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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Espaços coletivos de trabalho não são produtivos, diz pesquisa japonesa


Pelo jeito, pesquisas desmentem mais uma lenda comprada como a mais absoluta verdade por profissionais de RH, segundo informa a Deutsche Welle brasileira:

Escritório aberto prejudica concentração e produtividade, constata estudo

Cientistas japoneses confirmam o que já se suspeitava: conversas paralelas em escritórios abertos são veneno para a concentração. Estudo mostra que elas perturbam até mais do que outros ruídos.

Muitas pessoas já passaram por essa situação: um funcionário quer se concentrar em seu trabalho, mas, na mesa ao lado, dois colegas discutem animadamente sobre um novo projeto, e, para completar, um terceiro telefona há meia hora com um cliente importante, em alto e bom som. Quem se distrai com tudo isso é que está errado?

Não, afirma um estudo realizado recentemente no Japão. Os ruídos em segundo plano distraem o raciocínio, principalmente em se tratando de conversas relacionadas ao trabalho.

Uma equipe de pesquisadores da Universidade Yamaguchi, no Japão, liderada por Takashiro Tamesue, coordenou um experimento cujos participantes realizavam testes de atenção em computadores enquanto se escutava no ambiente uma gravação, ou de vozes ou de ruídos semelhantes, mas sem sentido. A pesquisa mostrou que os participantes tiveram resultados piores ao serem expostos às conversas reais do que aos ruídos.

Ondas cerebrais alteradas

Segundo o pesquisador japonês, que apresentou seus resultados num encontro da Sociedade Acústica dos EUA em Honolulu, no Havaí, no início de novembro, "conversas no ambiente costumam atrapalhar o trabalho em empresas que mantêm escritórios abertos". O estudo sugere que o nível de ruído não é o único fator que impede a concentração do funcionário: depende também sobre que assunto se está conversando.

O bate-papo relacionado ao trabalho entre colegas atrapalha mais do que o barulho de uma autoestrada vindo do lado de fora, mesmo que ambos apresentem o mesmo volume. Até mesmo trabalhar num café barulhento, onde os clientes conversam sobre outros temas, pode ser mais produtivo do que num escritório coletivo.

Tamesue e seus colegas registraram num eletroencefalograma (EEG) as ondas cerebrais dos participantes do teste, enquanto seu nível de atenção era avaliado através de computadores. Quando os voluntários tinham que ouvir outras pessoas falando durante suas tarefas, dois sinais específicos eram muito mais baixos no EEG: o que representa a resposta cerebral a um estímulo, e o indicador de atenção seletiva. Segundo os pesquisadores, isso indica que a atenção seletiva e a memória estava prejudicada. Música, aliás, provocou o mesmo efeito.

Tamanduá no formigueiro

Muitos empregadores gostam de transformar as antigas salas para um ou dois funcionários em grandes escritórios coletivos, visando estimular a comunicação e a cooperação. No entanto a ciência tem repetidamente mostrado que esse tipo de local de trabalho não é uma boa solução. "Um escritório aberto é o lugar mais ideal para impedir o trabalho das pessoas", comentou o coach profissional Martin Wehrle no site Spiegel Online. "Escritórios abertos afetam a produtividade dos funcionários como um tamanduá num formigueiro."

Em 2000, o psicólogo Gary Evans, da Universidade Cornell, em Ithaca, nos EUA, e seus colegas encontraram níveis elevados de adrenalina, o hormônio do estresse, na urina de empregados que trabalham em grandes escritórios. Eles também eram menos motivados para realizar suas funções.

Pesquisadores dinamarqueses relataram em 2011 que empregados de escritórios abertos pedem licença médica com maior frequência. Ainda não se pôde determinar se tal se deve ao estresse ou ao fato de agentes patogênicos se espalharem mais facilmente nesses espaços.

Em 2008, Vinesh Oommen e seus colegas da Universidade de Queensland, Austrália, fizeram uma meta-análise a partir de dados científicos disponíveis sobre escritórios abertos, concluindo que seus funcionários "são confrontados com uma série de afecções, como perda de privacidade ou de identidade, desempenho fraco, numerosos problemas de saúde, sobrecarga sensorial e baixa satisfação profissional".

Muitos que exercem suas funções em grandes escritórios coletivos já registraram que não conseguem trabalhar tão bem. O recente estudo dos pesquisadores japoneses fornece uma explicação científica para essa sensação.



domingo, 3 de março de 2013

Procrastinação pode ser positiva

Nossa leitura de domingo procura sempre ser um pouco diferente, como a matéria abaixo, publicada na Folha Equilíbrio de 17/01/13:

Procrastinação pode ser produtiva; conheça estratégias

John Tierney

Nos últimos cinco anos --ou talvez até mesmo nos últimos dez-- fiquei pensando em publicar uma coluna de Ano Novo com uma resolução ousada para o ano que se inicia: "O poder da procrastinação positiva".

Bem, ainda estamos bem no início do ano e podemos tocar nesse assunto --especialmente se você ainda não pensou nas suas resoluções para 2013. Sim, você pode parar de se sentir culpado por procrastinar. Agora há argumentos científicos que confirmam isso.

Pesquisadores identificaram de modo independente o fenômeno da procrastinação positiva, embora não haja consenso quanto a essa denominação. "Procrastinação estruturada" é o termo preferido por John Perry, filósofo da Universidade de Stanford que publicou um livro sobre o tema no ano passado. É certo que não se trata de um livro longo (92 páginas com pouco texto), mas ele merece crédito: ele o escreveu, e apenas 17 anos depois de ter identificado o conceito.

Perry sentia raiva de si próprio porque procrastinava, o que é algo típico. Até que lhe ocorreu, em 1995, que ele não era totalmente preguiçoso. Enquanto adiava a correção de artigos, não ficava simplesmente de braços cruzados; ele apontava lápis, cuidava do jardim ou jogava pingue-pongue com os alunos. "Os procrastinadores", conta ele, "raramente ficam sem fazer nada".

Pode-se dizer que o ponto de vista de Perry é modesto, talvez, mas deixou a sua consciência mais leve e o fez deixar para trás a antiga ideia de que os procrastinadores devem assumir menos compromissos. A chave para a produtividade, afirma ele em "A Arte da procrastinação", é assumir mais compromissos --mas ser metódico ao fazê-lo.

No topo da sua lista de coisas a fazer, coloque tarefas difíceis, se não impossíveis, que soem vagamente importantes (mas que não o sejam de fato) e que pareçam ter prazos (mas que na verdade não tenham). Depois, em posições inferiores da lista, inclua algumas tarefas exequíveis que realmente importem.

"Cumprir essas tarefas se torna uma forma de não fazer as coisas que estão em posições mais altas na lista", escreve Perry. "Com esse tipo de estrutura apropriada de tarefas, o procrastinador se torna um cidadão útil. Na verdade, o procrastinador pode até mesmo adquirir, como eu, a fama de ser bastante produtivo".

Perry reconhece generosamente que se apoiou nos ombros de gigantes, em especial Robert Benchley, membro da Távola Redonda de Algonquin. Em 1930, Benchley revelou como reuniu força de vontade suficiente para ler revistas científicas e montar uma estante quando deveria estar escrevendo um artigo.

"O segredo de tanta energia e eficiência na execução de um trabalho é simples", escreveu ele. "O princípio psicológico é o seguinte: qualquer pessoa pode cumprir qualquer meta de trabalho, desde que não seja o trabalho que ela tem que fazer naquele dado momento".

Também podemos chamar isso de "procrastinação produtiva", o termo usado por Piers Steel, psicólogo da Universidade de Calgary. Essa é a sua técnica preferida entre as dezenas que ele catalogou enquanto pesquisava para escrever seu livro de 2011, "A Equação da Procrastinação".

"Para a maioria de nós, a procrastinação pode ser abatida, mas não inteiramente derrotada", disse-me Steel, descrevendo como levou uma década para escrever um de seus trabalhos acadêmicos sobre procrastinação. "O truque que melhor funciona para mim é fazer com que meus projetos concorram um com o outro, procrastinando em relação a um enquanto trabalho no outro".

Steel diz que isso se baseia em princípios consistentes de psicologia comportamental: "Estamos dispostos a exercer qualquer tarefa vil desde que ela nos permita fugir de algo pior". Ele diz que deve créditos teóricos ao Sir Francis Bacon, filósofo do século 17 cuja estratégia autocontrole era "colocar uma emoção contra a outra e dominar uma a uma, mesmo que nós cacemos uma besta com a outra".

Steel, que entrevistou mais de 24 mil pessoas em todo o mundo, diz que 95% das pessoas confessam procrastinar pelo menos ocasionalmente. (Você pode verificar se é um procrastinador participando da pesquisa) Aproximadamente 25% dos entrevistados são procrastinadores crônicos, índice cinco vezes maior que o registrado em 1970.

Ele atribui esse aumento à natureza mutável do local de trabalho: quanto mais flexíveis os trabalhos se tornam, mais há oportunidades de evitar tarefas desagradáveis. Atualmente, quem trabalha normalmente gasta um quarto do dia procrastinando; quem estuda gasta um terço. Os homens têm mais propensão à procrastinação crônica do que as mulheres --especialmente os homens jovens.

Quantos deles estão realmente tornando isso algo produtivo? Infelizmente, os dados não são bons, e hoje muitos pesquisadores da temática do autocontrole têm dúvidas quanto à procrastinação positiva. Mesmo quando ela funciona, dizem eles, ainda estamos desperdiçando energia ao nos preocuparmos, consciente ou inconscientemente, com a tarefa que estamos evitando.

E embora Robert Benchley possa ter montado aquela estante, muitos especialistas acham que Raymond Chandler é um modelo melhor. Chandler usou a mesma percepção de Perry – a de que os procrastinadores raramente ficam totalmente ociosos – para desenvolver uma estratégia que Roy F. Baumeister, psicólogo social da Universidade Estadual da Flórida (com quem escrevi um livro sobre a força de vontade) chama de "Alternativa do Nada". Chandler se forçou a escrever histórias de detetive, dedicando-se à tarefa durante quatro horas por dia e seguindo duas regras:

a) Você não tem que escrever.

b) Você não pode fazer nenhuma outra coisa.

"É o mesmo princípio da manutenção da ordem nas escolas", explicou Chandler. "Se fizermos os alunos se comportarem, eles acabam aprendendo alguma coisa só para não ficarem entediados."

Mesmo Perry diz que muitas vezes faz sentido seguir esse conselho clássico para procrastinadores: basta começar o que se deve fazer. Ele sabe que a sua estratégia é complicada.

"A procrastinação estruturada exige certa dose de autoengano, porque costumamos perpetrar esquemas em pirâmide em nós mesmos", escreve ele. "Precisamos ser capazes de reconhecer e assumir tarefas de valor superdimensionado e prazos irreais para acreditar que essas tarefas são importantes e urgentes".

Felizmente, observa ele, os procrastinadores podem ser ótimos ao se autoenganar, uma habilidade também observada por Steel.

"A procrastinação produtiva envolve um pouco de faz-de-conta. É como adiantar o relógio em cinco minutos em relação ao horário real", disse-me ele. "Nós sabemos que fomos nós que adiantamos o ponteiro, mas ainda assim fingimos que isso não aconteceu".

"Nem todo mundo é capaz de fazer isso. Acho que é algo que funciona melhor para quem sente culpa por sua procrastinação e precisa amenizar isso. Se você é do tipo de pessoa que fica fazendo faxina no quarto na véspera de uma prova, é provável que isso funcione".

No mínimo, você pode usar essa estratégia para parar de sentir tão mal quanto a um problema que todo mundo enfrenta. Ela é certamente mais sã do que o lugar-comum de nunca deixar para amanhã o que se pode fazer hoje. Seguindo essa lógica, nunca pararíamos de trabalhar --há sempre algo que pode ser feito hoje.

É melhor seguir a versão reescrita por Perry: nunca cumpra hoje uma tarefa que pode desaparecer amanhã.



Cá entre nós, a procrastinação básica (e bastante negativa) hoje funciona assim:






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