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terça-feira, 27 de junho de 2017

Religiões se unem para tentar salvar as florestas tropicais


Talvez o problema seja exatamente que tudo fica apenas na "tentativa".

A matéria é da versão brasileira do El País:

Um encontro ecumênico na Noruega para salvar as “florestas sagradas”

Religiosos e indígenas se reúnem em Oslo para unir esforços para frear desmatamento das matas tropicais

ALEJANDRA AGUDO

Enquanto você lê esta frase, 120 hectares de floresta tropical desapareceram. São 24 por segundo. Este alto ritmo de desmatamento significa, na prática, a destruição do lar da metade das espécies conhecidas do planeta, além de seres humanos e de um importante armazém de milhões de toneladas de carbono. A eficácia das florestas para absorver esse elemento é tão grande que “pode representar um terço da mitigação da mudança climática durante as próximas décadas”, segundo o ministro de Clima e Meio Ambiente da Noruega, Vidar Helgesen. Por isso, “é preciso lutar contra o desmatamento e reparar os danos causados”, completou Helgesen, na segunda-feira, durante a cerimônia de abertura da Iniciativa Ecumênica de Oslo para as Florestas Tropicais, que o Governo norueguês organiza em conjunto com a Rainforest Foundation Noruega e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Uma reunião – que termina nesta quarta-feira – de líderes religiosos e indígenas do mundo todo para enfatizar seu papel nesta batalha. O objetivo dos religiosos é aproveitar seu poder de influência para atrair os fiéis a essa causa. Já os indígenas mantêm o conhecimento ancestral para a proteção de sua casa, a natureza, que defendem todos os dias para o benefício de todos, arriscando sua vida.

“Os políticos e cientistas, que ocupam diversos cargos em outros âmbitos, não podem falar com a mesma autoridade moral que os líderes religiosos. A prática da religião é uma forma de se relacionar com os valores mais sagrados da vida”, afirmou Kusumita Pedersen, subdiretora do Parlamento das Religiões do Mundo. “A ciência, por si só, não muda o coração humano”, acrescentou Mary Evelyn Tucker, diretora do Fórum de Religião e Ecologia da Universidade Yale. Agora esse poder pode (e deve) se concentrar numa causa: salvar as florestas tropicais. “Cada lugar de oração deve ser um centro ecológico, oferecendo formas de mudar o mundo”, sugeriu William Vendley, secretário-geral das Religiões para a Paz. No momento, o plano é se reunir de novo numa cúpula global ecumênica em 2018, já com um programa de ação elaborado. As florestas tropicais, atualmente palcos de disputas pela propriedade e o uso de seus recursos, transformam-se também num lugar para o entendimento entre religiões e tradições espirituais, unidas para a sua salvaguarda. À espera de propostas concretas, os diálogos preliminares propiciaram um consenso entre os presentes sobre várias ideias.

“Se continuarmos desmatando, será um suicídio. Nós, como mensageiros de Deus e guardiões da criação, temos que promover a proteção de nossa casa comum.” O Arcebispo Marcelo Sánchez Sorondo, chanceler da Academia Pontifícia de Ciências do Vaticano, abriu a primeira mesa de debate com essa afirmação, que seria depois compartilhada por seus acompanhantes no palco do Nobel Peace Center da capital norueguesa. Indígenas, budistas, judeus, muçulmanos, hindus e católicos acreditam que a Terra é uma criação divina que deve ser cuidada. Um sentimento e um objetivo comuns numa época em que o entendimento entre as crenças parece pouco provável. Mas deve ser, afirmou o prelado. “Não é fácil rezar juntos, mas temos que agir unidos para conservar o planeta que Deus nos deu.”

Metropolitan Emmanuel, vice-presidente da Conferência Europeia de Igrejas, aceitou o desafio: “O cuidado da Terra deve nos unir. Isso vai além das diferenças doutrinarias”. “A Bíblia nos diz: mesmo quando é preciso defender o próprio país , não tem sentido destruir a fonte de sua própria sobrevivência”, agregou o rabino David Rosen, diretor internacional de assuntos inter-religiosos do Comitê Judaico Americano em Israel. “Quando Deus criou o primeiro ser humano, levou-o entre as árvores do Éden e lhe disse: ‘Olha minha obra, quão maravilhosa e digna de reconhecimento. E tudo o que criei é para teu benefício. Tem cuidado para não saquear nem destruir meu mundo, porque, se o fizeres, não haverá quem o recupere depois”, prosseguiu, lendo o Eclesiastes Rabá para ressaltar que não há desculpas para causar um prejuízo irreparável ao planeta. Ainda assim, é isso o que ocorre na prática: todos os anos, é desmatada uma área de floresta tropical do tamanho da Áustria. E, tal como a adverte a Rainforest Foundation Noruega com evidências científicas, os danos podem levar décadas, séculos ou até milênios para serem sanados (se é que isso é possível).

A destruição das florestas tropicais significa não apenas um ataque contra a criação de Deus, tal como descrevem os líderes religiosos, mas também contra a fonte de vida das pessoas. Isso porque essas matas absorvem carbono. Evitam que milhões de toneladas de gás acabem na atmosfera e contribuam para o aquecimento global. Também regulam os ciclos da água, razão pela qual seu desaparecimento altera as chuvas de maneira negativa. Acima de tudo, são o lar e o sustento de 1,6 bilhão de pessoas.

Phra Paisal Vongvoravisit, membro do Comitê Consultivo da Rede Internacional de Budistas, na Tailândia, recordou que “nossa existência só é possível graças ao ar, à água, aos alimentos e às outras espécies da natureza.” Por isso, “o fato de quebrar o galho de uma árvore é o mesmo que causar um dano a um amigo que nos ajuda”, explicou. Se for assim, grandes indústrias extrativistas, produtores de óleo de palma e soja, mineradoras, construtores de rodovias e represas de água estão massacrando nossos amigos, transformando-os literalmente em terra queimada. “É muito preocupante. A natureza é destruída em nome do desenvolvimento”, disse Paisal.

Essa realidade tem consequências. A ciência demonstrou a relação causa-efeito entre o desmatamento e a elevação das temperaturas, assim como de fenômenos climáticos adversos. Para Nanditha Krishna, presidenta da Fundação Ramaswami Aiyar, a explicação está no carma: “Toda ação tem uma reação.”

Alguns participantes afirmaram que tais empresas não fazem outra coisa a não ser satisfazer uma demanda crescente dos produtos que conseguem na floresta. “Nos preocupa o sentimento de perda. Acreditamos de forma errônea que as aquisições materiais preencherão nossas vidas, e por isso compramos de forma desmedida. Quanto mais, melhor. Não somos conscientes de que o sentimento de perda desaparecerá quando vivermos em paz, em vez de acumular cada vez mais”, advertiu Paisal. “E todas as religiões podem ajudar as pessoas a viver em paz. A cooperação entre os cultos é fundamental para lutar contra o materialismo e, desse modo, contra o desmatamento.” O monge tem pelo menos um aliado nessa missão:

Din Syamsuddin, diretor do Centro para o Diálogo e a Cooperação entre Civilizações, da Indonésia. “Os seres humanos são integrantes da comunidade da natureza e devem basear seu consumo na moderação. Temos que mudar nossa maneira de viver, protegendo as gerações futuras.” Para isso, disse o representante do islã na mesa, “é necessária a colaboração entre cientistas, empresários, religiões e a sociedade.” E concluiu seu discurso com uma citação. “Como disse o profeta, embora se aproxime o dia da destruição, se alguém tiver uma semente na mão, que a semeie.”

A Noruega plantou uma semente há uma década: decidiu converter a preservação das florestas tropicais em uma de suas prioridades internacionais. A partir de então, não só investiu com essa finalidade mais de 3 bilhões de dólares (10 bilhões de reais), estima o ministro do Clima e Meio Ambiente norueguês, como também tomou medidas para a redução do consumo do óleo de palma (azeite de dendê) e da importação de madeiras de procedência tropical. Em benefício do desenvolvimento sustentável e da mitigação do aquecimento global também estimula a paulatina substituição de veículos de combustão fóssil por elétricos – cerca de 30% dos vendidos em 2016 são assim. Desse modo, o país reduz suas emissões. No entanto, exporta o problema: sua principal indústria (40% do PIB) ainda é a da produção de petróleo. Algo que o ministro Helgesen reconhece que precisa ser mudado nos próximos anos, seguindo os conselhos de Nanditha Krishna: “A teologia hindu diz que devemos tomar da Terra somente o que necessitamos. Mas devemos simplificar nossos desejos, nos submetermos a uma transformação pessoal”.

Indígenas, os guardiães da floresta

"Para nós que vivemos em florestas tropicais, as árvores, as plantas, animais e micro-organismos são membros de nossa comunidade. Temos, além disso, deidades que protegem as árvores e as águas. E temos árvores sagradas. Infelizmente, somos ameaçados por proteger as florestas, nossos direitos são violados e esmagados. Estamos em uma crise”, afirmou em sua intervenção Vicky Tauli-Corpuz, relatora das Nações Unidas para a defesa das pessoas indígenas. Ela, que vive no norte das Filipinas, sabe bem que aos riscos do desmatamento se somam os que correm aqueles que ousam defender a venerada, sagrada, divina, mas maltratada, casa de todos.

"Todos os dias lutamos contra os ataques do Estado brasileiro, as hidrelétricas, as empresas mineradoras, as madeireiras, contra a ampliação das ferrovias, as diferentes formas de pressão. O Brasil é o país que mais mata ativistas indígenas”, denunciou Sonja Guajajara, coordenadora nacional da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Apesar de defenderem seus territórios na selva amazônica, a líder enfatiza que sua luta não é local. “Não tem fronteiras, por isso temos de nos juntar e reunir todas as forças presentes”, disse, pedindo o apoio do grande público presente.

O saber tradicional dos povos indígenas está reconhecido no Acordo de Paris como uma potente ferramenta contra as mudanças climáticas. A evidência científica demonstra que onde eles vivem e fazem o manejo da floresta não há desmatamento, ocorrem menos incêndios e as árvores são ativamente (e não só em palavras) respeitadas. Sofrem, porém, constantes ataques, como descreveu Guajajara. Um recente relatório da Anistia Internacional revelou que, dos 281 ativistas assassinados no mundo em 2016, a metade atuava em problemas ligados à terra, território e meio ambiente.

“Os povos indígenas formam uma unidade com a Natureza, e a Natureza não ataca, mas dá respostas”, disse a líder brasileira ao justificar sua resistência à destruição de seu habitar em nome do progresso. Joseph Itongwa, membro do Comitê de Povos Indígenas da África, na República Democrática do Congo, aprofundou essa ideia: “Não me ensinaram o valor das árvores na escola. Desde crianças aprendemos seu valor para nossa sobrevivência. Produzem tudo de que precisamos: dão frutos, abrigam pássaros, são nossas guias... Temos uma relação de respeito com a Natureza. Assim, cortar árvores vai bem além do que se disse aqui. É uma perda de nossa identidade. Quando se derruba uma árvore é como se cortassem nossa identidade”.

Nesse sentido, Harol Jhony Rincon, secretário-geral da Organização Nacional dos Povos Indígenas da Amazônia Colombiana (OPIAC), perguntou: “Por que dizem que somos os guardiães da Natureza? ”Sem intenção de ofender”, disse, ele lançou sua resposta: “Porque os ambientalistas assumem que a preservação é o mesmo que a cosmovisão dos indígenas”. Uma equivalência que Rincon nega: “Nós não falamos de ambientalismo, mas de governo de nossos territórios porque o pai criador nos deu essa missão”,

O necessário reconhecimento real da titularidade das terras tem sido um dos assuntos mais debatidos atualmente, nos palcos, em grupinhos, cafés e encontros paralelos. Sem ele, a porta para que as grandes corporações e Governos se aproveitem dos recursos naturais em detrimento do bem comum está aberta. E passam por ela sempre que podem, sem se importar em muitas ocasiões que dentro da casa haja um indígena, milhares de espécies, árvores milenares, milhões de insetos... vivendo. Mas sua existência, luta e morte é invisível para a maioria dos habitantes do planeta. “Temos que nos tornar visíveis”, declarou Abdon Nabalan, vice-presidente do Conselho Nacional da Aliança de Indígenas do Arquipélago, na Indonésia. A iniciativa inter-religiosa para salvar as florestas tropicais, da qual tratou, tem sido uma oportunidade. “E que haja mais”, conclui.



sexta-feira, 7 de junho de 2013

Só 1% dos noruegueses vai à igreja mas a Bíblia é o livro mais vendido no país


Um mistério editorial intriga os 5 milhões de noruegueses: a mais nova versão da Bíblia na língua pátria se tornou rapidamente o livro mais vendido do país.

Que "50 Tons de Cinza", que nada! Atualmente, o livro mais vendido na Noruega é - pasmem! - a Bíblia.

A luterana Igreja da Noruega ("Norges Folkekirke" - "Igreja do Povo Norueguês"), que é a religião oficial do país, constitucionalmente capitaneada pelo monarca local, atualmente Harald V, se mostrou surpresa com a febre bíblica que invadiu as livrarias.

(por sinal veja no vídeo abaixo o rei Harald V, de 76 anos de idade, que passou recentemente pelo Brasil, vivendo 4 dias com índios yanomami numa tribo do Amazonas, entre 22 e 25 de abril de 2013)

Engana-se quem acha que se trata apenas de um fenômeno editorial extemporâneo, já que outro evento que está fazendo muito sucesso nos palcos noruegueses é a peça (com 6 horas de duração!) intitulada "Bibelen", que, como você pode ter percebido pela grafia similar, encena nada mais nada menos do que passagens da Bíblia.

Já surradas com a pouca frequência às igrejas, as autoridades eclesiásticas locais são tímidas na hora de chamar o repentino fenômeno bíblico de "avivamento", talvez - cá entre nós - porque o súbito interesse tenha vindo de fora da igreja e não das ressecadas e relativizadas pregações dos seus sacerdotes.

Não deixa de ser sintomático, também, que a explosão do interesse bíblico tenha se dado pouco tempo depois do triste episódio do "terrorista cristão norueguês", que matou dezenas de jovens em julho de 2011.

Aventuramo-nos, entretanto, a dizer que o caso do novo best seller norueguês prova - também cá entre nós - que, quando a igreja se cala, se acultura e se acomoda à gelada institucionalização, Deus levanta outros instrumentos para despertar o interesse nEle e saciar a sede do seu povo, nem que seja uma jumentinha, não é mesmo?

Parafraseando Efésios 5:11, então clamamos juntamente com Paulo: "Desperta tu que dormes, ó Noruega, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará!"

Fontes: The Telegraph




terça-feira, 4 de junho de 2013

As infames Cruzadas da Europa do Norte


Um pedaço trágico e vergonhoso da história da religião cristã institucionalizada, com conversões forçadas e forçadas e guerras entre cristãos nominais, que não pode ser esquecido a fim de que não se repita jamais, publicado na revista Aventuras na História.

Curiosamente, os "cruzados do Norte" tiveram uma participação expressiva na formação do reino de Portugal. 

Em 1147, quando já eram proscritos no Norte da Europa, cerca de 13.000 deles navegaram em cerca de 200 barcos até a costa do então Condado Portucalense, já sob o comando de D. Afonso Henriques (mais tarde D. Afonso I, primeiro rei de Portugal).

Sabendo da chegada dos forasteiros, D. Afonso entrou em acordo com eles para vencerem os mouros que ainda comandavam o centro-sul do território que hoje forma Portugal, prometendo-lhes saques e terras, conseguindo o seu apoio para finalmente conquistarem Lisboa.

Se hoje estamos aqui, escrevendo e lendo em português, pelo menos uma mínima medida devemos a esses elementos que barbarizaram o Norte da Europa em nome de Cristo, mas por essas contingências misteriosas do destino, ajudaram a formar Portugal.

Eis a íntegra do artigo:

Os últimos pagãos da Europa

As Cruzadas do Norte, conduzidas pelos Cavaleiros Teutônicos, levaram a palavra de Cristo na ponta da espada e espalharam o terror na Idade Média

Texto Fabio Marton
Ilustrações Rodrigo Idalino

A força era relativamente pequena. Não passava de 300 cavaleiros e soldados de infantaria. Estava às portas da cidade de Gdansk, no litoral da atual Polônia. O uniforme era um paradoxo: túnicas com cruzes pretas cobriam as armaduras. Na cabeça, os elmos eram decorados com chifres. Pareciam demônios agindo em nome de Jesus Cristo. Há controvérsia sobre o que se seguiu.Não está claro se as portas foram abertas, se houve cerco ou combate. O fato é que a Ordem dos Cavaleiros Teutônicos entrou em Gdansk sem muita resistência. Sua missão era retomá-la para o rei da Polônia, após uma revolta de comerciantes alemães negar a autoridade do soberano. Com a cidade conquistada, em 13 de novembro de 1308, todos os resistentes foram mortos. Eram, em sua maioria, compatriotas alemães. As mulheres e crianças tiveram o mesmo destino. Depois, os invasores atearam fogo no local. Cachorros lambiam o sangue que escorria copioso nas ruas. As crônicas medievais, provavelmente exageradas, falam em 10 mil vítimas no que ficou conhecido como o Massacre de Gdansk.

Os Cavaleiros Teutônicos esperavam o pagamento real pelo serviço prestado. Como não se chegou a um acordo, convocaram mais 4 mil cavaleiros, expulsaram a guarnição polonesa e prosseguiram conquistando e arrasando todas as cidades da Pomerélia, deixando a Polônia sem litoral. O massacre gerou um processo em Roma, durante o qual a Ordem chegou a ser excomungada pelo papa, mas terminou absolvida. Se um massacre covarde não parece uma boa introdução para uma história de cavalaria, é porque as Cruzadas do Norte não foram feitas de honra e glória, mas forjadas em combates desiguais, fanatismo, traição e ambição mercantil. Como no Oriente Médio, guerreiros que fizeram votos de pobreza e castidade cometeram saques e estupros. Por mais de dois séculos, a cristandade esteve em guerra santa contra diversos povos do Mar Báltico, os últimos pagãos da Europa.



Cristianismo, armado e perigoso

Após a conquista de Jerusalém pela Primeira Cruzada, em 1099, a cristandade viveu uma fase de violenta euforia. A conversão dos vikings, iniciada no século 8, havia se dado de forma relativamente pacífica, por contato, diplomacia e trabalho missionário - ninguém precisou conquistá-los para impor a crença à força. A opção começou a parecer atraente após a vitória na Cidade Santa. Em 1147, o abade Bernardo de Clairvaux anunciou a primeira das Cruzadas do Norte: "Proibimos expressamente que por qualquer razão se faça paz com esses povos, seja por dinheiro ou tributo, até chegar o tempo em que, com a ajuda de Deus, eles ou sua religião sejam destruídos". As palavras de Bernardo (mais tarde São Bernardo) têm origem um ano e meio antes, quando o papa Eugênio III convocou a Segunda Cruzada para recuperar um território perdido no Oriente Médio. Os alemães da Saxônia pediram uma reunião com Clairvaux, já então um grande ideólogo e propagandista da guerra santa, para demonstrar que o inimigo infiel estava na porta de casa e não era preciso viajar ao Oriente Médio para enfrentá-lo. Numa faixa entre a Alemanha e a Rússia, povos de diversas etnias recusavam a conversão. Uma dessas regiões era a Prússia, habitada então por eslavos. Em 997, o missionário São Adalberto foi morto pelos prussianos a golpes de lança depois que tentou, sem sucesso, cortar a árvore sagrada dos pagãos com seu machado. Sua cabeça desfilou pelas ruas. Havia também apostasia, como a que ocorreu na ascensão do príncipe Niklot, dos vendos, em 1131, que retomou crenças ancestrais depois de dois príncipes cristãos.

Os povos do báltico viviam em sociedades violentas, com frequentes ataques de uns contra os outros. Haviam sido empurrados para a região na Antiguidade, por inimigos eslavos, celtas e germânicos, até conseguirem se proteger atrás de uma faixa de pântanos e florestas que cruzava a atual Polônia. Não tinham escrita. O que se sabe deles vem de sítios arqueológicos, folclore e relatos de seus inimigos. Suas armas eram primitivas: lanças, machados e porretes. Tinham cavalos, mas eram pôneis, menores que os de outros europeus. Sabiam fazer fortificações de madeira e não tinham armas de cerco, como catapultas, torres e trabucos. Os únicos entre eles que chegaram a ter um exército foram os lituanos, que adotaram as tecnologias de seus inimigos - todos os outros eram bandos desorganizados de guerreiros, a típica imagem do bárbaro.

Com barcos de construção similar aos dos vikings, os pagãos que viviam no litoral faziam incursões de pirataria. Por ironia, seu alvo costumava ser os países nórdicos. "Jovens [bálticos] só conseguiam adquirir o dinheiro necessário para comprar uma fazenda e casar por meio da guerra - pilhagens traziam dinheiro, gado, cavalos e escravos", afirma o historiador William Urban, da Universidade de Monmouth (EUA). Influenciado por Bernardo de Clairvaux, o papa Eugênio III lançou uma bula, em 13 de abril de 1147, afirmando que guerrear contra os infiéis na Península Ibérica e no Báltico teria o mesmo efeito que fazer isso no Oriente Médio. O guerreiro seria perdoado por todos os seus pecados, ganhando acesso direto ao Paraíso.

Guerra confusa

O príncipe Niklot reagiu ao avanço cristão na região com um ataque preventivo aos saxões, dando início à Cruzada dos Vendos. Foi uma guerra curta e confusa. Forças unidas de dinamarqueses, saxões e poloneses, comandadas muitas vezes por bispos e abades, invadiram o território eslavo, saqueando, queimando templos e batizando guerreiros derrotados pelo caminho. No cerco à principal fortificação dos vendos, Dobin, os saxões exigiram o batismo das tropas dentro da fortaleza. Niklot não só aceitou como prometeu pagar tributos a eles. Os cruzados passaram água na cabeça dos inimigos e deram as costas, como se a missão estivesse cumprida. Tanto o príncipe como a maioria dos "convertidos" continuariam pagãos até o fim da vida. Em 1160, após uma revolta, o líder dos vendos foi morto em combate.

Muitos cristãos tomaram a nova regra papal como licença para abusar dos infiéis. Em 1186, com problemas financeiros por causa de uma guerra interna, o rei Sverre da Noruega foi buscar recursos saqueando as terras dos bálticos. Em 1195, atendendo a um pedido por reforços militares em uma missão na Livônia, os suecos se limitaram a encher seus barcos de carga roubada e ir para casa celebrar. Com a autorização do papa, os nórdicos tiveram a chance de voltar a fazer "ataques vikings à moda antiga", descreveu o historiador Eric Christiansen, autor do livro The Northern Crusades (sem tradução). Na Livônia (território das atuais Estônia e Letônia) havia uma missão cristã desde 1185.

Ela começou pacífica, mas se militarizou quando os religiosos perderam a paciência com as conversões insinceras dos pagãos. Em 1193, o papa Celestino III autorizou privilégios cruzadistas para quem reforçasse as tropas na região. Liderando esses exércitos, o bispo Bernardo de Hanover acabou morto, em 1198. Isso levou Inocente III, sucessor de Celestino, a decretar a Cruzada da Livônia. A guerra durou quase um século, e se estendeu a vários outros alvos, como os estonianos e letões. A Ordem Livônia dos Irmãos da Espada foi fundada em 1202. O território conquistado por esses monges guerreiros passou a ser chamado de Terra Mariana - a "terra santa" da Virgem Maria, não menos importante que Jerusalém.




Ainda hoje, os Irmãos da Espada são particularmente infames entre os povos bálticos: "Em nome de Cristo, atacavam, saqueavam, sequestravam, estupravam, matavam", escreveu o historiador letão Visvaldis Mangulis. Estupros eram obviamente proibidos pelos votos de castidade, mas, segundo Christiansen, "o irmão-cavaleiro estava exposto a fortes tentações, pois o poder frequentemente deixava as mulheres à sua mercê. Elas eram butim, e a expectativa de estupro era o que mantinha seus auxiliares nativos motivados. Alguns cavaleiros devem ter se juntado a eles".

Enquanto prosseguia a Cruzada da Livônia, entraram em ação os Cavaleiros Teutônicos. Surgida no final do século 12 em Acre, na Palestina, a ordem era formada por guerreiros que viviam em conventos, renunciando à propriedade e aos prazeres carnais, até mesmo à mesa: se alimentavam quase só de pão, água e alguns vegetais insossos. Os Cavaleiros passaram a procurar novos alvos após as sucessivas derrotas dos cristãos na Palestina, principalmente com a queda de Jerusalém em 1187. Em 1226, aceitaram o convite do duque polonês Conrado I, de Masóvia, para tomar parte em sua até então malfadada campanha contra os prussianos. Conrado deu a eles um feudo em Chelmno, que se expandiria em um novo país.

Com uma força de 10 mil homens, em 1233, os cruzados levariam quase 30 anos para conquistar a Prússia. Os territórios passaram a fazer parte do Ordensstaat, o Estado da Ordem, ao qual se juntaram as conquistas dos Irmãos da Espada, em 1236, após a Batalha de Saule, na qual os lituanos praticamente aniquilaram os monges-guerreiros - os sobreviventes se juntaram aos teutônicos. Com pagãos escasseando na região, em 1241, a Ordem passa a atacar outros cristãos, invadindo a República de Novgorod, de ortodoxos russos, com apoio do papa e dos reinos da Suécia e Dinamarca. Foram derrotados na Batalha do Gelo, imortalizada no filme Alexander Nevsky (1938), de Sergei Eisenstein. A cavalaria russa empurrou os cruzados para dentro de um lago congelado - com suas armaduras pesadas, o gelo se partiu e 20 deles foram ao fundo. A humilhação delimitou a fronteira máxima da ação dos cruzados: eles nunca mais voltariam a atacar os russos. O território do Ordensstaat cresceu em outras direções e chegou a dominar todo o litoral do Báltico entre a Alemanha e Rússia no final do século 15.

A vingança dos poloneses

Em 1283, a Ordem voltou-se contra o Grão-Ducado da Lituânia, o último e mais poderoso reino pagão da Europa. E também seu maior fracasso. Mesmo após um século de guerras e devastação, os lituanos só aumentaram seus domínios, chegando a uma imensa faixa entre os mares Negro e Báltico. Em 1385, a guerra acabou em derrota moral para os Cavaleiros, quando o grão-duque Jogalia da Lituânia casou-se com a rainha Edviges da Polônia, convertendo-se ao catolicismo e unificando os reinos. Quando uma revolta nativista no Ordensstaat foi apoiada pelos lituanos, os Cavaleiros declararam guerra aos países unificados, em 1409. Foi um desastre: acabaram trucidados na Batalha de Grunwald, um ano depois. A ordem perdeu suas possessões bálticas, principalmente para a Polônia-Lituânia, até os últimos e pequenos feudos monásticos, em 1583, após a Guerra da Livônia - quase dois séculos após os últimos pagãos da Europa terem se inclinado à pia batismal e 446 anos após o início das Cruzadas do Norte. A Ordem dos Cavaleiros Teutônicos existe ainda hoje, depois de abandonarem qualquer propósito militar. Algo que só aconteceu em 1929.

O panteão báltico

Os pagãos do Mar Báltico não eram uniformes: falavam línguas eslavas, bálticas (como o letão e o lituano) e fínicas (como o finlandês e o estoniano), completamente ininteligíveis entre si. Mas sua religião tinha várias características comuns. Os povos bálticos reverenciavam a natureza, com os deuses principais relacionados ao céu, e os menores à terra, florestas e agricultura. Dievas era o deus do céu, onde tinha uma fazenda. Sua noiva era Saule, o Sol. Todos os dias, Saule se movia numa carruagem para seu casamento com Dievas. O rival de Dievas era Menuo, a Lua, o deus da guerra. Em algumas tradições, a Lua conseguia se casar com o Sol, mas era infiel, e por isso era punida por Perkunas, o deus do trovão. A deusa da terra era chamada Zemyna ("mãe terra"). Os cristãos relacionaram Zemyna à Virgem Maria e Dievas a Deus - ainda hoje essa é palavra para o deus cristão em lituano (do qual adotamos a grafia).

Saiba mais

Livro - The Northern Crusades, Eric Christiansen, Penguin Books, 1998





quinta-feira, 30 de maio de 2013

Um pedido de casamento norueguês à italiana

A gente precisava limpar a barra da Noruega aqui no blog, que ficou tão negativamente marcada por aquele triste episódio do "terrorista cristão" que provocou dezenas de mortes em julho de 2011, algo que esperamos jamais se repita em qualquer parte do mundo.

Chega de um pequenino povoado da Noruega, na ilha de Røvær, com apenas 110 habitantes e um só automóvel, um momento singelo e mágico, em que um jovem morador chamado Daniel planeja pedir sua namorada, Gerda, em casamento.

Daniel sabe que Gerda gosta da Itália, e ele não vê outro modo mais romântico de pedi-la em casamento do que à italiana.

Na impossibilidade de irem juntos à Itália, Daniel resolve trazer a Itália à Noruega, de preferência ao som de "O Sole Mio!".

Para tanto, consegue a cumplicidade dos moradores de Røvær e a ajuda de uma empresa de materiais de construção e decoração, que aproveita a ocasião para fazer a sua propaganda.

O resultado deliciosamente romântico você pode ver no vídeo abaixo:


Dica do Uhull



quarta-feira, 11 de abril de 2012

Terrorista "cristão" norueguês não é tão maluco assim

Está para ser julgado - finalmente - Anders Behring Breivik, o extremista norueguês tristemente famoso pelo massacre de 77 pessoas inocentes na ilha de Utoya, perto da capital Oslo, em 22 de julho de 2011. 

Dizendo-se "fundamentalista cristão", seja lá o que isto signifique, Breivik foi declarado insano numa avaliação preliminar encomendada pelo Tribunal que julga o caso, em novembro do ano passado. 

Entretanto, novos exames psiquiátricos divulgados ontem, 10 de abril de 2012, indicam que o maluco norueguês não é tão maluco assim, podendo ser criminalmente indiciado e julgado pelo crime perpetrado.

A mais recente conclusão psiquiátrica foi divulgada seis dias antes do julgamento final de Anders Breivik. Embora o seu resultado não seja definitivo, desde que ele venha a ser confirmado pelo Tribunal, isso poderá significar que o terrorista poderia pegar no máximo 21 anos de prisão comum, o que não aconteceria se o veredito anterior de insanidade prevalecesse, o que o submeteria indefinidamente a um isolamento perpétuo numa instituição de saúde mental.

Pela avaliação de novembro último, Breivik foi diagnosticado como portador de esquizofrenia paranoide, o que gerou muitas críticas exatamente por se duvidar que algum psicótico desse tipo pudesse empreender uma matança tão detalhadamente organizada e - infelizmente - executada da maneira como ele se portou.

Diante disso, o juiz da causa requereu a nova perícia, levada a cabo pelos psiquiatras Terje Toerrissen e Agnar Aspaas, que concluíram que Anders Behring Breivik não estava sob o efeito de um surto psicótico no dia 22 de julho de 2011, em que deu vazão à sua versão trágica de terrorismo escandinavo, inclusive com "plantação" de bombas em edifícios públicos.

Entretanto, tudo ainda está para ser debatido e decidido durante o julgamento que começará na segunda-feira que vem, dia 16 de abril. Estima-se que o procedimento demorará o assustador prazo de cerca de 10 semanas até que se chegue ao veredito final. Quem viver, verá...

Agora, cá entre nós, que ninguém nos ouça ou leia, mas maluco mesmo é quem acredita na Justiça da Noruega ou do Brasil...

Fonte: The Guardian





terça-feira, 29 de novembro de 2011

Tribunal norueguês diz que terrorista cristão maluco é maluco mesmo

Chega da Noruega a notícia de que o Tribunal da capital, Oslo, considerou doente mental o tristemente famoso Anders Behring Breivik, que se identificava como "fundamentalista cristão", além de "anti-islâmico radical", e no último dia 22 de julho matou 77 pessoas num atentado terrorista na ilha de Utoya, naquele país. A declaração oficial de insanidade veio a público hoje, e foi atestada por dois psiquiatras forenses especialmente designados para a perícia, os Drs. Synne Serheim e Torgeir Husby, que diagnosticaram que Breivik é psicótico e já estaria nesta condição alterada da mente quando perpetrou o terrível atentado. O relatório médico indica ainda que o terrorista sofre de esquizofrenia paranoide, e vive no seu próprio universo imaginário, onde as coisas funcionam segundo as suas fantasias paranóicas. Na prática, assim como acontece no Brasil e em outras partes do mundo, ele será considerado inimputável, ou seja, não estará sujeito à pena que qualquer outro cidadão, em circunstâncias normais, teria que responder. Ainda que o sistema norueguês seja bastante liberal, isto não deve significar liberdade supervisionada imediata, entretanto, mas aquilo que se chama "medida de segurança", que é a internação num manicômio judicial por um certo período, sucessivamente renovável a critério do médico responsável pelo tratamento forçado, enquanto persistir a psicose ou o infeliz representar ameaça à segurança pública, o que permite concluir, dada a repercussão do caso, que se trata de um eufemismo para prisão perpétua. Amém!


Fonte: Aftenposten



quinta-feira, 28 de julho de 2011

Um terrorista entre Deus e o diabo (ou nenhum dos dois)

No seu manifesto de 1.500 páginas, amplamente divulgado na internet, o terrorista norueguês Anders Behring Breivik, apresentado como "fundamentalista cristão" pela mídia, se revela mais um "darwinista social" no estilo hitleriano do termo, como já tivemos oportunidade de analisar na crítica do filme "A Queda", publicada aqui. A "seleção natural da humanidade" se daria pela força de líderes especiais (como ele) que não mediriam as consequências para levar a batalha adiante e eliminar os mais fracos, naquilo que Breivik chama - curiosamente - de "darwinismo nacional" (ou "nacionalista"). O fato é que o próprio terrorista se autointitula "100% cristão", além de enaltecer sua ascendência viking, traçando as origens nórdicas do seu sobrenome Behring, que significaria "aquele que é protegido pelo urso". Mesmo se dizendo cristão e protestante, Breivik propõe que as igrejas protestantes sejam absorvidas pela católica para que, juntos, possam se contrapor à "ameaça islâmica" que paira sobre a Europa. Só nessas poucas linhas, fica claro o seu narcisismo, ao se julgar um "iluminado" que traça planos mirabolantes para comandar a cristandade no seu combate final contra os pagãos.

A certa altura do seu perturbado manifesto, Breivik justifica seu apreço por Darwin afirmando que “é essencial que a ciência tenha sempre uma prioridade incontestável sobre os ensinamentos bíblicos. A Europa sempre foi o berço da ciência, e deve sempre continuar a ser assim. Quanto a minha relação pessoal com Deus, acho que não sou um homem religioso. Sou em primeiro lugar um homem de lógica. No entanto eu apóio uma Europa cristã monocultural”. Mais adiante, sempre dando ênfase ao verbo conjugado na primeira pessoa, ele prossegue dizendo: "eu creio que a futura liderança de uma hegemonia cultural conservadora na Europa vai assegurar que a atual liderança da Igreja seja substituída e o sistema seja reformado de alguma maneira. Nós precisamos ter uma liderança da Igreja que dê suporte a uma Cruzada com a intenção de liberar os Bálcãs, a Anatólia [região onde está hoje a Turquia], com a criação de três Estados cristãos no Oriente Médio. Esforços devem ser coordenados para facilitar a descontrução da Igreja Protestante, cujos membros deveriam se reconverter ao Catolicismo. A Igreja Protestante teve um papel importante na história, mas os seus objetivos originais foram cumpridos e contribuíram para também reformar a Igreja Católica. A Europa deveria ter uma única liderança da Igreja através de um papa justo e não-suicida [seja lá o que isto signifique], que queira lutar pela segurança dos seus súditos, em especial contra as atrocidades islâmicas".

Trata-se, portanto, de uma mente fragmentada, mas extremamente narcisita, a ponto de não só apontar os rumos da cristandade, como tomar nas próprias mãos (e literalmente executar) a missão autoincumbida de salvá-la do perigo muçulmano. Se, por um lado, tem um discurso religioso, messiânico e "autoglorificador", trata as igrejas apenas como massa de manobra para atingir o seu objetivo (no que não difere muito de tantos líderes políticos atuais e antigos, inclusive o próprio Hitler). Em outros momentos, como quando elogia Darwin e a supremacia da ciência sobre a fé, o seu discurso não difere do que diria Richard Dawkins a um público ateu, por exemplo. Há ainda outra vertente que parece ser a preferida na sua visão de mundo: o cristianismo é uma questão cultural europeia, já que "não é necessário que você tenha um relacionamento pessoal com Deus ou Jesus para lutar por nossa herança cultural cristã e nosso estilo de vida europeu". Uma coisa é certa: crendo ou descrendo, para o bem ou para o mal, Breivik gosta muito de religião. Delírios provenientes de uma mente dilacerada (e que dilacera) em terras boreais.

Fonte: WorldNetDaily

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Racismo não é folclore

Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo. É dele o artigo abaixo, publicado no Terra Magazine:

Noruega ensina que racismo não pode ser visto como folclore

Se existe algo que o massacre na Noruega pode nos ensinar é que racismo, machismo e xenofobia não devem ser tratados como mero folclore.

Entre as palavras e as ações há um longo caminho, mas sempre pode existir alguém disposto a percorrê-lo.

Sarah Palin, candidata republicana a vice-presidente e musa do ultra-conservador Tea Party, dizia que a deputada democrata Gabrielle Giffords era um dos "alvos a serem abatidos" na política norte-americana.

Tratava-se de uma metáfora, mas um atirador em Arizona, a levou ao pé da letra. A tentativa de abater o alvo, uma das vozes contra a política hostil aos imigrantes, resultou em seis mortes em janeiro último, na cidade de Tucson.

Não há hoje quem não tema as possíveis consequências políticas de uma Europa economicamente em frangalhos -a lembrança da mistura depressão-fascismo do século XX ainda é suficientemente viva para suscitar este temor. Mas parece não ser o bastante para afastar a xenofobia, agora focada na repulsa ao Islã e a imigrantes que vem da África e Ásia.

A recente era da globalização só funcionou enquanto serviu como uma segunda colonização.

Os países periféricos foram instados a abrir seus mercados, homogeneizar suas normas, privatizar e internacionalizar suas empresas estratégicas, criando mercados alternativos ao já saturados no hemisfério norte.

Mas o mundo tornou-se global apenas em uma direção, pois as fronteiras voltaram a se fechar de forma ainda mais vigorosa, com a construção de grandes muros e o recrudescimento das leis de imigração - imigração esta que em outros tempos supriu com mão de obra barata, serviços que nacionais se recusavam a cumprir.

Pouco se pode fazer, é verdade, para impedir de todo ações repentinas de vingadores que se sentem representantes de uma nova cruzada, propondo salvar o mundo com toscas visões.

Mas estimular o discurso do ódio certamente não é uma delas.

O alarmismo com a fé diversa, o maltrato com o forasteiro e o diferente, o apego extremado a valores moralistas, são o caldo de cultura próprio para gerar ações excludentes, que tanto podem reverter em atentados quanto desembocar em políticas de Estado. Afinal, o que pode ser mais terrorista que o Holocausto?

Se a história se repete, como profetizava Marx, o receio é que nos abata mais uma vez como tragédia. Parafraseando Martin Luther King, parece ser o caso de nos preocuparmos tanto com o silêncio dos bons, quanto com o grito dos maus, este cada vez mais ensurdecedor.

O Brasil não vive o momento depressivo que se espalha pela Europa e Estados Unidos, fruto dos desvarios neoliberais, que maximizaram os mercados e o lucro e minimizaram as regulações.

Ao revés, vive anos de crescimento que resultaram em inesperada mobilidade social, mas isto também é motivo para cautela.

À incorporação de direitos civis a grupos minoritários, como homossexuais, instaurou-se uma brigada da moral, com forte apelo religioso. À incorporação ao mercado consumidor de uma classe emergente, recém-saída da linha de pobreza, levantou-se reação de quem se sente invadido em espaços até então exclusivos, entre faixas de automóveis e assentos de aviões. Ao pujante crescimento do Nordeste, esboça-se uma xenofobia de cunho separatista.

Aqui, como na Europa, devemos temer, sobretudo, aos que se propõe a nos higienizar ou recuperar valores tradicionais, que apenas remontam a mais exclusão.

O antídoto ao fascismo é o exercício da democracia e a preservação da dignidade humana como vetor de políticas sociais.

Só se abate o preconceito acreditando na igualdade.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Glenn Beck compara vítimas norueguesas à Juventude Hitlerista

O ativista mórmon Glenn Beck é um dos expoentes do conservadorismo norteamericano, que tinha até alguns meses atrás um programa seu na rede Fox News, de propriedade de Rupert Murdoch, recentemente envolvido no escândalo de escutas ilegais ("grampos") que acarretou o fechamento do tabloide britânico News of the World (do qual era também dono), além de tê-lo levado a depor no Parlamento do Reino Unido. 

Conhecido pela defesa dos princípios mais à direita do que já está na direita o Partido Republicano dos EUA, o que o levou a formular novas teorias da conspiração a cada programa seu no rádio ou na TV, Glenn Beck também faz questão de se apresentar como um brilhante líder religioso mórmon, nem que para isso tenha que fingir-se "especialista" no que não é, como quando desancou o Concílio de Niceia num programa de rádio de 27 de maio de 2010, misturando-o com os manuscritos do Mar Morto (Qumram), alegando que um havia sido substituído pelo outro, sem qualquer evidência histórica que sustentasse sua fantasiosa versão.

Suas reiteradas acusações infundadas contra tudo e todos terminaram gerando um boicote aos anunciantes do seu programa na Fox News, que não resistiu à metralhadora giratória inconsequente de seu apresentador e foi cancelado alguns meses atrás. 

Agora, só lhe resta o programa radiofônico, no qual ele comentou o recente ataque terrorista perpetrado por um fanático religioso conservador na Noruega, Anders Behring Breivik, agora conhecido como "o carniceiro de Oslo", segundo informa o jornal britânico The Guardian

Estranhamente, em vez de aproveitar a chance para desvincular seu pensamento extremista e condenar o ataque terrorista, Beck, ao que parece, joga a culpa nas vítimas inocentes, ao afirmar que não entende como jovens estavam reunidos na ilha de Utøya para um acampamento político, comparando-os com a Juventude Hitlerista, que também utilizava esse expediente nos mórbidos tempos da Alemanha nazista. 

Torbjørn Eriksen, antigo assessor de imprensa do primeiro-ministro da Noruega, Jens Stoltenberg, rebateu as críticas de Beck dizendo que já há 60 anos este acampamento é realizado, e nunca houve qualquer ameaça à democracia. 

Já na lógica enviesada e corrompida de Glenn Beck, jovens não podem se reunir para um congresso ou encontro político de qualquer matiz, sob pena de se equipararem a nazistas e serem alvejados por algum lunático religioso. 

Esquece-se convenientemente, entretanto, que o movimento conservador Tea Party dos EUA, do qual Beck é um dos incentivadores, também reúne jovens em muitos acampamentos por todo o país. 

O discurso distorcido de Glenn Beck é tudo o que o mundo não precisa num momento como este (e em todos os outros).

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Terrorista norueguês queria prostitutas antes do massacre

O fanatismo do terrorista "cristão" norueguês Anders Behring Breivik, ao que parece, exigia uma festinha com prostitutas antes do massacre que planejou, segundo noticia o Terra. Curioso que ele "se descrevia como um cruzado íntegro, imbuído da missão de salvar o 'Cristianismo' europeu de uma invasão islâmica". Só que os seus equivalentes muçulmanos suicidas esperam encontrar a recompensa das 72 virgens do outro lado da bomba, e o covarde norueguês prefere não só não se matar como fazer a festinha do lado de cá...

Noruega: atirador queria vinho e prostitutas antes do massacre

O assassino confesso de mais de 90 pessoas na Noruega queria se preparar para o massacre contratando duas prostitutas de luxo e tomando um bom vinho francês, segundo um documento colocado por ele na internet, e que veio à tona na segunda-feira.

Nas 1,5 mil páginas do documento - misto de manifesto e manual de instruções para participantes de uma "cruzada" contra o Islã e políticos liberais europeus -, Anders Behring Breivik diz que os preparativos deveriam incluir uma sessão de fotos "após algumas horas num solário, para parecer mais revigorado".

Breivik, que segundo a polícia confessou o duplo atentado de sexta-feira, foi nesta segunda-feira a uma audiência judicial que analisa o pedido da polícia para que sua prisão preventiva dure pelo menos oito semanas.

O manifesto na internet expõe as ideias de Breivik e também documenta um período entre abril de 2002 e a véspera do atentado de 22 de julho, mostrando uma mistura de planejamento obsessivo com pitadas do seu cotidiano.

"Esta casa está infestada de besouros. Agora mesmo eu estava indo pegar um chocolate no meu saco de guloseimas e um besouro havia se arrastado lá dentro", escreveu ele na fazenda onde fez seus preparativos.

O texto fala de amigos e parentes e diz que no final de abril ele passou um tempo "em festas" antes de se pôr a trabalhar na fazenda que alugou para produzir a bomba que explodiu no centro de Oslo, matando pelo menos sete pessoas. A segunda parte da ação consistiu em matar dezenas de participantes de um acampamento do Partido Trabalhista norueguês.

Durante os preparativos do massacre, Breivik escreveu que às vezes se surpreendia por receber visitantes na fazenda, e que em algumas ocasiões suspeitou que se tratasse da polícia.

Ele contou também que estava guardando três garrafas de um vinho francês caro. "Considerando o fato de que minha operação de martírio se aproxima cada vez mais, decidi trazer uma para desfrutar com minha família estendida na nossa festa de Natal anual, em dezembro", escreveu.

"Minha ideia era guardar o último frasco para a minha última celebração do martírio, e desfrutá-lo com duas prostitutas modelos de alto nível que pretendo alugar antes da missão."

Não ficou claro se ele realmente fez isso. Mas, num escrito de 11 de julho, ele relatou ter "comprado muita comida boa e balas" para recarregar suas baterias.

O documento mostra também que o assassino consumia esteroides e bebidas à base de proteína para ter mais energia, e em uma passagem ele diz que gostaria de obter "pílulas de agressividade."

Breivik se descrevia como um cruzado íntegro, imbuído da missão de salvar o "Cristianismo" europeu de uma invasão islâmica.

domingo, 24 de julho de 2011

Sobre teólogos e moluscos

Três fatos recentes, aparentemente isolados e desconexos podem ter algo muito mais em comum do que a nossa vã filosofia consegue imaginar:

1) uma cena da novela Insensato Coração, em que um personagem gay comenta: “A minha mãe só fala comigo para me dar sermão, o meu pai nunca passou do bom dia e cascudo. Os dois vão na conversa do pastor da igreja deles e me tratam como se eu fosse o fim do mundo”. Silas Malafaia protestou no twitter dizendo que havia se manifestado diretamente a um dos donos da Rede Globo porque pastores estavam sendo “ridicularizados” pela emissora.

2) as declarações do Lula sobre riqueza, que alguns pastores tomaram como “teológicas”: "Bobagem, essa coisa que inventaram que os pobres vão ganhar o reino dos céus. Nós queremos o reino agora, aqui na Terra. Para nós inventaram um slogan que tudo tá no futuro. É mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha do que um rico ir para o céu. O rico já está no céu, aqui. Porque um cara que levanta de manhã todo o dia, come do bom e do melhor, viaja para onde quer, janta do bom e do melhor, passeia, esse já está no céu".

3) o atentado na Noruega, segundo se sabe até agora, teria sido perpetrado por um “fundamentalista cristão”, seja lá o que isto signifique.

O traço comum entre estes três acontecimentos tão díspares é, a meu ver, a ideologia. O próprio fato de Silas Malafaia ter se dirigido diretamente a um dos donos do maior império de comunicação no Brasil, que manipula ideologicamente quem, quando e o que quiser, já revela que se trata de um jogo de poder. Malafaia disse no seu twitter, que “a novela ataca e ridiculariza os pastores”, no que foi acompanhado por muitos evangélicos que se sentiram igualmente ofendidos. Não lhes ocorreu, estranhamente, que quem mais ridiculariza o pastorado e o evangelho são os mesmos pastores ditos “evangélicos” com suas campanhas ideológicas e sua “teologia” da prosperidade, mais afeitos que são ao pedido (e ao acúmulo) de dinheiro e às esferas terrenas de "poder", do que propriamente à pregação do evangelho. Os evangélicos brasileiros têm hoje uma indignação bastante seletiva e conveniente: não se ofendem quando algum “pastor” engana seus fiéis para extorquir dinheiro no mundo real, mas se ofendem quando são coletivamente depreciados por uma obra de ficção televisiva.

A declaração de Lula é apenas mais uma das bobagens que ele fala rotineiramente, na sua mania de dar opinião sobre tudo. Registre-se, entretanto, que ela foi dada no campo ideológico (que é o seu habitat natural) e é um direito do ex-presidente expressar-se livremente, e a repercussão no meio evangélico foi igualmente ideológica, ainda que travestida de ultra-sensibilidade “teológica”, já que pastores que fizeram campanha contra o PT nas eleições passadas se sentiram no direito de reviver o horário eleitoral gratuito à sua maneira. Por outro lado, gostem ou não, tudo o que o Lula disse – infelizmente – está sendo pregado na maioria das igrejas evangélicas brasileiras, com seu discurso da prosperidade material imediata e seu desprezo à Bíblia e aos ensinamentos teológicos da Igreja cristã. O que Lula comentou foi apenas a percepção que o cidadão médio brasileiro tem da pregação dos mesmos pastores que o criticam, percepção esta que – obviamente – não guarda nenhuma relação com o que Jesus e a Igreja – historicamente – ensinaram. Afinal, que atire a primeira pedra o evangélico que nunca ouviu uma pregação de que “o cristão tem que comer do melhor desta terra”...

Já o atentado na Noruega, com suas dezenas de mortos, que teria tido como causador um fanático alucinado que se apresentou como “fundamentalista cristão” e islamofóbico, é uma prova cabal de onde esta “ideologização” do cristianismo – levada ao extremo - pode desembocar. Uma insanidade que mata dezenas de inocentes deve ter começado, muito provavelmente, com a deturpação dos ensinos do evangelho em nome de uma aplicação distorcida de seus princípios a uma espécie de guerra ideológica contra inimigos imaginários que precisam ser vencidos não mais no terreno das ideias e da (outrora gloriosas) oração e perseverança (mesmo em meio ao sofrimento), mas à bala.

Ainda dá tempo dos evangélicos brasileiros abandonarem seu corporativismo ideológico e pararem de se comportar como uma torcida organizada no estádio, irritada com os cânticos e refrões da torcida contrária. Senão, seu fim será igualmente trágico. Lamentavelmente.

sábado, 23 de julho de 2011

Terrorista norueguês seria fundamentalista cristão

As notícias sobre o trágico atentado terrorista na Noruega estão sendo atualizadas minuto a minuto (assim como as terríveis estatísticas das vítimas), mas a se confirmar a suspeita de que o causador da desgraça seria "fundamentalista cristão", além de "anti-islâmico radical" (seja lá o que essas duas condições signifiquem), estaríamos todos diante do pior cenário possível: uma espécie de "epidemia de terrorismo religioso" que não estaria mais circunscrita a um determinado grupo de fanáticos. Pessoas de diferentes origens religiosas que, no fundo, pensam a mesma coisa intolerante a respeito da convivência pacífica entre os povos, agora estariam se julgando antagônicos e promovendo, ainda que de maneira diminuta (mas difícil de prevenir e controlar), uma política belicista de extermínio dos que não comungam das suas crenças corrompidas. O problema é essa loucura contaminar os que ainda estão sãos. A notícia é do Terra:

Sobe para 84 número de vítimas no acampamento de ilha na Noruega

Chegou neste sábado a 84 o número de vítimas fatais do massacre no acampamento juvenil social-democrata da ilha de Utoya, vizinha a Oslo, informou a polícia norueguesa. Com isso, chega a 91 o número total de mortos nos dois atentados no país, uma vez que foram confirmadas sete mortes após as explosões no centro da capital Oslo.

O ataque, cujo suposto autor é um norueguês de 32 anos de tendências ultradireitistas e islamofóbicas, aconteceu duas horas depois do atentado no centro da capital norueguesa, onde morreram outras sete pessoas. Segundo fontes policiais, o número de vítimas deve aumentar nas próximas horas, já que há muitas pessoas feridas com gravidade por ambos os ataques. Além disso, há buscas por possíveis vítimas na águas, já que muitos jovens tentaram fugir a nado.

O suposto autor do duplo atentado acabou detido na própria ilha e foi interrogado pela polícia. Em pronunciamento à população, o primeiro-ministro norueguês, Jens Stoltenberg, classificou o ocorrido de a "pior tragédia desde a Segunda Guerra Mundial".

"Foi um ataque ao paraíso da minha juventude, transformado agora em um inferno", acrescentou o político, que antes do atentado marcara uma visita à ilha hoje, lugar que visitou quando era jovem para participar de acampamentos.

O ataque na ilha ocorreu por volta das 10h30 de Brasília, duas horas depois do atentado com um carro-bomba no complexo governamental de Oslo, que deixou sete mortos e 15 feridos.

O ministro da Justiça, Knut Storberget, no pronunciamento junto a Stoltenberg, confirmou as informações divulgadas pela Polícia anteriormente, segundo as quais o suposto autor do massacre, detido após sua ação na ilha, é um norueguês de 32 anos com contatos com a extrema-direita.

Segundo a polícia, o suspeito tinha "ideias hostis ao islã e próximas ao fundamentalismo cristão", como revelou um registro efetuado em sua casa, onde a Polícia encontrou várias mensagens postadas na internet com conteúdo ultradireitista e anti-islã.

O suspeito foi identificado pela imprensa como Anders Behring Breivik e agiu sozinho, segundo as investigações policiais em curso, que, no entanto, não descartam a hipótese de comparsas terem participado do atentado.

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