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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Da Assembleia de Deus ao Islã

Como diria Zagalo, “aí então fomos surpreendidos novamente”... A gente nunca deve menosprezar a possibilidade de ser pego de surpresa por alguma notícia estranha vinda da igreja evangélica brasileira. Leio no blog Genizah que o pastor presidente da Assembleia de Deus no Estado da Paraíba, João de Deus Cabral, se converteu ao islamismo. A notícia – se verdadeira, há que ressalvar - não chamaria tanto a atenção se não se tratasse de um pastor que, além de ter comandado a Convenção Estadual da maior denominação evangélica no Brasil, foi secretário nacional da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil por 15 anos. É normal que, todo santo dia, pessoas transitem (se “convertam”) de uma religião pra outra (ou à negação dela) no mundo inteiro, afinal o que não falta são religiosos (e ateus) nominais.

Segundo as informações colhidas até o momento, o ex-pastor teria se oposto à doutrina da Trindade, à celebração do Natal, além de acreditar na surrada teoria da conspiração de que Constantino teria sido o, por assim dizer, consolidador da religião cristã . No fundo, cá entre nós, essas são apenas desculpas para quem nunca foi cristão nem entendeu o que significa a cruz de Cristo. Entretanto, estava lá, falando em nome da maior denominação evangélica do Brasil. Por isto mesmo, não deixa de ser uma oportunidade para se avaliar a situação em que se encontra a igreja no país.

Muitos cristãos nominais não se preocupam em – pelo menos – tentar entender o que significa a doutrina da Trindade (e da correlata Encarnação) para o cristianismo. É claro que é uma doutrina inalcançável para a razão humana, mas sem essas duas doutrinas o cristianismo não subsiste, porque não haveria salvação se Jesus – como sendo 100% Deus e 100% homem – não tivesse sido sacrificado em nosso lugar, discussão que procurei aprofundar no texto “A doutrina da Trindade – Uma Introdução”, ao qual remeto o leitor que busca compreender melhor a sua importância. Com relação à celebração do Natal, cujo antagonismo de alguns evangélicos – como Edir Macedo - tem se tornado uma verdadeira superstição antissuperstição, recomendo a leitura do artigo “Esclarecimento sobre as origens do Natal”, de autoria do Gustavo, coeditor deste blog. A questão natalina, a meu ver, é mera perfumaria argumentativa, dessas filigranas que servem de desculpa pra qualquer coisa, já que nenhum ramo do cristianismo impõe a seus seguidores a obrigação de celebrar o Natal. Provavelmente, algumas “igrejas” estão querendo evitar que seus fiéis gastem seu dinheiro em presentes de Natal e o destinem aos cofres da organização.

Retornando aos dogmas da Trindade e da Encarnação, eles, entretanto, são decisivos. A atitude de negá-los explica bastante sobre as heresias que saíram da Igreja primitiva, como o nestorianismo e o monofisismo dos séculos V e VI, com resultados parecidos como o que vemos hoje na Paraíba do século XXI, por incrível que pareça. Num brevíssimo resumo, o nestorianismo pregava que havia em Jesus duas naturezas absolutamente distintas, a divina e a humana, de forma que eram dois entes independentes, sem qualquer ligação. Já o monofisismo dizia que havia em Jesus apenas a natureza divina que, digamos, “absorvia” a humana. A doutrina da Trindade, para eles, gravitava em torno das suas doutrinas exóticas da Encarnação, e terminavam por condená-la à morte, conforme exposto no texto Trindade – Uma Introdução. Essas heresias tiveram enorme influência nas igrejas orientais, em especial na região da península arábica, na qual outra seita já havia florescido, ainda no século II: os ebionistas. O ebionismo, como ensina o historiador cristão Justo L. González (leia o excerto clicando aqui), foi fortemente influenciado pelo gnosticismo e pelos grupos judaizantes da época, e, em suma, negava a Jesus qualquer divindade, colocando-o no patamar de apenas mais um dos grandes profetas de Deus. González acrescenta: “Ele não era mais o filho unigênito de Deus, mas um mero profeta dentro da sequência de profetas. Ele não era mais o salvador, mas simplesmente um elemento – algumas vezes secundário – da ação de Deus ao longo desta era”. Desta maneira, todo este caldo de cultura com referências cristãs, mas que negava as doutrinas cristãs básicas da Trindade e Encarnação, muito provavelmente terminou influenciando Maomé na fundação do islamismo, para quem Jesus era de fato um dos grandes profetas, mas não o unigênito e todo-divino Filho de Deus. O historiador Paul Johnson, em sua obra clássica “História do Cristianismo” (Ed. Imago, 2001, p. 291 – leia o excerto clicando aqui) relata que na sua primeira grande vitória, no Rio Yarmuk, em 636, o profeta do Islã contou com o apoio de 12.000 árabes cristãos, que não tiveram problemas significativos com os muçulmanos por muitos séculos.

Não deveria ser surpresa, portanto, que cristãos nominais iludidos e mal formados se convertam ao islamismo. Mas infelizmente é, e este fato exige redobrada atenção das igrejas evangélicas brasileiras, hoje muito mais preocupadas com o “evangelho do desempenho”, em que a salvação pode ser perdida a qualquer momento, se determinadas obras não forem cumpridas, certos alvos financeiros não forem alcançados e "dons espirituais" coreografados não sejam exibidos à exaustão, num profundo desprezo por tudo que os grandes reformadores protestantes resgataram da poeira dos séculos amontoada nas Escrituras e nos repassaram. Por outro lado, vemos um constante solapamento dos dogmas fundamentais do cristianismo, como a Trindade e a Encarnação, aliado à proliferação de práticas judaizantes. Além disso, o gnosticismo (com suas revelações especiais particulares e numerologia, por exemplo), infesta muitas igrejas. Registre-se, ainda, essa verdadeira fixação de muitos evangélicos pela novidade, venha ela de onde vier. Queiram ou não, o islamismo é uma religião com representatividade minúscula no espectro populacional brasileiro, e não deixa de ser “novidade” que ocorra uma conversão como essa aqui destacada.

Cabe a cada denominação e a cada pastor cuidarem bem de seu rebanho. Isto não se faz com a “espetacularização” do evangelho para satisfazer alguns corações novidadeiros, insaciáveis e voláteis. Tudo passa pelo fortalecimento doutrinário dos irmãos e das confissões de fé de cada igreja cristã, que deve permanecer firme no ensino da Palavra e intransigente no testemunho de fidelidade da Igreja primitiva, sem negociar com a areia movediça das conversões não tão convictas assim. Espero que a Assembleia de Deus, por sua importância estatística no país, debata a fundo o assunto, para que ela própria continue relevante do ponto de vista espiritual e não siga o caminho das seitas orientais do primeiro milênio.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Novos e velhos fariseus - 2ª parte

Os fariseus dos tempos de Jesus erraram tentando acertar, e, de certa forma, a sua visão reformista e- até certo ponto - liberal da religiosidade judaica da época, contribuiu para o nascimento do cristianismo. Pelo menos é isto o que se pode depreender da opinião de Justo L. González, em seu livro "Uma História do Pensamento Cristão", Ed. Cultura Cristã, 2004, págs. 33/35:



Devemos parar para fazer justiça aos fariseus, tão mal interpretados nos tempos posteriores. O fato é que o Novo Testamento os ataca, não porque eles eram piores do que os outros judeus, mas porque eles eram os melhores - a mais alta expressão da potencialidade humana diante e Deus. Ao vê-los atacados no Novo Testamento, inclinamo-nos a considerá-los simplesmente um grupo do pior tipo de hipócritas, mas aqui erramos em nossa interpretação, não apenas do farisaísmo, mas também do próprio Novo Testamento.

Ao contrário do que freqüentemente imaginamos, os fariseus enfatizavam a importância de uma religião pessoal. Por esta razão, os judeus mais conservadores os acusavam de serem inovadores que atenuavam o jugo da Lei. Numa época em que a vitalidade da adoração no Templo estava em declínio, os fariseus esforçaram-se para interpretar a Lei de tal modo que ela pudesse servir como um guia cotidiano para a religião do povo. Naturalmente, isto os levou ao legalismo que fez deles objeto de tanta crítica e também foi a causa básica de sua oposição aos saduceus. Mas é necessário salientar que os fariseus não eram "legalistas" no sentido de que eles exigiam obediência cega e de má vontade à lei moral e aos preceitos rituais - halakah - pois uma grande parte daquilo que nos restou de sua literatura é devocional, homilética e denota um esforço humano de trazer à tona obediência voluntária à vontade de Deus - haggada.

Os saduceus eram os judeus conservadores do século 1º. Eles aceitavam apenas a Lei escrita como sua autoridade religiosa, não a lei oral que tinha sido desenvolvida da tradição judaica. Deste modo, eles negavam a ressurreição, a vida futura, a complicada angelologia e demonologia do Judaísmo mais recente, e a doutrina da predestinação. Nisso eles se opunham aos fariseus, que aceitavam todas essas coisas; e por essa razão o Talmude lhes chama - ainda que de forma um tanto inexata - "epicuristas". A religião dos saduceus se centrava no Templo e em seus ritos, e não na sinagoga e em seus ensinos. Assim, não é surpreendente o fato dos saduceus desaparecerem logo depois da destruição do Templo, enquanto que os fariseus quase não foram afetados por este evento.

Em contraste com os saduceus, os fariseus se propuseram a tornar a religião uma parte da vida íntima diária. Como os saduceus, sua religião centrava-se na Lei, ainda que para os fariseus "Lei" não fosse apenas a Lei escrita, mas também a oral. Esse legado oral, transmitido ao longo dos séculos de tradição e interpretação, servia para aplicar a Lei escrita às situações concretas da vida diária, mas também serviu para introduzir inovações dentro da religião de Israel. É por isso que os saduceus, conservadores por natureza, rejeitavam todo possível uso da Lei oral, enquanto que os fariseus - conjugando esforço com os escribas - apressavam-se em defendê-la.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Os 500 anos de Calvino


Há exatos 500 anos atrás, no dia 10 de julho de 1509, um menino chamado Jehan Cauvin nascia na pequena vila de Noyon, região da Picardia, cerca de 95 km ao norte de Paris. 

Com o nome devidamente aportuguesado para João Calvino, fica mais fácil saber de quem estamos falando, um dos dois maiores reformadores protestantes do século XVI. 

Apenas para fazer um paralelo com o outro reformador de destaque, em 1509, Martinho Lutero tinha 26 anos de idade, já havia sido ordenado sacerdote (em 1507), e lecionava Teologia na Universidade de Wittenberg desde 1508. 

Calvino tinha, portanto, 8 anos de idade quando Lutero afixou suas 95 teses na porta da Catedral de Wittenberg, dando início ao período da História da humanidade (e da Igreja) que ficou conhecido como a Reforma Protestante. 

Numa brevíssima biografia, Calvino foi estudar na Universidade de Paris, no Collège Montaigu, em 1521 ou 1523 (há divergências sobre a data). 

Curiosamente, foi contemporâneo de dois expoentes católicos, Francisco Xavier e Inácio de Loyola, que fundariam a Companhia de Jesus (os jesuítas) em 1534, o que dá uma ideia da efervescência teológica daquele momento histórico. 

A idéia inicial era que também Calvino deveria estudar Teologia, já que possuía uma espécie de bolsa da Igreja Católica francesa destinada a este fim. 

Entretanto, seu pai muda de idéia em 1529, e ele vai estudar Direito em Orleans, onde provavelmente desenvolveu melhor sua veia argumentativa que se nota tão bem na sua obra. 

Além de uma forte formação humanista, Calvino também continuou estudando Teologia Não se sabe, com precisão, qual é a data da conversão de Calvino ao protestantismo, até porque ele nunca deu detalhes sobre este fato. 

Só se pode afirmar que foi entre 1532 e 1533, quando o movimento de luteranos e anabatistas já havia influenciado boa parte da Europa. 

Com a perseguição aos protestantes na França, Calvino se refugia na Suíça, inicialmente na Basiléia, onde publica – em 1536 - a primeira versão de sua obra máxima, Instituições da Religião Cristã ("As Institutas"), que é, originalmente, uma defesa da fé protestante, endereçada ao rei Francisco I, procurando convencê-lo das boas razões da Reforma. 

É em 1536 também que ele vai a Genebra, onde após idas e vindas, se estabelece definitivamente como o chefe da Reforma Protestante na cidade, na qual vem a falecer em 27 de maio de 1564. 

Segundo sua última vontade, seu corpo foi embalado num pano cru e depositado num caixão de pinho, como aqueles destinados aos pobres, para finalmente ser enterrado numa sepultura simples sem nenhuma inscrição ou monumento, para dar testemunho de que ele voltava ao pó.

Se as breves linhas acima não dão conta de traçar uma biografia de Calvino, muito mais espaço seria necessário neste blog para discutir a extensão de sua influência na trajetória da Igreja e do mundo nos séculos seguintes. 

Paixões – pró e contra, e muitas vezes extremadas – são despertadas quando se abordam a vida e os ensinos de Calvino. No campo teológico, ele é muitas vezes visto – equivocadamente – como uma espécie de "pai" da doutrina da predestinação, quando este tema é examinado de maneira discreta nas Institutas, que é um tratado de teologia muito bem escrito e fundamentado sobre as mais variadas doutrinas cristãs. 

Não se pode ignorar que a predestinação era um tema recorrente nas cartas de Paulo, e, antes de Calvino, já havia sido desenvolvido por Agostinho, Tomás de Aquino e Lutero.

Lamentavelmente, o preconceito faz com que muita gente despreze as Institutas e as demais obras de Calvino na base do "não li e não gostei". 

Outra crítica comum que lhe é dirigida, agora no campo materialista, é a de que a suposta ênfase calvinista na predestinação teria lançado as bases do capitalismo moderno, exercendo sobre ele uma enorme influência que, na verdade, não teve. 

Afinal, o sistema capitalista teve sua gênese no desmonte do feudalismo, no nascimento dos burgos e suas corporações de ofício, no colonialismo e nas novas rotas comerciais propiciadas pelas grandes navegações, todos esses fenômenos ocorridos nos séculos XIV e XV. 

A Reforma Protestante do século XVI se encaixa nesta agenda proto-capitalista como o xeque-mate no poder político da Igreja Católica, que até então mandava e desmandava na Europa. 

Como os séculos seguintes testemunharam, esse poder foi sendo perdido paulatinamente e, por mais que Max Weber tente, não se pode fazer uma associação direta e imediata entre a doutrina da predestinação com a riqueza da elite dominante e o destino proletário das classes trabalhadoras, como se Calvino tivesse tentado reproduzir na Europa o sistema hindu de castas, tudo com o objetivo de inaugurar um novo sistema, que, por sinal, só veio a tomar as feições modernas de capitalismo após as Revoluções Industrial (no campo econômico) e Francesa (no campo político), mais de 3 séculos depois.

Como indica o texto anterior, do historiador Justo L. González, muito do que se atribui a Calvino, ele efetivamente não fez, disse ou escreveu. Nunca se viu como o dono da verdade ou o fundador de uma nova doutrina ou religião, mas como um humilde servo de Deus num período especialmente conturbado para a Sua Igreja. 

É muito cômodo (e anacrônico) julgar um homem do século XVI com os olhos do século XXI, mas Calvino, além de ter sido um produto do meio em que viveu, foi um homem à altura do seu tempo, desafiando o establishment e lutando para construir um mundo em que a liberdade de culto fosse um direito reconhecido e protegido, isso num tempo em que milhares morreram por defender esta garantia, hoje tão preciosa à humanidade.

Obviamente, teve que encastelar-se em Genebra para poupar a vida e as idéias, e não viveu para ver isso concretizado, nem a mudança se operou de forma instantânea, tanto que, 8 anos após sua morte, a França sofreu a infame Noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572), em que dezenas de milhares de protestantes foram massacrados a mando da realeza católica. 

Nos séculos seguintes, muito sangue fratricida ainda correria pelas ruas e pelos rios europeus até que desfrutássemos da atual liberdade religiosa (ou ateísta). 

Calvino pode até não ter sido um fator decisivo neste processo, mas foi um dos muitos homens e mulheres que dedicaram a vida a vê-lo realizado, ainda que pelos olhos do século XVI. 

Aquele foi um período em que era preciso tomar posição, geralmente desconfortável, e fazer escolhas terríveis com consequências potencialmente drásticas ou letais. 

Qualquer relação que se possa fazer com a intervenção divina na história da humanidade não é mera coincidência. 

Neste aspecto, Calvino preferiu não se omitir e foi o homem certo no lugar certo e na hora certa. Motivos não faltam, portanto, para celebrar o seu 5º centenário.


quinta-feira, 9 de julho de 2009

Calvino x calvinistas

por Justo L. González 

Devido à sua importância e ao fato de que tem sido freqüentemente interpretada como representante da teologia de Calvino, a Confissão de Westminster merece alguma consideração detalhada, bem como uma comparação com a teologia do próprio Calvino. 

 A Confissão de Westminster começa com um capítulo sobre a Santa Escritura. Nele é declarado que os textos gregos e hebraicos do Antigo e Novo Testamento, que foram mantidos puros ao longo das eras são “imediatamente inspiradas” por Deus. A regra infalível para interpretar a Escritura não é outra senão a própria Escritura, em que os elementos necessários para a salvação estão claramente declarados – muito embora questões menores possam ser mais difíceis para o leigo interpretar. Embora Calvino concordasse com a importância que a Confissão deu à Escritura, existem dois pontos nos quais este documento se diferencia dele. O primeiro é o lugar da própria doutrina dentro da estrutura da Teologia. Calvino tomou a condição humana e o alvo da existência humana como ponto de partida para sua teologia. Dentro desta estrutura, a Escritura era importante como um meio para nos ajudar a alcançar o alvo para o qual fomos criados. Na Confissão, por outro lado, a Escritura se torna quase um livro de jurisprudência no qual textos devem ser encontrados para provar e apoiar vários pontos – incluindo a própria compreensão do que significa ser humano. Neste ponto, é interessante notar que os dois catecismos produzidos pela Assembléia de Westminster – redigidos por diferentes pessoas – concordam com Calvino, ao invés de concordarem com a Confissão. O outro ponto no qual a Confissão se diferencia de Calvino é a sua ênfase na inerrância escriturística. Embora Calvino cresse na inspiração divina da Escritura, ele nunca detalhou essa doutrina de forma detalhada ou mecanicista. A ênfase de Calvino estava no uso da Escritura pelo Espírito Santo na comunidade da fé, especialmente no ato da pregação. A Confissão trata com o texto sagrado de um modo mais individualista, como um guia para a fé de cada cristão. 

 A Confissão de Westminster coincide com a maioria dos calvinistas posteriores ao colocar a doutrina da predestinação em tal lugar na estrutura da Teologia que ela parece ser derivada da natureza de Deus, ao invés da experiência da graça dentro da comunidade da fé. Isto pode ser visto em que, imediatamente após afirmar a autoridade da Escritura, a Confissão prossegue discutindo a divindade no seu segundo capítulo, e os decretos eternos de Deus no terceiro. 

 Dois exemplos claros do modo em que o Puritanismo se diferenciou da teologia de Calvino podem ser vistos na maneira em que a Confissão de Westminster trata da oração e do Shabbat (descanso). Sobre a oração, Calvino diz que é o momento em que nós nos aproximamos mais intimamente do nosso propósito final. Na oração, nós glorificamos a Deus e nos relacionamos com o divino de tal forma que nós claramente esperamos que Deus seja a fonte de tudo o que somos e necessitamos. A Confissão aborda a oração de uma maneira muito legalista, afirmando que é “requerida de todo homem”, que deve ser no nome do Filho, numa língua conhecida e não (oferecida) pelos mortos. A respeito do Shabbat, o mesmo capítulo da Confissão adota uma posição diametralmente oposta a de Calvino. O reformador de Genebra afirma que o Shabbat era uma figura de coisas por vir e foi, portanto, abolido por Cristo, cuja ressurreição é o começo do Shabbat final. A celebração do domingo, então, não é uma nova forma de manter uma “observância supersticiosa de dias”, mas é, ao contrário, um modo prático de capacitar a igreja a adorar conjuntamente, e de dar descanso àqueles que trabalham. De certa forma, todos os cristãos estão agora no dia de descanso, pois não somos mais dependentes de nossas próprias obras (Institutas, 2.8; 28-34). A Confissão, por outro lado, afirma que Deus 

“em Sua Palavra, através de um mandamento moral, positivo e perpétuo, unindo todos os homens, em todas as eras, apontou particularmente um dia em sete, como um shabbat a ser mantido santo para Ele: o qual, desde o começo do mundo até a ressurreição de Cristo, era o último dia da semana; e, a partir da ressurreição de Cristo, foi mudado para o primeiro dia da semana, que, na Escritura, é chamado o Dia do Senhor, e deve ser mantido até o fim do mundo, como o Shabbat cristão. 

 Esse Shabbat é, então, conservado santo para o Senhor, quando os homens, após uma devida preparação dos seus corações, e pondo em ordem seus assuntos comunitários com antecedência, não somente observam um descanso santo, todo o dia, das suas próprias obras, palavras e pensamentos sobre seus trabalhos seculares e recreações, mas também estão despendendo todo o tempo em exercícios públicos e privados de sua adoração, e nos deveres dos necessitados e de misericórdia.” 

 Este contraste marcante entre Calvino e a Confissão de Westminster pode ser visto como derivando da maneira em que os dois tratam da Escritura, o que foi discutido acima. 

A influência de Calvino pode ser vista na Confissão onde ela afirma que tanto a lei quanto o evangelho pertencem ao pacto da graça. Dizendo isso, a Confissão evita o contraste marcante entre a lei e o evangelho que foi característico de Lutero e que Calvino tentara evitar. Mas então a Confissão prossegue para declarar que Adão, como originalmente criado, estava debaixo de um “pacto de obras” e que, apenas mais tarde, depois da queda, o “pacto da graça” foi estabelecido. Calvino nunca teria dito isso, pois isto pareceria fazer da fé um substituto para as obras que nós não podemos mais praticar. Se fé pertence a um novo pacto, segue-se que ela não foi requerida de Adão e Eva como é requerida dos seres humanos em todas as gerações posteriores. 

Assim, a Confissão de Westminster, como muito do Calvinismo do século 17, esquematizou tanto a teologia de Calvino que uma grande parte do seu espírito original se perdeu. 

Em resumo, o que dissemos sobre a Confissão de Westminster também pode ser dito sobre a maior parte do Calvinismo do século 17 – com a exceção notável de Amyraut e seu círculo na Igreja Reformada da França. Esta é a razão por que os historiadores freqüentemente se referem a esse período como um da “Ortodoxia Calvinista”. Esta ortodoxia geralmente centrou-se na questão da predestinação, que então se tornou o critério do Calvinismo. Isto é muito interessante, desde que durante o século 16, o ponto de maior divergência entre o Calvinismo e o Luteranismo não fora a predestinação – com o qual os dois grupos concordavam – mas, ao contrário, o modo da presença de Cristo na Ceia do Senhor. 

A ortodoxia calvinista prestou um desserviço ao Calvinismo verdadeiro, na medida em que gerações posteriores creram que ela foi uma expressão acurada dos pontos de vista de Calvino, e, portanto, tenderam a vê-lo como mais rígido do que ele de fato fora. Isto, em contrapartida, significou que o reformador de Genebra tenha recebido menos simpatia do que ele merecia. 

(extraído de “Uma História do Pensamento Cristão”, de Justo L. González, Ed. Cultura Cristã, 2004, vol. 3, pág. 299/302).

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Trindade - antecedentes históricos

Entre os anos de 325 e 332, exatamente quando Atanásio estava assumindo seus deveres como bispo de Alexandria, o imperador Constantino começou a mudar de partido no assunto, sob a pressão de bispos e conselheiros que secretamente simpatizavam com Ário e dos dois bispos que o apoiaram e foram depostos e exilados. A força da animosidade que se seguiu ao concílio foi intensa. As discussões e o tumulto não tinham cessado. Alguns que tinham assinado o credo e os anátemas contra os arianos ficaram horrorizados com a interpretação sabeliana distorcida aplicada ao credo por Marcelo e outros. Conseguiram conquistar a confiança do imperador e este começou paulatinamente a pensar em mudar o credo e até mesmo a restaurar Ário e os bispos de Nicomédia e Nicéia.
[...]
Enquanto Atanásio estava no exílio em Tréveris, Ário morreu, na véspera do dia em que seria restaurado como um presbítero cristão numa cerimônia especial em Constantinopla. Alguns estudiosos especulam que tenha sido envenenado por seus inimigos. Seja como for, sua morte em 336 ocorreu poucos meses antes da morte do próprio Constantino em 22 de maio de 337. Constantino viveu como pagão e morreu como ariano. Semelhante currículo para "o primeiro imperador cristão" não é muito admirável! Mesmo assim, a sua morte foi o término de um grandioso capítulo na história cristã. A partir de então, com apenas uma breve exceção, os imperadores romanos se considerariam cristãos em certo sentido, e interfeririam constantemente nas questões eclesiásticas e teológicas.

("História da Teologia Cristã", 2001, Roger C. Olson, Ed. Vida, págs. 167/168)


“Em resumo, podemos dizer que durante o período que vai de 330 d.C. até a morte de Constantino sete anos depois, os defensores do “Grande Concílio” foram reiteradamente derrotados. O interesse principal do imperador era mais político que teológico, e isto combinava muito bem com as habilidades políticas de Eusébio de Nicomédia para dar supremacia ao arianismo. Essa situação se tornou muito mais difícil em função da inabilidade de alguns dos principais defensores de Nicéia de mostrar como sua doutrina diferia do sabelianismo. Ao mesmo tempo, os arianos se abstiveram de atacar abertamente o Concílio que Constantino convocara. Para o grupo niceno, a derrota final durante este período, embora mais simbólica do que real, foi o fato do próprio Constantino ser batizado em seu leito de morte por Eusébio de Nicomédia.

[...]

A derrota do arianismo foi devida em parte à superioridade intelectual de seus adversários; em parte ao fato de que, durante a prolongada controvérsia, o Ocidente sempre esteve a favor do grupo niceno; e em parte porque, enquanto as divisões entre os arianos eram causadas por distinções mais sutis, seus oponentes tendiam a se unir e formar alianças sempre mais amplas. Mas pode-se vislumbrar também na natureza interior do arianismo uma das principais causas de sua derrota. O arianismo pode ser interpretado como uma maneira de introduzir para dentro do Cristianismo o costume da adoração de seres que, embora não sendo o Deus absoluto, eram divinos de uma forma relativa. A consciência cristã geral reagiu violentamente contra este entendimento limitado da divindade do salvador, expressado a cada momento que os arianos expunham sua doutrina de um modo mais extremo. A fé nicena, embora menos estritamente racional que o arianismo, e embora requeresse mais da metade de um século para esclarecer seu sentido real, foi capaz de afirmar um modo mais claro e radical a doutrina cristã fundamental de que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”.


(“Uma História do Pensamento Cristão”, Justo L. González. Ed. Cultura Cristã, 2004, págs. 269 e 280/1)

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