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domingo, 14 de agosto de 2016

Albert Camus, estrangeiro, estranhamento e fanatismo, por Leandro Karnal

Artigo de Leandro Karnal publicado no Estadão de 07/08/16:

Cordeiros de Deus

"Hoje, morreu mamãe. Ou talvez, ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.” Assim Albert Camus inicia O Estrangeiro, o curto romance símbolo de uma geração.

Nas primeiras linhas, define-se a indiferença da personagem Mersault, o protagonista que dizia “tanto faz” (ça m’est égal) para quase tudo. A frieza foi usada contra ele no julgamento. O conjunto The Cure citou o romance na música Killing an Arab. Mersault era um pied-noir, ou seja, um francês nascido na Argélia colonizada. Ele era estrangeiro porque habitava num país com cultura distinta da sua e era estranho porque se sentia diferente de todos. É a duplicidade em muitas línguas, das palavras estranho/estrangeiro; étranger, strange. Mersault era um francófono num país de maioria árabe. Os franceses de hoje temem virar minoria na própria França. Camus fala desse estranhamento diante de um mundo indiferente, povoado de seres sem paixões e que abandonaram as grandes explicações românticas e de redenção. Mersault perdeu a mãe física e perdeu o pai simbólico: a pátria. Porém, ele não é um misantropo de fato, pois a misantropia é uma forma de paixão por si ou pelo isolamento. Mersault é aquele que é obrigado a dizer coisas depois do Hamlet, ou seja, depois que o resto se torna silêncio. O franco-argelino vive além do horizonte sobre o qual o príncipe dinamarquês se calou. A indiferença não é mais uma opção, em 2016. O outro não está mais no litoral da Argélia, ele entra na sua pequena paróquia normanda e corta seu pescoço. Foi o caso trágico do padre Jacques Hamel, assassinado por dois jovens fundamentalistas. Testemunhas disseram que um fez uma espécie de sermão em árabe. Para quem eu prego, quando falo na língua que o outro não entende? Para mim mesmo, claro, porque somente admito meu monólogo. Talvez por isso, todo fanático fale muito alto e grite muito. A voz alta deve tentar calar todas as vozes e, acima de tudo, o imenso grito do contraditório.O mundo lida mal com a diferença. Formamos guetos há séculos. Criamos ônibus com lugares para brancos e negros nos EUA. Criamos legislação do apartheid na África do Sul. Dizemos aos diferentes que estejam com os diferentes e evitem contato com os outros.A política de gueto tem a sua eficácia. Afastando a convivência, impede o desafio da negociação. Trump promete erguer mais muros na fronteira com o México, como se os latinos já não fossem parte expressiva da população dos EUA e ainda fosse possível negar a diferença. Trump encarna esse medo ancestral da diferença. Mersault não entendia o que o árabe falava durante o crime. The Cure cantou: “Can see his open mouth but I hear no sound” (posso ver sua boca aberta, mas não ouço nada). Os reféns da igreja da Normandia não entenderam o que os fundamentalistas gritavam. Mersault/estrangeiro é uma tragédia ficcional. O fundamentalismo é uma tragédia real e ocorre em muitos campos religiosos e políticos. O discurso fundamentalista ocupa um pouco do niilismo da modernidade, demarcando fronteiras absolutas onde a liquidez deixou muita gente perdida. Não creio que seja possível uma comunicação com militantes do Estado Islâmico. Fundamentalistas encaram o diálogo como fraqueza e não buscam uma forma de convívio. É sempre doloroso afirmar a morte do diálogo, mas o contrário é ingênuo, perigoso até. Eu sinto em relação aos fundamentalistas um pouco o que se atribui a Golda Meir, que, referindo-se à violência do conflito israelo-palestino, afirmava que poderia até perdoar os árabes pela morte de crianças israelenses, mas não poderia perdoá-los por ter sido obrigada a matar crianças árabes. Eu o culpo pelo que você me obrigou a ser. Será que o Ocidente teria de se tornar fundamentalista para vencer o fundamentalista? Nós já não seríamos fundamentalistas na nossa crença sobre os valores corretos? O bombardeio “por engano” de aldeias sírias relativizaria o crime na França? Crianças afogadas no mar, cartunistas assassinados, hospitais destruídos, meninas com rosto deformado por ácido: é longa a lista de vítimas. Há um diálogo de surdos: o padre Hamel é chamado de mártir pelos católicos e seus assassinos são mártires para o Estado Islâmico. Haveria dois Paraísos? Os militantes fundamentalistas vivem como virtude aquilo que rejeitamos como defeito. Tornam-se, inclusive, os bárbaros necessários à nossa catarse civilizacional. Justificam Bush II e alimentam Trump. Esvaziam nossa racionalidade e nos tornam assassinos também, como acusava Golda Meir.

A Civilização já foi muitas coisas. Hoje é um debate sobre a sobrevivência de valores como democracia e convivência com diferentes num mundo que ri deste debate de relativismo cultural. No meio de discussões e práticas de barbárie, a imagem das vítimas é um desafio, na Europa e na Síria. O sacrifício de cordeiros de Deus sempre foi uma metáfora fundante da fé. Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai-nos a paz.



sábado, 7 de setembro de 2013

O brasileiro que foi lutar pelos EUA no Afeganistão

Hoje é dia da Independência do Brasil, mas tem gente que, sabe-se lá por quê, vai lutar pela suposta libertação dos outros, já que os interesses nacionais e econômicos são nebulosos demais para que nós, simples mortais, na nossa vã filosofia, possamos compreender.

Quando esses intrincados jogos do tabuleiro geopolítico se mesclam com desejos inculcados e nutridos pela matriz hollywoodiana em corações infantis colonizados e aculturados, aí a coisa desanda de vez.

Instaura-se de plano a era do patriotismo de ocasião, do "salve-se quem puder" e do "Deus nos acuda", se bem que a situação toda está mais  para "pátria de aluguel", ou "de programa", vai saber...

Confesso que certas coisas no mundo eu não consigo entender, como o que fez esse rapaz brasileiro lutar uma guerra que não é nem nunca foi sua (ou nossa). Talvez agora seja...

A matéria foi publicada na Folha de S. Paulo de 24/08/13:

Brasileiro vai atrás do sonho de lutar numa guerra e chega ao Afeganistão

DEPOIMENTO A...
LEANDRO VIEIRA
DO "AGORA"

Depois de não conseguir entrar na Aeronáutica, Rafael Vieira, 28, deixou o Brasil em 2007 para ir atrás do sonho de ser soldado. Ele entrou no Exército dos Estados Unidos e passou pela guerra do Afeganistão duas vezes. Da primeira, ficou concentrado em ações de engajamento com a população. Da segunda, teve de enfrentar de frente os ataques que eram realizados pelo movimento radical islâmico Taleban.

Em dezembro de 2007, ao embarcar rumo à minha primeira missão, não conseguia acreditar que o sonho de ser soldado se tornava realidade. Isso só foi possível nos EUA. No

Brasil, tentei entrar na Aeronáutica, mas não consegui.

A vontade de ser soldado vinha desde criança. Toda vez que assistia ao filme "Rambo", dizia à minha mãe que queria ir para uma guerra e ajudar os inocentes que sofriam com os horrores do conflito.

Ela sempre dizia que "o Brasil não declara guerra a ninguém". Essas palavras, que poderiam dar a entender que meu desejo jamais aconteceria, cruzaram minha mente quando o treinamento para infantaria começou. Foram 21 semanas que mudaram minha vida.

E não só consegui ser um soldado, como, pouco tempo após terminar a preparação, entrei numa batalha que ganhou projeções globais: a Guerra do Afeganistão.

Tive duas passagens pelo país. Na primeira, fiquei por três meses na cidade do Kandahar, no sul. Éramos escalados para construir escolas, levar eletricidade às vilas, distribuir sapatos às crianças e dar sementes a plantações.

Nesse período, o Taleban representava uma ameaça fantasma. Estava preparado para enfrentá-lo, mas o perigo pouco se apresentava.

Na segunda, um ano e meio depois da primeira passagem, em 2010, fiquei em Argahndad, perto de Candahar. Daquela vez foi diferente. Nossa missão era do tipo "search and destroy" (procurar e destruir, em inglês), em que entraríamos em conflito direto com o Taleban. Nosso principal objetivo ali era liberar o povo daquela opressão.

Ao chegarmos, encontramos forte resistência da milícia. Nosso pelotão sofria ataques diariamente. Virei líder de uma seção de morteiros, e sob meu comando estavam quatro soldados.

Uma das armas mais temíveis que enfrentamos foram os IEDs (dispositivos explosivos improvisados, na sigla em inglês). Essas bombas não tinham poder para matar, mas conseguiam amputar uma perna ou um braço.

Perder um membro, para um soldado da infantaria, podia ter um efeito pior que a morte -e isso instiga nossos instintos selvagens, aumentando a vontade de matar.

Em casos como esse, quem está cuidando do soldado ferido deve, apesar do medo e da adrenalina, manter-se concentrado e agir calmamente.

Tive essa experiência quando ouvi um chamado de emergência vindo pelo rádio. Numa patrulha, um dos nossos soldados pisou numa IED. Eu havia recebido treinamento para atuar como paramédico, então corri até a enfermaria para esperar pelo meu colega ferido.

A bomba havia decepado a perna dele do joelho para baixo. Mesmo com toda a dor, estava lúcido. Fizemos os procedimentos necessários, e o soldado foi levado, de helicóptero, ao hospital, que ficava na nossa base militar.

O episódio não durou mais do que 15 minutos e, mesmo meia hora depois, quando estava lavando o sangue das mãos, vi que a guerra tinha apenas começado para mim.

Tive a sorte de ter outro brasileiro comigo na mesma unidade, meu grande amigo Tavio. Passamos muitas noites acordados conversando em português e escutando O Rappa -banda que, além de adorarmos, nos ajudava a matar o tempo e a saudade do Brasil.

Nove meses depois da segunda chegada ao Afeganistão, retornei aos EUA. Quando entrei no avião, olhei para trás e, como outros soldados que lutaram na linha de frente, sabia que uma parte de mim havia ficado para sempre perdida na guerra, onde ganhar ou perder é um detalhe que fica esquecido.

Dezoito horas depois, estava abraçando os meus filhos e a minha mulher.

Sabia que começaria a ser preparado para uma nova guerra, caso a paz mais uma vez ceda espaço para um novo conflito.



terça-feira, 7 de setembro de 2010

Patriotismo, partidarismo e guerra

por C. S. Lewis:

A guerra deixará de absorver a nossa total atenção, porque se trata de um objeto finito e, por isso, intrinsecamente inadequado para suportar toda a atenção de uma alma humana. Para evitar mal-entendidos, é preciso fazer algumas distinções aqui. Acredito que a nossa causa é muito justa, como costuma acontecer com as causas humanas, e isso me faz acreditar que seja o nosso dever participar dessa guerra. Todo dever é um dever religioso, e nossa obrigação de desempenhar esse dever é absoluta. Assim, pode até ser um dever salvar uma pessoa que esteja se afogando e, quem sabe, se vivemos em uma praia perigosa, devemos nos preparar para o ofício de salva-vidas, de modo que estejamos prontos caso apareça alguém se afogando. Quem sabe tenhamos até que perder a nossa própria vida para salvá-lo. Mas, se um dia alguém se devotasse ao ofício de salvar vidas no sentido de dedicar-se totalmente a isso – de modo que não pensasse ou falasse de outra coisa, ou exigisse que todas as demais atividades humanas cessassem até que todas as pessoas aprendessem a nadar -, ele seria um maníaco obsessivo. Assim, salvar a vida de pessoas do afogamento é um dever pelo qual vale a pena morrer, mas não para o qual valha a pena viver. Tudo indica que os deveres políticos (entre os quais eu incluiria os deveres militares) sejam desse tipo. Uma pessoa pode ter que morrer pelo seu país, mas ninguém precisa viver pelo seu país em um sentido exclusivo. Aquele que se entrega sem reservas aos apelos temporais de uma nação, de um partido, ou de uma classe, está dando a César algo que, de maneira mais do que enfática, pertence a Deus: está dando a si mesmo.

(C. S. Lewis em “O Peso da Glória” (The Weigh of Glory), citado em “Um Ano com C. S. Lewis”, Ed. Ultimato, 2005, p. 281)

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