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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O filho que não perdoa o pai pelo que ele fez durante a ditadura argentina


A matéria foi publicada na BBC Brasil:

A luta de argentino para denunciar o próprio pai por crimes da ditadura

Marcia Carmo

O advogado Pablo Verna, de 44 anos, fez um pedido ao Congresso Nacional do seu país, a Argentina: ele quer que a legislação em vigor, que impede familiares de denunciarem e prestarem depoimentos à Justiça contra seus parentes, seja modificada.

Seu objetivo é ter o direito de denunciar e depor contra o pai, que foi médico do Exército durante a ditadura argentina (1976-1983). Ele diz que Julio Alejandro Verna, hoje aos 70 anos, admitiu ter injetado sedativos em vítimas do regime militar antes que elas fossem lançadas dos chamados "voos da morte", que arremessavam os prisioneiros ainda vivos em rios ou no mar.

O pai dele está livre. Questionado certa vez por uma repórter, o médico negou ter sedado desaparecidos políticos para esse fim. "Não, senhora. De onde tiraram isso?"

Pablo Verna integra o Histórias Desobedientes, grupo que reúne 25 filhos de ex-repressores da ditadura argentina. Leia seu depoimento à BBC Brasil:

"Há muito tempo eu desconfiava que meu pai tinha cometido crimes na ditadura militar. Nas conversas em casa, ele demonstrava conhecer detalhes demais dos crimes cometidos naquele período horrível. Mas quando eu perguntava por que ele sabia tanto, respondia que eram as enfermeiras que lhe contavam.

Meu pai era médico do Exército argentino. E com o passar dos anos, baseado no que ele mesmo me dizia, passei a questioná-lo com tom mais critico, e de acusação.

Nossa relação foi ficando cada vez mais tensa. Duas conversas foram aos gritos. Em 2009, eu já tinha certeza de que ele tinha participado dos crimes. Mas não sabia como. Não tinha os fatos concretos. Além disso, como filho, acho que queria manter a dúvida diante de algo tão pavoroso.

Então, em meados de 2013, em mais uma conversa tensa, ele admitiu que tinha cometido os crimes. Não lembro as palavras exatas que usei para que admitisse isso. Mas naquele encontro lembrei o que meu pai tinha contado a um familiar e as respostas anteriores que tinha me dado cada vez que abordei o assunto. Foi impossível para ele negar o que tinha feito. E até que me disse: 'foi isso mesmo'.

Como médico, meu pai participava dos crimes da ditadura injetando sedativos nas pessoas que seriam jogadas vivas ao rio ou ao mar. Eram anestesias que as deixavam imediatamente paralisadas, mas respirando. E quando elas estavam assim, as jogavam dos 'voos da morte', como ficaram conhecidos.

Meu pai cometeu outros crimes. Ele também participava dos sequestros dos opositores, dos militantes sociais e políticos. Foram 30 mil desaparecidos no nosso país. A ditadura genocida sequestrava e fazia essas pessoas desaparecerem.

Depois daquela conversa em meados de 2013, ele disse a um familiar que não estava arrependido. E ainda acrescentou que tinha participado de um caso específico que teve muita repercussão aqui na Argentina.

Em 1979, quatro pessoas foram sequestradas e também receberam as injeções de anestesia. Elas foram jogadas em um riacho, uma simulação de um acidente de carro em uma ponte. As quatro morreram.

Como médico militar, meu pai estava sempre armado. Isso até passar para a reserva, em 1983, com o retorno da democracia no país. E além desses crimes genocidas, certa vez ele apareceu em casa com uma maleta de primeiros-socorros de médico que não era dele. Que era de uma das vítimas da ditadura. Eu perguntei porque estava com duas maletas, e me respondeu que tinha sido um presente. Que uma das maletas tinha sido de um subversivo.

Na minha casa, as palavras que ele usava eram chamativas, como 'subversivo'. Eram palavras de um genocida. Era um discurso ideológico para eliminar os que eram opositores ao regime militar. Uma vez, disse que os opositores eram mortos porque, quando eram presos e soltos, ficavam ainda piores.

A nossa relação foi rompida naquela conversa em meados de 2013, quando meu pai admitiu os crimes. Mas no dia seguinte ele me ligou para saber se eu tinha contado para minha mulher. Depois disso, ficamos sem nos falar até pouco tempo - dias atrás, ele me telefonou para, ao meu ver, fazer ameaças. Também faz isso por meio de conversas com parentes, cujos relatos chegam até mim.

Eu me afastei de muitos familiares. Primeiro, para evitar encontrá-lo, e ainda porque uma parte da minha família se recusa a saber, nega o que ocorreu. Acha que isso é um problema entre duas pessoas - no caso meu pai e eu. Mas isso não é um simples problema entre duas pessoas, é entre ele e a humanidade, na qual eles, os familiares, estão incluídos.

Hoje meu pai está livre, mas é investigado porque o denunciei na Secretaria de Direitos Humanos poucos meses depois daquela nossa conversa. Agora o caso dele faz parte de uma imensa apuração, levada adiante pelos defensores das vítimas na que ficou conhecida como 'megacausa contraofensiva', pela repressão e extermínio ocorridos no Campo de Mayo nos anos 1970 e 1980. O local foi um centro clandestino de prisão e extermínio horrível no nosso país.

Essa casa deixou poucos sobreviventes e provas. Meu problema hoje, como filho, é que, apesar de ter essas certezas contra meu pai, encontrei barreiras na legislação que me impedem de denunciá-lo penalmente. No Código de Processo Penal da Argentina, existem dois artigos que proíbem que familiares denunciem e deem depoimento, já no processo, contra outros familiares.

Ou seja, não podem ser testemunhas contra outros familiares. Por isso, entramos com esse projeto de lei pedindo que essas proibições não sejam aplicadas para os casos de crimes contra a humanidade. E assim nós, filhos de repressores, poderemos denunciar nossos pais judicialmente, além de prestar depoimento contra eles nos julgamentos.

Nós do coletivo Historias Desobedientes, que somos filhos e filhas de genocidas, vivemos nas nossas casas, com nossos pais, a imposição de um mandato de silêncio, de maneira implícita ou explicita.

Os genocidas fizeram um pacto de silêncio que cumprem até hoje. Eles não revelam o que fizeram e o que os outros militares fizeram. Mas depois de muitos anos, e de conscientização do que aconteceu, e da nossa própria ética, decidimos levar as acusações adiante. Mas aí nos deparamos com esses artigos da legislação argentina.

Apresentamos esse projeto de lei no dia 7 de novembro na mesa de entrada da Câmara dos Deputados. No nosso grupo, alguns já têm os pais mortos, outros condenados e outros, impunes.

No meu caso, espero que meu pai seja investigado. E que ele e os outros genocidas reflitam e tenham alguma dignidade em seus últimos anos de vida. Que deem um pouco de paz a tantos familiares que não sabem qual foi o destino de seus parentes desaparecidos. E paz até para eles, genocidas. Porque eles também devem viver um inferno em suas mentes e corações.

Nós, como coletivo, sabemos que nossa iniciativa, com esse projeto de lei, pode ajudar no contexto das investigações. Coisas que ouvimos nas nossas casas podem aportar no contexto em que os crimes foram cometidos. Inclusive os casos de roubo que as vítimas da ditadura sofreram.

Nossa iniciativa não dará resposta a tudo. Mas pode contribuir para acabar com a impunidade mantida pelos genocidas."



terça-feira, 27 de setembro de 2016

O papel do perdão no processo de paz da Colômbia


Ontem, 26 de setembro de 2016, foi um dia de júbilo para a humanidade, para a América Latina em especial e para a linda Colômbia em particular.

Vestidos de branco, mais de 2 mil autoridades de todos as procedências do mundo presenciaram - em Cartagena de las Indias - a assinatura do tratado de paz entre o governo colombiano e as FARC, pondo fim a um conflito que durou 52 anos, dizimando mais de 260 mil pessoas.

No meio de tanta dor, é possível perdoar? Como fica o perdão tanto do ponto de vista individual como coletivo?

O processo de mediação e entendimento no caso colombiano pode ser replicado mundo afora?

O excelente artigo abaixo, publicado no Estadão de ontem, talvez nos ajude a procurar (e encontrar) as respostas:

‘Prefiro as Farc no Congresso do que causando dor'

Mulher de deputado morto pela guerrilha conta como foi ouvir pedido de perdão e pede apoio ao acordo de paz

"Prefiro ver as Farc no Congresso, transmitindo suas visões por meio de palavras e debates do que vê-las no campo atirando e causando mais dor." Essa é a opinião de Fabiola Perdomo, mulher de um dos 11 deputados de Valle de Cauca sequestrados pela guerrilha em 2002. Como parte do processo de paz, há duas semanas, as Farc pediram perdão pela primeira vez e assumiram total responsabilidade pela morte dos deputados, ações que levaram Fabíola a ter certeza de que a guerrilha mudou e a decidir fazer campanha pelo "sim" no plebiscito de 2 de outubro para saber se a população ratifica o acordo.

Em entrevista ao Estado por telefone, Fabíola relembra os cinco anos que lutou pela vida do marido, Juan Carlos Narváez, e como foi ouvir que ele estava morto. A seguir, a entrevista:

A senhora acreditava em um acordo de paz?

Sempre esperei isso. Sou desses colombianos que acreditavam que a única forma de solucionar o conflito interno era por meio de uma negociação política, do diálogo, pois temos certeza de que o que se consegue pela força, só se mantém pela força. Tivemos muitas dúvidas, principalmente nos anos de radicalização das Farc, quando sequestraram meu marido, tínhamos um governo que só via a guerrilha de forma intransigente e possível de combater militarmente. Quando o atual presidente começou a trabalhar nisso (negociações de paz), fiquei muito feliz de ver que poderia haver um caminho diferente. Aí não duvidava de que chegaríamos a uma saída.

Como foi ouvir o pedido de desculpas das Farc?

Muito doloroso, mas antes de nos pedirem perdão pudemos fazer o que queríamos havia muito tempo: transmitir nossa dor, reclamar por todo o mal que nos causaram e mostrar os danos que sofremos. Foi um encontro de mais de 3 horas e, antes de pedirem perdão, nos disseram a verdade, responderam às perguntas que tínhamos. Depois veio o pedido, o clamor por perdão por parte do secretariado das Farc às famílias dos deputados de Valle de Cauca. Foi um momento muito doloroso, de muitas lágrimas, que ficará gravado na nossa memória, mas que também foi de esclarecimento para as vítimas. Perdoar não é apenas perdoar os que fizeram o mal, é nos dar o direito, como vítimas, de tirar dúvidas, nos livrar do rancor, do ressentimento. Hoje posso dizer que estou trabalhando a dor, posso começar a fechar esse capítulo, o que não pude por 14 anos porque não tinha respostas.

Hoje a senhora pode dizer que finalmente conhece a verdade sobre tudo o que aconteceu?

Posso dizer que 90%. Faltam esclarecer questões que eles (Farc) ainda precisam explicar e, para isso, pediram uma nova reunião em algumas semanas para terem todas as informações. Mas só o fato de ter visto a mudança de atitude de uma guerrilha que deixou de ser arrogante e desumana, que sentiram vergonha diante de nós e suplicaram nosso perdão, para mim já é suficiente.

O que falta ser sanado?

Duas coisas. Nos encontramos com os comandantes do sequestro, mas queremos encontrar quem deu a ordem para disparar os tiros. Para reconstruir a memória de nossos parentes, queremos saber o que ocorreu, como eles viviam. Também pedimos para ter de volta qualquer pertence de nossos maridos que ainda estejam em posse das Farc, como diários, artefatos. Queremos fechar esse capítulo.

Como foi apertar a mão do homem que planejou o sequestro de seu marido?

Decidi fazer isso, principalmente, em homenagem ao meu marido, que foi um grande homem. E fiz isso contando a eles (Farc) quem foi esse homem que mataram, que tiraram de mim. Poder fazer isso foi uma forma de reivindicar o nome do meu marido e mantê-lo na memória de todos, pois quem é mantido na memória nunca morre. Depois das conversas, um padre nos convidou a rezar uma missa e nesse momento tomei a decisão de dar as mãos a Iván Márquez e Catatumbo, me coloquei no meio dos dois, e durante toda a oração eu entreguei as palavras ao meu marido. Todos os pedidos de perdão entreguei a ele, para ele descansar e eu me despedir. Foi doloroso ter a mão dada a quem ordenou a morte de nossos parentes, foi um momento mais do que simbólico, foi um momento de grande nível espiritual, que nos permitiu sentir de verdade o perdão.

A senhora os perdoou depois do encontro?

Acredito que já os havia perdoado, faltava terminar algo que estava inacabado, que é o sofrimento. A dor é inevitável, vou carregar por toda minha vida. Hoje não tenho raiva, ódio, rancor, só uma dor enorme.

Como foi o sequestro de seu marido?

Foi em 2002. Ele era presidente da Assembleia departamental. Naquele dia, 12 deputados chegaram mais cedo para a sessão e estavam trabalhando quando a guerrilha entrou, disfarçada de Exército, dizendo que precisava esvaziar o local porque havia uma bomba. Eles entraram em uma espécie de van, mas não era o Exército. Ficaram em cativeiro por cinco anos e dois meses. Lutamos por cinco anos pela vida deles, por sua liberdade. Minha filha tinha 2 anos quando levaram meu marido. Após cinco anos mataram meu marido, em uma confusão entre eles mesmo, um confronto entre duas frentes. Eles (Farc) assumem toda a responsabilidade, não só porque foram incapazes de protegê-los, mas também porque foi com balas da mesma guerrilha que os mataram.

A senhora recebia notícias de seu marido nesses cinco anos?

Sim. A cada seis meses, nos chegavam provas de sobrevivência. Eram sempre vídeos com cerca de dois minutos para cada deputado falar com a família. Era principalmente para mostrar que estavam vivos. Eles aproveitavam o espaço para nos fazer perguntas, declarar seu amor e, claro, pedir ao governo uma solução.

A senhora se lembra de como recebeu a notícia da morte de seu marido?

Sim. Estava dormindo quando um jornalista me ligou e perguntou 'já viu a notícia de Ancol (uma espécie de agência das Farc)?'. Disse que não e perguntei se havia mais provas de sobrevivência. Então ele me disse 'não, mataram 11 dos 12 deputados'. Eu lhe perguntei 'Juan Carlos está vivo?' e ele me disse que não. Nesse momento senti que meu chão se abria, que tudo estava perdido e os cinco anos de luta haviam sido inúteis.

Como contou para a sua filha?

Foi doloroso. Me fechei em um banheiro chorando e não sabia que ela estava me escutando. Há pouco ela contou que me escutou dizendo a parentes por telefone 'mataram Juan, mataram Juan'. Essas foram as palavras que minha filha se lembrará por toda vida.

O que a senhora pensa agora das Farc ingressarem na vida política?

Prefiro ver as Farc no Congresso, transmitindo suas visões por meio de palavras e debates do que vê-las nos campos atirando, causando mais dor, mais sofrimento, deixando mais órfãos e mutilados nesse país. Acho que devemos dar a eles essa oportunidade e merecemos isso como colombianos. O dano que nos causaram é tão grande que estamos dispostos a ceder à justiça em troca de que não repitam as ações. A não repetição é o melhor incentivo para que as vítimas apoiem esse processo de paz.

Hoje qual é a sensação de fazer campanha pelo sim no plebiscito?

Sentimos que há esperança, que mesmo as pessoas que não acreditavam no processo (de paz) e tinham muitos questionamentos começaram a acreditar, começaram a ver a mudança de atitude das Farc e entender que o processo foi construído milimetricamente, inclui muitos setores do país, desde as vítimas, passando pelos grupos étnicos, setores empresariais e militares. Acredito que seja um acordo sério, responsável e possível. Há uma grande esperança de que esse país mude e possamos virar a página da guerra, do terror, e começar a escrever uma nova página de esperança, perdão, acordo.



sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Padre Cícero finalmente é perdoado pelo Vaticano

A informação é d'O Globo:

Mais de um século após punições, Vaticano perdoa Padre Cícero

Decisão do Papa abre caminho até para beatificação de líder religioso

CIDADE DO VATICANO - Ícone nordestino escorraçado da Igreja Católica por divergências teológicas em torno de um episódio interpretado por ele e seus seguidores como milagre — mas rejeitado como tal pela alta hierarquia da instituição — o padre cearense Cícero Romão Batista foi enfim perdoado pelo Vaticano. Nove anos após um apelo do bispo dom Fernando Panico, da Diocese do Crato, o Papa Francisco considerou em carta que não há motivos para que se impeça que o líder religioso cearense seja reabilitado, beatificado ou canonizado.

Padim Ciço, como é conhecido por muitos, recebeu várias punições da Igreja após 1889, quando, na crença popular, uma hóstia dada por ele a uma beata virou sangue na boca dela. O fenômeno teria se repetido dezenas de vezes ao longo de dois anos. A partir de 1892, ele ficou 24 anos sem poder oficiar missas.

“A presente mensagem foi redigida por expressa vontade de Sua Santidade, o Papa Francisco, na esperança de que Vossa Excelência Reverendíssima não deixará de apresentar à sua Diocese e aos romeiros do Padre Cícero a autêntica interpretação da mesma, procurando por todos os meios apoiar e promover a unidade de todos na mais autêntica comunhão eclesial e na dinâmica de uma evangelização que dê sempre, e de maneira explícita, o lugar central a Cristo, princípio e meta da História”, dizia a carta enviada pelo secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin.

O culto a Padre Cícero atrai, anualmente, dois milhões de romeiros a Juazeiro do Norte (CE), cidade onde fez fama e que governou como primeiro prefeito, quando o município foi criado em 1911. Mas a permissão para voltar a celebrar missas só veio em 1916. Ele morreu em 1934. Hoje, uma estátua de 27 metros o homenageia em Juazeiro.

— Com o perdão e reconciliação, fica entendido que Padre Cícero não errou. Todas as punições foram suspensas. A Igreja entendeu que sua pregação estava no caminho certo, e por isso a devoção a ele continuou crescendo durante todos esses anos — disse o chanceler da diocese do Crato, Armando Lopes.



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Papa abre igrejas para perdoar mulheres que abortaram

A matéria é da BBC Brasil:

Papa oferece 'perdão' a mulheres que fizeram aborto

Erika Zidko

A Igreja Católica vai oferecer no próximo domingo em todo o mundo a chance para que mulheres que fizeram aborto sejam "perdoadas" se cumprirem certos procedimentos. A absolvição, que também poderá ser estendida a mulheres mortas, faz parte do Jubileu da Misericórdia, o Ano Santo da igreja que começa na terça-feira e vai até 20 de novembro de 2016.

"A absolvição do pecado do aborto é uma prerrogativa dos bispos que, em situações particulares, podem delegar esta função aos padres. Todavia, durante o Ano Santo, para facilitar ainda mais o perdão, o papa Francisco concedeu esta faculdade a todos os sacerdotes", disse à BBC Brasil o padre Geraldo dos Reis Maia, reitor do Colégio Católico Pio Brasileiro, em Roma, administrado pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

"Conheço bem os condicionamentos que as levaram a tomar esta decisão. Sei que é um drama existencial e moral. Encontrei muitas mulheres que traziam no seu coração a cicatriz causada por esta escolha sofrida e dolorosa", afirmou Francisco em setembro, quando descreveu as diversas formas em que será possível obter indulgências. 

Peregrinação e arrependimento

O Jubileu da Misericórdia começará com a abertura da Porta Santa da Basílica de São Pedro, no Vaticano, mas no dia 13 de dezembro diversas catedrais e igrejas no mundo todo também abrirão as portas para oferecer o perdão. Para recebê-lo, os fiéis devem realizar uma peregrinação até as igrejas, além de se confessarem e comungarem. "A misericórdia pode ser concedida não apenas para a mulher que optou pela interrupção da gravidez, mas para qualquer pessoa que tenha, de qualquer modo, contribuído para a ocorrência do aborto", ressalta o padre Geraldo.

As pessoas que estiverem impossibilitadas de ir até uma das "portas santas", como doentes, idosos e presos, também podem receber a absolvição dirigindo o pensamento e a oração a Deus. Os fiéis podem participar da santa Missa e da oração comunitária à distância também. A indulgência pode ser obtida também para pessoas falecidas, por intermédio de orações feitas por parentes ou amigos.

"Todos os fiéis são chamados a participar, mas os que não estiverem em condições de cumprir estas determinações podem fazê-lo no sentido espiritual. As orações, as penitências pessoais, assim como o oferecimento dos próprios sofrimentos também são formas de participação", afirma padre Geraldo.

Quartos vazios

A Igreja Católica deu início à tradição do Ano Santo em 1300. Inicialmente, a manifestação religiosa acontecia a cada século. Sucessivamente, os jubileus passaram a ser organizados a cada 50 anos e, desde 1475, são realizados a cada 25, para permitir que fiéis de cada geração possam participar de pelo menos um Ano Santo. Atualmente, o evento também pode ser convocado pelo papa em situações de particular importância.

O último havia sido realizado em 2000, pelo papa João Paulo II.

Cerca de 100 mil peregrinos devem visitar o Vaticano durante a abertura do evento.

"As estimativas foram revistas para baixo após os hotéis da capital italiana terem recebido diversos cancelamentos por parte de turistas estrangeiros depois dos ataques em Paris", disse à BBC Brasil o presidente da Associação dos Hoteleiros de Roma, Giuseppe Roscioli.

Até o dia 4, apenas 54% dos hotéis da capital italiana tinham recebido reservas para as noites próximas à data de abertura da Porta Santa, contra uma estimativa inicial de cerca de 80%.

"Em relação a dezembro do ano passado, quando não tivemos um evento religioso extraordinário como este, o número de reservas para os hotéis de Roma caiu 10%", diz Roscioli.



quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Pais espancam filho até a morte em igreja evangélica dos EUA

O pai Bruce, a mãe Deborah, Joseph Irvin, David Morey, Linda Morey, e a irmã Sarah

A informação absurda mas tristemente real vem da Folha de S. Paulo.

A "razão" para o espancamento (leia-se "tortura") era fazer Lucas (o rapaz morto aos 19 anos de idade) e seu irmão Christopher (de 17, internado em estado grave) confessarem seus pecados e pedirem perdão.

A irmã deles, Sarah Ferguson, também teria participado das agressões.

A Fox31 de Denver, Colorado, acrescenta alguns detalhes interessantes.

Os dois rapazes foram educados em casa, no esquema de "home school" típico de muitas famílias conservadoras americanas.

No total, seis monstros membros da igreja foram presos. Ao macabro trio dos pais e da irmã se juntaram Joseph Irwin, David Morey e Linda Morey. O sexteto do mal está na foto acima.

Ao averiguar o fato, as autoridades locais teriam encontrado algumas crianças na igreja, que foram encaminhadas ao serviço de proteção de menores da cidade.

É fácil atribuir uma loucura dessas ao fanatismo e à ignorância, mas o buraco pode estar mais embaixo.

No fundo, é uma demonstração de sadismo travestido de "piedade". 

Talvez haja muito mais sádicos dissimulados dentro das igrejas evangélicas do que nossa vã consciência consegue perceber.

Não há vez nem espaço para a compaixão...

É muito cômodo pensar que isto é uma exceção dentro das igrejas evangélicas, um fato isolado, mas a profilaxia começa em casa, seria muito interessante analisar como ajudam a reforçar esse quadro de horror o discurso do ódio, a obsessão com o "pecado", a indiferença com o sofrimento alheio e a tolerância pseudoecumênica e parcimoniosa com as heresias que se cometem abundantemente em nome de Cristo.

Eis a matéria da Folha:

Jovem é espancado até a morte 
pelos pais em igreja dos EUA

Um jovem de 19 anos foi morto após ser espancado durante horas dentro de uma igreja por seus próprios pais e irmã, além de outros membros da congregação, segundo informações divulgadas pela polícia nesta quarta (14). Seu irmão também foi espancado no ritual.

Os pais, Bruce Leonard, 65, e Deborah, 59, compareceram diante de um juiz na terça e se declararam inocentes pela morte do filho, Lucas.

Outros quatro membros da congregação da Igreja Palavra da Vida de Chadwicks, cidade de 22 mil habitantes no Estado de Nova York, foram presos e indiciados por torturarem o irmão mais novo de Lucas, Christopher.

"Ambos os irmãos foram continuamente sujeitos a punições físicas durante várias horas com o objetivo de que ambos confessassem seus pecados e pedissem pelo perdão", disse Michael Inserra, chefe da polícia de New Hartford, que investiga o caso.

Lucas Leonard morreu na tarde segunda-­feira após ser levado a um hospital por familiares, os quais mentiram aos médicos dizendo que ele havia sido atingido por um tiro de arma de fogo, segundo a polícia. Os ferimentos de Lucas eram compatíveis com "trauma contundente" em seu tronco e membros.

Por meio de interrogatórios de membros da igreja, a polícia soube que o irmão mais novo de Lucas, Christopher, 17, também havia sido torturado durante a sessão. O rito para a expiação dos pecados era realizado após as missas e presidido pelo pastor ou um membro da congregação, disse Inserra.

A polícia cercou a igreja, onde Christopher era mantido. O adolescente foi transferido para um hospital local e se encontrava em estado grave.

Sarah Ferguson, 33, irmã das duas vítimas, e três outros membros da igreja foram presos e indiciados por agressão.

A fiança dos pais de Lucas Leonard foram estipuladas em US$ 100 mil cada.

Os investigadores não têm muitas informações sobre a Igreja Palavra da Vida, que se descreve simplesmente como uma igreja cristã em uma placa na frente de seu templo.



quinta-feira, 23 de julho de 2015

Jovem estuprador do PI pediu perdão à mãe antes de ser morto


A informação é da Folha de S. Paulo:

Em carta, jovem pediu perdão à mãe antes de ser morto em cela no Piauí

Antes de morrer, o adolescente Gleison Vieira da Silva, 17, escreveu uma carta para a mãe pedindo perdão. Gleison foi espancado até a morte na última quinta-feira (16) dentro de alojamento do CEM (Centro Educacional Masculino), em Teresina, no Piauí.

Condenado por estupro coletivo de quatro garotas em Castelo do Piauí (a 190 km de Teresina), em maio, Gleison foi espancado com socos e pontapés.

Ele dividia a cela com três adolescentes que delatou como participantes dos estupros e agressões às meninas –uma delas morreu.

Na carta entregue para a mãe Elisabete Vieira da Silva, no dia 11 de julho, sete dias antes de sua morte, o adolescente pede perdão pelo que fez e por não ter sido o filho que ela sempre quis.

A mensagem é escrita à mão com caneta tinta preta e tem vários erros gramaticais. No envelope, na parte externa, o jovem pede para que a mãe guarde a carta –disse que queria lê-la novamente quando estivesse em liberdade.

"Mãe, sinto muita sua falta, eu quero que você me perdoe pelo que eu fiz, eu sei que Deus me perdoou", escreveu Gleison. Ele só estudou o quinto ano do ensino fundamental e foi expulso de várias escolas.

"Desculpa, mãe, eu não ter sido o filho que você sempre quis, mas eu quero que você saiba que você nunca vai sair da minha mente, nem do meu coração. Mãe eu só peço que você lembre que tem um filho que te ama muito, eu sei que nunca recompensei tudo o que fez por mim, e que continua fazendo. Obrigado por ser uma mãe tão boa, eu agradeço a Deus por ter você comigo. Eu nunca vou esquecer de você nem da minha vovó, nem do meu padrasto. Fica com Deus que aqui eu vou ficar com Ele".

O promotor de Castelo do Piauí, Cezário Cavalcante, que acompanha o caso, disse que a mãe de Gleison lhe mostrou a carta.

Ela recebeu a carta na última visita que fez Gleison no Ceip (Centro Educacional de Internação Provisória), em Teresina.

"Eu tirei xerox da carta e anexei ao processo. Ela me disse que tinha perdoado o filho e que ele se mostrava arrependido pelo crime e pedia perdão por não ter ouvido ela. É uma carta bem carinhosa", disse o promotor.

A carta foi divulgada pelo radialista, Ronaldo Mota, amigo da família. A mãe não quis falar com imprensa.

"A mãe, toda vez que lê a carta, chora de saudade e lembra do filho", disse Ronaldo.

CRONOLOGIA

27.mai
Quatro jovens são estupradas e atiradas do Morro do Garrote, em Castelo do Piauí. Um maior e quatro menores de idade são presos nos dias 28 e 29

1º.jun
Os quatro adolescentes apontados de cometerem o crime são transferidos do centro socioeducativo, em Teresina, para o Ceip

7.jun
Danielly Rodrigues Feitosa, 17, uma das vítimas, morre após dez dias internada. No dia 13, sua missa de sétimo dia reúne mais de 500 pessoas

11.jun
Começa o julgamento dos quatro jovens, dias após Gleison Vieira da Silva, 17, delatar que cometeu o crime com os colegas

15.jun
Ministério Público do Piauí entrega denúncia contra Adão José de Souza, 40, citado como líder do crime. Pena pode ser de mais de 150 anos

10.jul
Decisão jurídica de 24 anos de internação para os jovens. No Ceip, Gleison da Silva fica em cela separada dos outros três

15.jul
Às 17h, os menores culpados do crime são transferidos para o CEM, após permanecerem prazo máximo no Ceip. Lá, os quatro ficam na mesma cela

16.jul
Gleison Vieira da Silva, 17, é morto. A suspeita é que seus colegas de cela –que cometeram o crime junto com ele– o tenham matado por volta das 23h



sexta-feira, 10 de julho de 2015

Papa faz o seu discurso mais ideológico durante visita à Bolívia

Do apelo à preservação do meio-ambiente ao pedido de perdão aos indígenas pelos abusos cometidos pela igreja na colonização da América, sobrou para todo mundo (inclusive o Estado Islâmico) no discurso anticapitalista do papa ontem, 09/07/15, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, segundo informa a Folha de S. Paulo:

Em discurso anticapitalista, Francisco prega "mudança de estruturas"

FABIANO MAISONNAVE

No discurso mais político em pouco mais de dois anos de pontificado, o papa Francisco defendeu nesta quinta-feira (9) uma "mudança de estruturas" mundial, chamou o capitalismo de "ditadura sutil" e exortou os movimentos sociais a realizar "três grandes tarefas" na economia, na união entre os povos e na preservação do ambiente.

"Reconhecemos que este sistema impôs a lógica dos lucros a qualquer custo, sem pensar na exclusão social ou na destruição da natureza?", perguntou o papa a algumas centenas de representantes de movimentos sociais de vários países, entre os quais o MST, sem-teto, indígenas e quilombolas brasileiros,durante o 2º Encontro Mundial de Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia).

"Se é assim, insisto, digamos sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema já não se aguenta, os camponeses, trabalhadores, as comunidades e os povos tampouco o aguentam. E tampouco o aguenta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia são Francisco", completou o papa no encontro, realizado no auditório da Expocruz (feira agropecuária de Santa Cruz).

Para o papa, a "globalização da esperança" nasce e cresce entre os pobres, mas até a elite econômica quer mudanças: "Dentro dessa minoria cada vez menor que acredita que se beneficia com este sistema reinam a insatisfação e especialmente a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os libere dessa tristeza individualista que os escraviza."

Em outra dura crítica ao capitalismo, Francisco afirmou que, "atrás de tanta dor, tanta morte e destruição está o fedor disso que [são] Basílio de Cesareia (330-379) chamava de 'o esterco do Diabo' [dinheiro]". Segundo ele, o capitalismo é uma "ditadura sutil".

O líder católico atacou também "a concentração monopólica dos meios de comunicação social que pretende impor pautas alienantes de consumo e certa uniformidade cultural". Para ele, trata-se de "colonialismo ideológico".

Apesar da análise dura, Francisco advertiu contra o excesso de pessimismo e exortou os movimentos sociais a protagonizar as mudanças: "Eu me atrevo a dizer-lhes que o futuro da humanidade está, em grande medida, em suas mãos", afirmou. "Vocês são os semeadores das mudanças."

Em seguida, o pontífice propôs a realização de três tarefas aos movimentos sociais. A primeira é a "colocar a economia a serviço dos povos": A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas "a administração correta da casa comum". O objetivo, diz, é assegurar os "três Ts: trabalho, teto e terra".

"A distribuição justa dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, a tarefa é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e aos povos o que lhes pertence."

A segunda tarefa, segundo o pontífice, é "unir nossos povos no caminho da paz e da justiça". Ele defendeu o conceito de "pátria grande", usado por movimentos de esquerda para pregar a união latino-americana.

Francisco afirmou que problemas como a violência não podem ser resolvidos sem cooperação entre os países e atacou o "novo colonialismo": "Interação não é sinônimo de imposição", afirmou. "Colocar a periferia em função do centro lhe nega o direito a um desenvolvimento integral. Isso é iniquidade, e a iniquidade gera tal violência que não haverá recursos policiais, militares ou de inteligência capazes de deter."

Por último, o líder católico pediu a preservação da "Mãe Terra", tema de sua encíclica mais recente: "Não se pode permitir que certos interesses –que são globais, mas não universais– se imponham, submetam os Estados e organismos internacionais e continuem destruindo a criação".

'3ª GUERRA EM PARCELAS

O papa também condenou o assassinato de católicos pelo grupo terrorista Estado Islâmico e disse que o mundo vive "uma Terceira Guerra Mundial em parcelas".

"Isto também deve ser denunciado: dentro desta Terceira Guerra Mundial em parcelas que vivemos, há uma espécie de genocídio em marcha, e ele deve cessar", declarou o pontífice.

Visitando um país de maioria indígena, Francisco pediu desculpas pelo atuação da Igreja Católica durante a colonização –momento do discurso em que ele foi mais aplaudido pelos fiéis.

"Digo-lhes com pesar: foram cometidos muitos e graves pecados contra os povos originários da América em nome de Deus", disse. "E quero dizer-lhes, quero ser muito claro, como foi são João Paulo 2°: peço humildemente perdão, não apenas pelas ofensas da própria igreja como pelo crimes contra os povos originários durante a chamada conquista da América."

Ao final do discurso, disse: "Digamos juntos de coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem velhice digna. Sigam a sua luta e, por favor, cuidem muito da Mãe Terra."



terça-feira, 23 de junho de 2015

Papa Francisco pede perdão aos valdenses


A informação é do IHU:

Papa Francisco aos valdenses: ''Da parte da Igreja Católica, peço-lhes perdão''


Um encontro histórico no templo de Turim: pela primeira vez, um papa entra em uma igreja valdense. Um passo fundamental no caminho ecumênico. 


A reportagem é de Federica Tourn, publicada no sítio Riforma.it, 22-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


"É por iniciativa de Deus, que nunca se resigna diante do pecado do homem, que se abrem novos caminhos para viver a nossa fraternidade, e disso não podemos nos isentar. Da parte da Igreja Católica, peço-lhes perdão. Peço-lhes perdão pelas atitudes e pelos comportamentos não cristãos, até mesmo não humanos, que, na história, tivemos contra vocês. Em nome do Senhor Jesus Cristo, perdoem-nos."

O Papa Francisco não tem palavras suaves, quando, no silêncio da Igreja Valdense de Turim repleta de pessoas, pede perdão pelas violências e pelas perseguições do passado. Nenhum desconto para a Igreja Católica, que foi culpada por atos não apenas não cristãos, mas até mesmo "não humanos".

Um reconhecimento formal que ainda soa mais solene pelo lugar em que foi pronunciado e que o moderador da Mesa Valdense, Eugenio Bernardini, comentou positivamente ao término do encontro: "O seu pedido de perdão nos tocou profundamente e o acolhemos com alegria", disse. "Naturalmente, não se pode mudar o passado, mas há palavras que, em certo ponto, é preciso dizer, e o papa teve a coragem e a sensibilidade para dizer a palavra certa."

De fato, é a primeira vez que um papa entra em uma igreja valdense: acompanhado pelo moderador, o bispo de Roma cruzou o limiar do templo de Turim – o primeiro construído depois da concessão dos direitos civis aos valdenses com as Patentes de Graça de 1848 –, depois de 800 anos que iniciaram com a excomunhão e a consequente repressão do movimento valdense por parte da Igreja Católica; oito séculos caracterizados por divisões e divergências teológicas, mas também, mais recentemente, por um caminho ecumênico que deu grandes passos para aproximar as duas Igrejas cristãs.

A fraternidade comum em Cristo, recordou depois o papa, "nos permite compreender o profundo vínculo que já nos une, apesar das nossas diferenças". Uma comunhão ainda em caminho, mas que precede as divergências antropológicas, éticas e teológicas que caracterizam as Igrejas e que encorajam a continuar juntos o percurso, a ir ao encontro de homens e mulheres para testemunhar a alegria do Evangelho.

Um desejo compartilhado pelo moderador que, no seu discurso de boas-vindas ao Papa Bergoglio, retomou passagens da exortação apostólica Evangelii gaudium, para dizer como a unidade cristã pode e deve ser concebida como "diversidade reconciliada": é preciso buscar nas Igrejas diferentes da nossa, disse o pastor Bernardini, "não os defeitos e as falhas – que, sem dúvida, existem –, mas o que o Espírito Santo ali semeou como um dom também para nós".

"Justamente isso é o ecumenismo: o fim da autossuficiência das Igrejas – acrescentou –, cada Igreja precisa das outras para realizar a própria vocação."

O moderador lembrou, depois, que, hoje, assim como na Idade Média, os valdenses querem pregar livremente, pregar na liberdade do Evangelho de Cristo, e também quis nomear dois dos nós que ainda nos dividem: a definição das Igrejas Evangélicas como "comunidades eclesiais", data pelo Concílio Vaticano II, e a questão da hospitalidade eucarística: "O que une os cristãos reunidos em torno da mesa de Jesus – disse Bernardini – são o pão e o vinho que Ele nos oferece e as Suas palavras, não as nossas interpretações que não fazem parte do Evangelho".

Mas o que consubstancia um verdadeiro caminho ecumênico, além da pregação, é o compromisso e a solicitude com relação aos sofrimentos do mundo. Ser operadores e operadoras de paz, exortou o moderador, "não é um ornamento retórico da nossa fé, mas o coração do amor e da reconciliação desejada por Jesus Cristo". Por isso, é fundamental consumir-se para intensificar o diálogo inter-religioso e continuar o testemunho em favor dos refugiados e dos pobres que batem à nossa porta.

O Papa Francisco usou quase as mesmas palavras, na preocupação por quem vive em dificuldade: "Da obra libertadora da graça em cada um de nós, deriva a exigência de testemunhar o rosto misericordioso de Deus que cuida de todos e, em particular, de quem se encontra na necessidade. A opção pelos pobres, pelos últimos, por aqueles que a sociedade exclui nos aproxima do próprio coração de Deus".

Para acolher o Papa Francisco no templo, também estavam presentes o pastor Paolo Ribet e o presidente do Consistório, Sergio Velluto, que transmitiram a saudação da Igreja de Turim, e o moderador da Iglesia Valdense del Río de la Plata, Oscar Oudri, que exortou as Igrejas a continuarem no caminho ecumênico, sem tentações de proselitismo, para realizar o mandato de João: "Sejam um para que o mundo creia".

Quem encerrou o encontro foi a presidente do Comitê Permanente da Obra Metodista, Alessandra Trotta, que enfatizou que a Palavra e o amor de Deus devem estimular os cristãos a derrubar cada vez mais o muro dos egoísmos, das divisões e das solidões. "Continuemos juntos o caminho – resumiu Trotta –, porque lá fora há muito a se fazer."

A visita do papa terminou com a oração do Pai Nosso na versão ecumênica, a troca de presentes – uma reprodução da primeira Bíblia traduzida para o francês em 1535 e as medalhas do pontificado – e o acompanhamento do Coro Semincanto e do Coro Valdese de Turim.

A calorosa saudação dos participantes na cerimônia, que apreciaram a simplicidade e a sobriedade do "irmão em Cristo" Francisco, confirmou a partilha comunitária de um encontro histórico, que reitera a intenção de reforçar um percurso ecumênico fundamental para a evangelização e o testemunho da mensagem cristã, a beleza do amor salvífico de Deus.



Abaixo, a matéria da agência ANSA Brasil:

Francisco pede perdão a valdenses por perseguições

Grupo protestante foi caçado pela Igreja na Idade Média

Durante sua visita a Turim, no norte da Itália, o papa Francisco pediu perdão em nome da Igreja Católica aos cristãos valdenses, confissão protestante perseguida por séculos a partir da Idade Média.

Além disso, na capital do Piemonte, Jorge Bergoglio se tornou o primeiro Pontífice a entrar em um templo dessa religião. "Da parte da Igreja Católica, peço perdão pelos comportamentos não cristãos - até não humanos - que, na história, tivemos contra vocês. Em nome do Senhor Jesus Cristo, nos perdoem", declarou.

A doutrina valdense foi fundada no século 12 pelo comerciante francês Pedro Valdo, que defendia o direito de cada fiel ter a Bíblia em seu próprio idioma, rejeitava a autoridade do Papa e criticava o culto a imagens.

Por conta disso, seus integrantes foram excomungados pela Igreja e aderiram à Reforma Protestante. Concentrado na região italiana do Piemonte, o grupo só ganhou liberdade de culto em meados do século 19.

"Caro irmão Francisco, bem-vindo. O encontramos com alegria como um novo irmão em nosso percurso. Queremos enxergar sua visita, que foi definida justamente como histórica, exatamente nessa dimensão", declarou o pastor Paolo Ribet, anfitrião do Papa em Turim.



segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Turco que tentou matar João Paulo II leva flores ao túmulo do papa

forgiveness
Inesquecível: o encontro histórico entre João Paulo II e Mehmet Ali Agca em 28 de dezembro de 1983

Em 13 de maio de 1981, o então papa (hoje canonizado) João Paulo II percorria a Praça de São Pedro em carro aberto para a sua tradicional audiência pública das quartas-feiras, quando foi atingido por 3 tiros vindos da multidão.

O atirador foi preso em seguida e identificado como Mehmet Ali Agca, um rapaz muçulmano de origem turca muito humilde que, conforme as versões mais confiáveis, havia se tornado militante de uma organização fascista também chamada "Lobos Cinzentos", que perpetrava atentados contra pessoas que eles julgavam "de esquerda" na Turquia e em outros lugares do mundo.

A rigor, nunca se saberá qual foi a real motivação do atentado, já que o próprio Ali Agca deu muitas versões desencontradas sobre quem lhe havia ordenado cometê-lo, incluindo entre os possíveis mandantes o Irã e a própria Cúria Romana.

Afinal, a julgar pela dimensão do magnicídio que Ali Agca tentou, é de se imaginar que lhe faltavam alguns parafusos na cabeça.

Outro suspeito do crime foi o serviço secreto da Bulgária, então satélite comunista de União Soviética, que teria de alguma forma contribuído para o ocorrido a fim de acobertar o desejo soviético de vingança contra o apoio do papa ao sindicato polonês Solidariedade, liderado por Lech Walesa, que ameaçava destruir o império vermelho de Moscou.

BEM-VINDO AO VATICANO


Recuperado das graves consequências que os três tiros de pistola semi-automática Browning 9mm lhe causaram, em 28 de dezembro de 1983 João Paulo II se encontrou com seu algoz na cadeia de Rebibbia, nos arredores de Roma, para conversar com ele e - segundo se soube depois - perdoá-lo.

Repare na data: 28 de dezembro de 1983.

No último sábado, 27 de dezembro de 2014, um dia antes de se completarem 31 anos daquele encontro histórico, Mehmet Ali Agca voltou ao Vaticano, desta vez para depositar dois buquês de rosas brancas no túmulo de João Paulo II.

Segundo o porta-voz do Vaticano, padre Ciro Benedettini, Agca ainda teria ficado alguns minutos em meditação silenciosa diante do sepulcro do finado papa.

BUROCRACIA ITALIANA NÃO PERDOA


Entretanto, tal gesto não foi suficiente para as autoridades italianas perdoarem total e completamente o ex-terrorista turco, que completará 55 anos de idade no próximo dia 9 de janeiro.

É que ele foi condenado à prisão perpétua e ficou detido na Itália até junho de 2000, quando recebeu indulto do então presidente Carlo Ciampi, sendo imediatamente extraditado para a Turquia, onde cumpriu outra condenação relativa ao assassinato do jornalista Abdi Ipecki, ocorrido em 1979.

Agca ficou preso no seu país natal até 18 de janeiro de 2010, quando foi finalmente liberado, e pouco se sabia dele até ontem, quando a notícia de sua insólita visita ao Vaticano percorreu o mundo.

O problema - para o supostamente arrependido militante turco - é que ele se esqueceu de combinar com as autoridades italianas.

Embora tenha podido visitar o Vaticano sem nenhum problema, já que não pesa mais sobre ele qualquer condenação da Justiça italiana ou de sua similar turca, Agca cometeu o erro de ter entrado na Itália sem o visto obrigatório no passaporte, e - por isso - deve ser expulso do país nas próximas horas.


UMA VIDA AMARGURADA


Guardada a devida distância de seus crimes, Mehmet Ali Agca tem uma daquelas fascinantes histórias de vida, ainda que marcada pelo lado negativo.

Filho de uma família pobre, sem instrução, tornado bucha de canhão nos estertores da Guerra Fria, sua vida se cruzou com a de João Paulo II naquele dia 13 de maio de 1981. 

Tivesse o papa morrido, talvez terminasse a vida na prisão sem que ninguém ouvisse mais falar nele.

Parece que lhe coube, na vida, o melancólico papel de alma penada perambulando entre interesses, países e civilizações tão distintas, em que a burocracia não falha nem perdoa jamais.

Uma agonia sem fim?

Com informações da Agência Brasil e do Christian Today



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