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quinta-feira, 30 de março de 2017

Arcebispo primaz chama de traidores os mexicanos que ajudarem a construir o muro de Trump


A informação é da ACIDigital:

Se mexicanos construíssem muro de Trump seriam “traidores da pátria”, diz Arquidiocese

Cidade do México, 29 Mar. 17 / 08:00 am (ACI).- O semanário ‘Desde la Fe’, da Arquidiocese Primaz do México, advertiu que aqueles empresários mexicanos que participarem na construção do muro na fronteira com os Estados Unidos “deveriam ser considerados como traidores da pátria”.

Em seu editorial do dia 26 de março, intitulado “Traição à pátria”, o semanário católico assinalou que “qualquer empresa com intenções de investimento no muro do fanático Trump seria imoral, mas sobretudo, seus acionistas e proprietários deveriam ser considerados como traidores da pátria”.

Desde a campanha eleitoral na qual foi escolhido presidente dos Estados Unidos, Donald Trump ofereceu construir um “grande muro ao longo da fronteira sul” e assegurou que “o México pagará pelo muro”.

Este muro, segundo Trump, ajudaria a combater a imigração ilegal do México aos Estados Unidos.

Em 2016, as autoridades americanas prenderam mais de 415 mil imigrantes ilegais na fronteira com o México. Cerca de 46,4% dos presos eram mexicanos.

‘Desde la Fe’ assinalou que “com o passar dos meses, as políticas migratórias de Donald Trump enfrentam a realidade. Foi fácil a demagogia na campanha, mas as ações, na prática, se tornam difíceis ante a notável oposição da sociedade civil, igrejas e ativistas, que enfrentam um governo errático cujas promessas não são de fácil consolidação”.

“Trump designou um orçamento de dois bilhões de dólares para a construção do muro, o qual deve reunir características sólidas de infraestrutura e de suave estética para esconder, sob a pintura e as luzes, o ódio, a mutilação e a divisão”, assinalou o semanário.

Para a publicação católica, “é lamentável que, deste lado da fronteira, há mexicanos prontos a colaborar com um projeto fanático que aniquila a boa relação no concerto das duas nações que compartilham uma fronteira comum”.

“Não se trata de duas ou três, pois são mais de 500 empresas que buscam conseguir boas fatias econômicas. Para elas, o fim justifica os meios”, criticou e, além disso, lamentou que as autoridades mexicanas “não demonstraram firmeza contra estes empresários”.

Para a publicação da Arquidiocese Primaz do México, que assegura que a construção do muro é um “direito inalienável” dos Estados Unidos, “são estes mesmos míopes que não conseguem ver que o muro é uma grande ameaça que vulnera as relações e a paz social”.

“Recordemos que, em nome da ideologia, nações e continentes inteiros foram divididos, conduzindo milhares de pessoas na incerteza. A única voz predominante foi a das armas, das balas, da repressão e do assassinato legal para qualquer pessoa que se atrevesse a cruzar uma fronteira em busca de liberdade”.

‘Desde la Fe’ assegurou que as empresas mexicanas que se somarem ao projeto de Trump alimentarão “todas estas formas de discriminação que ao longo da história submeteram milhões de seres humanos. Praticamente, unir-se a um projeto que é uma grave afronta à dignidade, é atirar no próprio pé”.



sexta-feira, 3 de julho de 2015

Ana Paula Valadão lança o pijamão gospel


A onda de ídolos gospel faturando em cima da fama não é nova. Aqui mesmo já falamos da moda gospel para os pés de André Valadão e repercutimos matéria da Folha de S. Paulo sobre a "indústria" que os evangélicos movimentam no Brasil.

Daí não ser surpresa alguma ver Ana Paula Valadão pinçando um versículo bíblico, mais exatamente Deuteronômio 8:8, para justificar os 7 frutos estampados no seu involuntário pijamão: "Trigo, Cevada, Figos, Romãs, Uvas, Azeitonas e Tâmaras".

É sempre assim com certas personalidades evangélicas, e não só na vestimenta: basta citar um versículo bíblico qualquer e extrair dele o maior lucro possível.

Para esses ícones gospel, a referência bíblica tem o condão de "ungir" qualquer coisa vendável, e eles nem ficam vermelhos com tanto utilitarismo.

Parece, entretanto, que Ana Paula Valadão não esperava a reação sarcástica da plateia quando postou a foto acima no seu perfil do facebook.

Os internautas não perderam a chance de ironizar a musa gospel nos comentários: "pijama" foi o campeão das impressões da galera, mas sobrou também "toalha de mesa", "livro de colorir", "cortina", "pão integral gourmet ungido" e "pelo menos tem cevada pra gente tomar vendo o Fluzão".

Seria cômico, não fosse trágico...



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Ex-Globeleza diz que teve "encontro mágico" com Deus

No final da entrevista concedida a Bruno Astuto, colunista da revista Época, publicada em novembro de 2014, a ex-Globeleza Valéria Valenssa conseguiu expressar em poucas palavras muito do que caracteriza o atual movimento evangélico brasileiro. Eis a frase:
Não tinha uma religião e tive um encontro mágico com Deus. Passei a ler mais a Bíblia e hoje tenho uma Igreja Batista.
Esta frase está no contexto de uma resposta de Valéria à pergunta sobre se sentia falta da época em que era uma celebridade carnavalesca.

Não estamos aqui querendo analisar a experiência de conversão da celebridade em questão, até porque não a conhecemos pessoalmente e sinceramente esperamos que ela tenha tido um verdadeiro encontro com Deus.

Portanto, não há nenhuma crítica pessoal a ela, que pode, inclusive, passar a escolher melhor as palavras daqui por diante.

O que nos chama a atenção no discurso de Valéria Valenssa é a presença de dois lugares comuns no fenômeno evangélico considerado como um todo no país.

O primeiro lugar comum é o "encontro mágico" com Deus.

Parece que muitos evangélicos (não só no Brasil, diga-se de passagem) pautam sua vida pelo "pensamento mágico", do qual o "pensamento positivo" é uma subespécie e a teologia da prosperidade o seu tentáculo mais visível.

Grande parte dos evangélicos não está preocupada no que creem, mas "como" creem. É o discurso utilitarista da "fé na fé", conforme já tivemos oportunidade de abordar aqui.

O segundo lugar comum é o "hoje tenho uma Igreja Batista". Talvez tenha sido um ato falho de Valéria Valenssa, mas boa parte dos líderes evangélicos brasileiros realmente pensa assim: eles têm uma igreja para chamar de sua, e isso no sentido mais possessivo e patrimonialista da palavra.

Muitas denominações hoje são verdadeiros conglomerados familiares, pequenos ou grandes feudos em que o poder (supostamente vindo do alto) é mundanamente hereditário. Passa de pai a filho sem pudor algum.

É de se duvidar que Deus realmente precise dessa profusão de nomes e placas de igreja, que escancaram a incapacidade de seus caciques de se submeterem a uma doutrina firmemente estabelecida, daí não terem vergonha alguma de inventar as suas próprias "teologias", geralmente copiando as heresias que estão dando certo na denominação concorrente da rua de trás (as tais "igrejas customizadas", sobre as quais escrevemos em 2010).

Cá entre nós, no fundo é uma ofensa a Ele ver que seus supostos "servos" precisam "ter" uma igreja sem necessariamente "serem" cristãos.

É muito provável que Valéria Valenssa tenha apenas escolhido mal as palavras, que eventualmente não correspondam à sua vivência espiritual nem expressem com precisão o que ela pensa do cristianismo, mas o seu discurso enviesado nos permite enxergar um pouco mais além do óbvio ululante que motiva muitos movimentos evangélicos no Brasil.



domingo, 27 de julho de 2014

Cardeal ganês diz que papa critica o utilitarismo e não o capitalismo


Entrevista publicada no Zenit:

"O Papa critica o utilitarismo, não o capitalismo"

Cardeal Turkson fala sobre doações governamentais, a reforma da Cúria, a possível viagem do Papa à África e a opinião do Papa sobre a economia

Deborah Castellano Lubov

O cardeal ganês Peter Turkson disse que a visita do Papa a África não é totalmente absurda. Em uma longa entrevista concedida a Zenit, o presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz discute se o departamento será reformado e se o Papa vai visitar a África, e esclarece as críticas do Papa contra o "sistema". O cardeal também explica o papel do seu Conselho no incentivo a empreendimentos comerciais nos países em desenvolvimento e expressa sua opinião sobre o apoio financeiro dos governos na cooperação para o desenvolvimento.

Antes de ser entrevistado por ZENIT, o cardeal apresentou um seminário no Vaticano sobre Um bem comum global: rumo a uma economia mais inclusiva, organizado pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz, em colaboração com a Secretaria de Estado, realizado nos dias 11 e 12 de julho.

Zenit: Quando o Papa critica o "sistema" está se referindo ao capitalismo? Ou quer dizer um sistema desprovido de valores e ética cristãos?

Cardeal Turkson: O Papa realmente não quer criticar o capitalismo; prova disso é a sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Na mesma exortação ele deixa claro [que não está escrevendo] uma doutrina social como a Caritas in Veritate, Centesimus Annus, ou a Populorum Progressio. O Papa deixa claro que este não é seu objetivo.

Acabamos de ter um Sínodo sobre a Nova Evangelização, e depois de cada sínodo, o papa normalmente escreve uma exortação. Por exemplo, o sínodo da evangelização traz a alegria de Cristo às pessoas. O Papa explica que esta alegria não é encontrada em qualquer lugar e que existem problemas e obstáculos na experiência desta alegria. O Papa identifica alguns dos obstáculos à pregação do Evangelho e expõe a alegria como uma condição necessária para os crentes em sua experiência religiosa.

Então, não é e não pode ser um ataque ao capitalismo, porque essa palavra não aparece nenhuma vez neste documento. Embora os economistas digam que o mercado é o agente do capitalismo, o Papa, no entanto, fala estritamente do mercado. O Papa não fala de um mercado que deve acrescentar os valores cristãos em sua ideologia; mas refere-se ao sentido antropológico, ou seja, que o ser humano foi criado para ser o centro da Criação. Quando algo substitui ou nos leva para longe do centro, então, significa que nós nos tornamos escravos do outro. E se, neste caso, é o mercado ou as finanças, então algo está errado. Esta é a questão fundamental do Papa.

A declaração mais forte do Papa é que os mercados devem estar a serviço do ser humano e não vice-versa. Para o Papa, o ser humano não pode ser reduzido a um estado de servidão e não deve ser obrigado a sustentar servilmente as forças de mercado, o que pode levá-lo a centrar-se exclusivamente na produção de mais dinheiro.

Quando isso acontece, o Papa diz que algo não está no caminho certo. O sentido fundamental da antropologia na Criação é que a humanidade está no centro. É a glória de tudo o que Deus criou. Se esta glória for substituída por outra coisa, significa que esta está fadada ao outro. Muitos pobres, abandonados, excluídos são substituídos do centro de Deus pelas forças do mercado. O Papa defende aqueles que se tornam vítimas de um sistema econômico (qualquer quer que seja), que perdem o seu papel central.

Várias pessoas concordam com esta tese. Por exemplo, muitos de vocês recordam que no ano passado Obama citou a Evangelii Gaudium em seu discurso no Congresso. Em 2009, no discurso de posse, o presidente Obama fez comentários semelhantes a estes, ou seja, a necessidade de um mercado que serve o povo, e suas últimas palavras para o Congresso foram que se os Estados Unidos, com todos os seus recursos, fosse incapaz de ajudar os pobres a sair dessa situação, isso significaria que o Estado estaria falhando com muitas pessoas. Portanto, trata-se de um conceito que não é compartilhado apenas pelo Papa, apesar do Papa ter sido capaz de expressá-lo de tal forma que todos agora estão começando a pensar sobre isso.

Em nosso seminário sobre "bem comum global" e uma sociedade mais inclusiva, discutimos a forma de evitar uma visão redutiva da pessoa humana, ou seja, quando a pessoa humana é reduzida no caráter, no estado, e na natureza, e de outras formas, a qualquer coisa.



Zenit: Qual é o papel do Conselho na promoção de iniciativas empresariais nos países em desenvolvimento?

Cardeal Turkson: É um trabalho difícil. Este é o segundo seminário sobre economia que fizemos este ano. O primeiro aconteceu em meados de junho junto com o CRS (Catholic Relief Services) nos Estados Unidos e com a Mendoza Business School na Universidade de Notre Dame, e foi sobre o impacto do investimento.

O impacto do investimento é uma forma mais ampla dos serviços financeiros que foi introduzida para mais e mais pessoas. No contexto da Igreja esta prática ocorre quando o capital de congregações religiosas ou fundos de pensão é utilizado para algo social que produza um bom resultado para a humanidade concretamente e, ao mesmo tempo, um retorno econômico justo. Portanto, não é dinheiro perdido ou subsidiado. Pelo contrário, é o dinheiro utilizado como capital de forma equilibrada para alcançar ambos os benefícios econômicos e sociais, de modo a suprir as necessidades da nossa população, mas com a possibilidade de um lucro com o qual serão realizados novos investimentos.

Após o seminário, a nossa intenção é fornecer ideias para as comunidades eclesiais locais. Nossa sugestão é que com tudo que está acontecendo no mundo hoje, as formas mais tradicionais que as Igrejas locais se esforçam para financiar seus projetos fiquem cada vez mais no passado. Neste sentido, quero dizer que o pedido de ajuda financeira a governos ou a outras partes da Igreja está diminuindo rapidamente. Vários bispos realizam viagens e fazem apelos de missão nos Estados Unidos ou para algumas paróquias da Europa, e, após receberem, eles querem começar a trabalhar da melhor maneira. Muitas vezes, porém, com esse dinheiro não se torna capital de risco (venture capital). Isso significa que temos que mudar a forma de apoiar e manter viva as nossas Igrejas locais. Precisamos pensar em como reconsiderar o capital disponível para investir e gastar parte da renda gerada a partir dele para apoiar as igrejas locais, em direção a certa autossuficiência. Se este for o caso, o que as igrejas vão precisar é um acesso fácil e conveniente ao capital.

Queremos convidar os presidentes de empresas e administradores financeiros , e descobrir como podemos contribuir para tornar essa ideia uma realidade. Eu conversei com alguns dos delegados do Banco Mundial para delinear as ideias que podem ajudar, mesmo que através das igrejas locais, já estejamos explorando todas as possibilidades.

Zenit: O Papa Francisco planeja visitar a África?

Cardeal Turkson: Como qualquer Papa gostaria de visitar cada parte da Igreja. Mas até agora não há nenhum anúncio sobre a África. O Papa tem agendada uma visita à Coreia do Sul e Filipinas. Quem sabe o próximo país será a África. Só porque não foi mencionado, não significa que não vai acontecer.

Zenit: Agora, sobre a reforma da Cúria Romana. O seu Dicastério mudará?

Cardeal Turkson: A história mostra que o nosso Dicastério passou por alguns processos de mudança. Imediatamente após o Concílio Vaticano II foi instituído uma comissão simples, e também uma comissão de leigos, de modo que, o presidente dos leigos poderia cuidar do nosso escritório. Foi assim no pontificado de Paulo VI. Com João Paulo II a comissão evoluiu e tornou-se um conselho. E a partir de então, o conselho permaneceu por conta própria, com o seu próprio presidente e os requisitos típicos de um conselho.

Ao longo da história houve momentos em que o presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz cuidava dos migrantes. O Cardeal Etchegaray foi presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz e também do Cor Unum. O Cardeal Martino, meu antecessor, em um determinado momento era o presidente de ambos, dos migrantes e da justiça e paz. Atualmente, cada setor tem seu próprio presidente.

Tudo isso tem a ver com o documento que rege as operações dos escritórios, conselhos e congregações da Cúria Romana. No caso de João Paulo II, agora São João Paulo II, foi o Pastor Bonus. O Pastor Bonus é o documento que se tornou a constituição apostólica que tem dirigido a existência desses escritórios. Se o papa Francis quiser rever o documento e reconfigurar a Cúria ou encontrar uma nova maneira de realizar, ele tem a liberdade de fazê-lo.

Se tal Constituição Apostólica for alterada de alguma forma, então, a estrutura de certos escritórios ou conselhos da Cúria podem ser mudados. Depende de como o papa Francisco, ou qualquer futuro Papa queira configurar a forma com que governa a Igreja.

Zenit: Qual é o seu ponto de vista sobre as doações governamentais nos países em desenvolvimento? Funcionam ou deveriam sofrer alguma mudança?

Cardeal Turkson: A ajuda do governo pode ser visto de duas maneiras. Em primeiro lugar, a ajuda do governo poderia ser ajuda entre governos ou poderia ser uma ajuda de outro lugar para os governos. Para algumas organizações internacionais, os governos locais e nacionais são seus parceiros naturais.

Se estivermos falando sobre o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional, ou outros, todos têm a ver com os governos. Raramente vemos a interação com uma instituição que não seja governamental. Esta é uma de várias situações que acontecem, e quando este for o caso, podemos "fazer esse tipo de coisa com uma mão?" "Depende" parece ser a resposta. A ajuda não vem apenas do Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional, mas também do governo britânico, através do DFID, do Congresso dos Estados Unidos através da USAID, e o Canadá também tem seus próprios programas de ajuda. Portanto, há muitas agências e diferentes tipos de ajuda externa, que pode ajudar em várias partes do mundo. Sendo ganês, eu sei que em certo ponto o Ministro da Educação de Gana pediu a entidades estrangeiras para financiar o orçamento e o processo educativo no país, o que eu acho triste. 'Triste' se, como um governo, você precisa de alguém para ser capaz de entender como se forma e como se educar a sua população.

O sucesso destes programas de ajuda depende das condições que acompanham esses programas ou das subvenções provenientes destas agências. Às vezes, os doadores, ou aqueles que fazem a concessão, parecem mostrar suas garras. Por exemplo, se eu não estou satisfeito com as políticas locais ou nacionais, mostram as garras e querem tomar uma posição - como parte das condições de financiamento do programa.

Como agora, Uganda, por causa de sua posição sobre a legislação ‘anti-gay’. O apoio financeiro de países estrangeiros pode ser reduzido ou retirado, embora sejam fundos para programas de saúde. Então, quando esses programas não são acompanhados de neutralidade, mas estão vinculados às condições, perdem o objetivo de servir para o bem comum. Com relação à pergunta, "o apoio ajuda os governos locais? O apoio pode ser útil, no sentido de possibilitar a liberdade de agir de alguns governos locais. Pode ser útil se os programas assegurarem a transparência, regras anti corrupção e os fundos não forem dispersos para outras áreas. Pode ser útil se a contribuição econômica, conhecida como "ajuda", não for dissipada no movimento de uma conta bancária para o país beneficiário.

(Trad.:MEM)



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Como atropelar o evangelho com Jesus numa moto

Muitos "evangélicos" brasileiros têm a curiosa mania de dizer que Cristo tem que ser pregado de qualquer maneira, não importa o meio a que se recorra, nem a quem e o que perturbe, sem o mínimo de bom senso.

Apoiam-se, esses "evangélicos", no versículo de Filipenses 1:18, em que Paulo diz que "Mas que importa? contanto que, de toda maneira, ou por pretexto ou de verdade, Cristo seja anunciado, nisto me regozijo, sim, e me regozijarei".

Entretanto, conforme o Gustavo, co-editor deste blog, já teve oportunidade de analisar em janeiro de 2012 no artigo "Pregação pode ser feita de qualquer jeito?", esse versículo fala de uma circunstância muito específica, em que o apóstolo analisa as intenções das pessoas que se propõem a pregar o evangelho, se por verdade ou por mentira.

Quem pensa o contrário se escora na alegação utilitária de que "os fins justificam os meios", correndo o risco de violar outros versículos bíblicos que dizem, por exemplo, que "faça-se tudo decentemente e com ordem" (1ª Coríntios 14:40) e "segui a paz com todos" (Hebreus 12:14).

É muito estranho, portanto, que uma igreja evangélica de Campo Grande (MS) tenha decidido que a melhor maneira de "anunciar Jesus" seria promover um festival de motocicletas na rua, burlando a fiscalização municipal sem contar exatamente o que seria feito e incomodando os vizinhos com o barulho, a insegurança e, claro, a fumaça do inferno.

Afinal, o próprio título do evento - "1º Arrancadão do Itamaracá de Motos" - já soa totalmente despropositado para quem quer associar a ele o nome de Jesus, não é mesmo?

Centenas de pessoas se reuniram na principal avenida do bairro de Jardim Itamaracá, na capital sul-matogrossense, para ver os motociclistas participarem de uma competição informal de "zerinho", em que a possante começa a girar em torno de si mesma para delírio da plateia.

Claro que não faltaram também os aparecidos de plantão que gostam de empinar suas máquinas e os meliantes que vão nesses lugares só para brigar com o primeiro que olhar torto na sua direção.

A perturbação da paz pública durou 5 horas e não foi reprimida pela polícia, embora moradores do local a tenham acionado infrutiferamente.

Tiveram que sentir a fungada do capeta no cangote sem apelação. Nem dó. Houve choro e ranger de dentes...

Não há registro de que a cruz de Cristo tenha sido pregada no meio daquele barulho todo, mas os vizinhos certamente têm arrepios quando ouvem a palavra "evangélico".

O "arrancadão gospel" de Mato Grosso do Sul fez o evangelho puro e simples virar fumaça.

Bons tempos aqueles em que a pregação pura e simples do evangelho de Jesus Cristo era o único e legítimo chamariz para atrair pessoas de todas as idades.





Já que o "pastor" da tal igreja queria encontrar uma maneira de se comunicar com os motociclistas da sua região, ele podia fazer algo mais calmo, como uma reflexão sobre a letra da canção zen "Jesus numa moto", de Sá, Zé Rodrix e Guarabira (vídeo e letra abaixo)

Seria muito mais tranquilo e - talvez - proveitoso. Fica a dica!




JESUS NUMA MOTO

Preso nessa cela
De ossos, carne e sangue
Dando ordens a quem não sabe
Obedecendo a quem tem.

Só espero a hora
Nem que o mundo estanque
Prá me aproveitar do conforto
De não ser mais ninguém.

Eu vou virar a própria mesa
Quero uivar numa nova alcatéia
Vou meter um Marlon Brando" nas idéias
E sair por aí.

Prá ser Jesus numa moto
Che Guevara dos acostamentos
Bob Dylan numa antiga foto
Cassius Clay antes dos tratamentos

John Lennon de outras estradas
Easy Rider, dúvida e eclipse
São Tomé das letras apagadas
E arcanjo Gabriel sem apocalipse.

Nada no passado
Tudo no futuro
Espalhando o que já está morto
Pro que é vivo crescer.

Sob a luz da lua
Mesmo com sol claro
Não importa o preço que eu pague
O meu negócio é viver.

Eu vou virar a própria mesa
Quero uivar numa nova alcatéia (nova alcatéia)
Vou meter um Marlon Brando" nas idéias
E sair por aí.

Prá ser Jesus numa moto
Che Guevara dos acostamentos
Bob Dylan numa antiga foto
Cassius Clay antes dos tratamentos.

John Lennon de outras estradas
Easy Rider, dúvida e eclipse
São Tomé das letras apagadas
E arcanjo Gabriel sem apocalipse.

Sob a luz da lua...
Mesmo com sol claro...
Preso nesta cela...





domingo, 29 de dezembro de 2013

Natal em família de juristas


Toda pessoa que tem uma família de juristas (aí compreendidos advogados, promotores, juízes, professores de Direito, etc.) conhece bem a dificuldade que é suportar uma festa familiar com aquele bando de juridiquês sendo falado de mesa em mesa entre uma e outra coxa de peru (ou coxinha) sendo atacada a dentadas.

O artigo abaixo, do Procurador de Justiça gaúcho Lenio Luiz Streck, conseguiu captar a agrura que é, mesmo para um jurista de bom coração, participar dessas reuniões familiares estendidas e entediantes.

O relato é longo e divertidíssimo, embora os assim chamados "profissionais do Direito" sejam os destinatários naturais do texto (e os leitores que o entenderão melhor), e foi publicado no ConJur:

16 facadas e morreu envenenada? O Natal e a prova da OAB

Por Lenio Luiz Streck


Natal é época em que se reúnem parentes chatos e não chatos, advogados e não advogados, juízes e não juízes, promotores e não promotores, estudantes de qualquer coisa e o sobrinho que está fazendo a “escola” (que deve ser a dos juízes, do MP, da OAB ou algo assim, mas ele diz, com a boca cheia de panetone: “a escola”).

É tempo de discussões. O parente juiz conta como mandou o advogado se calar na audiência do dia anterior. Já o juiz dos juizados especiais relata como o juiz leigo coloca a malta em um corredor polonês. E acha engraçado. Todos riem. Menos um tio, que, lá do fundo, pragueja, dizendo que teve que ir no “foro” só para ouvir a Companhia Telefônica, que lhe passou a perna, dizer que não fazia acordo. Antes disso, teve que ouvir o meirinho gritar: “Quem quer fazer acordo, fique à minha direita; quem não quer, à minha esquerda”. Aliás, desconfio de que a cultura da conciliação termina sendo, para as concessionárias de serviços públicos e as grandes corporações, a obliteração da prévia efetivação de direitos coletivos. Paradoxalmente, os maiores violadores são, também, os maiores conciliadores... Bingo! Eis o paradoxo!

O parente promotor de justiça conta que, quando não vai à audiência, o juiz “faz tudo por ele”. Há casos em que “nem pedi a condenação e o juiz assim mesmo tascou uma pena dura no meliante”. Quieto em meu canto, pergunto-me: Será que um juiz que age assim faz tudo pela Constituição? Ou melhor dizendo, o que ele faz da Constituição? A velha tia diz: “ meu filho, esse juiz é dos bons, não? Tem de dar duro nessa gente”. E o velho tio, já na terceira dose, pergunta: “mas você concorda com isso? Quem é o promotor? Você ou o juiz?”. E o sobrinho promotor responde: “meu tio, tem uma coisa que você não conhece, chamada verdade real... Com ela, tudo se resolve”. E assim a conversa vai fluindo, na véspera da comemoração da chegada do Papai Noel. Deixei de acreditar em Papai Noel aos sete anos. Mas tem muito adulto por aí ainda acreditando na “verdade real”. Mas se a fantástica história de Papai Noel culmina em inocentes presentes, a única verdade da “verdade real” está nos abusos que causa ao Estado Democrático de Direito.

Outro advogado da família fala das agruras do processo eletrônico. Não se sabe se o processo foi enviado “via sistema”. Em tempos de Natal, imagino a virtualização como o rebento que nasceu para ser uma espécie de Messias da prática forense —o salvador de um Judiciário que não dá conta da demanda — mas que nunca chega. Pelo contrário, o “sistema” não avisa. Tem de pegar o carro e ir ao tribunal para verificar. Assim, o sistema é virtual, mas as dificuldades continuam bem reais... Realíssimas. O CNJ legisla. Para além do CPC. Para além da CLT. Para além da Constituição. Pelo desespero, parece ser o único sujeito sensato da festa.

E a conversa muda de rumo. Acabara de chegar a sobrinha gordinha, que chumbou em concurso para defensoria pública em Estado vizinho. Ficou por uma questão, que indagava se se transformar, por intermédio de operação plástica, em lagarto, com dinheiro do SUS, era um direito fundamental... Coitada. Respondeu que não. Perdeu! Cansada, traz uma sacola cheia de livros. Chega a estar com um ombro mais baixo que o outro. Mesmo na noite de Natal, diz que continuará a estudar, porque está inscrita para o concurso da AGU, MPU, TCU, CGU... Ela até já fez o cursinho de um professor (fácil de achar no Youtube) que ensina como se deve estudar direito para concursos. Começa confessando que chumbou em 20 concursos. E só depois passou. Hum, hum. Na verdade, com tantos concursos chumbados, deve ter passado por usucapião... Mas, enfim, lá vem a gordinha. Coloca em uma mesinha o seu material de batalha: manuais, manuaizinhos, resumos, resumões, resumos plastificados, direitos facilitados, simplificados e a grande inovação: direito em rimas... Ela acabou de comprar. Sim, direito ri-ma-dôo! Direito penal é lê-e-gal. Penso, rimando: afinal, qual é o busílis de terrae brasilis? Tem chance de dar certo? Muita flambagem. Como o personagem estudante de chinês do livro Reprodução, de Bernardo Carvalho, ela, a sobrinha, fala sobre o direito por intermédio de drops, siglas, palavras-chaves. Não há espaço para a reflexão. Só flexão. Ajoelhar-se diante dos pretensos doutrina-dores, que não fazem mais do repetir lugares comuns e chavões, tudo com a profundidade dos calcares de uma formiga anã. Ela parece um ser de outro mundo. Incrível: os concurseiros criaram uma novilíngua. Como em 1984, do G. Orwell. Ela lê o mundo por intermédio desse material. Some-se a isso os blogs, como o do concurseiro solitário (sic), com dicas “valiosas”, como a de não ler grandes doutrinas e se dedicar às apostilas, além de material do “ponto de concursos” (que deve ser sei-lá-o-que-de-concursos). Tem também os blogs com música de concurseiro, para decorar o Direito. E, para não esquecer, repito: tem também agora o direito rimado. Penso comigo: o mundo vai acabar. Sem chance. Meu bunker está pronto. Só falta cavar o fosso e colocar os jacarés. E vou estocar comida.

Um pouco atrasado, chega outro convidado, um magistrado de tribunal de segunda instância. Diz-se um pragmático. Não gosta de ler. Diz que “Direito é bom senso” (o dele, é claro). Só faltou dizer o clássico chavão do solipsista: o de que “sentença vem de sentire”. E eu, o que sinto? Sinto muito, Constituição... Para ele, qualquer coisa que ultrapasse cinco linhas é filigrana e firula. É idealizador do projeto sentença 60 linhas ou algo desse quilate (incluindo a assinatura, é claro). Seu sonho é dar sentenças via Twitter, intimando da mesma forma ou pelo Facebook. Idolatra Richard Posner, o rei dos pragmatistas. Posner é um Deus, ele diz, mascando três nozes ao mesmo tempo e golejando um espumante (já) com pouca perlaje. Claro, não conhece o Posner envergonhado do The crisis of capitalist democracy — no qual reconheceu (depois do fiasco de 2008) suas falhas em imaginar um mercado autorregulável — e nem o abandono da maximização da riqueza como fundamento eficiente do Direito.

Junto com ele veio outro, da área cível. Julga causas de dano moral. Conta que julga as causas de acordo com a cara do “freguês”. Diz que apurou com o tempo o seu “sentirômetro” (sentença não vem de “sentire”?). O pragmático lhe dá um tapa nas costas, do tipo “esse é o cara”. “Ele bota o olho e já sabe...”. Fico pensando, cá com minhas pestanas: foi para isso que fizemos a Constituição? E, para homenagear (de novo) o direito rimado: qual será o busílis de terrae brasilis?

Também foi convidado um professor que dá aula em mestrado e doutorado. Publica dezenas de coletâneas de livros por ano. Tudo eletrônico, porque é a pós-modernidade. Custa R$ 10 a página. Os alunos é que pagam. Ele é o “cara das publicações”. Ninguém lê esses “livros”. Nem se sabe se o professor leu o que os alunos escreveram e ele colocou seu nome junto. Mas ele tem muitas publicações. Dezenas. Portanto, ele fala “de cadeira”. Desde logo, alia-se na discussão entabulada pelo magistrado pragmatista sobre a efetividade da justiça. “A culpa da morosidade da Justiça é da falta de gestão. Falta pós-graduação em gestão”. Para ele, o juiz não é mais do que o gerente de uma sucursal judiciária. E já se juntam em um canto, para propor uma especialização em gestão. Eles adoram isso. Penso com meus botões: Esse papo está me dando é indigestão... Onde está meu vidro de Olina, aquele composto de ervas bem gaúcho? Enquanto isso, olho para o tio, aquele: já está roncando baixinho num canto da sala.

Há também o mais novo namorado da mais velha filha do dono da casa. O tipo é metido a filósofo. Na verdade, apresenta-se como sendo “o filósofo da família”. De fato, cursou dois ou três semestres da faculdade de Filosofia, mas, vá lá. Começa a falar em um bolinho de gente. Ele fala cuspindo restos de panetone. Em pouco tempo, fica-se sabendo que a filosofia de Heidegger é “nazista”, que Gadamer “não escreveu nada de útil sobre o Direito” e que Habermas “não é um filósofo”. Também, que, “na Alemanha, ninguém lê essa gente”. O sujeito tem uma unha enorme: “Não há como levar Dworkin a sério”, diz, também, misturando gravidade e um ar blasé em doses equilibradas. Hum, hum. Sei. Quem presta, então? Ah, ninguém que eu conheça, claro! Sua dica? “Que os juristas estudem... Direito.” E que deixemos a filosofia para quem manja do riscado, como... ele. Chega o garçom e salva a festa. Eu estava pronto para pegar-lhe pelo pescoço. Mais uma dose? Claro, claro...

Outro professor na festa. Escreveu até hoje um fonograma e um texto em um site jurídico. Não conhece os conceitos da filosofia no Direito e se mete “de pato a ganso”. Não consegue escrever duas frases sem citar um autor... americano. Para ele, o Brasil é ruim. Aqui nada se produz. Sofre da síndrome de caramuru. E do complexo de vira-lata. Junto com ele veio para a festa outro jurista... Também não gosta do Brasil. Quando alguém escreve algo, diz: “não é por aí...”. Mesmo que muitos nativos já tenham escrito sobre determinado assunto, ele faz um texto “grau zero”. De todo modo, eles não se enturmam na festa. Ficam sozinhos, se auto louvando. Traço comum dos dois e tantos desse jaez: sempre estudando e viajando às custas da Viúva.

Ah, também veio um estagiário, que trabalha em uma Câmara de Tribunal. Diz, de boca cheia: “na nossa Câmara, decidimos desse modo... e blá, blá, blá”. “Faço dez acórdãos por semana”, acrescenta, orgulhoso. “Somos uma Câmara dura em Direito Penal... Não adianta o advogado vir com muita churumela. Advogado que argumenta muito, enchendo linguiça com princípios, teorias etc., não tem argumento. Ou ele cita os clássicos ou nem lemos...” (os clássicos que ele cita vocês já imaginam). E o tio, que acabara de acordar, pergunta: “nossa Câmara? Nós quem cara pálida?” Ouço aquilo e ligo para o meu fornecedor de jacarés: vou dobrar o número de Melanosuchus niger do fosso do meu bunker. Melhor me prevenir. Com um bom estoque de comida. E discos do Frank Sinatra.

Quem está faltando na festa? O professor de universidade pública, presidente de banca de concurso no qual os membros externos se negaram a assinar a ata. Já na chegada, um sobrinho, estudante de Direito, dá-lhe de presente um livro de Raymundo Faoro, Os Donos do Poder. Começa um bate-boca. Os contendores são retirados para a biblioteca da casa,de mala e cuia. Ô noite de Natal agitada.

Logo depois chegou o primo em segundo grau do tio do dono da casa. Ele é professor de Direito (mais um; afinal, quem não é?). Ele é daquelas figuras que aparecem nos programas de TV com gel no cabelo e sapatos grandes, bicudos, com iPad na mão, ensinando “coisas geniais” como agressão atual é a que está a-com-te-cen-do. Também dá aula sobre a complexa matéria chamada “direito de vizinhança”. Mas também já falou em Direito Marítimo. Esse não era ele? Sei lá. Todos são tão parecidos... Sabe(m) tudo, ele(s). Professor Totalflex. É amigão do pragmatista. Odeia que se fale em teoria, porque, para ele, na prática a teoria é outra. Gênio(s) da raça. É autor e coautor de literatura fofinha, flambada, dúctil, simplificatio-facilitatio. Nem tem tempo para começar a falar, porque o peru já está sendo servido. Alvíssaras. Finalmente o peru.

Ainda no meio da ceia chegou um professor que fez parte da banca que elaborou a última prova da OAB. Logo foi indagado por um recém bacharel acerca da questão 11, que perquiria sobre o utilitarismo. Eu, escutando, fico meditando, entre um gole e outro de John[1] Daniels... Quem teria sido o gênio que fez essa pergunta? Antifundacionalismo? Que coisa mais “brega”, filosoficamente falando. O utilitarismo era antifundacionalista? Sim? E daí? Para a prova da OAB? Hum, hum. E a pergunta sobre o estupro (59)? Bráulio (que nome mais cri-a-ti-vo, não? Vejam no Google os “bons tempos do Bráulio” — ver aqui) encontra moça em show de rock. Pratica sexo com ela, de forma consentida. Depois se descobre que ela tinha 13 anos... Ai, ai, ai. Céus. Onde estão meus jacarés? Pego meu celular. “Alô? Mande-me mais seis, agora da espécie Crocodylus niloticus e mais seis da 'marca' Crocodylus acutus.” Melhor ainda foi a questão 63: Paula desfere 16 facadas no peito de Maria... Esta morre duas horas depois. E se descobre que foi por envenenamento, porque tinha tendências suicidas. Parem as máquinas! Rufem os tambores! Pausa para que eu me role de rir. Farfalhar. Tomo dois goles de Olina. Agora, ligo para o meu fornecedor de óleo quente. Sim, além dos jacarés e crocodilos, colocarei tinas de óleo fervente para me proteger contra a barbárie. Paro por aqui. É Natal, batem os sinos... E o réu não se ajuda.

Os presentes que Papai Noel trouxe

Ho! Ho! Ho! Chega Papai Noel, finalmente, com um saco de livros (reais e imaginários) para distribuir. Para o sobrinho juiz, dois livros: o Círculo de Giz Caucasiano, de Brecht e o recém lançado, em alemão: Warum sollte Ich nicht autoritärsein (a versão em espanhol parece que é Las razones por las que no debo ser un déspota) do professor Fritz Selbstsüchtiger, da Universidade de Hinterden Hügeln). Para o promotor, dois livros: Como cumprir seu dever, de L. L. Sohannson e um sobre a verdade: As mentiras da verdade, de Llosa. Para o sobrinho que está fazendo a “Escola”, Machado de Assis (os contos A Teoria do Medalhão, no qual o pai Janjão ensina ao filho como se tornar um medalhão, exatamente porque o filho sofre de inópia mental e o conto Ideias de Canário).

Para o professor (o do concurso e da ata), dois livros: a Nau dos Insensatos e o recém lançado Why should not behave this way more, do professor Puller Ears, da University of Redneck, campus Behindthe Hills (lembremos que alguém já lhe dera o do Faoro). Para o professor de pós, os livros Como se Faz uma Tese (do Eco) e Publish or Perish, do professor holandês radicado nos EUA, Heeft Weinig, da University of Larceny, publicado pela PublisherBehindBackyard.

Para o advogado irritado com o processo eletrônico, vai minha solidariedade. Do Papai Noel ele recebeu o livro O Otimista, de Voltaire. Já para a sobrinha gordinha, além de Reprodução (B. Carvalho), o lançamento em alemão Warum sollte „Recht für Dummies“ nicht lesen (em português, a versão é Porque não devo ler “direito para ingênuos ou bobos”, publicada pela Editora Fondo di Casa). Para o magistrado de segundo grau (o do “bom senso” e pragmatista), o livro do Dworkin (A Justiça de Toga) em que ele assim qualifica Posner: "Um juiz preguiçoso, que escreve um livro antes do café-da-manhã, decide vários casos antes do meio-dia, passa a tarde dando aulas na Faculdade de Direito de Chicago e faz cirurgia do cérebro depois do jantar". Para o colega dele, aquele do “dano moral no olhômetro”, Santa Claus dá o livro O Idiota, de Dostoyevsky, com comentários do professor Nicht Nutzlos, da Faculdade de Scheizwald. E também um exemplar do livro O que é Isto – Decido Conforme Minha Consciência.

Para o sobrinho neo-proto-filósofo, Papai Noel dá o livro El Curioso Impertinente, de Cervantes. E outro, recém lançado, chamado Wie Philosophen kann langweilig sein, da Faculdade de Rammenschnitzel (a versão em espanhol é Cómo filósofos puedem ser aburridos, da Editora Fondo de la Casa, subsidiária da Editora Fondo di Casa). Também leva o livro Como Falar dos Livros que Não Lemos, de Pierre Bayard. Para a dupla que ficou em um canto (os que sofrem da síndrome de caramuru), Pai Natal dá dois livros: What is this - the academic silipsismo do professor Kleinnefuss Großen Nagel, radicado nos EUA (a versão em português é O que é isto – o solipsismo acadêmico, da Editora Fondo Di Casa (é italiana, recém instalada em Pindorama); e um em alemão: Wenn Sie aus dem Ausland kommen, ist es am besten (a versão espanhola parece que é assim: Se vem do estrangeiro, é melhor, da editora Burgo-Iuspostulandum, de Burgos, conveniada com a Editora Fondo de la Casa).

Para o professor dos cursinhos-que-dão-aulas-pela-TV-e-que-usam-sapatos-bicudos, o presente é a coleção completa das Seleções do Reader’s Digest, para aprimorar as piadinhas nas aulas e contar os “flagrantes da vida real”, uma seção especial dessa sofisticada revista. De lambuja, a coleção do Almanaque Biotonico Fontoura (se não sabe o que é, veja no Google — be a bá, be e bé, be e bi...o-to-ni-co Fontoura)! Eu adorava tomar o tal biotônico; mas minha tia Ana,[2] que pesava 120 kg, não deixava; ela dizia: nein, nein, mein Kleine, es sieht aus wie Pferdepisse; du must Emulsão Scott trinken — não, não, meu pequeno, isso parece urina de cavalo; tu deves tomar Emulsão Scott — que, registre-se, não tinha um gosto bom; o Biotônico é que era gostoso).

Aos demais que não estudaram o ano todo, que não sabem o que é (in)diferença ontológica e acreditam em ponderação (e a pregam) etc., por não terem se comportado, levarão um vale-presente do meu novo livro Os Alquimistas da Hermenêutica, no prelo (inspirado no mago Paul Rabbit). Não se comporte e Papai Noel, no próximo Natal, dar-lhe-á, além desta mesóclise, um kit (o livro mais uma vara de marmelo). Ah: o professor da prova da OAB recebe dois livros: Porque é feio fazer perguntas utilizando exemplos bizarros: uma releitura neoconstitucional(ista) e Porque Não Devo Fazer Perguntas Com Base em Resumos Plastificados, ambos escritos pelo catedrático Exnunco Abovo, da Editora Fondo Di Casa (que publica qualquer coisa a dez “real” a “foia”).

Pronto. Parece que Papai Noel fez uma boa distribuições de livros. Boas leituras. E Boas Festas para os meus leitores. Esta coluna já passou do 100. A propósito: Que livro você gostaria de ganhar? Comente aqui na ConJur e/ou no Facebook (Lenio Streck oficial). Está aberta a votação. Feliz Natal e Venturosíssimo Ano Novo a todos os leitores.




[1] Como no filme Perfume de Mulher, John é em face de minha amizade íntima com a família Jack Daniels, dos EUA profundos.

[2] Registro natalino: minha tia Ana é a mesma que tentava matar meu porquinho Bolão, cuja história já contei dia desses em uma coluna falando dos direitos dos animais. Ela era sogra de minha tia-madrinha Norma. Ou seja, a “norma” é algo que trago comigo de infância. Por isso é que “norma” só tem vontade quando diz “farei bolinhos de chuva para você, meu afilhado”. Lembram quando eu falo que “norma só tem vontade quando...”? E os juristas ainda falam em vontade da norma e do legislador...



terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Pregação pode ser feita de qualquer jeito?

Recentemente, a emissora Globo organizou um festival de música evangélica, intitulada de “Promessas”. Obviamente a emissora - que amarga baixos índices de audiência - está procurando se aproveitar do modismo gospel que está em alta, para retomar sua antiga glória.

No entanto nem todos acham a iniciativa, por mais interesseira que possa parecer, uma iniciativa reprovável. Este festival foi comemorado por muitos evangélicos, onde alguns inclusive comentaram que Deus teria tocado o coração dos dirigentes da Globo.

Muita discussão se seguiu ao evento, onde se travou uma verdadeira guerra sobre a validade ou não da iniciativa global. E nesta guerra, uma das armas usadas a favor do utilitarismo gospel foi o versículo de Filipenses 1:18, que diz:

(Fp 1:18) Mas que importa? contanto que, de toda maneira, ou por pretexto ou de verdade, Cristo seja anunciado, nisto me regozijo, sim, e me regozijarei;

O que Paulo estava querendo dizer com estas palavras? Os fins então justificam os meios?

Algumas pessoas negando que o versículo 18 dê base a qualquer tipo de utilitarismo, disseram que estas pessoas que pregavam por inveja eram judeus que acusavam Paulo perante as autoridades romanas.

Como estes judeus tinham que explicar às autoridades o que Paulo estava ensinando, então eles faziam uma “pregação” a elas. Isto no entanto não parece negar o uso que os defensores do festival “Promessas” fizeram do versículo, mas sim, estabelecê-lo.

Pois se pessoas não cristãs falando sobre o que os cristãos ensinam é considerado pregação por Paulo, então por que não poderíamos considerar o mesmo para o festival “Promessas”?

Mas dificilmente este é o caso. Para começar, os judeus não se detinham tanto tempo explicando aquilo que Paulo ensinava. Por exemplo em Atos 24 vemos eles o acusando perante Félix:

(At 24:1) Cinco dias depois o sumo sacerdote Ananias desceu com alguns anciãos e um certo Tertulo, orador, os quais fizeram, perante o governador, queixa contra Paulo.
(At 24:2) Sendo este chamado, Tertulo começou a acusá-lo, dizendo: Visto que por ti gozamos de muita paz e por tua providência são continuamente feitas reformas nesta nação,
(At 24:3) em tudo e em todo lugar reconhecemo-lo com toda a gratidão, ó excelentíssimo Félix.
(At 24:4) Mas, para que não te detenha muito rogo-te que, conforme a tua equidade, nos ouças por um momento.
(At 24:5) Temos achado que este homem é uma peste, e promotor de sedições entre todos os judeus, por todo o mundo, e chefe da seita dos nazarenos;
(At 24:6) o qual tentou profanar o templo; e nós o prendemos, [e conforme a nossa lei o quisemos julgar.
(At 24:7) Mas sobrevindo o comandante Lísias no-lo tirou dentre as mãos com grande violência, mandando aos acusadores que viessem a ti.]
(At 24:8) e tu mesmo, examinando-o, poderás certificar-te de tudo aquilo de que nós o acusamos.
(At 24:9) Os judeus também concordam na acusação, afirmando que estas coisas eram assim.

Vemos que acima os judeus o acusavam de profanar o templo e ser chefe da seita dos nazarenos. O nome de Jesus sequer foi mencionado acima. Embora em outras ocasiões os judeus pudessem até mencionar e explicar a crença em Jesus, por este exemplo podemos ver que isto não era necessário.

Quem são estas pessoas então? Uma análise do contexto nos dará algumas evidências sobre eles.

Paulo começa sua carta elogiando os filipenses por seu empenho em proclamar o evangelho (Fp 1:5). E antes que alguém possa dizer que as prisões de Paulo o impedem de pregar, ele demonstra como mesmo sua prisão tem contribuído para que ele pregue o evangelho para toda a guarda pretoriana e demais romanos (Fp 1:13).

Será que o fato de Paulo ser preso foi motivo para que os cristãos daquela época deixassem de pregar, por algum medo de ser preso? Nada disto: Paulo fala que muitos irmãos, animados com sua prisão, também saíram a pregar ousadamente (Fp 1:14).

É interessante aqui como Paulo fala de “muitos” irmãos, pois no próximo versículo, quando Paulo passa a comentar daqueles que pregam Cristo por inveja e contenta, ele fala que estes são “alguns”.

Há talvez uma tendência de se entender isto como significando “alguns homens”, mas o contexto está tratando de irmãos que estão pregando o evangelho, então o mais natural seria entender que, assim como alguns irmãos pregam de boa vontade o evangelho, outros pregam por inveja e contenda. Paulo então está falando de irmãos!

Há mais um detalhe que reforça este entendimento. Paulo está dizendo que eles pregam a Cristo. Neste versículo, Paulo atribui o mesmo verbo a ambos os grupos. Todos eles estão fazendo a mesma coisa, mas por motivos diferentes: estão anunciando Cristo.

E no versículo 18 que estamos analisando, Paulo diz que o fato de Cristo ser anunciado o deixa feliz. Uma pregação errada (é a tendência de uma acusação caluniosa) por parte de não-cristãos não deveria causar esta alegria no apóstolo.

Pode-se então perguntar: que irmãos são estes que pregam por inveja e contenda? No versículo 17 Paulo diz que o objetivo destes irmãos é suscitar aflição às prisões dele, indicando que eles possuem inveja e contenda com relação a ele. De fato, em outros lugares, Paulo fala de alguns que questionam seu apostolado:

(1Co 9:1) Não sou eu livre? Não sou apóstolo? Não vi eu a Jesus nosso Senhor? Não sois vós obra minha no Senhor?
(1Co 9:2) Se eu não sou apóstolo para os outros, ao menos para vós o sou; porque vós sois o selo do meu apostolado no Senhor.
(1Co 9:3) Esta é a minha defesa para com os que me acusam.

É bem provável então que aqueles que questionaram o apostolado de Paulo sejam os mesmos que ele se refere ao dizer que “há alguns que pregam por inveja”.

E é interessante observar que uma das contendas que Paulo tenta resolver, e que envolve seu nome, é a contenda que dividia a mesma igreja de Corinto em facções (1Co 1:12). É a mesma igreja onde vemos os questionamentos sobre seu apostolado.

Sendo assim, fica mais fácil entender por que aqueles irmãos pregavam por “inveja”. Pois eles provavelmente tinham inveja de Paulo por seu trabalho bem-sucedido de pregação entre os gentios.

Assim, aproveitando-se do fato de Paulo estar preso, eles provavelmente se empenharam mais em pregar para fazer mais adeptos e conseguir maior influência entre os irmãos. A glória dos homens era o lucro alvejado por aqueles irmãos.

Possivelmente por isto que Paulo no mesmo capítulo se dedica a mostrar aos Filipenses qual é o seu lucro. E talvez por eles pensarem assim é que Paulo inicia sua epístola dizendo aos filipenses que até mesmo em prisão ele tem pregado o evangelho.

Paulo diz então neste versículo que não importa, pois se Cristo for pregado “de toda maneira”, ele ficará contente. O que significa este “de toda maneira”? Estaria ele se referindo à forma como a pregação é feita, se por música, discurso ou teatro talvez?

A próxima cláusula explica a expressão de toda maneira: “ou por pretexto ou de verdade”. Paulo então está falando sobre intenções, não sobre modos de pregação.

Então, o caso do festival “Promessas” poderia ser uma aplicação do versículo de Filipenses 1:18? De forma alguma.

Em primeiro lugar, o versículo fala de cristãos anunciando Cristo. Eles possuem intenções erradas, mas são cristãos, não um grupo secular que não possui a menor intenção de se tornar cristão.

Em segundo lugar, Paulo está se regozijando pelo anúncio de Cristo, pela pregação do evangelho, não por que pessoas estão cantando hinos cristãos ou estão ensinando estes hinos para as pessoas de seu tempo.

Pode-se pensar que, por Paulo admitir que Cristo poderia ser anunciado por qualquer intenção, poderíamos também admitir que o evangelho seja pregado por ganância, desde que seja levado a todo o mundo. Mas a ganância de longe é o defeito humano que mais prejudicou o cristianismo. Já no capítulo de 8 de Atos temos um exemplo que seria lembrado por toda história do cristianismo:

(At 8:18) Quando Simão viu que pela imposição das mãos dos apóstolos se dava o Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro,
(At 8:19) dizendo: Dai-me também a mim esse poder, para que aquele sobre quem eu impuser as mãos, receba o Espírito Santo.
(At 8:20) Mas disse-lhe Pedro: Vá tua prata contigo à perdição, pois cuidaste adquirir com dinheiro o dom de Deus.
(At 8:21) Tu não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus.
(At 8:22) Arrepende-te, pois, dessa tua maldade, e roga ao Senhor para que porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração;
(At 8:23) pois vejo que estás em fel de amargura, e em laços de iniquidade.
(At 8:24) Respondendo, porém, Simão, disse: Rogai vós por mim ao Senhor, para que nada do que haveis dito venha sobre mim.

Simão, o mago, foi o primeiro a querer usar o dinheiro para comprar os servos de Deus, de forma que eles fizessem aquilo que ele desejava. E é por este motivo que a prática de usar o dinheiro desta forma foi conhecida na história da igreja como simonia. Este mal foi uma das principais causas do declínio moral da igreja na Idade Média, e foi o principal ponto atacado por reformadores morais daquela época, como nos conta Justo González:

Quando terminamos o volume anterior um pequeno grupo de peregrinos marchava para Roma. Liderava-o o bispo Bruno de Tula, a quem o imperador tinha oferecido o papado. Bruno tinha se negado a aceitá-lo das mãos do imperador, e tinha insistido em ir a Roma como peregrino. Se lá o povo e o clero o elegessem bispo, então ele aceitaria a tiara papal. Esta atitude de Bruno refletia uma das principais preocupações dos que queriam reformar a igreja. Para estas pessoas, um dos piores males de que a igreja padecia era a simonia, ou seja, a compra e venda de cargos eclesiásticos. Somente a nomeação por autoridades civis, mesmo sem envolver qualquer transação monetária, parecia a Bruno e a seus acompanhantes estar muito próximo da simonia. Um papado reformador deveria surgir puro já da raiz. Como o monge Hildebrando tinha dito a Bruno, aceitar o papado das mãos do imperador seria ir para Roma, “não como um apóstolo, mas como apóstata”1.

Ao permitir que o dinheiro falasse mais alto, a igreja permitiu que pessoas não comprometidas com o evangelho entrassem para a igreja, mantendo sua conduta imoral e manchando o nome de Deus. Por este exemplo histórico podemos ver que a relação entre grupos seculares movidos pela ganância e a igreja nunca foi benéfica para o cristianismo. E se o cristianismo pode existir e se propagar muito bem sem estas pessoas, por que nos envolvermos com elas?

Nota
1. GONZÁLEZ, Justo L., Uma História Ilustrada do Cristianismo, A era dos altos ideais, Volume 4, página 17, Edições Vida Nova.

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