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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Prazer e desespero

por Philip Yancey:

“O relato de decadência da pessoa mais rica, mais sábia e mais talentosa do mundo serve de alegoria perfeita para o que pode acontecer quando perdemos de vista o Doador, de cujas boas dádivas usufruímos. O prazer representa um grande bem, mas também um grave perigo. Se começarmos a perseguir o prazer como um fim em si mesmo, podemos perder de vista no caminho aquele que nos deu coisas boas como o desejo sexual, as células sensitivas do paladar e a capacidade de apreciar a beleza. Nesse caso, como diz Eclesiastes, a devoção exagerada ao prazer paradoxalmente conduzirá a um estado de total desespero.

Eclesiastes insiste em afirmar que até as pedras em que tropeçamos são boas em si. “Tudo fez formoso em seu tempo” (3:11). Mas, ao assumirmos um fardo para o qual não fomos feitos, transformamos nudez em pornografia, vinho em alcoolismo, comida em glutonaria e diversidade humana em racismo e preconceito. O desespero toma conta à medida que abusamos das boas dádivas de Deus; já não parecem dádivas, e muito menos boas.”

(Philip Yancey, “A Bíblia que Jesus Lia”, Ed. Vida, pág. 153)

domingo, 22 de novembro de 2009

Novos e velhos fariseus - 1ª parte

Chamar alguém de "fariseu" hoje em dia equivale a um xingamento, pela carga negativa que está associada ao nome em função dos antigos fariseus terem, por assim dizer, desempenhado o papel de adversários de Jesus na Sua passagem pela Terra. O termo "fariseu" dispensa explicações; já traz intrínseco um sentido negativo que resume a ofensa que alguém quer dirigir ao outro, bem como encerra a discussão com uma espécie de "cala-boca". É muito comum que as atuais (e exóticas) práticas religiosas dos evangélicos brasileiros sejam confrontadas por aqueles que exigem uma coerência bíblica e denunciam o caráter profano desses modismos, e por isso esses últimos são chamados de "fariseus". Entretanto, devemos resistir ao chavão do preconceito, e tentar entender melhor quem eram os fariseus, que compunham uma das grandes facções em que a religião judaica se dividia na época de Cristo. Ainda que debaixo de um manto religioso, tinham, portanto, uma função muito mais político-ideológica, ainda que esses conceitos não fossem conhecidos à época.

Para tanto, proponho dois textos - bastante interessantes - para leitura. O primeiro é de Philip Yancey, em "O Jesus Que Eu Nunca Conheci", Ed. Vida, 2001, págs. 64/67, comentando sobre as diferentes facções religiosas entre os judeus do século I:



"Os essênios eram os mais separados de todos. Pacifistas, não resistiam ativamente a Herodes ou aos romanos, mas antes retiravam-se para comunidades monacais nas cavernas de um deserto estéril. Convencidos de que a invasão romana viera como castigo por seu fracasso em guardar a Lei, dedicavam-se à pureza. Os essênios tomavam banhos rituais todos os dias, mantinham uma dieta restrita, não defecavam no sábado, não usavam jóias, não juravam e tinham todos os bens materiais em comum. Esperavam que a sua fidelidade incentivasse o advento do Messias.

Os zelotes, representantes de uma estratégia diferente de separativismo, advogavam a revolta armada para expulsar os estrangeiros impuros. Um ramo dos zelotes especializava-se em atos de terrorismo político contra os romanos, enquanto outro operava como uma espécie de "polícia moral" para manter os judeus na linha. Em uma primeira versão de purificação étnica, os zelotes declaravam que qualquer pessoa que se casasse com um indivíduo de outra raça seria linchado. Durante os anos do ministério de Jesus, observadores certamente notaram que em seu grupo de discípulos estava Simão, o Zelote. Por outro lado, os contatos sociais de Jesus com os gentios e com os estrangeiros, sem mencionar parábolas como a do bom samaritano, deveriam ter levado à fúria os zelotes extremados.

No outro extremo, os colaboracionistas tentavam operar dentro do sistema. Os romanos garantiram autoridade limitada a um concílio judeu chamado Sinédrio, e em troca de privilégios este cooperava com os romanos em repelir qualquer sinal de insurreição. Era do seu maior interesse prevenir os levantes e as duras represálias que certamente trariam.

O historiador Josefo conta de um camponês doente mental que gritava "Ai de Jerusalém!" no meio dos festivais populares, agitando as multidões. O Sinédrio tentou puni-lo, sem resultado, por isso o entregaram ao governo romano para que fosse devidamente açoitado. Ele foi descascado até os ossos, e a paz foi restaurada. Com o mesmo intuito, o Sinédrio enviou representantes para examinar João Batista e Jesus. Será que representavam uma verdadeira ameaça à paz? Nesse caso, deveriam ser enviados aos romanos? Caifás, o sumo sacerdote, captou perfeitamente a visão dos colaboracionistas: "Convém que um só homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação".

Os saduceus eram os colaboracionistas mais espalhafatosos. Foram antes helenizados sob os gregos, e depois cooperaram com os macabeus, com os romanos e agora com Herodes. Humanistas na teologia, os saduceus não criam na vida após a morte nem na intervenção divina aqui na terra. O que acontece, acontece, e, considerando-se que não há sistema futuro de recompensa e de castigo, uma pessoa poderia muito bem desfrutar do tempo limitado na terra. Pelos palácios e utensílios de prata e de ouro de suas cozinhas, que os arqueólogos descobriram, parece que os saduceus desfrutaram da vida realmente muito bem. De todos os partidos da Palestina, os mandarins saduceus eram os que mais tinham a perder diante de qualquer ameaça ao status quo.

Os fariseus, partido popular da classe média, muitas vezes se encontravam em cima do muro, vacilando entre o separatismo e o colaboracionismo. Mantinham altos padrões de pureza, sobretudo em questões como a guarda do sábado, a pureza ritual e o tempo exato dos dias festivos. Tratavam os judeus que não agiam assim como "gentios", excluindo-os dos concílios locais, boicotando seus negócios e banindo-os dos banquetes e dos acontecimentos sociais. Mas os fariseus já haviam sofrido o seu quinhão de perseguição: uma vez oitocentos fariseus foram crucificados em um só dia. Embora cressem apaixonadamente no Messias, hesitavam em seguir muito depressa a qualquer impostor ou operador de milagres que pudesse atrair desgraça para a nação.

Os fariseus escolhiam suas batalhas com cuidado, pondo a vida em perigo apenas quando necessário. Uma vez, Pôncio Pilatos desprezou um acordo com os judeus para as tropas romanas não entrarem em Jerusalém carregando estandartes que trouxessem uma imagem ("ícone") do imperador. Os fariseus consideravam isso um ato de idolatria. Em protesto, uma multidão de judeus, na maioria fariseus, cercou o palácio de Pilatos por cinco dias e cinco noites em uma espécie de greve branca, chorando e implorando que mudasse. Pilatos ordenou que fossem ao hipódromo, onde os soldados estavam à espreita, e ameaçou condenar à morte todo aquele que não parasse de implorar. Todos de uma vez, caíram com o rosto em terra, desnudaram os pescoços e anunciaram que estavam preparados para morrer a fim de não ver suas leis transgredidas. Pilatos voltou atrás.

sábado, 14 de novembro de 2009

Como Deus nos vê

por Philip Yancey:

No final da vida, Henri Nouwen disse que a oração se tornou para ele principalmente um momento de "ouvir a bênção". "A verdadeira "obra" da oração", disse, "é ficar em silêncio e ouvir a voz que fala coisas boas a meu respeito". Isso pode parecer auto-satisfação, admitiu, mas não é quando significa se ver como o Amado, alguém em quem Deus escolheu habitar. Quanto mais ele ouvia essa voz, menos inclinado ficava a julgar seu valor pela forma como os outros o tratavam ou pelo que já havia conquistado. Ele orava para que a presença interior de Deus se expressasse em sua vida diária, enquanto comia e bebia, falava e amava, brincava e trabalhava. Buscava a liberdade radical de uma identidade ancorada em um lugar "acima de todos os elogios e acusações humanas".

Também descobri que a oração significa muito mais que dizer a Deus o que quero que faça. Significa, principalmente, colocar-me num lugar em que Deus possa "renovar minha mente", em que eu possa absorver minha nova identidade como o Amado de Deus, a qual Deus insiste ser minha porque creio.

Numa analogia audaciosa, Kathleen Norris inverte o ponto de vista que normalmente atribuímos a Deus:

"Certa manhã de primavera, vi um jovem casal com uma criança no portão de embarque do aeroporto. O bebê olhava intensamente para as outras pessoas e tão logo reconhecia um rosto humano, não importava de quem fosse, se jovem ou velho, bonito ou feio, aborrecido, alegre ou preocupado, ele reagia em total deleite.

Era lindo de se ver. Nosso monótono portão de embarque tinha se transformado no portão do céu. Enquanto observava essa criancinha brincando com qualquer adulto que assim permitisse, senti-me como Jacó tomado de assombro, porque percebi que é assim que Deus olha para nós, fixamente em nosso rosto para se deleitar, para ver as criaturas que ele criou e chamou de boas, junto com o resto da criação. E, como diz o salmo 139, as trevas não são nada para Deus, que consegue olhar através de qualquer mal que tenhamos feito em nossa vida e enxergar a criatura feita à imagem divina.

Desconfio que apenas Deus e as crianças amadas conseguem enxergar dessa maneira."

(Philip Yancey, em “O Deus (In)Visível”, Ed. Vida, pág. 158)

sábado, 4 de outubro de 2008

Leituras cristãs - 4

"O Caminho do Claustro" é o título do livro escrito por Kathleen Norris, em que ela relata boa parte da sua experiência como oblata (uma espécie de visitante leiga) num mosteiro beneditino norte-americano. O interessante é que Norris tem formação presbiteriana, e, embora não relate nenhuma conversão ao catolicismo, ela faz essa ponte entre as duas grandes tradições cristãs ocidentais - protestantes e católicos - de uma maneira muito tranqüila, serena, sem se preocupar com aquilo que as divide, mas se concentrando no que as une, que é a oração, a meditação, a contemplação, que podem ser resumidas como uma prática de adoração a Deus. Desta maneira, ela nos brinda com reflexões profundas e inspiradoras sobre a condição humana, a submissão a Deus e a prática da meditação e do silêncio num mundo que vive em pânico, convidando-nos a checar as nossas prioridades, como cristãos. Norris é freqüentemente citada por Philip Yancey em seus livros, e realmente "O Caminho do Claustro" merece ser lido por quem quiser encontrar inspiração para desacelerar o seu ritmo e dar valor ao que realmente tem valor na vida. Destaco um trecho belíssimo do livro:


MEU PRIMEIRO PAI

(Kathleen Norris, em “O Caminho do Claustro”, Ed. Nova Era,
págs. 65 a 69 e 73)

“A capacidade negativa...
(é ser) capaz de estar no meio de
incertezas, mistérios, dúvidas, e
não teimar em recorrer
à realidade ou à razão.”
(John Keats, poeta inglês, 1785-1821)


Uma coisa estranha acontece quando eu entro, como artista convidada, numa turma de primeiro grau, na qualidade de artista em visita, para ler poesia e estimular as crianças a escreverem. É algo menos relacionado a mim, como indivíduo, do que ao poder da poesia, podendo ser, também, um efeito colateral do simples fato de que conheço muito pouco as crianças. Vou ao seu encontro como um quadro-negro esperando o giz. Descobri que, invariavelmente, não importa se a escola é pobre ou rica, no campo, na periferia ou na cidade, os garotos que o professor classifica como “bons alunos” serão capazes de escrever poemas e contos aceitáveis mas sem nada de extraordinário. Os poemas notáveis vêm do lado torto, isto é, dos maus alunos, aqueles que os professores costumam criticar por não participarem das atividades da turma.

Um dia, quando estava com alunos de quinta série de uma escola num bairro operário na Dakota do Norte, olhei de relance para a folha de um menino e vi as palavras “Meu Primeiro Pai”. Percebi que algo muito pessoal e profundo devia estar acontecendo. Não me lembro mais do que pedira que escrevessem, mas sei que não era nada tão invasivo como “faça um poema sobre alguém da sua família”. Era mais provável que tivesse sido um exercício livre, utilizando metáforas. Apesar da possibilidade de escrever sobre qualquer coisa, este menino escolhera falar sobre seu “primeiro pai”, e, embora sem interferir, conversei várias vezes com ele. Sua reação foi de surpresa e satisfação, quando mostrei que suas comparações eram tão boas que o tinham colocado, de imediato, em profundo contato com a metáfora. Ele escrevera sobre o pai:


“Eu me lembro dele,
como Deus em meu coração, eu me lembro dele no meu coração
como as nuvens lá em cima,
e sorvete de morango e bananas
quando eu era pequeno.
Mas, do que eu me lembro mais
é do seu amor,
grande como o Texas,
quando eu nasci.”


O menino me disse, cheio de orgulho, que nascera no Texas, mas nada falou a seu respeito. Sua professora, igualmente surpresa, foi quem me deu mais detalhes. Ela me contou coisas que não me surpreenderam, em função da minha experiência como artista convidada:

- Ele não é um bom aluno, e embora se esforce, nunca fez nada assim antes.

Em compensação, também me disse que o menino jamais vira o pai; o sujeito sumira da cidade no dia de seu nascimento.

Por incrível que pareça, foi gratificante para mim saber disso. Bastara a presença de um poeta em sala, dando aulas sobre comparações e metáforas (oficialmente, para justificar a minha presença em termos reconhecidos pelo sistema educacional, era isso que eu “ensinava”), para permitir a este menino contar aos adultos em sua vida – sua professora, sua mãe, seu padrasto – algo que eles precisavam saber, que um “primeiro pai” é figura de realce em sua emoção. Como Deus em seu coração, diz ele em seu poema, revelando o íntimo de sua alma.

...

Todavia, são os outros alunos, os maus alunos, os marginalizados, geralmente dotados de uma forma de inteligência que não costuma ser apreciada na escola, os que me escutam com mais atenção. São estes meninos, para os quais o abandono e a frustração são a norma na escola e, de uma maneira geral, na vida – quem sabe, na noite anterior o namorado da mãe, bêbado, não cometeu algum abuso contra ele -, que se sentem na poesia como os patos na água. Às vezes, como aconteceu com aquele aluno da quinta série, eles descobrem que adotar uma voz poética pode dar ensejo a uma revelação. É como se, pela primeira vez na vida, estivessem livres para falar com suas próprias vozes. É sempre um prêmio – para o professor, para a turma e para mim – quando uma criança nos leva ao íntimo da poesia. Aquele garoto falou diretamente à nossa própria solidão e exílio e fez recordar que o nosso mundo cotidiano é mais misterioso do que imaginamos: quem iria imaginar que um menino comum, numa turma comum na Dakota do Norte, carregava consigo, o tempo todo, um amor e uma perda tão grandes quanto o estado do Texas?

...

O menino que escreveu sobre seu pai ausente tinha uma história a contar. Seu coração estava exilado, e a natureza catalisadora da poesia o ajudou a voltar para casa. E o catalisador da fé? Alimentando-se tanto da razão quanto de nossa habilidade para a capacidade negativa, a fé pode ajudar-nos a ver que nossas experiências mais valiosas são sempre aquelas que deixam em nós, como disse o escultor e crítico Edward Robinson, “um lembrete inconsciente... 2 mais 2 são iguais a 5”, experiências que nos obrigam a ter em mente que nosso relacionamento com os outros e com o mundo são mais misteriosos do que aceitamos admitir. No Universo feito por Deus, o mundo real a que chamamos lar, o amor é maior do que o Texas, e maior até do que a morte, e 2 mais 2 podem ser iguais a 0, a 11, ou mesmo a 4.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Leituras cristãs - 3


Philip Yancey é um autor consagrado no meio cristão, embora tenha uma maneira um tanto quanto diferente de escrever. 
A literatura cristã é dividida, basicamente, em quatro grandes estilos
O primeiro é o dos clássicos, aqueles livros que conseguem tal repercussão, que entram para uma categoria especial que influencia gerações de cristãos. Entre os principais autores, além dos Pais da Igreja (Agostinho, Irineu, Atanásio, etc.), para citar alguns mais próximos da nossa era, estão G. K. Chesterton ("Ortodoxia") e C. S. Lewis ("Mero Cristianismo"). 
O segundo é composto pelos livros de teologia propriamente ditos, em que são discutidos e sistematizados os grandes dogmas do cristianismo, com algumas adaptações conforme o grupo ao qual o autor se filia. 
O terceiro é o que eu chamaria de denominacional, em que alguns aspectos muito particulares de determinadas igrejas têm uma importância tão decisiva na sua pregação, que toda uma literatura muito específica é construída para justificá-los. 
O quarto é uma versão supostamente cristã do estilo de auto-ajuda que vende feito água nas livrarias. 
São os tais "Doze Passos para...", "Sete Maneiras de...", enfim, um monte de títulos cabalísticos para, em tese, ajudar os cristãos a entender ou superar determinados problemas que estão na moda entre os evangélicos, ou que são realmente um entrave para o seu crescimento emocional. 
Felizmente, existem livros sérios (e bons) nesta área, entre os quais destaco dois livros de David A. Seamands, "Cura para os Traumas Emocionais" e "O Poder Curador da Graça".


Yancey flerta com este quarto estilo, embora não proponha nenhuma espécie de "tratamento" para neuroses evangélicas ou x meios para alcançar a prosperidade financeira. 
Os seus livros estão muito próximos de se tornarem clássicos também, embora ele não defenda nenhuma tese ou dogma em especial. 
A característica marcante dos seus livros é a sinceridade (e a honestidade) com que ele se expõe, revelando os seus dilemas mais íntimos e debatendo alguns problemas comuns a todos os cristãos. 
Apresenta, ainda, as visões de vários outros autores cristãos de todas as vertentes, cruzando-as com as opiniões de outros pensadores, inclusive ateus, para tentar formar um quadro do que realmente significa ser cristão no mundo de hoje. 
Neste aspecto, "O Deus (In)visível" (publicado no Brasil pela Ed. Vida) é, a meu ver, o melhor dos seus livros, em que ele sintetiza, dentro do possível, o que lhe passa pela cabeça quando o tema é o relacionamento humano com um Deus, que, muitas vezes, parece estar ausente ou alheio ao que acontece a nós e a este mundo. 
É uma leitura agradável que eu recomendo mesmo para quem é ateu ou não é cristão. 
Ajuda a entender quem nós somos, com o que e com quem nos identificamos como cristãos e como seres humanos, e o que buscamos para nossas vidas e para nossas comunidades. 
Alguns trechos do livro merecem ser destacados, e passo a transcrevê-los a seguir:

“Leve-me a sério!” Trate-me como adulto, e não como criança!”, é a reclamação de todo adolescente. Deus respeita esse pedido. Torna-me um parceiro da obra que realiza em mim e por meio de mim. Dá-me liberdade com total conhecimento de que abusarei dela. Abdica do poder até me pedir que não “entristeça” nem “apague” seu Espírito. Deus faz tudo isso porque quer como parceiro uma pessoa madura, e não um adolescente apaixonado. (p. 174)

Quem diz que crê em Deus e, no entanto, não o ama nem o teme na verdade não crê nele, mas naqueles que ensinaram que Deus existe. Quem acredita que crê em Deus, mas não tem nenhuma ira no coração, nenhuma angústia no espírito, nenhuma incerteza, nenhuma dúvida, nenhum indício de desespero, mesmo quando consolado, crê apenas na idéia de Deus e não em Deus.” (citando Miguel de Unamuno) (p. 175)

Quando recebemos a graça de Deus e a vida espiritual se inicia, a tensão também aumenta. Um santo perfeito não experimentaria nenhuma tensão, e um pecador que não fosse perturbado pela culpa também não a experimentaria. O restante de nós deve viver em algum ponto entre os dois extremos, o que complica a vida mais que simplifica. (p. 179)

Quando perguntaram a Dwight L. Moody se era cheio do Espírito, ele respondeu: “Sim. Mas tenho um vazamento”.
[...]
Os escolhidos de Deus reagiam com a mesma paixão. Moisés discutiu com Deus tão calorosamente que diversas vezes persuadiu Deus a mudar de idéia. Jacó lutou a noite inteira e usou de subterfúgios para conseguir a bênção de Deus. Jó atacou a Deus com uma fúria sarcástica. Davi infringiu pelo menos metade dos Dez Mandamentos. Mas eles nunca desistiram totalmente de Deus, e Deus nunca desistiu deles. Deus pode aplacar a ira, a culpa e até mesmo a desobediência obstinada. Contudo, existe algo que impede o relacionamento: a indiferença. “Voltaram as costas para mim e não o rosto”, disse Deus a Jeremias (32:33), em uma acusação condenatória de Israel.

Com os gigantes espirituais da Bíblia, aprendi uma importante lição sobre o relacionamento com um Deus invisível: faça o que fizer, não ignore a Deus. Convide-o a participar de cada aspecto da vida. Para alguns cristãos, períodos de crise como o de Jó são o grande perigo. Como ter fé em um Deus que parece insensível e até mesmo hostil? Outros, e eu me coloco entre eles, enfrentam um perigo mais sutil. Um acúmulo de distrações, um computador que funciona mal, contas a pagar, uma viagem que tenho de fazer, o casamento de um amigo, a correria normal da vida gradualmente tiram Deus do centro de minha existência. Às vezes, conheço pessoas, alimento-me, trabalho, tomo decisões, faço tudo sem dedicar a Deus um simples pensamento. E esse vazio é muito mais sério do que aquele que foi experimentado por Jó, pois em nenhum momento Jó parou de pensar em Deus.

Em um estudo bíblico do qual participei, um amigo fez o seguinte comentário sobre a vida do rei Davi: “Se Saul prova que “a obediência é melhor do que o sacrifício”, então Davi convence que o relacionamento é ainda melhor que a obediência”. Embora alguém possa achar essa declaração discutível, a história de Davi, no mínimo, demonstra que um relacionamento com Deus pode sobreviver aos mais estarrecedores atos de desobediência. Volto às páginas da história de Davi porque não encontro um exemplo melhor de um relacionamento apaixonado com Deus do que aquele que tinha o rei chamado Davi. Até mesmo seu nome significava, o que vem a propósito, “bem-amado”
(p. 181).

Uma vez, ouvi um sermão memorável sobre Ananias e Safira, história assustadora de Atos 5 que muitos pregadores cautelosamente evitam. Trata-se de um casal que, depois de mentir sobre sua oferta à igreja, cai morto. A passagem, segundo John Claypool, deixa claro que bastou ao casal fazer uma coisa errada para atrair o castigo fatal. Ter guardado o dinheiro não foi o problema: Pedro assegurou-lhes que tinham esse direito. O casal errou porque fingiu ser piedoso. Deus pode perdoar qualquer pecado e pode lidar com qualquer condição espiritual. Nós caímos e levantamos, padrão que a Bíblia exemplificou amplamente, tanto em Davi como em Pedro. Deus exige sinceridade. Não nos atrevamos a fingir diante de Deus, pois assim fechamos as mãos para a graça. (p. 186)


Cada pessoa na Terra vive um roteiro único de dificuldades: solidão quando o casamento sempre foi o alvo, incapacidade física, pobreza, maus-tratos na infância, preconceito racial, enfermidade crônica, família desfeita, vício, divórcio. Se enxergar Deus como Zeus, atirando raios sobre os desventurados seres humanos aqui embaixo, então naturalmente dirigirei minha ira e frustração contra ele, a causa imediata de minhas dificuldades. Se, no entanto, entender que Deus trabalha por trás, sob a superfície, chamando-nos em cada fraqueza e limitação, abro a possibilidade da redenção exatamente para as coisas das quais mais me ressinto na vida.
“O bem e o mal, no sentido moral, não residem nas coisas, mas sempre nas pessoas”, escreveu Paul Tournier. “As coisas e os acontecimentos, felizes ou infelizes, são simplesmente o que são, moralmente neutros. O que importa é a maneira com que reagimos a eles. Raramente somos senhores dos fatos, mas (junto com os que nos ajudam) somos responsáveis por nossas reações. [...] Os acontecimentos nos causam sofrimento ou alegria, mas o crescimento é determinado pela reação de cada pessoa a ambos, por sua atitude interior”. Sendo médico, o dr. Tournier combate o sofrimento e se esforça por aliviar a dor de seus pacientes. Contudo, como conselheiro, faz uso dele de modo sábio, conduzindo seus pacientes a uma reação que lhes permita crescer com a aflição.
Tournier, diga-se de passagem, escreveu o livro “Creative suffering” (Sofrimento criativo) para explorar um fenômeno que sempre o perturbou: as pessoas de maior sucesso geralmente vêm de famílias complicadas ou infelizes. Um colega, ao pesquisar os líderes de maior influência na história do mundo, descobriu que quase todos – a lista de trezentos incluía Alexandre, o Grande, Júlio César, Luís XIV, George Washington, Napoleão a rainha Vitória – tinham algo em comum: eram órfãos. Tournier ficou desconcertado porque, embora vivesse dando conferências sobre a importância de os pais cooperarem para produzir um ambiente familiar criativo, todos esses líderes emergiram de um estado de privação emocional. Tournier, que era órfão, começou a olhar para as dificuldades como algo que não devia ser simplesmente eliminado, mas aproveitado para o bem redentor.
(pp. 272/273)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Grandes filmes - 3

"A Festa de Babette" ("Babettes gæstebud") é um filme dinamarquês de 1987, dirigido por Gabriel Axel, que alcançou reconhecimento internacional, ganhando prêmios em todos os festivais importantes, inclusive o Oscar de melhor filme estrangeiro. Na época, eu não assisti. Só depois de ler o livro "Maravilhosa Graça", de Philip Yancey, em que ele dedica todo o primeiro capítulo ao filme, é que eu fui conferi-lo. Conta a história de uma mulher francesa, Babette, que perde tudo na guerra civil francesa (inclusive a família) e vai parar numa aldeia à beira-mar na Dinamarca, onde é recebida por duas irmãs já idosas, filhas de um pastor que havia fundado uma espécie de seita luterana, e o tempo havia passado e a aldeia estava reduzida a alguns velhinhos que ainda viviam das lembranças do finado reverendo (e dos intragáveis arenques secados ao sol). Babette se refugia com as duas irmãs e trabalha para elas como empregada doméstica em troca do abrigo, sem nada reclamar. Após 14 anos ali, ela recebe a notícia de que ganhara um prêmio na loteria francesa, mediante um bilhete que seu sobrinho renovava anualmente, e, como o mundo que lhe restara (e no qual ela se sentia feliz) era o da pequena aldeia, resolveu gastar os 10.000 francos num jantar francês que quebra a ditadura do arenque e a monotonia dos sabores e das vidas do lugar, inclusive com a visita do General Loewenhielm, que no passado havia cortejado uma das irmãs, mas preferira seguir outro caminho. O jantar (a festa) que Babette lhes prepara - também para comemorar o centenário do nascimento do pastor - é um evento libertador, não só dos gostos e aromas, mas também dos sonhos reprimidos por tanto tempo, e o discurso do General sobre a graça de Deus é um dos momentos mais belos da história do cinema. Uma verdadeira pregação sobre a graça de Deus e sobre a simplicidade e beleza da vida. O filme foi baseado no conto de mesmo nome escrito por Karen Blixen (editado no Brasil em 2006 na coletânia "Anedotas do Destino", pela Cosac Naify), e o discurso do general merece ser registrado como a autora originalmente o escreveu:

A misericórdia e a verdade, meus amigos, encontraram uma à outra. A retidão e a bem-aventurança devem beijar uma à outra. O homem, meus amigos, é frágil e tolo. A todos já nos foi dito que a graça divina encontra-se por todo o universo. Mas em nossa tolice e miopia humanas, imaginamos ser a graça finita. Por esse motivo, trememos. Trememos antes de fazer nossas escolhas na vida e após tê-las feito trememos de medo de ter escolhido errado. Mas eis que chega o momento em que nossos olhos estão abertos e vemos e percebemos que a graça é infinita. A graça, meus amigos, não exige nada de nós senão que a aguardemos com confiança e a reconheçamos com gratidão. A graça, irmãos, não impõe condições e não escolhe nenhum de nós em particular; a graça nos toma a todos em seu seio e proclama anistia geral. Vejam! Aquilo que escolhemos nos é dado e aquilo que recusamos nos é igualmente, e ao mesmo tempo, concedido. Sim, que o que rejeitamos seja copiosamente vertido sobre nós. Pois que a misericórdia e a verdade encontraram uma à outra e a retidão e a bem-aventurança beijaram uma à outra!

Enfim, um grande filme que merece ser visto e revisto por almas cansadas do burburinho do dia-a-dia e das escolhas que fez ou não fez. Pouco antes de ir ao banquete e deliciar-se (e maravilhar-se) com o jantar que lhe foi servido, o general, cansado da vida, dissera-se a si mesmo, como Salomão: "Vaidade de vaidades, tudo é vaidade!". Agora, deparando com os sabores da vida, seu mundo e sua percepção de si mesmo haviam mudado para sempre.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Sexta-feira santa

“Sabemos que a Sexta-Feira Santa que o cristianismo comemora foi a da Cruz. Mas o não-cristão, o ateu, também a conhece. Significa que ele conhece a injustiça, o interminável sofrimento, o desperdício, o brutal enigma do fim, que de maneira tão ampla forma não apenas a dimensão histórica da condição humana, mas também a existência diária de nossa vida. Conhecemos, inevitavelmente, a dor, o fracasso do amor e a solidão, que fazem parte de nossas histórias e destinos. Também conhecemos o domingo. Para o cristão, esse dia é um indício certo, mas precário, evidente, mas além da compreensão, da ressurreição, de uma justiça e de um amor que derrotaram a morte. (...) As características desse domingo carregam o nome da esperança (não existe palavra mais inexplicável).

Mas é nossa a longa jornada diária do sábado.”


(George Steiner, “Real presences”, Chicago, University of Chicago, 1989, p. 231-2, citado por Philip Yancey em “O Deus (In)visível”, Ed. Vida, pág. 280)

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