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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 12

Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 11

O último capítulo de Eclesiastes é um poema belíssimo sobre a decadência inexorável da vida de cada um de nós.

O envelhecimento nos acomete a todos os que tivemos o prazer de passar pela juventude e ver os anos bons em que tínhamos força, curiosidade e vitalidade para experimentar os prazeres da vida, desde os mais simples até os mais complexos. 

O chamado constante do Pregador à sabedoria não deixa de ser um lembrete para que todos os jovens (de corpo, alma  e espírito) se preparem para o destino inevitável: a morte.

Quando este preparo é feito sabiamente, não deixa de ser uma espécie de "décadence avec élégance" ("decadência com elegância"), já que tolo é aquele que quer retardar indefinidamente ou se revolta contra o processo orgânico inevitável que nos leva ao fim da vida. 

E a morte deve ser vista, também, como uma celebração da vida, como um retorno à casa do Pai (12:7), por mais que seja doloroso pensar que existe um final para a existência, seja a nossa própria, seja a dos nossos queridos. 

É nesse espírito que o Pregador escreve as palavras finais de Eclesiastes, chamando a atenção do jovem para Deus, que é o grande Provedor de todas as coisas, que é o grande sustentador da vida, mas é também Aquele que nos recebe de braços abertos depois de uma vida entregue a Ele.

Assim, a primeira parte do capítulo 12 de Eclesiastes exorta o leitor a lembrar-se do Criador em três momentos (três "antes"), um no v. 1 (que mostra a perda da alegria de viver), outro nos versículos 2 a 5 (que falam da deterioração do corpo) e o terceiro nos versículos 6 e 7 (que se referem ao fim propriamente dito, à morte). 

No primeiro ANTES (v. 1), o Pregador fala da perda da alegria de viver, da importância de se lembrar de Deus e do dom da vida "antes que venham os maus dias" e cheguem os anos em que se possa dizer que neles não há mais prazer, alegria e felicidade. 

Este não deixa de ser um reforço à pregação que ele vinha fazendo, ou seja, de se aproveitar a vida, pelo simples fato de se existir, nos bons e maus momentos. 

Nos vv. 2-5, o Pregador diz que devemos lembrar do Criador ANTES que a decadência física seja incontornável, e a partir daí começa a descrever de uma maneira poética belíssima, como o nosso corpo – paulatina e definitivamente – não responde mais aos estímulos que no circundam. 

É claro que a tendência natural do ser humano é passar por uma fase de esplendor físico na juventude, e a partir de uma certa idade, o organismo começa, por assim dizer, a se desconstruir, assim como o Pregador vinha desconstruindo – nos capítulos anteriores - toda a percepção da vida que o senso comum dita. 

Há um momento final, entretanto, em que o corpo entra em colapso, e a partir daí a vista escurece, os ouvidos mal conseguem detectar o sussurro, o corpo treme, os dentes caem, o prazer sexual (o perecer do "apetite" do v. 5) se esvai, e o sono não serve mais de repouso (o "levantar-se à voz das aves" do v. 4). 

Depois dessa descrição triste, mas realista, vem o desenlace último, o terceiro ANTES (vv. 6), que é o rompimento do cordão de prata e do copo de ouro, o cântaro que quebra junto à fonte, e para mais nada serve senão ser jogado fora. 

Perde o seu viço e a sua utilidade, simplesmente não existe mais. 

Tudo poderia terminar por aí, mas Salomão conclui dizendo que ainda que o pó volte à terra, inservível para os propósitos humanos, por outro lado o espírito volta a Deus, que o deu (v. 7), porque "vaidade de vaidade, diz o pregador, tudo é vaidade" (v. 8). 

Não por acaso, esta é a sublime conclusão do discurso do Pregador, a mesma que ele já adiantara ao iniciá-lo (1:2). 

Mais que um discurso, este é um percurso que ele apresenta, o seu transcurso "debaixo do sol", expressão tão repetida em Eclesiastes, que dá a ideia de que a nossa vida é como um dia que amanhece, amadurece, desvanece e se despede ao escurecer:


1:3 Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?1:4 Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.1:5 Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu.1:6 O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos.1:7 Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr.1:8 Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.1:9 O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.

Felizmente, há um retornar, não mais para o mesmo dia terreno, onde há lida e dor, mas também alegria e felicidade. 

Há um retorno à casa do Pai, ao Deus criador, ao Pai que espera o filho pródigo voltar para seu lar (Lucas 15), para o dia perfeito, conforme Salomão diz em seus Provérbios:


Prov 4:18 Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.Prov 4:19 O caminho dos ímpios é como a escuridão; nem sabem em que tropeçam.

Este dia perfeito, da luz divina, é o dia da alma imortal, conforme Calvino ensina:

2. ESPIRITUALIDADE E IMORTALIDADE DA ALMA, CONTUDO DISTINTA DO CORPO
Afinal, que o ser humano consta de alma e corpo, deve estar além de toda controvérsia. E pela palavra alma entendo uma essência imortal, contudo criada, que lhe é das duas a parte mais nobre. Por vezes também é chamada espírito. Ora, ainda que estes dois termos difiram entre si em sentido quando ocorre juntos, contudo, onde o termo espírito é empregado separadamente, equivale a alma, como quando Salomão, falando da morte, diz que "o espírito retorna então a Deus, que o deu" [Ec 12.7]. E Cristo, encomendando o espírito ao Pai [Lc 23.46], como também Estêvão o seu a Cristo [At 7.59], não entendem outra coisa senão isto: quando a alma é liberada do cárcere da carne, Deus lhe é o perpétuo guardião.
Entretanto, são absolutamente destituídos de senso aqueles que imaginam que a alma é denominada espírito por ser um sopro, ou força divinamente infundida nos corpos, a carecer, no entanto, de essência, comprovando-o não só a própria realidade, mas ainda toda a Escritura. Sem dúvida é verdade que, enquanto se apegam à terra mais do que é justo, os homens se fazem broncos; aliás, visto que se alienaram do Pai das Luzes [Tg 1.17], foram cegados pelas trevas, de sorte que não pensam que haverão de sobreviver à morte. Contudo, nem assim a luz lhes foi aniquilada nas trevas a tal ponto que não se sintam tangidos por algum senso de sua imortalidade. Sem dúvida que a consciência, que discernindo entre o bem e o mal responde ao juízo de Deus, é sinal indubitável do espírito imortal. Pois, como uma disposição sem essência poderia penetrar até o tribunal de Deus e a si incutiria terror de sua culpabilidade? Ademais, tampouco é o corpo afetado pelo temor de uma penalidade espiritual; ao contrário, só recai na alma, do quê se segue que a alma é dotada de essência.
Já o próprio conhecimento de Deus comprova sobejamente que as almas, que transcendem ao mundo, são imortais, visto que um alento evanescente não chegaria jamais à fonte da vida. Enfim, quando tantos dotes preclaros dos quais a mente humana está enriquecida proclamam sonoramente que algo divino lhe é impresso, são outros tantos testemunhos de uma essência imortal. Ora, a sensibilidade que se instila nos animais brutos não vai além do corpo, ou, pelo menos, não se estende mais longe que às coisas que lhes estão adiante. Também a versatilidade da mente humana, a perlustrar céu e terra e os arcanos da própria natureza, e quando a todos os séculos compendiou no intelecto e na memória, cada evento a dispor em sua ordem, e dos fatos passados a deduzir os futuros, demonstra claramente que no homem se aninha algo distinto do corpo. Mediante a inteligência concebemos o Deus invisível e os anjos, o que ao corpo escapa totalmente; aprendemos as coisas que são retas, justas e honrosas, o que não podemos fazer pelos sentidos corpóreos. Portanto, só o espírito pode ser a sede dessa inteligência. Aliás, o próprio sono, que entorpecendo o homem parece até mesmo privá-lo da vida, é uma testemunha não obscura da imortalidade, quando não só sugere pensamentos dessas coisas que jamais ocorreram, mas ainda presságios quanto ao porvir.
Estou abordando, apenas de leve, estes assuntos que mesmo os escritores profanos exaltam magnificamente, com estilo e expressão mais esplêndidos. Contudo, entre leitores piedosos será bastante um simples lembrete. Ora, se a alma não fosse algo essenciado, distinto do corpo, a Escritura não ensinaria que habitamos casas de barro e que na morte migramos do tabernáculo da carne, despojamo-nos do que é corruptível para que, por fim, no último dia recebamos a recompensa, em conformidade com o que, enquanto no corpo, cada um praticou.
Ora, por certo que essas referências e semelhantes a essas, que ocorrem com freqüência, não só distinguem claramente a alma do corpo, mas ainda lhe transferem o designativo homem, indicando ser ela a parte principal. Ora,quando Paulo exorta os fiéis [2 Co 7.1] a que se purifiquem de toda impureza da carne e do espírito, ele enuncia duas partes nas quais reside a sordidez do pecado. Também Pedro, chamando a Cristo "pastor e bispo das almas" [1 Pe 2.25], teria falado improcedentemente, se não existissem almas em relação às quais desempenhasse este ofício. Nem seria procedente, a não ser que as almas tivessem essência própria, o fato de que fala acerca da eterna salvação das almas, e que ordena purificar as almas, e que desejos depravados militam contra a alma [1 Pe 1.9; 2.11]; de igual modo, o autor da Epístola aos Hebreus [13.17] declara que os pastores velam para que prestem conta de nossas almas.
Com o mesmo propósito é o fato de Paulo [2 Co 1.23] invocar a Deus por testemunha contra sua própria alma, porquanto ela não se faria ré diante de Deus, se não fosse susceptível à penalidade. Isto expressa-se ainda mais claramente nas palavras de Cristo, quando ele manda que se tema àquele que, após haver matado o corpo, pode lançar a alma na Gehena de fogo [Mt 10.28; Lc 12.5]. Ora, quando o autor da Epístola aos Hebreus distingue Deus dos pais de nossa carne, como sendo o Pai dos espíritos, não poderia ele afirmar de modo mais claro a essência das almas.
Além disso, a não ser que as almas liberadas dos cárceres dos corpos continuassem a existir, seria absurdo Cristo representar a alma de Lázaro a desfrutar de bem-aventurança no seio de Abraão, e a alma do rico, por outro lado, destinada a horrendos tormentos [Lc 16.22,23]. Paulo confirma isso mesmo, ensinando que peregrinamos distanciados de Deus durante o tempo em que habitamos na carne; desfrutamos de sua presença, porém fora da carne. E, para que não me alongue mais em matéria de forma alguma obscura, acrescentarei apenas isto de Lucas [At 23.8]: ele menciona entre os erros dos saduceus o fato de não crerem na existência de espíritos e anjos.
(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 1, pp. 180-182)

Tudo, portanto, que fazemos nesta vida interessa a Deus, em toda a extensão de nossa existência, e quanto antes nos lembrarmos para onde vamos (ou deveríamos ir), ou seja, quanto antes nos lembrarmos do nosso Criador, mais desfrutaremos esta vida aqui, com todas as suas limitações, mas também com todas as suas alegrias. 

Após ter promovido, pelo seu discurso-percurso, a desconstrução daquilo que era tido como sábio e proveitoso pela humanidade, o Pregador fincou 4 estacas sobre o terreno pantanoso e instável da vaidade humana, a saber: a sabedoria, a eternidade, a providência divina e o temor de Deus

Desses 4 pilares, apenas 2 têm o condão de tanto ser imanente como transcendente: a sabedoria e o temor de Deus. 

Os dois outros são transcendentes, estão acima das possibilidades do ser e do existir, e é nessa busca da sabedoria mediante o temor de Deus que podemos confiar que tanto a providência divina não nos faltará, como a eternidade nos está reservada pelo Pai que nos aguarda de braços abertos no final da jornada.

Os versículos finais de Eclesiastes (12:9-14), são uma espécie de assinatura do Pregador, um apelo à inspiração divina de suas palavras (vv. 10-11) e um último reforço ao conselho de temer a Deus (vv. 13-14). 

Conforme a experiência demonstra, sempre haverá novos e velhos conselhos a circular entre nós, e nunca os livros conseguirão dar conta deles, nem vale a pena ficar estudando-os tentando descobrir o segredo da vida(v. 12), pois a única coisa que realmente importa é viver e ser feliz com o que temos e alcançamos, e sempre temer a Deus e tê-lO em conta em todas as nossas atividades e em todos os nossos dias.

Se fosse possível resumir o ensino de Eclesiastes em poucas palavras, talvez elas seriam: "aproveite bem a sua vida e lembre-se de que a finitude é sua companheira inseparável, mas você pode ter o Infinito e o Eterno ao seu lado". Basta crer!



FIM



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 11

Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 10

Eclesiastes 11 é o menor capítulo do livro. Nele, o Pregador inicia a conclusão de seu pensamento, e o faz de uma maneira muito bela, chamando a atenção para o fato de que vale a pena viver. 

Se não concluísse de uma maneira positiva, restaria a impressão de que nada vale a pena na vida, quando ele pensa exatamente o contrário. 

Talvez Fernando Pessoa tenha captado, inadvertidamente, o "espírito" da conclusão do Pregador: "tudo vale a pena se a alma não é pequena". 

É este o sentido dos 3 primeiros versos do capítulo 11, chamando a atenção de que trabalhar ajuda a ter rendimentos para ajudar o próximo. 

"Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás" (v. 1) é um belo versículo que algumas vezes é usado fora de contexto, geralmente para dízimos e ofertas, como se fosse algum negócio que pudesse ser realizado com Deus. 

É, sim, um versículo sobre liberalidade, sobre desprendimento, sobre repartir com os outros aquilo que se tem (v. 2), sem esperar nada em troca (v. 6), já que ninguém sabe o dia de amanhã. 

Os tempos são instáveis, imprevisíveis (v. 3), e não devemos ficar parados, apenas observando (v. 4). 

Repare que no v. 4, o Pregador diz que "quem somente observa o vento nunca semeará",  e não se trata aqui de uma análise meramente agrícola. 

Mesmo que tudo que suceda na vida seja vaidade ("correr atrás do vento"), observação que ele insistirá novamente no v. 8, também é inútil desistir de tudo já que a vaidade impera na existência humana.

Sentar-se amuado num canto esperando o tempo e o vento passarem certamente não é uma atitude sábia aos olhos do Pregador, ainda mais se a justificativa para tal atitude seja o seu bordão "tudo é vaidade".

Ele prossegue dizendo que os desígnios de Deus também são imprevisíveis, mas boa e oportuna sempre é a Sua providência (v. 5). 

Assim, podemos entender melhor o que significa lançar o nosso pão sobre as águas. 

Pão é sempre visto na Bíblia como um símbolo do sustento, do cuidado do Pai, do pão nosso de cada dia, fruto do nosso trabalho, e remete à primeira conseqüência do pecado original, quando Deus falou a Adão: 


"Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; porquanto és pó, e ao pó tornarás" (Gênesis 3:19). 

O suor do nosso trabalho não é em vão. Vaidade é reter o pão na vã confiança de que a nossa vida depende dele. 

O maná que caía no deserto durava apenas um dia, exceto o do 6º dia, que podia ser aproveitado no sábado. 

De novo, a providência divina está em evidência aqui. 

Lançar o pão sobre as águas significa, no contexto de Eclesiastes 11, não retê-lo, mas usá-lo para ajudar ao próximo, para repartir aquilo que não só o nosso trabalho, mas também a providência de Deus, nos permitiu ter e comer. 

E o próprio Deus não reteve Seu Filho, mas o enviou a nós como o "pão da vida" que desceu dos céus para nossa salvação (João 6:33-51).

A idéia básica de Eclesiastes 11:1 é exatamente este lançamento de uma nau aos mares do mundo, ao desconhecido, na esperança de que, de alguma forma, depois de muito tempo, a encontraremos de novo. 

Cá entre nós, que o Pregador não nos ouça, mas de certa forma a nossa vida é como uma mensagem lacrada numa garrafa lançada ao mar, que após atravessar muitas águas será resgatada, libertada e lida por Alguém.

A Bíblia do Peregrino traduz este versículo assim: "Ainda que envies o teu trigo pela superfície do mar, no fim do tempo o recuperarás", e comenta sobre os seis primeiros versículos:
Se Coélet aceita e aconselha algo, é usufruir do fruto do próprio trabalho. Logo, é preciso trabalhar para obter este fruto. Pois bem, a correspondência entre trabalho e resultado não é mecânica, a proporção não é matemática, o êxito não é seguro. Então, não vale a pena trabalhar?A insegurança é faca de dois gumes: um empreendimento arriscado – o comércio marítimo – tem êxito, um empreendimento normal se expõe a múltiplos riscos; as nuvens fazem a árvore crescer, o vento a derruba, nuvens e vento seguem suas leis, entre firmes e caprichosas. O marido não sabe exatamente quando a mulher vai conceber ou como a vida entra no feto: como vai saber o plano misterioso de Deus que dá e sustenta toda a vida? A conclusão de Coélet é positiva: deve-se trabalhar enfrentando o risco e com esperança.
Desta maneira, o Pregador recupera e dá uma visão mais abrangente daquilo que já havia escrito em Eclesiastes 8:15. "exaltei eu a alegria, porquanto para o homem nenhuma coisa há melhor debaixo do sol do que comer, beber e alegrar-se; pois isso o acompanhará no seu trabalho nos dias da vida que Deus lhe dá debaixo do sol". 

O fruto do seu trabalho não deve ficar só para si, mas deve ser doado, "lançado" aos outros com alegria, pois, segundo Paulo lembra, "Deus ama ao que dá com alegria" (2 Coríntios 9:7). 

E assim, é formado um vínculo com Eclesiastes 2:26, onde se diz que "Deus dá sabedoria, conhecimento e prazer ao homem que lhe agrada; mas ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte e amontoe, a fim de dar àquele que agrada a Deus". 

Se o pecador, o ímpio, ajunta para dar involuntariamente ao justo, este deve ajuntar o que recolheu com o fruto de seu trabalho e redistribuí-lo voluntariamente aos outros, não apenas o rendimento, o salário, o dinheiro, mas o seu tempo, o seu cuidado, a sua disposição, sabendo que, em tudo, Deus está no comando, e fará prosperar aquilo que lhe apraz, e recompensará a cada um segundo a Sua vontade e providência. 

Aproveitemos o hoje, pois "doce é a luz, e agradável aos olhos ver o sol" (v. 7). 

No fundo, isso é tudo o que temos, o momento presente, o agora, como lembra o escritor de Hebreus (3:13) que nos aconselha a nos exortarmos "uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de nós se endureça pelo engano do pecado".

"Pecado", na visão do Pregador, significa dar ao trabalho, às necessidades imediatas, enfim, à existência material um valor tão alto que desvie nossos olhos do Criador, e não nos prepare nem nos console nos dias de trevas, que são muitos (v. 8), pois, finaliza, "tudo quanto sucede é vaidade".

É neste, digamos, "espírito", que o Pregador se dirige aos jovens agora, aconselhando-os a se alegrarem na juventude, recreando o coração nos dias da mocidade, sempre tendo em mente que Deus pedirá contas de todas essas coisas, naquele que é um dos versículos mais conhecidos de Eclesiastes (11:9). 

É interessante perceber que o Pregador não aconselha uma vida de reclusão, de ascetismo, ou de completo isolamento, tanto que no versículo seguinte (10), chama a atenção para que se evite o desgosto, a depressão, a dor, mas se busque a alegria da vida com responsabilidade.

Que a mocidade saiba, entretanto, que até a primavera da vida, que é a juventude, também é vaidade, preparando o seu leitor/ouvinte, principalmente jovem, para o conselho maior que dará no primeiro versículo do capítulo 12: 


"Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer".



Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 12



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 10

Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 9

Eclesiastes está chegando ao final, e o discurso do Pregador se encaminha para uma conclusão. Existe algum sentido na vida, afinal? Se existe, qual é? 

Até o capítulo 9, o Pregador veio desconstruindo uma série de certezas que pensamos ter sobre a vida. Ironicamente, a única certeza absoluta que temos sobre ela é a morte

O senso comum nos mostra que as mesmas coisas acontecem para justos e injustos, e que crentes e descrentes se equiparam nas circunstâncias cotidianas da vida, sejam elas tristes ou felizes. 

O sol nasce para todos, indistintamente. O capítulo 10 marca uma transição, em que o Pregador compara a sabedoria e a estultícia. 

"Estultícia" é um sinônimo mais formal e rebuscado de "tolice". 

No capítulo 2, ele já tentara se embriagar para que a estultícia se apoderasse dele (v. 3) e deixara claro que o que acontece ao sábio, também acontece ao estulto, ao tolo (vv. 15-16), mas agora é hora de marcar posição, e, para tanto, ele faz uma comparação muito simples, dizendo que a estultícia na vida de quem busca a sabedoria é como a mosca morta que estraga o perfume. 

A exemplo do que nos aconselham Jesus (Lucas 21:36), Paulo (1 Coríntios 16:13), e Pedro (1 Pedro 4:7 e 5:8), devemos estar sempre vigilantes não só quanto ao mal em si, mas também quanto às tolices, as bobagens, que somos tentados a fazer, aceitar ou vivenciar todo dia. 

Aquelas coisas pequenas, que aparentemente não têm nenhuma importância, podem estragar não só o nosso dia, mas às vezes uma vida toda. As versões católicas são mais felizes na tradução deste v. 1 (que é uma continuação de 9:18) para o português:

"Uma mosca morta estraga um perfume, uma migalha de insensatez conta mais que muita sabedoria." (Bíblia do Peregrino)

"Moscas mortas infectam e fazem fermentar o ungüento do perfumista; uma pequena tolice pesa mais que a sabedoria, que a glória." (Tradução Ecumênica)

A Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) diz: "Assim como algumas moscas mortas podem estragar um frasco inteiro de perfume, assim também uma pequena tolice pode fazer a sabedoria perder todo o valor".

Dietrich Bonhoeffer, pastor (e grande teólogo) alemão, que foi preso por conspirar contra Hitler, e depois enforcado a mando deste, alguns dias antes da guerra acabar.

Antes de morrer, chamou a atenção para a estultícia, a tolice, que aos poucos foi se impregnando num povo tido como sábio, que é o povo alemão, a ponto de resultar na gigantesca tragédia que foi a Segunda Guerra Mundial, onde o mal parece ter chegado ao seu apogeu na humanidade. 

No início do seu cativeiro, em 1943, ele escreveu um texto intitulado "Sobre a tolice" (para acessar o texto completo, clique aqui), em que diz o seguinte:
A tolice é um inimigo mais perigoso do bem do que a maldade. Contra o mal se pode protestar, é possível desmascará-lo, pode-se, em caso de necessidade, impedi-lo com o uso da violência. O mal sempre já traz em si o germe da auto-desagregação, pelo fato de deixar ao menos um mal-estar na pessoa. Contra a tolice não temos defesa. Nada se consegue com protestos nem com violência; argumentos não adiantam; a fatos que contradizem o próprio preconceito não se precisa dar crédito – em tais casos o tolo até mesmo se torna crítico – e se esses fatos são incontornáveis, simplesmente se pode pô-los de lado como casos isolados sem significado. Diferentemente do malvado, o tolo está completamente satisfeito consigo mesmo; ele até mesmo se torna perigoso, pois facilmente se sente provocado e passa à agressão. Por isso, recomenda-se mais cautela em relação ao tolo do que ao mau. Nunca mais tentaremos persuadir o tolo com argumentos; é inútil e perigoso.

(BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e Submissão. Ed. Sinodal, 2003, p. 33)

Hoje, olhando pelo retrovisor da História, ficamos com a impressão de que Bonhoeffer lutou contra um mal muito visível, fácil de identificar, um monstro com enormes garras, chamado nazismo.

Entretanto, a mesma História diz que nos esquecemos facilmente de que uma série de pequenas permissões à estultícia de um "salvador da pátria" personificado em Hitler, fez com que uma imensa tragédia se abatesse sobre toda a humanidade, e não só a Alemanha. 

E tudo começou de maneira bem simples, contaminando e corrompendo a civilização alemã a ponto de levá-la à barbárie da guerra e do holocausto. 

Talvez seja o caso de procurarmos identificar, atualmente, quais são as pequenas idiotices que toleramos na Igreja, imaginando-as inofensivas, quando têm não o poder de destruí-la, mas a possibilidade concreta de solapar muitas das bases em que nos firmamos ao longo dos séculos.

Desta maneira, o capítulo 10 de Eclesiastes é um libelo contra a estultícia, a tolice, a idiotice, que, por pequenas que sejam, ameaçam o caminho da sabedoria de qualquer um. 

Os três primeiros versículos anunciam a tônica de todo o capítulo. 

A questão do lado direito (para onde se inclina o sábio) e do lado esquerdo (para onde vai o tolo), longe de ser um preconceito contra os canhotos, refere-se a uma simbologia bíblica que associa a bondade divina ao lado direito e a punição ao lado esquerdo, como no dia do juízo final previsto por Jesus em Mateus 25:32-46. 

Para o Pregador, o tolo pode até tentar parecer sábio (como geralmente acontece), mas chega um determinado momento em que toda a sua estultícia é exposta publicamente, conforme diz o v. 3. 

Controlá-la, dominá-la, escondê-la, exige um esforço gigantesco que geralmente não resiste às pressões da vida. Nela se pode transitar de gênio para "jênio" (com "j") em questão de milímetros ou segundos.

Salomão ainda dá um conselho prático para aqueles que se deparam com alguém em posição superior (v. 4), dizendo que a serenidade aplaca a ira do governador. 

Isto não o impede de ver que, como também costuma acontecer, muitas vezes o tolo está em posição de honra, enquanto o rico (que pode ser entendido tanto em sentido literal como figurado) está colocado em posições mais baixas (vv. 5-7). 

O v. 8, que diz que "quem abre uma cova nela cairá, e quem rompe um muro, mordê-lo-á uma cobra", pode ser interpretado no mesmo sentido, por exemplo, de Provérbios 26:27 ("O que faz uma cova cairá nela; e a pedra voltará sobre aquele que a revolve").

Desta maneira, quem faz o mal, o mal receberá, o que nos leva a comparar este ensinamento com aquele que Paulo escreveu em Gálatas 6:8 - "Porque quem semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas quem semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna". 

Os versos seguintes seguem a mesma linha. Quem arranca pedras, provavelmente para uma briga (v. 9), pode ser atingido por elas, e é possível ligar esta ideia aos "tempos" de Eclesiastes 3:5, "tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar". 

O v. 10 chama a atenção para as pessoas que se fiam no seu conhecimento acumulado, que nem sempre é sabedoria. Assim como o ferro embotado, que não tem o corte afiado, é a sabedoria daquele que acumulou conhecimento mas não se preocupou em colocá-lo em prática, nem em revisitá-lo constantemente e desenvolvê-lo. 

O v. 11 revela que, como toda cidade importante daquela época, em Jerusalém também havia "encantadores" de serpente, que não eram propriamente bruxos ou feiticeiros, mas artistas populares que ganhavam a vida divertindo o povo nas ruas com suas técnicas de domar as cobras. 

De nada adiantaria exibir esta habilidade e ser mordido por elas. Por analogia, de nada adianta a sabedoria se ela não serve para instruir, prevenir, planejar, construir, e, principalmente, se defender dos perigos da vida. 

É interessante constatar que, alguns séculos depois, diante da destruição iminente de Jerusalém (e do reino de Judá) pela Babilônia, Jeremias profetizava da parte de Deus: "Porque eis que envio para entre vós serpentes, áspides contra as quais não há encantamento, e vos morderão, diz o SENHOR" (Jeremias 8:17).

A partir do v. 12, o Pregador volta a criticar a estultícia com mais veemência. "Nas palavras do sábio, há favor", ou seja, há graça, pois o sábio, numa visão neotestamentária, pode ser comparado ao homem que segue o conselho de Paulo: "Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que seja boa para a necessária edificação, a fim de que ministre graça aos que a ouvem" (Efésios 4:29). 

Salomão valoriza as palavras do sábio e reprova as do tolo, chamando-as de "loucura perversa" (v. 13). 

Conforme a experiência da vida nos ensina, geralmente o tolo "multiplica as palavras", ou seja, age como os gentios quando oravam, criticados por Jesus, que disse que eles pensavam que "pelo seu muito falar, serão ouvidos" (Mateus 6:7). 

Não só na oração, mas na vida, em geral, as pessoas tolas, que se esforçam em parecer sábias, se metem a falar de tudo freneticamente, na esperança de que suas bobagens não sejam percebidas no meio da sua verborragia, e possam passar uma imagem de sabedoria que não têm. 

Ao dizer que o tolo "nem sabe ir à cidade" (v. 15), além de mostrar o excesso de trabalho que a falta de sabedoria acarreta ao homem iletrado e incauto do campo daquela época, mostra que o tolo não procura se instruir. 

Naquele tempo, não havia escolas, e as cidades eram os locais onde se encontravam os sábios, geralmente discutindo em praça pública ou no templo. 

O tolo sequer se interessava em dirigir-se às cidades e ouvir os debates na praça, pois a sabedoria estava longe dele em todos os sentidos da palavra "longe". 

O Pregador critica ainda a terra cujo rei é uma criança (v. 16) e cujos príncipes festejam já de manhã (ou ainda pela manhã), o que revelava a ociosidade do seu povo inconsequente. 

Não tem nada a ver com Salomão o provérbio popular que diz que "Deus ajuda quem cedo madruga".

 Já feliz era a terra em que seu rei era filho de nobres, ou seja, tinha tido boa educação, e os seus príncipes faziam tudo no seu devido tempo, sem se dedicar a bebedeiras (v. 17). 

A preguiça é criticada (v. 18), num contraste com o que o Pregador vinha dizendo até então, ou seja, que tudo era vaidade, e que de nada adiantava trabalhar. 

Obviamente, isto deve ser entendido dentro do equilíbrio que ele passa a propor, ou seja, o trabalho é bom, a preguiça deve ser evitada, mas tudo deve ser feito com equilíbrio e temperança, reservando tempo, inclusive, para não pensar em trabalho. 

O dinheiro pode atender a tudo na vida (v. 19), mas este versículo deve ser lido em conjunto com Eclesiastes 7:12, ou seja, "a sabedoria protege como protege o dinheiro; mas o proveito da sabedoria é que ela dá vida ao seu possuidor". 

Por fim, o Pregador pede cuidado com as palavras. Naquela época, as casas das cidades e das vilas eram pegadas umas às outras, e geralmente havia pátios internos ou espaços públicos externos interligando-as.

Era inevitável, portanto, que tudo o que alguém falasse dentro do seu quarto pudesse muito bem ser ouvido pela vizinhança ou por algum transeunte. 

Logo, era aconselhável que cada um guardasse os seus pensamentos para si, principalmente aqueles contrários aos ricos e poderosos (v. 20). 

A meu ver, a conclusão do capítulo 10, em relação ao sábio, pode muito bem ser relacionada a Filipenses 4:8 – "Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai".





Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 11



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 9


Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 8

O capítulo 9 de Eclesiastes começa ainda com o eco do último versículo do capítulo 8, ou seja, "o homem não pode compreender a obra que se faz debaixo do sol". 

O discurso do Pregador está perto do fim, e ele começa a preparar o leitor/ouvinte para a conclusão, não sem antes repetir alguns temas que já havia dito, e enfatizar a questão da morte, do tempo e do acaso, principalmente. 

No primeiro versículo, há um jogo interessante entre as palavras "amor" e "ódio", que provoca uma certa controvérsia, sobre se ambos se referem a Deus ou ao homem. 

Ambas as traduções são possíveis, como se percebe das diferentes versões em português:


"os seus feitos estão nas mãos de Deus; e, se é amor ou se é ódio que está à sua espera, não o sabe o homem" (Revista e Atualizada)

"O homem não conhece nem o amor nem o ódio; tudo isto lhe está pela frente" (Tradução Ecumênica)

"O que os espera, seja amor ou ódio, ninguém sabe" (NVI)

"o homem não sabe se Deus o ama ou odeia" (Bíblia do Peregrino)

"O homem não conhece o amor nem o ódio de tudo o que espera" (Bíblia de Jerusalém)

"Deus controla o que as pessoas sábias e honestas fazem e até o amor e o ódio delas" (NTLH)

O versículo, a meu ver, deve ser entendido dentro do seu contexto, que inclui o último versículo do capítulo 8, ou seja, realmente o homem não sabe o que lhe está reservado nesta vida, já que ele não é dono de si mesmo, nem do seu destino, e mesmo as situações sobre as quais ele imagina ter controle geralmente são as que mais lhes escapam das mãos. 

As palavras "amor" e "ódio" podem também significar, respectivamente, "aceitação" ou "rejeição" da parte de Deus, o que, de alguma maneira, se relaciona com o v. 7, em que o Pregador diz que o homem deve viver gostosamente, "pois Deus já de antemão se agrada das suas obras". 

Mais do que propriamente a predestinação, Salomão fala aqui da providência divina, de uma forma que a graça de Deus está em destaque. 

É interessante perceber que o próprio Calvino usa esses versículos para refutar o dogma escolástico de que a fé é uma conjectura moral, ou seja, a pessoa teria certeza de que tem fé em Deus se se sente em paz com Deus pelas obras que realiza:

38. IMPROCEDÊNCIA DO DOGMA ESCOLÁSTICO DE QUE A CERTEZA DE FÉ É UMA CONJETURA MORAL.

Daqui se pode ajuizar quão pernicioso seja esse dogma escolástico de que não podemos estabelecer de outro modo quanto à graça de Deus para conosco do que por uma conjetura moral, segundo cada um não se reputa indigno dela. Certamente, se houvéssemos de julgar por nossas obras que afeto Deus nos tem, confesso que não o podemos compreender nem pela menor conjetura do mundo. Como, porém, deve a fé responder à simples e graciosa promessa, não se deixa nenhuma possibilidade de dúvidas. Ora, pergunto, de que confiança seremos armados, se raciocinarmos que Deus nos é propício com esta condição: desde que a pureza de nossa vida assim o mereça? Entretanto, uma vez que, para tratar destas coisas destinamos seu devido lugar, por ora não iremos mais longe, sobretudo vendo que nada pode haver mais contrário à fé do que a conjetura ou qualquer outro sentimento que tenha algo parecido com a dúvida ou incerteza.E para isso torcem mui abusivamente o testemunho de Eclesiastes, que por vezes, têm nos lábios: "Ninguém sabe se, porventura, seja digno de ódio ou de amor" [Ec 9:1]. Ora, deixando de parte que esta passagem foi incorretamente traduzida na versão corrente, contudo, não pode ser desconhecido até mesmo ás próprias crianças o que Salomão tem em mente com palavras desta natureza, isto é, se alguém queira julgar do presente estado das coisas, as quais delas Deus persegue com ódio, as quais delas abraça em amor, em vão labora ele e se atormenta com nenhum proveito, uma vez que "tudo sobrevém igualmente ao justo e ao ímpio, ao que oferece sacrifícios e ao que não os oferece" [Ec 9.2]. Do quê se segue que Deus não atesta perpetuamente seu amor para com aqueles a quem tudo faz suceder prosperamente, nem manifesta sempre seu ódio para com aqueles a quem aflige.E Salomão faz isso para comprovar a fatuidade do engenho humano, quando em coisas sumamente necessárias de se conhecer ele se vê dominado de tão grande obtusidade. Como havia escrito pouco antes [Ec 3.19], não se pode discernir em que a alma do homem difira da alma do animal, visto que parece morrer da mesma forma. Se alguém daí queira inferir que a convicção que temos acerca da imortalidade das almas se apóia em mera conjetura, porventura com razão não será tido por insano? Portanto, porventura são dotados de são juízo esses que, porque não se pode alcançar nenhuma conclusão da percepção sensória das coisas presentes, concluem que nenhuma certeza existe da graça de Deus?
(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 3, cap. II, p. 63)

Assim, os primeiros versículos do capítulo 9 de Eclesiastes ressaltam que "tudo sucede igualmente a todos" (v. 2), a crentes e incrédulos, a justos e injustos, o destino é o mesmo, o que dá a idéia de que somos todos, digamos, "descartáveis" no final. 

Nem "reciclados" somos, já que tudo jaz no esquecimento (v. 5). De nada adiantou amar, odiar, invejar, pois a vida se foi e tudo foi em vão (v. 6). 

Palavras duras, sem dúvida, se o Pregador tivesse parado por aí. Entretanto, ele realmente crê que vale a pena viver (v. 7), que a vida é melhor do que o nada (v. 9). 

Ele não está pregando uma alienação total, um desânimo generalizado, um distanciamento da vida, um nihilismo desenfreado. 

Tudo o que vier às nossas mãos, façamos conforme as nossas forças (v. 10), até porque, no nosso destino final, nada disso existirá. Pode-se perceber ecos desta lição nas palavras de Jesus:
João 12:35 Disse-lhes então Jesus: Ainda por um pouco de tempo a luz está entre vós. Andai enquanto tendes a luz, para que as trevas não vos apanhem; pois quem anda nas trevas não sabe para onde vai.
E nas de Paulo:
Gálatas 6:10 Então, enquanto temos oportunidade, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé.
Já Derek Kidner, no seu livro "A Mensagem de Eclesiastes" (Ed. ABU, 2ª ed., 1998, pp. 69-70), vê ecos de culturas passadas, como o Gilgamesh, neste trecho de Eclesiastes:
Há notáveis semelhanças entre esta passagem (9:7-10) e algumas linhas da Epopéia de Gilgamesh [placa X], um poema acadiano que data do tempo de Abraão ou antes e que era muito conhecido no mundo antigo. Neste ponto da história o herói, impelido pela morte de seu grande amigo a ir em busca da imortalidade, chega ao jardim dos deuses. Ali a jovem Siduri, a fabricante de vinhos, lhe fala:
"Gilgamesh, por onde você está vagueando?
A vida que está procurando, você nunca encontrará,
Pois os deuses, quando criaram o homem, deram-lhe
A morte como quinhão, e a vida
Ficou retida nas mãos deles.
Gilgamesh, encha o estômago!
Alegre-se dia e noite,
Encha os seus dias de alegria,
Dance e faça música de dia e de noite.
Use roupas limpas,
Tome banho e lave a cabeça.
Olhe para o filho que lhe segura a mão,
E que sua esposa se deleite com o seu abraço.
Apenas essas coisas dizem respeito ao homem.
"Este não é o único lugar onde se encontram sentimentos deste tipo. A canção de um banquete fúnebre egípcio, talvez mais ou menos contemporâneo de Gilgamesh, contém o seguinte conselho, após advertir os vivos acerca do que terão de enfrentar:
"Realiza os teus desejos enquanto estiveres vivo. Unge a tua cabeça com mirra, veste-te de linho fino, e unge-te...., e não aborreças o teu coração, até que chegue o dia da lamentação."

Após destacar a questão da morte, o Pregador segue dizendo que "tudo depende do tempo e do acaso" (v. 11), o que não deixa de ser uma recordação do que já havia dito em Eclesiastes 3, no célebre texto do "há tempo para tudo". 

Afinal, não sabemos a nossa hora de chegar nem de partir (v. 12). A maneira como decidimos sair do portão de casa pode definir a nossa vida (ou a nossa morte) de maneira totalmente inesperada. 

A nossa vida pode depender do simples fato de decidirmos sair pela direita ou pela esquerda, pelo portão de casa, numa linda manhã. 

A morte nos ronda todos os dias, conforme percebemos por uma simples passada de olhos nas manchetes dos jornais, com tantas vítimas do acaso, das balas perdidas, dos diques que se rompem, das pontes e dos meteoritos que caem. 

Já repararam como, às vezes, tudo dá errado? Muitas vezes, eu tive que sair mais tarde de casa, ou pegar a estrada atrasado, porque simplesmente algo (ou uma sucessão de "acasos") deu errado. 

Com o tempo, eu percebi que aquilo muito bem podia ser Deus simplesmente me protegendo de um acaso pior, e eu passei a relaxar depois desta percepção das coisas. 

Mais do que a Lei de Murphy, existe uma providência divina agindo nas nossas vidas, de todos nós, e esta providência às vezes se parece mais com um agente secreto que espreita os acontecimentos mais banais e corriqueiros do nosso dia-a-dia, mas está sempre ali presente, batendo o ponto, influindo nos mínimos detalhes para o nosso bem, mesmo que o aparente mal nos aconteça.

No final do capítulo 9, o Pregador conta uma pequena parábola, para exaltar a sabedoria (v. 13). Ele conta a história de uma pequena cidade, cercada por um grande rei (v. 14), em que um homem pobre, mas sábio, a livrou (v. 15), mas logo caiu no esquecimento do povo que havia salvo (v. 16). 

Esta é uma parábola com vários significados, mas o que mais salta aos olhos, a meu ver, é a questão da gratidão e da ingratidão

No v. 7, já vimos que havia uma espécie de gratidão de Deus para com os seus servos, sem nenhuma razão específica, apenas pela graça dEle mesmo. 

Aqui vemos que o povo daquela cidade deveria ser eternamente grato ao homem pobre, mas eles logo se esqueceram do benefício que este lhes havia feito. 

De fato, não devemos esperar gratidão dos homens, porque a regra é a ingratidão. 

Da mesma maneira, é esta regra que vigora no relacionamento dos homens para com Deus, como o próprio Jesus teve ocasião de vivenciar e delatar quando curou 10 leprosos (Lucas 17:11-19), e apenas um (ainda mais samaritano, ou seja, um pária para a época e contexto social em que vivia) retornou para lhe agradecer. 

Isto depois do Mestre ter dito que o senhor não precisava agradecer ao servo por este ter feito o que lhe havia sido ordenado (Lucas 17:9).

Este é um claro contraste com Eclesiastes 9:7, que é muito mais existencialista, no sentido de nos mostrar a importância de viver uma vida bem vivida, com todos os seus bens e males, e nos lembrarmos sempre de agradecer a Deus pelo dom da vida que Ele graciosamente nos deu.



Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 10




sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 8

 Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 7

Eclesiastes 8 segue o discurso prático do capítulo anterior, começando com uma pergunta ("Quem é como o sábio?") que se liga à frase imediatamente posterior, "que sabe a interpretação das coisas", colocando como uma espécie de enigma a ser decifrado o provérbio "a sabedoria do homem faz reluzir o seu rosto, e muda-se a dureza da sua face" (v. 1).

Ora, de imediato, no capítulo 8, o Pregador diz que há, sim, um benefício na sabedoria, que é o brilho do rosto e a leveza da face.

Há outro componente simbólico que deve ser analisado: um rosto brilhante significa, em linguagem bíblica, uma proximidade de Deus.

A face de Moisés resplandecia de tal maneira quando falava com Deus no monte, que teve que usar um véu (Êxodo 34:35).

Quando Daniel tem a visão de um anjo (que boa parte da antiga tradição judaica diz ser o arcanjo Gabriel), este tem o rosto como um relâmpago (Daniel 10:6), o que se parece muito com a glória de Deus (Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 1:12-16).

Davi também tinha essa idéia de que era Deus a fonte da sabedoria que ilumina o rosto dos seus filhos: "Quem nos dará a conhecer o bem? Senhor, levanta sobre nós a luz do teu rosto" (Salmo 4:6).

O próprio Salomão fizera conhecido um dos seus provérbios em que associa a dureza do rosto à impiedade: "o homem perverso mostra dureza no rosto, mas o reto considera o seu caminho" (Provérbios 21:29).

É esta "consideração do caminho", de todos nós, este "conhecimento do bem", que podemos chamar de sabedoria, conforme o provérbio seguinte ensina: "não há sabedoria, nem inteligência, nem mesmo conselho CONTRA o Senhor" (Prov. 21:30).

O sábio "conhece o tempo e o modo, porque para todo propósito há tempo e modo" (Ecl 8:4-5). O início do capítulo 8 fala de como devemos nos comportar diante do rei, e é possível interpretar esses versículos como sendo o rei o próprio Deus.

De fato, um rei (aqui com um significado bem abrangente, de líder, presidente, governador, etc.) deve se cercar de homens sábios como conselheiros, mas o Pregador coloca um juramento divino como garantidor da fidelidade a Deus, juramento este que mostra o rei (no caso, Salomão) como alguém ungido por Deus para esta função e este domínio sobre o povo.

A Bíblia de Jerusalém entende este juramento como uma possível interpolação do texto por alguém da época em que os Ptolomeus dominavam o Egito e a Palestina (séc. II a. C.), mas isso é mera suposição, sem nenhuma evidência mais concreta.

O fato é que, a meu ver, este juramento se encaixa dentro do propósito do Pregador, que no começo do capítulo 5 já havia advertido quanto às palavras e aos votos feitos ao Senhor.

Assim como não devemos nos apressar a pronunciar palavra alguma diante de Deus (5:2), não devemos nos apressar em deixar a presença do rei (8:3), pois ele faz o que bem entende. Pressa não combina com realeza e soberania.

Já o homem tem que carregar uma espécie de "peso do mal" sobre ele (v. 6), "porque este não sabe o que há de suceder; e, como há de ser, ninguém há que lho declare" (v. 7).

Este deve ser um versículo que todos os clarividentes e prognosticadores certamente não gostariam de ler, pois aí está bem claro que não existe adivinhação do futuro mediante uma bola de cristal (pelo menos que seja aprovada e atestada por Deus).

O v. 8 merece um pouco mais de atenção, pois há um problema de tradução com relação à palavra רוּח (rûach ) na expressão "não há nenhum homem que tenha domínio sobre o rûach para o reter".

A versão Almeida Revista e Atualizada traduz a palavra por "vento", enquanto a Revista e Corrigida e a NVI traduzem-na por "espírito". A Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) diz que "ninguém pode dominar o vento, nem segurá-lo".

As Bíblias católicas têm uma visão um pouco diferente, mas ainda na linha de "alma", "espírito". A Bíblia de Jerusalém diz "Homem algum é senhor do sopro, para reter esse sopro" e a Bíblia do Peregrino é mais poética: "O homem não é dono de sua vida, nem pode encarcerar seu alento". A Tradução Ecumênica segue o mesmo caminho: "Ninguém tem poder sobre o sopro vital para reter esse sopro".

É bom lembrar, também, que no capítulo 1 já discutimos a tradução da palavra vaidade como uma inútil "corrida atrás do vento".

Esta diversidade de traduções para a mesma palavra já foi discutida no capítulo 3 e a sua importância teológica é para o debate entre aqueles que creem na existência e na imortalidade da alma, e aqueles outros que a negam peremptoriamente.

A mim me parece que o contexto imediato favorece a primeira posição, pois o raciocínio do mesmo versículo é completado com a expressão "nem tampouco tem ele poder sobre o dia da morte".

Logo, me parece que a melhor tradução realmente seja "espírito", já que no dia da morte, ninguém pode reter a alma, o espírito.

Ainda nesse contexto, o v. 8 é completado com a frase "nem tampouco a perversidade livrará aquele que a ela se entrega". Por "entregar-se" aqui deve ser entendido "tornar-se escravo", conforme indica a palavra hebraica בּעל - ba‛al .

Logo, quem se torna escravo do mal, da perversidade, nesta vida, não se livrará dela, mas ¿só nesta vida?

Ainda que não exista aqui nenhuma referência explícita a uma sobrevivência da alma após a morte, nem seja possível desenvolver uma teologia do inferno a partir dessa expressão, a meu ver ela se encaixa dentro do espírito do v. 8, de que realmente há uma alma, um espírito que sobrevive à decadência do corpo e que, mesmo após a morte, ainda é escravizada, subjugada de alguma forma, ao mal e à perversidade.

A seguir, o v. 9 fala do poder do rei, e aqui numa visão já bastante terrena, no sentido de que todo aquele que lidera, que governa, e que, de alguma forma, abusa deste poder, além de arruinar os outros, termina prejudicando a si mesmo. Isto viria a ser verdade do reinado do filho de Salomão, Roboão, quando o reino se dividiu em Norte e Sul (1 Reis 12).

O v. 10 fala das injustiças da vida, muito comuns até hoje, em que pessoas más e belicosas são sepultadas com todas as honras (indevidas), enquanto pessoas boas e pacíficas são deixadas no mais completo abandono e esquecimento.

No v. 11 vemos um problema bem atual da sociedade, em especial a brasileira, já ter sido tratado quase 3 milênios atrás: a impunidade. A NTLH assim traduz: "Por que será que as pessoas cometem crimes com tanta facilidade? É porque os criminosos não são castigados logo".

No versículo seguinte, ainda na NTLH, o sábio diz que "um criminoso pode cometer cem crimes e continuar a viver", mas ainda que permaneça impune do ponto de vista legal, humano, do que isso lhe adiantará em termos transcendentais?

O v. 12 fala da inclinação do coração do homem para o mal, ocasião em que o Pregador faz uma pequena pausa para falar de coisas concretas, que realmente preocupam o crente ao ver a injustiça do mundo, realçando um dos pilares de Eclesiastes, que é o temor a Deus.

De fato, diz Qohélet, "bem sucede aos que temem a Deus", enquanto o perverso, que não teme a Deus, terminará sendo punido de alguma forma (v. 13).

Isso não elimina a confusão que muitas vezes percebemos, entre justos a quem ocorrem coisas más, e perversos a quem ocorrem coisas boas, mas preocupar-se com essa, digamos, aleatoriedade do destino - diz o Pregador – também é vaidade, ilusão, "correr atrás do vento" (v. 14).

Voltando ao seu padrão existencialista – na melhor acepção da palavra –, no v. 15 o Pregador repete pela terceira vez um conselho que já havia dito antes (2:24 e 5:18): vivam com alegria! Comam, bebam e alegrem-se! Divertir-se faz parte do dom da vida que Deus nos deu.

Agora é a providência divina que está em foco. Por fim, já tendo falado dos pilares da sabedoria, do temor de Deus e da providência, resta o último pilar do discurso de Qohélet: a eternidade.

E, para destacá-la, ele termina o capítulo 8 repetindo, de certa forma, Eclesiastes 3:11, dizendo que o homem não consegue compreender toda a obra de Deus, nem o sábio a pode achar, pois ela não tem princípio nem fim, como que se estivesse escondida debaixo do véu da eternidade, esta mesma eternidade que foi colocada por Deus no coração do homem.




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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 7


Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 6


O capítulo 7 é o mais longo de Eclesiastes, e talvez seja o mais belo e o mais injustiçado, já que muita atenção se dá a Eclesiastes 3 em detrimento da profundidade dos ensinamentos do Pregador em Eclesiastes 7. 

Para mim, este é o momento de sua pregação em que aquilo que parecia etéreo, excêntrico, digamos, "filosófico demais", começa a ter uma aplicação mais prática, mais "pé no chão". 

Assim, ele lista uma série de situações em que a nossa vaidade é despertada, em que nos sentimos importantes e especiais, como no caso de um ungüento precioso (7:1), o banquete na casa (7:2), a canção do insensato (7:5), e a cada uma dessas circunstâncias específicas em que a vaidade é realçada, o Pregador contrapõe outra situação em que a sabedoria verdadeira está sendo negligenciada. 

Temos, portanto, uma sabedoria prática, aplicada às cenas cotidianas que todos nós vivenciamos, e este é o momento em que o Pregador começa a dizer a que veio, e qual é sua real intenção.

Assim, a preocupação do primeiro versículo é com a reputação, com a "boa fama", a qual o Pregador considera melhor do que um perfume caro, o "ungüento precioso", o que não deixa de ser uma comparação bastante atual, já que muitas pessoas preferem camuflar a sua reputação atrás de perfumes e roupas caríssimas, como se elas tivessem o condão de modificar o que lhes vai por dentro. 

A estes Jesus chamaria de "sepulcros caiados" (Mateus 23:27), e alguns de nós poderiam usar o provérbio "por fora bela viola, por dentro pão bolorento". 

Na sabedoria prática de Qohélet, é melhor o dia da morte do que o do nascimento, porque a morte, sobretudo para o cristão, não deixa de ser um momento de redenção, uma tarefa cumprida, uma volta para casa, um encontro com a eternidade, enquanto o nascimento é apenas o começo de uma vida sujeita a todas as vaidades debaixo do sol. 

Neste diapasão, é melhor ir a um velório do que a um banquete (v. 2), pois diante da morte do outro (seja ele querido ou não) é que compartilhamos da humanidade que nos une, do destino comum a todos nós, e aí podemos refletir como estamos, de fato, levando a nossa própria vida. 

Afinal, só temos um vaguíssimo vislumbre da morte pela experiência dela pelo outro.  Curiosamente, nenhum de nós passará - em vida - pela experiência da morte, razão pela qual ninguém sabe exatamente o que seja o fim que a todos é reservado, e é nos velórios que somos lembrados de que ela existe e nos espera. 

Não que os banquetes não sejam bons, mas a comida e a bebida tendem a entorpecer os nossos verdadeiros objetivos nesta vida. E, ainda que não nos demos conta disso, as festas não deixam de ser - também - uma fuga da tomada de consciência da finitude que é inerente a todos nós

Ainda nesta lógica, digamos, esquisita, é melhor magoar-se do que rir (v. 3), permitindo-nos inferir que a mágoa (conforme traduzido na versão Atualizada), em geral, é conseqüência do conhecimento de algo ou de alguém que até então se apresentava (dissimuladamente) como verdadeiro e agora vemos que é falso, enquanto rir pode ser algo meramente inútil e inconsequente. 

Entretanto, "mágoa" talvez não seja a melhor tradução para a palavra hebraica כּעס (ka‛as). A NVI a traduz por "tristeza". As versões católicas são mais felizes ao captar o real significado do v. 3:


Mais vale o desgosto do que o riso,
pois pode-se ter a face triste e o coração alegre.
(Bíblia de Jerusalém)

É melhor sofrer do que rir,
pois dor por fora cura por dentro.
(Bíblia do Peregrino)

O sofrimento, o desgosto e a dor, se devidamente encarados, vividos, apreendidos e aprendidos, sem vitimização ou alarido, purificam e nos fazem crescer. É por isso que "o coração dos sábios está na casa do luto, mas o dos insensatos, na casa da alegria" (v. 4). 

Repare que há uma palavra que não está escrita no capítulo 7 de Eclesiastes (ela só aparece uma vez em 9:17), mas que está diretamente relacionada ao, digamos, "ambiente" desse contexto de luto: o silêncio.

Saber silenciar-se numa hora de dor, mágoa e sofrimento, para - no tempo oportuno - se recompor, isto sim é uma arte que todos podem e devem aprender.

Embora a maioria das pessoas não goste, é melhor ser repreendido pelo sábio do que juntar-se à cantoria dos insensatos (v. 5), cujas gargalhadas se comparam a espinhos crepitando debaixo de uma panela (v. 6). 

Ora, o que mantém o fogo acesso são as achas de lenha e não os espinhos, que apenas crepitam, fazendo o efeito sonoro irritante que, além de disturbar o silêncio, é inútil para o cozinhar.

A seguir, o Pregador volta a um tema que lhe preocupa bastante durante todo o livro de Eclesiastes, a opressão, que chega a enlouquecer o sábio, e a corrupção dos subornos (v. 7). 

O mundo é corrupto, o sábio não se cansa de dizer, e ninguém está imune a se ver diante de uma situação que pode corrompê-lo ou em que ele pode corromper alguém.

"Melhor é o fim das coisas do que o seu princípio" (v. 8), o que contraria, até certo ponto, o senso comum, de que o fim das coisas é sempre triste, mas Qohélet tem outros olhos para isso, pois vê as coisas de outra perspectiva, que é a eternidade, como já havia deixado claro em Eclesiastes 3:11. 

Nesse prisma, as coisas que realmente importam não têm princípio nem fim, pertencem a outra dimensão, a qual tocamos rapidamente em nossa passagem pelo planeta, mas neste mundo tudo é temporal e se desgasta naturalmente. 

Ele ainda encontra lugar para nos admoestar de que devemos ser tardios em irar-nos (v. 9), uma característica geralmente atribuída a Deus no Velho Testamento (Números 14:18; Salmos 103:8, 145:8; Joel 2:13, por exemplo) e que Tiago (1:19) nos aconselha a cultivar. 

Salomão já havia dito isso em Provérbios 19:11 – "a sabedoria do homem lhe dá paciência; sua glória é ignorar as ofensas" – NVI. Então, no v. 10, o Pregador dá um conselho que contraria ainda mais aquilo que estamos acostumados a pensar:


"Jamais digas: Por que foram os dias passados melhores do que estes? Pois não é sábio perguntar assim."

No nosso mundo, a juventude é admirada, louvada, apreciada, benquista. O envelhecimento é tido como algo feio, sujo, ruim, malvado, que devemos evitar a todo custo, embora seja o curso natural (e inevitável) das nossas vidas. 

Por isso mesmo, nos cercamos de saudosismo e nostalgia. Ficamos a nos lembrar, morbidamente, de como éramos felizes e não sabíamos, de como o que passou tem mais valor do que o que estamos vivendo, de como o passado é melhor do que o presente. 

O Pregador se indigna com este tipo de pensamento, e eu acho que ele está certo. O envelhecimento, visto como amadurecimento, é uma bênção de Deus

Não podemos nos trancar no baú de recordações do passado, recusando-nos a envelhecer e, assim, nos esquecermos de que temos que viver o hoje, e hoje a nossa vida - devida e friamente considerada - é mais feliz e completa do que foi alguns ou muitos anos atrás. 

Não podemos nos esquecer, também, de que a memória é traiçoeira, e ela tende a apagar e relativizar os maus momentos e reforçar, adoçar, açucarar mesmo as boas lembranças. 

Qohélet se insurge contra esta atitude na vida, pois o que verdadeiramente importa é o hoje, o presente. Como eu já havia dito no primeiro capítulo, o Pregador é existencialista no melhor sentido da palavra, e o que lhe importa é o aqui e o agora, não o que passou. 

O elixir da juventude é a eternidade no nosso coração.

Nos vv. 11 e 12, o Pregador faz uma comparação interessante entre sabedoria e dinheiro. Pela primeira vez, ele diz que herança e dinheiro podem ser coisas boas, para aqueles que veem o sol, mas somente a sabedoria preserva a vida. 

Muitas vezes, tanto a herança como o dinheiro causam a morte de quem os recebe. A sabedoria é muito melhor. 

O v. 13 mostra a impotência do homem diante dos decretos de Deus, já que ninguém pode endireitar o que ele torceu. 

É no v. 14 que o Pregador retoma um dos pilares de seu discurso, a providência divina, pois Deus tanto faz o dia da prosperidade como o da adversidade. 

Os bons morrem, e muitos maus vivem bastante (v. 15), logo não há razão para imaginar que a providência de Deus seja uma lógica matemática. 

Somente Ele sabe os seus desígnios e, principalmente, o que se passa dentro de cada coração humano. Portanto, o equilíbrio deve ser buscado em tudo na vida. Todos os extremismos devem ser evitados. 

Não devemos ser demasiadamente justos nem exageradamente sábios (v. 16), mas também não podemos ser demasiadamente perversos ou loucos (v. 17). Estes dois versículos deviam ser mais lidos na igreja para evitar tanto o farisaísmo como a licenciosidade. 

É o equilíbrio que, por assim dizer, constitui o amálgama dos 4 pilares onde se sustenta Eclesiastes: a sabedoria, a providência divina, a eternidade e o temor de Deus, pois "quem teme a Deus de tudo isso sai ileso" (v. 18). 

No v. 20, está uma declaração que embasa também o pensamento de Paulo em Romanos 3:10, pois "não há homem justo sobre a terra que faça o bem e que não peque". 

Para quê, então, viver à espreita de quem possa estar cometendo um erro ou falando mal de nós (v. 21), se somos todos sujeitos aos mesmos pecados (v. 22)?


Ainda com relação a Eclesiastes 7:16-17, sobre não ser demasiadamente justo, a palavra hebraica traduzida por justo aí é צדּיק - tsaddîyq - que quer dizer basicamente justo, legal, correto, no sentido de algo que está de acordo com a lei. 

Eu acho que "justo" não é uma boa tradução, já que ninguém pode definir exatamente o que seja justiça. Aquilo que é justo para um pode ser injusto para outro. Além disso, há muitas leis injustas. 

Martinho Lutero, por sinal, seguindo seus primeiros ensinamentos de Direito antes da Teologia, vai por esta linha ao comentar Eclesiastes 7:16
É melhor ter paz e sossego, ainda que com desvantagem e direito menor, do que buscar com intranquilidade e desassossego interminável o direito mais exigente e rigoroso. De qualquer modo, até aí jamais chegaremos. Pois não é necessário que um bom atirador acerte sempre na baliza ou na mosca. Quem acerta bem próximo da mosca ou várias vezes no alvo também é bom atirador. Todos os grandes sábios e também a experiência confirmam que existem e diariamente vão surgindo muito mais litígios e casos do que se pudesse abranger com leis e direito. Por isso também dizem que a lei rigorosa é a maior injustiça, como também diz Salomão: "Não sejas demasiadamente justo, para não quebrares a cabeça".
(Bíblia Sagrada com Reflexões de Lutero, p. 624)
Então, parece que estão com a razão alguns comentaristas que dizem que deve se entender essa palavra por legal, legalista, que cumpre a lei ao pé da letra. Desta maneira, não devemos ser legalistas como os fariseus, por exemplo. 

Com relação ao "exageradamente sábio", o significado me parece que seja também de não querer ser o sabe-tudo, o dono da verdade, alguém que não só dita mas detém o monopólio da interpretação das regras como se fosse o próprio Deus. 

Além disso, bem no espírito de Eclesiastes, o Pregador quer que se viva a vida sem grandes obrigações de ser a mais certinha das pessoas. O lema dele é "viva por prazer e não por obrigação". 

Por "demasiadamente perverso ou louco", eu acho que o contexto indica que não devemos ser alucinadamente materialistas, ou seja, que vivamos única e exclusivamente em função de aumentar o nosso prazer material, esquecendo-nos do espiritual e dos pequenos prazeres da vida. 

E entenda-se por "prazer material" aí tanto os excessos carnais como tudo aquilo que desrespeita, rouba, fere e mata os outros, apenas para que consigamos atingir os nossos objetivos mundanos pisando neles. 

É na mescla de todas essas qualidades que o sábio sugere que devemos encontrar o equilíbrio na vida.

Como o Pregador já havia dito logo no começo (1:8), muito conhecimento é enfado. Logo, perseguir a sabedoria apenas por perseguir também é vaidade, pois ela sempre se afasta de nós (v. 23). 

Quanto mais sábios ficamos, menos sabemos, o que lembra a frase atribuída a Sócrates: "só sei que nada sei!". Ser sábio é ter consciência das próprias limitações e a elas se acomodar. 

Isto também tem uma aplicação prática e corriqueira. Por que se preocupar tanto em saber, com minúcias, o que acontece com certa pessoa ou situação? Qual benefício advém de focar a vida unicamente em algo ou alguém?

Querer saber demais nos põe em contato com a perversidade, a insensatez e a loucura (v. 25). Talvez por isso Deus tenha dito a Moisés que "as coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus" (Deuteronômio 29:29) e Jesus tenha dito aos discípulos: "ainda tenho muito que vos dizer; mas vós não o podeis suportar agora" (João 16:12). 

Por fim, Qohélet faz um ataque aparentemente genérico às mulheres no v. 26, mas que deve ser entendido como uma autocrítica de Salomão a respeito de suas mulheres, o momento de introspecção de alguém que tinha 700 mulheres e 300 concubinas, "que lhe perverteram o coração" (1 Reis 11:3). 

As mulheres não devem se sentir desprestigiadas por esse trecho final do capítulo 7, mas há que entender a amargura de um homem poderoso que, no fim da vida, se viu "metido em muitas astúcias" (v. 29) que ele próprio causou.



Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 8



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