cães reagem para o que está ali “em vez de pensar profundamente no que aquilo significa”.

Para Brian Hare, diretor científico da empresa americana Dognition, especializada em testes de personalidade com cachorros, esses animais claramente estão atentos quando uma pessoa gesticula para eles, e este estudo prova isso.

“Cães avaliam a informação que transmitimos com base em quão confiável ela é em ajudá-los a conseguir seus objetivos”, diz Hare.



terça-feira, 1 de abril de 2014

Como detectar uma mentira


Matéria interessante publicada no Terra:

É mentira? Veja 14 indicadores de que a pessoa está mentindo

Thaís Sabino

"Mente aquele que diz que não mente", é assim que o perito em detectar mentiras e professor do Behavior Analysis Training Institute - instituto que treina a polícia americana para detecção de mentiras -, Wanderson Castilho, começa a entrevista ao Terra. Segundo ele, apesar do desprezo que todas as pessoas conservam pelos fatos que não condizem com a realidade, "quem nunca contou uma mentira?".

Talvez mentir não seja tão incômodo quando ouvir uma inverdade; mais do que isso, em casos policiais saber a verdade é fundamental. Além do polígrafo - detector de mentiras que mede pressão arterial, batimentos cardíacos, temperatura do corpo e dilatação da pupila - Castilho diz que descobrir quando alguém está mentindo se baseia em analisar os sinais emitidos pelo corpo deste indivíduo, tarefa que uma pessoa comum é capaz de fazer, se souber no que deve prestar atenção.

"Quando conversamos, mantemos um padrão. Pode falar rápido, devagar, alto ou baixo, mas sempre em um padrão. Quando a pessoa começa a mentir, este padrão muda", explicou. De acordo com o perito, o cérebro entra em um processo de criação. "Um exemplo é quando a namorada pergunta ao namorado: 'você saiu ontem à noite?' e ele, mesmo entendendo a pergunta, responde: 'o que?'". Esta pausa é o tempo que o cérebro encontrou para pensar em uma resposta.

Desviar o olhar, falar com muitas justificativas, mexer mãos e pés de forma frenética, mudar o tom de voz, entre outros sintomas, são indicativos de um mentiroso. O psiquiatra e diretor do Instituto de Neurolinguística Aplicada, Jairo Mancilha, explica que o corpo sempre é mais fiel à verdade do que a fala. "A fala é criada pelo consciente, mas os sinais do corpo são provocados pelo inconsciente e a pessoa não consegue controlar", disse ele.

"O cérebro não aceita a negação. É como: 'não pense em vermelho' e logo a pessoa pensa na cor vermelha. A mentira é uma negação à verdade que manifesta diversas alterações fisiológicas", acrescentou o perito em identificar mentirosos. O psiquiatra Mancilha reforça que não existe regra, mas alguns sinais são um alerta de que o indivíduo está mentindo; confira 14 indícios abaixo.

Desviar o olhar - Quando a pessoa mente, geralmente, tem dificuldade em manter o contato ocular com naturalidade, de acordo com o psiquiatra e diretor do Instituto de Neurolinguística Aplicada, Jairo Mancilha.

Olhar muito fixamente - Indivíduos que têm conhecimento de que o desvio do olhar é visto como sinal de mentira, podem fixar de forma exagerada os "olhos nos olhos" da outra pessoa. "Pessoas verdadeiras tentam transmitir a verdade, as mentirosas precisam convencer o outro a acreditar na história criada", afirmou o perito em detectar mentiras e professor do Behavior Analysis Training Institute, Wanderson Castilho.

Piscar - "Mentirosos tendem a dar piscadas mais longa", disse Castilho. Como efeito inconsciente, o cérebro em uma atitude de recusa ao que a pessoa está dizendo, provoca estas piscadas em que os olhos permanecem fechados por mais tempo do que o habitual, explicou o perito.

Voz - "O tom da voz perde a congruência, a voz não fica tão firme, pode ficar trêmula, cortada e sem fluidez", disse Mancilha. De acordo com Castilho, o tom de voz também pode ficar baixo e a fala ser projetada para dentro.

Mãos - Quando o organismo entra em estado de alerta, por nervoso ou ansiedade, a temperatura periférica tende a cair. Por isso, quando uma pessoa está mentindo pode ficar com as mãos e pés gelados, segundo Mancilha. Além disso, mãos trêmulas e agitadas também são indicadores da mentira, adicionou Castilho.

Pele - O nervosismo causado pelo ato de mentir pode alterar a cor e aparência da pele. "A pessoa pode ficar mais vermelha ou mais pálida", afirmou Mancilha. A sudorese repentina é outra característica da situação, segundo Castilho.

Fala - "Quem está mentindo dá mais rodeios, muitas justificativas, fala demais", caracterizou Mancilha. Quando alguém, que não tem o costume de ser prolixo, começa a demorar demais para chegar ao objetivo da conversa, existe chance de a história ser uma grande mentira.

Pausas - "A conversa está fluindo, de repente, um assunto faz a pessoa que está falando iniciar uma série de pausas na fala", exemplificou Castilho. De acordo com o perito, os intervalos podem indicar que o cérebro está criando as próximas informações.

Mãos nos bolsos - As mãos nos bolsos é um sinal de que a pessoa está escondendo algo, de que está fechada a dar ou receber informações, disse Castilho. As palmas das mãos abertas e viradas para a pessoa com quem se fala já indicam um sentimento muito mais tranquilo e confortável em relação ao assunto da conversa.

Olhar para o lado esquerdo - Para pessoas destras, o lado esquerdo é o da criação, portanto, quando uma pessoa é indagada e move os olhos para a esquerda, pode estar com a intenção de criar uma resposta, ou seja, uma mentira, explicou Castilho.

Olhar para o lado direito - Já olhar para o lado direito não é indício de mentira. De acordo com Castilho, o lado direito é o da memória, por isso, quando uma pessoa olha para a direita antes de falar, significa que está buscando informações na memória.

Saliva - Quando o corpo entra em alerta, por uma situação de estresse - que se aplica durante um relato mentiroso - o corpo para de produzir saliva e a pessoa começa a "engolir seco", disse Castilho. Isso varia de acordo com o nervosismo e tensão do mentiroso durante a fala, mas é comum que a boca fique seca, segundo o perito.

Coceiras - Outro sintoma da mentira é a coceira. O cérebro recusa a história falada e provoca estímulos que podem levar a mão à boca, ouvidos e cabeça. "É como se o cérebro transmitisse 'eu não quero falar isso', então a mão vai à boca; 'eu não quero ouvir isso', a mão passa pela orelha; ou 'eu não concordo com isso', e a pessoa coça a cabeça", explicou Castilho.

Face - De acordo com Castilho, a estratégia de análise da face é bastante usada para identificar mentirosos. Segundo ele, fala e feição devem estar congruentes, quando isso não ocorre, existe algo errado. "Uma pessoa que conta um evento como 'muito legal' não pode estar com uma face de desprezo ou tristeza. Se estiver, significa que o que ela está falando talvez não seja verdade", explicou.



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Dilema: já podem lhe induzir a ter memória de algo que você não viveu

A matéria foi publicada na Folha de S. Paulo de 28/12/13:

Falsas memórias

Estudo mostra que mesmo as pessoas com memória excepcional estão sujeitas a 'lembrar' coisas que, na verdade, elas não viveram

RICARDO BONALUME NETO

A memória humana é algo maleável, capaz de ser facilmente adulterada, e isso tende a criar problemas jurídicos e terapêuticos graves.

OK, isso nunca foi muita novidade.

Mas se viu agora que mesmo uma memória excepcional não impede que ela possa ser falsificada deliberadamente. E resta a dúvida: o que é falso, o que é verdadeiro naquilo que uma pessoa lembra? Ou melhor, "lembra"?

"Sem confirmação independente, você não tem como ter certeza se uma memória é verdadeira ou um produto de algum outro processo", disse à Folha a pesquisadora Elizabeth Loftus, da Universidade da Califórnia em Irvine, EUA.

Um novo trabalho da sua equipe, publicado na revista "PNAS", da Academia de Ciências dos EUA, mostrou que é possível implantar memórias falsas mesmo em pessoas capazes de lembrar pequenos detalhes da sua vida de uma década atrás.

Estudos nos EUA há mais de uma década mostraram que é possível fazer as pessoas acreditarem que viveram algo de que não participaram.

Loftus e colegas agora avaliaram voluntários com a "supermemória".

Ela podia fazer, por exemplo, alguém "relembrar" que tinha sido perdido dos pais em um shopping center, quando isso nunca aconteceu. E ainda por cima acrescentar detalhes do "evento".

NINGUÉM É IMUNE

A descoberta de pessoas com memórias excepcionais sobre sua própria vida indicaria que elas estariam imunes a esse tipo de "lavagem cerebral". Mas não foi o caso, como testes demonstraram.

Esse tipo de gente é algo difícil de acreditar. Basta ver uma série de televisão americana, "Unforgettable" ("inesquecível"). Uma policial de Nova York, Carrie Wells, lembra cada detalhe de cada dia da sua vida e isso a ajuda a resolver os casos. Ficção?

Não até descobrirem alguns poucos indivíduos --apenas 20 foram estudados por Loftus e colegas-- com a chamada memória autobiográfica altamente superior.

Pergunte a um deles o que fizeram em certo dia --por exemplo 5 de setembro de 1987--, e a pessoa dirá o que fez, o que comeu de almoço, o que leu no jornal do dia...

Como uma pessoa assim é capaz de se lembrar de algo que aconteceu há uma década bem melhor do que uma pessoa comum se lembra de um simples mês atrás, seria de se esperar que fossem imunes aos testes criados pelos psicólogos para produzir falsas memórias.

Foram testados os 20 voluntários com memória superior e 38 pessoas com memória normal de idades e sexo semelhantes, utilizando experimentos com palavras, imagens e sentenças e a falsa memória de um vídeo não existente ligado aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos EUA.

Resultado: ter a supermemória não impediu que ela fosse distorcida.

CONSEQUÊNCIAS

Lawrence Patihis, da equipe de Loftus, lembra que as consequências das "falsas memórias" continuam sendo um problema. Na década de 1990, essas memórias eram usadas por psicoterapeutas para fins questionáveis -- "provando" casos de abuso sexual que nunca existiram.

Essas alegações diminuíram muito. "Isso em parte reflete o trabalho da professora Loftus na área", diz ele.

Recentemente, Loftus fez pessoas desistirem de tomar vodca achando que tinham tido uma péssima experiência preliminar com a bebida.

"Se fizer as pessoas pensarem que ficaram doentes com alimentos gordurosos fazerem-nas evitar essa comida, então isso poderia ter implicações para o seu comportamento alimentar e ser terapêutico", diz ela. "Também podemos implantar uma memória positiva sobre alimentação saudável."

Segundo a pesquisadora, essas são algumas maneiras pelas quais falsas memórias podem ajudar as pessoas.



sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Síria se desintegra em meio a sexo, mentiras e videotape


O jornalista americano Boake Carter disse, em 1938, que "em tempos de guerra, a primeira vítima é a verdade", frase que se tornou célebre e foi confirmada por todas as guerras seguintes.

Enquanto a Síria se esfacela como nação, fica quase impossível saber o que é verdade ou mentira nas notícias que saem de lá, conforme artigo publicado no Estadão de 13/10/13:

A jihad do sexo

As principais mentiras elaboradas pela campanha de desinformação do ditador sírio, Bashar Assad

Christoph Reuters, do Der Spiegel

Sexo vende. E a Al-Qeda está impaciente por chamar a atenção. Mas a combinação de ambos - sexo e jihad - é irresistível. Dezenas de jovens mulheres estão se oferecendo aos jihadistas, segundo uma das mais recentes histórias de horror da mídia procedentes da Síria. Um xeque da Arábia Saudita teria emitido uma fatwa que permite que adolescentes proporcionem alívio a combatentes sexualmente frustrados.

No fim de setembro, Rawan Qadah, de 16 anos, apareceu na TV síria e deu um relato detalhado de como teve de satisfazer sexualmente um insurgente extremista. Quando o ministro do Interior da Tunísia informou que as jovens do seu país estavam viajando para a Síria para a jihad do sexo - e mantinham relações sexuais com 20, 30 e até mesmo 100 rebeldes -, a história ganhou as manchetes dos jornais alemães. Na Alemanha, os sites do Bild, tabloide de grande circulação, e da revista Focus atraem os leitores com artigos sobre essa "prática bizarra".

Na esteira do massacre com gás tóxico, dia 21 de agosto, Damasco lançou uma importante ofensiva de relações públicas. Mas, além da propaganda oficial, há uma segunda campanha: uma iniciativa secreta e cuidadosamente elaborada para semear a dúvida e desviar a atenção dos crimes do governo. Como muitos desses artigos fictícios, as histórias da jihad do sexo tentam convencer os críticos no exterior da monstruosa depravação dos rebeldes.

Nenhum outro líder da região - nem Saddam Hussein, no Iraque, nem Muamar Kadafi, na Líbia - recorreu a uma propaganda tão maciça quanto Bashar Assad. Sua equipe de relações públicas divulga incessantemente notícias parcialmente ou completamente fabricadas, referentes a atos terroristas contra cristãos, aumento do poderio da Al-Qaeda e a iminente desestabilização da região. As histórias, veiculadas por TVs russas e iranianas e por emissoras cristãs, acabaram sendo transmitidas pela mídia ocidental.

Um exemplo é a lenda das orgias realizadas com terroristas. A menina de 16 anos apresentada na TV estatal pertence a uma destacada família da oposição, em Deraa. Como o regime não conseguiu capturar seu pai, ela foi sequestrada pelas forças de segurança quando voltava da escola, em novembro de 2012.

No mesmo programa, uma segunda mulher confessou que teve de se submeter a práticas sexuais em grupo com membros da fanática Frente Nusra. Entretanto, segundo a família da jovem, ela foi presa na Universidade de Damasco enquanto participava de um protesto contra Assad. Ambas estão desaparecidas. Suas famílias dizem que foram forçadas a fazer declarações na TV, que a história da jihad do sexo é mentira.

Uma suposta jihadista do sexo da Tunísia também desmentiu as notícias quando foi ouvida pela mídia árabe. "É tudo mentira", afirmou. Ela admitiu que esteve na Síria, mas como enfermeira. Diz que é casada e, desde então, fugiu para a Jordânia.

Duas organizações de defesa dos direitos humanos tentaram averiguar as informações sobre a jihad do sexo, mas não conseguiram nada de concreto. Parece que o ministro do Interior da Tunísia tinha outros motivos para acreditar no boato: centenas de islamistas deixaram seu país e viajaram para a Síria - e ele tenta conter essa migração desacreditando os combatentes. O xeque Mohamed al-Arifi, que estaria por trás da fatwa da jihad do sexo, desmente tudo. "Ninguém em seu juízo perfeito aprovaria isso."

É difícil checar todas as histórias de horror na guerra síria. Isso ocorre quando elas são difundidas de maneira indireta, como o caso da maioria dos relatos sobre a perseguição de cristãos. Isso inclui a foto de uma mulher amarrada a um pilar em Alepo, que apareceu no site LiveLeak, em setembro, como se fosse uma cristã que havia sido sequestrada por rebeldes da Al-Qaeda. Na realidade, embora a foto tenha sido tirada em Alepo, ela data do período em que as tropas de Assad ainda controlavam a cidade. Um vídeo da cena, postado no YouTube no dia 12 de junho de 2012, mostra milícias leais ao regime repreendendo energicamente a mulher.

O regime também forjou a lenda da destruição da aldeia cristã de Maaloula. No início de setembro, rebeldes pertencentes grupos radicais atacaram dois postos militares nos arredores da cidade controlada pelas milícias Shabiha, leais a Assad. Em seguida, os rebeldes se retiraram. O regime, porém, deu a seguinte versão, que chegou a ser publicada pela Associated Press: Terroristas estrangeiros saquearam, queimaram igrejas e ameaçaram decapitar cristãos que se recusaram a converter-se ao Islã.

A história não correspondia aos relatos das freiras do convento de Thekla, em Maaloula, e do patriarca grego ortodoxo de Antioquia. Eles disseram que nada foi danificado e ninguém foi ameaçado. Um repórter russo esclareceu involuntariamente a confusão. Enquanto acompanhava o Exército sírio, ele filmou o ataque a Maaloula, no qual o mosteiro foi bombardeado.

A atual interpretação dos eventos é uma política consciente. A maioria das publicações evita os riscos e o esforço de checar as histórias. Os fatos verdadeiros, como aquele em que os jihadistas queimaram uma igreja na cidade de Rakka, no sul da Síria, mesclam-se com as atrocidades inventadas para influenciar a opinião global.

Até as inconsistências mais gritantes são aceitas sem questionamentos. Quando a mídia oficial noticiou que o imã Mohamed al-Buti, que apoia Assad, foi morto por um suicida em sua mesquita, em 21 de março, todos os rebeldes negaram envolvimento com o ataque. É claro que isso não significa muita coisa, mas mesmo um olho pouco treinado perceberia que as fotos não mostravam sinais de explosão: lustres, ventiladores, tapetes estavam intactos.

Havia, porém, buracos de bala numa parede de mármore e poças de sangue mostravam onde os corpos foram encontrados. Muitas das vítimas estavam com sapatos, o que é extremamente inusitado numa mesquita. Também não havia testemunhas. Tudo alimenta a suspeita de que as vítimas tenham sido forçadas a entrar no edifício e foram assassinadas, para montar o cenário de um ataque que nunca ocorreu.

Depois do ataque com gás sarin, em agosto, a propaganda falhou. Enfrentando uma onda global de indignação, o regime fracassou em explicar a situação. Em primeiro lugar, Assad disse que nada ocorrera. Então, a TV estatal mostrou imagens de um esconderijo rebelde com um tambor com o letreiro descaradamente óbvio "Made in Saudia (sic)". A notícia dizia que se tratava de gás da Arábia Saudita para os "terroristas", que inadvertidamente teriam se envenenado e morrido.

A fonte da história era um site desconhecido, o Mint Press, de Minnesota, norte dos EUA. Um dos autores disse que não tinha nada a ver com o caso. O outro, um jovem jordaniano que usa vários pseudônimos, limitou-se a dizer que estudava no Irã. Entretanto, em um comentário online a um artigo do jornal britânico Daily Mail, ele deu os detalhes que faltavam.

"Algumas pessoas chegaram a Damasco provenientes da Rússia. Fiz amizade com uma delas - que me contou que tinha provas de que os rebeldes haviam usado armas químicas." Dias mais tarde, o chanceler russo citou o artigo como prova da inocência de Assad.

Uma explicação diferente foi apresentada à TV britânica Sky News pela assessora de Assad, Buthaina Shaaban. Ela disse que terroristas haviam sequestrado 300 crianças alauitas, que foram levadas para Damasco e assassinadas para que pudessem ser apresentadas como vítimas. Agora, surge uma nova linha de defesa. Em entrevista à Der Spiegel, Assad diz que o sarin é um gás "de cozinha", porque pode ser feito "em qualquer lugar".

Embora Assad acoberte seus crimes com uma intensa campanha da mídia, ele prefere uma reunião com a imprensa para contar diretamente sua versão. Assim, ele apresenta seu regime como o último baluarte contra o terror global, embora costume ordenar ataques que atribui aos seus adversários. (Tradução de Anna Capovilla)



LinkWithin

Related Posts with Thumbnails