Mostrando postagens com marcador pentecostalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pentecostalismo. Mostrar todas as postagens

sábado, 23 de dezembro de 2017

Quem são as mulheres católicas e evangélicas que lutam pelo direito ao aborto?


Matéria extensa publicada na BBC Brasil:

Os argumentos das católicas brasileiras que há 25 anos defendem o aborto

Camilla Veras Mota

O Papa Francisco não chega a comover. Elas não vão à missa aos domingos, defendem o Estado laico, a contracepção, o casamento gay e, há quase 25 anos, o aborto.

O mais antigo movimento no Brasil de católicas que pregam os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres nasceu entre um grupo de jovens que se inquietavam com questões que não ecoavam na Igreja, ainda no início dos anos 90.

"Nós falávamos dos pobres, mas não olhávamos para as mulheres", diz Regina Soares Jurkewicz, coordenadora do Católicas pelo Direito de Decidir (CDD), referindo-se à Teologia da Libertação, corrente progressista que norteava a atuação das pastorais sociais das quais ela, a professora da PUC-SP Maria José Rosado-Nunes e a teóloga Luiza Tomita, também fundadoras, faziam parte nos anos 80.

Em 1993, elas conheceram a médica uruguaia Cristina Grela - hoje parte da equipe do Ministério da Saúde do Uruguai, único país da América do Sul onde o aborto foi totalmente legalizado, em 2012, até a 12ª semana de gestação - em alguns casos, esse limite é maior.

Naquela época a ativista era integrante do grupo americano Catholics For Choice - que completa 45 anos em 2018 - e fazia um périplo pelo continente na tentativa de organizar um movimento semelhante na região. Além do Brasil, há "Católicas por el Derecho a Decidir" em outros dez países latinoamericanos.

Depois de um evento na Igreja do Carmo, em São Paulo, o movimento foi lançado no dia 8 de março daquele ano. Está presente hoje em 14 Estados e atua em duas frentes - a educativa, com a produção de material didático para o ensino da religião e a realização de seminários para formação de multiplicadoras, e política, organizando debates, marchas e idas a Brasília.

Em uma de suas campanhas mais recentes, o CDD foi às ruas em novembro para protestar contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 181, que pode criminalizar o aborto mesmo nos casos em que ele hoje é permitido, como em gestações resultantes de estupro.

Entre seus membros, leigos e religiosos, está a freira feminista Ivone Gebara, punida pelo Vaticano em 1995 por defender publicamente em uma entrevista a descriminalização e a legalização do aborto.

Na época à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Joseph Ratzinger - que anos depois se tornaria o papa Bento 16 - determinou que ela voltasse à Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, onde obteve seu doutorado, para passar dois anos reclusa, em "reeducação teológica".

Por não estar ligado à estrutura da Igreja, contudo, o movimento em si está fora dos limites de repreensão da hierarquia católica. As perseguições também não são frequentes, diz Jurkewicz.

O que há são questões pontuais como a de Gebara e a que ela mesmo enfrentou quando publicou seu doutorado. Logo após a apresentação do trabalho, que reunia 21 casos de abuso sexual de mulheres por padres, a assistente social foi demitida da universidade em que lecionava, ligada à diocese de Santo André.

O antagonismo mais organizado vem de setores conservadores da religião, de instituições como Arautos do Evangelho e Opus Dei.

As "ameaças", dizem, chegam geralmente por email ou pelas redes sociais. "São mensagens dizendo que a gente vai para o inferno, essas coisas. Nada grave."

O aborto sempre foi considerado pecado?

Para defender o aborto dentro da lógica religiosa, as ativistas argumentam que o início da vida sempre foi um ponto de divergência dentro da fé católica.

Nos primeiros séculos do cristianismo, exemplifica Jurkewicz, houve Santo Agostinho, que condenava o controle de natalidade e o aborto por romperem a conexão entre ato conjugal e procriação, mas que afirmava que ele não era um ato de homicídio.

Seus escritos a respeito do Êxodo diziam, sobre o feto, que "não existe alma viva em um corpo que carece de sensações". Ele nunca chegou a uma conclusão sobre o momento em que a vida começava.

Já o teólogo Tertuliano defendia em 160 que a concepção era o início de tudo e, por isso, condenava a prática.

"Não é um dogma de fé, é uma questão disciplinar", diz ela, acrescentando que nos cadernos penitenciais da Igreja na Idade Média o aborto era colocado entre outros pecados sexuais.

Os Cânones Irlandeses de 675, por exemplo, previam 14 anos a pão e água para aquele que tivesse relação sexual com a vizinha e três anos e meio para quem destruísse um embrião no ventre.

O tema passou a ser oficialmente condenado pela Igreja apenas em 1869, a partir de um boletim do papa Pio 9.

A posição da Igreja hoje e o papa Francisco

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em sua nota "Pela vida, contra o aborto", de abril deste ano, afirma que "a tradição judaico-cristã defende incondicionalmente a vida humana".

O texto defende a "integralidade, inviolabilidade e a dignidade da vida humana desde a sua concepção até a morte natural" e condena "todas e quaisquer iniciativas que pretendam legalizar o aborto no Brasil".

"A posição sempre foi a mesma: defender e cuidar da vida humana desde a sua concepção. A vida humana é preciosa demais para ser eliminada ou descartada", diz o bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, em nota enviada à BBC Brasil.

O papa Francisco manteve o entendimento que herdou dos antecessores, apesar de ter autorizado, em novembro do ano passado, que padres pudessem perdoar o aborto - prerrogativa que antes era restrita a bispos ou confidentes especiais da Igreja.

"A ideia (por trás da iniciativa do Papa Francisco) é mais de compaixão, de perdão. A Igreja não trabalha com direitos (para as mulheres)", diferencia Jurkewicz.

As ativistas do CDD são críticas em relação ao papel do feminino na Igreja Católica, que limitaria "os espaços de poder e saber" aos homens.

"A posição oficial guarda a tradição da mulher como mãe, está carregada de atributos de gênero. Mesmo as freiras são vistas como 'mães espirituais'", ressalta.

São Tomás de Aquino

O princípio do "recurso à consciência" é outro argumento usado pelas ativistas para defender suas bandeiras e o primeiro destacado pelo movimento do qual se originou o CDD, o americano Catholics for Choice (CFC).

A ideia é que cada católico tome decisões guiadas pelo pensamento individual, ponderando o efeito de suas ações sobre si e sobre o próximo, e que respeite o arbítrio do outro.

"São Tomás de Aquino afirmava que nossa consciência não é um atributo das instituições", diz Amanda Ussak, diretora do programa internacional do CFC.

A organização surgiu nos Estados Unidos em 1973, ano em o aborto foi legalizado no país após decisão da Suprema Corte no emblemático caso Roe v. Wade.

Prevendo uma onda de reações contrárias de instituições religiosas, um grupo de católicas decidiu se reunir e se contrapor às pressões por recuos. Uma década depois, o movimento deu início à sua expansão internacional.

A iniciativa, afirma Ussak, veio da percepção de que criminalização do aborto prejudicava especialmente as mulheres pobres, grupo que ainda hoje registra o maior número de mortes por complicações em procedimentos feitos em clínicas clandestinas.

Hoje a organização atua também na Europa e na África, dando treinamento às organizações para comunicar as campanhas e apoio às iniciativas para mudar as leis locais.

Um exemplo recente de atuação nesse sentido aconteceu no Chile, onde o Congresso aprovou, em agosto, a descriminalização em caso de risco de vida da mulher, inviabilidade fetal e estupro. Até então, qualquer tipo de aborto era proibido.

Na Argentina, o Católicas por el Derecho a Decidir (CDD) participou das discussões que culminaram, em 2006, na Lei de Educação Sexual Integral - semelhante à educação de gênero hoje debatida no Brasil -, na Lei para Prevenir e Erradicar a Violência contra a Mulher, de 2009, e a Lei de Identidade de Gênero, de 2012, que permitiu que travestis e transexuais escolhessem o sexo no registro civil.

"Nos falta ainda a legalização do aborto", afirma Victoria Tesoriero, uma das coordenadoras do movimento argentino.



As evangélicas

Hoje há iniciativas semelhantes às ONGs católicas entre mulheres pentecostais e neopentecostais. O Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG), por exemplo, nasceu em 2015 voltado especialmente para a questão da violência contra a mulher.

"Eu nasci nas Assembleias de Deus, no movimento pentecostal, e durante muito tempo testemunhei todo tipo de violência, institucional, simbólica, assédio", conta Valéria Vilhena, uma das fundadoras da rede, que hoje soma 3 mil mulheres.

Em sua tese de mestrado, feita na Universidade Metodista, onde dá aulas hoje, ela mergulhou no cotidiano de uma casa de acolhimento para vítimas de violência doméstica em São Paulo e verificou que 40% das atendidas eram evangélicas.

O aborto, para ela, entra na problemática da negação de direitos às mulheres e da violência. A posição pública a favor, contudo, veio apenas neste ano, em reação à PEC 181.

"Não estamos trabalhando a questão da legalização a partir da Bíblia porque nós queremos desvinculá-la da questão religiosa. É uma questão de saúde pública", destaca. "A questão é essa: mulheres morrem", emenda.



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 26


SOBRE OS PREGADORES ITINERANTES E CLANDESTINOS - PARTE 4

(este texto é continuação do anterior, que pode ser lido clicando aqui)

Resumindo: São Paulo não tolera a petulância e insolência de alguém intrometer-se em algum ministério alheio; cada qual observe a ordem e o ofício recebido e se dedique a ele, deixando intacto e em paz o ofício do outro. No mais, pode instruir-se, ensinar, cantar, ler, explicar a não querer mais, desde que tenha o direito e autorização para isso. Se Deus quiser fazer algo especial, fora e acima dessa ordem dos ministérios e da vocação, e suscitar alguém que esteja acima dos profetas, ele o demonstrará com sinais e feitos, como falou através da jumenta e repreendeu os profetas de Baal, seu senhor. Quando não fizer isso, queremos ater-nos aos ministérios e mandatos instituídos. Se [seus titulares] não ensinarem corretamente, que tens tu a ver com isso? Tu não precisas prestar contas disso.

Por essa razão, São Paulo usa mais vezes o termo “comunidade” neste capítulo, fazendo certa distinção entre os profetas e o povo. Os profetas falam, a comunidade ouve. Pois diz: “Quem profetiza edifica a comunidade” [1 Co 14.4], e mais abaixo: “Procurai edificar a comunidade, para que tenhais plena suficiência” [v. 12]. Quem são esses que devem edificar a comunidade? Acaso não são os profetas e (na expressão dele) os que falam em línguas, isto é, os que leem e cantam o texto, enquanto a comunidade ouve? São os profetas que devem explicar o texto para a edificação a comunidade? Ora, está suficientemente claro que aqui ele ordena à comunidade que ouça e se edifique, e não à doutrina nem ao ministério da pregação. E faz mais outra distinção clara, chamando a comunidade de “leigos”, dizendo: “Se bendisseres no espírito, como poderá aquele que ocupa o lugar do leigo dizer “amém”, visto que não entende o que dizes? Com efeito, dás graças de maneira maravilhosa, mas o outro não é edificado” [1 Co 14.16s]. Aí se estabelece uma vez mais uma diferença entre pregador e leigo. Mas que necessidade temos de muitas palavras? O teto está aí e, também, a razão ensina que não se deve interferir em um ministério alheio.

Pois São Paulo diz: “Que falem dois ou três profetas e os outros julguem”, etc. [1 Co 14.29]. Aqui não se fala de outra coisa senão dos profetas, dos quais um ou dois devem falar, enquanto os outros julgam. Quem são esses “outros”? O povo? De forma alguma! Trata-se dos outros profetas que devem auxiliar na pregação na Igreja e edificar a comunidade. Esses devem julgar e ajudar a cuidar, para que se pregue corretamente. E se um dos profetas ou pregadores conseguir expressar-se com acerto, o primeiro deve consentir e dizer: É verdade, tens razão: eu não havia entendido corretamente o assunto – como acontece em torno de uma mesa ou em outro assunto qualquer, onde um dá razão ao outro (também em questões seculares). Da mesma forma, um deve ceder tanto mais ao outro no presente caso.

Aí se vê de que modo maravilhoso e diligente os intrusos leram as palavras de São Paulo, das quais deduzem para si o direito de se manifestarem em todas as igrejas, ou seja, de agredir a todos os pregadores da cristandade inteira, julgar e ofendê-los, arvorando-se eles mesmos em pessoas ordenadas e juízes de púlpitos alheios. São verdadeiros assaltantes e assassinos os que interferem criminosa e violentamente no ministério alheio. Contra isso, São Pedro ensina em 1 Pe 4[.15]: “Nenhum de vós sofra como malfeitor ou como quem se intromete em negócio alheio”.

Embora haja caído no esquecimento o costume de os profetas ou pregadores estarem sentados na igreja e falarem alternadamente (como São Paulo diz aqui), ainda restou um pequeno indício e vestígio disso no canto alternado do coro e das leituras alternadas, cantando-se depois uma antífona, um hino ou responsório em conjunto; ou quando um pregador interpreta a leitura do outro e um terceiro, a explica ou prega sobre ela. Portanto, a maneira correta de se ensinar na Igreja seria essa referida por São Paulo. Aí um cantaria ou leria em línguas, outro profetizaria ou interpretaria, o terceiro o explicaria, mais outro, por sua vez, o confirmaria ou explicitaria melhor com citações e exemplos, como o fez São Tiago em Atos 15[.13ss], e São Paulo em Atos 13[.14s.]. Isso seria melhor que a mera leitura da perícope [passagem bíblica para pregação], ou do que cantá-la em latim, numa língua desconhecida, como as freiras rezam o Saltério. Embora São Paulo não condenasse a glossolalia para si mesmo, não a recomenda nem ordena na igreja sem interpretação.

Não quero, porém, aconselhar a reintrodução desse procedimento e a eliminação do púlpito; antes quero defendê-lo, pois hoje as pessoas são demasiadamente intempestivas e intrometidas, e poderia insinuar-se um diabo entre pastor, pregador e capelão, de modo que um quisesse estar acima do outro, passando eles a brigar e ofender-se diante do povo, querendo cada qual ser o melhor. Por isso é melhor conservar o púlpito, pois aí as coisas acontecem, como ensina São Paulo, de modo decente. Basta que numa paróquia os pregadores preguem um depois do outro e, se quiserem, alternadamente nos diferentes lugares, que um deles explica à tarde ou pela manhã o que o outro recitou ou leu na matutina ou na missa, como se faz, de vez em quando, com o Evangelho e a Epístola. Pois São Paulo não insiste tanto em que se devesse adotar a mesma prática, mas em que tudo seja feito em ordem e decência, dando um exemplo. Visto que nossa prática de pregação é mais ordeira entre nosso povo louco do que aquela, queremos mantê-la.

Nos tempos dos apóstolos foi fácil manter a prática de os profetas estarem sentados [no meio do povo], pois era um antigo costume de prática diária entre o disciplinado povo do sacerdócio levítico, observado desde Moisés. Mas não seria aconselhável reintroduzi-la hoje entre este povo rude, indisciplinado e insolente.

Isso a respeito do dito de São Paulo. Resumindo: os intrusos e pregadores clandestinos são apóstolos do diabo, dos quais São Paulo sempre se queixa [cfe. Tt 1.10], que entram nas casas e as perturbam, ensinando sempre sem saberem o que estão dizendo ou afirmando. Por isso advirto e admoesto o poder espiritual, advirto e admoesto o poder secular, advirto a todos os cristãos e a todos os súditos: acautelai-vos deles e não lhes deis ouvidos. Quem os tolera e lhes dá ouvidos, saiba que está ouvindo o maldito diabo em pessoa, do mesmo modo como fala através de uma pessoa possessa. Fiz minha parte e também falei sobre esse assunto na explicação do Salmo 82. Estou desculpado. O sangue de cada um que não aceita um conselho bom e sincero recaia sobre sua cabeça. Com isso encomendo, caro senhor e amigo, a vós e os seus à graça e misericórdia de Deus. A ele glória e gratidão, honra e louvor em eternidade, em Jesus Cristo, nosso amado Senhor e Salvador. AMÉM.

(LUTERO, Martinho. Carta do Dr. Mart. Lutero sobre os Intrusos e Pregadores Clandestinos. 1532. Tradução de Ilson Kayser. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2009, vol. 7, págs. 122-124)



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 25


SOBRE OS PREGADORES ITINERANTES E CLANDESTINOS - PARTE 3


(este texto é continuação do anterior, que pode ser lido clicando aqui)


É verdade que há os que argumentam que, em 1 Cor 14[.30], São Paulo teria concedido a qualquer um a liberdade de pregar na comunidade e, inclusive, contestar o pregador ordenado, ao dizer: “Se o que está sentado tiver uma revelação, cale-se o primeiro”. Por isso os intrusos acreditam terem a autoridade e o direito de julgar o pregador de qualquer igreja em que entram e de pregar diferente. Isso, porém, é um grande engano. Os intrusos não observam bem o texto e tiram dele, ou melhor, introduzem nele o que querem. Na referida passagem, São Paulo fala dos profetas que devem ensinar, e não do povo que escuta. Profetas, porém, são mestres detentores do ministério da pregação na Igreja. Se assim não fosse, por que se chamaria alguém de profeta? Portanto, peça ao intruso que primeiro prove ser profeta ou mestre na Igreja à qual chega, e quem lhe confiou esse ministério. Depois disso se há de ouvi-lo, de acordo com o ensinamento de São Paulo. Se não o conseguir provar, manda-o para o diabo, que o enviou e lhe deu a ordem de usurpar um ministério da pregação alheio, numa igreja à qual também não pertence como ouvinte ou discípulo, que dirá como profeta e mestre.

Que modelo fabuloso daria isso se qualquer pessoa tivesse o direito de interromper o discurso do pastor e de começar a discutir com ele! E logo mais, um terceiro se intrometeria no debate dos dois, mandando também calar a esse segundo. E depois, ainda viria um bêbado da bodega da esquina e interviria na discussão desses três, mandando também ao terceiro calar-se. Por fim, inclusive, as mulheres quereriam fazer uso desse direito, como “a que está sentada” [cfe. 1 Co 14.30], mandando os homens calar, e depois uma mulher a outra – que algazarra, que gritaria de bodega, que festa popular daria isso! Até num chiqueiro as coisas seriam mais ordeiras do que numa igreja dessas. Que o diabo seja pregador em meu lugar! Os cegos intrusos, porém, não pensam nessas coisas. Acham que somente eles são “os que estão sentados” e não percebem que qualquer um dentre os demais deveria ter o mesmo direito, e também poderia manda-los calar. Eles próprios não sabem o que dizem, o que significa “estar sentado” ou “falar”, o que significa “profeta” ou “leigo” nessa palavra de São Paulo.

Quem quiser, leia todo o capítulo e descobrirá que nele São Paulo se refere à profecia, à instrução e pregação na comunidade ou igreja. Ele não ordena à comunidade pregar, mas está falando com os pregadores que pregam na comunidade ou na reunião. Do contrário, não poderia proibir às mulheres que preguem, pois também elas são parte da comunidade cristã. A deduzir do texto, a situação era a seguinte: na igreja, os profetas, como os legítimos pastores e pregadores, estavam sentados no meio do povo, e um ou dois deles recitavam ou liam o texto, como ainda hoje é costume, por ocasião das grandes festas, em algumas igrejas, que duas pessoas cantem o Evangelho.

Em seguida, um dos profetas, que estava na vez, passava a discursar sobre esse texto, explicando-o, a exemplo do que foram as homilias na Igreja romana. Tendo esse acabado de falar, outro podia acrescentar algo, confirmar ou explicar [ainda melhor] o que disse o precedente, como fez São Tiago em Atos 15[.13ss.], respondendo ao discurso de São Pedro, confirmando e explicando-o. Do mesmo modo procedeu São Paulo nas sinagogas, especialmente, em Antioquia da Pisídia. Lucas relata que, após a leitura da Lei, os chefes da sinagoga também permitiram que Paulo falasse. Paulo então se levantou e falou, no entanto, na qualidade de apóstolo comissionado; além disso, fora convidado pelo chefe da sinagoga e não, como intruso. Fica, pois, evidente que a expressão “estar sentado” se refere somente aos profetas e pregadores ordenados: aquele que dentre eles deveria falar, erguia-se, ou então ficava sentado, dependendo da importância do assunto.

Isso se compara a um príncipe reunido com seus conselheiros, ou a um burgomestre reunido com seus colegas conselheiros. Aí um deles se levanta e faz seu discurso e depois, outro. Por fim, aceitam unanimemente aquele que fez a melhor proposta. Assim um ajuda ao outro com seu conselho e tudo acontece de forma ordeira. No mesmo sentido, os profetas eram como que o conselho da Igreja, para ensinar a Escritura e governar e prover a comunidade. Acaso se deveria admitir que um vagabundo e estranho qualquer viesse, ou um cidadão sem mandato se infiltrasse para recriminar e instruir o burgomestre? Isso não acabaria bem. A gente deveria agarrá-lo pelo cangote e entrega-lo a Mestre João [o encarregado da disciplina]. Esse lhe mostraria seu devido lugar.

Muito menos se deve tolerar que um intruso estranho se insinue num conselho espiritual, isso é, no ministério da pregação, ou que um leigo se arrogue a pregar em sua igreja paroquial sem ser chamado. Isso deve ser e permanecer incumbência dos profetas. Eles é que deverão cuidar da doutrina, ensinar um após o outro e sempre ajudar-se fielmente uns aos outros, de modo que tudo se desenrole de forma decente e ordeira, diz São Paulo. Como, porém, as coisas podem ser feitas de modo decente e ordeiro onde cada qual interfere no ministério alheio, que não lhe foi ordenado e, se todo leigo quer levantar-se na igreja, querendo pregar?

Admira-me, porém, visto serem espiritualmente tão instruídos, por que não aduzem os exemplos onde também mulheres profetizaram, governando, desse modo, os homens, terra e gente, como Débora, em Juízes 4, que derrotou o Rei Jabim e Sísera, e governou a Israel; e a profetisa de Abel-Bete-Maaca, que viveu no tempo de Davi, conforme 2 Reis 20 [sc. 2 Samuel 20.13ss.]; e a profetisa Hulda, na época de Josias, em 4 Reis 22 [sc. 2 Rs 22.14ss.]; e muito antes, Sara, que instruiu a seu senhor Abraão que expulsasse a Ismael com a mãe Hagar; e Deus ordenou que lhe obedecesse. E outras ainda, como, por exemplo, a viúva Ana, Lc 2[.36ss.], e a virgem Maria, Lc 1[.46ss.]. Aí eles teriam argumentos e poderiam autorizar também as mulheres a pregar na Igreja. Quanto mais poderiam os homens pregar, onde e quando quisessem, segundo esses exemplos.

Não queremos discutir aqui o direito que essas mulheres do Antigo Testamento tiveram para ensinar e governar. Naturalmente não o fizeram como intrusas, sem chamado e por iniciativa religiosa própria, ou por presunção. Se assim fosse, Deus não teria confirmado seu ministério e obra com milagres e grandes feitos. No Novo Testamento, porém, o Espírito Santo ordena, através de São Paulo, que as mulheres devem silenciar na Igreja [cfe. 1 Co 14.34] ou na comunidade, e diz que isso é mandamento do SENHOR [cfe. 1 Co 7.10]. Não obstante, ele sabia perfeitamente que Joel havia anunciado que Deus iria derramar seu Espírito também sobre suas servas; além disso, sabia que as quatro filhas de Filipe haviam profetizado, Atos 21[.8ss.]. Na comunidade ou Igreja, porém, onde existe o ministério da pregação, elas deveriam silenciar e não pregar. No mais, podem perfeitamente acompanhar as orações, o canto e dizer o “amém”, ler em casa e instruir, admoestar, consola-se mutuamente; também podem interpretar a Escritura da melhor maneira possível.

(para acessar a continuação deste texto, clique aqui)

(LUTERO, Martinho. Carta do Dr. Mart. Lutero sobre os Intrusos e Pregadores Clandestinos. 1532. Tradução de Ilson Kayser. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2009, vol. 7, págs. 119-122)



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 23


SOBRE OS PREGADORES ITINERANTES E CLANDESTINOS - PARTE 1

Carta do Dr. Mart. Lutero sobre os Intrusos e Pregadores Clandestinos

1532

INTRODUÇÃO

Lutero se dirige a Eberhard von der Tann [Administrador do Wartburgo] que, juntamente com Justo Mênio [pastor e superintendente de Eisenach e mais tarde de Gotha], se destacou como adversário dos “anabatistas”(*). Durante alguns anos ambos observavam atentamente as atividades destes. Inclusive, Mênio interrogou em 1531 diversas pessoas diretamente ligadas a eles. Aí se evidenciou que foram novamente batizadas em casas de particulares, por pregadores ambulantes que ganhavam a vida como trabalhadores rurais sazonais. O contato com estes “intrusos e pregadores clandestinos” tinha como consequência que as pessoas desistiam de participar do culto comunitário e dos sacramentos. Esperavam para logo que Deus iria punir o mundo, salvando, porém, a elas. Além disso, em parte, rejeitavam qualquer forma de governo. Já em 1525, Lutero tinha explicado que pregador, ou é diretamente enviado da parte de Deus e então, por este confirmado mediante milagres, ou é vocacionado ordenadamente por uma comunidade ou autoridade civil, favorável à Reforma. Em Von der Widdertauffe an zween Pfarherrn (1528) [“Sobre o Rebatismo, a Dois Pastores”], tomou posição frente à doutrina dos “anabatistas” até onde ele a havia percebido, ressaltando o Batismo de crianças como veículo precípuo da graça de Deus. Agora, no escrito “Carta do Dr. Mart. Lutero sobre os Intrusos e Pregadores Clandestinos”, vê o erro básico deles no fato de se imiscuírem nas comunidades sem terem sido vocacionados formalmente. Em contraposição, enfatiza sobremaneira a ordenação e a vocação, a autoridade e responsabilidade dos ordenados e vocacionados pela pura doutrina e pregação. Não é novo o fato de Lutero se referir a isso. Nunca, no entanto, insistira na ordenação e vocação com tanta energia como o faz no presente escrito. Sem estas “não sobrará mais Igreja em parte alguma”.




Ao severo e firme Eberhard von der Tannen, administrador do Wartburgo, meu benevolente senhor e amigo.

Graça e paz em Cristo, nosso Senhor e Salvador. Amém. Fiquei sabendo, prezado senhor e amigo, que aí entre vós e na circunvizinhança, os anabatistas gostam de infiltrar-se, querendo infectar os nossos com seu veneno. Sei muito bem que estais suficientemente instruídos e advertidos pelo livro de Justo Mênio e também que exerceis vosso ofício de modo honesto e louvável contra esses mensageiros do diabo. O diabo, porém, não desiste facilmente, e há muitos que, tendo dado uma lida superficial num livro, atiram-no num canto e esquecem todas as advertências. Aí se necessitaria de alguém que os admoestasse diariamente, sem cessar. Por isso me propus, com a presente carta a vós, a rogar e advertir uma vez mais os magistrados, cidades e senhores, a embargarem a atividade desses intrusos, para fazermos nossa parte.

O primeiro ponto em que se pode apanhá-los facilmente é o seguinte: quando se pergunta por sua vocação, quem os teria enviado para cá sorrateiramente a pregar na clandestinidade, eles não têm resposta, nem são capazes de apresentar sua credencial. E eu vos digo: mesmo que esses intrusos não tivessem outro defeito e fossem santos perfeitos, esse único ponto (o fato de se infiltrarem sem terem recebido uma ordem e sem terem sido chamados) prova, com clareza, que são mensageiros e mestres do diabo. Pois o Espírito Santo não se infiltra na clandestinidade, mas desce publicamente do céu. As cobras se aproximam sorrateiramente, mas as pombas voam. Por isso essa infiltração clandestina é a legítima forma de o diabo se aproximar, isso é certo!

Ouvi dizer que os intrusos se infiltram entre os segadores e pregam no campo durante o trabalho. Da mesma forma, infiltram-se entre os carvoeiros e se aproximam de pessoas individualmente nas florestas, semeando em toda parte, espalhando seu veneno e afastando as pessoas de suas igrejas paroquiais. Eis aí a maneira legítima de o diabo se movimentar e agarrar as pessoas, como teme a luz e age no escuro. Quem seria tão atrasado a ponto de não perceber que se trata de verdadeiros mensageiros do diabo? Se fossem de Deus e honestos, procurariam, antes de mais nada, o pastor, para negociar com ele: apresentariam seu mandado, lhe exporiam suas convicções de fé e perguntariam se ele estaria disposto a admiti-los como pregadores públicos. Caso o pastor não os admitisse, estariam desculpados perante Deus. Poderiam então sacudir o pó de seus pés etc. Pois o púlpito, a administração do Batismo e do Sacramento são da responsabilidade do pastor, e toda a cura d’almas lhe foi confiada. Agora, porém, querem desalojar o pastor clandestinamente com todo seu mandato, sem, no entanto, revelarem seu mandato secreto. Esses são autênticos ladrões e assassinos de almas, blasfemadores e inimigos de Cristo e sua Igreja.

Aqui, com efeito, a única solução é que ambas as autoridades, a espiritual e a secular, se empenhem com afinco. A autoridade espiritual tem que instruir o povo permanentemente, com todo o empenho, incutir os pontos supramencionados, que não admitam nenhum intruso e o identifiquem com segurança como mensageiro do diabo, e lhes ensine a perguntar: De onde vens? Quem te enviou? Quem te deu a ordem de pregar-me? Onde tens credenciais seladas que provem que foste enviado por homens? Onde estão teus sinais milagrosos que provem que Deus te enviou? Por que não procuras nosso pastor? Por que me procuras clandestinamente e te escondes nos cantos? Por que não atuas publicamente? Se és filho da luz, por que temes a luz? Com essas perguntas deveria ser fácil embarga-los (a meu ver), pois não têm como provar sua vocação. E se nós pudéssemos incutir no povo esse conceito de vocação, seria fácil desembaraçar-se desses intrusos. Também é preciso instruir e adverti-los sempre no sentido de denunciarem esses intrusos ao pastor. Isso é sua obrigação, se querem ser cristãos e salvar-se. Pois, se não o fizerem, colaboram com o mensageiro do diabo e intruso a roubar sorrateiramente do pastor (sim, do próprio Deus) seu ministério de pregação, o Batismo, o Sacramento e a cura d’almas e, além disso, aliciar seus paroquianos, devastando e destruindo, desse modo, a paróquia (que Deus instituiu). Se ouvissem e tomassem conhecimento dessa advertência quanto ao conceito de vocação, alguns corações cristãos certamente iriam denunciar esses pregadores clandestinos e traiçoeiros ao pastor. Porque, como dito: quando se insiste na vocação, certamente se pode intimidar o diabo. Um pastor, afinal, pode gloriar-se de ocupar pública e legitimamente o ministério da pregação, do Batismo, do Sacramento e da cura d’almas, e que esse lhe foi confiado o que, aliás, se deve exigir e esperar dele. Os traiçoeiros e estranhos intrusos, porém, não podem gloriar-se disso e têm que confessar que vêm como estranhos e que invadem um ministério alheio. Isso não pode ser obra do Espírito Santo, mas deve ser obra do tinhoso diabo.

(para ler a continuação deste texto, clique aqui)


(*) o termo “anabatista(s)”, derivado do grego, significa literalmente “o(s) que batiza(m) de novo”. Denominava-se de anabatistas um grupo de pessoas de linha entusiasta ou espiritualista. Inspiradas pela Reforma, entendiam que teriam que aprofundá-la. Um dos seus líderes era Tomás Müntzer. Entre outras peculiaridades, como inspiração direta do céu, defendiam o rebatismo e o Batismo de adultos, opondo-se ao Batismo de crianças.

(LUTERO, Martinho. Carta do Dr. Mart. Lutero sobre os Intrusos e Pregadores Clandestinos. 1532. Tradução de Ilson Kayser. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2009, vol. 7, págs. 114-117)



sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Favela do RJ apoia luta de pastor contra a igreja Deus é Amor

O "Davi" da Rocinha na foto de Mauro Pimentel

Em novembro de 2009, já estranhávamos aqui no blog o fato de que a igreja Deus é Amor estava obrigando seus fiéis a depositar os dízimos em uma conta única.

Agora ficamos sabendo que evangélicos - anteriormente vinculados a essa denominação - reproduzem combate de Davi contra Golias na favela da Rocinha, segundo matéria interessantíssima publicada na versão brasileira do jornal espanhol El País:

O pastor da favela que desafiou a milionária indústria de Deus

Igreja Deus é Amor e Abelardo Lino travam batalha por um templo na favela da Rocinha

MARÍA MARTÍN

Com uma bíblia numa mão e um punhado de fiéis a seu lado, o pastor Abelardo Lino Silva, de 38 anos, resolveu enfrentar a Deus é Amor, a sétima igreja pentecostal mais poderosas do Brasil. O alvo da disputa é um imóvel próximo à entrada da Rocinha, uma das favelas mais populosas da América Latina, onde, segundo dados não oficiais, convivem mais de 150.000 almas. A história começa cinco anos atrás, quando Abelardo, depois de duas décadas de serviço e vários périplos pela África como missionário da igreja, foi designado pastor para aquele imóvel que a congregação usava como templo havia mais de 20 anos. Mas sua missão de "ganhar almas para Deus" não superou os três meses. “Um dia, e eu ainda não sei qual é o motivo, a diretora, a filha do fundador, Débora Miranda, me ligou e me disse que não podia ser mais pastor da igreja. Desde então não retornaram mais minhas ligações”, lembra Abelardo.

No culto que se seguiu àquela ligação, Abelardo alçou os braços e contou aos fiéis que ia abandoná-los e aí começou uma pequena revolução. Cansados, dizem, de ver como o dízimo que entregavam religiosamente saía integralmente para a organização em São Paulo enquanto eles tinham que levar ao templo o papel higiênico de casa, os devotos encorajaram o pastor a resistir. “É muito dinheiro mas você não via que eles fizessem nada pela comunidade”, relata Abelardo, caçula de seis irmãos e criado em uma família humilde de Nova Iguaçu, no Rio.

Nesse tempo, o pastor fundou uma nova fé, a Igreja Pentecostal Missão de Resgatar Vidas, e usou o dízimo para levantar mais dois andares no imóvel original, montar uma creche gratuita para que as mães da comunidade possam trabalhar, oferecer auxílio aos dependentes de drogas e comprar a merenda a jovens na corda bamba da criminalidade e que só lhe escutam se estiverem de estômago cheio. Os fiéis relatam que quando têm problemas para pagar o aluguel, precisam comprar remédios, ir ao hospital ou resolver um conflito familiar a porta de Abelardo sempre se abre.

“É o único pastor presente. Daqui só saiu dinheiro por 20 anos. Tentaram nos tirar o único líder que fazia bem à comunidade, então resolvemos tirar a instituição e ficar com o líder. Tinha uma época que nem podíamos sentar nas cadeiras de tão quebradas que elas estavam. Fomos lesados e enganados, o certo seria que eles nos indenizassem agora”, relatam atropeladamente Luciana, Regina, Isaura, Maria da Penha, Nildete e Aureceia, que invadiram todas juntas o escritório do pastor durante a entrevista. A Igreja Pentecostal Deus é Amor foi fundada em 1967 pelo missionário Davi Miranda e na época batizada pela imprensa de seita. Hoje conta com mais de 22.000 templos espalhados pelo Brasil e em outros 136 países.

Abelardo, com seus sapatos de ponta de couro, que dificilmente sai de seu papel de obreiro de Jesus eternamente abençoado, afirma que a decisão da Igreja o entristeceu pois afirma ter dado muito por ela. “Quando voltei da África [ele mostra os selos no seu passaporte de Moçambique, África do Sul e Zimbawe] fiquei muito doente, um problema de estômago que eu sofro até hoje”.

A batalha entre devotos está prestes a se resolver e é possível que os rebeldes percam diante a Justiça terrena. A última sentença, de setembro deste ano, apoiava a causa de Deus é Amor e decretava a reintegração de posse do imóvel. O conflito ainda reside em apontar quem é realmente o proprietário do local. Enquanto a Igreja afirma à reportagem que tem a posse e que muitos dos seus fiéis cobram há anos a volta de Deus é Amor ao templo, os seguidores de Abelardo mostram os papéis que provariam que o templo foi cedido pela comunidade para a evangelização, mas não entregue. “Isto nunca foi deles, foi comprado com nosso dízimo. A gente não tinha um pastor e deixamos que eles [Deus é Amor] ocupassem. E agora eles querem tirar o que é nosso? Se for preciso a gente fecha a Niemeyer [principal avenida que une a favela com os bairros ricos da Zona Sul]!”, exclama Regina de Fátima Leandro, de 63 anos, uma dos cerca de 140 obreiros da nova fé.

Abelardo, na sua última chance, recorreu à decisão da Justiça. “Se chegar a ordem judicial, tudo o que foi plantado vai sumir”, anuncia, para concluir com a passagem bíblica da perseguição de Saul contra o rei Davi, vencedor da mítica batalha contra Golias. O texto descreve um Saul possuído pela ira diante a admiração do povo e da própria família por Davi o que levou a Saul, predecessor de Davi como rei de Israel, a perder a razão. “Se te mostrares fraco no dia da peleja, tua força será pequena”, reza Abelardo. “Seja forte e corajoso que Deus estará contigo”.

O imóvel da discórdia - foto de Mauro Pimentel




quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Pastor nigeriano derruba a igreja toda

pastor Nigeria

Chris Oyakhilome, conhecido popularmente como "pastor Chris" é um televangelista nigeriano, fundador e líder da "Embaixada de Cristo", sediada em Lagos, capital da Nigéria, que tem milhões de seguidores na África e em outros países mundo afora, inclusive no Brasil, onde tem (ou tinha, não sabemos ao certo) um programa chamado "Atmosfera de Milagres" na Rede Brasil de Televisão, uma emissora pequena com presença maior na TV a cabo e por satélite.


No vídeo abaixo, o pastor Chris derruba toda a sua igreja dizendo que é pelo poder do Espírito Santo. No fundo, parece mais um caso de histeria de coletiva que não contribui em nada para o evangelho. Pelo contrário, só diminui. Confira:





sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O papa é pop mas América Latina é cada vez menos católica


A matéria é da BBC Brasil:

Aprovação do papa é alta, mas católicos continuam deixando religião, diz estudo

Camilla Costa

Pouco mais de um ano e meio após sua eleição, a aprovação do papa Francisco é alta em seu continente de origem, a América Latina. Mesmo assim, católicos continuam a deixar a religião – a maioria deles, para se tornar protestante.

A conclusão é do estudo "Religião na América Latina – Mudanças difundidas em uma região historicamente católica", do instituto americano de pesquisas Pew, que mapeou as práticas religiosas em 18 países da América Latina e do Caribe, exceto Cuba.

Os resultados mostram que o número de pessoas que se declaram protestantes continua crescendo em todo o continente e que pessoas criadas no catolicismo vem deixando a religião em favor da fé propagada por igrejas evangélicas.

"Se temos hoje o primeiro papa latino-americano é principalmente por causa da competição pentecostal na América Latina. A Igreja Católica está em uma crise de pânico. Se não conseguirem parar o avanço protestante no continente, que abriga 40% dos católicos do mundo, o futuro da instituição está seriamente ameaçado", disse à BBC Brasil Andrew Chesnut, professor da Virginia Commonwealth University e um dos autores da pesquisa, divulgada nesta quinta-feira.

"O Brasil ainda tem a maior população católica do planeta, mas agora só 61% se dizem católicos. Em 2030, o país já não deverá ter uma maioria católica."

A aprovação de Francisco entre os católicos é alta: acima dos 70% deles dizem ter uma opinião favorável ao papa em todos os países onde o estudo foi feito. O número passa de 90% em países como Brasil e Colômbia e chega a 98% na Argentina, seu país de origem.

No entanto, o estudo afirma que é cedo para dizer se o papa conseguirá diminuir ou reverter o êxodo de católicos. "O papa Francisco ainda não impressionou a todos", afirma o instituto. "Os ex-católicos são mais céticos a respeito do papa. Em todos os países pesquisados, exceto na Argentina e no Uruguai, pouco menos da metade têm uma opinião favorável a ele e acham que seu papado pode significar mudança na Igreja."

"Eu suspeito que, a longo prazo, Francisco não conseguirá parar esse processo mais longo de pluralidade religiosa. Pesquisas feitas nos Estados Unidos já mostraram que, mesmo dizendo que amam o papa, os católicos não estão indo mais à missa. Se eles não se tornarem mais ativos, (gostar do papa) não significa nada para a Igreja", afirma Chesnut.

No Brasil, apenas 37% dos católicos afirmam que vão à igreja ao menos uma vez por semana, contra 76% dos protestantes. Na Argentina, terra natal de Francisco, o número cai para 15% e chega a apenas 9% no Uruguai.

O estudo indica que, além do crescimento do número de protestantes, o número de pessoas que abriram mão de qualquer filiação com uma religião organizada também aumentou na região.

A categoria, na qual estão 8% dos entrevistados na pesquisa, inclui pessoas que se descrevem como ateus, agnósticos ou sem religião. No Brasil, a porcentagem é a mesma. O Instituto Pew é um dos mais respeitados órgãos de pesquisa independentes dos Estados Unidos. O levantamento se baseia em mais de 30 mil entrevistas realizadas entre outubro de 2013 e fevereiro de 2014 em espanhol, português e guarani.

'Ênfase na moralidade'

Atualmente, 69% dos latino-americanos se identificam como católicos, apesar de 84% afirmarem ter sido criados na religião. No Brasil, uma em cada cinco pessoas é ex-católica, segundo o Instituto Pew.

De acordo com o estudo, a maioria deles parece estar migrando para as religiões protestantes, especialmente as pentecostais e neopentecostais – como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Renascer em Cristo. No Brasil, 54% dos atuais protestantes dizem ter sido criados como católicos. A taxa chega a 76% na Colômbia.

Perguntados a respeito das razões para a conversão, a maioria dos entrevistados afirmou que buscava "uma conexão mais pessoal com Deus". Das oito opções de resposta disponíveis, a segunda mais escolhida dizia que os fiéis "gostam mais do estilo de culto da nova igreja", a terceira, que "encontraram uma igreja que ajuda mais seus membros" e a quarta, que "queriam uma ênfase maior em moralidade".

"De um modo geral, igrejas pentecostais atraem pessoas que já têm atitudes mais conservadoras. Elas costumam ser reforçadas e até mesmo intensificadas dentro das congregações. Mesmo assim, é importante lembrar que há muita diversidade entre as denominações pentecostais. A Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, apoiou Dilma em sua reeleição", diz Chesnut.

A pesquisa afirma que mais protestantes do que católicos latino-americanos se opõem a questões como aborto e casamento gay. A diferença entre eles é pequena na maioria dos países, sobretudo em relação ao aborto.

No Brasil, a maioria dos católicos também se coloca a favor de mudanças em tradições católicas como o celibato dos padres e a proibição de que mulheres se tornem sacerdotes.

Influência pentecostal

A tentativa de tornar os rituais católicos mais atraentes e evitar a perda de fiéis também impulsionou o crescimento da corrente Renovação Carismática entre os católicos. Padres e fiéis ligados ao movimento incorporam às celebrações católicas elementos de cultos pentecostais, como música, dança, pregações contundentes e rituais de exorcismo.

"Em todos os países pesquisados, os carismáticos são grande parte da população católica. E em alguns países – Panamá, Brasil, Honduras, República Dominicana e El Salvador –, pelo menos metade dos católicos dizem ser carismáticos", afirma o estudo.

Para Andrew Chesnut, padres "superstar" brasileiros, como Marcelo Rossi e Fábio de Melo, são expoentes do poder carismático dentro da Igreja católica latina. Pelo menos 58% dos católicos brasileiros se dizem carismáticos. "Há equivalentes ao padre Marcelo Rossi em quase todos os países latino-americanos, mas nenhum é tão superstar quanto ele", diz.

"Sem o crescimento pentecostal, não haveria carismáticos ou Marcelo Rossi. É uma reação católica a esse crescimento."

A prática do exorcismo, que havia se tornado rara dentro do catolicismo, também voltou à tona por influência das igrejas neopentecostais, de acordo com o pesquisador. "No Brasil, o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, foi o pioneiro em fazer exorcismos públicos e espetaculares, e outros o seguiram. Agora, há todo tipo de exorcismos não autorizados sendo feitos na Igreja Católica. Normalmente seria necessária a autorização de um bispo, mas entre os carismáticos há muitas mulheres leigas fazendo isso", afirma.



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Voto religioso influiu pouco no 1º turno das eleições 2014

É a conclusão a que chega o jornal Valor Econômico, em matéria assinada por César Felício, publicada na edição de 08/10/14.

Interessante a análise que ele faz, de que boa parte dos deputados evangélicos eleitos por São Paulo conseguiram suas cadeiras na esteira do tsunami de votos do católico Celso Russomanno, candidato televisivo que chegou ao topo dos mais votados do Brasil por obra e graça de Edir Macedo.

Talvez os coronéis, caciques e pajés evangélicos não sejam tão poderosos como dizem ser ou queiram que você acredite que eles são:

Religião teve influência reduzida no voto

Nas eleições deste ano, marcadas por duas candidaturas presidenciais de evangélicos, o fator religioso pesou menos na hora do voto. Nos 60 municípios com maior contingente proporcional de evangélicos pentecostais no Brasil, a presidente Dilma Rousseff (PT) teve uma votação média acima de seu padrão nacional: 46,58%, cinco pontos percentuais a mais do que obteve nas urnas. A ex-senadora Marina Silva (PSB), integrante da Assembleia de Deus, ficou próxima ao que obteve no país: teve um percentual médio de 21,7%. Já o tucano Aécio Neves ficou com 29,8%, uma média abaixo do que obteve nacionalmente.

Nas eleições locais, embora essa disputa tenha colocado no segundo turno pelo governo do Rio de Janeiro o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), da Igreja Universal do Reino de Deus, os balanços preliminares mostram que a bancada evangélica da Câmara ficou muito aquém dos 100 parlamentares imaginados no início da campanha. As primeiras informações indicam que pode ter havido redução: o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) identificou por enquanto apenas 52 deputados federais evangélicos.

Portais de notícias evangélicas listam 63 nomes, ou sete a menos que a bancada atual. Predominam São Paulo, com 13 evangélicos, favorecidos pela votação alta obtida por Celso Russomanno, um católico abrigado no PRB; e Rio de Janeiro, com dez eleitos, entre eles o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha, reeleito. Ainda figuram cinco eleitos pela Bahia, cinco em Minas Gerais e três no Rio Grande do Sul.

Segundo um especialista no tema, o cientista político César Romero Jacob, da PUC do Rio de Janeiro, o aumento da presença de programas sociais do governo federal e divisões entre evangélicos podem explicar porque Marina não teve uma votação de destaque neste segmento. "Entre a religião e o bolso, o bolso falou mais alto na hora do voto", comentou.

Nos dois municípios recordistas de pentecostais no Brasil, Guaraíta (GO) e São Pedro dos Crentes (MA), ambos com maioria absoluta de população evangélica, os indicadores sociais são ruins. Na cidade maranhense, 54,5% dos domicílios contam com Bolsa Família. Em Guaraíta, com prefeito do PSB, a proporção é de 30,7%. Da população da cidade goiana, 65,3% dos habitantes têm rendimento médio inferior a um salário mínimo e 36% da população tem ensino fundamental incompleto. Em São Pedro dos Crentes, onde a prefeita é do PSDB, 68% estão na faixa mais baixa de renda. Dilma ganhou em ambas as cidades.

A votação de Marina foi mais expressiva nas cidades mais pentecostais do Norte e Nordeste, onde a Assembleia de Deus predomina, e caiu em São Paulo e no Paraná. Em Doutor Ulysses (PR), por exemplo, na região metropolitana de Curitiba, sua votação não passou de 10%, a quarta parte do contingente populacional pentecostal. "Uma possível explicação é que nessas regiões predomina entre os pentecostais a Congregação Cristã do Brasil, que nada tem a ver com a Assembleia de Deus", disse Jacob.

O cientista político ressalvou a limitação que um estudo com base no censo de 2010 representa para analisar um cenário eleitoral. Além da defasagem de tempo e da possibilidade do eleitorado não reproduzir o retrato da população, o contingente de católicos e pessoas sem religião é grande nestas cidades. O levantamento incluiu cidades onde a população evangélica é de pelo menos 29%. Os pentecostais somam 13,3% da população.

A votação de Marina foi significativamente maior do que a de seu padrão nacional onde tinha aliados locais fortes, como nas pernambucanas Tamandaré, Barreiros, Sirinhaém, Ribeirão, Rio Formoso, Abreu e Lima e São José da Coroa Grande e a alagoana Maragogi. Foram estas as oito cidades da relação em que a candidata do PSB ficou em primeiro lugar. Aécio ganhou em 14 cidades e Dilma, nas 38 restantes.

Em termos estaduais, o voto de Marina também não se destacou nos Estados com maior incidência pentecostal. Em Rondônia, onde 33,8% da população se declarou pentecostal no censo de 2010, Aécio ganhou com 45% dos votos, Dilma teve 42% e Marina não passou de 11%. No Espírito Santo, segundo Estado mais pentecostal, com 33,1% da população adepta desta vertente do protestantismo, Marina conseguiu uma votação alta, cerca de 29%, mas contou com a ajuda do governador Renato Casagrande (PSB) e ainda assim ficou em terceiro lugar, atrás de Dilma (33%) e Aécio (35%). A candidata do PSB ganhou a eleição no terceiro Estado mais pentecostal, mas aí se trata do Acre, sua terra natal, onde 32,6% da população tem esta orientação religiosa.





terça-feira, 8 de outubro de 2013

O jumentinho de Valdemiro Santiago

Na década de 1980, tive um colega de trabalho que frequentava e tinha um cargo importante numa determinada igreja evangélica de orientação pentecostal.

Naquela época, o neopentecostalismo estava ainda nas fraldas. 

[Talvez continue assim até hoje...]

Lembro-me muito bem dele, porque foi a primeira vez na vida que, depois de convertido, convivi com uma pessoa que se dizia irmão na fé mas o seu comportamento no ambiente profissional era algo completamente distinto do que se podia se esperar do testemunho de um cristão.

Hoje essa dicotomia é - infelizmente - muito comum, mas naquela época, em que éramos muito poucos evangélicos e ainda não estava na moda ser "gospel", chocava ver alguém que se dizia cristão ter um comportamento cotidiano completamente oposto àquele que tinha na igreja.

Nem por isso, entretanto, eu tomava o todo pela parte, ou seja, não era por causa do testemunho desse colega de trabalho que eu definia toda a denominação que ele  frequentava. 

Havia, ainda, o benefício da dúvida...

O que não havia, então, era essa profusão de denominações que se dividem exponencialmente a cada dia, e - apesar de nossas diferenças doutrinárias - tínhamos um bom convívio entre os irmãos de confissões distintas, e nos respeitávamos.

Bons tempos aqueles. Éramos poucos, mas éramos dignos, ou pelo menos nos esforçávamos para sê-lo.

Aquele colega de trabalho que se dizia "irmão", entretanto, chegava irado ao trampo toda segunda-feira e, como eu era o único evangélico por ali, ele vinha desabafar comigo.

Rotineiramente, ele dizia que o pastor da igreja dele, uma pessoa muito conceituada na denominação, havia contado outra "parábola de pastor" no culto de domingo à noite.

"Parábola de pastor", nos dizeres dele, eram as estorinhas que o pastor inventava aproveitando alguma narrativa bíblica pinçada exclusivamente para o fim de mandar uma mensagem cifrada (às vezes claríssima) para um irmão ou um determinado grupo de pessoas da igreja a quem ele queria - especificamente - derrubar, atacar ou ofender.

Afinal, uma boa frase (que não está na Bíblia) é aquela que diz que para bom entendedor, meia palavra (ou meia parábola) basta!

Entretanto, apesar de sua tradicional ira das segundas-feiras, ele estava e continuou por anos na mesma igreja, sempre buscando - à sua maneira - fustigar o seu pastor Forrest Gump. Freud deve explicar...

No último domingo, 06/10/13, acordei pouco antes das 6 da manhã, e zapeando a TV me deparei com o "apóstolo" Valdemiro Santiago discorrendo sobre um jumentinho.

Pelo que vi no Google, parece que não é a primeira vez que ele recorre a esse expediente da carochinha. Tanto que no dia seguinte,  ele voltou ao tema, ainda que eu tenha ouvido apenas rapidamente.

O texto bíblico em que - supostamente - ele se baseava parecia ser o capítulo 19 do evangelho de Lucas, em que Jesus entra em Jerusalém montado num jumento nos últimos dias de seu ministério aqui no planeta Terra.

Só que havia alguma coisa que não batia, e por isso quis ouvir aonde a estorinha ia parar.

Para minha surpresa, Valdemiro Santiago contava uma ilustração (não sei se a criação é dele) em que jumentinho que havia levado Jesus, ao voltar para os seus colegas animais, se gabou de que o povo de Jerusalém o tinha recebido com alarido, aplausos e mantos estendidos pelo chão.

Nenhum jumento, obviamente, deu a mínima para a soberba do coleguinha, e ele ficou chateado até que um jumento mais velho, o "vovô" da tropa, o chamou e disse que acreditava na sua versão dos fatos, mas lhe alertou:

- Na verdade, os humanos não estavam tão exaltados por sua causa, mas por causa daquele que você carregava no lombo.

Explicando sua "parábola" inusitada, ainda que evitando a comparação direta, Valdemiro quis mostrar que ele e todos os demais "pastores" que competem pelo rico mercado evangélico brasileiro são, na verdade, "jumentinhos" disputando a aclamação popular.

Assim, o que diferenciaria um jumento do outro seria quem eles carregam nas costas, e, na versão valdemirística, obviamente ele levaria vantagem, já que seria portador do próprio Deus.

No final de seu discurso, o objetivo do "apóstolo" ficou mais evidente: ele estava se colocando na posição de vítima dos "bispos" que abandonam a sua denominação para criarem as suas próprias "igrejas", dizendo que não se importava com isso e até abençoava aqueles membros que quisessem seguir os desertores.

Desta maneira, com aquela cara de "ai que dó de mim!" que ele domina à perfeição, Valdemiro disse que os rebeldes podiam contar com a bênção dele e que o "apóstolo" os receberia de braços abertos se e quando eles quisessem voltar ao seu rebanho.

No seu "evangelho" particular, o "apóstolo" se sente autorizado a reinterpretar versículos bíblicos a seu bel prazer, rearranjando-os para atingir os seus objetivos pessoais inconfessáveis (ao menos publicamente).

Cada dia mais se percebe no Brasil, portanto, a formação de  uma  nova "religião" travestida de "cristã", "evangélica", em que a pureza da doutrina e da própria Palavra de Deus é relegada a mera "inspiração" para "parábolas de pastor" com interesses particulares muito específicos.

Esse rito, digamos, "evangeliquês", além de representar um culto à personalidade dos líderes de determinadas denominações, serve de veículo para um projeto vaidoso de poder, em que o cristianismo é um mero detalhe.

Deve ser por isso que esse "evangeliquês" agora é tema de humoristas, como se vê no vídeo abaixo:



Alguém poderia objetar que Valdemiro "carrega" Deus no lombo, e isso bastaria para eximi-lo de qualquer crítica.

Esquecem-se, convenientemente, de que Deus tem a soberania e a liberdade de usar quem ele quiser, inclusive animais, como já comentamos aqui no artigo "As jumentinhas de Balaão", animais estes que, segundo o relato bíblico, são muito mais importantes do que o xororô de determinados autointitulados "apóstolos".

Resta a impressão de que há uma debandada de "bispos", "pastores" e "obreiros" lá pelos lados da denominação de Valdemiro.

Aproveitando a "parábola" que ele próprio contou, deve ter jumento soberbo demais no meio daquela tropa de muares.

Pelo jeito, de nada vai lhe adiantar desfilar suas boas intenções mascaradas de "parábolas de pastor".

Afinal, como todo bom caipira está careca de saber, de boas intenções o inferno está cheio...



LinkWithin

Related Posts with Thumbnails