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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

As crônicas de Marvin - 15

Está com sede? Quer água?

9 de setembro de 2051, 19:00


Depois de muitos dias de ócio, era tempo de fazer alguma coisa responsável. Bem, pelo menos para mim aquilo não despertava tanta responsabilidade assim, mas eu tinha que continuar levando o plano adiante. Pelo menos eu teria a chance de fazer um enorme bem naquele dia.
E que dia... Tudo parecia misteriosamente mais alegre. A seca dava seus últimos suspiros, e a cidade empoeirada agradecia. Mas nada se comparava com o sentimento de ser querido por alguém.
O salão do Reino já estava cheio. Pessoas de diversas partes vieram para presenciar o discurso inédito de Estêvão. Eu já estava prevendo alguma coisa estranha durante esta reunião. Mas antes de iniciá-la, eu tinha que proceder conforme o plano. Eu tinha que checar se tudo iria correr bem. Afinal de contas, não havia participado de uma perseguição de motos à toa. Assim, antes de entrar, fiz questão de conversar com aquela mulher...
- Posso confiar em você? – disse a ela.
- Sim, claro... Seu segredo está bem guardado.
- Muito bem. Eles não podem saber que estou manipulando a Torre... Se queremos acabar com ela, teremos primeiro que convencer seus membros que tudo que ela pregou sobre si mesma é errado.
- Tudo bem, eu entendo... Mas é preciso mesmo mentir para eles?
Por um instante, observei sua fisionomia. Ela parecia muito preocupada, como se travasse uma verdadeira batalha moral.
- Elizabete... eu sei o que você está pensando... e sei que você deve estar considerando, como as TJs, que a mentira seja totalmente imoral. De fato, eu concordo plenamente com isto... Mentir nunca foi bom. É por isto que é sempre uma escolha complicada... Mas antes de analisar apenas a mentira, por que não vemos também as intenções? Estamos mentindo para prejudicar ou para ajudar?
- Eu não sei... mas do ponto de vista deles, nós os estamos prejudicando...
- Sim, vendo por este lado, sim. Mas mesmo que estivéssemos prejudicando, em qual das duas escolhas estaríamos fazendo maior mal? É melhor deixar uma pessoa sofrendo as angústias da solidão até que ela deseje a própria morte, ou enganar todos sobre suas convicções?
- Humm... talvez enganar todos...
- Olha, infelizmente nem sempre temos as melhores alternativas para escolher... Ainda mais em um mundo onde há sempre alguma coisa errada para ser corrigida... Não vivemos em um mundo ideal e muitas vezes o fato de não vivermos em um mundo ideal nos impede de tomar escolhas ideais. Isto porque as nossas escolhas ideais acabam trazendo um mal bem maior do que outras escolhas que reputamos como imorais, inaceitáveis... É difícil, eu sei. O fato é que um bom juiz, alguém que possa julgar nossos atos com justiça, deveria ser alguém que tenha acesso aos nossos pensamentos mais íntimos, que possa de fato dizer nossas reais intenções. Tudo que podemos é julgar as aparências, e a mentalidade de tomar estas aparências como a única coisa a ser julgada é que gera fariseus, nazistas ou preconceituosos. Mas nós conhecemos nossas intenções. Nós podemos saber que elas são boas e por isto podemos ter a mente tranquila. Ter a mente tranquila porque embora estejamos fazendo algo que não seja bom à primeira vista, estamos buscando um final que seja o melhor possível...
Assim ela voltou a sorrir, concordando em parte com o que eu disse... Eu também não poderia exigir que ela concordasse completamente comigo. Mas já estava contente por tê-la alegrado.
- Muito bem, Elizabete... Vamos... Eu te anuncio, e você fará o que combinamos antes, certo?
- Está bem... Marvin?
- Sim?
- Não pude deixar de notar... Você de repente me falou de juiz...
Sorri levemente para ela...
- Eu não sei o que dizer... Às vezes sou mais religioso mesmo... Mas não sei te dizer o que sou.
Acompanhei-a até perto do salão. Alguns dos moços que ficavam de fora para olhar os carros, ou cuidar das pessoas que chegavam durante o discurso nos olhavam meio apreensivos. Em certo ponto, deixei a Elizabete e me dirigi ao púlpito. O irmão Osvaldo então anunciou:
- Irmãos, hoje antes do discurso de nosso irmão Estêvão, teremos um pronunciamento do irmão Marvin.
Assim, subi até a frente. Cumprimentei o irmão e me aproximei do microfone. Logo algum jovem se aproximou, para ajustar a altura dele. Todos me olhavam atentamente. Amanda estava lá no fundo, e rapidamente trocamos olhares. Tudo em mais alto sigilo.
- Irmãos, boa noite.
- Boa noite. – disseram em coro.
- Bem, depois de algumas visitas às casas dos irmãos, eu fiquei comovido com a situação de uma irmã. Por isto resolvi ajudá-la. Devo confessar que não foi uma tarefa muito simples.
Todos ficaram mais curiosos.
- Irmã Ana Clara?
Ela, no meio do salão, me olhava assustada, tentando entender o que se passava.
- Sim? – dizia ela, se levantando.
Um jovem corria com outro microfone para o lado dela, enquanto eu continuava.
- Irmã, se não me engano, sua filha abandonou a organização há três anos, não é mesmo?
- Isto mesmo... – dizia ela triste, acabando de pegar o microfone.
- Bem, eu fui à casa dela, para conversar.
Então todos ficaram surpresos.
- Você foi à casa da minha filha?
- Sim. E conversei com ela sobre várias coisas. E nossa conversa foi tão produtiva que ela resolveu voltar para a organização. Por isto estou aqui anunciando a volta de sua filha Elizabete, que está na porta do salão...
Evitei cuidadosamente a palavra arrependimento. De fato, depois de nossa conversa ela resolveu voltar para a organização, não por arrependimento, mas por amor à sua mãe. Uma conversa que eu teria que ter a sós com ela. Não poderia me dar ao luxo de espiões me bisbilhotanto enquanto revelava todo meu plano para Elizabete. No fim, tudo valeu a pena. Aquela senhora tristonha já não se cabia de felicidade. Faltavam-lhe as palavras, e de fato eram desnecessárias ali. E muito embora a grande maioria das pessoas ali presente não desse a mínima para aquela senhora, todos se comoveram diante daquele abraço, do choro de saudade. A felicidade é contagiosa.
Enquanto eu descia do púlpito, Estêvão subia. Ele não pôde evitar o comentário.
- Ei, ótimo trabalho.
- Muito obrigado. – respondi com um sorriso.
Mesmo que eu não controlasse a Torre de Vigia, eu saberia que tal ato sairia todo ano em uma Sentinela. Ajuda a excitar os ânimos de todos. Fui caminhando até o fundo, onde me sentei ao lado de Amanda.
- Foi incrível o que você fez... – disse ela, sem me olhar.
- Ah, obrigado. – respondi da mesma forma.
E agora, eu ficava me imaginando que tipo de discurso faria o Estêvão. Conhecendo a peça, eu imaginava que não seria boa coisa. Ele fez questão de não comentar qual seria o tema do discurso nem mesmo comigo. Assim, o irmão Osvaldo tomou o microfone e anunciou:
- Irmãos, aproveitando o clima de alegria, vamos agora escutar um discurso bíblico feito pelo irmão Estêvão. O título será revelado por ele.
Assim, o irmão Osvaldo desceu do púlpito e foi ao seu lugar, enquanto o Estêvão tomava o microfone. Aguardou um pouquinho enquanto um jovem ajustava a altura do microfone. A ansiedade tomava conta de mim... O que ele iria aprontar?
- Muito bem, irmãs e irmãos. Desejo a todos uma boa noite. Gostaria agora de iniciar o discurso público entitulado, “Água encanada, é para os cristãos?”.
- Quê????????? – exclamei imediatamente, com a surpresa.
Todos me olharam no mesmo instante, como se eu tivesse dito o que todo mundo queria dizer...
- Ahhh, puxa, que ótimo tema!!! – exclamei com um sorriso amarelo.
Mas que raios de discurso o Estêvão queria fazer? Ele ficou louco? Então Estêvão retomou seu discurso...
- Irmãos, é notório que vivemos nos últimos dias deste atual sistema de coisas. Por isto mesmo, devemos sempre nos examinar, para sabermos se caminhamos ainda na fé. O mundo está sempre tentando impor seus costumes a nós cristãos. Devemos agradecer a Jeová Deus por estar sempre nos orientando através de sua Organização na Terra, o Escravo Fiel e Discreto.
Ele deu um breve intervalo aí, para dar mais um suspense... Uma introdução genérica, eu diria.
- Bem, hoje decidi alertar os irmãos sobre mais um ponto que devemos prestar bastante atenção. Este diz respeito à toda infra-estrutura que o mundo nos oferece.
Infra-estrutura?
- Gostaria de chamar a atenção para um dos luxos que a modernidade nos oferece, e que tem acarretado muitos danos ao homem: a água encanada.
Mas o que ele está falando?? Pirou mesmo.
- Será que os homens fiéis usavam água encanada? Vamos verificar isto na palavra de Deus, a Bíblia...
Estou começando a entender agora o que Estêvão quer fazer. Ele quer se aproveitar da extrema falta de capacidade de analisar um fato dentro de seu contexto histórico, que as testemunhas de Jeová possuem. Sim, de fato elas cometem sérios anacronismos sem nem mesmo ficarem envergonhadas...
- Vamos abrir a Bíblia em Gênesis, capítulo 26, versículo 18.
Logo se ouvia o barulhinho de folhas virando. Quando este estava bem menor, Estêvão continuou:
- O texto diz: “E Isaque passou a cavar novamente os poços de água que tinham cavado nos dias de Abraão, seu pai, mas que os filisteus haviam tapado depois da morte de Abraão; e voltou a dar-lhes por nomes os nomes que seu pai lhes dera.”
Então Estêvão fechou o livro e continuou...
- Como os irmãos podem ver, antigamente se usava poços, e não água encanada ou trazida por aquedutos. É interessante notar que o uso de aquedutos era muito difundido entre os pagãos, alcançando seu maior desenvolvimento entre os romanos, povo que não só cultuava toda sorte de deuses, mas também perseguiram por muito tempo os cristãos. Finalmente quando um imperador romano se tornou cristão, Constantino, ele pôde introduzir vários costumes pagãos. Inclusive o uso de água encanada.
Podia-se ver a cara de surpresa de todos os irmãos no salão. Mas também, o pobre do Constantino já levou culpa de mais coisas do que o próprio diabo. Era só falar no nome dele, e todo mundo passava a valorizar mais o discurso.
- Até os dias de hoje, pode-se ver o fascínio pelos aquedutos romanos. Falando sobre a cidade de Segóvia, a famosa enciclopédia chamada “Desciclopédia” trata do tema dos aquedutos, com as seguintes palavras: “O Aqueduto de Segóvia é praticamente a única coisa conhecida pelos próprios moradores dentro da cidade”. Esta enciclopédia ainda completa, dizendo: “Mas como sem ele Segóvia se torna um lugar inútil, ele continua existindo”. Como vocês podem ver, a influência do aqueduto é tão grande, que chega a transformar uma cidade inteira, que se vê inutilizada sem o tal aqueduto. É um grande desrespeito ao que diz as Escrituras em Deuteronômio capítulo 6, versículo 5: “E tens de amar a Jeová, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de toda a tua força vital. 6 E estas palavras que hoje te ordeno têm de estar sobre o teu coração”.
Putz... Ele pegou o jeito jeovista de fazer discursos direitinho... O pior de tudo é que ninguém desconfiou de nada ainda...
- Irmãos, o uso de aquedutos não era praticado nem mesmo nos tempos de Jesus. Pois o que podemos ler? Vamos abrir nossas Bíblias no evangelho de João, capítulo 4, versículo 6.
Mais uma vez o som das folhas. Quando este diminuiu, Estêvão continuou.
- O texto diz: “De fato, ali se achava a fonte de Jacó. Ora, Jesus, cansado da jornada, estava sentado junto à fonte, assim como estava. Era cerca da sexta hora”.
Esperou então os irmãos voltarem suas atenções para ele.
- Como vocês podem ver, Jesus aproveitou a ocasião de estar em uma fonte, para evangelizar. Imaginem vocês quantas pessoas deixam de ser evangelizadas de forma igual hoje, depois da invenção romana?
Era um raciocínio meio doido, mas ninguém fez nenhuma objeção... Afinal ele era um “profeta”...
- Mas irmãos, não vamos nos limitar a este texto. Por favor, vamos ler o texto de Gênesis capítulo 24, versículos 13 e 14...
Mais uma vez o barulhinho de folhas.
- O texto diz: “Eis que me acho de pé junto a uma fonte de água e vêm saindo as filhas dos homens da cidade para tirar água. O que tem de acontecer é que a moça a quem eu disser: ‘Por favor, inclina o teu cântaro para que eu possa beber’, e que deveras disser: ‘Bebe, e darei de beber também aos teus camelos’, esta é a que tens de determinar ao teu servo, a Isaque; e deste modo deixa-me saber que usaste de amor leal para com o meu amo”. Agora, irmãos, imaginem se naquela época houvesse apenas aquedutos. Aquele pobre escravo morreria procurando uma esposa para Isaque, e não encontraria jamais!! Com isto a promessa feita por Jeová não se cumpriria. Como o povo de Deus seria prejudicado com isto!
Todos olharam mais uma vez, assustados. O que seria deles agora?
- Então, irmãos, acredito que o uso de água encanada nos dias atuais nada mais é do que um costume bárbaro habilmente introduzido por Satanás, o diabo, para nos fazer cada vez mais distantes uns dos outros. Jesus mesmo disse em João, capítulo 17, versículos 20 e 21 que “Faço solicitação, não somente a respeito destes, mas também a respeito daqueles que depositam fé em mim por intermédio da palavra deles; fim de que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em união comigo e eu estou em união contigo, para que eles também estejam em união conosco, a fim de que o mundo acredite que me enviaste”. Se não estamos unidos, como o mundo acreditará nisto?
Eu via mais rostos assustados ainda...
- Irmãos, depois de todas as informações dadas aqui, acredito que seja questão da consciência de cada um adotar o proceder correto. Boa noite.
Puxa vida, esta história de consciência mata qualquer um de raiva...
Despedindo-se então, Estêvão desceu da tribuna, enquanto o irmão Osvaldo se dirigia ao microfone. Dava para ver ele engolindo seco, ansiando por água de poço, antes de informar o próximo evento.
- Irmãos, passemos agora para o estudo da Sentinela...
O estudo foi normal como qualquer outro estudo da Sentinela... O discurso foi estranho, eu diria. E certamente foi sarcástico, bem no estilo do Estêvão. Ele parece ser o tipo de pessoa que não mede esforços para fazer alguma coisa.
No fim da reunião, o Estêvão veio me chamar em um canto. Achei aquilo estranho, mesmo assim fui para lá.
- Marvin, alguma coisa errada está acontecendo...
- O que houve, Estêvão?
- Acaba de chegar uma carta de Betel...
- Uma carta de Betel?
Me lembrei então que ali havia algo muito suspeito acontecendo...
- Mas o que diz esta carta?
- Não sei ainda, mas o Osvaldo vai ler agora lá na frente.
De fato, o irmão Osvaldo já estava lá na frente, com a carta nas mãos. Olhávamos atentamente para ele, enquanto ele anunciava:
- Irmãos, gostaria agora de anunciar a leitura de uma carta de Betel, enviada para nós. A carta diz: “Caros irmãos, como é de conhecimento de todos, há algum tempo lançamos uma ordem para localizar e comunicar aos anciãos sobre qualquer pessoa que tenha esboçado dúvida sobre o ensino do Escravo acerca de Jesus Cristo. Aqueles que tivessem alguma dúvida sobre o assunto, deveria ser sabiamente repreendido. Achamos por bem mudarmos a forma de repreensão, para demonstrar maior amor com os irmãos novos na fé. Por este motivo, não deverão mais ser desassociados os irmãos que apresentarem tais dúvidas, mas que seus privilégios sejam retirados, e novos estudos sejam conduzidos a eles.”
Assim muitos irmãos ficaram felizes com a notícia, alguns não gostaram muito.
- Você ouviu isto, Marvin?
- Sim, claro!!!
- E por que você fez isto?
- Ei, eu não fiz nada... Como é que eu anularia meu próprio plano?? Tem uma coisa muito errada nesta história!
- Claro que tem... E é melhor descobrirmos logo...
Eu tinha desconfiado de Estêvão, mas agora ele me parecia muito sincero...
- O negócio é o seguinte... Há algo de errado acontecendo em Betel. E diante da situação, acho que seja melhor a gente fazer uma visita àquele lugar imediatamente.
- É... Eu também concordo...

Ponto de vista alternativo, 10 de setembro de 2051, 00:00

Em uma sala escura, em algum lugar da cidade, alguns homens se encontravam mais uma vez. Desta vez não parecia estarem todos ali, já que a reunião havia sido convocada de última hora.
- Senhores, nosso encontro aqui hoje não será muito demorado. Na verdade, tenho apenas um anúncio a declarar.
- Hummm, o que seria, Moshe? Foi hoje que nossa carta foi lida em todas as congregações, não é?
- Sim, mas não é isto que gostaria de comentar com vocês... Gostaria de dizer que o jovem Marvin está decidido a nos fazer uma visita...
- Quer dizer que ele está vindo?
- Sim.
- Você tem certeza? – disse outro vulto.
- Claro... Nosso espião ouviu ele dizer isto... Em breve estaremos cara a cara... Não esperava que ele viesse aqui, mas já que ele se dispôs... Melhor para nós...
- Finalmente poderemos descobrir como ele faz aquilo... – disse um dos vultos.
- Sim. Portanto estejam preparados...
- Certo, Moshe. – disseram juntos.
- Mais uma coisa... Noah, acredito que você seja a melhor pessoa para recebê-lo. Você faria as honras??
Em um canto da sala, aquela figura enigmática parecia contente com isto.
- Mas é claro, Moshe. Tenho certeza que ele me contará tudo...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

As crônicas de Marvin - 14

Sentimentos em comum

Rapidamente subimos a ruazinha e caminhávamos em direção ao Shopping que ficava ali perto.
- Hummm... Então estamos indo para o Shopping, Marvin?
- Bem, não exatamente. – respondi.
Continuamos andando enquanto ela tentava descobrir nosso destino antes de chegarmos. Foi então que chegamos à entrada do Shopping. Do lado de fora, existe um terreno vago, onde geralmente se instalam circos ou parques de diversão. Naquele dia, estava um parque que geralmente se instalava ali todo ano. Era setembro ainda. Não havia muitas chuvas naquela época, por isto era uma época boa de se instalar parques de diversão. Sem chuva, mais clientes.
- Muito bem, aqui estamos...
- O parque? – perguntava Amanda.
- Sim, o parque. Achei que seria legal nos divertirmos um pouco... Afinal de contas, não dá para ficar trancado em casa por todo o feriado...
- É, você tem razão... Mas Marvin, eu não posso entrar neste parque...
A declaração me assustou... Será que havia alguma regra maluca por trás disto? Mas é estranho, este parque já esteve em Goiânia outras vezes e me lembro bem de alguns irmãos comentarem sobre como se divertiram ali...
- Ué, Amanda... Por quê?
- É que eu estou de vestido... Estávamos em uma visita, lembra-se? Bem, vestidos não combinam muito com parques de diversão...
- Ah, você tem razão... Hummmm...
- Se você tivesse me avisado, eu estaria preparada. – me respondeu com um sorriso...
- Não seja por isto. Estamos na frente de um Shopping... Vamos comprar algo mais adequado então!
- O quê?
Antes que ela rejeitasse esta opção, peguei ela pela mão e a levei para o Shopping. Ela bem que tentou negar, mas não teve jeito: fomos até uma loja de roupas, procurar algo para ela.
Bem, neste momento eu tenho que confessar que não poderia ter cometido erro maior que este. A combinação de mulheres mais lojas de roupas nunca foi tão desastrosa para os homens que as acompanham. É como se acontecesse um distúrbio no espaço-tempo, fazendo com que o tempo para as mulheres ficasse pelo menos umas três vezes mais rápido, enquanto que para os homens ficasse umas quarenta vezes mais lento. E na verdade não posso reclamar muito disto, pois afinal, o mesmo efeito deve acontecer ao contrário, quando chamamos elas para ir a um boteco para conversarmos com nossos amigos. E assim como há homens que não vão a butecos, também há mulheres que não demoram muito tempo em uma loja de roupas. Infelizmente as exceções são poucas para ambos os lados. E eu não tive esta sorte.
A tarefa era simplesmente encontrar uma calça e uma blusa que fossem mais apropriados para se ir a um parque de diversões. Bem, não era tão simples assim... Ela levou um bom tempo escolhendo tudo.
- Puxa, Marvin, me desculpe pela indecisão... É que eu não consigo achar algo que me agrade...
- Está tudo bem, Amanda... – respondi, sorrindo.
Ela me parecia meio tensa... Talvez pensasse que a demora dela pudesse me fazer mudar de idéia. Eu entendia o lado dela. Às vezes é fácil para nós criticarmos as pessoas quando elas fazem algo que gostam, mas que nós mesmos não gostamos. Uma pessoa que não goste de xadrez pode não achar sentido nenhum em estudar livros e livros de jogadas de xadrez. Mas para aquele que gosta, estudar aqueles livros é prazeroso. E muitas vezes há discussões desnecessárias simplesmente por que as pessoas não conseguem ver isto. Mas eu não a trouxe ali para que ela ficasse nervosa ou tensa, eu queria que ela se divertisse. Então enquanto ela escolhia uma calça, peguei um chapéu de praia que estava ali por perto e o coloquei.
- Ei, que tal estou? – disse fazendo caretas...
Imediatamente quando ela me viu, começou a rir...
- Hahaha, Marvin, você está uma graça... Mas eu acho que não faz seu estilo, hahaha...
- Tem razão, mas nesta loja não se vendem sombreros mexicanos...
- Ah, é claro... Eles certamente fazem seu estilo, não é? – disse ela, rindo, talvez me achando com cara de Mariachi fake.
E pelos próximos minutos, ela ficou bem mais descontraída. Claro, eu ia fazendo minhas palhaçadas enquanto ela escolhia... Eu escolhia roupas estranhas, gerando mais risos por parte dela... Fico me perguntando como é que tais roupas são criadas... Será que os costureiros um dia acordam, dizendo “Puxa, hoje vou fazer a roupa mais estranha que eu puder” e fazem?
Então, começamos a provar as roupas, esperando a opinião do outro, como em um filme hollywoodiano. Comecei então a entender por que algumas vezes aparecem cenas como estas... Geralmente se pede a opinião sobre uma roupa a pessoas que confiamos, que queremos de certa forma, agradar. E depois de uma hora, ela já havia escolhido tudo que queria. Pediu para uma das atendentes para que pudesse trocar de roupa nos provadores depois de pagar e a atendente deixou. Então fomos ao caixa, onde eu peguei tudo que ela escolheu e disse:
- Pode deixar, eu pago.
- Você? Não, Marvin, não posso deixar você fazer isto.
- Ora, Amanda, fui eu quem te obrigou a vir até aqui... É o mínimo que eu posso fazer...
- Não, não posso aceitar isto... Você não precisa pagar nada...
- Ei... Não faço isto por que preciso, mas por que eu quero te dar isto de presente...
Ela ficou um pouco tímida com isto.
- Puxa, não é todo mundo que tem a vontade de me dar presentes assim...
- É, eu sei... Mas não faz mal a ninguém dar presentes de vez em quando, não é?
- Mesmo sendo caros?
- Dinheiro é o de menos agora e eu não tenho muito com que gastar... O que importa é agradar as pessoas de quem você gosta.
- Puxa... Obrigada então... – disse ela um pouco tímida...
Paguei a conta dela e ela rapidamente foi se trocar. O vestido a deixava um pouco velha, devo confessar. Agora com calça jeans e camiseta, ela parecia novamente uma jovem. Hora da diversão!
Corremos para o parque que ainda estava um pouco vazio. Ainda era dia, e as pessoas preferiam vir mais tarde. Assim, pagamos rápido pela entrada e em pouco tempo já estavamos tentando nos decidir sobre qual o primeiro brinquedo que iríamos...
- Vamos na montanha russa!!! – disse eu.
- Pu... Puxa, você tem certeza?
Só pelo gaguejar dela, eu já tinha certeza. A intenção era assustar mesmo.
- Sim, claro!
Então fomos para a fila. Não demorou muito tempo e os carrinhos chegaram. Entramos, Amanda ainda meio desconfiada. Colocamos todos os equipamentos de segurança e em pouco tempo o carrinho estava partindo.
Eu nunca tinha andado de montanha russa na vida. E aquela foi a experiência mais assustadora que tive. Depois de subir até a parte mais alta, lentamente, o carrinho desceu, de uma vez, até chegar próximo ao solo. É como se a fôssemos jogados de um desfiladeiro. Confesso que não apreciei o loop, minha cabeça foi parar junto aos pés. E não entendo por que o pessoal gosta de gritar tantooo... O quê é aquilo????
- AAAAAAhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!
Desci acabado... Que viagem... Só depois de pisar em terra firme, tive a oportunidade de reparar na Amanda...
- Uau, adorei!!! Vamos de novo!!!
- O quê?????
- Vamos de novo!!! Eu gostei demais, é muito legal... Nunca imaginei que fosse tão bom!
- Você está brincando?
- Claro que não!!! Vamos??
Então ela me puxou pela mão e subimos novamente no carrinho da montanha russa. O pior é que não tinha fila, não tive tempo nem de respirar direito.
Depois de cinco voltas na montanha russa, a Amanda finalmente concordou em experimentar os outros brinquedos. Bom para mim, agora poderia ver se encontrava algum brinquedo que ela não gostasse (e eu sim). Não, não se trata de revanche... Ah, se trata sim!!! Fui direto naquele brinquedo que te faz girar em cima de um grande prato.
- Marvin, você tem certeza?
- Ei, não precisa perguntar se eu tenho certeza toda vez que formos em um brinquedo novo. Este aqui será diferente.
E o pior é que foi mesmo. Agora eu poderia saber como se sente uma roupa em uma máquina de lavar... O brinquedo começou lentamente a girar, mas logo ele girava tão rápido, mas tão rápido, que eu não conseguia mais desgrudar a minha cabeça do equipamento de segurança... E todos gritavam sem nenhum motivo, então decidi me juntar a eles...
- aaaaaaaaaaaaaaaAAAAAAAAAaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaAAAAAaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaAAAAAHHH!!!!
Foi uma experiência única! Vai ser a única vez na minha vida que vou neste brinquedo. Isto não é um brinquedo, é uma máquina de tortura chinesa... Como é que alguém consegue gostar disto???
- Puxa, eu gostei demais deste também!!!!
- O quê???
- Ah, Marvin, fala que você não gostou nem um pouquinho?
- Não gostei nem um pouquinho...
- Hummm, não seja mal-humorado... Hehehehe...
- Está bem, então vamos em qual agora?
Ela deu uma risadinha, olhando para algo atrás de mim...
- O que foi?
Me virei e tudo que vi foi um carrossel.
- Ah, então você está curtindo com a minha cara, não é?
- Hehehe... Só um pouquinho, Marvin...
- Humpf... Tenho certeza que no próximo brinquedo, eu me darei bem.
Desta vez fomos ao barco pirata. Não, eu não me dei bem, principalmente quando ele chegava nos pontos mais altos... Nenhuma diferença para a montanha russa...
- Muito legal este também, Marvin!!! – disse Amanda, com um grande sorriso no rosto.
Nunca a vi tão feliz em todo tempo que a conheço.
- Puxa, acho que preciso de um tempo... – respondi.
- Hehehe, tudo bem.
- Hummm, acho que sei de um brinquedo que será bom para mim...
- Ah, é? Qual?
Corri à uma das poucas barracas que não envolvia te chacoalhar, te jogar para cima ou te colocar de cabeça para baixo: a barraca de tiro. E nestas horas compensou todo aquele tempo ocioso desperdiçado com meus jogos de tiro ao alvo, escondidos dos anciãos, para não levar um chamado de atenção.
Comprei cinco rolhas, e fui capaz de ganhar uns dois chocolates. Eu sei que aquilo ali é difícil pois os prêmios são bem presos, mas o que vale é a diversão. Fiquei com um chocolate, o outro dei para Amanda.
- Humm, estava bom... Mas agora fiquei com vontade de comer mais alguma coisa...
- Puxa vida, mesmo depois de chacoalhada para todos os lados?
- Hehehehe, sim! Que tal um sorvete?
- Está bem... Eu também vou querer...
Compramos o sorvete e nos sentamos em um lugar, à sombra. Ficamos calados por cinco minutos, tomando o sorvete.
- Marvin...
- Sim?
- Eu queria te agradecer... por me trazer aqui... eu gostei muito...
- Hehehehe, embora eu esteja parecendo um rabugento, eu também estou gostando de estar por aqui... Esta hora eu poderia estar em casa, sozinho, fazendo qualquer coisa para matar o tempo...
- Hummmm... É mesmo, você mora sozinho... E seus pais?
- Bem... eles morreram há algum tempo...
- Oh... Sinto muito...
- Não tem problema... Você iria saber de uma forma ou de outra, não?
- Sim...
Houve um pequeno momento de silêncio.
- Eles morreram de acidente de carro... Estavam viajando à noite, quando um caminhoneiro que dormiu ao volante invadiu a pista deles...
- Puxa... Que pena.
- É... Sabe, eu sempre fui muito distante deles... Meu pai sempre trabalhava muito, só chegava à noite... Minha mãe se sentia muito carente por isto. Você poderia até pensar que ela teria suprido esta carência com seu filho, mas não foi assim comigo. Ela estava muito preocupada com o próprio casamento... Cresci sem o costume de conversar com eles... E eu nunca pensei que fosse sentir a falta deles, até que aconteceu o acidente... Na época, eu vivia para meu trabalho, assim como meu pai. Hoje acho que foi a única coisa que ele me ensinou, viver para o trabalho. Quando eles morreram, eu percebi que estava cometendo os mesmos erros que meu pai, então mudei minha vida completamente... Deixei um bom emprego e uma vida de luxo para viver uma vida mais simples...
Amanda ficou em silêncio por pelo menos um minuto, refletindo. Estava visivelmente melancólica e não era para menos.
- Sempre me lembro de um certo dia, quando estávamos esperando começar a reunião. Eu ainda tentava me enturmar com as outras irmãs, embora elas não me quisessem como amiga. Era uma noite de verão e fazia tanto calor!! Estava triste por causa de meu pai também, das brigas dele com minha mãe... Então apareceu uma nova pessoa no salão, um estudante. Ele era tão tímido... Assim como eu... E embora eu soubesse que ele era muito inteligente, ele nunca se vangloriou disto. Ele nunca tentou ser melhor que ninguém. Cada dia me surpreendo mais com ele, pois eu nem mesmo sabia que ele suportava sozinho a morte dos pais... Ele deve ser realmente forte por suportar isto de forma racional...
Lentamente virei meu rosto e olhei para aquela moça, que agora olhava para o chão.
- Sabe, este estudante... É por tudo isto que eu... que eu gosto tanto dele... E por isto estou tão feliz de estar perto dele...
Senti um frio na barriga, uma sensação que não poderia descrever... Uma parte de mim parecia não acreditar que estava acontecendo aquilo. Parecia irreal, fantástico. Esta parte cética precisava encontrar algo errado naquilo tudo.
- Amanda... como você poderia gostar deste estudante? Ele nunca atraiu ninguém, ele sempre foi feio e esquisito...
- Marvin... Esta beleza que você se refere é apenas um castelo de areia contruído na praia. Um dia vem a onda da idade e leva tudo. Mas a praia sem o castelo pode continuar sendo bela... E na verdade o que importa é a praia, não o castelo. Podemos fazer mais castelos, do jeito que quisermos, desde que a praia seja boa para isto. O que importa são as pessoas, as aparências mudam sempre. Talvez Jeová em sua grande sabedoria tenha permitido que as coisas fossem assim, para podermos entender que há muitas formas de beleza e que nem sempre o nosso imperfeito deixa de ser belo.
- Puxa, belas palavras... Nunca li algo assim na Sentinela...
- Hummmm... Não leu mesmo... São resultado de minhas reflexões. Eu gosto muito de pensar nas coisas da vida, mas não comento elas com ninguém, por que tenho medo de dizer besteira e ser repreendida.
A velha censura, muito peculiar às ditaduras. Ela não estava com medo de meras repreensões do tipo “você está errada neste ponto X”, mas daquelas acompanhadas por comissões e afins.
De repente, ela se levantou.
- Ei, tem mais um brinquedo que eu quero ir! Vamos?
Então ela me pegou pela mão e me puxou até os carrinhos de bate-bate. Havia muito tempo que não brincava em um destes. Peguei um preto e ela um azul. Logo que se iniciou, parti em direção a ela com toda a força que o carrinho poderia me oferecer. Bati com tanta força que ela até tombou para o lado.
- Ah, é assim, é? – disse ela com tom de revanche.
- Sim, é assim mesmo!
Ela não teve jeito de fazer nada, pois os moleques que estavam na pista se aproveitaram do fato dela estar meio presa para acabar de prendê-la. Dei a ré e fiz a volta na pista, para pegar embalo para mais um choque. Ela tentava ainda se livrar dos outros.
Enquanto isto, vários pensamentos passavam por minha cabeça. Todos eles se relacionavam com minha surpresa há pouco, nossa conversa. Eu sempre me senti sozinho e de alguma forma sempre quis resolver isto, sendo reconhecido por alguém. Até agora, não tinha tido sucesso. Por isto pensei que sempre seria um grande solitário cercado pela sociedade.
Mas com o tempo, percebi que eu estava errado. Eu não era um em um milhão, eu não era um tipo raro de pessoa. Na verdade, a grande parte do mundo é que é solitária. O mundo está cheio de pessoas tentando ser amadas, tentando ser reconhecidas. Não é para menos, pois a cada dia deixamos mais e mais de ser seres humanos. Nossa dor, nosso amor, nossa tristeza ou alegria não passam de algum tipo de reação química. Somos operários obrigados a fazer tudo que nossos patrões pedem por medo de sermos substituídos ou para mostrar (provar) que somos bons naquilo que fazemos. Somos brinquedos manuseados por crianças de 3 anos, soltando os pedaços. Ficamos sozinhos em nossa insignificância e assim como eu quis combater minha solidão com reconhecimento, todo mundo quis.
Por um momento quase acertei o carrinho dela novamente.
- Hahahaha, escapei!! – disse ela.
- Não por muito tempo!
Este combate da solidão então promoveu a maior onda de idiotices da história humana. Havia todo tipo de tentativa para se tornar famoso. Tinha gente com a capacidade de fazer músicas com duas notas musicais apenas. Letras de músicas obrigatoriamente tinham que estar relacionadas com sexo. Então começou a aparecer mulheres dançando ao lado deles... Alguém lançou a mania de apelidar mulheres de frutas e em pouco tempo não havia mais nome para usar (vocês deveriam ter conhecido a mulher jaca). Foi aí que começaram a pegar o nome de qualquer animal, planta, planeta, marca de cigarro... Tinha até a mulher Colgate, já imaginaram? Aquilo não parecia ter fim. Uma pobre mulher estava tentando bater o recorde já estabelecido de ser a mulher com mais silicone nos seios. Fico imaginando qual a razão disto. Talvez as milhares de mensagens de sua coleção de fãs pervertidos em todo o mundo a fizessem se sentir melhor. Devia ser muito triste chegar no seu quarto à noite e dar-se conta de que todo mundo é fã do seu silicone. Deveria ser muito triste alguém se esforçar tanto em seu trabalho para ser reconhecido pelos seus patrões, mas nunca receber sequer um obrigado.
- Ahá!!!! Te peguei, Marvin!
Era Amanda atingindo meu carrinho com grande força...
- Isto não vai ficar assim!
- Ah, você não vai mais me pegar!
Analisando estas tentativas, me dei conta que na verdade a simples busca pelo reconhecimento não valia de nada. Não era o simples reconhecimento, mas O Reconhecimento, aquele que se admira a pessoa de uma forma inexplicável, assim como não conseguia explicar o que senti ao ouvir Amanda me dizendo que gostava de mim. Então percebi que os dois de fato eram a mesma coisa, que eu acabei de achar o que procurava. Percebi que mais uma vez eu estava enganado... Pensei que saberia exatamente como era ser querido, mas me enganei completamente... Era um sentimento completamente diferente, incontrolável. Não era a resposta a um problema que eu encontrei, pois seria injusto tratar algo tão auto-suficiente em função de algo tão negativo.
Meu carrinho mais uma vez batia com força no dela, fazendo ela ir para frente.
- Hahahaha, eu te disse que te pegaria!
Logo a sirene tocou.
- Ah, isto não é justo!! O tempo já acabou!!
Lentamente nos levantamos dos carrinhos e saímos da pista. Eu estava feliz pela alegria dela.
- Hehehehe, isto foi muito legal!!! Mas infelizmente nós temos que ir... Não avisei meus pais que eu ficaria tanto tempo fora, e já são sete horas... Eu só gostaria de ir em mais um brinquedo...
- Ah, é? Qual?
Então ela apontou para o velho e bom trem fantasma que estava no canto do parque, convidando a todos para visitá-lo. Do lado de fora tocava Thriller e me lembrei que o cantor um dia foi testemunha de Jeová também... Certamente por isto que ele declarou não defender o ocultismo com esta música... Eu diria que os fantasmas assombram mais as testemunhas de Jeová do que as pessoas comuns.
- O trem fantasma? Humm, não me parece muito assustador, parece mais para crianças...
- Ah, mas eu sempre quis ir em um... Vamos, vamos??? – insistia ela como alguém que quer finalmente desfrutar de um prazer totalmente proibido.
- Está bem, então vamos.
Como eu esperava, o trem fantasma não era tão assustador assim. Eles assustavam mais quando eu era pequeno. Mas devo confessar que eles conseguem produzir efeitos muito bons. Foi ótimo reviver tudo aquilo. Foi ótima a companhia. Mas o melhor de tudo aquilo é que esta história era minha. Não era a história de ninguém. Eu não precisei me basear na história de ninguém, não esperava que fosse igual à história de ninguém.
Saímos do brinquedo e nos dirigimos à saída. Caminhávamos devagar, como que curtindo o caminho de volta. Ela olhava para baixo, pensando em alguma coisa que eu não sabia o que era. Eu, a olhava pelo canto dos olhos, às vezes diretamente. E aconteceu que ela percebeu que eu a olhava de maneira diferente e ficou um pouco tímida...
- O...O que foi, Marvin?
- Sabe, o que você me disse antes... O quanto você gosta deste estudante?
A vergonha dela aumentou bastante com a pergunta e eu pensei que ela não iria me responder. Logo percebi sua respiração mais forte.
- ... mais do que você imagina... muito mais.
Logo pegamos o ônibus, dirigindo-nos para casa. Ficamos um bom tempo calados durante a viagem, sérios, pensativos... O que acontecia? O que ela estava pensando agora? O que eu faço?
Feriado prolongado, sete horas da noite... Este tipo de combinação fazia bairros inteiros ficarem desertos. E nunca em toda a minha eu tinha visto a rua da casa de Amanda tão perfeitamente deserta. Não havia ninguém ali, especialmente testemunhas de Jeová. Paramos em frente ao portão de Amanda.
- Marvin... Muito obrigado de novo por tudo... Eu gostei demais do passeio.
- Eu também gostei muito, Amanda...
Ela sorriu.
- Que bom... Então.... Boa noite, Marvin.
- Boa noite... Amanda...
Então ela lentamente caminhou até a porta. Eu tinha que fazer algo.
- Ei, Amanda, espere.
Corri até ela. Ficamos cara a cara.
- Eu preciso te dizer uma coisa.
- Precisa? O quê?
Como eu tinha mencionado no início, era setembro. Não havia muita chuva nesta época. O céu estava sem muitas nuvens, por isto podia-se ver as estrelas iluminando o céu. E como havia estrelas! Como a lua iluminava tão bem aquela noite! Mesmo assim, algumas partes daquela rua ainda ficavam um pouco escuras, envolvendo tudo em mistério.
Não havia ninguém além dela e eu. Coloquei minha mão esquerda em seu rosto suavemente, enquanto a direita segurava seu ombro. Não lhe disse nada, pois eu sabia que um ato vale mais do que mil palavras. O beijo que lhe dei, este disse tudo.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

As Crônicas de Marvin - 13

A fonte

O ponto de ônibus ficava em uma pequena praça perto da casa da Amanda. Era uma pracinha muito visitada pela vizinhança. Chegando ali, avistamos uma figura familiar.
- Irmã Priscila? – perguntei.
- Olá, irmãos. – respondeu, sorrindo – Onde estão indo?
- Bem, nós vamos visitar a congregação Alto da Glória. Vamos conversar com o ancião e a esposa dele... – respondeu Amanda.
- Ahh... Vejo que já estão “trabalhando” logo cedo, não é irmã?
As duas sorriram, mas Priscila estava um pouco séria. Então, se voltou para mim, dizendo:
- Irmão, eu não tive a oportunidade ainda de me desculpar...
- Por quê, irmã?
- Bem, no domingo, lá na festa... Eu não tive escolha, senão ir ver o que o Aldo queria... Sabe, quando éramos noivos... Eu gostava muito dele...
Entendo... A dúvida que ela demonstrou ter na verdade era um sinal... Sinal que ela ainda gostava dele de certa forma.
- Tudo bem, irmã... Então, descobriu o que ele queria?
- Bem, você ouviu o irmão Estêvão... Ele queria voltar comigo...
- Voltar? – exclamou desta vez a Amanda...
- Sim, irmã... Ele queria voltar comigo...
- Mas você não me disse na festa que ele te achava um pouco alegre demais? – Perguntei...
- Sim... Mas ele estava me dizendo ontem que se eu tinha sido escolhida para ajudar duas pessoas tão importantes como você e o irmão Estêvão, então ele deveria ter feito um mal julgamento...
- Interessante... Ele não chegou a esta conclusão simplesmente te observando, mas por que duas pessoas importantes confiam em você?
- Hummm, é...
Realmente o cara era um imprestável...
- Olha, tome cuidado com suas decisões... Pense bem antes de tomá-las...
- Tudo bem, irmão... Eu vou tomar... Bem, vou deixar vocês pegarem seu ônibus, senão vocês vão se atrasar, hehehe...
Assim ela se despediu de nós e continuou seu caminho, enquanto eu e Amanda acabamos de chegar até o ponto. Não esperamos muito tempo. Logo estávamos sentados no ônibus, em direção ao Alto da Glória, enquanto aquele veículo nos seguia.
- Humm... Marvin?
- Sim?
- O que tem nesta mochilona aí?
- Ah, são algumas coisinhas que eu sempre carrego... Nada demais.
Eram meus instrumentos de “tortura”. Estava disposto a arrancar algo daquele ancião, custe o que custar...
- Ah... Você gosta de carregar muita coisa, não é?
- Hehehe, sim... Não consigo sair de casa sem meu computador... É como se eu saísse sem roupas, sei lá...
Por que vigiavam Amanda? Isto estava ficando cada vez mais estranho... Ela não fazia mal a ninguém, o dia que tinha chamado mais atenção foi no último domingo...
Ela olhava para mim, com um pequeno sorriso no rosto, mas um olhar levemente melancólico, como que procurando puxar conversa.
O último domingo?
Agora eu entendia... Apesar de tudo, o tempo que fiquei junto com Amanda, o fato de levá-la para casa constituía, para o padrão das testemunhas de Jeová, um namoro... E como alguém tão próxima de mim, agora ela era digna de ser vigiada... E eu ainda não entendia os motivos disto, mas não era boa coisa...
Dificilmente eles fariam algum mal a ela do tipo físico, como bater ou sequestrar. Mas certamente não hesitariam em fazer pressão psicológica, algo que eram especialistas em fazer. E Amanda já possuia uma vida muito conturbada para passar por mais esta.
Mais uma vez eu consegui arrumar problemas para uma pessoa que não merecia. Tudo por causa da minha sede de vingança. Justo agora que eu estava conseguindo consertar o meu primeiro erro... Eu não faço nada certo mesmo... Eu podia ter pensado melhor nas consequências... Mas fui fazendo tudo de supetão, como sempre...
Não sei se poderia olhar para aquele rosto que agora sorria para mim da mesma forma que antes... Fiz tudo errado...
- Marvin?
- Sim?
- Aconteceu alguma coisa? Você está muito sério... Foi o que a irmã Priscila falou?
- Ah... Não... Não foi isto não...
Na verdade a Priscila nem passava na minha cabeça naquele momento... Então, decidi tomar coragem:
- Amanda... Eu queria te pedir desculpas...
- Desculpas? Por quê?
- Hummm, olha, é um pouco complicado... Eu fiz algo há algum tempo atrás e de uma forma indireta, acabei trazendo problemas para você...
- Você fez algo? Mas o quê você fez?
Olhei nos olhos dela, mas não podia contar a verdade... Ela me odiaria...
- Bem, eu não posso te dizer o que fiz. Não agora...
- Não... pode...?
- Eu sei que é estranho... Confie em mim. Eu vou cuidar de tudo... Só estou te pedindo desculpas, pois eu queria te avisar que talvez algo ruim possa acontecer a você... Saiba que eu estarei sempre do seu lado e vou te ajudar...
Estas palavras a fizeram sorrir de forma tímida... Sim, eu estava disposto a protegê-la. Eu devia isto a ela. Eu queria proteger aquele tímido sorriso...
- Marvin...
- Sim?
- Não se preocupe... Eu te perdoo, Marvin... Embora eu ainda não saiba o que está acontecendo ou o que vai acontecer, eu te perdôo... É fácil dizer isto agora, mas eu espero que se algo ruim acontecer mesmo, eu consiga superar tudo... Vou fazer o máximo para superar... Pois eu sei que ninguém é perfeito, que uma hora ou outra, até as pessoas que eu mais gosto podem me magoar... Não espero perfeição de você, espero arrependimento... E isto eu já vejo em você...
Senti como se um peso fosse tirado de meus ombros... Ela continuou...
- Além do mais, somos ensinados a perdoar setenta vezes sete... A oração do Pai-Nosso que é nosso modelo nos diz para pedirmos perdão assim como perdoamos aqueles que nos ofende... Há até uma parábola que mostra a ingratidão de um homem, que embora perdoado, não perdoou aqueles que o deviam... Que tipo de cristã eu seria se não te perdoasse?
Esta eu sei: uma testemunha de Jeová!! E era exatamente por isto que eu estava assombrado... Ela se lembra de todos estes pontos, mesmo sendo uma TJ. Ela não parecia fazer parte daquele mesmo grupo das comissões judicativas, tratamentos a apóstatas e coisas do tipo. Ela era estranhamente normal, normal demais para ser uma testemunha de Jeová...
Neste momento estas palavras de Jesus Cristo ecoavam em minha mente:

No entanto, eu vos digo: Continuai a amar os vossos inimigos e a orar pelos que vos perseguem; para que mostreis ser filhos de vosso Pai, que está nos céus, visto que ele faz o seu sol levantar-se sobre iníquos e sobre bons, e faz chover sobre justos e sobre injustos. Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem também a mesma coisa os cobradores de impostos? E, se cumprimentardes somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem também a mesma coisa as pessoas das nações?

Entendendo que quem eles chamam de apóstatas fossem os piores inimigos das testemunhas de Jeová, qual deles jamais demonstrou alguma forma de amor por eles? Digo que muito poucos e isto de forma escondida, para não serem descobertos... Na verdade, elas imitam as pessoas das nações, elas são parte do mundo, coisa que elas abominam em suas reuniões secretas de auto-valorização... Devo admitir que a resposta que dei há pouco está errada... As testemunhas de Jeová não são cristãs, elas não se classificam como escolha possível para a resposta...
- Obrigado, Amanda... Nem sei o que dizer...
- Diga algo alegre... Esqueça isto, temos coisas melhores para nos preocupar...
Logo chegamos ao local. Descemos do ônibus e seguimos algumas ruas pequenas, que levavam ao salão do Reino daquela localidade. O carro que nos seguia agora estava mais longe, para não chamar muita atenção.
O salão do Reino ali era bem organizado. Aquela região era diferente da nossa, pois os moradores ali geralmente possuíam melhores condições. Enquanto tínhamos cadeiras de plástico, as cadeiras ali eram cadeiras próprias para auditórios. O jardim bem cuidado, portas e janelas de primeira qualidade... Era tudo diferente. Na porta, o sorridente ancião esperava, com sua esposa...
- Irmão Rogério! Como vai?
- Estou bem, irmão Marvin. Esta aqui é minha esposa.
- Muito prazer. Eu sou Marvin, esta é a irmã Amanda, que está me auxiliando...
Entramos para o salão do Reino. Lá dentro, as duas ficaram conversando, enquando o ancião me mostrava as instalações.
- Bem, irmão, como você sabe, eu estou iniciando minhas visitas às congregações que me parecem com problemas entre os irmãos... Me conte sobre sua congregação...
- Irmão Marvin, eu até ia comentar que fiquei um pouco surpreso quando o senhor me ligou... Não imaginava que houvesse problemas dignos de sua visita a esta congregação...
- Bem, irmão, se você não sabe, quem mais poderia saber? Mas gostaria de conversar com você em algum lugar reservado, onde as irmãs não pudessem nem escutar, nem nos ver... Não quero alarmar ninguém, entende?
- Hummm, acho que entendo sim, irmão. Venha, aquela sala ali deve servir...
Então caminhamos para a sala que o irmão Rogério me apontou. A porta se fechou. Sentamos, então olhei para os olhos do ancião e disse:
- Irmão, eu sei que há um problema sério em sua congregação quanto às horas no serviço de campo...
- Quanto às horas? Mas irmão, aqui muitos dos irmão estão cumprindo tudo direitinho... São muito poucos irmãos que não as cumprem e eu já até chamei a atenção deles...
- Não estou falando disto, irmão, mas de um problema muito mais grave...
- Mais grave?
- Sim. Estou sabendo que alguns irmãos estão ganhando horas de serviço de campo em troca de favores...
Eu vi então o ancião ficar branco em minha frente...
- Como assim?
- Ora, irmão, você não sabe disto? Eu sei que alguns irmãos desta congregação andam me vigiando, em troca de alguns benefícios... Como ganhar horas a mais de serviço de campo... Eu pessoalmente consideraria isto um problema gravíssimo, mas pelo visto você, irmão, não compartilha da mesma opinião...
Mais uma vez o vi engolir seco... A primeira reação seria negar tudo e se fazer de vítima...
- Não, irmão, você está enganado... Não está acontecendo nada disto não... Por que o irmão está pensando isto de mim? Sempre fui zeloso em minhas obrigações para com a Congregação...
Hora do blefe...
- Irmão, por acaso você percebeu com quem está conversando?
- Como assim, irmão?
- Você está tentando me enganar, como se eu fosse uma pessoa comum. Se eu não tivesse recebido um dom especial, eu jamais teria descoberto todo este esquema ilícito de vocês... Eu por exemplo sei que vocês enviam os irmãos para me vigiar e eles contam tudo para vocês, ligando para seus celulares. Tenho certeza absoluta que você se lembra muito bem do quê aconteceu com Ananias quando tentou enganar o apóstolo Pedro... E tenho certeza também que você também se lembra do texto de primeira Crônicas, capítulo 16, versículo 22 que diz: “‘Não toqueis nos meus ungidos, e não façais nada de mal aos meus profetas”.
Pela cara de espanto que ele fez, ele se lembrava muito bem do acontecido...
- Ah... Me... Me desculpe, irmão... Eu... Eu não queria...
Ufa, ele caiu na minha história... Não me levem à mal... Eu não sou nenhum tipo de pastor pentecostal que fica brincando de Mandrake na tribuna. Por isto peço a Pedro desculpas pela comparação grosseira... O problema destes pastores é que eles fazem seu show para promover a si mesmos... Curas milagrosas, exorcismo, unção de X (substitua X por qualquer coisa que pareça santa), geração de ruídos aleatórios (que eles chamam tecnicamente de falar em línguas), tudo isto nada mais é do que uma campanha de marketing para mostrar para todo mundo que eles são mesmo poderosos. São como grandes curandeiros de terno que atendem à distância. Também não chegava a ser como os “apóstolos” da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que previam apenas aquelas coisas que ninguém dava a mínima importância (ninguém além dos mórmons). Eu não era profeta coisa nenhuma, mas precisava que eles acreditassem que eu era, para cumprir meus objetivos. E eu fiquei feliz por ele ter acreditado em mim, pois se ele continuasse a mentir e não morresse por isto, certamente ele morreria por outra coisa: raiva.
- Muito bem, me conte o que sabe sobre esta história...
-Está bem, irmão... Tudo começou no fim de semana passado...
- Começou?
- Sim. Recebemos logo cedo uma ligação. Eu não fui o único ancião a ser contactado... A pessoa dizia que era uma ligação de Betel.
- Betel????
- Isto mesmo. Betel. A pessoa não se identificou, embora eu pedisse isto.
- Hummmm... Interessante... Continue.
- Pois bem, ele me deu ordens para vigiar seus passos... Tudo que você fizesse de suspeito era para ser relatado.
- Ele te disse os motivos para isto?
- Não... Sabe, a pessoa foi bem autoritária. Sempre que eu perguntava, ela dizia que se eu não fizesse o que eles me pediam, minha reputação com o Escravo ficaria manchada... Eu não queria que isto acontecesse, então resolvi ajudá-los.
- E então, você mandou os irmãos me vigiarem, a troco de algumas horas no serviço de campo...
- Sim. Eu tive autorização direta deles...
- Mas como você pôde acreditar em alguém falando por telefone com você? Você não pensou que poderia ser um trote?
- Pensei sim, irmão... Mas aquela voz me convenceu que não era...
- Como assim?
- Bem, eu ainda falava com ela por telefone, quando ela me pediu para verificar na minha caixa de correio, uma ordem de Betel para fazer este serviço.
- Sério?
- Sim. Eu fui até minha caixa de correio e lá estava a carta. Agora não a tenho em mãos, mas está lá em casa. Dizia para observá-lo, que esta era uma questão de segurança... E que eu jamais contasse isto para ninguém...
Assombroso... Eu jamais poderia imaginar que alguém de Betel estivesse envolvido nisto...
- E o que você fazia com a informação que obtinha?
- Eu enviava um relatório por email. O endereço para qual eu devia enviar mudava de três em três dias. De três em três dias eu receberia um email, com o novo endereço para o qual eu deveria enviar os relatórios...
- Muito esperto... Fica mais difícil rastrear assim...
- Sim, eu acho que sim...
- Mais uma coisa... Por que estão vigiando a irmã Amanda?
- Bem... Recebemos esta ordem hoje de manhã... Não nos deram mais detalhes, só disseram para fazermos o mesmo com ela.
- Muito bem, irmão... Coisas deste tipo são muito vergonhosas para um ancião... Eu poderia até desassociar você por isto...
- Gulp... Irmão, me perdôe... Eu não queria fazer isto, mas eles me ameaçaram...
- Hum, está tudo bem, irmão. Eu entendo isto e te perdoo... Mas quero te pedir um favor...
- Qual é?
- Eu quero que continue a fazer o que estava fazendo, até eu descobrir quem está envolvido nisto. Se você parar agora, eu jamais descobrirei... Não quero que fale a ninguém sobre nossa conversa hoje.
- Ah, pode deixar, irmão!!! Eu não vou contar para ninguém de nossa conversa... Eu espero que não fique com raiva de mim...
- Tudo bem. Eu já disse que te entendo. Mas eu preciso descobrir quem é esta pessoa.
Assim, saímos da pequena sala, para encontrar as duas mulheres. A esposa do ancião ria alto, contando as histórias daquela congregação para Amanda, que apenas sorria.
- Muito bem, acho que nossa visita aqui foi muito produtiva. Tenho certeza que os irmãos desta congregação estão muito bem representados. – comentei.
- Muito obrigado, irmão. – disse o ancião, um pouco desanimado.
Que tipo de segredo haveria em Betel? O que estavam procurando? Finalmente começava a ter alguma pista sobre este assunto... Tive que jogar o jogo deles, tive que mentir, tirar versículos de contexto, fingir... Manipulei versículos a meu favor... Me perguntava até onde esta minha vingança me levaria... E embora tivesse sido perdoado de antemão pela Amanda, eu ainda me via culpado por trazer problemas à sua vida... Ela estava ali, despreocupada, não imaginava que estava sendo vigiada... Não queria trazer sofrimento para ela, mas alegria...
Alegria...?
Isto me deu uma idéia... Mas primeiro, precisava resolver um probleminha... Cheguei perto do ancião e cochichei no seu ouvido:
- Irmão, me faz mais um favor... Dá um jeito naquele irmão que está nos seguindo, por favor... Só desta vez... Me dá nos nervos ser seguido... Inventa alguma coisa...
- Está bem, irmão... – respondeu ele, também cochichando.
Caminhamos então até a porta, onde nos despedimos do casal. Quando começamos a caminhar de volta para o ponto de ônibus, ouvimos a esposa do ancião dizer ainda:
- Puxa, eu não sei se já disse para vocês, mas eu realmente acho que vocês dois formam um belo casal...
Tal comentário me fez voltar o rosto para ela e olhá-la cara a cara.
- Como é que é?
- É irmão! Vocês formam um belo casal... São tão bonitinhos...
- Irmã... – respondi.
- Sim, irmão?
- Você fala demais!
Me virei novamente e continuei a caminhar, junto da Amanda.
- Hehehehe, a irmã é mesmo engraçada, não Marvin? – perguntou Amanda.
- Hummm, ela é bisbilhoteira, isto sim...
- Ah, deixa ela pra lá... É o jeito dela... Além do mais, agora vamos para casa descansar e...
- Hehehehe, não vamos para casa ainda... – respondi com um sorriso.
- Ah, não? E vamos onde então?
- Bem, isto é uma surpresa.
- Uma surpresa? Mas Marvin, que tipo de surpresa seria? Pois tem um irmão nos vigiando desde que saímos lá de casa...
Esta declaração me surpreendeu.
- Ah, então você percebeu isto também?
- Sim, percebi... Devem estar doidos para saber se há algo entre nós.
- É, devem mesmo... Mas não se preocupe com isto, logo ele vai nos deixar...
Ela olhou disfarçadamente para o lado onde o irmão estava. Ele falava ao celular e logo que desligou, deu a partida no carro e foi embora.
- Puxa, Marvin. Como você sabia disto?
- Ah, eu tenho os meus meios, hehehehe...
- Hummm... Eu diria que foi bem impressionante... Mas então, vamos onde mesmo?
- Já disse que é uma surpresa... Acho que você vai gostar. Confie em mim...

segunda-feira, 6 de julho de 2009

As crônicas de Marvin - 12

Ameaça

Ponto de vista alternativo, 7 de setembro de 2051, 23:00

- Vigiar a moça? – perguntou um dos homens encapuzados.
- Sim. Quero saber mais sobre o envolvimento dela com o rapaz... Não será necessária uma vigilância reforçada como no caso dele... Só descubram mais sobre ela... Se ela possuir um relacionamento forte com ele, poderemos usá-la para conseguir o que queremos dele... Agora ele deve estar desconfiado, será mais difícil segui-lo. Será muito mais difícil descobrir como ele faz aquilo...
Por um breve momento, todos ficaram em silêncio. O velho ditado que dizia “quem cala consente” caia muito bem para a ocasião. Moshe então mudou de assunto...
- Não podemos mais perder membros... Temos que interromper os planos daquele jovem, antes que seja tarde. Yekhezqe'l, você sabe o que fazer, não?
- Sim, Moshe. Está tudo dentro do cronograma.
- Pois bem, prossiga conforme o combinado.
- Você acha que vai funcionar, Moshe? – indagou uma das figuras.
- Bem, acredito que o rapaz não terá coragem de desfazer nada do que fizermos. Colocaria em risco o próprio plano dele. E pelas nossas informações, este seria o plano principal do rapaz, não é Eliyahu?
- Isto mesmo. – respondeu brevemente uma daquelas figuras.
- Pois bem, se anularmos o efeito causado por ele, teremos bastante tempo para planejar os próximos passos. Portanto, Yekhezqe'l, não falhe. Nosso sucesso depende de sua atuação.
- Pode deixar comigo, Moshe.
- Bem, senhores, acredito que por hoje seja só. Se mais alguma coisa surgir, convocaremos outra reunião. Vigiem o jovem e a moça até definirmos nossos planos para eles. Qualquer movimento suspeito, me avisem. Estão dispensados.
Então, lentamente aquelas figuras se afastaram, desaparecendo nas sombras. Mais uma vez a figura principal ficou para trás. Olhava para os céus, talvez pensando no futuro...

Ponto de vista de Amanda, 8 de setembro de 2051, 10:00

Não havia nada melhor que um feriado prolongado para recompor as energias de uma pessoa. Parecia até que o céu ficava mais azul, os pássaros cantavam mais e os problemas... Ah, quais problemas?
Não era todos os dias que se podia dormir até mais tarde. E como eu estava aproveitando aquilo! Levantei preguiçosamente de minha cama e ainda usando meus pijamas, fui buscar alguma coisa para comer.
Não havia ninguém em pé ainda. Papai ficou até tarde bebendo para variar e mamãe provavelmente ficou esperando ele. Tadinha... eu que sou filha não consigo suportar isto às vezes, imagino como ela se sente... Ver o homem que ama se acabar mais e mais...
O homem que ama...
Lembrei-me dos motivos de minha felicidade naquela manhã, os mesmo motivos que me deixaram feliz toda aquela semana... Não era somente o feriado prolongado que me deixava assim, como uma pessoa estranha poderia dizer ao me ver...
Enquanto tomava o café, eu revisava os detalhes daquele dia, como um filme... Me lembro que não estava muito animada para uma festa. Não tinha com quem ir, com quem conversar... Mas eu quis pelo menos ter a oportunidade de vê-lo. Talvez conseguisse falar com ele? Não tinha muitas esperanças disto acontecer, por isto quando eu o vi conversando com a irmã Priscila, imaginei que tinha cometido um grande erro... Eu jamais imaginaria que ele ficaria o resto da noite comigo...
Estava mergulhada em meus pensamentos, quando me lembrei que deveria ir ao mercado para comprar algumas coisas que mamãe me pediu, para o almoço. Então resolvi agir, pois já estava tarde. Terminei meu café, me troquei e saí.
O mercado não era muito longe de casa. Para chegar lá, eu tinha que passar por uma pracinha, onde em dia de feriado, muitas crianças brincavam com os pais. Não havia uma vez que eu passasse por ali e não sorria ao ver aquelas crianças brincando e desta vez não foi diferente. O filho dos meus vizinhos era o mais engraçadinho, brincando com um carrinho na areia. Estava distraída vendo ele brincar, quando percebi que duas irmãs vinham em minha direção.
- Bom dia, irmãs! – disse eu sorrindo.
No entanto, elas sequer me olharam. Já estava me acostumando com esta atitude, mesmo assim eu quis acreditar que poderia arrancar um cumprimento delas. Eu estava realmente de bom humor naquele dia.
- Irmãs? Bom dia! – disse mais uma vez, mas agora me aproximando delas.
Foi então que elas, me olhando com aquela cara de desprezo, me responderam:
- Bom dia, irmã. – responderam, como se a resposta fosse algo muito prejudicial a elas.
- Ei, o que houve? Por quê vocês estão assim?
Elas se entreolharam, como se perguntassem “qual é a dela?”, então uma delas disse à outra:
- Irmã, eu não entendo o quê o irmão Marvin viu nela...
- Nem eu...
E continuaram a caminhar, me deixando sozinha ali. Aquele tipo de coisa doía tanto, que me deu vontade de chorar. Só não fiz isto pois estava naquela praça ainda. Em um instante, minha alegria foi derrubada... E aquela não era a primeira vez.
Assim que Marvin se tornou um destaque, as irmãs começaram a olhar para ele de maneira diferente. Ele havia se tornado um “bom partido”. Eu senti naquele Congresso mesmo que eu não poderia mais me aproximar dele e isto me entristeceu. Não esperava encontrar ele no ônibus na saída, talvez por isto ele tenha percebido minha tristeza... Uma tristeza não só por ficar difícil me comunicar com o novo profeta de Jeová, como dei a entender para ele... Agora, se eu me aproximasse dele, seria desprezada por estas irmãs. Eu seria uma rival.
Assim que ele me pediu para ajudá-lo, eu comecei a sentir este desprezo. Já não me convidavam muito para festas e eventos, ninguém conversava comigo direito... Depois disto, fui completamente isolada. A irmã Priscila também sofreu com isto, mas ela tinha muito mais amigas que eu, então ela não ficou tão sozinha. Talvez por isto a “estratégia” contra ela tenha sido totalmente diferente... As irmãs estavam usando o fato dela fazer um curso superior contra ela, dizendo que uma moça que se preocupa mais com as coisas do mundo do que com as de Jeová, não merecia ajudar os dois profetas... Para não dizer casar, que só não era dito, pois objetivos das irmãs com aquelas críticas ficariam claros demais...
Assim, ao mesmo tempo que nos ignoravam, também faziam de tudo para impressionar os dois irmãos. O irmão Estêvão parecia estar mais à vontade com elas. O Marvin era diferente. Eu sei que ele só tinha olhos para a irmã Priscila e isto no fundo dói um pouco... Mas por outro lado, eu ficava feliz pois por causa disto, ele parecia nem perceber o mico que as irmãs pagavam para chamar a atenção dele, como dançar quase na cara dele, olhando para ver se ele percebeu... Só faltava chamar ele com o dedinho indicador... Como dizia minha tia, “o tal homem é um bicho besta mesmo... Quando vê um rabo de saia...”
E agora, fui totalmente ignorada. As irmãs sequer falaram comigo. É como se elas falassem de uma outra pessoa... Como é que irmãs de fé podiam fazer isto? É difícil acreditar que algo assim acontecia...
Me sentei em algum dos bancos da praça, enquanto pensava sobre tudo aquilo... Nos absurdos, na humilhação... Como? Dei um tempo, então segui meu caminho... Mas estas coisas não saíam da minha cabeça, mesmo durante as compras no mercado... Quase esqueci o troco.
Quando saí do mercado, vi um carro parado do lado de fora. Nele estava uma pessoa que eu conhecia de algum lugar. Mas de onde? Não estava conseguindo me lembrar... Ah, sim. É um irmão, mas de outra congregação... O coitado morava longe, certamente estava procurando a casa de algum irmão e ficou perdido por aqui. Então resolvi conversar com ele, pois eu poderia ajudá-lo com algum problema.
Comecei a me dirigir ao carro. Isto ele percebeu. O estranho foi que ele deu a partida no carro e saiu depressa... É como se não quisesse falar comigo... Eu poderia até entender que as irmãs fizessem isto, mas um irmão de outra congregação? O que estava acontecendo?
O que estava acontecendo com os irmãos? Agora não estava entendendo mais nada. Cheguei em casa muito confusa, com vontade de chorar... Estava sozinha... Depois de uns 20 minutos, o telefone tocou. Eu sabia que não era para mim, ninguém nunca liga para mim mesmo. Quem atendeu foi minha mãe. E fiquei surpresa, ao ouvir minha mãe me chamando:
- Amanda, telefone para você!
- Já vou, mãe.
Enxuguei meu rosto, e fui atender.
- Alô?
- Alô, Amanda... Como vai?
Aquela voz... Eu a reconheceria de qualquer lugar...

8 de setembro de 2051, 10:00

Mais uma vez estavam lá fora. Durante toda a semana eu estive sendo observado.
Eram três carros diferentes, segundo pude notar. E nenhum deles mora na mesma região. Porém, era sempre regiões distantes de onde eu moro, provavelmente para que eu não reconheça ninguém. Muito esperto.
Isto eliminaria a hipótese de que um ancião estivesse me monitorando. Talvez um trabalho em equipe, ou então um trabalho do Estêvão. Preferia nem pensar nisto.
Eu poderia perguntar a Estêvão se ele está me vigiando. Mas eu tinha certeza que ele me negaria, mesmo que estivesse mesmo vigiando. Não tenho meios de persuadi-lo a me responder.
Já tentei me aproximar dos carros, mas eles sempre fugiam. Apesar de ter buscado as informações deles pelo site do DETRAN, não adiantaria nada chegar na residência deles e intimá-los a me responder. Simplesmente me negariam tudo, como fizeram os dois rapazes na festa. Eu precisava pegá-los em flagrante...
Na rua, além deles, havia apenas um garoto brincando com uma espécie de carrinho de controle remoto. Bom, pelo menos era isto o que o homem que me vigiava estava imaginando. Mal sabia ele que eu havia pedido para o garoto brincar com um carrinho que por fora parecia com um de meus projetos.
Assim, enquanto um dos carrinhos de controle remoto aparecia na rua, bem no campo de visão daquele homem, outro se aproximava cada vez mais do veículo. Não foi muito difícil colocar o carrinho em baixo do carro.
Os carros mais novos no ano de 2051 já vinham todos com o barramento CAN, que integrava todo o sistema do veículo. Para minha sorte, um dos três veículos era relativamente novo. Aproveitei que o turno deste carro era hoje, dia de feriado, para conseguir algumas respostas.
O desenvolvimento da robótica nos últimos anos também foi espetacular. Há 50 anos atrás eu não poderia construir um braço mecânico tão preciso. Com uma câmera na ponta, e com a capacidade de se expandir, guiei o braço até encontrar o ponto certo. Tinha que ser rápido, nunca poderia prever quando aquele homem decidiria partir. Mas mesmo com toda a complexidade da operação, eu obtive sucesso. Agora tinha acesso a todo o sistema do carro.
No carro, o observador despreocupado olhava para a minha casa. Às vezes prestava atenção na brincadeira do garoto. Ele sempre quis um daqueles quando pequeno. Levou um susto, quando o rádio do carro dele ligou, sintonizado na rádio Terra, que por coincidência (bem, eu esperei a música chegar neste ponto) tocava:

A coisa tá feia, a coisa tá preta
Quem não for filho de Deus tá na unha do Capeta...


Ele se assustou enormemente. E quem não se assustaria? Não entendendo nada, ele desligou o rádio. Em vão, já que este ligaria novamente...

Se o picasso fosse vivo ia pintar tabuleta
Bezerrada de gravata vê se cuida e não se meta
quem mamava no governo agora secou a teta


Mais uma vez sem entender, ele desligou o rádio. Olhava desconfiado para aquilo, pensando o que poderia estar acontecendo... Outra rádio tinha uma música muito legal! Compartilhemos...

"Cheguei, hein ! Estou no Paraíso!
Que abundância meu irmão!"

Conheci uma menina que veio do sul
Pra dançar o tchan e a dança do tchu tchu
Deu em cima, deu em baixo,
na dança do tchaco
E na garrafinha deu uma raladinha
Agora o Gera Samba mostra pra vocês
A dança do bumbum que pegou de uma vez

Ele não deixou chegar ao refrão, que era o momento mais edificante da música. É uma pena. Bem, eu já o preparei psicologicamente. É hora do show.
De uma vez, todas as travas do veículo foram acionadas, enquanto os vidros subiam. O homem até tentou destravar o carro, mas a funcionalidade já havia sido desligada. Estava preso lá dentro. Imediatamente o veículo começou a jogar água no parabrisas, depois os limpadores começaram a limpá-lo.
Ele então deu umas pancadas no painel... Claro, se seu limpador de parabrisas ligar sozinho é problema de mau contato... O carro revidou a violência, ligando o ventilador na cara dele, com potência máxima. Desesperadamente o rapaz tentava mudar a direção do vento.
Como nada dava certo, ele deu a partida no carro. Foi inútil, a primeira coisa que eu fiz foi desligar a ignição. Então liguei o rádio, que na hora tocava alguma coisa como “Ado, ado, ado, cada um no seu quadrado”, em volume máximo. Quando o pisca-alerta ligou, já havia um punhado de gente olhando. Esperei um pouco mais de gente ficar olhando, para depois disparar a buzina. A esta altura do campeonato, todo mundo já o tinha como louco.
A sorte daquele rapaz é que não é muita gente que conhece o código Morse hoje em dia. Pois qualquer um que o conhecesse saberia que os sinais de luz alta que o carro fazia convidava as mulheres para programas e outras coisas indecorosas que não me atrevo a repetir por aqui.
Então de repente, tudo parou. Ele continuou trancado lá dentro, mas as coisas estranhas não estavam mais acontecendo. Então, liguei meu transmissor FM. Ele tinha potência necessária para transmitir para o carro. Sintonizei o rádio do carro para a frequência que estava usando e comecei a transmissão:
- Eu sei que vocês estão me observando, rapaz... E eu acho que agora você sabe o quê acontece com aqueles que me desafiam... Ou você acha que sou uma pessoa comum? Portanto, ou você me conta agora por quê está fazendo isto e quem te mandou, ou você sofrerá consequências mais sérias do que uma simples pane no seu veículo... Quando estiver disposto, bata três vezes no vidro de seu carro.
Imediatamente ele bateu umas dez vezes. Parece que ele vai cooperar. Desci um pouco o vidro do carro e fui até ele.
- Muito bem, rapaz. Me conte o que sabe...
- Irmão, sinto muito, eu não queria...
- Olha, se você me disser o que está havendo, eu te perdoo... Então me conte logo...
- Irmão, eu não sei de muita coisa não. Os anciãos nunca deixaram nós sabermos os motivos. Sempre que perguntamos, eles dizem que é sigiloso.
- Então, vocês se reportam aos anciãos?
- Sim, irmão.
- E fazem isto por celular?
- Não, usamos o celular apenas para nos comunicar durante nossa observação. Não é bom que uma pessoa apenas vá atrás de você, você descobriria mais fácil.
- Bem, acabei descobrindo... E vocês ligam para quem?
- Geralmente para nossos anciãos. Eles dão um jeito de atualizar as informações entre si.
- Humm, interessante. E eles, estão agindo em conjunto?
- Irmão, me parece que eles receberam a ordem de outra pessoa, mas eles nunca dizem quem é.
- Hummm... E por quê raios vocês aceitaram seguir ordens de forma tão cega assim?
- Bem, irmão, eles prometeram nos dispensar de muitas horas de pregação...
- Como é que é?
- Isto mesmo. Todo mundo que está ajudando a te observar está dispensado do serviço de campo.
- Deixe-me ver se entendi... Vocês estão fazendo barganha com o serviço de campo? Pensei que vocês se preocupassem com as pessoas que não conhecem a Verdade...
O rapaz baixou a cabeça, em sinal de vergonha. Mas geralmente a última coisa que eles se preocupam é sobre as pessoas. Tudo que eles mais querem é completar suas horas. Não os culpo. A própria Torre transformou a pregação em uma espécie de trabalho não-assalariado com carga horária.
- Muito bem, rapaz, você vai me escutar com muita atenção e vai fazer exatamente o que eu te disser. Você primeiro não vai comentar nada do que aconteceu aqui hoje com ninguém, entendeu?
- Entendi, irmão.
- Deixe que eles me vigiem. Se você quiser me vigiar também, não tem problema. Mas não diga nada a ninguém. Continue entregando seus relatórios. Se por acaso você contar o que aconteceu por aqui hoje para alguém, pode ter certeza que seu futuro estará em sério perigo.
Ele arregalou os olhos, demonstrando que entendeu bem o que eu dizia.
- Bem, eu vou então entrar em casa, e depois de dez minutos, seu carro estará normal. Quero que saia daqui quando isto acontecer. E lembre-se, não diga nada a ninguém.
- E... Está certo, irmão.
Então, me virei, e caminhei lentamente para a minha casa. Enquanto isto, o pequeno robô se desconectava da rede de dados do veículo, recolhendo o pequeno braço mecânico. Quando entrei em casa, já estava manobrando o carrinho para que ele saísse debaixo do carro. Como orientei ao garoto, ele foi até onde o carrinho estava e o pegou (o outro carrinho estava bem escondido). Exatamente em dez minutos, o rapaz ligou o carro e partiu em alta velocidade. Não demorou muito para que o garoto aparecesse em casa para entregar o meu equipamento.
Era óbvio que os anciãos estavam envolvidos. Porém, eu não imaginava que eles conseguissem guardar o segredo tão bem assim... Eu teria mesmo que visitá-los. E para isto, não deveria levantar suspeitas. Seria prudente fazer uma visita ao ancião daquele rapaz, acompanhado por alguém não tão suspeito...
Primeiro, decidi ligar para ele, avisando da visita. Não foi difícil conseguir o telefone daquele ancião.
- Olá, aqui é o Marvin. Como vai, irmão Rogério?
- Olá, irmão Marvin! Estou bem, e você?
- Estou bem também. Irmão, primeiramente gostaria de agradecer pela festa do último fim de semana.
- Ah, não foi nada. Vocês merecem.
- Hehehehe, nem tanto. Bem, em segundo lugar, eu gostaria de te avisar que eu farei uma visita até sua Congregação, com uma das irmãs que me ajudam por aqui. Gostaria de conversar com você, enquanto deixo ela e sua esposa conversando sobre a Congregação e seus problemas. Estou estendendo o que já faço por aqui, para ajudar todos os irmãos que eu puder.
- Ah, que bom saber disto, irmão. Pode deixar que vou avisar minha esposa sobre sua visita.
Pronto, minha reunião estava preparada. Agora eu tinha que avisar a pessoa que me acompanharia.
Priscila? Foi o primeiro nome que pensei, é claro... E foi esquisito isto, pois embora tenha pensado nela primeiro, eu não me senti empolgado de encontrá-la... É como se aquela magia de vê-la tivesse deixado de existir...
Descobri recentemente que gostava de conversar mais com outra pessoa... Sim, me descobri sorrindo ao mentalizar seu nome... Não havia melhor companhia para mim do que ela. Por isto, peguei meu telefone e liguei para ela. Quem atendeu foi a mãe dela.
- Olá, é da casa da Amanda?
- Sim, é sim. Vou chamá-la.
Em poucos minutos uma voz trêmula me atendeu no telefone:
- Alô?
- Alô, Amanda... Como vai?
- M... Marvin??
- Sim, sou eu... Que voz é esta, aconteceu alguma coisa?
- Ah... não aconteceu nada não... Mas a que devo a honra de sua ligação?
A voz dela parecia melhor...
- Bem, eu programei uma visita à Congregação do Alto da Glória e gostaria que você me acompanhasse. Você pode?
- Te acompanhar? Hum, claro que sim! Que horas seria?
- Sairemos às 13:00... Eu te encontro em sua casa, está bem?
- Está bem!
- Muito bom. Então até mais.
- Até mais.

8 de setembro de 2051, 13:00

Desta vez foi mais fácil sair de casa... Despois de despachar o meu vigia, poderia andar tranquilamente pela rua.
A casa de Amanda ficava um pouco longe... Tinha que andar um bocado. Mas até que eu gostava de caminhar. Ao chegar perto da casa dela, tive um susto... Havia um carro parado na porta dela. Um dos carros que eu já havia visto. Estariam vigiando ela também? Mas por quê?
Disfarcei um pouco, entrando rapidamente na casa dela. Ela já estava me esperando na porta.
- Olá, Marvin!
- Oi, Amanda. Está melhor?
- Melhor? Como assim?
- Me parecia triste ao telefone... Pensei que tivesse acontecido alguma coisa na sua casa e você não quisesse falar ao telefone...
- Ah, não... Não aconteceu nada... Às vezes eu fico assim mesmo... Não se preocupe...
- Hum, tudo bem então... Bem, vamos que a jornada é longa, hehehe...
Ela sorriu.
- Está certo. Vamos lá.Então fomos caminhando em direção ao ponto de ônibus, enquanto éramos observados...

sexta-feira, 26 de junho de 2009

As crônicas de Marvin - 11

A busca pelo reconhecimento


Embora estivéssemos em época de seca, havia algumas nuvens no céu ainda. Às vezes a lua se escondia por trás de alguma nuvem, mas nada que pudesse impedi-la de reinar na escuridão da noite, deixando tudo bem mais claro. À medida que me afastava do núcleo da festa, menos ouvia o barulho de pessoas, e mais ouvia os grilos, em sua religiosa sinfonia noturna. Às margens do lago, eventualmente algum sapo se juntava a eles.
Naquela mesma margem, uma pessoa olhava fixa e melancolicamente para a água. Sua identidade ficava cada vez mais clara para mim, embora ela estivesse bem diferente do que eu estava acostumado a ver... Eu tentava imaginar o que ela fazia ali então o fato dela parecer ser uma pessoa solitária como eu passou pela minha cabeça...
- A... Amanda?
Ela se assustou tanto, que eu poderia jurar que ela tinha visto um fantasma, caso ela acreditasse nisto. Com o susto, ela se virou para mim, então pude perceber como estava diferente. Usava um vestido azul longo, que a deixava com ares de princesa. Agora estava com cabelos soltos, revelando belos cabelos cacheados, que combinavam muito bem com seus olhos verdes, não mais escondidos por aqueles óculos que ela sempre usava. Estava realmente bonita, embora me parecesse triste.
- Ma... Marvin? Irmão, o que faz... aqui?
- Bem... Eu vim aqui refletir um pouco sobre a vida... Puxa irmã, você está muito bonita hoje!!
Seu rosto ficou levemente corado pelo elogio. Enquanto desviava seus olhos de mim, sorria discretamente. Um sorriso que naquela noite, me parecia muito mais belo.
- Obrigada, irmão... Você também está muito elegante.
- Obrigado... Sabe, eu queria ficar sozinho, mas pensando bem foi até bom te encontrar por aqui. Mas me diga, irmã, o que faz sozinha por aqui?
Ela pensou um pouco, depois me respondeu.
- Bem, eu não tenho tantos amigos assim... Então resolvi caminhar por aí...
- Ora, por quê não me procurou? Eu sou seu amigo, você sabe disto...
- Sim, mas... Bem, você já estava acompanhado pela irmã Priscila, então resolvi não incomodar...
O sorriso do rosto dela desapareceu por alguns instantes. De certa forma eu a entendia, assim como eu, ela tinha dificuldade em se aproximar das pessoas. Eu não tinha sido um bom amigo para ela ainda... Só tinha feito promessas e eu, como testemunha de Jeová desprogramada, sei que promessas não cumpridas são frustantes. Estávamos longe de todos. Por isto, sem receios, resolvi pegar na mão dela, olhando em seus olhos:
- Irmã, sinto muito por te deixar sozinha assim... Te prometo que serei um amigo melhor daqui em diante... E para provar isto, farei companhia a você o resto da noite...
Pude perceber que mais uma vez seu rosto ficou vermelho, quando peguei em sua mão. Falei em amizade para não ser mal-entendido...
- Ah... Ma... Mas, irmão, não precisa me acompanhar... Tem muitos irmãos aqui para você dar atenção...
- Sim... Mas de todos eles, você é a mais importante para mim.
Deixei ela sem palavras com isto. Mas eu entendia que o que eu dizia era o que ela precisava ouvir. Mais do que ninguém, eu a entendia. Eu sabia que uma pessoa solitária, em seus momentos de baixa estima, precisa de elogios, precisa se sentir importante para alguém. Era aquilo que eu estava precisando naquele momento, e que as bajulações das outras pessoas da festa não conseguiram transmitir para mim.
Então sorri para ela, soltando a sua mão lentamente.
- Não se preocupe. Gosto de sua companhia.
Ela então me olhou, ficando em silêncio por um tempo... Então mais uma vez um sorriso se formou em seu rosto...
- E então, o que achou da festa, irmão?
- A festa?? Hummmm... Bem, para te dizer a verdade, quando o irmão Osvaldo entrou naquela estrada de chão, eu pensei que estava sendo sequestrado, hehehehe... A festa foi uma surpresa e um alívio...
Ela sorriu em resposta.
- Ah, mas vai me dizer que não gostou? Trabalhamos duro para arrumar tudo!!
- Hummm, se gostei? Deixe-me pensar...
- Ei, não seja malvado!!!
- Hahaha, está bem... Claro que gostei. Ninguém nunca fez uma festa para me homenagear...
- Entendo como se sente... Ninguém também nunca me disse que sou importante... – disse, sorrindo.
- Sério? Nem sua família?
- Nem eles... Sabe, eles brigam muito entre si, e tem aquele problema com meu pai... Eu sempre quis ter uma família normal, mas nem todo mundo tem este privilégio...
- E... Namorado?
- Ah, irmão... eu nunca namorei ninguém...
- Sério? Nem antes de estudar a Bíblia (eu odiava esta expressão usada por testemunhas de Jeová como sinônimo de “iniciação”, mas eu tinha que usar o vocabulário delas)?
- Não... Eu sempre fui tímida... e você?
- Ah, ainda estou tentando descobrir se o que tive foi um namoro ou não... Eu mais financiava os gastos dela do que outra coisa...
- Hummm... Você está falando daquela moça...
- Sim, a Kátia... Nem me lembre dela...
- É engraçado como as pessoas hoje em dia gostam mais dos meios do que os fins... - disse ela pensativa.
- Hum? Como assim?
- Bem, o natural seria amar pessoas, pessoas por completo. Mas as pessoas parecem gostar mais de coisas secundárias. Dinheiro e o que você faz com ele deveria servir apenas para manter o amor, seja qual for o tipo de amor... Mas eu já presenciei coisas absurdas, como uma mãe ensinando sua filha de 5 anos a procurar homens com muito dinheiro... As pessoas deixaram de ser a finalidade de qualquer relação, para serem os meios.
- Hehehe, você tem razão.
- Além do mais, a gente tem o péssimo hábito de procurar pessoas perfeitas, livres de defeitos... Acho que por isto muitas pessoas se decepcionam umas com as outras... Por isto eu disse que deveríamos ver a pessoa por completo, e esperar que ela possua alguma coisa que vai nos incomodar... Todos somos assim, cheios de manias e defeitos. Deixamos de procurar pessoas para procurar características... Andamos de um lado para outro, nunca satisfeitos. Mas eu acho também que muita gente consegue amar pessoas, e este sentimento acaba acima de qualquer defeito... Elas se completam, de uma forma inexplicável.
- É por isto que dizem por aí que o amor é cego...
- Provavelmente... – disse ela sorrindo.
Continuamos caminhando, contemplando a lagoa, que agora estava iluminada pela luz da lua.
- Veja!! – disse Amanda.
Eram cisnes. Provavelmente o dono da chácara os criava, para “enfeitar” mais o lugar. Os coitados estavam acordados, provavelmente por causa do barulho da festa. Alguns, sem ter o que fazer, resolveram até nadar. Amanda os observava com alegria, dizendo como eram belos. Ela tentou se aproximar deles para vê-los de perto, enquanto eu, parado no mesmo lugar, a observava de longe. Não muito tempo, ouvi um barulho em alguns arbustos ali perto. Ainda fui capaz de perceber o vulto humano que saía correndo dos arbustos, voltando para a festa. Estavam nos observando, como era de se esperar.
- Ei, acho melhor voltarmos... Antes que pensem algo errado de nós...
Amanda então se virou, voltando para onde eu estava. Caminhamos de volta, subindo um pequeno morro ali perto. Já estávamos perto novamente da festa...
- Irmão Marvin...
- Ei... me faz um favor?
- Hum? Sim, claro, o quê seria?
- Me chame apenas de Marvin...
Ela ficou um pouco vermelha com isto...
- Hummmm... Es... está bem então... Marvin...?
- Sim, Amanda?
- Eu só queria te dizer que não me importo muito sobre o que eles vão pensar de nós...
Certamente eu deveria estar mais vermelho que ela agora... Não esperava este comentário... Foi a multidão que impediu que nós continuássemos esta conversa. Havíamos chegado, e havia muita gente ali, dançando, conversando...
- Ei, Amanda, você já comeu?
- Ainda não... Vamos?
Por onde passávamos as pessoas paravam para nos observar, como se tivéssemos fazendo algo muito errado. E quem sabe era isto o que passava pelas mentes torpes deles. Amanda tinha razão, não valia a pena se preocupar com o que tais mentes poderiam estar pensando...
- Que gracinha os dois juntos!!! – disse alguém.
É isto aí... Para mim chega... Não queria fazer isto, mas serei obrigado a fazer. Além do mais, vou conseguir movimentar a festa mais... Tipo, festa de irmãos era sempre a mesma coisa: comer, dançar (para os casados), conversar... Tudo girava entre estes três verbos. Vamos mudar um pouco...
- Irmãos, gostaria de dizer algo a vocês...
A Amanda me olhou assustada, um pouco envergonhada também.
- Marvin, o quê você vai fazer?
- Não se preocupe, Amanda... É algo que há muito tempo precisava dizer...
A festa deveria estar tão chata já, que todo mundo se reuniu em minha frente em um piscar de olhos. Nem em treinamento de bombeiros se vê tanta eficiência.
- Muito bem, irmãos. Primeiro, gostaria de agradecer esta maravilhosa festa. Sei que todos trabalharam duro para isto.
- Não foi nada, irmão!! – respondeu alguém da multidão.
Estavam todos alegres. Que ótimo!
- Mas isto não dá o direito a ninguém ficar especulando sobre o que eu faço ou deixo de fazer... Por quê cada um não se ocupa de seus próprios afazeres, e deixa para se preocupar com minha vida, na medida que eu partilhar dela com os outros? Eu digo uma coisa: se vocês possuem tanto tempo livre, certamente poderiam dedicar-se mais tempo ao seu estudo pessoal. Se estivessem estudando mesmo, eu tenho certeza que saberiam que fofoca é algo desaconselhável por Jeová, como a primeira carta de Pedro, capítulo 4 versículo 15 mesmo serve de exemplo.
Uma multidão de gente sem-graça estava na minha frente. Tinha feito meu papel. Logo um rapazinho se levantou, dizendo:
- Ah, que paia. Pensei que ele fosse se declarar!!
- Ei, você! – disse eu, apontando o dedo para ele.
- O que foi? – respondeu com desprezo.
- Já que você é tão engraçadinho, vamos fazer o seguinte. Na entrada tem um espelho. Vá até lá e tire par ou ímpar com ele até dar ímpar!
- Ok, estou indo...
E lá se foi o garoto, sem se dar conta do problema que teria...
- Mais alguém?
Ninguém respondeu.
- Tudo bem, então podemos voltar aos festejos, sim?
Todo mundo então voltou ao que estava fazendo, sem ficar nos olhando com aquela cara de curiosidade tejotina. Fomos até o final da fila, onde mais uma vez as pessoas quiseram ceder sua vez para nós, o que rejeitei de imediato. Não muito tempo depois, alguém conhecido apareceu.
- Ah, então aí estão os dois. Marvin, você está mal-humorado, hein!! Pagando sapo em festa é coisa de gente chata...
- Sei... E brigar por ciúmes, Estêvão? Seria coisa de playboy bêbado, não é?
- Hahaha, Marvin, você é engraçado mesmo... Ciúmes, eu?? Eu estou sendo apenas um líder exemplar! Mas deixa pra lá... Ei, Amanda? Puxa, como você está bonita hoje!!! Eu tinha vindo ver quem estava com o Marvin... Já que é você, que tal se juntar a nós ali para conversar?
Como é? Isto era muito estranho... Estêvão nunca deu muita moral para a Amanda... Agora que ela estava comigo e estávamos conversando, ele veio convidá-la? Ele não estava com a Priscila?
Era uma atitude muito suspeita. Eu não poderia deixar de suspeitar de Estêvão, principalmente depois dos acontecimentos daquela manhã. Qual o interesse dele em me deixar sozinho?
- Irmão Estêvão... Hummm, sinto muito, mas não posso. Estou acompanhando o Marvin. Fica para uma outra vez...
- M...Marvin? – disse ele, surpreso.
Eu também me surpreendi com a resposta, o que me fez estimar mais ainda a companhia daquela jovem.
- Ahh... Você tem certeza?
- Sim, tenho. Gosto muito da companhia dele. – respondeu sorrindo.
- Hummm, então está bem... Até mais.
Estêvão nos deixou então, com um ar de seriedade. Muito esquisito. Terei que vigiá-lo. De todos que conheço na organização, ele é o único que possui poder suficiente para mandar irmãos me vigiarem.
Finalmente nos servimos, depois nos sentamos. Conversamos ainda sobre muitas outras coisas. Aos poucos, as pessoas com carro iam deixando o lugar. Eu não tinha percebido quando cheguei, mas haviam alguns ônibus do lado de fora, alugados para aqueles que não tinham carro. Amanda tinha vindo em um deles, mas não deixei que voltasse ainda.
- Pode deixar, hoje te acompanho até em casa.
- Mas... Não há espaço no carro do irmão Osvaldo para mim.
- Sem problemas. Eu aviso ele que vou voltar de taxi.
Assim, avisei ao irmão Osvaldo que voltaria de taxi. Ele insistiu um pouco para que eu fosse com eles, mas recusei educadamente.
O taxi não demorou muito. Então nos dirigimos à entrada da chácara, onde um rapaz ficava apontando a mão para o espelho.
- Ei, não tem jeito de sair ímpar aqui não!!!
Tive piedade dele, dispensando-o. Entramos então no taxi, e voltamos pelo mesmo caminho que percorri com o irmão Osvaldo. As ruas estavam mais vazias, já era tarde. Paramos em frente à casa da Amanda.
- Muito bem, acho que por hoje é só...
- É... Marvin... Muito obrigada por esta noite. Eu gostei muito de conversar com você...
- Hehehe, sou eu quem agradeço... Estava um pouco triste quando te encontrei... E fiquei feliz de poder te acompanhar... Espero fazer isto mais vezes, hehehehe.
Ela sorriu, envergonhada. Então peguei novamente sua mão, e a beijei.
- Boa noite, Amanda.
- Boa noite, Marvin.
Ela logo entrou em casa e eu segui meu caminho, à pé mesmo, diante dos olhos daqueles que escondidos, me vigiavam...

Ponto de vista alternativo, 7 de setembro de 2051, 23:00

Era um parque, imerso pela escuridão da noite. Alguns postes faziam a precária tarefa de iluminar o local por onde passam as pessoas. Mas ninguém era suficientemente louco de passar por ali naquela hora. Somente as corujas em busca de alimento estavam por ali.
No entanto, 12 figuras encapuzadas estavam ali, de pé. Loucos? Talvez...
- Muito bem, parece que muita coisa aconteceu desde nossa primeira reunião... – disse um deles.
- Sim... No domingo passado, nossos espiões perderam o jovem de vista...
- Humpf... Incompetentes... Eu não podia esperar outra coisa de pessoas que se preocupam mais com a comemoração do Natal do que pregar contra a ganância... Eles não perceberam que o jovem estava despistando eles não?
- Segundo seu relatório, a velocidade alta do moto-taxista não os preocupou, já que todos os moto-taxistas são incontroláveis.
- Humm... Isto é verdade. Mesmo assim, eles precisam ser mais espertos. Provavelmente agora, o jovem está desconfiado... Mas este não é o motivo principal de nossa reunião... Yekhezqe'l conseguiu as informações que buscávamos... Por favor, Yekhezqe'l, compartilhe conosco o que você descobriu.
- Muito bem... O jovem chamado Marvin é realmente uma pessoa genial. Ele fez o curso técnico em eletrônica, depois fazendo engenharia elétrica. Sempre obteve as melhores notas, e sempre surpreendia os professores. Um currículo exemplar, foi financiado por grandes empresas em seus trabalhos...
- Não é por menos que este jovem conseguiu o controle sobre a Torre de Vigia...
- Sim, Moshe... Mas sua vida profissional deu um reviravolta com a morte dos pais... Ele abandonou as grandes empresas e passou a trabalhar com pequenos empregos. Passou a trabalhar com eletrônica apenas como passatempo. Ele ficou bem solitário depois disto... Nunca foi uma pessoa de grandes amizades. Agora sem os pais, ficou completamente só. Depois de uns dois anos assim, começou a estudar com as testemunhas de Jeová.
- Hummm, entendo... Provavelmente a morte dos pais despertou seu lado espiritual... Bem, há alguma coisa que podemos usar contra ele?
- Não. A vida dele foi muito pacata... Porém, por ser um aluno exemplar, ele tinha alguns rivais... Talvez alguns deles poderiam nos ajudar...
- Humm... é uma possibilidade... veja se você consegue entrar em contato com eles... E vamos ter que contar com isto...
- Espere! - Disse outro vulto.
- Deseja acrescentar alguma coisa, Eliyahu?
- Sim... Uma informação muito interessante...
- Pois bem, diga-nos...
- Não sei se é de conhecimento de todos, mas no último dia 3, as testemunhas da cidade de Goiânia organizaram uma festa para os dois “escolhidos”... Hehehehe...
- Sim, eu fiquei sabendo. – respondeu Moshe.
- Bem, gostaria de mencionar que nossos espiões ali descobriram que o jovem não está tão sozinho assim...
- Como é que é?
- Parece que ele estava se dando muito bem com uma jovem chamada Amanda Alves Rezende... Eles relataram até que ele a levou para casa...
- Hummmm, isto que você está me dizendo é muito interessante... Ela sabe alguma coisa sobre as ações dele?
- Não...
Houve silêncio por um instante... Este foi quebrado apenas pela risada, risada de satisfação de Moshe, que aos poucos foi ficando mais alta. Rapidamente os outros entenderam o plano...- Um homem sem família é difícil de controlar... Mas um homem com uma amada... Vigiem ela também... Ela será nossa chave, cavalheiros. Com ela, finalmente os Profetas de Sião controlarão a Torre de Vigia com mãos de ferro...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

As crônicas de Marvin - 10

Baile sem máscaras

3 de setembro de 2051, 16:00

Estava novamente em casa, depois de uma longa conversa. Não foi difícil perceber que já havia pessoas me esperando, escondidas, do lado de fora. Fiz de conta que não havia percebido nada, e entrei.
Imediatamente liguei o meu computador. Enquanto ligava, peguei meus equipamentos e fui testar minha linha telefônica. Fiquei chocado ao perceber que estava realmente grampeada. Teria que tomar cuidado com conversas pelo telefone.
Quem estaria por trás disto? Quem gostaria de me vigiar? Seja quem for, tinha poder suficiente dentro da Organização para colocar testemunhas de Jeová para me perseguir... Será que alguém desconfia de algo? Ou a minha posição atual tenha despertado a curiosidade de alguém?
O único que sabia de algo era o Estêvão... Ele ocupa uma posição estratégica agora, e poderia muito bem fazer aquilo... Mas por quais motivos ele me perseguiria? Eu teria que investigar isto mais profundamente...
Voltei a meu computador, e imediatamente comecei a comprar o material necessário para me garantir: FPGAs, memórias, interfaces de comunicação. Fiquei na dúvida entre comprar microcontroladores ou DSP’s, mas optei pelo segundo, já que iria trabalhar com o processamento de alguns sinais de sensores. E eu queria deixar os FPGAs para outras aplicações. A compra feita pela internet iria demorar um pouquinho, então já deveria me virar com os componentes que eu já tinha.
Chequei o meu sistema de segurança, para ver se todas as implementações estavam funcionando corretamente. Pelo visto ninguém havia tentado entrar em casa ainda.
Resolvi então buscar todos os meus projetos disponíveis na área de segurança, e os projetos mais “perigosos”. Se queriam me enfrentar, eu levaria isto até o fim. Foi durante minha busca, que o telefone tocou. Resolvi atender, poderia ser algo relacionado com o que havia acontecido hoje.
- Olá, irmão Marvin. Aqui é o irmão Osvaldo. Como vai você?
- Oi, irmão. Estou bem... Um pouco cansado, mas estou bem...
- Puxa, espero não estar atrapalhando nada. Só queria te fazer um convite...
- Um convite?
- Sim. Você e o irmão Estêvão estão convidados para uma festa que estamos fazendo em família. Não precisa se preocupar com a locomoção, pois nós os levaremos até lá.
- Hummmm, não sei se estou a fim de sair hoje, irmão... Estou cansado, e amanhã tenho trabalho a fazer...
- Bem, tenho certeza que você vai gostar. Além do mais, se está cansado, fará muito bem em ir, e mudar a rotina um pouco...
O Estêvão ia... Talvez eu pudesse descobrir se ele estava mandando aquelas testemunhas de Jeová me seguirem.
- Hum, então está bem. Quando será mesmo?
- Às 20:00. Eu busco vocês às 19:30, pode ser?
- Combinado.

3 de setembro de 2051, 19:30

O irmão Osvaldo foi pontual, como sempre. Notei a falta de alguns membros da família dele, na verdade todos.
- Irmão, onde está o pessoal da sua casa?
- Ah, eles já estão lá. Passamos o dia lá, então não havia a necessidade de voltar todo mundo.
Seguimos até a casa onde o Estêvão estava morando. De lá, saiu uma figura toda atrapalhada, que acabava de se arrumar enquanto trancava a porta.
- Puxa, vocês vieram rápido, hein...
- Bem, nós chegamos na hora combinada, não?
- Hahaha, é mesmo... Marvin, sempre muito pontual...
- E você quando não está adiantado, está atrasado... – disse com cara de desprezo.
- Esquenta não, irmão. O importante é chegar!!
Saímos da casa dele, e seguimos uma rua escura e íngreme, até chegarmos na marginal Norte. Entramos nela e nos dirigimos para a saída para Nerópolis. Havia poucos veículos ali, a maioria caminhões que aproveitavam o pouco tráfego para adiantar suas viagens. Em pouco tempo estávamos pegando a estrada em direção a Nerópolis.
- Irmão, onde é que mora exatamente sua família? – perguntei.
- Em uma chácara aqui perto... Já estamos chegando.
Em pouco tempo, o veículo estaria entrando em uma estrada de chão, e se dirigindo para uma casa escura. Depois do que havia me acontecido hoje, dizer que os piores pensamentos não me passaram pela mente seria uma mentira deslavada. Eu já não poderia confiar que aqueles irmãos agiriam conforme o padrão. Julguei-me um tolo por ter aceitado o convite sem ao menos ter alguma cautela.
O carro foi parando aos poucos diante daquela casa. Para minha surpresa, o Estêvão parecia tão surpreso quanto eu:
- Puxa, que escuro... Tem certeza que é aqui?
- Tenho sim, irmão. Às vezes ficamos sem energia por aqui... Deve ter faltado. Mas venham, eu os mostro o caminho...
Ele desceu do carro, encostou a porta e foi adiante. Assim que descemos, ativou o alarme, trancando as portas do carro. Assim, o seguimos. Era uma chácara bem arborizada, e bem decorada. O jardim da frente era impecável, com seus arbustos bem podados, grama aparada... As famílias TJ’s não costumavam ter dinheiro para cuidar de algo assim. E isto me deixou ainda mais apreensivo.
Entramos por um portão e nos dirigimos a um pátio. Estava muito escuro para ver alguma coisa ali. De repente, uma voz começou a dizer:
- Senhoras e Senhores, finalmente nossos convidados chegaram. Sabemos como eles são importantes, e como eles têm se dedicado à nossa comunidade. Desde que o irmão Estêvão chegou de São Paulo, estávamos pensando em organizar isto. Por favor, cumprimentem eles...
Então, as luzes se acenderam, revelando uma grande multidão (que nenhum homem podia contar) que em pé, aguardava nossa chegada. E todos disseram, a uma só voz:
- Sejam bem-vindos, irmãos!
Então, a pessoa que estava com um microfone e que eu não conhecia ainda, continuou:
- Irmãos, aqui estão todas as testemunhas da cidade de Goiânia e região. Nós decidimos organizar uma festa em homenagem aos dois irmãos que estão desempenhando um papel muito importante nos planos de Jeová. Os irmãos aqui presentes concordaram alegremente de contribuir para esta homenagem.
Certamente aquilo havia me surpreendido mais do que uma possível emboscada. Para quem não deveria dar honra indevida a humanos, aquilo era um pouco demais. Mas de fato, não era muito diferente das boas-vindas dadas a Superintendentes de Distrito em visita às comunidades. No fundo, fiquei feliz... Por mais duro que seja um coração, ele sempre sucumbe a uma demonstração de afeto. E muito embora aquelas pessoas pudessem ser falsas (muitas pessoas são mesmo), ali, naquele momento, elas estavam sinceramente felizes.
Logo nos rodearam, para conversar conosco. Aquele frenesi da nossa promoção já havia desaparecido um pouco, então não ficavam à nossa volta por muito tempo. Além do mais, a comida e a bebida exercia uma atração tão forte sobre elas quanto a nossa. De fato, a fila para a comida era maior que para falar conosco.
Logo que todos nos cumprimentaram, ficamos à vontade para andar pela chácara. Era um local bem arrumado. Eu estava espantado de ver como eles conseguiram organizar e arrumar tudo em tão pouco tempo. Na verdade, um dos irmãos me contou que assim que souberam da chegada do Estêvão, ainda na sexta, já começaram a entrar em contato com outros anciãos. Como era uma festa surpresa, não falaram nada para mim ou para o Estêvão. O assunto foi discutido nas reuniões de sábado à noite ou do domingo de manhã. Em nossa congregação, o assunto foi discutido em segredo no domingo de manhã, para que nem eu ou o Estêvão ficássemos sabendo. Curiosamente ninguém ficou envergonhado de mentir para nós até chegarmos à festa.
Era uma chácara alugada. A festa estava acontecendo em um pátio grande, onde havia piscina. Mais atrás começava um gramado, que foi iluminado para caber mais pessoas. Era ali que estavam as mesas do buffet, além de outras mesas para os convidados. Nem era preciso dizer que as panelinhas se formaram rapidamente, juntando mesas.
Eles reservaram o local perto da piscina como pista de dança, já que ali havia um piso de cerâmica. Não demorou muito para que a música começasse. Como era típico aqui na região, tocou-se basicamente o velho e bom forró, devidamente selecionado pela comissão de censura às músicas do mundo. Logo aqueles que eram casados se aproximaram para dançar, enquanto os solteiros dançavam sozinhos. Na verdade as solteiras, já que as mulheres tinham mais coragem de dançar sozinhas, ou até mesmo umas com as outras. Isto era natural por aqui. Homens não tinham este costume de dançar sozinhos, eles preferiam mais ficar sentados, conversando sobre os problemas do mundo, ou os problemas que eles, testemunhas de Jeová, enfrentavam no mundo.
Como já tinha sido liberado, resolvi ir comer alguma coisa também. Caminhando até a mesa de comida, avistei dois rostos familiares... Os dois jovens que me perseguiram de manhã. “É mesmo, aqui estão todos as testemunhas de Jeová d,a região”, pensei. Era hora de tirar aquilo à limpo. Rapidamente me aproximei dos dois. Quando perceberam que eu estava próximo deles, já era tarde demais...
- Boa noite para vocês.
- Ah... hum, boa noite, irmão. – disse o primeiro.
- Boa noite, irmão... – respondeu o outro.
- Gostaria de falar com vocês... De qual congregação vocês são?
- Hummm, somos do Garavelo...
- Ah, entendo... Eu me lembro de vê-los na Anhanguera hoje... O quê faziam por lá?
- Anhanguera? Hummm...
Eles pensaram um pouco antes de continuar... Finalmente, um deles teve uma idéia...
- Ah, nós estávamos indo para a casa de um irmão, para ajudar a organizar esta festa. Por isto estávamos correndo ali para pegar o ônibus que iria para a casa dele.
- Hummm, entendi...
Claramente ele estava mentindo para mim... Era uma boa desculpa, principalmente por que eles estavam de fato falando em uma festa quando entraram no ônibus. Mas eles estavam nervosos demais, e o lugar onde descemos não era o melhor lugar para se pegar ônibus. Afinal de contas, estávamos em um terminal, por quê eles iriam sair dele para pegar outro ônibus? Os principais ônibus ali perto já entravam no terminal. Ninguém seria suficientemente estúpido de pagar uma passagem a mais sem necessidade... Ou seriam estúpidos? Eu ia perguntar outra coisa a eles, quando fui interrompido...
- Marvin?
Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Priscila. Meus pensamentos mudaram completamente. Sua voz era suficiente para me fazer sorrir. Me virei para vê-la, deixando os dois jovens perplexos.
- Irmã? Puxa, como está bonita...
Ela estava com um vestido branco, que combinava com seus cabelos loiros. Incrivelmente bem maquiada.
- Ah, obrigada... Mas então, o que está achando da festa?
- Hum, estou gostando de tudo. Foi uma ótima surpresa.
Os dois espertinhos perceberam a brecha, e saíram de fininho. Não os veria mais na festa...
- Que bom que gostou. Foi tudo organizado muito rápido, nossa sorte foi encontrar este local tão bonito e livre para hoje.
- Puxa, não precisava de tudo isto...
- Claro que precisava. Vocês dois são pessoas muito importantes!
A velha timidez tomou conta de mim, buscando alguma coisa para falar naquela hora... Só uma coisa me veio à mente.
- E então, você já se serviu?
- Ainda não...
- Hummm, gostaria de me acompanhar? Eu dei uma olhada na mesa, e fiquei com vontade de experimentar um pouco de cada coisa...
Ela sorriu, aceitando meu convite... Então caminhamos para a fila, onde alguns tentaram me ceder a vez, enquanto eu recusava. Afinal, poderia ficar mais tempo falando com ela...
- Fiquei sabendo que está fazendo faculdade... Como estão os estudos?
- Puxa, faculdade é muito puxada... Além do mais, é difícil conciliar estudos com as Reuniões... Às vezes tenho que matar aulas muito importantes, mas eu já conversei bastante com os professores, e de uma forma ou de outra, eu estou conseguindo levar o curso adiante...
- Que bom. O importante é ter força de vontade...
O sorriso dela desapareceu por uns instantes, dando lugar a uma cara de preocupação...
- Hum, irmão?
- Sim?
- Bem, eu sempre fui desencorajada a fazer faculdade, para que os estudos não tirassem um tempo que eu poderia me dedicar mais a Jeová. Nestes últimos dias há uma pressão ainda maior sobre mim, já que com a proximidade do fim do mundo, não haveria motivos para que eu ingressasse em uma faculdade... Mas eu sempre quis ser odontóloga, e amo esta matéria... Você parece não se importar muito com isto...
Naquele instante me dei conta que nem todas as testemunhas de Jeová são fundamentalistas. Na verdade, as pessoas normais não são 100% fundamentalistas. Elas sempre criam regras rígidas naqueles pontos que não faz nenhuma importância para elas. Um pastor pode dizer que baterias são instrumentos musicais pagãos ao lembrar dos tambores tribais, e por isto proibi-los. Mas ele não usa a mesma rigidez ao usar o próprio calendário. E se depois de tudo, ainda houver aqueles que são 100% fundamentalistas, certamente poderão ser encontrados em suas casas em árvores, em algum canto escuro da floresta amazônica.
E ali, diante de mim, estava mais um exemplo de como estereótipos são injustos. Uma pessoa que gostava de estudar, e não via problemas entre os estudos e suas crenças. E era testemunha de Jeová. De fato, embora a sociedade se empenhe muito em impedir os jovens de estudar, eles não são 100% eficientes em seus sermões. E eu mesmo discordei sempre de todos eles. E o mais irônico de tudo isto é que quando esta moça se formar, todos os irmãos vão aproveitar-se dela. O problema agora era explicar por quê eu discordava de toda aquela argumentação, para uma testemunha de Jeová. E eu tinha que começar...
- Irmã, eu não vejo problema algum em se estudar em uma faculdade. Eu mesmo estudei muito na área de engenharia elétrica.
- E o quê pensa de estudar quando estamos se aproximando do fim?
- Bem, irmã, na minha opinião, não há diferença nenhuma.
- Não? – Perguntou, fazendo aquela carinha de quem não estava entendendo nada...
- Não. Veja, nós vivemos em um mundo onde não podemos prever o que poderá acontecer conosco. Eu estou nesta festa agora, mas amanhã posso nem estar vivo. No entanto, eu não me preocupo com isto o tempo inteiro. Nem ninguém. Todos nós trabalhamos, estudamos e amamos como se nossas vidas nunca fossem terminar. O fim do mundo está próximo? Ora, mas o fim da minha vida pode estar bem mais próximo que o fim do mundo, e isto nunca me impediu de viver a vida que eu sempre quis.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes, refletindo sobre o que eu falei. Não pude deixar de reparar um leve sorriso se formando em seu rosto, com o tempo... Aquilo começava a fazer sentido para ela...
- Mas e o tempo que eu poderia estar dedicando a Jeová?
Dei um pequeno sorriso, e me aproximei de seu ouvido para cochichar a resposta:
- E quem disse que estudar não pode ser algo dedicado a Jeová?
Ela afastou o rosto, e me olhou atônita.
- Como assim?
- Ora, não é o próprio apóstolo Paulo quem diz “quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei todas as coisas para a glória de Deus”? Para mim, isto significa que estas coisas, quando feitas de modo digno, são consideradas obras sagradas. Coisas feitas de modo digno são dedicadas a Jeová, e Paulo usa este princípio aplicando-o a beber e comer. Podemos aplicar isto ao estudo também, não acha?
Ela ficou meio apreensiva, mas podia-se ver que aquele expressão de incômodo havia passado... Olhava para o chão, refletindo mais sobre o que eu tinha acabado de falar.
Eu ainda admirava sua expressão, quando um jovem se aproximou de nós. Rapidamente ele me cumprimentou, e se dirigiu depois à Priscila:
- Olá, irmã... Gostaria de falar com você em particular, poderia ser?
Rapidamente ela levantou seu rosto, e fitou ele nos olhos. Curiosamente vi seu rosto ficar pálido, depois corado... Alguma coisa estava acontecendo.
- Ah... Pu-puxa, o quê seria, irmão?
- Eh... bem, não poderia falar aqui... Você vem?
Ela olhou rapidamente para mim, então pensou um pouco antes de responder...
- Hum, pode ir na frente, já estou indo...
- Eu te espero, não tem problema.
- Pode me esperar ali então. Não vou demorar.
O rapaz então concordou, caminhando lentamente para o local que ela apontou.
- Quem é ele? – perguntei.
- Este é o irmão Aldo. É de outra congregação...
- Humm... O quê será que ele quer tanto falar com você?
Ela ficou um pouco pensativa, antes de me responder...
- Eu não sei... Mas talvez...
- Talvez...?
- Há algum tempo atrás estávamos para nos casar...
A revelação me deixou surpreso... Então toda aquela reação dela... Será que ela sentia alguma coisa por ele? No entanto, eu ainda via dúvida nela.
- E não deu certo?
- Não, ele me achou alegre demais... Parece que ele queria uma esposa mais “exemplar”...
- Puxa, que belo exemplo de pessoa...
- Irmão, obrigada por me dizer tudo que disse. Vou pensar bastante em tudo que me falou, mas vou tentar levar meu curso adiante...
- Então, vai falar com ele?
- Sim. Não sei o que ele quer... Até mais!
- Até mais!
Eu a observei caminhar até o tal do Aldo. Mal educado ele, será que ele não sabe perceber quando duas pessoas estão conversando? Tem que vir atrapalhar tudo? Ainda mais ex-pretendente! Deu o fora nela e agora se acha o bam-bam-bam... Lá no íntimo ele deve estar pensando como ele é fodão, fazendo o que bem entender com a pobre da Priscila... Mas ele vai se ver comigo...
De repente, senti alguém cutucando meu ombro.
- Marvin, você está parecendo nervoso... O quê aconteceu?
Me virei para ver o Estêvão, com uma cara de preocupação...
- Ah, nada... Não foi nada...
- Nada? Quem é aquele cara que chamou a Priscilinha para conversar?
Não consegui conter a expressão de estranheza ao ouvir aquilo...
- Priscilinha??? Desde quando você tem toda esta intimidade?
- Marvin, eu não tenho culpa se você é tão devagar... Agora, me diga quem é aquele ali.
- Aquele ali é o ex-noivo da Priscila.
A feição de Estêvão mudou rapidamente...
- Ex-noivo?
- Sim, e disse que queria falar algo com ela em particular...
Estêvão ficou furioso...
- Mas que cabra sem-vergonha... Ele está pensando o quê da vida? A fila anda!! Vou lá falar com o folgado agora...
- Ei, você ficou maluco?
- Não, mas aquele ali ficou...
Então ele saiu pisando duro, igual a um foguete. Foi explodir perto dos dois... Não dava para se ouvir o que eles estavam falando, mas o Estêvão gesticulava mais do que político em palanque, enquanto o jovem o respondia como podia. A pobre Priscila apenas ouvia, às vezes tentava interferir. De longe, eu observava a cena, enquanto outros irmãos se aproximavam tentando acalmá-lo. Foi quando alguém me chamou:
- Irmão, acho melhor você ir falar com o irmão Estêvão...
Eu não sou o tipo de pessoa que gosta de agir como babá dos outros. Mas aquilo poderia ficar sério. Decidi deixar a fila quase perto de minha vez, para ir até lá. Tudo que eu ouvi foi Estêvão acusando aquele cara de ter abandonado a Priscila, e agora tentando confundi-la com uma nova proposta de casamento. Cheguei perto dele, e falei no ouvido dele:
- Estêvão, você está ficando maluco? Os irmãos aqui estão estranhando tal atitude de um dos dois profetas do Apocalipse... Lembre-se, temos um papel a desempenhar, e não podemos ir contra as expectativas dos irmãos, ou levantaremos suspeitas...
Ele rapidamente se deu conta que as atitudes dele poderiam colocar em risco toda nossa operação. Então, retomando o controle de si, virou-se para a Priscila e continuou:
- Irmã, me desculpe pela cena... Poderia te convidar para uma conversa, longe deste rapaz?
Talvez a vontade de terminar toda aquela discussão a pressionou a aceitar o convite. Mais uma vez, esquecido em meu canto, fiquei observando ela se afastar, desta vez com Estêvão, como se fosse em câmera lenta.
Ver aquilo trouxe à tona várias lembranças do meu passado... Lembranças que me recordaram como eu não conseguia ficar feliz em uma festa... As pessoas felizes em suas rodas de amigos, enquanto eu tentava me distrair com qualquer coisa... Nunca entendi por quê às vezes eu era chamado para festas, embora não participasse de nenhuma roda de amigos. Talvez eu fosse apenas um número, que o dono da festa repetiria orgulhoso ao contar como fez uma festa onde compareceram todos da sala, algo parecido com as reuniões cristãs das Testemunhas de Jeová. Sempre que eles mencionavam o número de pessoas que compareceram à algum evento, eu tinha calafrios.
Aquela velha tristeza que eu conhecia tão bem aos poucos foi tomando conta de mim. Não era apenas o sentimento de ser deixado para trás que me deixava assim, era também o sentimento de que uma das pessoas que eu gostava estava se afastando... Como sempre aconteceu... Eu sempre observei minhas amadas de longe, e nunca fui capaz de lutar por elas assim... Agora teria que lutar contra dois.
Estava ali, no meio da multidão. Os casados dançavam alegres ao lado das solteironas viciadas no forró. De longe, crianças com camisas e sapatinhos de couro bem engraxados corriam em volta do pequeno parquinho que havia na chácara. Enquanto isto, os mais gulosos estavam pela terceira vez na fila, enchendo seus pratos com salgadinhos suficientes para toda a família, que aguardava em uma mesa ali perto. Estavam todos tão ocupados com suas respectivas diversões, que não se preocupavam em manter aparências (embora eu saiba que haverá comentários maldosos em todas as Congregações depois desta festa). Estavam felizes, talvez por quê a imagem da velha Torre de Vigia não estava ali, a vigiar. Por um momento, estavam livres para ser eles mesmos. Era um perfeito baile sem máscaras, e imediatamente me perguntei se eu também não estava ali, sem a minha. Não seria eu na realidade aquela figura triste e solitária perdida em uma multidão, minha verdadeira personalidade?
Todos procuram reconhecimento. E eu sempre procurei desesperadamente o meu, até certo ponto em minha vida. A verdade é que eu desisti de procurar, e passei a fazer de conta que estava satisfeito com a solidão... Ou eu estava de fato? Não sei. O que sei é que às vezes eu queria ser o centro das atenções... Outras vezes, desejava a solidão, e isto quase sempre acontecia quando mais pessoas me procuravam. Sou um eterno inconstante, como uma folha levada pelo vento... Como eu poderia mudar aquelas pessoas, se eu mesmo não conseguia definir minhas convicções? Mudar...

“Mas se você quer mudar o mundo, você deve começar com você mesmo.”

As palavras ecoaram em minha mente, e nada pude fazer a não ser concordar... Eu precisava mudar a mim mesmo... Pelo menos eu precisava deixar de me lamentar diante das dificuldades... Nós sempre nos lamentamos dos problemas, não nos jubilamos dos momentos de alegria. Isto deveria deixar claro que os problemas são temporários, que os problemas são os “intrusos” em nossas vidas. Porém, eu ainda precisava de algum tempo para me recompor...Assim, decidi ir para um local mais afastado, onde eu pudesse pensar mais sobre minha vida. Havia uma lagoa ali perto, bem iluminada. Além do som da festa e o barulho de pessoas conversando, somente os grilos faziam algum barulho digno de se reparar. Fui caminhando lentamente até lá, cumprimentando aqueles que puxavam conversa comigo. Foi chegando perto da lagoa, que havia mais uma pessoa por ali. Estava tão sozinha quanto eu, observando a lagoa, mergulhada em seus pensamentos...

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