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sábado, 24 de agosto de 2013

Cientistas brasileiros associam esquizofrenia ao mecanismo do sonho

Artigo publicado na Folha de S. Paulo de 23/08/13:

Experimento com cobaias liga esquizofrenia a sonho

RAFAEL GARCIA

A esquizofrenia é um transtorno psiquiátrico que em muitos aspectos lembra o estado onírico, gerando ideias desconexas e alucinações, e um estudo com ratos acaba de revelar como essa confusão acontece no cérebro.

A descoberta saiu de uma pesquisa realizada pelo Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), que desenvolveu um método para gravar impulsos elétricos no sistema nervoso de ratos, e criou um modelo para estudar a esquizofrenia em cobaias.

Reproduzir esse transtornos psiquiátrico em animais sempre foi um desafio. Como saber se um animal tem algo similar à esquizofrenia sem poder perguntar a ele se está alucinando e sem poder avaliar sintomas clínicos como a fala confusa e paranoia?

Para estudar o problema em ratos, os cientistas de Natal injetaram nos animais o anestésico quetamina, que em pequenas doses é conhecido por induzir delírio e sintomas psicóticos.

Depois, mediam as "ondas cerebrais" geradas pelas variações de impulsos elétricos, enquanto analisavam o comportamento dos animais.

"É claro que o rato não tinha como dizer se estava sonhando ou tendo alucinações", diz Adriano Tort, líder do grupo de pesquisa. "Mas o padrão de ondas que nós encontramos estava alterado, e era um padrão que já tinha sido visto antes em 'sono REM', o momento do sono associado aos sonhos."

O resultado --que analisou ondas cerebrais do hipocampo, estrutura cerebral importante para a memória e a consciência-- corroborou uma suspeita que já existia. Psicólogos já enxergavam semelhança entre o estado onírico e o tipo de alucinação que ocorre em esquizofrenia.

O estudo de Tort, Sidarta Ribeiro e colegas da UFRN, saiu na "Scientific Reports".



MACACOS

Um outro trabalho semelhante ao dos brasileiros, publicado no periódico "PNAS", descreve nesta semana um experimento semelhante, no qual a quetamina foi administrada em macacos resos.

Ricardo Gil-da-Costa, cientista português do Instituto Salk, de San Diego (EUA), descobriu um outro desvio nas ondas cerebrais dos animais. Desta vez, a anomalia estava associada à dificuldade que os animais tinham para se deixarem atrair por estímulos sonoros, e depois manterem atenção neles.

Uma das inovações aplicadas por Gil-da-Costa foi uma touca de encefalografia adequada para que se possa comparar o cérebro símio com o humano, algo essencial para estudar o transtorno.

"Um modelo animal melhor pode ser usado em investigação pré-clinica e para se desenvolver novas terapias", diz. "Muitas empresas farmacêuticas nos têm contatado precisamente por isso", afirma Gil-da-Costa.



terça-feira, 29 de novembro de 2011

Tribunal norueguês diz que terrorista cristão maluco é maluco mesmo

Chega da Noruega a notícia de que o Tribunal da capital, Oslo, considerou doente mental o tristemente famoso Anders Behring Breivik, que se identificava como "fundamentalista cristão", além de "anti-islâmico radical", e no último dia 22 de julho matou 77 pessoas num atentado terrorista na ilha de Utoya, naquele país. A declaração oficial de insanidade veio a público hoje, e foi atestada por dois psiquiatras forenses especialmente designados para a perícia, os Drs. Synne Serheim e Torgeir Husby, que diagnosticaram que Breivik é psicótico e já estaria nesta condição alterada da mente quando perpetrou o terrível atentado. O relatório médico indica ainda que o terrorista sofre de esquizofrenia paranoide, e vive no seu próprio universo imaginário, onde as coisas funcionam segundo as suas fantasias paranóicas. Na prática, assim como acontece no Brasil e em outras partes do mundo, ele será considerado inimputável, ou seja, não estará sujeito à pena que qualquer outro cidadão, em circunstâncias normais, teria que responder. Ainda que o sistema norueguês seja bastante liberal, isto não deve significar liberdade supervisionada imediata, entretanto, mas aquilo que se chama "medida de segurança", que é a internação num manicômio judicial por um certo período, sucessivamente renovável a critério do médico responsável pelo tratamento forçado, enquanto persistir a psicose ou o infeliz representar ameaça à segurança pública, o que permite concluir, dada a repercussão do caso, que se trata de um eufemismo para prisão perpétua. Amém!


Fonte: Aftenposten



segunda-feira, 6 de junho de 2011

Quando alguém ouve vozes, vê vultos e se torna ateu


O vídeo abaixo deve ser visto e ouvido com todo o cuidado e respeito devido a quem se expõe desta maneira e relata de forma corajosa e aparentemente sincera o problema que enfrentou (e continua enfrentando). O rapaz era mórmon (o que não é exatamente sinônimo de "cristão") quando começou a ouvir vozes e ver vultos, e não encontrou solução na sua religião, depois foi a uma sessão de umbanda (onde grotescamente lhe recomendaram que comesse menos feijão à noite para não ter pesadelos) e chegou a cogitar uma visita à igreja universal, mas estava convencido de que eles só queriam o seu dinheiro e rejeitou de plano concretizar a ideia. Após muito sofrimento e quatro tentativas de suicídio, foi diagnosticado como tendo transtorno bipolar e, a partir daí, buscou orientação médica adequada, passou a tomar remédios controlados e se tornou ateu. Aliás, por isso mesmo é preciso fazer um reparo no título do vídeo, "Como um ateu lida com espíritos": o jovem em questão NÃO era ateu quando começou a ouvir vozes e ver ectoplasmas. Isto é também um alerta para que tanto crentes como descrentes, ao passarem por essas experiências inusitadas, tenham o bom senso de buscar a ajuda especializada de um psiquiatra.


Ainda que se deva ouvir o que o rapaz diz com o respeito que lhe cabe, o vídeo deixa claro que a característica marcante do ateísmo que se diz "moderno" (ou "neoateísmo") é justamente a sua generalização, o que não deixa de ser um contra-senso, já que a antítese da religião a que se apegam - a ciência -, tem na especificidade (metodológica) uma de suas características definidoras. Se é verdade que muitos charlatões religiosos exploram problemas psiquiátricos atribuindo-lhes a condição de "espirituais", também é verdade que ninguém se torna ateu única e exclusivamente por ter transtorno bipolar, ou por não encontrar na religião uma solução para o seu problema. Em síntese, respeitada a peculiaridade de cada caso, não se deve - necessariamente - deixar os remédios por causa da religião, nem deixar a religião por causa dos remédios. Não existe uma relação intrínseca de causalidade, contradição, aversão ou mútua exclusão entre medicina e religião. Transtornos psiquiátricos, ainda que tenham - muitas vezes - referências religiosas, independem de crença ou fé, e há pessoas crentes que enfrentam o problema com toda a dignidade. Para muitas delas, a religião funciona inclusive como uma terapia de suporte, o que certamente não vale para outras pessoas, e por isso mesmo não se deve generalizar diagnósticos e tratamentos, algo que muitos ateus nem percebem que fazem, pois talvez estejam - por exemplo - oferecendo a "solução milagrosa" do ateísmo para a esquizofrenia, o que só faz sentido (ainda que equivocado) no contexto místico de uma religião qualquer. É importante insistir à exaustão que a especificidade de cada caso - grave como este - deve ser examinada por um médico habilitado para tanto, e jamais pode ser negligenciada a troco de qualquer tipo de generalização, seja ela religiosa, filosófica ou materialista.


Aliás, isto serve também para demonstrar como o neoateísmo está se transformando em uma "neo-religião" nem tão nova assim, como já comentamos no texto "Seria o neoateísmo uma antiga religião?". O depoimento do rapaz funciona como um "testemunho" de sua "conversão" aos demais não-crentes, exaltando os benefícios do não-crer. Ainda que seja, do ponto de vista humano, melhor do que muitos depoimentos fabricados sobretudo nos programas evangélicos na TV, não deixa de ser um testemunho para animar os seus irmãos de descrença. De qualquer maneira, independentemente do fato do rapaz ser ateu ou não, somos todos humanos, e fazemos os melhores e mais sinceros votos de que ele se cuide bem e tenha uma ótima e produtiva vida sem qualquer tipo de transtorno. Resumo da ópera: se você ouve vozes e/ou vê vultos, independentemente do que você crê ou não crê, procure um bom psiquiatra, que é o profissional indicado para avaliar o quanto a sua lucidez está comprometida (ou não) e lhe prescrever o melhor tratamento para o seu caso específico. Não é vergonha alguma, e - devidamente tratado - você pode continuar sendo religioso, ateu ou "tô nem aí" com toda a qualidade de vida que um ser humano merece e pode ter.

domingo, 8 de agosto de 2010

Um pai contra a esquizofrenia

A Folha de S. Paulo de hoje publica uma matéria que conta a história verídica e triste de um pai que perdeu seu filho para a esquizofrenia. 

O relato comovente merece ser divulgado para que outros pais que tenham filhos nas mesmas condições percebam os sintomas e se informem sobre a melhor forma de agir em situações parecidas.

Além disso, a paternidade (e a maternidade) não é feita só de alegrias, pelo que o drama vivido pelo Dr. Mario Sergio Limberte não deixa de ser um tributo a tantos outros pais que enfrentam dificuldades semelhantes e exercem dignamente a sua missão, nem sempre amada ou reconhecida:

MINHA HISTÓRIA / MARIO SERGIO LIMBERTE, 69

UM PAI CONTRA A ESQUIZOFRENIA

"(...)Meu filho nunca me perdoou pela internação. Duas vezes me disse que estraguei a vida dele.(...) Um pai que tem um filho com essa doença não pode ter medo de ser odiado"

RESUMO

Há três anos, o dentista Mario Sergio Limberte perdeu seu caçula, vítima dos efeitos dos antipsicóticos. Por dez anos, o pai mergulhou na prática e na teoria da doença. Devorou a literatura médica, ouviu as vozes todas da esquizofrenia. E preservou o elo com o filho. No livro "Cadê Minha Sorte?" (Scortecci), ele mostra sua luta contra o transtorno do filho, e passa know-how. Hoje, briga para mudar o nome da doença-estigma.

(...)Depoimento a
HELOÍSA HELVÉCIA
EDITORA DE EQUILÍBRIO E SAÚDE

Nenhum pai imagina ter um filho com doença mental. Durante toda a vida do meu filho após o diagnóstico, estudei a esquizofrenia. Importava livros. Os livros médicos brasileiros são ótimos, mas escritos por pais, não achei.

André foi um menino sadio, alegre. O caçula. Hoje, teria 33. O outro tem 35.
Teve uma infância feliz, posso dizer. Boa escola, viagens para a Disney...

Lá pelos 14 André ficou um pouquinho estranho. Não beijava mais a mãe. Quantos filhos não beijam a mãe, ainda mais na adolescência? Isso é o pior dessa doença. Vem vindo. Chega insidiosa, traiçoeira, confundindo.

MENINO BONITO

Mas André foi passando de ano. Quem sofre dessa doença não consegue concluir curso universitário. Há perdas cognitivas. Mas ele concluiu o de odontologia. E se recusou a ir na formatura.

Começou então o isolamento social. Era muito bonito, assediado pelas meninas. Passou a se fechar no quarto, não atendia mais telefone.

Pensamos que era droga. Aos 16, contou à mãe que ouviu vozes. Não demos importância. Hoje, sei que ouvia.

Depois que o perdi, abrindo as gavetas dele, descobri poemas e uma história gozada, que deu nome ao meu livro: "Cadê minha sorte?"

O André sempre trabalhou no teatro das escolas. Decidiu que queria ser o melhor ator em Hollywood.

Era já um delírio de grandiosidade, mas eu não percebia assim. Incentivei ele.

E ele foi, então, estudar teatro e cinema em Los Angeles. Mas quando viajou, seu isolamento já estava patente.

André ficou dos 19 aos 21 nos EUA. Fui visitá-lo.

À noite, vi que ele acordava muitas vezes, ia ao banheiro e ligava o chuveiro. Há um sintoma: o doente bebe muita água, compulsivamente. Eu me preocupei em não invadir. Não perguntei.

Voltei preocupado. Comprei um livro sobre esquizofrenia. Fiquei estarrecido.

Não contei para minha mulher. Entrei em depressão.

Eu tinha vontade de morrer por covardia, para sair da briga. O antidepressivo me ajudou. Pensei: se morro, quem cuida do meu filho?

Um dia, disse que não o sustentaria mais do que quatro meses lá. Ele veio.

Estava magro para burro.

No dia seguinte da sua chegada fomos almoçar num restaurante. Pegou um palito da mesa e disse: "Pai, quando eu sair daqui, os garçons vão disputar esse palito, só porque toquei nele". Delírio de grandeza. Também tinha delírios de perseguição, alucinações. Dava risadinhas, eram vozes debochando.

Uma noite, foi ao nosso quarto, começou a falar que tinha vindo salvar o mundo. Minha mulher, ingenuamente, interferia. Ele dizia: "Cala essa boca". Eu anotava tudo para levar ao médico. Excitado, André andava do quarto para a sala, falava da guerra do Iraque... Até que, exausto, dormiu numa poltrona. Deitamos no chão, ao lado dele.

Voltou dia 9 de novembro, no dia 14 já foi internado compulsoriamente.

Foi um dos piores dias da minha vida. Fiz uma armadilha para meu filho. Contratei ambulância, escolhi clínica.

Não é fácil internar um filho. O médico disse que ele corria risco de vida. Só então contei para minha mulher.

Ficamos escondidos. Vimos a ambulância chegar, ele sair com os enfermeiros. Aplicaram injeção, mas nem precisaria. Foi pacífico. Achou que era um sequestro.

Fui com meu carro atrás da ambulância. A médica da clínica fez perguntas para a gente. Falou: "Seu filho tem esquizofrenia, uma doença incurável". Ele tinha 22 anos. Sim, suspeitávamos, mas tudo tem um jeito para se falar.

Aquilo mudou nossa vida. Ficou tudo muito mais triste, mas eu sabia agora com o que estava lidando. Precisa ter esclarecimento para não achar que o seu filho é um vagabundo. Passei dia e noite lendo. Conheci bem as várias hipóteses, os remédios.

Ficamos quatro dias sem poder vê-lo. Ele mandou um bilhetinho pedindo desculpa pela noite do surto. Pensou que foi internado como uma punição, como um castigo.

Depois, quando permitiram visita, meu filho, grogue, disse: "Pai, você não podia fazer isso comigo. Acabou com minha vida".

Passaram-se dez anos assim: toma medicamento, melhora, piora.

André nunca me perdoou pela internação. Duas vezes me disse que estraguei a vida dele. Um pai que tem um filho com essa doença não pode ter medo de ser odiado. Mesmo assim, tenho culpa.

EFEITOS COLATERAIS

A medicação antipsicótica funciona só nos sintomas positivos (delírios e alucinações). Na parte cognitiva, não. Naquilo que incapacita, nada. Estamos longe do remédio ideal.

Os efeitos colaterais são horríveis. O doente passa a lutar contra a doença e contra os efeitos da medicação, que vão de constipação intestinal a impotência sexual.

Os médicos não dão importância a essas comorbidades. Como a doença é a pior coisa que existe, psiquiatras focam nela, não no doente.

O psiquiatra não toma a pressão, não pede exames, quando é sabido que cardiopatias são a segunda causa de morte dos doentes. A primeira é suicídio.

Fala-se muito nos livros médicos que os remédios dão condições de se ter uma vida razoavelmente boa.

Mentira. A maioria dos doentes não se casa, é solitária. André tinha namoradas no começo. Depois, não saía mais com meninas. Perguntei para o médico sobre a parte sexual, pedindo para ele ser ético, dizer só o que eu precisasse saber para ajudar.

E o médico me disse que meu filho tinha retardamento do orgasmo, mas isso não era nada. Se o André falasse sobre isso mais uma vez, poderia receitar Viagra. Falou como se fosse uma gripe.

Outro efeito é a obesidade.

O NOME DA DOENÇA

Não contei ao André o nome da doença. Segundo alguns autores, se o doente sabe, fica melhor para enfrentar. Outros dizem que essa informação leva mais rápido ao suicídio, se o doente é culto e tem noção das limitações.

O médico explicou o distúrbio químico no cérebro dele, o excesso de dopamina. O problema é o nome da doença. Se falo que meu filho tem esquizofrenia, a tradução é "louco". Não é só semântica. Precisa mudar.

Ninguém na família ficou sabendo da doença do André, muitos amigos também ficaram sabendo só no velório. Por que escondi?

Porque se contasse todo mundo ia se afastar, o isolamento seria ainda pior.
Na fase em que ainda não tinha palpitações por causa do remédio, o André até foi em baladas, se divertiu.

Aos poucos, veio o sintoma da pobreza de palavras. Falava pouco. Depois, catatonia. Ficava na poltrona, em posição fetal, imóvel.

Ele tinha alucinações visuais. Cismava com cores. Uma vez disse que estava vendo tudo cor-de-rosa. Sinal de que a dose não era mais suficiente.

Aí aumenta a dose, e o que acontece? Depressão e culpa. "Pai, eu não venço na vida, faço os testes e não me aceitam", ele me dizia. Eu falava que vida de artista era difícil mesmo, precisava paciência.

Meu filho passou várias fases de depressão e melhora.

DIA SOLITÁRIO

O dia da sua morte foi um domingo como outros. Dias antes, se queixou de taquicardia, mas tinha muitas palpitações sempre.

Almocei com ele no clube, deixei em casa e fui visitar minha mãe. Domingo é um dia solitário para todo mundo. Para ele, mais. Depois, sempre pegava ele para tomar cafezinho no shopping.

Eu que o encontrei. Achei que dormia. Sacudi, gritei. Estranho ter nas mãos seu filho morto. Que sensação.

Muitos doentes morrem do coração. Muitos se suicidam. Vivem menos que a maioria.

Não escrevi o livro por revolta. Não estou ligado a nada. Quis contar a história, talvez ajude outros pais.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Louco de carteirinha

Peço antecipadamente desculpas pelo título acima, já que o assunto é sério, mas talvez ridicularizá-lo seja a maneira mais eficiente de chamar a atenção para o absurdo que se comete contra quem sofre de esquizofrenia no Estado de São Paulo. Esquizofrenia é uma doença séria, que pode acometer qualquer pessoa em seus diferentes graus de manifestação, e é geralmente tratável mediante remédios controlados. É provável que você conviva com algum esquizofrênico e nem tenha percebido isso. Entretanto, o estigma social da esquizofrenia costuma ferir mais do que a própria enfermidade, tanto quem a sofre como seus familiares. Se quiser saber mais sobre isso, leia o livro - altamente recomendável - "Uma Mente Inquieta", de Kay Redfield Jamieson, que é a autobiografia real de uma médica psiquiatra, acostumada a cuidar de esquizofrênicos, e que, de uma hora para outra, passa a sofrer de esquizofrenia também. O relato dela é impressionante e vale a pena ser lido, algo parecido como o tratador de uma fera no zoológico que fica do lado de fora da jaula, mas que a partir de um certo momento tem que tratar a fera do lado de dentro, e a conviver com ela por um longo tempo.

Dito isto, algo estranho acontece no sistema de saúde pública do Estado de São Paulo. Parece mentira, mas infelizmente não é. Para retirar os remédios controlados que recebem do Estado, os esquizofrênicos de São Paulo estão tendo que usar uma carteirinha amarela (vide abaixo) em que aparece - com letras garrafais - a palavra ESQUIZOFRENIA. Imagine o constrangimento da pessoa que já tem que lutar contra uma enfermidade grave, ao ter que expor a todos a sua condição. Por isso, transcrevo abaixo o texto da página do deputado estadual Fausto Figueira (PT), que tem uma carta dolorida e emocionante de um esquizofrênico exposto a este tipo de situação:



A utilização de uma carteira, emitida pela Secretaria de Saúde do Estado, por pacientes dos serviços de atendimento à saúde mental, com a palavra “esquizofrenia” estampada em letras graúdas, levou o deputado estadual Fausto Figueira (PT) a pedir providências ao promotor de Direitos Humanos na área de Saúde Pública, Arthur Pinto Filho, contra o que considera uma discriminação de inspiração nazista.

Segundo o deputado, o secretário da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, “é o gestor da saúde pública no Estado de São Paulo, e tem o dever de impedir que pacientes sejam discriminados, notadamente o doente mental.”

A denúncia partiu de um paciente, autor da carta “A Esquizofrenia e a Estrela de David”, encaminhada à Comissão de Saúde da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, presidida por Figueira. Na mensagem, o paciente diz que no dia 20 de abril, ao retirar o medicamento do qual faz uso na Farmácia de Medicamentos Especializados, em Santos, gerenciada pela Cruzada Bandeirante São Camilo, sob os auspícios da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, recebeu uma carteira amarela com a palavra “esquizofrenia” estampada em letras graúdas.

O paciente, sentindo-se discriminado, equiparou a carteira recebida ao período nazista e argumentou que a carteira afronta a Lei 10.216 (chamada Lei Paulo Delgado), pois quebra do sigilo do diagnóstico estabelecido em prontuário.

“Sabe-se – diz o deputado na justificativa da sua representação - que o estigma traz problemas (..) como a exclusão do individuo com doença mental nas suas relações sociais. (...) As doenças mentais devem ser encaradas do mesmo modo que as doenças físicas. Tal como o câncer e as doenças de coração, sabe-se que muitas doenças mentais têm causas definidas, requerendo cuidados e tratamento específicos. Quando os cuidados e o tratamento são prestados, é de esperar uma melhoria ou recuperação, permitindo às pessoas regressarem à comunidade e retomarem vidas normais. Infelizmente, os preconceitos impedem que as pessoas, uma vez recuperadas ou tratadas, consigam dar os passos para reingressar na vida familiar e social, com total plenitude.”

Segundo Figueira, “a ‘Carteira do Esquizofrênico’, assim denominada pela denúncia do paciente discriminado, também contraria a Declaração de Direitos do Deficiente Mental, da Organização das Nações Unidas e a própria Constituição Federal, merecendo ser repudiada”.

Abaixo, a íntegra da carta do paciente encaminhada à Comissão de Saúde e Higiene da Assembleia Legislativa:

A Esquizofrenia e a Estrela de David

“Em 1938, a chamada “Noite dos Cristais” marca o início da perseguição aos judeus na Alemanha e na Áustria. Posteriormente, os judeus são confinados em bairros determinados e obrigados a andar com a estrela de David estampada em papelete amarelo e pregada junto a roupa, de forma que fossem facilmente identificados.

“Esse segregacionismo também é estendido aos ciganos, comunistas, homossexuais e, inclusive, aos doentes mentais. A Alemanha de Hitler exterminou e perseguiu milhões de pessoas, constituindo-se como uma das mais horrendas e vergonhosas páginas da história do Homem. Infelizmente o preconceito e perseguição às minorias chegam até os nossos dias, seja pelo viés das piadas e comentários de gosto duvidoso, seja por grupos organizados como os ‘skinheads’.

“Em 20 de abril de 2010, ao retirar o medicamento do qual faço uso na Farmácia de Medicamentos Especializados, em Santos, gerenciada agora pela Cruzada Bandeirante São Camilo, sob os auspícios da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, recebo uma carteira amarela com enormes carimbos estampados: ESQUIZOFRENIA.

“Confesso que num primeiro momento a única coisa em que pensei foi que havia em minha testa uma tatuagem, um carimbo com meu diagnóstico estampado para que todos pudessem apontar e dizer: ‘Lá vai o esquizofrênico’. Teria sido apenas um ‘ato falho’ da burocracia? Quem sabe uma ação inconsciente do recém-admitido gestor da farmácia? Ou seria, então, uma política pensada e planejada para expor e reafirmar o estigma das pessoas?

“A Lei 10.216 (chamada Lei Paulo Delgado), assim como outras leis específicas da legislação médica, é ferida frontalmente na medida em que o sigilo do diagnóstico estabelecido em prontuário médico é, escancaradamente e em letras garrafais, divulgado. A Carteira do Esquizofrênico, nesse sentido, é uma afronta ao bom senso. Mais do que isso, é ilegal, dissemina o preconceito, ofende a ética e, sobretudo, causa revolta.

“Todo o trabalho, treinamento, aprimoramento, debates, documentos, fóruns, leis promulgadas, etc., é jogado por terra por atos que denotam a verdadeira face de governantes descomprometidos com os avanços conquistados pelas lutas dos doentes mentais. A Carteira do Esquizofrênico mostra a verdade, ela rotula nossas misérias para calar a nossa voz.

Um governo que se nega a convocar a Conferência Estadual de Saúde Mental; que pouca importância dá à Saúde Mental de nosso município; que sucateou os serviços do Hospital Guilherme Álvaro para entregá-lo à iniciativa privada; que sucateou a antiga Farmácia de Medicamentos de Alto Custo para mais uma vez entregar um serviço público à iniciativa privada e que, em conjunto com a Prefeitura Municipal de Santos, vem precarizando os NAPS, só poderia mesmo mostrar todo o seu pensamento em relação a nós, usuários dos serviços, num ‘ato falho’: a ‘Carteira de Louco’.

“A burocracia burra e mal intencionada é um dos braços desta máquina de estigmatização. Primeiros os loucos, depois os pobres, depois os negros, e assim por diante, até que todas as vozes contrárias sejam suprimidas.

“O passo seguinte ao de retirar a nossa voz é nos colocar novamente nos manicômios (ou nos trinta novíssimos leitos psiquiátricos recém-abertos pela Cruzada Bandeirante São Camilo) e, retrocedendo ainda mais, aplicar-nos castigos como o eletrochoque, a solitária e outros métodos sádicos, que brotam na mente dos que administram as instituições desse caráter, chegando, por fim, à tão sonhada volta da lobotomia, em que o Estado poderia estar livre de despesas e questionamentos.

“Não, não tenho vergonha de ser esquizofrênico. Mas também não posso dizer que é fácil lidar com o preconceito. Por todos os lugares onde tento fazer valer a minha cidadania, logo vem a taxação: é louco! Também não é raiva o que sinto, nem indignação. É um sentimento de impotência frente a esta máquina tão poderosa que fatalmente irá desconsiderar meu desabafo com apenas um argumento: “é louco”. E isto é o que faz minhas pernas e meu corpo fraquejarem, mas parafraseando Cazuza no final de sua vida, morro atirando.”

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