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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Sobrinho autista cobrava pensão alimentícia de tio, mas TJSP negou


A informação é do próprio Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo:

TJSP nega pedido de pensão alimentícia 
proposto por sobrinho

Obrigação não abrange tios.


A 10ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo negou pedido de um rapaz que pleiteava pagamento de pensão alimentícia por parte de seu tio. O autor, que é portador do Transtorno do Espectro Autista, ajuizou ação sob o argumento de que a responsabilidade por seu sustento recai apenas sobre a mãe, uma vez que o pai não arca com a obrigação e a avó paterna não dispõe de condição financeira para ajudá-lo. Na petição inicial, ele afirmou que o tio paterno possui excelente padrão de vida e não tem filhos.

Em primeira instância, o pedido foi julgado procedente para condenar o tio ao pagamento de pensão no valor equivalente a 10% de seus rendimentos líquidos. A decisão, no entanto, foi modificada na segunda instância.

Para a turma julgadora a doutrina majoritária e o entendimento pacificado do Superior Tribunal de Justiça (STJ) afirmam que a obrigação alimentar decorre da lei, que indica de forma taxativa os parentes obrigados: pais, filhos, ascendentes, descendentes e colaterais até o segundo grau – o que não abrangeria tios e sobrinhos.

O julgamento ocorreu no início de dezembro com a participação dos desembargadores Carlos Alberto Garbi, João Batista de Mello Paula Lima e João Carlos Saletti.

Comunicação Social TJSP – AM (texto) / internet (foto)



quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Para os restaurantes, clientes paulistanos são os mais chatos do mundo



Finalmente, alguém conseguiu colocar em palavras algo que eu já havia percebido nos meus muitos anos em que fui um feliz habitante da capital bandeirante, e que eu já havia comentado sob outro ângulo no texto intitulado "A síndrome do turista paulista".

O artigo foi publicado no blog Cozinha Bruta do portal da Folha de S. Paulo:

Cliente paulistano é o mais chato do mundo – e paga caro por isso no restaurante

POR MARCOS NOGUEIRA

Mimado, exigente, arrogante e rude, o cliente de restaurantes paulistano é o mais chato do mundo. É por isso que ele paga caro pela comida.

Eu, tão paulistano quanto a estátua do Borba Gato, estou no balaio. Ouso dizer que já fui mais chato do que a maioria dos chatos – depois de medicado corretamente pela minha psiquiatra, melhorei bastante.

Claro que existem chatos de muitos tipos (caso você tenha interesse em se aprofundar no assunto, sugiro a deliciosa leitura do “Tratado Geral dos Chatos”). Em algumas partes do país, é corriqueiro o tipo de cliente que chega ao restaurante e se comporta como se fosse dono do lugar. Fala alto para caramba e deixa as crianças quicando pelo salão. Se a mesa estiver perto da entrada, estaciona o carro em frente e liga o som. Em geral, fala com os funcionários como se fosse seu melhor amigo. E não estressa com a lentidão do serviço.

Essa modalidade não é muito comum em São Paulo. Não nos lugares que eu costumo frequentar.

O cliente paulistano é folgado à sua própria maneira. Por ser pagante, ele julga merecer tratamento de realeza.

O indivíduo – gênero neutro, repare – chega ao restaurante e pede uma mesa. Caso haja espera, a pessoa supõe que haja também uma área em que ela possa esperar sentada. Se a espera não permitir o consumo de bebidas e petiscos, o sujeito fica contrariado. A espera muito longa irrita sobremaneira essa gente.

(Reservar mesa não é para o paulistano médio. Ele presume que a mesa estará à sua disposição em qualquer hora e situação.)

Uma vez acomodado, trata os garçons como serviçais particulares.

O cliente exige disponibilidade total. O atendente anota as bebidas e, quando as entrega, comanda o suco de acerola da Valentina, que a mamãe esqueceu de pedir antes. Ao trazer o suco, é instado a substituir o copo do pequeno Enzo, que queria apenas gelo, não gelo e limão. Com o copo em mãos, alguém na mesa resolve pedir lula frita. O garçom anota. Assim que ele entrega a comanda na cozinha, é chamado de volta porque deve trocar a lula por mandioca – o João Vítor é alérgico a frutos do mar, mas o tio não sabia. Então, eu um ato audaz, ele sugere que a mesa peça os pratos principais: todos entram em pânico e solicitam o cardápio novamente, numa clara manobra protelatória.

E assim vai até o pagamento da conta.

Quando viaja dentro do país, o paulistano quase enlouquece nos restaurantes. Especialmente se o destino é Salvador. No estrangeiro, se comporta bem. Porque sabe que vai tomar uma bela invertida de quem serve a mesa – e porque não tem repertório linguístico para encarar uma discussão.

Em países mais, hum, desenvolvidos, os restaurantes informais costumam ser familiares. Os pais são donos e os filhos servem as mesas, ou algo do tipo. Mesmo quando o negócio é um pouco maior, o número de garçons é muito limitado. A pessoa tem pouco tempo de atenção a dispensar para cada mesa. Então, ela supõe que o freguês peça tudo ao mesmo tempo – a cozinha se encarrega de soltar primeiro as entradas, depois os principais.

Menos funcionários no salão, menos custo. Matemática elementar.

Em São Paulo, esperamos que o botequim tenha o mesmo padrão de serviço do Fasano. Essa pressão faz com que as casas contratem mais gente. E o custo, é evidente, aparece na dolorosa.



sábado, 6 de janeiro de 2018

Viaduto de SP terá nome de filho do casal Hernandes da Renascer

No lugar, funciona há décadas um albergue para a população de rua.  
A informação é do Estadão:

Viaduto de SP terá nome de filho de 
fundadores da Igreja Renascer

Sancionada por Doria, mudança homenageia filho de Sonia e Estevam Hernandes; logradouro da região central passa a se chamar Viaduto Pedroso - Bispo Tid Hernandes

SÃO PAULO - O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), sancionou na quinta-feira, 4, a mudança do nome do Viaduto Pedroso para Viaduto Pedroso - Bispo Tid Hernandes. A mudança é uma homenagem ao bispo evangélico Tid Hernandes, filho dos fundadores da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, Sonia e Estevam Hernandes, morto em 2016.

A Lei Municipal 16.788/18 é de autoria dos vereadores evangélicos Carlos Apolinário (PDT) e Gilberto Nascimento (PSC) e foi aprovada na Câmara Municipal de Vereadores em dezembro.

Uma placa será afixada no viaduto com a nova denominação. "A execução da presente lei contará com recursos orçamentários próprios, suplementados se necessário", diz o texto.

Polêmica. Outro viaduto de São Paulo foi recentemente alvo de críticas após ser batizado com o nome da ex-primeira dama Marisa Letícia, que foi casada com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A lei foi sancionada em dezembro pelo então prefeito em exercício Milton Leite (DEM), presidente da Câmara, e foi chamada de uma homenagem "injusta" pela Prefeitura de São Paulo.



terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Justiça reconhece vínculo empregatício de bispo da igreja Fonte da Vida


A informação foi publicada no portal Jusbrasil:

Bispo tem reconhecido vínculo empregatício com Igreja Evangélica

Sentença é do TRT/SP

Davi D'lírio

Um bispo que trabalhou para a Igreja Apostólica Fonte da Vida, durante o período de 10/2/1990 a 22/9/2015, conseguiu o reconhecimento do vínculo empregatício, com determinação de registro em carteira.

A decisão é do juiz do Trabalho Diego Cunha Maeso Montes, da 39ª vara de São Paulo/SP, refutou o argumento da igreja de que o reclamante atuava como sacerdote.

Conforme o magistrado, não há qualquer óbice que impeça o reconhecimento do vínculo empregatício desde que preenchidos os requisitos previstos na CLT.
“Com efeito, a onerosidade está presente no fato do autor ter recebido valores mensais da ré, a pessoalidade se faz presente no fato do autor não poder se fazer substituir por outra pessoa, a habitualidade e a subordinação também se fazem presentes, inclusive com a testemunha indicada pela própria ré ter afirmado que o "reclamante fazia a abertura do salão para o início do culto; ... que o reclamante fazia parte de um conselho de bispos, coordenado pelo apóstolo, que definia a forma como a igreja de responsabilidade do autor seria dirigida, coordenada".
Em decorrência do vínculo, o julgador determinou o pagamento ao bispo do saldo de salário, férias vencidas simples e em dobro, décimo terceiro salário, FGTS de todo o período trabalhado e restituição de contribuição compulsória e ministerial que lhe era imposta.

O advogado Eli Alves da Silva, do escritório Eli Alves da Silva Advogados Associados, patrocinou a ação do reclamante.




sábado, 11 de novembro de 2017

Memorial do Holocausto abre suas portas amanhã em SP


A informação é do Estadão:

Memorial do Holocausto em São Paulo 
lembra dor de judeus

Museu no Bom Retiro, que abre no domingo, reflete sobre atrocidades do nazismo; entrada será gratuita

Edison Veiga

SÃO PAULO - Graças a uma cenografia carregada de simbolismos, com cores, sons e ambientações, percorrer os ambientes do novo Memorial do Holocausto, que será aberto ao público no próximo domingo, provoca emoções. A ideia, como destacam seus idealizadores, é comover. “Holocausto só houve um e vitimou 6 milhões de judeus”, pondera o professor e historiador Reuven Faingold, PhD em História e História do Povo Judeu pela Universidade Hebraica de Jerusalém e responsável pelos projetos educativos do espaço. “Mas é claro que aqui estamos falando da intolerância e da xenofobia. Para que perseguições assim não ocorram novamente.”

O Memorial do Holocausto está instalado no piso superior do Memorial da Imigração Judaica, museu que funciona desde 2016 em endereço muito caro à história dos judeus paulistanos: a mais antiga sinagoga paulista, a Kehilat Israel, de 1912. Logo na entrada, há a recriação do frontão típico de um campo de concentração, com a característica expressão alemã Arbeit macht frei, ou seja “o trabalho liberta”. E um detalhe. “O B está de cabeça para baixo, exatamente como o do campo de Auschwitz (na Polônia)”, pontua Faingold.

No nível inferior de um piso de vidro, logo na entrada, um homem maltrapilho está deitado com um ralo prato de comida. O visitante precisa passar por cima. Na sequência, é possível ver, em reproduções idênticas ao original, cartazes da campanha nazista de segregação.

Então vem o hall em que foi recriada a fachada de uma típica loja de comerciantes judeus na Alemanha dos anos 1930. Tudo pichado com insultos. Do outro lado da cenográfica rua, há uma pilha de livros na fogueira. “Queimavam qualquer livro que tivesse ligação com judeus. Obras de Freud, Einstein, Brecht...”, enumera o historiador.

O percurso ainda tem a réplica de uma ponta de locomotiva utilizada para transportar judeus a campos de concentração e a recriação de um alojamento, onde adultos e crianças eram amontoados. “Montar este museu era mais que uma obrigação para nós”, acredita o rabino Toive Weitman, diretor da instituição. “Queremos provocar a reflexão. Que todos saiam conscientes da importância de respeitar as diferenças.”

O espaço dedicado à memória do Holocausto foi planejado e construído nos últimos dez meses graças ao patrocínio de empresas e famílias de sobreviventes do genocídio nazista. Nem os valores nem os nomes dos doadores são divulgados.

Ao fim do percurso, o visitante nota um rosto familiar. A estudante alemã Anne Frank, cujo diário se tornou best-seller póstumo, uma das mais conhecidas vítimas do regime de Adolf Hitler (1889-1945). Em letras garrafais, há uma frase retirada de anotações: “Apesar de tudo, ainda acredito na bondade humana”.

Testemunhos

Com a inauguração do memorial, a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, professora da Universidade de São Paulo (USP), pretende presentear a instituição com os dois primeiros volumes da coleção que ela vem preparando com os testemunhos dos sobreviventes do Holocausto que vieram para o Brasil. Seu projeto, o Arquivo Virtual Arqshoah, já coletou depoimentos de 300 sobreviventes. “Ainda faltam outros 100, mas precisamos de patrocínio para prosseguir em 2018. Se não conseguirmos, o projeto será uma memória interrompida.”

Maria Luiza pretende lançar, em um futuro próximo, dez volumes com todo o material. “Será a maior enciclopédia do mundo com relatos de sobreviventes.”

Serviço

Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto
Local: Rua da Graça, 160, Bom Retiro, São Paulo
Telefone: (11) 3331-4507
Entrada gratuita



segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Traficante se converte e denuncia grupo que planejava matar promotor em SP


Curioso é que deram à operação o nome de "Judas Iscariotes"...

De qualquer maneira, isso sim é um claríssimo sinal de arrependimento (Lucas 3:8). Quisera outras pessoas que "viram evangélicos" tivessem o mesmo comportamento...

A informação foi publicada no Estadão de 23/09/17:

Operação prende 25 de organização que ameaçava matar promotor em Rosana

De acordo com a investigação, o grupo é suspeito de planejar a morte do promotor público Renato Queiroz de Lima, que atua no município.

José Maria Tomazela

SOROCABA - Uma operação da Polícia Civil e do Ministério Público Estadual (MPE), na manhã deste sábado (23), prendeu 25 integrantes de uma organização de traficantes de drogas que atuava em Rosana, no Pontal do Paranapanema, extremo oeste do Estado de São Paulo. De acordo com a investigação, o grupo é suspeito de planejar a morte do promotor público Renato Queiroz de Lima, que atua no município. Foram cumpridos também 30 mandados de busca. A Polícia Civil ainda apura a ligação dos suspeitos com outras organizações criminosas.

De acordo com o delegado Ramon Euclides Guarnieri Pedrão, as investigações foram iniciadas a partir de denúncias anônimas e ganharam corpo depois que um dos envolvidos se tornou evangélico e decidiu “entregar” o grupo – a operação foi batizada de “Judas Iscariotes”, numa referência ao traidor de Jesus Cristo. “Observamos que pequenos grupos de traficantes formavam uma rede em que os líderes se comunicavam e faziam referência a uma liderança maior. Eles se ajudavam e trocavam informações”, disse. A cidade fica na divisa com o Mato Grosso do Sul e está na rota dos carregamentos de drogas procedentes do Paraguai.

O plano de atentar contra a vida do promotor foi revelado por uma testemunha que prestou depoimento sob sigilo. “Foi uma menção clara de dar um tiro no promotor de Justiça que atua no enfrentamento do tráfico de drogas no município. Com as prisões, vamos prosseguir as investigações, em parceria com o Ministério Público”, disse. A Polícia Militar e a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) colaboraram com a operação, com cães farejadores para a busca de drogas. A PM participou com um helicóptero.

Com os suspeitos, foram apreendidos entorpecentes, celulares e rádios comunicadores. Conforme o delegado, os grupos trabalhavam com pequenas quantidades de drogas, uma espécie de varejo do crime. A investigação vai prosseguir para identificar o esquema de fornecimento da droga. Os detidos tiveram as prisões temporárias decretadas pela Justiça por 30 dias. Todos foram levados para o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Caiuá, na mesma região.



segunda-feira, 7 de agosto de 2017

TST nega vínculo empregatício a padre ortodoxo de SP

Igreja Ortodoxa de São Pedro no Brás, em SP
A informação é do próprio Tribunal Superior do Trabalho:

Padre da Igreja Ortodoxa tem recurso negado em ação para reconhecer relação de emprego

Um padre da Igreja Ortodoxa Grega de São Pedro, em São Paulo, não conseguiu que seu pedido de reconhecimento de vínculo de emprego fosse reexaminado pelo Tribunal Superior do Trabalho. O presidente do TST, ministro Ives Gandra Martins Filho, negou seguimento a agravo no qual o religioso questionava decisão do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (SP) no sentido de que o vínculo entre as partes se destinava apenas à assistência espiritual e à propagação da fé.

Segundo o TRT, nos dez anos de atividade sacerdotal não se verificou a configuração dos requisitos inerentes ao contrato de trabalho, como subordinação ou prestação remunerada de serviços (onerosidade). “Trata-se de um ofício, onde não havia contraprestação pecuniária, e sim ajuda de custo necessária para prover suas necessidades básicas”, diz a decisão.

Em sua argumentação, o padre afirmou que havia submissão às diretrizes traçadas pelo arcebispo da igreja, e que serviços como batizados, casamentos e ofícios fúnebres tinham valor fixado pela Comissão Eclesiástica, entidade que, na condição de administradora da igreja, incumbia-se da arrecadação de valores e de pagamentos, inclusive dos salários a ele devidos.

No agravo, o padre pediu que a decisão do TRT que negou seguimento a seu recurso fosse anulada e que o TST reexaminasse a questão do vínculo. Mas, segundo o ministro Ives Gandra Martins Filho, a decisão não merece reparos, porque, diante do quadro descrito pelo Regional, sobretudo sobre a natureza das atribuições e da remuneração do religioso, não seria possível concluir em outro sentido sem o reexame de fatos e provas, medida incabível segundo a Súmula 126 do TST.

(Ricardo Reis/CF)

Processo: AIRR - 2184-87.2014.5.02.0023



quinta-feira, 13 de julho de 2017

Jornal destaca MMA da igreja Renascer na periferia de SP


A matéria foi publicada no Estadão em 10/07/17:

Pancadaria e orações entre os lutadores de Deus

Igreja Renascer em Cristo de São Mateus tem time de artes marciais cujo treinador também é pastor

Gonçalo Junior

Os 70 fiéis que acompanham o culto das oito na igreja Renascer em Cristo de São Mateus não estranham a pancadaria que rola no andar de cima do prédio. O pastor Jefferson Paiva não interrompe sequer as orações. Às segundas e às quartas-feiras, virou rotina a boa convivência entre os cultos no térreo e as aulas de MMA, oferecidas pela própria igreja, no primeiro andar. A Renascer tem até uma equipe de artes marciais mistas, chamada Reborn Team.

Luta e oração se misturam em alguns momentos. O pastor e treinador Roberto Pedroso interrompe a sequência de chutes e socos para pregar. Isso acontece no início, no meio e no fim dos treinos.

Mesmo esbaforido e pingando suor, Walker Araújo Mendes, aluno há quatro meses, fecha os olhos e ouve o pastor falar que todos enfrentam diversas lutas, mas uma delas é a mais importante: ter uma vida espiritual bem treinada. Que é preciso exercício para ficar longe da maldade e que cada um precisa vencer também dentro do seu octógono espiritual. Todos respondem “Glória a Deus” e a porrada volta. “Pastor, eu tenho de chutar quantas vezes?”, pergunta Angel Hayashida, de 17 anos apenas, apontando para o protetor que a companheira segura com dentes cerrados.




“Todo esporte combina com a igreja. Alguns gostam de futebol. Nós gostamos de luta. Quando tem luva, é esporte. Quando não tem luva, é violência”, diz Pedroso, mais conhecido como pastor Giraia. “Unimos a disciplina da arte marcial e a verdade da palavra de Deus”.

Quem tem mais de 30 anos sabe de onde vem o apelido Giraia. Para os mais jovens, Jiraiya – essa é a grafia oriental – foi o um seriado japonês de TV dos anos 1990. É da família do Jaspion. Como Roberto tinha cabelos longos e seus olhos são meio puxados, o apelido pegou.

Foi ele que ampliou a prática da luta na Renascer a partir de 2009, quando surgiu uma equipe para disputar torneios dentro e fora da igreja. O time é abençoado. O grupo fez crescer a ideia inicial de oferecer uma atividade esportiva para atrair mais jovens e hoje conta com atletas de todas as idades. Em oito anos, mais de seis mil pessoas já passaram por ali. O MMA começou na Vila Industrial, zona leste, chegou a São Mateus e hoje está em dezenas de unidades da terceira maior igreja neopentecostal do Brasil.

Fundada em 1986 por Estevam Hernandes e Sônia Hernandes, a Renascer possui cerca de 600 templos, mas não divulga o número dos fiéis seguidores.

Tirando as orações e a proibição de palavrões, o treino é idêntico ao de uma academia tradicional. Puxado. Tem condicionamento físico, trabalho técnico e muscular. Na primeira aula, quase todos perguntam se é preciso frequentar a igreja. Não é. O espaço recebe amadores, gente que quer aprender a lutar, emagrecer ou melhorar o condicionamento, e também oito profissionais, aqueles que vivem do esporte. Ou deveriam viver.


Zé Reborn é o cara...

Zé Reborn é o principal lutador do ‘time de Deus’. Ele já atuou no Jungle Fight, grande competição brasileira de MMA, mas precisa de um patrocínio para se dedicar só aos treinos. Juntando vários torneios, soma 31 lutas com dez derrotas e hoje atua na categoria até 57 kg. “Eu queria me dedicar só aos treinos. Mas tenho de sustentar meus filhos. Sem patrocínio, não dá”, diz o alagoano de 29 anos que se chama, na verdade, José Alexandre e trabalha na área de limpeza de condomínios. “Chamar só Zé não tem graça para um lutador, né? Zé Reborn traz o nome da igreja e é mais chamativo”.



terça-feira, 13 de junho de 2017

Da Cracolândia à faculdade de Direito, passando pela Cristolândia


O título acima é um brevíssimo resumo da história contada pela BBC Brasil:

Como deixei a cracolândia e entrei na faculdade de Direito

Gabriela Di Bella e Gui Christ

"Acharam que eu estava derrotado, quem achou estava errado, eu voltei, tô aqui, se liga só, escuta aí."

É na forma de rap que Tiago Ideal Nogueira, de 35 anos, conta a história de sua sobrevivência a quatro anos na cracolândia, na região central de São Paulo.

O ex-"noia" - forma como os usuários de crack costumam ser chamados na cidade - atualmente é missionário, ajudando dependentes a deixarem a droga, produziu o seu primeiro CD de rap e, em 2016, foi o melhor aluno do curso na faculdade de Direito privada que frequenta na zona leste de São Paulo.

Ele lembra exatamente o momento em que decidiu mudar de vida.

"Entrei pela porta da Cristolândia (ONG que auxilia usuários do crack a deixarem a droga) no dia 8 de maio de 2012, às 15h30, após quatro anos vivendo no fluxo", diz Nogueira à BBC Brasil na praça Princesa Isabel, onde ele foi conversar com usuários da nova cracolândia que se formou no centro paulistano após a mais recente ação policial no local anterior, perto dali.

Agora, após dois anos de tratamento nas fazendas da ONG e um ano como missionário - ouvindo, ajudando no banho, servindo comida e convencendo usuários a aceitarem o tratamento -, ele quer trabalhar no setor público, mas com foco justamente em viciados.

"Meu sonho é ser defensor público", afirma.

Bolsista na faculdade graças a um acordo com a ONG, Nogueira tem notas altas em quase todas as disciplinas. "A matéria que mais gosto de estudar é Direito Civil, e tirei nove notas 10. Estou no segundo ano e luto para manter esse ritmo."

A coordenadora do curso, Eliana Berta Fernandes Corral, afirma que Tiago é destaque em meio aos 600 alunos de seu corpo discente.

"As notas dele são realmente acima da média, e ele sempre participa das aulas e das nossas atividades. Temos orgulho dele na faculdade."

Diálogo

Nascido na zona norte de São Paulo, Nogueira perdeu a mãe aos 12 anos e o irmão mais velho aos 15 - ambos tinham HIV. Sua avó morreu de câncer quando ele tinha 20 anos.

Ele vivia com o tio e diz que nunca lhe faltou nada em termos materiais. "Eu morava bem, trabalhava com meu tio e andava com carrão, bem vestido e perfumado", lembra.

Entretanto, o que mais faltava era diálogo, conta. "Não tive pai, nunca soube quem ele era, e sentia falta de uma orientação, de alguém com quem conversar. Meu tio me dava tudo, menos isso."

Nogueira começou a usar drogas na adolescência, quando saía à noite. "Comecei a usar cocaína na balada, (junto com) bebida. Para um adolescente, estava tudo legal", conta. Até que provou o crack.

"Ele (o crack) seguia sempre comigo. Eu trabalhava e ia para as baladas com ele junto, até o momento em que ele pede exclusividade. E, em 2009, eu fui morar nas ruas por causa disso."

Nessa mesma época começou a se envolver com a pichação, o que envolvia escalar prédios altos - "subi e pichei diversos prédios famosos de São Paulo".

Em 2010, caiu e quebrou vários ossos quando grafitava um edifício da avenida Brigadeiro Luís Antonio, na região central da cidade. Quase morreu. Apesar disso, não abandonou o gosto pela atividade - mas hoje faz grafites pedindo autorização dos donos dos muros.

Sonho

Foi um sonho com a avó que mudou sua vida.

"Um dia sonhei que tomava um refrigerante com a minha vó e conversei muito com ela. Acredito que ela me mandou uma mensagem. Na época, andava de muleta. Acordei, me olhei no espelho e percebi que tinha me tornado um farrapo humano. Estava muito magro, 'noia' e de muleta, tinha passado quatro dias fumando crack direto", lembra. Foi nesse momento que decidiu buscar ajuda na Cristolândia.

Nogueira diz que o período mais difícil foram os primeiros seis meses.

"O corpo pede a droga e você tem que lutar para se manter na abstinência. Tinha muito desejo de fumar, muita fome, e dormir era complicado."

Ainda assim, conta que não teve nenhuma recaída.

Ele se tornou evangélico dentro da Cristolândia. "No começo foi difícil. Eles falavam que Deus é bom, eu só pensava que havia perdido toda minha família - e isso era Deus sendo bom? Eu ficava revoltado", explica. Depois de 15 dias de tratamento, diz ter tido "um encontro com Deus". Hoje se considera um missionário.

Já o rap surgiu dentro das atividades de música durante o tratamento, e hoje ele o utiliza para transmitir apoio aos usuários de crack. Nogueira compõe e canta em igrejas e nos cultos da ONG e gravou um CD que se chama Divinamente Rap.

Também quer desenvolver, com ajuda de um amigo, um aplicativo para agilizar a busca de vagas para tratamento de dependentes químicos, organização da internação e sistemas de logística da ONG que o resgatou.

Abordagens

Nogueira vê com ceticismo a operação policial realizada pelo governo na cracolândia.

"Sabemos que há interesse imobiliário em revitalizar a área, mas é preciso cuidar das pessoas. Só agir com autoritarismo não resolve. Assim, a cracolândia nunca vai deixar de existir", opina.

Ele se queixa de ter sido abordado "a vida inteira" por policiais e ter sido tratado como "negão e bandido".

Em uma viagem recente à praia, foi parado por um policial e retrucou: "Olha o constrangimento que o senhor está me fazendo eu passar. Eu sou missionário, eu dou banho em noia, eu faço aquilo que o senhor não faz".

Sobre a vida na cracolândia, recorda que cada dia era "uma guerra".

"Você levanta de manhã, começa a batalha. Onde você vai comer, e como vai conseguir dinheiro. É impossível não entrar no esquema, você é obrigado a aprender as táticas - sempre ter um cigarro ou uma cachaça na mão para vender."

Do ponto de vista das estatísticas, Nogueira é um sobrevivente: segundo pesquisa da Unifesp, 30% dos usuários de crack morrem antes de cinco anos de consumo da droga. Ele credita sua sobrevivência ao medo "de levar facada", que o fazia evitar dormir na rua - pagava por uma cama nos albergues baratos da região.

Hoje, diz que sua maior luta é contra si mesmo.

"Nunca posso achar que estou bem, sempre estou em progresso. Ajudar as pessoas me faz bem, porque todos os dias me deparo com a realidade que vivi."



terça-feira, 30 de maio de 2017

Primeira Igreja Batista de SP ganha novo vizinho: a Cracolândia


A informação foi publicada no Estadão:

Fiéis vigiam igreja na nova Cracolândia

Primeira Igreja Batista de SP perdeu frequentadores com megaoperação que levou viciados à Praça Princesa Isabel

Felipe Resk

SÃO PAULO - José Carrasco é um senhor de 65 anos, estatura mediana e com a cabeleira mais para branca do que grisalha. Religioso, ele frequenta há 15 anos a Primeira Igreja Batista de São Paulo, que fica na Praça Princesa Isabel, no centro da capital. Foi lá onde se instalou uma nova Cracolândia, após operação policial na semana passada dispersar os usuários de droga do antigo quadrilátero da droga. Foi quando Carrasco assumiu uma nova função no templo: segurança voluntário.

Com medo de circular mais perto do fluxo, ao menos 30% dos fiéis faltaram aos cultos na semana anterior, segundo cálculos da Igreja. Por isso, Carrasco foi um dos membros da comunidade religiosa que aceitou vestir um colete e ficar com os olhos atentos na movimentação da Praça Princesa Isabel. “Como eu faço parte, conheço bem quem frequenta”, diz. “Então, a ideia é identificar quem é quem e fazer com que as pessoas se sintam acolhidas, se sintam seguras, ao me ver.”

Carrasco conta que já trabalhou como vigilante. Segundo ele, o trabalho tem sido tranquilo. “É sossegado. Se a gente não mexe com eles (usuários), eles não mexem com a gente”, diz.

“Os membros fazem trabalho voluntário, com reforço principalmente em horários de culto”, admite o pastor Reinaldo Junior, de 35 anos, segundo quem, também foi pedido reforço de policiamento ao 13.º Batalhão da Polícia Militar, responsável pela área. A Igreja também pôs à disposição dos fiéis, no domingo, uma van para levá-los ao Metrô Santa Cecília e ao Terminal Princesa Isabel. “No domingo da operação ficou bem vazio”, relata.

A Primeira Igreja Batista é conhecida pelo trabalho social realizado com usuários de drogas da Cristolândia. O projeto oferece café da manhã, banho e almoço aos usuários. “Depois da operação, o fluxo na Cristolândia cresceu de 300 para 450 pessoas por dia”, diz Junior.

O projeto faz, ainda, internação voluntária em quatro comunidades terapêuticas. As cerca de 120 vagas, no entanto, já estão preenchidas. “Não é só a gente: todos os lugares estão cheios”, afirma. “Por isso que, antes de se falar em internação compulsória, como está sendo discutido, tem de saber se há vagas disponíveis. Não há.”

Violência. Nesta segunda-feira, 29, por volta das 16 horas, quatro equipes da AES Eletropaulo foram à Praça Princesa Isabel para fazer reparos nos postes. O motivo é que os fios haviam sido furtados, deixando boa parte da região às escuras. “De manhã já estava sem luz”, diz o comerciante Antônio Ferreira, de 59 anos. “Já é a terceira vez só de quinta-feira (dia 25) para cá. A gente tenta trabalhar, mas não consegue vender nada”, conta.

Segundo Ferreira, os furtos de fiação começaram depois que os usuários passaram a concentrar-se na praça, cujo número de barracas tem crescido dia a dia. Na sexta, eram 15. Nesta segunda, mais de 35. “Em 30 anos aqui eu nunca vi nada parecido com essa situação.” Para Devarlei Splendore, de 53 anos, os moradores estão “sitiados”. “Os assaltos estão acontecendo à luz do dia. Ontem (domingo, 28) mesmo eu vi um à mão armada. Depois, o meliante foi se esconder na nova Cracolândia.”



sábado, 13 de maio de 2017

Adeus a Antonio Candido, o intelectual que melhor entendeu os caipiras


O Brasil perdeu ontem Antonio Candido, um de seus poucos e valorosos "gênios da raça".

"Perdeu" não é o verbo correto, pois o que ganhamos com sua profícua vida de 98 anos de idade é algo absolutamente imensurável.

"Perdemos" a sua existência corporal, a sua presença entre nós como farol intelectual digno do que esta palavra "intelectual", ultimamente tão banalizada, significa em toda sua abrangência, profundidade e extensão.

Sociólogo, crítico literário e - mais precisamente - um "pensador" do Brasil, do tipo que - lamentavelmente - talvez tenha sido o derradeiro, foi professor da USP e da UNICAMP, agraciado com honrarias as mais variadas ao redor do mundo, sobretudo na América Latina.

Para nós, paulistas do interior, "caipiras" segundo a definição que muito nos honra, deixou de legado sua magnífica obra "Parceiros do Rio Bonito", onde faz um detalhado estudo de como surgiu e se desenvolveu essa subcultura brasileira tão marcante e marcada como o "r" retroflexo que insistimos - orgulhosamente - em falarrrrrr.

Abaixo, transcrevemos alguns trechos de Parceiros do Rio Bonito. Estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. Livraria Duas Cidades e Editora 34, 2001.

Divirta-se desvendando nossos segredos, sabendo de onde viemos e conhecendo-nos melhor:




      “De qualquer modo, há para cada cultura, em cada momento, certos mínimos abaixo dos quais não se pode falar em equilíbrio. Mínimos vitais de alimentação e abrigo, mínimos sociais de organização para obtê-los e garantir a regularidade das relações humanas. Formulado nestes termos, o equilíbrio social depende duma equação entre o mínimo social e o mínimo vital.” (p. 32)

     “Sobretudo quando encaramos a obtenção dos meios de vida, observamos que algumas culturas não conseguem passar de um equilíbrio mínimo, mantido graças à exploração de recursos naturais por meio das técnicas mais rudimentares, a que correspondem formas igualmente rudimentares de organização. O critério para avalia-las, nestes casos, é quase biológico, permitindo reconhecer dietas incompatíveis com as necessidades orgânicas, correlacionadas geralmente a técnica pobre, estrutura social pouco diferenciada além da família, representações míticas e religiosas insuficientemente formuladas. É o que se observa em povos ‘marginais’ da Patagônia e sobretudo Terra do Fogo, em nômades como os sirionós, ou os nambiquaras.” (p. 34)

[...]

     “O ponto de partida para compreender essa situação deve ser buscado na própria natureza do povoamento paulista, desde logo condicionado pela atividade nômade e predatória das bandeiras. Do ponto de vista deste estudo, o bandeirismo pode ser compreendido, de um lado, como vasto processo de invasão ecológica; de outro, como determinado tipo de sociabilidade, com suas formas próprias de ocupação do solo e determinação de relações intergrupais e intragrupais. A linha geral do processo foi determinada pelos tipos de ajustamento do grupo ao meio, com a fusão entre a herança portuguesa e a do primitivo habitante da terra; e só a análise desse processo pode dar elementos para compreender e definir a economia seminômade, que tanto marcou a dieta e o caráter do paulista.” (p. 46)

[...]

   “Mas como se dispunha e vivia no campo o grosso da população? Qual a relação efetiva entre a população do núcleo e a do território, frequentemente vasto, de que era o centro?

    Leiamos um documento eloquente e pitoresco: a informação enviada em 1797 pela Câmara da vila de Atibaia ao ouvidor-geral da comarca de São Paulo, como elemento requerido por este, a fim de opinar sobre o pedido de elevação a vila da freguesia de Jaguari, atual Bragança Paulista:
       Tem a capital de Jaguary vinte e cinco fogos existentes, a saber: o Rdo. Coadjtor, o Alferes Aleixo Correia da Cunha, Manoel Rodrigues Freyre que ambos sam Dizimeyros, o alferes José Paes da Silva oficial de sapateyro e selleiro, cujos officios se desligará por falta de vista, e que vive hoje de lavouras, Capitam José Pedroso Pinto oficial de selleiro, e dizem que também tem loja de fazenda seca, o Alferes Joam de Almeyda, velho e mutio doente, por cuja cauza largou o Sitio, e veyo para aquele ARayal, Francisco Pinto oficial de Ferreyro, Joachim Gomes de Moraes Taverneyro, hum carapina que de fora foy para fazer a obra da Igreja. Vicente Gomes Sapateyro, Ignacio bastardo, sapateyro em cujo fogo mora também o Vintenário Francisco Luis Penna, José Teixeyra das Neves mestre de taypas, Roza Domingues mulher branca solteira e pobríssima, Maria de Nazaareth cazada que vive separada de seu marido, Miguel dias Cortes homem branco, cazado e pobríssimo, Anna Maria de Toledo, viúva e pobre, Genoveba de tal branca e pobre, Anna de tal aleijada, Quiteria escrava com taberna, Joam Leme bastardo sego, Maximiano Nunes e Joachim Nunes, ambos pobres.
      Tem o destricto de Jaguary quatro mil, e quatrocentos e tantas Almas: destas as pessoas que tem possibilidade, e cabedais sam o Capitam Jacyntho Rodrigues Bueno, o Alferes Aleixo Correa da Cunha e Manoel Rodrigues Pereira, os quaes conforme o estado daquela freguesia, nella se tem por ricos, e abaxo destes Lourenço rodrigues, o Capitam Antonio Leme, José Xavier e Francisco de Lima que tem seu modo de viver; e fora destes sam raras as cazas onde se nelas se procurar a quantia de 12$800 se achem. Este Povo é grosseiro, sem cultura nem civilidade, sam raros os que sabem ler, e escrever etc.”
(Documentos interessantes etc., vol. XV, 1904, pp. 105-6. Apesar destas ponderações dos camaristas de Atibaia, Jaguari foi elevada a vila em seguida)
     Cobradores do dízimo e da vintena, oficiais de ofício, comerciantes, o padre, indigentes e pessoas sem qualificação ocupavam as 25 casas do povoado; mas pelo território da freguesia espalhavam-se mais de 4.400 pessoas; quase mil famílias, talvez. Qual a sua unidade de agrupamento? A freguesia, no conjunto, centralizada pelo que se costumava chamar a sua ‘capital’? Não, certamente; mas sim aquelas unidades fundamentais referidas acima: os grupos rurais de vizinhança, que na área paulista se chamaram sempre bairro.

     Esta é a estrutura fundamental da sociabilidade caipira, consistindo no agrupamento de algumas ou muitas famílias, mais ou menos vinculadas pelo sentimento de localidade, pela convivência, pelas práticas de auxílio mútuo e pelas atividades lúdico-religiosas. As habitações podem estar próximas umas das outras, sugerindo por vezes um esboço de povoado ralo; e podem estar de tal modo afastadas que o observador muitas vezes não discerne, nas casas isoladas que topa a certos intervalos, a unidade que as congrega.” (pp. 79-81)

[...]

    “Em verdade, esse mecanismo de sobrevivência, pelo apego às formas mínimas de ajustamento, provocou certa anquilosidade de sua cultura. Como já se tinha visto no seu antepassado índio, verificou-se nele certa incapacidade de adaptação rápida às formas mais produtivas e exaustivas de trabalho, no latifúndio da cana e do café. Esse caçador subnutrido, senhor do seu destino graças à independência precária da miséria, refugou o enquadramento do salário e do patrão, como eles lhe foram apresentados, em moldes traçados para o trabalho servil. O escravo e o colono europeu foram chamados, sucessivamente, a desempenhar o papel que ele não pôde, não soube ou não quis encarnar. E, quando não se fez citadino, foi progressivamente marginalizado, sem renunciar aos fundamentos da sua vida econômica e social. Expulso da sua posse, nunca legalizada; despojado da sua propriedade, cujos títulos não existiam, por grileiros e capangas – persistia como agregado, ou buscava sertão novo, onde tudo recomeçaria. Apenas recentemente se tornou apreciável a sua incorporação à vida das cidades, sobretudo como operário.” (p. 107)

     “Mas ao lado destes elementos de fixação, uma característica importante da antiga vida caipira era a presença de terras disponíveis, que desempenhavam papel duplo e de certo modo contraditório. De um lado constituíam fator de reequilíbrio, na medida em que permitiam reajustar, sempre que necessário, situações tornadas difíceis economicamente pela subdivisão da propriedade, devida à herança, ou pela impossibilidade de provar os direitos sobre a terra. Estes fatores, aliás, eram mais poderosos como estímulo à mobilidade do caipira do que a instabilidade pura e simples, que se tem querido explicar, inclusive como decorrência da mestiçagem com o índio; mas cujas principais determinantes são sociais, sobrelevando o caráter precário dos títulos de propriedade. A posse, ou ocupação de fato da terra, pesou na definição da sua vida social e cultural, compelindo-o, freqüentemente, ao status de agregado, ou empurrando-o para as áreas despovoadas do sertão, onde o esperava o risco da destruição física ou da anomia social. A respeito desta, invoca-se quase sempre como causa a preguiça, que seria um traço fundamental do caipira e responsável pelo baixo nível da sua vida.” (p. 109)


"O caipira picando fumo", quadro de Almeida Junior (1893)

"O Violeiro", quadro de Almeida Junior, 1899




sexta-feira, 12 de maio de 2017

Prefeito de SP sanciona lei que perdoa templos irregulares


Se você quiser entender porque surgem igrejas em todas as esquinas, denominações evangélicas aos borbotões, e caso você tivesse dúvida em saber porque os evangélicos de São Paulo gostam tanto do prefeito de lá, é só ler a matéria abaixo do G1 São Paulo para entender.

"Pregar o evangelho" é, no fundo, só um pretexto para se desviar da lei, sabendo que basta apoiar um candidato "salvador da pátria" que fará qualquer coisa para te perdoar.

E os caras ainda chamam isso de "modernização"...

Eis a matéria:

Código de Obras sancionado por Doria prevê desconto de 90% em multas a igrejas

Projeto foi aprovado pela Câmara ainda na gestão Fernando Haddad e estava suspenso pela Justiça; novo texto tenta desburocratizar obras na cidade.

Márcio Pinho

Quase um ano após a aprovação pela Câmara de São Paulo, o novo Código de Obras da cidade foi sancionado pelo prefeito João Doria (PSDB) e publicado no Diário Oficial nesta quarta-feira (10). As novas regras incluem uma redução de até 90% no valor de multas a serem aplicadas caso o infrator seja um templo religioso.

A exceção não estava prevista no projeto enviado à Câmara pelo ex-prefeito Fernando Haddad (PT) em 2015, que previa desconto apenas para “moradias econômicas”. A alteração que beneficiou as igrejas, porém, foi apoiada pela base de Haddad na Câmara após pressão de vereadores ligados às igrejas evangélicas e Católica. O texto foi aprovado com 37 votos favoráveis entre os 55 possíveis.

A multa por obra que não tenha certificado de conclusão, acessibilidade e segurança pode chegar a R$ 600 por metro quadrado, segundo as novas regras. Com o desconto, os templos religiosos pagariam apenas R$ 60 por metro quadrado.

Em nota, a Prefeitura afirma que o novo Código de Obras “vai modernizar e simplificar o licenciamento de empreendimentos, reduzindo a quantidade de documentos exigidos para a aprovação de processos”. “Entre as principais mudanças estão o fato de que reformas internas, construções de piscinas e muros e obras complementares de até 30 m² não precisarão mais de licenciamento e a diminuição do número de instâncias para decisão e recurso”, diz o comunicado.

O G1 também questionou a Prefeitura sobre a redução de até 90% nas multas a igrejas, mas até a publicação desta reportagem não havia obtido resposta.

Além das multas menores, as igrejas terão o triplo do prazo de regularização válido para as demais construções. Empreendimentos “comuns” terão prazo de cinco dias para solicitar um certificado de conclusão quando a fiscalização constatar a irregularidade, enquanto as igrejas terão até 15 dias.

Mudanças

O Código de Obras foi sancionado após a Justiça suspender uma liminar que impedia a sanção da lei. Quatro vereadores alegavam que a aprovação não teve o apoio do número de legisladores necessários para esse tipo de medida.

Uma das novidades do novo Código de Obras é que fica dispensado o alvará de licenciamento para alterações com pouca relevância urbanística, como obras internas, desde que não haja relevante aumento da área.

Outra alteração foi em relação ao cálculo das infrações. Em vários casos, a multa não é um valor fixo, mas proporcional ao tamanho da área construída irregular, e não mais ao tamanho total da propriedade.

A fiscalização fica mais rígida com engenheiros e arquitetos responsáveis pelas obras. Eles também terão que pagar multas, que serão de 80% do total cobrado de donos de imóveis que cometem irregularidades.

O texto da lei na íntegra pode ser conferido no site da legislação municipal.



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