""Quão preciosa é, ó Deus, a tua benignidade! Os filhos dos homens se refugiam à sombra das tuas asas." (Salmo 36:7)
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domingo, 1 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 1

Começamos hoje uma série de postagens especiais no mês que culmina com a celebração dos 500 anos da Reforma Protestante, a ser comemorada no dia 31 de outubro de 2017, tendo como protagonista o pensamento de Martinho Lutero acerca de questões da vida e da teologia que seguem motivando os debates atuais. Bom proveito a todos!

A ORAÇÃO - PARTE I

Em verdade, em verdade eu vos digo, se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome. [João 16:23]

Cristo acabou de pregar seu sermão e disse aos discípulos o que deveriam saber. Agora, ele quer concluir, fazendo, por fim, uma exortação à oração. Ele falou-lhes longamente a respeito de muitos e grandes sofrimentos, da perseguição, do medo e da tristeza que lhes sobreviriam no mundo por causa dele e mostra-lhes tanto o conforto quanto a força que lhes permitirão lidar com isso e, também, promete-lhes ajuda para superá-lo mediante o Espírito Santo. Mas, por saber quão grande e dura é essa batalha e que a carne e o sangue são fracos demais para apreender esse consolo e não percebem com tanta força essa ajuda, sentindo, muitas vezes, que o oposto é verdadeiro – por isso, ele lhes aconselha, aqui, que recorram à oração e comecem a soluçar e a clamar a Deus, quando sentem a fraqueza que faz com que careçam de consolo, força e vigor para suportar e superar o sofrimento, o medo e a tristeza.

Falamos frequentemente da oração, de como ela é necessária e poderosa. Pois não basta que tenhamos a Palavra, saibamos e compreendamos tudo que deveríamos – tanto sobre a doutrina da fé quanto sobre o consolo e a vitória em todas as dificuldades. Requer-se algo mais, a saber, a ação, para que, subsequentemente, também vivamos como a doutrina e o conhecimento nos ensinam e nos orientam. Pois a sabedoria de Deus (isto é, a Palavra de Deus nos diz em Provérbios [8:14]: “Meu é o conselho, meu também é o executar”. Para que a doutrina seja autêntica, é necessário que Deus a revele e a outorgue; mesmo que já a tenhamos e saibamos tudo que se deveria ensinar e crer, e nada mais necessitemos, isso não significa que se tenha obtido o resultado desejado. Ainda falta muito para que pratiquemos aquilo que pregamos e aquilo para o qual exortamos.

Isso também se evidencia na vida e na atividade dos apóstolos. Veja-se como S. Pedro, João e Paulo (nos Atos dos Apóstolos), antes de terem sucesso na propagação do Evangelho, tiveram de se esforçar e batalhar em seu ministério. Pois o diabo está de prontidão com toa a força e faz o possível para impedir e obstruir o Evangelho. Ademais, ele possui a vantagem de ter como aliado, dentro de nossos próprios corações, a grande parcela de Adão que, por natureza, é preguiçosa, indolente e enfastiada demais para se engajar numa batalha como essa e sempre nos puxa para trás, tornando, assim, especialmente duro e desagradável continuar se opondo a tantos tipos de obstáculos e lutar até o fim.

O profeta Habacuque também fala disso em seu cântico, dizendo que embora os cavalos e carros de Deus sejam bem-aventurados e vitoriosos, ele marcha com eles pelo mar, pelas massas de grandes águas. A condição da cristandade é comparada a tais cavalos e veículos; aqui, animais e carros têm de passar em charcos profundos, onde há constante resistência, obstrução e atoleiro. No entanto, eles precisam passar e, como diz o profeta, ser quadrigae salutis [‘carros de salvação”, Hab 3:8], tais carros de combate e cavalos que detêm a vitória.

Por isso Cristo diz agora: “Embora esteja chegando o dia em que, de novo, os verei e vocês se alegrarão eternamente e não mais necessitarão perguntar-me coisa alguma, pois saberão tudo que devem saber sobre mim, vocês carecerão do poder de cumprir o que deveriam e gostariam de realizar, não somente por causa do diabo e do mundo, mas, também, por causa de sua própria carne”, como confessa e lamenta S. Paulo em relação a si mesmo, em Rm 7 [:18-19]: “Encontro dentro de mim [a vontade de fazer] o que eu conheço e gostaria de fazer, [isto é], o que é bom e o que me dá prazer e alegria. Sinto, porém, um outro mestre no meu corpo e nos meus membros que me freia e me torna renitente, de modo que tal [boa] ação não se realiza”. Diz, igualmente, em Gl 6 [sc. 5:17]: “O desejo da carne é contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, de modo que vocês não fazem o que querem”, etc.

Ele [Paulo] também gostaria de que tudo funcionasse adequadamente em toda parte, exatamente como nós gostaríamos de estar livres de tristeza, preocupação, impaciência e pensamentos maus; [gostaríamos] de encontrar constante consolo e alegria no Evangelho, de ver a graça e o poder do Espírito para que todos fossem íntegros, devotados ao Evangelho e agissem de acordo com seus ensinamentos. Com esse propósito, oramos, exortamos e suplicamos com toda diligência e fidelidade e fazemos tudo que está ao nosso alcance. Mas, mesmo assim, tudo acontece como pode [acontecer]. Sempre há obstrução e obstáculo; quanto mais tempo passa tanto mais eles aumentam. Que, então, devemos fazer, neste lamaçal pelo qual precisamos passar e viajar, [no qual precisamos] lutar e temer, sem, no entanto, conseguir sair dele?

“Não há outro conselho” (diz Cristo) “senão erguer imediatamente os olhos e o coração em direção ao céu e começar a orar a meu Pai Celestial. Depois que ensinaram, exortaram e fizeram tudo que seu ofício exige, e, mesmo assim, as coisas não andam e não conseguem progredir, então procurem ajuda, busquem [nova] força, ajudem-se todos uns aos outros, com gritos e exclamações, a levantar e a empurrar o carro. Pois é isso que Deus quer, isto é, que não só conheçam a doutrina e o que vocês já possuem como tendo sido dado por ele, mas também, que procurem junto a ele aquilo de que ainda necessitam e carecem, e descubram que não podem fazer coisa alguma, mas que tudo – o começar e o terminar, o querer e o realizar – deve ser buscado junto a ele e dado por ele”, como [diz] S. Paulo [Fp 2:13], etc.

É aqui que começa, realmente, a batalha contra o abominável diabo que, da mesma maneira como ele resiste em toda parte a Cristo e ficaria contente se o Evangelho não fosse ouvido em lugar algum, e não se cresse nele ou que não se constituísse um guia para a vida e a conduta, assim, ele também impede essa ação, fazendo com que não se goste de orar e dificilmente se recorra à oração. Pois ele, igualmente, tem plena consciência da força e da eficácia da oração bem como de que os cristãos não possuem defesa maior e mais forte contra todo o poder dele. Não estou falando, agora, daqueles que não são cristãos, pois a única maneira que esses têm de orar é tagarelar e grasnar o saltério, que mais parece um bando de gansos comendo aveia. Estou dizendo, isso sim, que é excessivamente difícil para cristãos e crentes orar de forma adequada. Foi por isso que alguns dos antigos Pais disseram que nenhum trabalho na terra é tão penoso quanto orar apropriadamente.

Embora o ministério da pregação também seja duro e acarrete muita dificuldade e preocupação, ele tem a grande vantagem de fazer com que eu, apesar de não ter capacidade nem ser digno de pregar, tenha coragem de pegar o Livro e, em nome de Deus dizer a meu próximo: “Meu caro amigo, está escrito aqui. Estás escutando a Palavra de Deus, não a minha; tua própria salvação e bem-aventurança estão em jogo, não a minha”. Tendo dito isso, fiz o meu dever; a responsabilidade de aceitar ou não aquilo que lhe digo é dele. Mas quando devo falar e orar a Deus por mim mesmo, logo se apresentam cem mil obstáculos antes que eu possa começar. O diabo é capaz de colocar todo tipo de motivos no caminho e pode me criar caminho e não penso mais na oração. Tente fazê-lo aquele que jamais o experimentou. Decide-te seriamente a orar e verás como pensamentos, os mais diferentes possíveis, te assaltarão para que te distraias e não possas começar a orar adequadamente.

Se falarmos aqui tão-somente dos obstáculos maiores e principais, o primeiro impedimento é pensarmos, inspirados pelo diabo: “Ah, tu, agora, ainda não estás pronto para orar! Espera uma meia hora ou um dia até que estejas mais preparado ou até que tenhas realizados antes isso ou aquilo”. Entrementes, aparece o diabo e te distrai naquela meia hora, de modo que durante o dia todo não mais pensas em orar. Dia após dia, ele te mantém ocupado com outros negócios e impede [que ores]. Esse também é, praticamente, o obstáculo mais comum, constituindo uma perfídia e um ardil extremamente perniciosos do diabo (que ele, muitas vezes, tenta comigo e com outros). Ademais, nossa carne e nosso sangue que, em si, já são negligentes e frios, dão-lhe uma vantagem e nos impedem de orar como nós mesmos gostaríamos. Embora possamos estar prestes a começar [a orar], mas logo desistimos [porque somos desviados por] pensamentos estranhos e inúteis, de modo que deixamos a oração de lado.

Em segundo lugar, também se insinuam, naturalmente, pensamentos como estes: “Como podes orar a Deus e dizer ‘Pai nosso’? És indigno demais e vives diariamente em pecado. Espera até que te tornes mais piedoso, tenhas ido à confissão e ao Sacramento, até que não somente estejas disposto e preparado para orar, mas também sintas um desejo ardente para orar e, assim, possas te dirigir a Deus com confiança e dizer ‘Pai nosso’ de todo teu coração”. Esse é o verdadeiro e grave obstáculo, por excelência, com que o coração precisa lutar e sob o qual precisa se contorcer até que tenha removido a grande pedra e possa apresentar-se diante de Deus e invoca-lo a despeito de se sentir indigno. Cada qual tente isso e me diga como é fácil para ele espantar esses pensamentos e dizer com toda a sinceridade: “Meu amado Pai celeste!”, etc.

Na comunidade e em grandes grupos, é um pouco mais fácil [orar], pois nos reunimos todos e dizemos “Pai nosso”. Mas não é tão fácil quando estamos sozinho e cada qual deve orar por si mesmo, quando nosso coração nos diz o contrário e o diabo atiça estes pensamentos e os transforma numa labareda: “És uma pessoa infame e não mereces viver. Portanto, como ousas apresentar-te diante de Deus e chama-lo de Pai?” Por isso, é extraordinariamente difícil e a maior de todas as artes orar de maneira correta, não por causa das palavras ou da boca, mas para o coração poder chegar a uma conclusão certa e firme e apresentar-se diante de Deus com toda a confiança e dizer: “Pai nosso”. Pois aquele que pode alcançar um pouco de tal confiança na graça já passou pelo pior e já colocou a primeira pedra para [começar a] orar. Depois, tudo anda como deve.

Em terceiro lugar, o diabo aplica um golpe adicional visando a inutilizar tua oração por meio de pensamentos como estes: “Meu caro, por que estás orando? Escuta como tudo está quieto em tua volta. Achas que Deus escuta e leva em consideração aquilo que oras?”, despertando em ti a dúvida, para que desprezes tua oração e a deixes de lado, e jamais descubras o que é aa oração e do que ela é capaz. Experimentei o que isso significa e também o observei em outros, sobretudo em S. Bernardo, que admoestou muito diligentemente os seus [ouvintes] para que não fossem à Igreja orar com tal dúvida, sem a certeza de que Deus leva em consideração e escuta a oração deles. Pois, verdadeiramente, não se deve zombar de Deus dirigindo-se a dele como as palavras “amado Pai celeste” sem crer que ele seja isso.

Por isso (como eu disse e o próprio Cristo indica aqui), para resistir a todas as insinuações do diabo e a nossos próprios pensamentos, é necessário lutar energicamente contra [a voz d]o coração e dizer: “Diabo nojento, se é isso que queres, leva um patife malfeitor, não a mim! Se não estou suficientemente preparado e disposto e se não sou piedoso que chega neste momento ou hoje, muito menos estarei preparado em meia hora ou em uma semana. Colocando de lado, pois, essa falta de preparação, vou orar, entrementes, um Pai nosso antes que eu me torne ainda menos preparado”. Acostuma-te, pois, a orar cada noite, ao ires para a cama, antes de dormir, o Pai nosso, e, de novo, ora antes de fazer qualquer outra coisa. Dessa maneira, de surpresa e sem aviso, antecipas-te ao diabo, não importa se estás preparado ou não, antes que ele te surpreenda e faça com que proteles [a oração]. Porque é melhor que ores agora, quando estás meio preparado, do que mais tarde, quando não estás preparado em absoluto, e que comeces a orar apenas para desgosto e aborrecimento do diabo, mesmo que consideres a oração algo muito difícil e que penses não estar, de forma alguma, preparado para ela.

(para ler a parte 2 clique aqui)

(Martinho Lutero, “Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado”, 1537/1538, tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer, in MARTINHO LUTERO, Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre; Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 401-406)



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Americano rouba US$ 7 bi porque "Jesus queria que ele ficasse rico"

Já publicamos vários artigos comentando sobre esta estranha predominância do "pensamento mágico" no meio evangélico brasileiro, importado em larga escala dos EUA, discurso que é filho bastardo da "teologia da prosperidade" importada de lá e ao qual damos o nome de "triunfalismo" e abordamos por vários ângulos, como em:

As jumentinhas de Balaão (agosto de 2009)

O conto do bilhete premiado (agosto de 2009)


Pirlimpimpim gospel (julho de 2010)

Sentimentalismo gospel (fevereiro de 2011)


Crendices quânticas (setembro de 2013)


Agora chega dos Estados Unidos uma notícia publicada no UOL Tabloide que dá uma ideia de até onde esse delírio pode chegar:

Homem diz que roubou US$ 7 bilhões porque Jesus quer que ele fique rico

Um norte-americano acusado de ter acumulado US$ 7 bilhões (cerca de R$ 21,8 bilhões) em transferências fraudulentas afirmou, em audiência na Justiça, que só roubou o dinheiro porque Jesus queria que ele ficasse rico.

John Michael Haskew, morador de Lakeland, na Flórida (EUA), foi preso em dezembro do ano passado depois de ter feito transferências bancárias fraudulentas de uma "renomada instituição financeira" para sua própria conta.

Haskew precisava de dinheiro para pagar uma dívida com o governo federal. O americano usou um esquema para fazer mais de 70 transferências que acumularam um total de US$ 7 bilhões.

Segundo os investigadores da polícia, Haskew afirmou que acreditava que merecia o dinheiro porque "Jesus quer que todos sejam ricos". O fraudador disse que com o esquema criminoso iria conseguir "obter a riqueza que Jesus criou para ele e que pertencia a ele".

Apesar de toda sua "fé", Haskew pode ser condenado a até cinco anos de prisão e terá de pagar uma multa de até US$ 250 mil (cerca de R$ 780 mil).



sábado, 5 de dezembro de 2009

Os "ais" de Habacuque e o triunfalismo "evangélico"



O discurso triunfalista de muitos pregadores “evangélicos” atuais, em que se pinçam promessas vitoriosas da Bíblia, mal consegue disfarçar o raciocínio raso e fora de contexto, que apresenta à plateia uma religião, digamos, “floreada”, em que a reza de alguns mantras supostamente cristãos consegue resolver magicamente todos os problemas imediatos do ouvinte, deixando-o, entretanto, pobre e nu quanto à verdadeira sabedoria de Deus expressa em Sua Palavra.

A Bíblia considerada como um todo, e o livro do profeta Habacuque em particular, não se prestam a esses devaneios esquizofrênicos, de quem alega pregar sobre o Eterno mas insiste em se deter no provisório e temporal. 

Pouco se prega, e menos ainda se conhece, sobre o livro de Habacuque, e geralmente quando isso acontece, se limita a dois textos básicos: o de que “o justo viverá pela fé” (2:4), base da teologia da justificação de Paulo em Romanos (e não a confissão positiva atual, do “tudo posso”, “tomo posse” e “determino”), e o belíssimo hino final, “ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco e nos currais não haja gado, todavia eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação” (4:17-18), trecho ignorado pelos “apóstolos” da teologia da prosperidade.

Mais escondidos ainda ficam os 5 “ais” do capítulo 2 de Habacuque, uma gigantesca exortação - do próprio Deus - a que o crente viva uma vida digna, piedosa e honesta e se afaste dos terríveis pecados da presunção, da soberba e da ganância que - entre tantas outras mazelas - maculam a humanidade. 

É difícil - atualmente - encontrar alguém que tenha ouvido uma pregação sobre os “ais” nas igrejas evangélicas, embora eles continuem reverberando nas consciências de todos, como um grito surdo que - lamentavelmente - quase não consegue se fazer ouvir. 

Daí a importância de “ressuscitá-los” da letra morta das Bíblias empoeiradas (ou da coletânea de versículos triunfalistas recitados e manipulados) e torná-los incandescentes na memória viva do povo de Deus.

O primeiro “ai” de Habacuque ataca frontalmente o pensamento mágico de muitos falsos profetas de hoje, que pregam uma espécie de evangelho do abracadabra, do enriquecimento ilícito e sem causa: “Ai daquele que acumula o que não é seu! (até quando?) e daquele que se carrega a si mesmo de penhores!” (2:6 – Almeida Revista e Atualizada). A Nova Versão Internacional (NVI) traduz: “Ai daquele que amontoa bens roubados e enriquece mediante extorsão”. 

O segundo “ai” complementa o sentido do primeiro: “Ai daquele que adquire para a sua casa lucros criminosos, para por o seu ninho no alto, a fim de se livrar das garras da calamidade!” (2:9 – ARA). A Bíblia do Peregrino (BP) verte como “Ai de quem ajunta em casa ganhos injustos, e aninha muito alto para se livrar da desgraça”. 

O terceiro, na tradução da BP, parece cair como uma luva para o Brasil de 2009: “ai de quem constrói a cidade com sangue e alicerça no crime a capital!” (2:12). 

O quarto: “Ai daquele que dá de beber ao seu próximo, adicionando à bebida o seu furor, e que o embebeda para ver a sua nudez!” (2:15). 

Pode parecer que aqui se trata de alguma conotação sexual, mas o sentido original se refere àqueles que se valem de todo tipo de artimanhas para levar o próximo à miséria e à nudez, ou seja, para espoliá-lo (do latim spoliare – roubar, defraudar, tirar a roupa). 

A Bíblia de Jerusalém chega mais perto do significado ao traduzir por “ai daquele que faz beber seu vizinho! Tu misturas seu veneno até embriagá-lo, para ver a sua nudez!”. 

Por fim - o quinto "ai" -, o Senhor finaliza com “Ai daquele que diz ao pau: Acorda; e à pedra muda: Desperta! Pode isso ensinar? Eis que está coberto de ouro e de prata, e dentro dele não há espírito algum” (2:19 – ARA). 

Mais do que uma condenação veemente à vã idolatria do dinheiro e metais preciosos, temos aqui um grave alerta para que não se tire de Deus a glória que lhE é devida, e não se busque em ídolos de qualquer a espécie a dependência e a satisfação cuja única fonte deve ser tributada ao Senhor.

Vemos, portanto, que Deus condena, por intermédio de Seu profeta Habacuque, os lucros auferidos com o crime, o engano, a dissimulação e a extorsão (não só a que apela para a chantagem e as armas, mas também para as emoções). 

Não é da vontade do Senhor que Seus filhos enriqueçam ilegitimamente, a qualquer custo, mediante atos, oferendas, campanhas e pensamentos mágicos de qualquer espécie, por mais “positivos” que aleguem ser. 

Muito menos ainda que se beneficiem da corrupção e ainda tenham a cara-de-pau de "orarem" agradecendo pelo "lucro" obtido. 

O pernicioso discurso triunfalista de muitos “evangélicos” brasileiros esbarra na simples constatação de que Deus é um Deus justo e gracioso, que não negocia com o ser humano na base de mantras coletivamente ensaiados com o fim de “comprar” o Seu favor. 

A verdadeira fonte de lucro do cristão, na visão de Paulo, é outra totalmente diferente: 
“Se alguém ensina alguma doutrina diversa, e não se conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo, e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, injúrias, suspeitas maliciosas, disputas de homens corruptos de entendimento, e privados da verdade, cuidando que a piedade é fonte de lucro; e, de fato, é grande fonte de lucro a piedade com o contentamento. Porque nada trouxemos para este mundo, e nada podemos daqui levar; tendo, porém, alimento e vestuário, estaremos com isso contentes. Mas os que querem tornar-se ricos caem em tentação e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, as quais submergem os homens na ruína e na perdição. Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores. Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão” (1ª Timóteo 6:3-11).

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O evangelho de Lucas - parte 23

O capítulo 16 de Lucas segue relatando duas parábolas muito importantes contadas por Jesus, a do administrador infiel e a do rico e Lázaro, que também são exclusivas deste evangelho, não aparecendo em nenhum outro. São parábolas que geram uma certa polêmica quanto à sua interpretação, mas que devem ser entendidas no contexto em que estão inseridas, ou seja, Jesus estava na presença de fariseus e escribas que o criticavam por receber e comer com publicanos e pecadores (Lucas 15:1). Todos eles o ouviam, e todas essas parábolas são relatadas neste contexto. O capítulo 16 fala basicamente sobre o bom e o mau uso do dinheiro. A parábola imediatamente anterior, a do filho pródigo (15:11-31), não deixa de ter um fundo com este tema, ainda que sua preocupação central seja outra, mais espiritual. A parábola do administrador infiel é dirigida aos discípulos (16:1), e é também conhecida como a parábola do mordomo infiel. Tendo em vista a conotação negativa que a palavra "mordomia" assumiu na sociedade brasileira, em função dos privilégios e do nepotismo de muitos governantes, hoje se prefere falar em "administrador", para que a idéia fique mais clara, mas muitas igrejas ainda utilizam o termo "mordomia" para referir-se ao serviço que todo discípulo de Cristo deve ter em relação ao seu Senhor. Já a parábola do homem rico e de Lázaro (vv. 19-31) é dirigida, prioritariamente, aos fariseus, como o próprio contexto indica (vv. 14-18). Examinemo-las mais de perto.


A parábola do administrador infiel (vv. 1-13) tem a sua interpretação dificultada pelo fato de não termos a noção exata do que representava, naquela época, a utilização de um administrador para dirigir os negócios de uma pessoa rica. Ainda hoje, este recurso é muito utilizado, com os mesmos problemas inerentes à má administração, mas na sociedade judaica daquela época era comum que um homem rico entregasse a direção dos seus negócios a um administrador de confiança. Ocorre que, na parábola contada por Jesus, este foi denunciado como mau gestor da fortuna alheia (v. 1), pelo que o homem rico o convocou para que prestasse contas. "Prestação de contas" é até hoje o nome técnico para definir essa situação jurídica, havendo inclusive um tipo especial de ação cível assim denominada. Se alguém se recusa a prestar contas da sua administração voluntariamente, poderá ser forçado judicialmente a fazê-lo. No caso bíblico, o homem rico exigiu-a com a maior rapidez o administrador teve pouco tempo pra pensar (v. 2). De imediato, descartou mendigar e trabalhar a terra (v. 3), serviço que ele julgava humilhante para quem, até então, tinha uma alta posição e gozava de considerável reputação na sociedade em que estava inserido. Ele queria minimizar o prejuízo, queria, pelo menos, continuar sendo recebido pelas pessoas de suas relações (v. 4) e, para tanto, arquitetou um plano (v. 5) em que ele perguntava a cada credor quanto eles deviam e fazia um desconto. Deve-se ter em mente que esta era uma prática comum entre alguns judeus de mais posses. Afinal, a lei, esta velha conhecida de quem é desonesto e hipócrita, existe para ser burlada. A lei proibia a usura, ou seja, cobrar juros (Ex 22:25, Lev 25:36-37, Deut 23:19-20). A artimanha usada para contornar esta proibição era registrar um número bem maior do que devia ser pago, em relação ao que havia sido efetivamente emprestado ou vendido a prazo. Assim, como relata a parábola, é muito provável que o que havia sido negociado era cinqüenta cados de azeite (ou algo menos), mas o escrito de dívida registrava cem cados (vv. 5-6). O mesmo fez o administrador infiel com a conta de cem coros de trigo, pela qual aceitou oitenta (vv. 7-8). O seu senhor elogiou a astúcia do administrador infiel (v. 8), pois, segundo o rigor da lei judaica, não havia sido defraudado em nada, embora, obviamente, se pudesse alegar que tinha tido, sim, prejuízo, pelo fato do administrador não seguir os costumes hipócritas locais. Entretanto, o senhor não poderia cobrar a dívida em juízo do administrador, já que ao fazer isto admitiria que patrocinava, ou pelo menos concordava com o descumprimento da lei. É nesse contexto que Jesus aconselha que "das riquezas de origem iníqua fazei amigos, para que, quando aquelas vos faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos" (v. 9).


Aqui é que está o problema, aparentemente insolúvel, de interpretação da parábola. Estaria Jesus aconselhando a se aproveitar das riquezas ilícitas? Não contrariaria esse suposto ensinamento de Cristo, expressamente, a própria Palavra de Deus que o Mestre tanto prezava? Afinal, um dos "ais" de Habacuque é justamente quanto a esta questão: "Ai daquele que ajunta em sua casa bens mal adquiridos, par por em lugar alto o seu ninho, a fim de livrar-se das garras do mal!" (Habacuque 2:9). A questão, talvez, seja um pouco mais profunda do que parece. Será que existe alguma riqueza, no mundo, seja a da pessoa aparentemente mais honesta e trabalhadora, que não guarde no seu início, ou em um dos elos da cadeia sócio-econômica que a gerou, algum fato ilícito, por mínimo que seja? Em suma: toda e qualquer fonte de riqueza deste mundo não deve estar centrada em Deus, e ser exercida em seu louvor e honra? O homem iníquo, que repudia a Deus, ao que tudo indica, não é o objeto, o destinatário desta parábola. É aos seus discípulos que Jesus se dirige, ensinando-os algo que o Salomão já dizia, e que Paulo retomaria como mensagem central da carta aos Romanos (em conexão com o próprio Habacuque): "Não há homem justo sobre a terra que faça o bem e que não peque" (Ecl 7:20) e "Não há um justo, nem um sequer" (Romanos 3:10), ao qual Paulo ligaria Habacuque 2:4 – "o justo viverá por fé" (Romanos 1:16). Retomando o significado da parábola, portanto, o que Jesus está ensinando aqui é o desapego ao dinheiro, a não servir dois senhores, Deus e as riquezas (o deus Mamon – v. 13), não no sentido de ser perdulário e dissoluto como o filho pródigo da parábola anterior, mas com o propósito de fazer o bem aos outros, pois, a rigor, nenhum de nós é imune aos erros, aos problemas e à injustiça que o dinheiro traz intrinsecamente consigo. Logo, façamos amigos com os poucos ou muitos recursos que tivermos. Há um perigo aqui, entretanto, de se confundir esta atitude com algum tipo de boas obras através das quais mereçamos o favor de Deus. Comentando sobre essa parábola, Calvino ensina:



Além disso, a Escritura tem também uma terceira regra pela qual regula o uso das coisas terrenas, acerca da qual dissemos algo quando tratávamos dos preceitos da caridade. Pois declara-se que todas elas nos foram assim outorgadas pela benignidade de Deus e destinadas ao nosso proveito, para que sejam como que depósitos dos quais um dia se haja de prestar conta. Portanto, assim importa administrá-las para que aos ouvidos nos soe constantemente esta ordem: "Dá conta de tua mordomia" [Lc 16.2]. Ao mesmo tempo, deve ocorrer-nos por quem é exigida essa prestação de contas. Deveras é por aquele que, como tanto recomendou a abstinência, a sobriedade, a frugalidade, a moderação, também abomina o luxo, a soberba, a ostentação, a vaidade; a quem não é aprovada outra gestão de bens senão aquela que esteja associada com a caridade; que já de sua boca condenou todos e quaisquer deleites que afastem o coração do homem da castidade e da pureza ou embotam sua mente de trevas.

(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 3, p. 195)


Mas a Escritura nos humilha ainda mais e, no entanto, ao mesmo tempo, também nos exalta. Ora, além de vedar que se glorie nas obras, visto que são dádivas graciosas de Deus, concomitantemente ensina que elas estão sempre sujas de certas poluições; de sorte que, se forem examinadas de conformidade com o padrão de seu juízo, não podem satisfazer a Deus. Mas, para que não nos desfaleça o bom ânimo, a mesma Escritura declara também que elas são agradáveis a Deus, porque ele as apóia. Mas ainda que um pouco diferentemente de nós fala Agostinho, contudo, em substância se verificará que suas palavras não se desafinam das de Bonifácio, o qual, depois de comparar entre si dois homens, supondo que um fosse de vida mui santa e perfeita, e que o outro, também de vida boa e honesta, porém não tão perfeito como o outro, por fim conclui que o que parece não ser tão perfeito como o outro, pela retidão de sua fé em Deus pela qual vive e segundo a qual se acusa de todos seus pecados, louva a Deus em todas suas obras boas, atribuindo-se a si mesmo a ignomínia e a Deus, a honra, e recebendo dele a remissão dos pecados, e o anseio de fazer bem suas obras, quando chega a hora de deixar esta vida será recebido em companhia de Cristo. Por quê, senão graças à fé, a qual, embora a ninguém salva sem as obras (pois ela é uma fé não réproba, que opera por amor), entretanto, por meio dela os pecados são também perdoados, pois que o justo vive da fé, mas sem elas as obras que parecem boas a pecados se convertem? Aqui, sem dúvida, ele está a confessar, não obscuramente, o que tanto temos discutido: que a justiça das boas obras depende e procede do fato de que Deus as aprova por fazer uso de sua misericórdia e de perdoar as falhas que há nelas.

6. AS PASSAGENS BÍBLICAS QUE FALAM DE RIQUEZA OU TESOUROS NOS CÉUS NÃO COMPROVAM O MÉRITO ÀS OBRAS

Há outras passagens quase semelhantes às que acabamos de expor, a saber: "Granjeai amigos com as riquezas da injustiça; ara que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos"; "Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas usufruirmos; que façam bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente, e sejam comunicáveis; que entesourem para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a vida eterna" [1 Tm 6.17-19]. Ora, as boas obras estão sendo comparadas com as riquezas que haveremos de usufruir na bem-aventurança da vida eterna.

(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 3, pp. 295-296)
No seu comentário a 1 Timóteo, Lutero segue esta mesma linha de pensamento:
Desse modo, quanto mais formos favorecidos com riquezas, tanto mais será necessário, para todos nós, algum defeito pelo qual nos tornemos humildes. Em segundo lugar, os ricos confiam nas riquezas. Ora, Deus quer que eles transformem os outros em pessoas ricas. As suas riquezas são sombras e sinais das verdadeiras riquezas. Se querem ser salvos, empenhem-se para que sejam "ricos em boas obras". "Que pratiquem o bem". [O apóstolo] não diz, apenas, que devem praticar boas obras, mas que devem fazê-lo em abundância, pois está ao alcance de suas mãos a capacidade de vestir os pobres e dar de beber aos que têm sede. Isso porque "a quem mais foi dado, dele mais será pedido" [Lc 12:48]. Que não façam, apenas, o bem, mas que o façam em maior profusão do que os outros, a fim de que não sejam ricos em ouro e prata, mas, sim, em boas obras. "Que repartam com presteza". Aqui ele fala de um ponto de vista específico ou de acordo com a "espécie", ao passo que, acima, falara em geral, ou de acordo com o "gênero" fazer boas obras. Que tenham presteza em partilhar. "[Que sejam] generosos". São "pessoas que repartem" com aqueles que passam necessidade e que se comportam com benevolência e disposição para compartilhar, de sorte que as pessoas possam obter algum benefício de sua parte. Assim como as coisas ou a caixa comum está disponível ao uso de todos os irmãos, o mesmo se dá com o rico. É difícil repartir, ser magnânimo. "Coinônico" (de koinonicosgeneroso – em contraposição a canônico - canonicus), pelo contrário, é que se gostaria de ser! "Que acumule tesouros" [6.19]. Isto explica a frase "nem depositem a sua esperança na incerteza [da riqueza]", etc. [1 Tm 6.17], pois é isso o que fazem os ricos. Aqui, porém, eles procuram um "fundamento" fiel, que dura para sempre. O mesmo diz Cristo: [Lucas 16.9]: "Fazei, para vós, amigos a partir da idolatria da riqueza" [Lc 16.9]. "Dai esmola e eis que tudo [vos será limpo]" [Lc 11.41]. Os ricos devem observar isso diante dos outros, daqueles que são atribulados pela penúria.

(Martinho Lutero, "Apontamentos do Dr. M.[artinho] à Primeira Epístola a Timóteo", in Obras Selecionadas Interpretação do Novo Testamento – Mateus 5-7 – 1 Coríntios 15 – 1 Timóteo, Eds. Sinodal/Ulbra/Concórdia, 2005, vol. 9, p. 594)
É desta maneira, portanto, que os reformadores também entendiam esta parábola, no uso das riquezas para a caridade, fazer amigos, não como um requisito essencial da salvação, mas como um sinal de que o crente, efetivamente, entendeu e vive o que significa ser salvo. Infelizmente, hoje em dia, muitas igrejas evangélicas do Brasil vivem uma realidade completamente diferente, em que o que importa é ajuntar riquezas, e não reparti-las, o que não deixa de ser lamentável (para dizer o mínimo). Para muitos pregadores brasileiros, para ser fiel no pouco, precisa ser fiel no muito, de preferência administrado por eles. Jesus inverte esta lógica ao finalizar esta parábola, comentando que "quem é fiel no pouco também é fiel no muito" (v. 10). A "verdadeira riqueza" é a salvação em Cristo, o verdadeiro tesouro celestial (v. 11), mas se somos infiéis na aplicação das riquezas alheias, como nos apresentaremos diante de Deus (v. 12)? Responda quem quiser.... ou puder....

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