terça-feira, 24 de junho de 2008

Grandes livros - 6

"José e seus Irmãos" é uma obra magistral de Thomas Mann em 4 volumes (na edição brasileira, os dois primeiros volumes - "A História de Jacó" e "O Jovem José" - estão reunidos em um só) que requer muita disposição e muito amor pela leitura, que não é nada fácil. O segundo volume é intitulado "José no Egito", e o terceiro, "José, o Provedor". Se as 986 páginas de "A Montanha Mágica" já representam um exercício hercúleo de leitura, as quase 1.500 dessa tetralogia requerem ainda mais. Para quem quiser se aventurar nessa maratona literária "thomasmanniana", talvez seja interessante ler o primeiro volume, para ver se lhe agrada a idéia de levar o desafio até o final. Mann não é um escritor fácil, às vezes resvala na arrogância (como, principalmente, em "Doutor Fausto"), mas sua literatura é essencial. É necessário, também, alguma familiaridade com a história bíblica de Jacó e seus filhos, em especial José, no qual se baseia praticamente toda a obra, com exceção da primeira parte, que conta a história de Jacó. É impressionante como, a partir da história de Jacó e José - que toma alguns capítulos de Gênesis -, Thomas Mann consegue reconstruir um mundo perdido do Crescente Fértil (e do Egito), além de imaginar um profundo perfil psicológico não só dos dois personagens bíblicos citados, mas de toda a família, recriando a trajetória de todos eles, até concentrar-se na escravidão de José no Egito e na sua, digamos, volta por cima depois de tanto sofrimento. Em geral, não há quem não se comova com a história de superação de José, e também o seu perdão aos irmãos, quando esses vão ao Egito comprar trigo para a família que passava fome em Canaã. Há um trecho do último volume, quando José se prepara para este reencontro dramático, em que ele comenta com Mai-Sachme (que, na ficção de Mann, foi o carcereiro da prisão e agora é o superintendente de sua casa) sobre a sua expectativa desse "acerto de contas" com o passado, que me parece que resume bem o irresumível, e dá uma pálida idéia da dimensão do pensamento de Thomas Mann quanto ao relato bíblico e sua interpretação:

"Oh, querido Mai, que foste meu guarda e és agora o superintendente da minha casa, tudo isto é tão empolgante e solene que não pode ser expresso em palavras! E precisamente por ser tão solene deve ser tratado com alegre liberdade. Porque a alegria, meu amigo, e a troça astuta são o melhor dom de Deus ao homem, o mais profundo conhecimento que possuímos sobre essa coisa complexa e discutível que denominamos vida. Deus concedeu alegria à humanidade para que o rosto terrivelmente sério da vida se visse obrigado a mostrar um sorriso. Meus irmãos rasgaram minha vestimenta e me atiraram dentro do poço; agora deverão comparecer diante de mim, pois essa é a vida. E o problema é saber se teremos de julgar o ato pelo resultado e aprovar a má ação porque era necessária para o bom resultado. Tais são os problemas que nos propõe a vida. Não podem ser resolvidos com uma cara séria. Somente com jovialidade pode o espírito do homem elevar-se acima deles para que, ao ver-se na presença do que não tem resposta, possa, com um sorriso, fazer rir o próprio Deus, o magno Irrespondível."

Um comentário:

  1. Gostei do seu blog. Estou lendo Mann pela primeira vez, "A montanha mágica" e estou fascinada. Não é sem razão que suas obras são tão extensas, afinal, ele tinha muito à dizer. Depois de escalar a "Montanha", pretendo fazer uma incursão pelo antigo Egito. Após ler seu "post" fiquei ainda mais estimulada.

    Abraços,

    Janete.

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