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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Justiça de MG é criticada por querer "controlar" candomblé

Parece que Xangô, o orixá da justiça, está tendo problemas com a Justiça mineira...

A matéria é do portal Justificando:


Para Juristas, decisão que cerceia candomblé é inconstitucional e se vale de racismo

O caso de repressão e intolerância religiosa sofrido por uma casa de candomblé localizada em Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte/MG, em que a Justiça estipulou um conjunto de regras para a realização dos cultos gerou revolta nas redes sociais e levantou críticas de juristas acerca da laicidade do Estado brasileiro.

Na última terça-feira (18), os representantes da religião realizaram um protesto na cidade contra a imposição que determinava que a casa de candomblé poderia executar as atividades somente nas quartas-feiras e em um único sábado do mês, utilizando apenas um atabaque. Em caso de descumprimento das regras, o estabelecimento está sujeito a multa diária de R$100. Vestidos de branco, os representantes se posicionaram em frente ao Ministério Público e pediram por respeito às tradições da cultura afro-brasileira.

Para a desembargadora do TJ-SP, Kenarik Boujikian, o caso configura uma “violência gigantesca”. “Nem sei o que dizer (…) não dá pra ter juiz que não sabe o básico do Estado brasileiro. Ler a Constituição Federal é o mínimo” completou.

A Iyaloríxa do Ile Aiye Orisha Yemanja, Winnie Bueno, formada em Direito e colunista do Justificando, já escreveu em sua coluna sobre a criminalização das religiões de matriz africana. Na ocasião, Winnie afirmou que “a criminalização das tradições religiosas de matriz africana é uma permanência das consequências do processo de colonialismo e escravização que originou a conformação que hoje conhecemos do Estado brasileiro”.

O Just conversou novamente com Winnie sobre o caso específico de Minas Gerais. A Iyaloríxa explicou que “o caso está relacionado com uma regulação que, aparentemente, é jurídica. Trata-se de uma tentativa de suprimir a liberdade religiosa e o livre direito ao culto para essas expressões. [Os códigos das religiões de matriz africana] não são aceitos em sua plenitude pelas epistemologias dominantes e, automaticamente, pelo pensamento jurídico dominante”.

Para o mestre em Direito e doutorando em Ciências Sociais Fábio Mariano a imposição da Justiça mineira é “inconstitucional”. “A norma que fere um princípio fundamental que é do de liberdade de culto num estado laico. Fere a dignidade da pessoa que é limitada ao exercício da sua religião e de seus dogmas de maneira descabida e desproporcional num claro ato de preconceito e racismo, já que é uma religião ancestral”.



segunda-feira, 1 de maio de 2017

Absolvida médica acusada de mortes em UTI do Hospital Evangélico de Curitiba

Sem dó.
Antes de ser julgada, Virgínia de Souza virou caricatura, foi apelidada de "Dra. Morte" e massacrada pela imprensa.
Agora, absolvida em 1ª instância, resta saber quem lhe devolverá a honra e o trabalho que ela não pode mais exercer. 

Bom, quem já teve o desprazer de estar internado com lucidez dentro de uma UTI por alguns dias, como é o caso deste que vos escreve, tem uma noção clara do que significa tentar salvar uma vida, o que nem sempre é possível.

De repente, do nada surge uma movimentação gigantesca de toda a equipe de intensivistas, médicos e enfermeiros, para tentar fazer a ressuscitação de alguém que acabou de morrer. 

Algo um tanto quanto assustador para um "leigo" ver. E não é só isso...

A gente passa por experiências desagradáveis e traumáticas como, por exemplo, perceber que a taquicardia da paciente idosa ao lado não cede a nenhuma medicação, permanecendo entre 160 e 170 batimentos por minuto, selando seu destino em questão de dias ou horas.

Por outro lado, vemos momentos de profunda emoção como os filhos já adultos dessa mesma paciente com taquicardia que se revezam nos horários de visita para chorar ao lado de sua cama, tocá-la, massageá-la e dizer o quanto toda a sua família a ama e que todos a querem de volta ao convívio do lar.

Deve ser este amor que a mantém viva. Ou mantinha... já que quando saí da UTI ela continuou lá, não sei o que lhe aconteceu afinal.

Os "felizardos" que estão na UTI em condições de observar seu cotidiano se tornam, assim, espectadores privilegiados dos constantes embates entre vida e morte.

Essa é uma das experiências extremas da vida (e da morte) que ninguém - em sã consciência - gostaria de ter, mas, cá entre nós, todos deveriam por ela passar.

Ajuda demais a encarar a vida como ela realmente é. 

O que vale e o que não vale a pena viver...

Feitas essas considerações pessoais, ficou muito famoso o caso da médica intensivista Virgínia de Souza, que trabalhava na UTI do Hospital Evangélico de Curitiba (PR) e foi acusada de ter provocado a morte de centenas de pacientes terminais, tendo sido apresentada ao mundo como a maior "serial killer" de que se tinha notícia.

Sorte dela que ainda havia um juiz em Curitiba com disposição de não surfar na onda da opinião pública, aferir a acusação, ouvir a defesa e julgar com isenção.

Agora, devidamente processada e julgada, a Dra. Virgínia de Souza foi absolvida por falta de provas, razão pela qual a entrevista abaixo, concedida por ela ao G1 Paraná (com vídeo na página indicada), se reveste de profundo interesse, sobretudo numa época de julgamentos apressados para satisfazer as massas ignaras e constante cerceamento de defesa por quem deveria garanti-la:

'Ficaram ofendidos porque eram cobrados', diz médica sobre quem a denunciou por mortes em UTI

Virgínia de Souza foi inocentada por juiz que analisou a denúncia do Ministério Público.

A médica Virgínia Soares de Souza falou em entrevista ao Fantástico sobre as denúncias que a levaram à cadeia. Em 2013, ela e mais sete colegas foram acusados de antecipar mortes de pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Evangélico, em Curitiba. Em abril deste ano, todos foram inocentados, em primeira instância.

Ela acredita que as pessoas que fizeram a denúncia anônima à polícia se sentiram ofendidas pela forma como ela tratava os colegas dentro da UTI que chefiava. "[Foi] porque se sentiram ofendidos, ofendidos porque eram cobrados", avalia.

De acordo com a denúncia, ela e os outros colegas aplicavam coquetéis de remédios que levavam os pacientes à morte. O objetivo era liberar vagas na UTI, para outros pacientes. Por ser um hospital que oferece atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o Evangélico vive no limite da lotação máxima, em todos os setores.

Com a repercussão do caso, a polícia passou a analisar mais de 300 mortes que aconteceram na UTI do Evangélico, entre 2006 e 2013. As autoridades começaram a tratar esses casos todos como suspeitos.

Para a imprensa internacional, Virgínia chegou a ser considerada "a maior serial killer de todos os tempos". No entanto, a denúncia ateve-se apenas a poucos casos, onde exisitiram os indícios da conduta mortal.

Na sentença, porém, o juiz Daniel Avelar disse que, diante das provas apresentadas e das testemunhas ouvidas, não havia como comprovar a relação entre as ações de Virgínia e as mortes. Por essa razão, ele absolveu todos os réus.

Limites éticos

Virgínia diz que sempre trabalhou nos limites éticos, para garantir que os pacientes sob a responsabilidade dela pudessem se salvar. "Eu era conhecida mais como uma obstinada do que pelo motivo que eu fui acusada. Obstinado é um médico que chega a ultrapassar, vamos dizer, os protocolos e as regras e faz de tudo pelo resgate da vida", afirma.

Além da absolvição em âmbito jurídico, Virgínia foi inocentada em seis dos sete processos que foram abertos contra ela no Conselho Regional de Medicina do Paraná. O sétimo caso ainda não foi julgado.

Vida nova

Após as denúncias, Virgínia foi demitida do hospital em que trabalhou por 25 anos. Nesses quatro anos, ela fez cursos e hoje trabalha em casa, em um serviço de pesquisas por telefone. "Eu vou manter esse trabalho", diz.

Ela afirma que jamais vai voltar a trabalhar em uma UTI, ainda que não tenha perdido o registro como médica. "Por mais, vamos dizer, que a minha imagem seja modificada, pode haver uma dúvida em alguém e eu não suportaria isso nunca", diz.

MP vai recorrer

O Ministério Público do Paraná não concorda com a decisão de Avelar. Para o promotor que cuidou do caso, o juiz deixou de lado parte das provas apresentadas. Ele crê que Virgínia e os outros profissionais eram, de fato, culpados. "Porque nós entendemos que essa sentença foi insuficiente pra tantas provas existentes no processo.

Inclusive, a interceptação telefônica que guarda consonância com a aplicação dos medicamentos anotados no prontuário. O MP entende que então, há muito mais provas que precisam ser analisadas", diz.

Ele ainda acrescenta que há provas periciais que demonstram a conduta criminosa do grupo. "A verdade é que essas pessoas foram assassinadas naquela UTI. O MP não tem duvida e vai continuar lutando por isso pq nós temos provas fundamentadas em perícia médica oficial", afirma.

Caso o recurso seja aceito pelo Tribunal de Justiça do Paraná, (TJ-PR), os oito acusados ainda poderão responder pelos supostos crimes que teriam cometido, podendo ser condenados ou absolvidos. A decisão caberá aos desembargadores paranaenses.



sexta-feira, 7 de abril de 2017

Evangélicos cariocas não creem que "bandido bom é bandido morto"

Admita: o raciocínio rasteiro e demagógico serve para qualquer coisa... 

Comecemos pelo óbvio ululante. Leia, pense e opine. Tudo isso com calma.

Primeiramente, não existem sistemas penais ou ideológicos perfeitos. Quem assim o afirma, passa um atestado de burrice ou má fé intelectual.

Em segundo lugar, você é o único responsável por desfrutar o imenso prazer desse dom que Deus deu à humanidade sem parcimônia: a razão.

Pense, portanto. Exercite o seu sagrado direito de raciocinar.

Não aceite instantaneamente opiniões alheias e rasteiras como "verdade". Refine-as pelo seu filtro do bom senso.

É que, com tanto imbecil apresentando programas policiais matutinos e vespertinos na TV, usando suas frases rasteiras e demagogas para enganar a população em busca de audiência, tudo isso tolerado pelas autoridades constituídas, sejam elas de que ideologia forem, fica realmente difícil explicar para o leigo que quem defende "direitos humanos" não defende bandido, mas a sociedade como um todo.

Isso, meu amigo, minha amiga, porque a maior desgraça que pode acontecer - para a Justiça como valor filosófico supremo e para o Poder Judiciário como pretenso aplicador dessa tal "justiça" - é condenar um inocente ou matar (ou permitir que matem) um acusado sem lhe dar direito à defesa, ou vice-versa, ou tudo isso junto.

Basta um erro nesta área para que todo o edifício da segurança criminal seja demolido.

Então - pasme! - quem defende os direitos humanos defende, obviamente, os humanos, ou seja, VOCÊ! (incrível, não?), pois ninguém está livre de ser confundido com um bandido qualquer na rua e ser imediatamente linchado por uma manada furiosa de outros supostos humanos, ou de sofrer uma arbitrariedade policial qualquer.

Acontece, não é mesmo? Preciso mesmo dar exemplos?

Um argumento geralmente utilizado por quem critica os direitos humanos é que "ninguém vai visitar a família da vítima".

É verdade, o ideal seria que cada governo, cada Estado tivesse um serviço especializado em socorrer a família da vítima diante da ocorrência de um crime.

Entretanto, por incrível que pareça, a Justiça e o Poder Judiciário não estão nem deveriam estar preocupados com a família da vítima sob o aspecto penal. Sabe por quê?

Porque, desde os tempos da antiguidade grega, se entendia que o homicida que tira a vida de um cidadão deve ser punido NÃO por causa da família da vítima (uma espécie de "justiça retributiva", na base do "olho por olho"), mas por causa do dano que ele causou à sociedade em que está inserido.

Sim, é isto mesmo que você leu. Desde os tempos de Sócrates, todas as sociedades ditas civilizadas punem o assassino pelo simples (e dolorosíssimo) fato de que ele causou um distúrbio gigantesco na sociedade em que vive ao perpetrar um homicídio.

Trata-se, portanto, de uma punição socialmente elaborada em contrapartida ao prejuízo causado pelo ato danoso de um de seus membros.

Já tivemos oportunidade de abordar este tema por ocasião de nossos artigos sobre a "justiça no pensamento aristotélico".

Claro que a família da vítima pode (e deve) buscar a reparação privada dos danos causados pelo homicida, mas como você já percebeu isso se dá no campo do direito civil e não do penal (que é público).

Talvez haja outro sistema melhor do que este, mas é assim que todas as sociedades ditas civilizadas decidiram se comportar para não entregar - de bandeja - os seus membros à barbárie e ao ciclo da violência sem fim.

Todos os outros sistemas já foram testados e reprovados (a Alemanha e seu Führerprinzip que o diga, e isso há menos de 100 anos). 

Estaríamos todos literalmente fritos se Herr Präsident Roland Freisler fosse o modelo universal de juiz.

Se você tiver outro sistema melhor a sugerir, não se acanhe: formule-o, estruture-o e apresente-o ao mundo para que o consideremos. Precisamos sempre de algo melhor.

Dito isto, considerando a confusão que impera no Brasil sobre esses antigos conceitos civilizatórios relativamente simples, chega a surpreender que os evangélicos cariocas sejam a camada da população mais avessa ao bordão conhecido de que "bandido bom é bandido morto".

Surpresa porque - lamentavelmente - o que não falta no meio gospel brasileiro é pastor-mala vociferando impropérios e argumentos rasteiros e demagógicos contra quem ousa defender os direitos humanos.

Pelo jeito, ainda há esperança para os evangélicos cariocas.

A matéria é da Agência Brasil:

Contradições mostram que cariocas não compreendem direitos humanos, diz pesquisa

Vinícius Lisboa

A defesa dos direitos humanos é incompatível com o controle da criminalidade para 73% dos cariocas, segundo a pesquisa Olho por Olho?, divulgada hoje (5) pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes. Quando confrontados com exemplos de situações mais concretas, no entanto, os entrevistados posicionam-se muitas vezes a favor dos direitos de que afirmam discordar, apontam os pesquisadores responsáveis.

"Temos contradições. Embora grande parte da população não acredite que lutar contra a violência seja compatível com o respeito aos direitos humanos, em uma série de outros dados, fica claro que a população não aceita violações específicas", diz a coordenadora do centro de pesquisas, Julita Lemgruber.

Na opinião da pesquisadora, existe incompreensão do termo "direitos humanos" que, muitas vezes, é confundido com impunidade ou "privilégio de criminosos". "A gente tem um dever de casa de explorar essas brechas e trabalhar com a população", afirma.

Para 56% dos entrevistados, quem defende direitos humanos defende bandidos. Apesar disso, 47% discordam da frase "os bandidos não respeitam os direitos dos outros, por isso, não merecem ter direitos".

A maior parte (61%) dos entrevistados afirma que a polícia deve, sempre que tiver escolha, prender em vez de matar. Para 93%, a polícia não pode atirar em quem acha que é criminoso. Além disso, mesmo diante da certeza de que alguém cometeu um crime, 75% são contra o disparo, e 69% são contra a polícia atirar em quem está fugindo e 29% discordam até mesmo de que a polícia dispare contra quem está apontando uma arma para os agentes.

"Essa pesquisa aponta para a possibilidade de desconstrução dessa lógica do 'bandido bom é bandido morto'. Há espaço para discussão com a sociedade", destacou Julita.

A pesquisa identificou uma base de cerca de 40% dos cariocas que têm uma atitude pró-direitos humanos na questão da segurança pública. Eles são contra o chavão "bandido bom é bandido morto", discordam da pena de morte e são contra linchamentos. Por outro lado, 12,5% declararam ser a favor da frase, da pena capital e da justiça com as próprias mãos.

Para o pesquisador Ignacio Cano, os dois grandes freios à ideia de que bandido bom é bandido morto são a defesa da legalidade e a religião. O estudo identificou que 37% da população concorda que bandido bom é bandido morto.

"Apesar de defender [a tese de que] bandido bom é bandido morto, a maioria dessas pessoas está pensando mais em uma pena legal do que em uma execução sumária ou um linchamento na rua", destaca.

A pesquisa mostrou que os religiosos praticantes, especialmente os evangélicos, são o grupo que mais discorda da frase e também o que mais acredita na ressocialização.

"Os religiosos, muitas vezes, acreditam que Deus é o único que pode tirar a vida", explica Cano, que defende uma renovação do discurso em defesa dos direitos humanos. "É preciso uma reciclagem. Nossa linguagem deve ser mais próxima da linguagem das pessoas, e não da dos tratados internacionais apenas".

Para Cano, é preciso desnaturalizar a ideia de "guerra" no Rio de Janeiro, desconstruir a demonização da figura do traficante e apontar o fundo racista nas violações dos direitos humanos.

Exposição

A pesquisa mapeou também a exposição das pessoas a cenas de violência e identificou as redes sociais Facebook e WhatsApp como as principais plataformas em que os entrevistados tiveram acesso a vídeos de violação de direitos humanos.

Do total de entrevistados, 42% já viram pessoas sendo mortas na internet, 40% já assistiram a tiroteios envolvendo policiais e 38% já viram vídeos de linchamentos.

A pesquisa ouviu 2.353 pessoas, com ao menos 16 anos, em pontos de fluxo do município do Rio de Janeiro. O questionário, com mais de 40 perguntas, foi aplicado em março e abril do ano passado.

Edição: Lílian Beraldo



segunda-feira, 2 de junho de 2014

O Estado laico, segundo Ives Gandra Martins


Matéria publicada no ConJur:

Estado laico não é ateu ou agnóstico, diz Ives Gandra Martins

O Estado laico não é ateu ou agnóstico. É um estado que está desvinculado, nas decisões dos cidadãos que o assumem, de qualquer incidência direta das instituições religiosas de qualquer credo. Com essas afirmações, o jurista Ives Gandra Martins abriu sua palestra no seminário sobre liberdade religiosa promovido, nesta terça-feira (21/5), pela Associação dos Advogados de São Paulo.

O “papa do universo jurídico”, como Gandra foi chamado pelo diretor cultural da Aasp, Luís Carlos Moro, sustentou suas afirmações citando o preâmbulo da Constituição Federal, que diz “nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático (...) promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil”.

“A Igreja Católica, os evangélicos ou judeus não estiveram lá [na Assembleia Constituinte] como instituições. Foram os cidadãos, de acordo com suas convicções, eleitas pelo povo, que definiram contra o voto daqueles que não acreditavam em Deus”, afirmou o jurista.

Gandra (foto) brincou com a diferença entre as redações da Constituição de 1988 e da Emenda Constitucional 1, de 1969, época da ditadura militar. “Os nossos constituintes eram extramente presunçosos para colocar [o trecho “sob a proteção de Deus”]. No regime militar, eles sabendo que não tinham legitimidade, eram muito mais humildes. Na Emenda Constitucional 1, eles invocaram a proteção de Deus, porque não sabiam se ele iria concordar com aquilo que lá estava”.

Em seguida, questionou, sob o ponto de vista da liberdade de expressão, os contrastes entre as diversas convicções. “Quando se diz que, em um Estado laico, quem tem religião não tem voz — porque vai levar suas convicções —, a pergunta que se faz é: e aqueles que têm convicções diferentes, quando levam suas convicções, com que direito levam, em um país em que a liberdade de expressão é absoluta?”

Em seu artigo 5, a Constituição garante a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença, assegura o livre exercício dos cultos religiosos e garante, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias.

Teorias abrangentes

Voltando ao ponto da convivência entre crenças, Gandra citou as chamadas teorias abrangentes, que, segundo ele, levam à ditadura. “As teorias abrangentes, como aconteceu com o marxismo, comunismo, nazismo, fascismo, Cuba e as ditaduras islâmicas, não permitem que se raciocine de forma diferente daqueles que os detentores do poder."

Para o jurista, a democracia é caracterizada pelo inverso, ou seja, a coexistência de teorias não abrangentes e de oposições. “É a convivência das convicções de cada, fazendo com que prevaleça o pensamento das pessoas que terminam sendo a maioria e sempre, evidentemente, com o respeito das minorias, desde que não sejam conflitantes.”

Assistencialismo religioso

O jurista defendeu a importância do assistencialismo religioso citando dados do livro Como Defender a Igreja. Segundo a obra, no mundo inteiro, a Igreja Católica conta com 165 associações nacionais de caridade e administra 5 mil hospitais e 17,5 mil ambulatórios. Na África, educa 12 milhões de crianças a cada ano.

“É interessante notar que todo esse trabalho que se faz não aparece nos jornais”. Ele evocou as palavras do escritor americano Mark Twain, morto em 1910, que afirmou ser papel da imprensa separar o joio do trigo para, em seguida, publicar o joio.

Para Gandra, essas entidades fazem o papel do Estado. “Com uma carga tributária de 37%, nós temos serviços públicos de péssima qualidade. Essas instituições religiosas fazem o que os governos deveriam fazer com nossos recursos e não fazem”, afirmou.

“Pessoas complexadas”

O jurista afirmou não ver problema na presença de símbolos religiosos em prédios públicos. Segundo ele, se chegarmos ao ponto de os eliminarmos, os nomes dos estados de São Paulo, Santa Catarina e Espírito Santo deveriam ser mudados e o Cristo Redentor, destruído.

“Todos que têm preconceitos contra símbolos religiosos, de qualquer religião, são, a meu ver, complexadas”, afirmou.



domingo, 20 de novembro de 2011

A cruzada da religião contra o Estado

Artigo de Túlio Vianna na revista Fórum adianta uma discussão que será constante nos próximos anos. Independentemente de se concordar ou não - no todo ou em parte - com o que ele escreve, é melhor se preparar para o debate:

A religião contra o Estado

Uma bancada teocrática instalou-se no Congresso Nacional, pretendendo impor os mandamentos de seu Deus a toda a população. O fundamentalismo religioso, com seus códigos de conduta reacionários, é hoje o maior inimigo político do Estado Democrático de Direito.


Por Túlio Vianna

A religião é a política realizada em nome de Deus. O líder religioso, assim como qualquer líder político, pretende governar o maior número de pessoas possível. Um governo que se faz não por leis, mas por dogmas.

O monoteísmo é autoritário na sua essência. Nunca houve plebiscitos e nem mesmo reuniões com representantes eleitos pelo povo para criar os dogmas de uma religião. Eles são ditados de cima para baixo, por alguém que fala em nome do próprio Deus e, portanto, é incontestável, mesmo pela vontade da maioria.

Como os líderes religiosos não dispõem, nos dias de hoje, de um braço armado para fazer valer suas leis pela força, precisam convencer seus governados a se sujeitarem às suas normas pelo proselitismo. E mais: precisam convencer também aqueles que não se sujeitam àquelas normas, ao menos a respeitá-las.

A fé é a mais autoritária das ideologias políticas já inventadas. Um instrumento político quase perfeito que permite ditar normas unilateralmente, governar sem a necessidade de armas e, ainda por cima, blindar-se de críticas em nome da tolerância religiosa.

Como em toda ideologia, há aqueles que acreditam piamente nela e lutam para vê-la concretizada e há também aqueles que simplesmente a tomam como pretexto para satisfazer seus interesses pessoais. Creiam ou não em sua ideologia e em seus deuses, todos agem politicamente no sentido de agregar cada vez mais um número maior de seguidores e de acumular riquezas para sustentar a expansão de sua ideologia e de seu poder político.

E não há nada de errado, por si só, em tentar expandir uma religião ou uma ideologia, acumulando patrimônio e gente disposta a seguir seu código de condutas. É natural que as pessoas se unam em torno de convicções comuns e a partir daí surjam lideranças políticas. O problema surge quando estas lideranças reconhecidas dentro de um grupo resolvem expandir seu poder político para além do grupo, impondo suas normas de condutas não a quem resolveu por conta própria aderir a elas, mas a quem tem ideologias e deuses completamente diferentes. Neste ponto, não se trata mais de uma questão religiosa, mas de uma questão meramente política. A religião só é religião até ser imposta; depois disso é simplesmente política e pode ser exercida tanto pela força das armas como pelos votos de uma maioria fundamentalista. E o uso do nome de Deus para mascarar o exercício deste poder político é a ferramenta política mais hipócrita que já se inventou, mas tem funcionado muito bem ao longo da história.

O exemplo mais bem sucedido deste exercício de poder político em nome de Deus é o da Igreja Católica Apostólica Romana, que acumulou riquezas e impôs suas normas de condutas para populações espalhadas por todo o mundo em nome de seu Deus, durante vários séculos. A Inquisição e a catequização de índios não foram ações religiosas, mas políticas. E pouco importam as boas ou más intenções daqueles que as realizaram, o fato é que buscavam com elas impor normas de condutas a populações que não a aceitaram por livre e espontânea vontade.

O neopentecostalismo e a bancada teocrática

Na atualidade, o Vaticano perdeu grande parte de seu poder político na Europa e, mesmo no Brasil, onde sempre foi muito forte, tem perdido espaço para o neopentecostalismo que, nos últimos anos, vem acumulando grande poder político e econômico.

Se, por um lado, a ausência da uma liderança unificada dificulta o exercício do poder político por estas novas lideranças, por outro, sua ideologia espiritual favorece bastante a acumulação de riquezas pelos seus pastores. Enquanto a moral católica considera a temperança, a caridade e a humildade como virtudes, o neopentecostalismo está fundado na Teologia da Prosperidade e afirma que os verdadeiros fiéis devem desfrutar de uma excelente situação econômica. Há, é claro, um detalhe: para que Deus conceda ao fiel as benesses materiais, é preciso que este faça um pacto com Ele, oferecendo-Lhe toda sorte de oferendas materiais, dentre as quais se destaca o dízimo. É a chamada Doutrina da Reciprocidade, que viabilizou todas estas rápidas expansões de igrejas neopentecostais nos últimos anos.

Escudados na liberdade religiosa, pastores cobram impostos privados de seus fiéis – o famoso dízimo – e não precisam pagar qualquer imposto ao Estado, pois a Constituição da República garante em seu artigo 150, VI, b, a imunidade tributária a templos de qualquer culto. Verdadeiros impérios econômicos vêm sendo erguidos assim, tal como ocorreu no passado com a Igreja Católica. E, tal como ocorreu no passado também, esse dinheiro vem sendo usado para expandir o poder político dos líderes desta Igreja, seja por meio da aquisição de meios de comunicações (inclusive de redes de televisão), seja pelo financiamento de campanhas para cargos públicos destes líderes que cada vez mais vêm ocupando cargos, especialmente no Parlamento brasileiro.

Como sempre, os novos líderes espirituais afirmam que todos estes investimentos materiais têm como único e exclusivo objetivo a expansão da palavra do Deus deles e de seu código moral, que, como em toda boa religião monoteísta, deve ser universalizado para o “bem de todos”. Ainda que se admita, porém, que não haja interesses pessoais por trás da expansão destes impérios da fé, fato é que o seu principal objetivo declarado é a expansão de seu poder político, açambarcando a cada dia um número maior de fiéis e impondo seu código de condutas a um maior número de pessoas. Mesmo que para isso precise passar por cima do Estado Democrático de Direito que, ao contrário do monoteísmo, não impõe normas unilateralmente e pressupõe o respeito à pluralidade de opiniões.

Do ponto de vista exclusivamente político, o Estado Democrático de Direito é o maior entrave à expansão do império econômico e político das igrejas neopentescostais e de seus bispos. Não é à toa que cada vez mais eles têm buscado conquistar cadeiras do Parlamento. E a bancada teocrática tem se tornado a cada dia uma das principais forças políticas de nosso Congresso, restringindo os direitos fundamentais de quem não acredita em seu Deus em prol da expansão política e econômica de seu império.

A teocracia é incompatível com o Estado Democrático de Direito, dado o autoritarismo inerente ao monoteísmo. Não se realizam votações para saber se é da vontade de Deus receber dízimos ou condenar os homossexuais a passarem a eternidade no inferno. São seres humanos que afirmam isso e que impõem aos outros a palavra de Deus que eles próprios escreveram. E estas são ações políticas e como tais devem ser tratadas.

E é por isso que o Estado Democrático de Direito é, por sua própria natureza, laico. Porque é impossível ser democrático e monoteísta ao mesmo tempo. Assim como é impossível ser candidato a um cargo público e bispo, pastor ou padre ao mesmo tempo. Há um evidente conflito de interesses entre aquele que fala em nome de seu Deus e aquele que pretende falar em nome do povo em meio ao qual nem todos acreditam em seu Deus.

Para minimizar esta incompatibilidade é necessário, ao menos, que se exija que bispos, padres, pastores e outros clérigos se licenciem de suas atividades sacerdotais um ano antes de se candidatarem a cargos públicos. Restrição semelhante já é aplicada pela lei complementar 64/90 a magistrados, diretores de sindicatos e outros cargos públicos, tendo em vista a incompatibilidade de suas funções com uma campanha eleitoral, e poderia perfeitamente ser aplicada também aos sacerdotes de qualquer crença. Projeto de lei neste sentido foi apresentado pela deputada Denise Frossard (PSDB-RJ) na Câmara dos Deputados em 2004 (PLP 216/2004), mas foi arquivado em 2007, pois ainda se encontrava em tramitação no fim da 52ª legislatura e não houve pedido de desarquivamento na legislatura seguinte.

Uma outra iniciativa necessária é limitar a transmissão de programas religiosos em rádios e televisões para no máximo uma hora diária, tal como foi proposto em 1999 (PLS 299/99) pelo senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT). A Constituição da República é explícita em seu artigo 221, ao determinar que a programação das emissoras de rádio e televisão terá, por preferência, finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas. É inconcebível que, no Estado laico, concessões públicas de rádio e TV sejam usadas, como são nos dias de hoje, em prol do proselitismo religioso que não raras vezes passa boa parte do tempo solicitando doações financeiras a seus fieis. Um autêntico merchandising da fé, patrocinado pelo Estado que, por definição constitucional, é laico.

Lamentavelmente, porém, há pouca vontade e coragem política dos parlamentares brasileiros de desafiar o poder político e econômico do novo e do velho clero. A esquerda tem sido bastante leniente com as violações do Estado laico e as poucas inciativas para amenizar o problema, como se viu, por mais paradoxal que seja, partiram do conservador PSDB.

O Brasil precisa urgentemente de uma bancada secular no Congresso Nacional para fazer frente à bancada teocrática (que prefere ser chamada de evangélica). Os valores democráticos da laicidade precisam ser reafirmados por parlamentares que não temam desafiar o crescente fundamentalismo religioso que a cada dia ganha espaço na política brasileira. Não se trata de um combate a qualquer religião, mas à política realizada em nome de Deus e que pretende impor seus códigos de condutas conservadores a toda uma população.

A luta pela efetivação do Estado laico é a luta pela democracia. Por leis que sejam ditadas não de cima para baixo por uma autoridade que fala em nome de Deus, mas construídas a partir do diálogo plural e com respeito aos direitos fundamentais. E isto, deus monoteísta nenhum poderá conceder, pois seus mandamentos são – por definição – mandamentos.

Monoteísmo e democracia são ideologias políticas antagônicas. É esta a grande cruzada da religião contra o Estado.



domingo, 11 de setembro de 2011

Outro 11 de setembro que jamais pode ser esquecido



Sim, eu me lembro com pesar do dia 11 de setembro de 2001. Esse é um daqueles dias em que o mundo para e a gente se lembra exatamente do que estava fazendo quando soube do fato, como foi o dia em que Lee Oswald matou John F. Kennedy para a geração passada, ou o dia em que Ayrton Senna morreu (1º de maio de 1994) para quem já não é tão jovem assim. Curiosamente, o dia 22 de novembro de 1963 não marcou apenas a morte de JFK, mas também a de C. S. Lewis e de Aldous Huxley (autor de "Admirável Mundo Novo"), e este inusitado encontro dos três no além é imaginado por Peter Kreeft em seu livro "O Diálogo", editado no Brasil pela Mundo Cristão.

No dia 11 de setembro de 2001, o técnico da Telefônica estava em casa instalando o Speedy (o que por si só já era um mau presságio) quando, lá pelas 9 da manhã, ele conectou o seu laptop para ver se a conexão funcionava e lá estava a home page do UOL com a foto de uma cortina de fumaça em uma das Torres Gêmeas, com a chamada de que um avião havia se chocado ali, o que era - obviamente - muito estranho. Imediatamente liguei a televisão e apenas aguardei o desenrolar (trágico, infelizmente) dos acontecimentos. Liguei para o escritório e avisei que não ia trabalhar naquele dia. Afinal, o mundo que a gente conhecia estava acabando ali, como de fato acabou.

Entretanto, eu me lembro também de outro 11 de setembro, no longínquo ano de 1973, quando eu tinha 10 anos de idade. Estava à tarde em casa assistindo um filme ou uma série, não me lembro ao certo, na extinta TV Tupi, em preto e branco ainda, quando a transmissão foi interrompida para mostrar as imagens do Palácio de La Moneda, sede da Presidência do Chile em Santiago, sendo bombardeado por aviões do próprio Chile! Eu era um garoto ainda, mas sabia que aquilo não era normal. Vivíamos numa ditadura e eu já havia sido suficientemente doutrinado para aquilo que é a sua grande força e o que ela tem de pior: o medo. O seu combustível é o horror. Naquele dia, Salvador Allende, presidente democraticamente eleito do Chile, estava sendo derrubado por um golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet. Eu ainda sabia pouco da vida, mas tinha consciência de que vivíamos tempos difíceis na América Latina, e o roteiro era (e continua sendo) sempre o mesmo: a elite do país e os Estados Unidos, contrariados em seus interesses, com o apoio eufórico e empedernido da imprensa local, chamam seus cães de guarda para derrubar os governos civis que foram legitimamente colocados no poder, sempre alegando que se trata de um "golpe preventivo" diante da terrível ameaça do comunismo ou coisa que o valha. Milhares de inocentes são torturados e triturados no processo (estima-se entre 30 e 40 mil mortos as vítimas da ditadura chilena) e os grandes interesses econômicos ficam preservados. Como facilmente se percebe, qualquer semelhança com "ataques preventivos" a países petrolíferos do Oriente Médio não é mera coincidência...

Salvador Allende não se entregou, preferiu se matar a  ser humilhado e ver seu corpo exibido como troféu de guerra pela ditadura de Pinochet, que - com mão de ferro - durou até 1990, louvada pela sua política econômica copiada pelos seus "Chicago boys" do liberalismo da então premiê britânica Margaret Thachter, que deu ao Chile uma certa estabilidade econômica às custas de uma fratura social que continua expostas nas ruas do país. Duas décadas se passaram desde Pinochet, e quatro décadas depois de Allende, e o Chile segue sendo um país irremediavelmente dividido, e isto com uma população menor do que a da área metropolitana de São Paulo. Quando eu estive em Santiago em 1999, fiz questão de visitar o Palácio de La Moneda, onde algumas marcas de tiro continuam preservadas nas fachadas dos prédios da praça no seu entorno, e também o Estádio Nacional, que deveria ser motivo de grande alegria para os brasileiros (afinal, foi ali que o Brasil ganhou sua segunda Copa do Mundo de futebol), mas também foi lá que milhares de chilenos foram torturados e executados nas horas e nos dias seguintes ao 11 de setembro de 1973, inclusive o grande cantor e compositor Victor Jara, que, antes de ser assassinado, teve suas mãos esmagadas a coronhadas para que o terror militar não corresse o risco de ouvir de novo suas canções de protesto. Impossível não se emocionar e se indignar diante de tanta barbárie.

Por isso, abaixo estão três vídeos (o último de Victor Jara, cuja voz continua ecoando em nossos corações) com aquelas imagens que me marcaram profundamente quando eu tinha 10 anos de idade, para que as novas gerações sigam lembrando todo dia 11 de setembro como um dia mundial da infâmia, não só pelo que aconteceu 10 anos atrás, mas por toda a miséria humana que deve ser sempre exposta ao lamento e à execração pública, para que jamais seja repetida.








terça-feira, 5 de abril de 2011

Mulher brasileira, teu nome é coragem!

Essa é daquelas notícias que dão um baita orgulho de ser brasileiro. Não um orgulho ufanista e xenófobo, mas um patriotismo de cidadão responsável. A atitude dessa mulher que presenciou a execução de um possível bandido pela PM num cemitério, e não titubeou em ligar para a própria PM para denunciar o fato, além de ter enfrentado com ousadia e cabeça erguida o soldado executor, é daqueles gestos que merecem estátua em praça pública, ainda que dificilmente venhamos a saber o nome ou ver a foto dela, dado que a corajosa mulher se encontra agora no programa de proteção a testemunhas. Ela estava visitando o túmulo do pai e viu a cena grotesca, e uma frase dela, com o perdão do trocadilho, é lapidar: "diz que já é normal fazer isso aqui; mas não é normal eu assistir isso". Revela como se tornou "normal" vermos policiais achacando, torturando e matando, ainda que a maior parte das diferentes corporações policiais seja formada por homens e mulheres corretos e honestos. Logo, o problema é de comando tanto da própria Polícia (em suas múltiplas divisões) como dos governos que a comandam. Pode ser "normal" para eles, mas para nós não. Eu sei que tem muita gente que gostaria de ver o bandido morto imediatamente, mas lembre-se que se deve proteger o suspeito porque ele pode ser o seu filho inocente que estava passando no lugar errado e na hora errada. A sua concordância tácita com o ilícito gera autoridades viciadas em matar e o seu silêncio termina por criar monstros pantagruélicos que podem se voltar adivinhe contra quem... A preservação da lei é garantia de democracia e de respeito ao estado de direito. Além disso, muitos policiais continuam agindo como se estivessem na época da ditadura e pudessem tudo, absolutamente tudo. Outro dia foram policiais que atiraram num garoto de 14 anos em Manaus (AM), e estavam sendo acobertados pela cúpula da PM local. Culpa nossa mesmo, que não sabemos eleger nossos representantes nem exigir que as leis sejam obedecidas, talvez porque sejamos os primeiros a descumpri-las. Ferraz de Vasconcelos, antes desprezada por ser uma cidade-dormitório das classes "C", "D" e "E" a serviço da endinheirada capital paulista, agora pode se orgulhar: há uma mulher destemida, uma cidadã brasileira Corajosa (com "C" maiúsculo), Digna (com "D maiúsculo) e Ética (com "E" maiúsculo), que deveria ter uma estátua em praça pública, não fossem as ameaças que agora sofre. A notícia é da Folha.com:


Mulher liga para 190 e denuncia PMs por assassinato; ouça

EVANDRO SPINELLI
DE SÃO PAULO


Uma moradora de Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, ligou para o telefone de emergência da Polícia Militar --190-- e informou presenciar um assassinato cometido por dois PMs dentro de um cemitério.

O crime ocorreu no último dia 12, um sábado. A vítima, Dileone Lacerda de Aquino, tinha passagens pela polícia e havia saído de uma prisão no interior em agosto de 2010.

A Corregedoria da PM informou na tarde desta segunda-feira que os policiais estão presos no presídio Militar Romão Gomes, respondem a inquérito por suspeita de homicídio e podem ser expulsos da corporação.

A mulher tem a identidade mantida sob sigilo e está sob proteção da própria PM.

DIÁLOGO

"Olha, eu estou no Cemitério das Palmeiras, em Ferraz de Vasconcelos, e a Polícia Militar acabou de entrar com uma viatura aqui dentro do cemitério, com uma pessoa dentro do carro, tirou essa pessoa do carro e deu um tiro. Eu estou aqui próximo à sepultura do meu pai", disse a mulher.

O policial que atende a ligação pede à mulher o prefixo do carro, diz que vai "fazer um alerta" e recomenda à testemunha que faça uma denúncia à Corregedoria da PM.

Durante a conversa, gravada pela PM, a mulher aborda um dos policiais e o questiona sobre a execução. O policial diz apenas que estava prestando um socorro.

"Ele falou que estava socorrendo. É mentira. É mentira, senhor. É mentira. Eu sei bem o que ele fez", diz a mulher ao atendente do 190.

Os policiais presos são Ailton Vital da Silva, 18 anos de Polícia Militar, e Felipe Daniel Silva, 5 anos de trabalho.

Viltal, segundo o tenente-coronel Roberto Fernandes, comandante da PM na zona leste da capital, já havia participado de três ocorrências de "resistência" --a pessoa abordada resiste à prisão e é morta pelos policiais. Felipe Daniel nunca havia participado de uma ocorrência desse tipo.

De acordo com o comandante, a investigação interna da PM deve ser concluída até o fim deste mês e a tendência é que os dois sejam expulsos da corporação.

Segundo Fernandes, os policiais disseram apenas que houve resistência e prestaram socorro à vítima, mas se negaram a prestar depoimento quando foram presos --só devem depor na Justiça.

O caso começou no Itaim Paulista, extremo leste de São Paulo, a cerca de 1 km do Cemitério das Palmeiras. Um carro de uma empresa de produtos de beleza foi roubado e, informados pelo rádio da polícia, Vital e Daniel fizeram a abordagem.

O assaltante teria entrado em um condomínio residencial, batido em dois carros e, durante a fuga a pé, atirado contra os policiais, que revidaram e o acertaram na perna.

Segundo o comandante, até aí o procedimento foi correto. Eles colocaram o assaltante no carro da polícia para levá-lo ao pronto-socorro.
Só que, no caminho, passaram pelo cemitério onde foram flagrados pela testemunha. "Talvez eles tenham acreditado que não tivesse ninguém. Mas num cemitério, num sábado à tarde, sempre tem alguém chorando por alguém", afirmou.

Fernandes disse que conversou com os dois policiais separadamente e que houve divergência de versões, por isso eles foram presos.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Advogado diz que Arruda está sendo crucificado

Não se discute que o advogado tem o direito de defender seu cliente, independentemente do crápula que está lhe pagando, mas tem que tomar um certo cuidado na sua argumentação, para não cair no ridículo de fazer declarações absurdas, como a noticiada pelo site G1:

O advogado do governador afastado José Roberto Arruda, Nélio Machado, disse que ainda não teve acesso integral ao inquérito e que só vai comentar a ação penal quando ela estiver instalada, e não as investigações.

Nélio Machado disse ainda que existe uma “perseguição ao governador” e que ele está sendo “crucificado”. A Globo News não conseguiu falar com o advogado do governador em exercício, Paulo Octávio.

Já a assessoria da Polícia Civil disse que os inquéritos correm em segredo de Justiça e que as conclusões obtidas até agora foram encaminhadas ao Ministério Público e ao Judiciário. A assessoria também negou ter qualquer conhecimento sobre vazamentos nas investigações.

Aliás, se é que vivemos num Estado de Direito, como dizem os juristas que elogiam o sistema judicial brasileiro, está mais do que na hora de garantir que ele funcione honestamente. Uma das medidas que poderiam ser adotadas para tornar o país mais justo e legal seria saber exatamente de onde vem o dinheiro que paga os advogados dos corruptos. Não há dúvida de que recebem muito dinheiro, mas a pergunta que não quer calar é: a origem deste dinheiro é lícita? Ou é o dinheiro roubado que financia este pagamento? Afinal, o seu direito de defesa deve ser garantido, como manda a Constituição, mas que seja ele próprio que pague, e não os cofres públicos que arrombou.

Se o Brasil fosse um país sério, deveria ser criado um mecanismo legal que deixasse essa questão transparente, como impor ao investigado o ônus de comprovar a origem lícita do dinheiro com o qual está pagando seu advogado, dinheiro este que deveria ser depositado em juízo até que se comprovasse efetivamente que ele não foi obtido ilegalmente. Talvez - com esta obrigação - a sociedade fosse brindada com dois benefícios: o advogado pensaria duas vezes antes de assumir um caso envolvendo corruptos, e ele seria o maior interessado em que a Justiça fosse rápida, mas - por enquanto - este é só o delírio de um cidadão indignado.

sábado, 16 de maio de 2009

Os estados do direito

"Estado de Direito" é um daqueles chavões, daquelas palavras-coringa, que são (ab)usados aleatória e indiscriminadamente por quem quer se esconder atrás de algo que tem aparência de verdade, apenas para justificar seus atos que nem sempre a acompanham. 

Assim, o respeito às determinações judiciais é tido como um respeito ao Estado de Direito, mas ninguém explica qual é a garantia que o cidadão tem contra o mau juiz ou o mau tribunal para pelo menos tentar revisar a sua má decisão. 

O Estado de Direito é o estado do direito de uns, mas não de outros? Afinal, temos ou não o direito de resistência? Pode-se resistir ao Estado de Direito exclusivo de alguns? 

Curiosamente, este é um dos temas mais polêmicos do direito, e dos menos abordados, talvez pelo medo das suas consequências.

Felizmente, a internet nos proporciona boas surpresas, com ótimos textos opinativos, como o do Blog do Braga da Rocha, que tomo a liberdade de recomendar e transcrever abaixo:


TSE, Jackson Lago e a oportunidade de crise institucional para uma necessária 'refundação' da República


Do noticiário político do fim de semana destaca-se a cassação do mandato do governador do Maranhão, Jackson Lago, pelo Tribunal Superior Eleitoral - TSE, seguida da decisão tomada por Lago — da qual, lamentavelmente, logo recuou — de resistir à decisão judicial com um expressivo gesto político: a recusa em deixar o Palácio dos Leões, sede do governo daquele Estado.

Tenho repetido a meus alunos e colegas do meio jurídico que o primeiro e inarredável compromisso de todo jurista e de todo cidadão deve ser com o chamado estado de direito, entendida esta expressão em sua acepção mais elementar, como aquele ambiente em que o ordenamento se põe e se aplica segundo regras e mecanismos institucionais preestabelecidos.


No caso Jackson Lago, todavia, devo confessar que me sinto algo frustrado e decepcionado pela decisão do governador de abandonar o palácio, em sinal de acatamento, ainda que a contragosto, de mais uma espúria decisão do TSE.


Sem discutir o mérito da causa, que desconheço em profundidade — mas que a todos os olhos isentos parece representar um coup d'état, revestido de aparência institucional, contra um governador legitimamente eleito —, deve-se lembrar que o TSE não passa de mais um entre os desmoralizados órgãos superiores do Poder Judiciário brasileiro, fonte de incontáveis decisões estapafúrdias movidas à corrupção do desregrado lobby, como aquela, no ano de 2004, relativa ao então governador Joaquim Roriz, do Distrito Federal, em ação proposta pelo Ministério Público com vistas à cassação de seu mandato.


Na ocasião, apenas para avivar a memória do leitor, deixou o TSE de cassar o ilegítimo mandato obtido por aquele execrável político brasiliense, conquanto figurassem nos autos provas inequívocas de uso de recursos públicos em prol de sua reeleição — entre as quais fotografias de veículos alugados pelo governo distrital, a exibir e transportar material de campanha do candidato —, provas essas que a relatora do processo, ministra Ellen Gracie, acompanhada, entre outros, por Carlos Mário Veloso e Peçanha Martins, preferiram não considerar "suficientemente robustas" para demonstrar o ilícito eleitoral que autorizaria a cassação. Registre-se, no julgamento desse feito, memorável voto divergente do então presidente da Casa, ministro Sepúlveda Pertence, homem público de rara integridade, como já não se vê na cortes do País.


Desta feita, como aparentemente sopram em tal sentido os ventos políticos — não se olvide que a decisão favorece os interesses diretos do mais importante clã maranhense, uma vez que a segunda colocada no pleito é a senadora Roseana Sarney, prontamente empossada no cargo usurpado —, achou por bem o TSE legitimar um golpe contra o governador Jackson Lago e, com isso, acomodar tenebrosos interesses que, por óbvio, não se limitam às fronteiras do longínquo e inexpressivo Maranhão.


Minha torcida pela resistência de Lago, até o limite do uso da força, se necessário fosse, representava, sim, a aposta em um conflito cujos reflexos bem se poderiam dilargar até o ponto de uma crise institucional de âmbito nacional que, a esta altura, me pareceria muito oportuna para uma necessária 'refundação' da República brasileira.


Infelizmente, apenas uma passageira quimera. Restou somente o golpe, consagrado pelo corrompido Judiciário e limitado, em seus efeitos mais evidentes e imediatos, ao governo de um mero coadjuvante estado da Federação.

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