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domingo, 5 de março de 2017

Em pleno 2017, bolivianos são vendidos como escravos em feira livre de SP

Constatação: fracassamos miseravelmente como sociedade.

A prova cabal é a notícia - inacreditável sob todos os parâmetros - que foi publicada no Estadão em 04/03/17, para nosso horror e vergonha coletiva:

Na Justiça do Trabalho, há até caso de bolivianos 'à venda'

Caso ocorreu em 2014, mas decisão foi proferida na semana passada; dono de confecção foi acusado de tentar 'vender' três adolescentes em feira livre em SP


SOROCABA - A Justiça do Trabalho de Jundiaí, interior de São Paulo, obrigou ao cumprimento das leis trabalhistas uma confecção de Cabreúva, na mesma região, suspeita de submeter trabalhadores bolivianos à condição análoga à escravidão. O dono da empresa foi acusado de ter posto à venda três adolescentes bolivianos numa feira livre do Brás, em São Paulo, em 2014.

A liminar, dada na última quinta-feira, em ação movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), obriga a oficina a contratar formalmente os trabalhadores estrangeiros e a se abster de aliciar mão de obra, sob pena de multa de R$ 50 mil por trabalhador lesado em seus direitos.

A Justiça proibiu a empresa de manter mais de uma família de empregados na mesma casa e obrigou a garantir as condições de higiene, além de prover cuidados básicos à saúde e de proteção do trabalho.

A decisão foi dada em ação que pede a condenação da empresa ao pagamento de indenização de R$ 3 milhões aos jovens bolivianos postos à venda. O mérito do processo ainda será julgado.

Em 2014, a Polícia Militar resgatou três bolivianos com idades entre 16 e 17 anos que estariam “à venda” numa feira. O homem que levava os rapazes fugiu, mas foi identificado e detido em Cabreúva. Segundo a denúncia do MPT, ele tinha aliciado os bolivianos com promessa de salário de US$ 500 cada por mês, mas ao chegar ao Brasil, eles descobriram que teriam de pagar as passagens e outras despesas, inclusive alimentação. Ao se negarem a continuar trabalhando, o dono da oficina teria decidido vendê-los a outros empresários na feira do Brás para se ressarcir do suposto prejuízo.

A fiscalização flagrou mais 14 estrangeiros trabalhando em condições degradantes na oficina. A empresa tinha contrato de exclusividade com uma lavanderia da capital, a qual foi incluída pelo MPT no polo passivo da ação e responderá de forma solidária por eventual descumprimento da liminar. O dono da confecção se mudou de Cabreúva e não foi localizado. A lavanderia da capital informou que a ação não teve julgamento final e que não se manifestaria sobre o assunto.





sábado, 18 de fevereiro de 2017

O bacharel mulato e filho de padre que peitou D. Pedro I e as agruras do séc. XIX

Pelo jeito, o mundo não mudou nada desde então.

Talvez tenha até perdido muito em senso de humor, segundo se depreende do artigo de Mary del Priore em História Hoje:

O bacharel mulato que desafiou D. Pedro I

No Brasil imperial, época de mudanças, um personagem importante invadiu a cena: o mulato. Em seu clássico Sobrados e Mocambos, Gilberto Freyre foi dos primeiros a observar fenômeno: ele era uma força nova e triunfante. Segundo Freyre, o mulato vinha se constituindo em elemento de diferenciação da sociedade rural e patriarcal no universo urbano e individualista. Ele estaria se integrando, ou melhor, se acomodando, entre os extremos: o senhor e o escravo. A urbanização do Império, a fragmentação das senzalas em quilombos, o crescimento de alforrias e a inserção nos cargos públicos e na aristocracia de toga, deu visibilidade aos mulatos, “aos morenos”.

Nos jornais, notícias e avisos sobre “Bacharéis formados”, “Doutores” e até “Senhores Estudantes”, principiaram, desde os primeiros anos do século XIX a anunciar o novo poder daqueles que agiam e se expunham em becas escuras. “Trajes de casta capazes de aristocratizar” seus portadores, diz Freyre. Muitos não dispunham de protetores políticos para chegar à Câmara nem subir à diplomacia. Muitos estudaram ou se formaram graças “ao trabalho de uma mãe quitandeira ou um pai funileiro”. Outros faziam casamento com moças ricas ou de famílias poderosas. Mas eram visíveis em toda a parte.

É o mesmo Gilberto Freyre quem conta o exemplo de José da Natividade Saldanha, bacharel mulato e protagonista de uma história surpreendente. Filho de padre, Saldanha estudou para padre no Seminário de Olinda, mas rebelou-se contra o Seminário. Durante a Revolução Pernambucana, em 1817, ele deixou a cidade com os familiares e rumou para Coimbra, a fim de continuar os estudos. Na volta ao Recife, se insurgiu contra Dom Pedro I e sua constituição. Foi eleito secretário do governo de Manoel de Carvalho Paes de Andrade e encontrava tempo para escrever relatórios sobre a revolução, pensando em deixar para a posteridade as informações do acontecido. Com a derrota dos insurretos, Natividade Saldanha fugiu.

Na primeira tentativa frustrada de refugiar-se na França, perdeu o navio e escondeu-se novamente em Olinda. O cônsul americano James Hamilton Bennet o ajudou na fuga para Filadélfia, Estados Unidos, onde sofreu discriminação, por ser mulato. Viajou, então, para a França, onde conseguiu um passaporte português. Sob perseguição do governo brasileiro, ele foi expulso do país pela polícia local. Foi à Inglaterra e, de lá, à Venezuela, onde sofreu privações. Na Venezuela, Natividade Saldanha conheceu o General Abreu e Lima, que o encaminhou a Simon Bolívar. Conseguiu, então, exercer a advocacia naquele país. Ali, comentou a sentença de um juiz branco, Mayer, na qual ele, Saldanha era chamado de mulato. E retrucou:
”[…] Esse tal mulato Saldanha era o mesmo que adquirira prêmios quando ele, Mayer tinha aprovação por empenho e quando o tal mulato recusava o lugar de auditor de guerra em Pernambuco, ele, Mayer, o alcançava por bajulação”.
Saldanha abandonou Caracas e foi à Colômbia pela selva, passando a residir em Bogotá, onde passou a ensinar Humanidades. Soube, então, que tinha sido condenado à morte por enforcamento no Brasil. Tomando conhecimento que um antigo amigo exercia atividade no tribunal que o condenou, enviou-lhe uma procuração com os seguintes termos:
“Pela presente procuração, por mim feita e assinada, constituo por meu bastante procurador na Província de Pernambuco ao meu colega Dr. Tomaz Xavier Garcia de Almeida, para em tudo cumprir a pena que me foi imposta pela Comissão Militar, podendo este morrer enforcado, para o que lhe outorgo todos os poderes que por lei me são conferidos.
Caracas, 3 de agosto de 1825.
Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, Editora LeYa, 2016.



domingo, 29 de novembro de 2015

Darwin e o instinto moral


Relembrando matéria publicada na Folha de S. Paulo de 20/04/13:

Antropologia de Darwin: 
Os fundamentos materiais da moral

CARLOS ALBERTO DÓRIA

RESUMO "A Descendência do Homem" (1871), de Charles Darwin, foi praticamente ignorado em nome da ideia liberal de "guerra de todos contra todos". Releituras e pesquisas recentes em torno do livro revelam uma verdadeira teoria antropológica darwiniana que aponta para as raízes biológicas da moral.

Um dos casos mais intrigantes da epistemologia das ciências biólogicas é a quase absoluta ignorância que se seguiu à publicação de "A Descendência do Homem" (1871), de Charles Darwin.

Quase ninguém se deu conta de que a obra encerrava uma revolução no conhecimento, tão importante quanto "A Origem das Espécies" (1859).

Tão certos estavam os seguidores e detratores de Darwin de que se tratava de uma "continuação" ou "aplicação" da "Origem" à espécie humana, contestando a natureza divina do homem, que nem se deram ao trabalho de lê-la. Do mesmo modo, parte do trabalho --sobre o mecanismo da seleção sexual-- foi considerado um ensaio independente, sem conexão com a origem do homem. Passou em brancas nuvens esta que é considerada agora a "segunda revolução darwiniana".

A obra vale por não repetir argumentos da "Origem", constituindo uma verdadeira antropologia na qual se fundem as dimensões biológica e cultural, como nunca se vira antes e não se viu depois, pois as ciências humanas se desenvolveram de costas para a biologia e a cultura foi considerada algo além do mundo orgânico ("superorgânica") --isto é, a vida simbólica já aparece como plenamente constituída.

Essa antropologia só é possível porque Darwin não vê diferenças de natureza, e sim de grau, naquilo que une o homem às demais espécies animais. As habilidades, os instintos, a inteligência, a capacidade de comunicação (linguagem), os comportamentos são caracteres animais difundidos por infinitas espécies.

O impacto político dessa antropologia é enorme. Ao "animalizar" o homem e seus instintos mais "nobres", deixava a igreja falando sozinha, mesmo sem haver pensado a obra como um libelo antideísta. O livro mostra que os homens pertencem a uma espécie polimórfica, na qual todos são iguais, e as diferenças secundárias, como a cor da pele, foram desenvolvidas ao longo de milênios, através de escolhas estéticas de grupos humanos.

POLÍTICA

Mas por que Darwin escreveu esse livro, se as ciências humanas não eram seu foco de atenção? A razão foi de ordem política e humanitária, conforme hoje se sabe, graças ao estudo dos biógrafos de Darwin sobre suas anotações e diários (Adrian Desmond e James Moore, "Darwin's Sacred Cause: Race, Slavery and the Quest for Human Origins", Penguin Books, 2009).

Quando Darwin esteve no Brasil, horrorizou-se com a escravidão e, desde o distante ano de 1837, começou a reunir elementos para provar a origem comum e a igualdade entre os homens no plano biológico, de modo a sepultar as principais teses dos escravistas, com destaque para a tese da poligenia (tomando raças ou variedades como se fossem espécies "criadas" independentemente, segundo sugeria a leitura que faziam da Bíblia) com a qual "justificavam" o direito à escravizar seres aparentemente distintos.

Do ponto de vista historiográfico, a trajetória intelectual de Darwin também é surpreendente: uma obra sobre o homem, provando sua igualdade (monogenia), foi ideia anterior à concepção da seleção natural. Assim, se o estudo sobre a origem das espécies favoreceu sua compreensão sobre a animalidade do homem, ela contribuiu igualmente para o amadurecimento de sua antropologia.

A nova leitura esclarecedora de "A Descendência do Homem" deve-se ao trabalho de quase 20 anos do epistemólogo francês Patrick Tort, cujo livro "L'Effet Darwin: Séléction Naturelle et Naissance de la Civilisation" (Seuil, 2008) é síntese dessa trajetória persistente.

A primeira questão que Tort busca explicar é o desprezo pela antropologia de Darwin. E sua explicação é relativamente simples: a ideia de "luta pela vida" era extremamente conveniente para a economia política liberal; reforçava a noção de luta de "todos contra todos" e triunfo dos mais fortes, e os evolucionistas liberais, como Herbert Spencer, a ela se aferraram.

"A Descendência do Homem", ao contrário, é a obra na qual Darwin sofistica os mecanismos de seleção --faz até um mea-culpa por haver exagerado o papel da seleção natural-- introduzindo na história natural as noções cruciais da cooperação e "altruísmo".

Contudo, só nos países sem tradição de economia política liberal esses mecanismos de evolução foram percebidos e valorizados, como na Rússia czarista, resultando em algumas obras discrepantes em relação à interpretação dominante, como a de Peter Kropotkin, "Ajuda mútua: Um Fator de Evolução" (1888).

Em "A Descendência do Homem", Darwin mostra como esse animal surge da evolução de formas mais simples através da convergência fortuita de vários processos: a pedestrialização (quando o animal desce das árvores), o bipedismo, a encefalização (aumento do cérebro) e o desenvolvimento da linguagem simbólica. Mas não foram só as transformações físicas que Darwin captou. Ele indicou que, ao se desenvolver no plano social, criou-se uma ruptura com o processo anterior, no qual, por força de pressões ambientais, os animais se adaptavam mediante a transformação física milenar.

O Homo sapiens já não se transforma fisicamente, mas age sobre o ambiente, adaptando-o às suas necessidades (produz vestimentas, habitação etc.). Do mesmo modo, o instinto animal evolui e aprofunda seu caráter social, impondo formas cooperativas, tornando-o um animal social bastante sofisticado, capaz de várias ações altruístas.

Mas por que o altruísmo? Não se trata da manifestação de uma "essência humana", fruto de um sopro divino, mas de uma necessidade material da vida. O instinto social é característica de várias espécies --como as abelhas, as formigas e vários mamíferos superiores. Através dele, a reprodução do grupo entra em causa, condicionando as ações e escolhas individuais.

NOVO PERCURSO

No homem, desde a divisão de trabalho entre macho e fêmea para cuidar da cria (longamente inabilitada para, sozinha, prover a vida) até o desenvolvimento das instituições sociais, como a ciência ou a medicina, um novo percurso evolutivo se instaura quando crianças, velhos e indivíduos menos aptos são protegidos, em vez de eliminados.

Uma seleção natural de instintos e comportamentos antieliminatórios (ou "antisselecionistas") vai tomando corpo e reprimindo as ações eliminatórias.

O resultado cego desse longo processo é a civilização, isto é, a repressão sistemática da "lei do mais forte" na medida em que padrões encontram formas de se impor ao grupo e se sobrepor aos do indivíduo. Tort verá nesse mecanismo a "reversão da seleção natural", ou o nascimento da civilização sem ruptura com a dimensão biológica da vida. Em outras palavras, a base material, natural, da moral.

"A Descendência do Homem" traz uma segunda parte, sobre a "seleção sexual". Nela, o cientista inglês mostra justamente a necessidade do altruísmo --a capacidade de dar a vida por outros membros da espécie-- como fator de evolução. Por que em certas espécies, notadamente de aves, o macho é muito mais belo e exuberante que as fêmeas? Simplesmente porque, ao se desenvolverem dessa forma, eles têm mais chances de serem "escolhidos" pelas fêmeas e criarem descendência. Mas o pavão, por exemplo, ao desenvolver sua beleza perde a capacidade de voar, ficando à mercê dos predadores. Essa inabilitação adquirida só se explica pelo "altruísmo": correr riscos, o autossacrifício em nome do outro, da descendência.

Por esse mecanismo da seleção sexual, o homem também terá capacidade de alterar seus caracteres secundários. Sendo espécie polimórfica, variará na cor da pele e outros traços físicos exteriores ao perseguir padrões de beleza restritos a cada grupo humano isolado. O "belo ideal" é um conceito social que se materializa nos indivíduos que ocupam a chefia do grupo, nas mulheres que utilizam adornos, nas estátuas que representam os deuses e assim por diante.

Esses padrões se tornam dominantes na medida em que passam a intervir nas escolhas matrimoniais e, por esse processo, disseminam-se pelo grupo. Nada disso precisa ser consciente para agir sobre o homem, como o instinto não é consciente no animal.

Caminhos como esse mostram, mais de um século depois, a dimensão insuspeitada de uma obra que parecia "caduca" aos olhos das ciências naturais e ciências humanas. Trata-se de um clássico que, finalmente, impõe sua grandeza intelectual.



terça-feira, 18 de agosto de 2015

Presos líderes de seita evangélica acusados de escravizar fiéis

A informação é do Brasil Post:

Polícia Federal prende líderes de seita religiosa que teriam escravizado fiéis; fundador se apresenta como 'divindade'

A Polícia Federal deflagrou na madrugada desta segunda-feira (17) a Operação De Volta para Canaã em três Estados do País e prendeu líderes de uma seita religiosa que teriam escravizado fiéis. Segundo a PF, o grupo teria utilizado a seita para se apoderar do patrimônio dos fiéis, submetendo-os a trabalhos forçados, em situação análoga a de escravos.

Os investigados responderão pelos crimes de redução de pessoas à condição análoga a de escravo, tráfico de pessoas, estelionato, organização criminosa, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

As investigações apontaram que os dirigentes da seita Jesus, a Verdade que Marca estariam mantendo pessoas em regime de escravidão nas fazendas onde desenvolviam suas atividades e rituais religiosos. A PF afirmou que os fiéis, ao ingressarem na seita, eram convencidos a doar seus bens sob o argumento da convivência em uma comunidade onde "tudo deveria ser de todos" e, em seguida, obrigados a trabalhar sem qualquer espécie de pagamento.

Os investigadores estimam que o patrimônio recebido em doação dos fiéis chegue a pouco mais de R$ 100 milhões. Parte do valor teria sido convertido em "grandes fazendas, suntuosas casas e veículos de luxo". A operação conta com 190 policiais federais, que estão cumprindo 129 mandados judiciais: seis de prisão temporária, seis de busca e apreensão, 47 de condução coercitiva e 70 de sequestro de bens.

Os mandados expedidos pela 4ª Vara Federal em Belo Horizonte estão sendo cumpridos nas cidades de Pouso Alegre, Poços de Caldas, São Andrelândia, Minduri, São Vicente de Minas e Lavras, em Minas Gerais, Carrancas, Remanso, Marporá, Barra, Ibotirama e Cotegipe, na Bahia, e em São Paulo.

Caso antigo

A PF informou que a Operação De Volta a Canaã dá continuidade a investigações iniciadas em 2011, que levaram à deflagração da Operação Canaã em 2013. Na primeira etapa, a PF, o Ministério do Trabalho e Emprego e o Ministério Público do Trabalho fizeram inspeções em propriedades rurais e em algumas empresas. Segundo a PF, foi identificado um "sofisticado esquema de exploração do trabalho humano e lavagem de dinheiro levado a cabo por dirigentes e líderes religiosos". “Somente neste ano, a Polícia Federal começou a investigar mais de 50 casos envolvendo o tráfico e a exploração de pessoas no Brasil", informou a PF.

De acordo com o delegado da Polícia Federal em Varginha (MG), João Carlos Girotto, o modus operante da seita era sempre o mesmo: convencer pessoas de fragilidade emocional a mudarem as suas vidas no interior, alterando a sua condição de vida, “sob a promessa de que viveriam em comunidades onde vigeria o princípio da igualdade absoluta”.

“Todos os bens seriam de todos. Ao adentrarem na seita, as pessoas são convencidas a entregarem todos os seus bens, móveis e imóveis, e na sequência são transferidas para fazendas, onde trabalham sem remuneração. Lá eles também têm a liberdade cerceada e ao irem para as cidades, são escoltadas por membros da seita”, afirmou, em declarações reproduzidas pelo G1.

As primeiras investigações sobre a seita Jesus, a Verdade Que Marca, datam de 2006. Naquela época, as suspeitas eram de movimentações da ordem de R$ 10 milhões.

Fundador se considera “o próprio Deus”

A seita foi fundada em 1998 no Tatuapé, na zona leste de São Paulo, pelos pastores Cícero Vicente Araújo e Edmilson Pereira da Silva. Desde o início, as regras sempre partiram do pressuposto que os seguidores deveriam “obedecer cegamente” às orientações dos pastores, doando todos os seus bens e aceitando algumas regras, como o confinamento em fazendas, veto aos meios de comunicação e a proibição, por exemplo, de marido dormir com a mulher.

Não são poucos os depoimentos de dissidentes sobre as práticas dos líderes da seita. Em 2013, um homem de 72 anos disse, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, foi convencido a doar tudo o que tinha porque, segundo o pastor Cícero Vicente Araújo, “todas as estradas iam se fechar e colocariam chips na cabeça das pessoas”. “Diziam que os demônios destruiriam aqueles que saíssem”, completou.

Três anos antes, uma mulher do interior de São Paulo denunciou ter perdido contato com duas filhas, um neto e outros familiares, todos cooptados pela seita. De acordo com ela, o sistema de lavagem cerebral gerava situações como o fato de benefícios, como os cartões do Bolsa Família e aposentadorias, ficarem a cargo dos pastores. Para os que vivem nas fazendas da seita, as condições de vida seriam desumanas.

A mesma mulher disse também que o pastor Cícero Vicente Araújo se identifica “como o próprio Deus”, alegando ter “poderes divinos”. O temor, para ela, era de que, entre outras pregações, o pastor pudesse induzir seus seguidores a um suicídio coletivo.

Uma análise do pastor Natanael Rinaldi, uma das autoridades da igreja evangélica no País, afirma que a seita Jesus, a Verdade Que Marca é conhecida pelo seu caráter de “desagregação das famílias” e “leituras equivocadas dos ensinamentos bíblicos”.



domingo, 4 de janeiro de 2015

Resgatando prostitutas na Índia


Matéria interessante publicada no Brasil Post:

Encontrando amor na zona de prostituição de Nova Déli


Anna da Costa

"Quando descobri o que tinha que fazer, senti como se estivesse me matando, ou matando outra pessoa", disse Salva*. Ela se concentrou na máquina de costura à sua frente e começou a girar a roda mecânica. Logo se ouvia um som de cliques rítmicos, com a agulha se movendo rapidamente para cima e para baixo, o salwar (roupa típica indiana) de um profundo lilás sob ela prestes a ser finalizado.

"Como você descobriu?", perguntei. O som dos cliques foi suspenso por um momento quando ela parou para responder.

"Eles colocaram muita maquiagem em mim. Roupas curtas também. Eu nunca usaria esse tipo de coisa antes e não queria", disse Salva.

"Os clientes chegavam e se sentavam. Sempre que se aproximavam e tentavam algo comigo, eu batia muito neles. Como poderia saber por que estavam ali? Mas claro que depois os pobres caras reclamavam porque tinham gastado dinheiro, e depois eu pagaria por aquilo. Apanhava muito."

Estávamos sentadas no chão de uma sala com poucos móveis, pálidos raios da manhã projetando longas sombras contra paredes amarelas descascadas. Não pude deixar de notar a profunda cicatriz em forma de U que marcava a parte de cima de seu ombro esquerdo. "Você chegou a tentar escapar alguma vez?".

"Muitas vezes", respondeu. "Sempre que recebia uma pequena gorjeta de um cliente, eu a escondia em qualquer lugar secreto pequeno que achava no kotha [bordel], mas nunca conseguia fugir. Eles nos espancavam terrivelmente se tentássemos. Muitas garotas morreram dessa forma na GB Road."

Como muitas das 3,5 mil mulheres que moram e trabalham na maior zona de prostituição de Nova Déli, a GB Road, um agente havia atraído Salva para o local com a promessa de um salário mais de quatro vezes superior ao melhor que poderia encontrar em Kolkata. Apenas quando chegou em Nova Déli que descobriu que não desempenharia tarefas domésticas.

Se passaram 15 anos e, apesar do fato de que Salva agora é livre para deixar a GB Road se quiser, ela, até recentemente, não tinha nem os meios nem confiança para fazê-lo. Seis meses atrás encontrou a Kat Katha, uma comunidade de jovens voluntários cuja missão é capacitar mulheres e crianças da GB Road. Desde então, sua perspectiva começou a mudar.

Classes de costura são uma das muitas formas pelas quais -- por meio da Kat Katha -- mulheres como Salva estão começando a aprender novas habilidades e criar oportunidades para deixar a zona caso queiram.

"As garotas começam nesse tipo de trabalho bem jovens, com 12 ou 13 anos", disse a fundadora da organização Gitanjali Babbar, de 28 anos. "Elas são trancadas nesses lugares e, mesmo se lutam no começo, depois de alguns anos muitas aceitam aquilo como seu destino. Elas acham que não há alternativas."

O espaço alugado pela Kat Katha próximo à GB Road, simples mas adoravelmente decorado, onde estamos sentados com Salva, também se tornou uma escola para 16 das crianças que vivem nos bordéis, onde frequentam as aulas seis, e às vezes sete dias por semana.

Muitas mulheres estão conectadas à "Kat Family"-- como elas se autodenominam -- por meio de suas repetidas visitas aos bordéis onde não apenas frequentam as classes, mas também estão desenvolvendo uma série de programas adicionais para fornecer serviços de saúde e educação sobre direitos constitucionais para as mulheres.

"Queremos que cada mulher e criança nesse caminho não viva uma vida de marionete, mas que tenham uma vida que eles próprios escolheram", disse Babbar, explicando sua escolha pelo nome "Kat Katha', que significa "A História das Marionetes".

Um mundo paralelo


A GB (Garstin Bastion) Road está localizada no coração de Nova Déli, conectando estações de trem novas e antigas com suas longas e empoeiradas vias. Um mundo paralelo se esconde nas ruínas de edifícios de três e quatro andares. Invisível para a maioria, esse mundo se reflete nos rostos abatidos e maquiados de mulheres que já passaram da sua melhor fase, que se sentam na ponta de escadas escuras chamando os clientes. Também dá pistas nos olhares de homens, velhos e novos, em direção às mulheres de lábios vermelhos que acenam de janelas com grades.

Foi no começo de 2011, enquanto trabalhava para a Organização Nacional de Controle da Aids da Índia (NACO, na sigla em inglês), que Babbar visitou a GB Road pela primeira vez. "Sabia que existia, mas nunca poderia imaginar que fosse tão ruim", disse. "Quando você vê seres humanos vivendo dessa maneira, começa a questionar tudo."

Os 70 bordéis da área são muito apertados e imundos. À medida que subimos as escadas escuras, quartos com bancos forrados se espalham à esquerda e à direita, grupos de mulheres vestidas em uma variedade de salwars e saris surrados, ou roupas ocidentais apertadas. Às vezes, são chocantemente jovens. Nos kothas mais populares, como o 'número 64'-- conhecido por suas lindas garotas do Nepal -- homens, jovens e velhos, se movimentam pelos vários andares em filas quase contínuas. Alguns vêm sozinhos, outros em grupos barulhentos. São frequentemente altos, às vezes violentos; às vezes descarados, outras envergonhados.

"Algumas atendem até 40 clientes por dia, todos nestas incrivelmente pequenas e sujas cabines", disse Babbar. "Você sente que vai pegar uma infecção só de olhar para elas; são muito ruins".

A taxa de HIV na área, de 8%, supera em 26 vezes a média nacional. E as mulheres sofrem de uma série de outras doenças, como infecções da pele, problemas de pulmão, desnutrição e outras doenças sexualmente transmissíveis. A maioria desses problemas não é tratada -- as mulheres não querem sair dos bordéis ou não podem arcar com o tratamento médico.

Não é apenas a saúde física das mulheres que é impactada pela vida na GB Road.

"Depois de viverem aqui por anos, muitas estão sofrendo distúrbios mentais", disse Babbar. "Depressão, ansiedade e insônia são muito comuns."

Fatima, agora com 38 anos, mora em uma sacada minúscula que se amontoa sobre um dos vales atrás da GB Road. Exposta aos piores elementos da cidade, ela divide uma cama de solteiro de vime e um cobertor com seu filho de 11 anos, Atif. Suas roupas são penduradas com alguns pregos enferrujados que foram martelados na parede. Fatima foi contrabandeada para um dos khotas vinda de um pequeno vilarejo perto de Bangalore, quando tinha 13 anos. Hoje precisa ser medicada diariamente para controlar seu temperamento, que pode mudar de forma repentina.

"Quando minha mãe fica brava, eu corro e me escondo", disse Atif, que foi uma das primeiras crianças a frequentar a Kat Katha. "Vou para qualquer lugar até ela se acalmar."

Em setembro de 2011, Babbar deixou seu emprego na NACO. Apesar de não precisar continuar indo à GB Road, suas visitas continuaram quase que incessantemente. "Só sabia que queria entender melhor a situação", disse. Mesmo quando mudou para Agra, uma cidade a duas horas e meia de distância, ela voltava todos os fins de semana para visitar os bordéis, onde se sentava para "apenas conversar" com as mulheres.

Em uma visita em particular, a dona de um bordel, que pensava que ela ainda trabalhava para a NACO, gritou com raiva: "Por que você continua vindo aqui? A única coisa que vocês falam com a gente é sobre preservativos e sexo. Vocês nunca perguntam quais são nossos sonhos, ou se queremos fazer alguma coisa diferente com nossas vidas."

Chocada por essas palavras, Babbar começou a refletir sobre elas. Quando retornou à GB Road dias depois, perguntou à Asha, uma profissional do sexo da qual havia se aproximado, o que ela mais queria. Sua resposta imediata foi: "Quero estudar".

Em pouco tempo, Babbar estava dando classes em bordéis e envolvendo um grupo de amigos para ajudá-la.

Construindo uma família


Salva é uma das 40 mulheres que iniciaram algum tipo de treinamento de habilidades com a Kat Katha desde aquela época, e está entre as três, incluindo Asha, que deixaram totalmente a prostituição. De quatro a cinco vezes por semana, Salva aprende técnicas de costura durante algumas horas pela manhã.

"Eu não confiava neles no começo", confessa, enquanto continua a girar a roda de sua máquina de costura. "Eu costumava pensar 'o que faria se eu fosse para a escola. Poderia ficar aqui em vez disso e ganhar algum dinheiro'. Mas agora sinto que pelo menos posso aprender alguma coisa, e me tornar alguma coisa."

Embora Salva tenha sido atraída pela oportunidade de se especializar, há algo mais sobre a Kat Katha, diz, que realmente valoriza. "Em outros lugares, as pessoas pediriam dinheiro antes de ensinar qualquer coisa, mas a coisa boa sobre esse lugar é que não fazem isso."

"Nos ensinam outras coisas boas também. Eles nos orientam. Pude conhecer muitas pessoas ótimas aqui. Quando cheguei aqui descobri tudo isso -- não sabia antes. Embora sejamos tão inferiores, eles ainda nos cumprimentam com as mãos dobradas. Isso diz algo sobre o [lado] humano deles. Eles demonstram muito respeito", acrescentou.

Para Ritumoni Das, de 28 anos, outra fundadora da Kat Katha, a diferença é simples. "Estamos criando uma família, não executando um projeto."

A importância de criar relacionamentos próximos é essencial para quebrar o estigma que essas mulheres e crianças sentem, diz. "Você não consegue simplesmente tirar uma garota de um bordel. Elas têm essa crença em suas mentes e corações de que pertencem a uma comunidade que não é aceitável. Até que consigam superar essa crença, será muito difícil para elas deixar esse mundo, mesmo se elas tiverem dinheiro ou qualificações."

De fato, é provável encontrar voluntários visitando suas didis (irmãs) nos bordéis, comendo e conversando com elas e comemorando aniversários e festivais, como também dando classes.

"Agora sinto que pelo menos posso aprender alguma coisa e me tornar alguma coisa"

Neste Diwali, a festa religiosa hindu, com a chegada da noite e luzes começando a brilhar em toda a cidade, me juntei às crianças e a um grande grupo de voluntários para acender velas pelos bordéis da área, e comemorar o festival das luzes em tempos sombrios da Índia. Em meio a um grande fluxo de clientes, distribuímos doces e abraçamos cada uma das mulheres, uma por uma.

"Ninguém da Kat Katha me pergunta de onde sou, nada. Sou tratada pelo que sou. Quando os voluntários comem conosco, compartilham nossos pratos. Nos tratam como irmãs", disse Maya, de 26 anos, que recentemente começou a frequentar classes de hindi na escola.

"Somos tratadas como pessoas reais: um ser humano com coração e alma. Não nos rotulam como profissionais do sexo ou filhos de profissionais do sexo", acrescentou Rekha, cujo filho de oito anos tem ido às aulas da Kat Katha no último ano.

Muitas das crianças que frequentam as classes também estão começando a notar as mudanças dentro de si mesmas, desde que passaram a fazer parte da 'Kat Family'. "Me sinto feliz quando venho aqui", disse Varun, um inteligente e generoso garoto de 14 anos que foi um dos primeiros alunos. "É um lugar agradável e aqui encontramos amor. Pensei que não seria nada e nunca conseguiria muita coisa, mas agora quero ser fotógrafo."

Os esforços da Kat Katha na GB Road não ficaram livres dos desafios. Nos últimos dois anos, tiveram que mudar de endereço seis vezes. A razão é quase sempre a mesma. As crianças não são um problema. Mas o proprietário e vizinhos simplesmente não querem profissionais do sexo nas redondezas.

"Não quero que minha filha saiba o que faço, nem que seja afetada pelo meu passado"

Os voluntários também receberam ameaças de donos de bordéis, partidos políticos, cafetões e mesmo da polícia por causa do envolvimento da organização com as mulheres. Mas, com o tempo, mesmo essas ameaças começaram a diminuir à medida que a presença da ONG se tornou cada vez mais aceita.

"Todo mundo precisa de alguém para conversar", explicou Das em tom sincero, atribuindo essa mudança à abordagem inclusiva e sem confronto.

Até agora os voluntários -- que já chegaram a somar mais de 150 -- estabeleceram vínculos com mais de 48 bordéis da estrada e mais de mil mulheres. Com o contínuo crescimento, estão cientes de que precisarão de mais estrutura em relação à sua forma bastante fluída até agora.

"Temos sido bastante descoordenados, apenas respondendo às necessidades que surgem. Agora estamos tentando formalizar as coisas", disse Das. Isso inclui aumentar o número de cursos disponíveis para as mulheres, organizar melhor o crescente grupo de voluntários e construir um albergue para as crianças fora da área. Também envolve encontrar uma fonte mais confiável de financiamento.

"Queremos alcançar cada mulher e cada criança nessa estrada", disse Babbar.

Apesar do longo caminho pela frente, Babbar está satisfeita com os esforços iniciais. "Não estamos alcançando todas as mulheres mas, nos últimos dois anos, fomos capazes de ir a muitos bordéis e estabelecer conexões; indo com um sentimento de família."

Para Salva, seu encontro com a Kat Family foi um ponto de virada. Quando se levantou para ir embora, o seu telefone tocando com mais frequência com os clientes começando a ficar impacientes, dobrou o salwar lilás que estava costurando em um embrulho bem-feito.

"Desta vez, quando voltar para Bengal, nunca mais retornarei à GB Road. Vou trabalhar em casa, abrir uma pequena alfaiataria, pagar os estudos da minha filha e ficar com ela", disse. "Talvez ganhe apenas 50 rúpias por dia (cerca de 2 reais), mas pelo menos posso comprar meus mantimentos com isso. Quero viver com sabedoria agora. Não quero que minha filha saiba o que faço, nem que seja afetada pelo meu passado."

Ao ver sua silhueta robusta e curvilínea deslizar pelas escadas íngremes e pelo vale por trás da GB Road, me dei conta que, além das classes, o espaço seguro, os serviços de saúde e tudo o que a Kat Katha começa a oferecer aqui, talvez uma das coisas mais valiosas seja simplesmente a oferta de amor.

* Os nomes de todas as mulheres e crianças nesta reportagem foram mudados para proteger suas identidades.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost Índia e traduzido do inglês.



domingo, 28 de abril de 2013

Polícia Federal investiga seita evangélica de MG por trabalho escravo

Lamentavelmente, uma das maneiras encontradas por muitos líderes que se dizem cristãos - para manipular as pessoas e mantê-las fanaticamente sob seu domínio - é privá-las da leitura e do estudo sistemático da Bíblia ou pinçar versículos fora de contexto para justificar seus atos abomináveis e dar-lhes uma aura de santidade e autoridade irrefutável.

No caso que você vai ler mais abaixo, em que até sexo entre casados é banido por "ser pecado", bastaria que as pessoas incautas lessem alguns versículos da 1ª carta de Paulo a Timóteo, capítulo 4:

1 Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espírios enganadores e a ensinos de demônios,
2 pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm cauterizada a própria consciência,
3 que proíbem o casamento e exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade;
4 pois tudo que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graças, nada é recusável,
5 porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificado.

Os artigos foram publicados no Estadão de hoje, nos links indicados em cada título, com o vídeo abaixo:


Grupo suspeito de trabalho escravo veta sexo entre casados

ARTUR RODRIGUES , MARCIO FERNANDES

Uma seita que arrebanha integrantes na capital paulista para trabalhar sem salário em fazendas e indústrias no interior de Minas Gerais já reúne cerca de 6 mil pessoas. Para ser aceito no "mundo paralelo" do grupo Jesus A Verdade que Marca, é preciso, segundo a polícia e ex-integrantes, doar casa, carro e os demais bens para os líderes e obedecê-los cegamente. As regras incluem a proibição do marido dormir com a mulher, o confinamento em fazendas e alojamentos e o veto a TV e internet.

Durante a Operação Canaã, deflagrada pela Polícia Federal na terça-feira, dois líderes da seita - cujos nomes não foram revelados - acabaram presos por apropriação indébita ao serem flagrados com cartões do Bolsa-Família de integrantes do grupo. Para a PF, o discurso religioso é um atrativo para cooptar mão de obra escrava. "É um grupo extremamente fechado, que busca pessoas em situação vulnerável e as mantém nas propriedades com uma alta carga de doutrinação", diz o delegado João Carlos Girotto.

O advogado do grupo, Leonardo Carvalho de Campos, argumenta que as fazendas nas cidades de Minduri, São Vicente de Minas, Madre de Deus e Andrelândia são apenas associações de agricultura comunitária (veja ao lado).

Depoimentos de ex-integrantes destoam do que ele diz. Um aposentado de 72 anos conta que o pastor Cícero Vicente de Araújo, líder da seita, o convenceu a doar tudo o que tinha porque "todas as estradas iam se fechar e colocariam chips na cabeça das pessoas". "O pastor disse que só quem fosse para aquela região de Minas conseguiria viver bem." Há três anos, o homem tenta reaver na Justiça os R$ 32 mil de um carro e parte do dinheiro de uma casa que vendeu para aderir à seita. Para manter os fiéis, o ex-adepto conta que os pastores afirmavam que as pessoas que saíssem seriam amaldiçoadas. "Eles diziam que os demônios destruiriam aqueles que saíssem e passavam uns filmes da inquisição."

Carne. Apesar de todos se tratarem por irmã ou irmão, os ex-membros relatam disparidade de tratamento. "Eu passava as noites limpando tripa, cabeça e pé de boi para comermos. A carne ia para os líderes", contou uma ex-adepta da seita, de 42 anos, que vendeu a casa e doou para o grupo. A vigilância é outra característica, diz ela. "Minhas duas filhas, de 20 e 22 anos, ficaram lá e há dois anos não as vejo." Um médico do Programa de Saúde da Família conta que os integrantes não ficam desacompanhados nem durante as consultas.

A PF não localizou o pastor Araújo. A suspeita é de que ele esteja articulando a expansão da seita para a cidade de Ibotirama (BA). Publicamente, o grupo tenta se desvincular do caráter religioso e formou seis associações de agricultores. A polícia crê que as entidades, com fazendas arrendadas, sirvam como fachada para um esquema de lavagem de dinheiro, supressão de direitos trabalhistas e formação de quadrilha. Uma lista com nome dos eleitores fará a investigação verificar a possibilidade de manejo político. Dois vereadores da região são identificados com a seita. Ex-fiéis afirmam que Araújo os arrebanhou em igrejas na Lapa, zona oeste da capital, e Osasco. Os templos mudam constantemente de endereço. A PF averigua a existência de um novo na região da Sé.

Carlos (nome fictício), de 48 anos, diz ter entrado no grupo Jesus A Marca da Verdade após ouvir os "bonitos ensinamentos" do pastor Cícero Araújo. Vendeu o que tinha e mudou de São Paulo com a família para o interior de Minas. Por três anos, viveu sob regras duras e trabalhou como pintor sem receber um centavo. Até perceber que havia caído "numa fria".





Qual é a filosofia da seita? A filosofia era... todo mundo entrou achando que fosse uma coisa e era outra.

Como era? Na igreja, era muito bom. O pastor falava direitinho, ensinava a ser honesto, ensinava a não negar a verdade. Era um ensinamento bonito, não vou negar para você. Contagiava a pessoa.

Como o senhor decidiu mudar para a comunidade? A gente fez reunião, decidiu dar o que tinha.

O pastor pediu? Ele falava tanta coisa...

O senhor vendeu tudo? Tinha duas casas e um carro, né? Deu R$ 39 mil. Doei. Aí trabalhei lá como pintor.

E o senhor não ganhava nada? Não. Só casa e comida. Para ganhar um par de calçado, era um sacrifício...

Como eram as regras? Homem dormia separado de mulher, diziam que sexo era pecado.

É permitido sair da casa? Tem de pedir autorização. E só acompanhado.

Por que não saiu antes?

A gente fica impactado.

Como foi quando o senhor avisou que ia sair? Disseram que eu estava amaldiçoado, que iria para o inferno.

Pediu suas coisas de volta?

Pedi. O pastor Araújo disse para eu ir à Justiça.

O senhor conseguiu algo? Passaram uma casa para o meu nome... O carro eu trabalhei para comprar outro.

Há quem não consiga sair? Tem. Imagina uma pessoa com 50 anos, com 15 lá dentro, sem contato com parente. Já deu tudo que tinha...





terça-feira, 23 de abril de 2013

Darwin e o instinto moral

Alguns dias atrás (11/04/13), repercutimos aqui um artigo sobre o efeito Dunning-Kruger, que, no final, cita uma frase de Charles Darwin que abre o seu livro "A Descendência do Homem":"a ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento".

Já no domingo, dia 21/04/13, reproduzimos aqui uma matéria do mesmo jornal sobre o mais recente livro de Steven Pinker, "Os Anjos Bons da Nossa Natureza", que também fala sobre a diminuição da violência humana ao longo dos milênios.

Naquele mesmo dia 21 de abril, a Folha de S. Paulo trouxe uma resenha muito interessante de Carlos Alberto Dória sobre essa mesma obra esquecida de Darwin, "A Descendência do Homem", baseada na obra de Patrick Tort, "L'Effet Darwin: Séléction Naturelle et Naissance de la Civilisation" (Seuil, 2008).

No meio de tantas informações interessantes, não deixa de ser um tanto quanto, digamos, "patrioticamente" constrangedor, perceber como o contato de Darwin com o triste fenômeno da escravidão no Brasil do século XIX foi decisivo na formulação de seu pensamento.

Eis a íntegra do artigo:

Antropologia de Darwin: Os fundamentos materiais da moral

CARLOS ALBERTO DÓRIA

RESUMO "A Descendência do Homem" (1871), de Charles Darwin, foi praticamente ignorado em nome da ideia liberal de "guerra de todos contra todos". Releituras e pesquisas recentes em torno do livro revelam uma verdadeira teoria antropológica darwiniana que aponta para as raízes biológicas da moral.

Um dos casos mais intrigantes da epistemologia das ciências biólogicas é a quase absoluta ignorância que se seguiu à publicação de "A Descendência do Homem" (1871), de Charles Darwin.

Quase ninguém se deu conta de que a obra encerrava uma revolução no conhecimento, tão importante quanto "A Origem das Espécies" (1859).

Tão certos estavam os seguidores e detratores de Darwin de que se tratava de uma "continuação" ou "aplicação" da "Origem" à espécie humana, contestando a natureza divina do homem, que nem se deram ao trabalho de lê-la. Do mesmo modo, parte do trabalho --sobre o mecanismo da seleção sexual-- foi considerado um ensaio independente, sem conexão com a origem do homem. Passou em brancas nuvens esta que é considerada agora a "segunda revolução darwiniana".

A obra vale por não repetir argumentos da "Origem", constituindo uma verdadeira antropologia na qual se fundem as dimensões biológica e cultural, como nunca se vira antes e não se viu depois, pois as ciências humanas se desenvolveram de costas para a biologia e a cultura foi considerada algo além do mundo orgânico ("superorgânica") --isto é, a vida simbólica já aparece como plenamente constituída.

Essa antropologia só é possível porque Darwin não vê diferenças de natureza, e sim de grau, naquilo que une o homem às demais espécies animais. As habilidades, os instintos, a inteligência, a capacidade de comunicação (linguagem), os comportamentos são caracteres animais difundidos por infinitas espécies.

O impacto político dessa antropologia é enorme. Ao "animalizar" o homem e seus instintos mais "nobres", deixava a igreja falando sozinha, mesmo sem haver pensado a obra como um libelo antideísta. O livro mostra que os homens pertencem a uma espécie polimórfica, na qual todos são iguais, e as diferenças secundárias, como a cor da pele, foram desenvolvidas ao longo de milênios, através de escolhas estéticas de grupos humanos.

POLÍTICA

Mas por que Darwin escreveu esse livro, se as ciências humanas não eram seu foco de atenção? A razão foi de ordem política e humanitária, conforme hoje se sabe, graças ao estudo dos biógrafos de Darwin sobre suas anotações e diários (Adrian Desmond e James Moore, "Darwin's Sacred Cause: Race, Slavery and the Quest for Human Origins", Penguin Books, 2009).

Quando Darwin esteve no Brasil, horrorizou-se com a escravidão e, desde o distante ano de 1837, começou a reunir elementos para provar a origem comum e a igualdade entre os homens no plano biológico, de modo a sepultar as principais teses dos escravistas, com destaque para a tese da poligenia (tomando raças ou variedades como se fossem espécies "criadas" independentemente, segundo sugeria a leitura que faziam da Bíblia) com a qual "justificavam" o direito à escravizar seres aparentemente distintos.

Do ponto de vista historiográfico, a trajetória intelectual de Darwin também é surpreendente: uma obra sobre o homem, provando sua igualdade (monogenia), foi ideia anterior à concepção da seleção natural. Assim, se o estudo sobre a origem das espécies favoreceu sua compreensão sobre a animalidade do homem, ela contribuiu igualmente para o amadurecimento de sua antropologia.

A nova leitura esclarecedora de "A Descendência do Homem" deve-se ao trabalho de quase 20 anos do epistemólogo francês Patrick Tort, cujo livro "L'Effet Darwin: Séléction Naturelle et Naissance de la Civilisation" (Seuil, 2008) é síntese dessa trajetória persistente.

A primeira questão que Tort busca explicar é o desprezo pela antropologia de Darwin. E sua explicação é relativamente simples: a ideia de "luta pela vida" era extremamente conveniente para a economia política liberal; reforçava a noção de luta de "todos contra todos" e triunfo dos mais fortes, e os evolucionistas liberais, como Herbert Spencer, a ela se aferraram.

"A Descendência do Homem", ao contrário, é a obra na qual Darwin sofistica os mecanismos de seleção --faz até um mea-culpa por haver exagerado o papel da seleção natural-- introduzindo na história natural as noções cruciais da cooperação e "altruísmo".

Contudo, só nos países sem tradição de economia política liberal esses mecanismos de evolução foram percebidos e valorizados, como na Rússia czarista, resultando em algumas obras discrepantes em relação à interpretação dominante, como a de Peter Kropotkin, "Ajuda mútua: Um Fator de Evolução" (1888).

Em "A Descendência do Homem", Darwin mostra como esse animal surge da evolução de formas mais simples através da convergência fortuita de vários processos: a pedestrialização (quando o animal desce das árvores), o bipedismo, a encefalização (aumento do cérebro) e o desenvolvimento da linguagem simbólica. Mas não foram só as transformações físicas que Darwin captou. Ele indicou que, ao se desenvolver no plano social, criou-se uma ruptura com o processo anterior, no qual, por força de pressões ambientais, os animais se adaptavam mediante a transformação física milenar.

O Homo sapiens já não se transforma fisicamente, mas age sobre o ambiente, adaptando-o às suas necessidades (produz vestimentas, habitação etc.). Do mesmo modo, o instinto animal evolui e aprofunda seu caráter social, impondo formas cooperativas, tornando-o um animal social bastante sofisticado, capaz de várias ações altruístas.

Mas por que o altruísmo? Não se trata da manifestação de uma "essência humana", fruto de um sopro divino, mas de uma necessidade material da vida. O instinto social é característica de várias espécies --como as abelhas, as formigas e vários mamíferos superiores. Através dele, a reprodução do grupo entra em causa, condicionando as ações e escolhas individuais.

NOVO PERCURSO

No homem, desde a divisão de trabalho entre macho e fêmea para cuidar da cria (longamente inabilitada para, sozinha, prover a vida) até o desenvolvimento das instituições sociais, como a ciência ou a medicina, um novo percurso evolutivo se instaura quando crianças, velhos e indivíduos menos aptos são protegidos, em vez de eliminados.

Uma seleção natural de instintos e comportamentos antieliminatórios (ou "antisselecionistas") vai tomando corpo e reprimindo as ações eliminatórias.

O resultado cego desse longo processo é a civilização, isto é, a repressão sistemática da "lei do mais forte" na medida em que padrões encontram formas de se impor ao grupo e se sobrepor aos do indivíduo. Tort verá nesse mecanismo a "reversão da seleção natural", ou o nascimento da civilização sem ruptura com a dimensão biológica da vida. Em outras palavras, a base material, natural, da moral.

"A Descendência do Homem" traz uma segunda parte, sobre a "seleção sexual". Nela, o cientista inglês mostra justamente a necessidade do altruísmo --a capacidade de dar a vida por outros membros da espécie-- como fator de evolução. Por que em certas espécies, notadamente de aves, o macho é muito mais belo e exuberante que as fêmeas? Simplesmente porque, ao se desenvolverem dessa forma, eles têm mais chances de serem "escolhidos" pelas fêmeas e criarem descendência. Mas o pavão, por exemplo, ao desenvolver sua beleza perde a capacidade de voar, ficando à mercê dos predadores. Essa inabilitação adquirida só se explica pelo "altruísmo": correr riscos, o autossacrifício em nome do outro, da descendência.

Por esse mecanismo da seleção sexual, o homem também terá capacidade de alterar seus caracteres secundários. Sendo espécie polimórfica, variará na cor da pele e outros traços físicos exteriores ao perseguir padrões de beleza restritos a cada grupo humano isolado. O "belo ideal" é um conceito social que se materializa nos indivíduos que ocupam a chefia do grupo, nas mulheres que utilizam adornos, nas estátuas que representam os deuses e assim por diante.

Esses padrões se tornam dominantes na medida em que passam a intervir nas escolhas matrimoniais e, por esse processo, disseminam-se pelo grupo. Nada disso precisa ser consciente para agir sobre o homem, como o instinto não é consciente no animal.

Caminhos como esse mostram, mais de um século depois, a dimensão insuspeitada de uma obra que parecia "caduca" aos olhos das ciências naturais e ciências humanas. Trata-se de um clássico que, finalmente, impõe sua grandeza intelectual.



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