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quarta-feira, 9 de março de 2016

Papa recebe metodistas e valdenses no Vaticano


A informação é do IHU:

Uma delegação metodista e valdense foi recebida pelo Papa Francesco. 
A primeira vez isto acontece no Vaticano


“Um encontro que encoraja todos a prosseguirem no caminho da colaboração e da comunhão entre as nossas igrejas”. Entre os temas enfrentados: a missão num mundo secularizado, o serviço aos últimos, os corredores humanitários e o diálogo inter-religioso. “Foi um encontro centrado na fraternidade e na autenticidade no estilo ao qual o Papa Francisco nos tem habituado”. 

A reportagem foi publicada por Notizie Evangeliche - NEV, 05-03-2016. A tradução é de Benno Dischinger.


Assim o pastor Eugenio Bernardini, moderador da Távola valdense, descreveu a audiência que viu hoje no Vaticano, pela primeira vez na história, uma delegação oficial das igrejas metodistas e valdenses para encontrar o Papa.

“Foi um encontro que encorajou a todos a prosseguirem no caminho da colaboração e da comunhão entre as nossas igrejas, não obstante a diversidade, e às vezes também as divergências que nos contra distinguem – declarou ainda Bernardini.

“Em particular, emergiram duas áreas de colaboração. A primeira é a missão da Igreja num mundo sempre mais secularizado e distante do Evangelho, uma missão que deve caracterizar-se por linguagens novas, sem intentos proselitistas e sim no espírito do livre testemunho em Cristo. Em segundo lugar, uma colaboração no serviço ao mundo e à sociedade, aquela que nós chamamos diaconia e que, para o Papa Francisco: deve estar a serviço dos últimos. Também falamos daquela grande tragédia dos prófugos e da imigração que interroga o nosso continente europeu e naturalmente também as nossas igrejas”.

Na conversação foram citados os corredores humanitários promovidos pela Federação das igrejas evangélicas na Itália (FCEI), da Comunidade de Sant’ Egídio e da Távola valdense, e que levaram recentemente para a Itália, legalmente e em segurança, 97 pessoas consideradas particularmente vulneráveis. A perspectiva é de uma colaboração em nível europeu para que o modelo dos corredores humanitários possa ser apresentado e adotado também no âmbito de outras nações do continente. Além disso, registrou-se uma profunda sintonia no entender a dimensão ecumênica do diálogo inter-religioso, em particular com o Islã, num tempo no qual se reforçam ao mesmo tempo fundamentalismos e preconceitos.

A delegação valdense e metodista doou ao Papa uma série de desenhos inspirados nas histórias de prófugos e migrantes, apresentados num contendor construído com a madeira das barcaças de Lampedusa.

O Papa Francisco, ao invés, ofereceu à delegação acima os textos da encíclica “Louvado seja” e da “Evangelli guadium”. O Pontífice já havia encontrado os representantes das igrejas metodistas e valdenses no passado dia 22 de maio, num encontro havido junto à Igreja valdense de Turim. Além do moderador Bernardini, a delegação compreendia: Greetje van der Ver, Aldo Lausarot, Luca Anziani, Jens Hansen, Lothar Vogel, Maria Bonafede, Raul Matta, Claudio Paravati e Paolo Naso.



sábado, 24 de outubro de 2015

A teologia de Paul Tillich, 50 anos após sua morte

Paul Johannes Oskar Tillich, alemão nascido em Starzeddel, então província de Brandenburgo, na Prússia, em 20 de agosto de 1886 (hoje Starosiedle, na Polônia), faleceu em Chicago, Illinois (EUA), em 22 de outubro de 1965.

Tillich foi um dos maiores teólogos protestantes do século XX, e 50 anos após sua morte a obra que ele produziu continua influente.

A matéria é do IHU:

A voz de Tillich contra Hitler


A cinquenta anos da morte, uma recordação do pensador protestante que dos Estados Unidos, onde tinha sido constrangido ao exílio pelas críticas ao nazismo, marcou fortemente a teologia do século vinte. Estimado por Thomas Mann pela sua aversão ao nazismo, estudado por Martin Luther King pela a sua atenção ao transcendente e ao mistério cristão e pelo seu “socialismo religioso”, mas em particular um pensador capaz de estar no limite dos saberes entre teologia, filosofia e psicologia e de apresentar-se quase sempre como a verdadeira contrapartida do pensamento de Karl Barth e de seu “Deus inacessível”. 

A reportagem é de Filippo Rizzi, publicada no jornal Avvenire, 21-10-2015. A tradução é de Benno Dischinger.


Nestas poucas linhas se condensa a cifra acadêmica do teólogo protestante alemão Paul Tillich (1886-1965) – de quem amanhã (22/10) recorrem os 50 anos da morte. Um pensador que marcou a história da teologia na segunda metade do Século Vinte, tanto em âmbito católico como naquele protestante; baste pensar em suas obras mais famosas, como O Futuro das Religiões, A Irrelevância, a relevância da mensagem cristã para a humanidade de hoje, sua obra prima Teologia Sistemática ou ainda o seu escrito autobiográfico mais significativo Sobre a Linha do Limite. Capelão militar durante a primeira guerra mundial, discípulo do idealismo alemão e do filósofo Schelling, Tillich se tornará subitamente uma das vozes mais críticas na Alemanha contra o advento do nascente nazismo e de sua ideologia pagã.

Por causa de sua crítica ao regime de Hitler – em particular após a publicação do ensaio A Decisão Socialista – será privado da cátedra na universidade de Frankfurt e a partir de 1933 começará o seu exílio da Alemanha: será constrangido a asilar-se nos Estados Unidos, onde atuará até sua morte, nas universidades de Colúmbia, Harvard e Chicago. E precisamente sobre sua firme crítica ao nazismo e ao seu paganismo se deterá o pastor valdense Paolo Ricca: “O seu [discurso] foi um gesto corajoso, sobretudo porque ele fazia parte do movimento dos “socialistas e religiosos”, que tinham como modelo de referência os pastores protestantes suíços Leonhard Ragaz e Hermann Kutter. Com o seu estilo Tillich não tomou parte ativa na luta da “Igreja confessante” que se opôs ao regime:

Toda a liderança terminou nos campos de concentração. Talvez também por esta sua escolha de viver além-mar, também após a guerra, a sua influência sobre a teologia protestante tem sido menos incisiva na Europa em relação à de Bonhoeffer, Karl Barth e Rudolph Bultmann. Ele é muito mais conhecido na América do que no Velho Continente. Eu mesmo descobri sua grandeza nos anos de minha maturidade acadêmica e por uma iniciativa pessoal minha”.

Elmar Salmann entrevê neste “pensador kairológico”, “embebido do pensamento de “Schelling”, do idealismo alemão e da teologia liberal de Ernest Troeltsch” o ponto de maior novidade de sua indagação sobre o existencialismo e sobre a sociedade. “Parte da unicidade deste intelectual – revela Salmann – é representada por vários fatores: é um estudioso que está no limiar, acompanha as passagens da história entre teologia e filosofia. É muito próximo às reformas sociais feitas na Alemanha nos anos vinte do século vinte. Talvez tudo isto explica por que Theodor Adorno decide fazer a sua tese universitária sobre Kierkegaard dirigida pelo professor Tillich”. O padre Salmann, à luz também deste aniversário, percebe pontos de encontro entre a teologia ‘tillichiana’ e a de Barth. “Embora tão diversos em sua impostação metodológica – observa – há em ambos uma forte veia socialista e social-democrática. Há, a meu juízo, uma afinidade eletiva oculta: basta reler sua interpretação da crise social da Alemanha após a primeira guerra mundial.

Em Tillich teve predomínio a veia liberal, fenomenológica, pneumatológica, enquanto em Barth a cristológica, que refere o todo à Revelação divina. Embora de ângulos diversos, ambos propõem um percurso de realização do cristianismo na realidade e na complexidade da vida humana e social”. Sua atenção aos interrogativos últimos como o seu campo de pesquisa para a psicanálise e o mistério do transcendente ou ainda a atualidade de um texto ‘tillichiano’ como a coragem de existir (The courage to be), são alguns dos aspectos do teólogo existencialista alemão que desde sempre mais têm fascinado Eugenia Scabini, docente de Psicologia Social da família na Católica de Milão e autora, entre outros, em 1967, de um ensaio sobre o pensamento de Paul Tillich: “Nele é fortíssima esta instância de pôr-se os interrogativos últimos, de ir ao essencial das questões últimas. E, no fundo, muito deste método e terminologia será retomado anos depois, com uma leitura original, pela socióloga Margaret Archer.

A pensadora Scabini, relendo a atualidade de Tillich, se detém sobre sua interpretação do conceito de ‘ânsia”. “Precisamente porque é um existencialista e um protestante puro faz as contas com Freud, relê em chave moderna este estado de ânimo, non esquecendo a condição antropológica e psicológica.

A ânsia reinterpretada por Tillich supera certo reducionismo psicológico e faz aflorar um estado de ânimo comum e típico de muitos seres humanos”. E releva um particular: “A meu juízo, parte de sua maior herança está no seu ensaio ‘A coragem de existir’, onde descreve um ato, no fundo, que leva à fé, um Deus que nos aceita e nos justifica, não obstante a angústia da culpa e da condenação. Como seguramente original é a sua interpretação do conceito de limite e de confim, aquele ele chama em alemão ‘Grenzen’. Naquela metáfora de estar no limite se pode estar abertos a algo diverso também porque somente quem está na borda pode olhar para frente e para trás. E é, portanto, uma condição privilegiada”.

Uma herança, portanto ainda atual e a aprofundar segundo o teólogo valdense Paolo Ricca: “O centro de sua pesquisa teológica é a correlação entre mensagem cristã e condição humana. Quando se toma em mãos o índice de sua obra mais famosa, a Teologia sistemática, se descobre tudo isto. A grandeza de Tillich – é a consideração final – é aquela de colocar-se no limite entre realidade e fantasia, entre teoria e práxis, entre Igreja e sociedade. Esta posição de limite implica e obriga Tillich a um repensar bastante radical da linguagem da fé. Basta pensar no conceito de pecado, relido nos termos de alienação de si mesmo, do próximo (que se torna um estranho), e de Deus, em relação ao qual não se consegue mais instaurar um diálogo com Ele. Há em tudo isto uma profunda renovação da linguagem da fé e emergem assim os aspectos mais prometedores, a meu juízo, de sua teologia”.



domingo, 5 de julho de 2015

Francisco, o único papa-profeta?

Eugenio Scalfari e o papa Francisco

É esta a pergunta que se faz Eugenio Scalfari, fundador do jornal italiano La Repubblica, talvez o pensador italiano mais importante da segunda metade do século XX para cá.

Scalfari, que completou 91 anos de idade em abril, é ateu e tem tido encontros com o papa Francisco, como ele relata no artigo abaixo, o que reforça a importância de sua leitura neste domingo gelado no Centro-Sul do Brasil.

Não deixa de ser interessante ver como um pensador ateu - moderado, de renome, e que efetivamente conversa com o papa - retrata o pontífice.

O artigo foi traduzido e publicado pelo IHU:

Papa Francisco, profeta que encontra a modernidade


Francisco não é apenas um papa, mas um profeta ou, melhor, sobretudo um profeta e um pastor. É a figura mais relevante do século em que vivemos. 



A opinião é de Eugenio Scalfari, jornalista e fundador do jornal italiano La Repubblica, 01-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto. 

Eis o texto.


É preciso reler o Cântico de Francisco de Assis, que, justamente para essa releitura, foi publicado abaixo e que o Papa Bergoglio colocou como título da sua primeira encíclica. Ele ilumina todo o documento do papa, explica por que Bergoglio assumiu o nome de Francisco, que nunca tinha sido usado nos dois mil anos de história da Igreja e, principalmente, dá significado e resposta a uma pergunta que muitos, fiéis e não fiéis, se fizeram: por que o Papa Francisco dedica a sua primeira encíclica à ecologia? Não existem outros problemas muito mais urgentes e dramáticos nestes tempos obscuros que estamos atravessando?

Certamente existem, e o Papa Francisco os enfrenta um por um em toda a sua plenitude, começando pelo da pobreza, da migração de povos inteiros já sem-terra, das guerras que afligem o mundo, do egoísmo imperante, da intolerável desigualdade econômica e social. Ele não se dirige apenas aos cristãos, mas a todos os homens que Deus criou com a terra, confiando eles à terra e o cuidado da terra a eles, isto é, a nós.

Todos os comentaristas da encíclica que, nestes dias, leram o seu texto sublinharam concordemente essas "passagens", dando-lhes, obviamente, interpretações diferentes. Por isso, para mim, que voluntariamente não me pronunciei até agora sobre temas que sempre me interessaram e que, nos últimos meses, muitas vezes, tive a oportunidade de discutir diretamente com o Papa Francisco, só restaria reconhecer tanto a encíclica, quanto a preparação do Sínodo, que irá ocorrer em outubro próximo, quanto as intervenções de Francisco ocorridas logo depois da publicação da encíclica, quanto o seu encontro com os valdenses em Turim, quanto, por fim, os comentários que essa imensa quantidade de trabalho religioso e pastoral provocou, para sair daó mais rico em conhecimento.

Certamente é isso, eu saio enriquecido e mais informado da política religiosa que Francisco leva em frente com ritmo cada vez mais apressado. Mas me faço duas perguntas que merecem aprofundamento e resposta: quem é verdadeiramente o Papa Francisco? E quem é verdadeiramente Jorge Mario Bergoglio?

Cada papa tem traços salientes que configuram o papel que ele desempenhou na história do cristianismo. Mas esse papel e os efeitos que ele provocou nas sociedades da época em que esse papa viveu e agiu, decorrem da personalidade do homem que, em um certo ponto da sua vida, foi chamado a se sentar no trono de Pedro. O caráter da pessoa determina o cargo que ocupa, mas, ao mesmo tempo, a carga cria delineamentos novos nessa pessoa.

Responder a essas duas perguntas que eu me fiz já não só é possível depois de dois anos de pontificado, mas também necessário para entender o que está acontecendo na Igreja e o que provavelmente irá acontecer enquanto Francisco exercer o seu magistério na cátedra de Pedro.

* * *

Francisco não é apenas um papa, mas um profeta ou, melhor, sobretudo um profeta e um pastor. Que eu saiba, isso nunca tinha acontecido antes dele; papas pastores talvez sim, alguns, poucos, contudo. Abundam na história da Igreja papas diplomatas, ou guerreiros, ou místicos, ou litúrgicos, ou legisladores, ou organizadores. Profetas, não, não houve nenhum. Paulo de Tarso também foi profético, além de legislador e fundador da religião cristã. Agostinho igualmente, e Jerônimo, e Boaventura, e Anselmo, e Francisco de Assis e muitos outros, mas não eram papas, não eram bispos de Roma.

Francisco, ao contrário, é. Devemos dizer que a excepção confirma a regra e que, depois dele, não haverá outro como ele? Temo que sim, temo que ele continue sendo uma exceção, mas o impulso que ele está dando à "Ecclesia" mudará profundamente o conceito de religião e de divindade, e isso continuará sendo uma mudança cultural dificilmente modificável.

Mas por que eu digo profeta? Em que consiste a sua profecia e o seu conceito de divindade? Deus é Um em todo o mundo e para todas as gentes. Naturalmente, a afirmação vale apenas para quem tem fé em um além e em um Criador.

A unicidade do Deus criador exclui todo fundamentalismo, toda guerra religiosa, toda divindade múltipla. A própria Trindade, mistério da fé católica, muda de natureza, e Francisco disse isso várias vezes e, precisamente nos últimos dias, ainda mais claramente, em Turim, quando respondeu às perguntas de três jovens diante de milhares de pessoas reunidas para ouvi-lo.

Ele disse que o Espírito Santo é o Espírito de Deus que suscita no coração dos homens a vocação ao bem, e o Filho é Deus que ama as suas criaturas e suscita o amor humano em todas as suas castas formas. Esta é a Trindade: não mais o mistério da fé, mas a articulação do único Deus, misericordioso, amoroso, criador e, portanto, Pai.

A misericórdia é infinita, o pecado faz parte das contradições inerentes à Criação, necessária riqueza de cada criatura individual que não é o clone das outras. As contradições contêm amor, perdão, mas também raiva contra as injustiças sofridas e vergonha por aquelas cometidas contra os outros. Nas contradições, há riqueza e pecado ao mesmo tempo. A misericórdia do Pai também é transmitida às suas criaturas, e são os pastores que a ensinam e a praticam, eles por primeiro.

Talvez, o Papa Francisco ainda não tirou uma consequência teológica dessa sua visão profética, que ele está levando em frente todos os dias: ele não é mais o Vigário de Jesus Cristo na terra, mas é o Vigário de Deus, porque Cristo nada mais é do que o amor de Deus, não um Deus diferente que se encarnou, viveu 33 anos, começou a pregação aos 30 anos e foi crucificado quando o imperador Tibério tinha acabado de ser empossado pelo Senado depois da morte de Otaviano Augusto.

Os Evangelhos relatam essa história, mas os evangelistas – exceto, talvez, João –, escreveram relatos de segunda mão e nunca conheceram o Jesus de quem descrevem a vida e a pregação. Quanto a Paulo de Tarso, fundador da religião que tomou o nome de Cristo, ele não conheceu e nunca se encontrou com Jesus de Nazaré. No entanto, foi justamente Paulo o fundador. Se fosse por Pedro, o cristianismo teria permanecido como uma seita judaica, definida pelos seus seguidores como "judaico-cristã", como na época havia muitas: os fariseus, os essênios, os zelotas e outros ainda, com o Sinédrio na cúpula, administrando a Lei e o Templo que era a sua sede.

Assim era concebida a comunidade judaico-cristã liderada por Pedro e por Tiago, que Paulo forçou a sair de Jerusalém e a abrir a nova religião por ele fundada no mundo circunstante, no Oriente Médio, na Grécia, no Egito, em Roma e, de lá, a todos os territórios do Império, isto é, toda a Europa.

O Jesus relatado pelos Evangelhos provavelmente existiu, provavelmente pregou. A sua pessoa foi teologizada, as comunidades cristãs criaram uma doutrina, uma liturgia, um direito canônico. Nos textos decorrentes dessa doutrina, Deus também é definido como o Deus dos exércitos. O sentido dessa definição é duplo: exércitos de fiéis ou exércitos de guerreiros, combatentes nas Cruzadas, na Inquisição, nas guerras das potências europeias nas quais a Igreja, de vários modos, interveio. O poder temporal do papa a induziu a participar de alianças ou de guerras com Espanha, com a França, com a Áustria, com o Império, com Veneza.

Esse foi o papado até 1861, quando foi proclamado o Reino da Itália. Não por isso o poder temporal dos papas terminou. Ele continuou e, em parte, ainda continua, e Francisco empenhou contra ele a sua luta. A sua visão é uma Igreja missionária, em que a Igreja institucional representa apenas a intendência, destinada a predispor os serviços dos quais a Igreja missionária precisa.

A verdadeira política de Francisco é a de reunificar o cristianismo, folha por folha, ramo após ramo. Nos últimos dias, ele se encontrou com o representante da Igreja Valdense. Nunca tinha acontecido um encontro semelhante. Os valdenses eram cátaros, um movimento cismático que chegou à Itália a partir da Europa central, atravessou toda a planície da Padânia, chegou em Marselha obstaculizado e combatido de todos os modos e, em Marselha, foi massacrado pelas tropas francesas, encorajadas e abençoadas pela Igreja de Roma, que assumiu a responsabilidade por esse massacre.

Pedro Valdo fazia parte dessa comunidade, mas, tendo chegado aos vales do Piemonte, decidiu parar ali. Ele também sofreu ataques e vexações de todos os tipos. Não são muitos os valdenses, mas, religiosamente, são uma comunidade importante e respeitada.

Pois bem, o Papa Francisco os encontrou em Turim há poucos dias e, em nome da Igreja Católica, invocou o seu perdão; os valdenses o agradeceram "do fundo do coração". Logo se verão novamente e abrirão um discurso mais desafiador. O objetivo de Francisco é de abrir a Igreja a todas as comunidades protestantes e reuni-las. Deus é único, e os cristãos devem voltar a ser uma única religião, mas isso não basta. Não por acaso, Francisco também abriu com os muçulmanos, porque o seu Deus é o mesmo dos cristãos.

Não é profético esse pensamento? E não é profético o título da encíclica? O Santo de Assis agradece a Deus pela morte corporal que é prevista pela criação. A morte é um dom. Eis por que eu digo que Francisco é o Vigário de Deus, que o Espírito Santo decidiu colocar no sólio de Pedro.

* * *

Mas Jorge Mario Bergoglio era assim também antes de se tornar papa? O cargo que ele já ocupa há dois anos o mudou ou foi ele que mudou o papel?

Eu me encontrei com o Papa Bergoglio quatro vezes e escrevi muitas vezes sobre ele. Permito-me dizer que nos tornamos amigos. Se Deus é único em todo o mundo, a Igreja também só pode ser uma e, justamente porque é uma em todas as partes, ela não pode e não deve se ocupar com a política.

Igreja livre em Estado livre era o lema de Cavour, mas eu diria que, agora, também é o lema de Bergoglio. O outro lema que justamente Bergoglio me indicou em um dos nossos encontros é: "Ama o teu próximo mais do que a ti mesmo". Com essa frase, ele se dirige a toda a sociedade do mundo e aos ricos, especialmente, porque são eles que devem dar, e a recompensa está apenas no dar sem nada exigir em troca, a não ser o amor de Deus.

Bergoglio sabe perfeitamente que o mundo está vivendo em uma sociedade globalizada, sabe que há um povo de "sem-terras" de mais de 60 milhões de pessoas que vagam pelo mundo em busca de dignidade e de vida.

Por fim, Bergoglio também se propôs a mudar a estrutura da Igreja, que até agora foi vertical. Ele quer colocar ao lado dessa estrutura vertical também uma estrutura horizontal: os Sínodos, aos quais acorrem os bispos de todo o mundo. Desse ponto de vista, ele adotou a ideia central do cardeal Martini, do qual era um bom amigo e que votou nele no conclave do qual o cardeal Ratzinger saiu papa.

Uma Igreja vertical e horizontal: essa é a estrutura que Francisco está implementando e, com ela, um relançamento religioso das Conferências Episcopais que devem agir todas em terra de missão, porque a Igreja deve ser, em todas as partes, missionária.

Em um dos nossos encontros, perguntei ao Papa Francisco se não seria o caso de convocar um novo concílio que reconheça e dê o seu selo a todas essas novidades, mas ele me respondeu: "O Vaticano II pôs como o seu principal objetivo o de se encontrar com o mundo moderno. Essa declaração conciliar é muito importante, mas, desde então, não deu um único passo à frente. Por isso, eu não preciso convocar outro concílio. Ao contrário, devo aplicar concretamente o Vaticano II, e é isso que estou tentando fazer: o encontro com a modernidade".

Esse encontro irá levantar problemas enormes: a modernidade ocidental nasceu do Iluminismo e aportou no relativismo; não há nada de absoluto, começando pela verdade. Francisco, naturalmente, responde a esses problemas, salientando a importância da fé, mas isso não exclui o fato de que o encontro com a modernidade levantará problemáticas totalmente novas que apenas um papa-profeta poderá entrever e gerir.

Desejo-lhe longa vida, convicto como estou de que ele é a figura mais relevante do século em que vivemos.




O CÂNTICO DAS ESCRITURAS
São Francisco de Assis

Altissimu, onnipotente bon Signore, tue sò le laude, la gloria e l’honore et onne benedictione.
Ad te solo, Altissimo, se konfano et nullu homo ène dignu te mentovare.
Laudato sie, mi’ Signore, cum tucte le tue creature, spetialmente messor lo frate Sole, lo qual è iorno et allumini noi per lui. Et ellu è bellu e radiante cun grande splendore: de te, Altissimo, porta significatione.
Laudato si’, mi’ Signore, per sora luna e le stelle: in celu l’ài formate clarite et pretiose et belle.
Laudato si’, mi’ Signore, per frate vento et per aere et nubilo et sereno et onne tempo, per lo quale a le tue creature dài sustentamento Laudato sì’, mi’ Signore, per sor’acqua, la quale è multo utile et humile et pretiosa et casta.
Laudato si’, mi’ Signore, per frate focu, per lo quale ennallumini la nocte, et ello è bello, et iocundo et robustoso et forte.
Laudato si’, mi’ Signore, per sora nostra matre terra, la quale ne sustenta et governa, et produce diversi fructi con coloriti flori et herba.
Laudato sì’, mi’ Signore per quelli ke perdonano per lo tuo amore et sostengono infirmitate et tribulatione. Beati quelli ke ‘l sosterranno in pace, ke da te Altissimo, siranno incoronati.
Laudato sì’, mi’ Signore, per sora nostra morte corporale, da la quale nullu homo vivente po’ skappare: guai a quelli ke morrano ne le peccata mortali; beati quelli ke trovarà ne le tue santissime voluntati, ka la morte secunda no ‘l farrà male.
Laudate et benedicete mi’ Signore et ringratiate e serviateli cum grande humilitate.
Altíssimo, omnipotente, bom Senhor, a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.
A ti só, Altíssimo, se hão-de prestar e nenhum homem é digno de te nomear.
Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o meu senhor irmão Sol, o qual faz o dia e por ele nos alumias. E ele é belo e radiante, com grande esplendor: de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas: no céu as acendeste, claras, e preciosas e belas.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Vento e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno, e todo o tempo, por quem dás às tuas criaturas o sustento.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água, que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Fogo, pelo qual alumias a noite: e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte.
Louvado sejas, ó meu Senhor, pela nossa irmã a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz variados frutos, com flores coloridas, e verduras.
Louvado sejas, ó meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor e suportam enfermidades e tribulações. Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz, pois por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, ó meu Senhor, por nossa irmã a Morte corporal, à qual nenhum homem vivente pode escapar. Ai daqueles que morrem em pecado mortal! Bem-aventurados aqueles que cumpriram a tua santíssima vontade, porque a segunda morte não lhes fará mal.
Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças e servi-o com grande humildade.




terça-feira, 23 de junho de 2015

Papa Francisco pede perdão aos valdenses


A informação é do IHU:

Papa Francisco aos valdenses: ''Da parte da Igreja Católica, peço-lhes perdão''


Um encontro histórico no templo de Turim: pela primeira vez, um papa entra em uma igreja valdense. Um passo fundamental no caminho ecumênico. 


A reportagem é de Federica Tourn, publicada no sítio Riforma.it, 22-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


"É por iniciativa de Deus, que nunca se resigna diante do pecado do homem, que se abrem novos caminhos para viver a nossa fraternidade, e disso não podemos nos isentar. Da parte da Igreja Católica, peço-lhes perdão. Peço-lhes perdão pelas atitudes e pelos comportamentos não cristãos, até mesmo não humanos, que, na história, tivemos contra vocês. Em nome do Senhor Jesus Cristo, perdoem-nos."

O Papa Francisco não tem palavras suaves, quando, no silêncio da Igreja Valdense de Turim repleta de pessoas, pede perdão pelas violências e pelas perseguições do passado. Nenhum desconto para a Igreja Católica, que foi culpada por atos não apenas não cristãos, mas até mesmo "não humanos".

Um reconhecimento formal que ainda soa mais solene pelo lugar em que foi pronunciado e que o moderador da Mesa Valdense, Eugenio Bernardini, comentou positivamente ao término do encontro: "O seu pedido de perdão nos tocou profundamente e o acolhemos com alegria", disse. "Naturalmente, não se pode mudar o passado, mas há palavras que, em certo ponto, é preciso dizer, e o papa teve a coragem e a sensibilidade para dizer a palavra certa."

De fato, é a primeira vez que um papa entra em uma igreja valdense: acompanhado pelo moderador, o bispo de Roma cruzou o limiar do templo de Turim – o primeiro construído depois da concessão dos direitos civis aos valdenses com as Patentes de Graça de 1848 –, depois de 800 anos que iniciaram com a excomunhão e a consequente repressão do movimento valdense por parte da Igreja Católica; oito séculos caracterizados por divisões e divergências teológicas, mas também, mais recentemente, por um caminho ecumênico que deu grandes passos para aproximar as duas Igrejas cristãs.

A fraternidade comum em Cristo, recordou depois o papa, "nos permite compreender o profundo vínculo que já nos une, apesar das nossas diferenças". Uma comunhão ainda em caminho, mas que precede as divergências antropológicas, éticas e teológicas que caracterizam as Igrejas e que encorajam a continuar juntos o percurso, a ir ao encontro de homens e mulheres para testemunhar a alegria do Evangelho.

Um desejo compartilhado pelo moderador que, no seu discurso de boas-vindas ao Papa Bergoglio, retomou passagens da exortação apostólica Evangelii gaudium, para dizer como a unidade cristã pode e deve ser concebida como "diversidade reconciliada": é preciso buscar nas Igrejas diferentes da nossa, disse o pastor Bernardini, "não os defeitos e as falhas – que, sem dúvida, existem –, mas o que o Espírito Santo ali semeou como um dom também para nós".

"Justamente isso é o ecumenismo: o fim da autossuficiência das Igrejas – acrescentou –, cada Igreja precisa das outras para realizar a própria vocação."

O moderador lembrou, depois, que, hoje, assim como na Idade Média, os valdenses querem pregar livremente, pregar na liberdade do Evangelho de Cristo, e também quis nomear dois dos nós que ainda nos dividem: a definição das Igrejas Evangélicas como "comunidades eclesiais", data pelo Concílio Vaticano II, e a questão da hospitalidade eucarística: "O que une os cristãos reunidos em torno da mesa de Jesus – disse Bernardini – são o pão e o vinho que Ele nos oferece e as Suas palavras, não as nossas interpretações que não fazem parte do Evangelho".

Mas o que consubstancia um verdadeiro caminho ecumênico, além da pregação, é o compromisso e a solicitude com relação aos sofrimentos do mundo. Ser operadores e operadoras de paz, exortou o moderador, "não é um ornamento retórico da nossa fé, mas o coração do amor e da reconciliação desejada por Jesus Cristo". Por isso, é fundamental consumir-se para intensificar o diálogo inter-religioso e continuar o testemunho em favor dos refugiados e dos pobres que batem à nossa porta.

O Papa Francisco usou quase as mesmas palavras, na preocupação por quem vive em dificuldade: "Da obra libertadora da graça em cada um de nós, deriva a exigência de testemunhar o rosto misericordioso de Deus que cuida de todos e, em particular, de quem se encontra na necessidade. A opção pelos pobres, pelos últimos, por aqueles que a sociedade exclui nos aproxima do próprio coração de Deus".

Para acolher o Papa Francisco no templo, também estavam presentes o pastor Paolo Ribet e o presidente do Consistório, Sergio Velluto, que transmitiram a saudação da Igreja de Turim, e o moderador da Iglesia Valdense del Río de la Plata, Oscar Oudri, que exortou as Igrejas a continuarem no caminho ecumênico, sem tentações de proselitismo, para realizar o mandato de João: "Sejam um para que o mundo creia".

Quem encerrou o encontro foi a presidente do Comitê Permanente da Obra Metodista, Alessandra Trotta, que enfatizou que a Palavra e o amor de Deus devem estimular os cristãos a derrubar cada vez mais o muro dos egoísmos, das divisões e das solidões. "Continuemos juntos o caminho – resumiu Trotta –, porque lá fora há muito a se fazer."

A visita do papa terminou com a oração do Pai Nosso na versão ecumênica, a troca de presentes – uma reprodução da primeira Bíblia traduzida para o francês em 1535 e as medalhas do pontificado – e o acompanhamento do Coro Semincanto e do Coro Valdese de Turim.

A calorosa saudação dos participantes na cerimônia, que apreciaram a simplicidade e a sobriedade do "irmão em Cristo" Francisco, confirmou a partilha comunitária de um encontro histórico, que reitera a intenção de reforçar um percurso ecumênico fundamental para a evangelização e o testemunho da mensagem cristã, a beleza do amor salvífico de Deus.



Abaixo, a matéria da agência ANSA Brasil:

Francisco pede perdão a valdenses por perseguições

Grupo protestante foi caçado pela Igreja na Idade Média

Durante sua visita a Turim, no norte da Itália, o papa Francisco pediu perdão em nome da Igreja Católica aos cristãos valdenses, confissão protestante perseguida por séculos a partir da Idade Média.

Além disso, na capital do Piemonte, Jorge Bergoglio se tornou o primeiro Pontífice a entrar em um templo dessa religião. "Da parte da Igreja Católica, peço perdão pelos comportamentos não cristãos - até não humanos - que, na história, tivemos contra vocês. Em nome do Senhor Jesus Cristo, nos perdoem", declarou.

A doutrina valdense foi fundada no século 12 pelo comerciante francês Pedro Valdo, que defendia o direito de cada fiel ter a Bíblia em seu próprio idioma, rejeitava a autoridade do Papa e criticava o culto a imagens.

Por conta disso, seus integrantes foram excomungados pela Igreja e aderiram à Reforma Protestante. Concentrado na região italiana do Piemonte, o grupo só ganhou liberdade de culto em meados do século 19.

"Caro irmão Francisco, bem-vindo. O encontramos com alegria como um novo irmão em nosso percurso. Queremos enxergar sua visita, que foi definida justamente como histórica, exatamente nessa dimensão", declarou o pastor Paolo Ribet, anfitrião do Papa em Turim.



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