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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O pastor que virou caminhoneiro crossdresser


A notícia é da BBC Brasil:

A história do caminhoneiro que se assumiu crossdresser e roda o Brasil de salto alto

Vinícius Lemos

O caminhão Mercedes, de cor azul bebê, estaciona e abre as portas. A motorista, Afrodite, de 68 anos, desce com destreza em cima de um par de saltos, habilidade conquistada nas décadas em que utilizou o calçado escondida de todos. Seu vestido é de cor preta, uma forma de luto, em respeito à morte do homem que foi um dia.

Afrodite nasceu Heraldo Almeida Araújo - nome que consta em todos os seus documentos -, mas há cerca de seis meses pede para ser chamada pelo nome feminino, escolhido por conta da admiração que nutre pela deusa grega do amor, da beleza e da sexualidade.

Em meados do ano passado, decidiu se assumir como crossdresser, prática na qual homens utilizam roupas e acessórios considerados femininos.

"Desde criança, sempre me senti mulher. Perguntava para a minha mãe por que meus seios não cresciam e ela dizia que homens não têm seios. Nunca entendi por que nasci assim", revela.

Afrodite se considera heterossexual e parou de se envolver com mulheres há alguns anos. Em meio às mudanças dos últimos meses, espera virar transexual e passar a se interessar por homens, deixando para trás uma vida que avalia como triste, por não ter conseguido ser quem realmente é.

Já foi cabo do Exército, caminhoneiro, eletricista, empresário e pastor. Casou-se duas vezes e teve uma filha. E arrumava formas para suprir os desejos escondidos.

"Na infância, eu pegava roupas de algumas primas e usava. Depois, quando adulta, eu mesma costurava minhas roupas, escondida, ou comprava algumas peças. E usava roupas íntimas femininas, como calcinha ou sutiã, por baixo das roupas masculinas."

Usou roupas de mulher pela primeira vez aos 13 anos, quando pediu às primas que a vestissem e maquiassem. Agora, mais de cinco décadas depois, decidiu que irá fazer a cirurgia de redesignação sexual. "O procedimento, junto com o silicone que pretendo colocar, vão fazer com que eu complete esse ciclo", diz.

A vida de Afrodite assemelha-se à de diversas crossdressers brasileiras. Conforme Cristina Camps, uma das diretoras do Brazilian Crossdresser Club - dedicado a praticantes do crossdressing e transgêneros -, muitas demoram décadas para se assumir.

"Normalmente, essa vontade surge na infância, mas em função dos padrões da sociedade, somente na faixa adulta irão compreendê-lo. Geralmente, os homens se assumem entre quatro paredes, pelo receio de serem descobertos e perderem as conquistas profissionais e sociais."

Não há levantamentos sobre o número de crossdressers no Brasil. Entretanto, Cristina explica que mais de 3 mil homens já passaram pelo Brazilian Club. "O crossdressing, no Brasil, ainda é embrionário. Nós somos o primeiro clube voltado a esse fetiche no país. Surgimos em 1997, mas, antes disso, certamente centenas de pessoas já eram adeptas da prática. É difícil mensurar", comenta.

Casamentos

Nascida em Jacarezinho (PR), Afrodite hoje vive em Cuiabá (MT). Durante a infância no Paraná, ela se recorda que sempre teve tendência a escolher atividades relacionadas às meninas, o que a tornava alvo de comentários dos colegas de classe. "Ele riam de mim, por causa do meu jeito mais delicado."

Na puberdade, teve uma crise de identidade. "Fiquei revoltada quando nasceram os primeiros pelos em mim e minha voz engrossou. Foi estudando anatomia que passei a entender que não poderia ter seios. Mas ainda assim, mantive meu sonho de um dia me tornar mulher", declara.

Quando se mudou para São Paulo, ainda na adolescência, começou a trabalhar em uma tecelagem e passou a costurar roupas femininas para si, quando ficava sozinha. E usava-as apenas dentro da fábrica, porque não tinha coragem de sair à rua.

Manteve o costume de usar, secretamente, roupas íntimas femininas nos períodos em que serviu o Exército, em que foi funcionária pública em Corumbá (MS) e, posteriormente, caminhoneira. Na cidade sul-mato-grossense, conheceu sua primeira mulher, de quem escondeu o fetiche. Eles se casaram em 1974.

"Muitas vezes, eu tinha que viajar de caminhão, a trabalho, e usava lingeries. Mas nunca usei nada na frente dela", relata. Certa vez, a mulher encontrou, no bolso de uma calça de Heraldo, calcinhas que haviam sido utilizadas pelo próprio marido. "Talvez ela desconfiasse, mas não falou nada."

Foi também nesse período que Afrodite teve a única filha, Tatiana, um ano após o casamento. Foi um dos momentos mais importantes de sua vida.

"Eu sempre quis ter uma filha, porque acreditava que me identificaria mais", comenta.

O casamento durou 16 anos e terminou após Afrodite engatar um romance com outra mulher. Depois desse relacionamento, pela primeira vez, ela arriscou sair na rua com roupas femininas.

"Eram coisas discretas. Comecei no fim de 1995. Eu não conhecia sobre crossdresser nem transgênero, só tinha muita vontade de andar vestida de mulher e de ser uma", relata.

Ela deixou de esconder os desejos aos amigos mais próximos, mas logo desistiu de usar roupas femininas em público. "O preconceito era muito grande nas ruas. Não cheguei a ser alvo de nenhuma agressão, mas ouvia comentários como 'bicha' ou 'viado'. Então, decidi me preservar e também desisti, temporariamente, dos meus planos de mudar de sexo."

O segundo casamento durou 14 anos e terminou em 2013. Um dos motivos do rompimento, diz a crossdresser, era a vida sexual do casal - Afrodite diz que sempre teve dificuldade em se relacionar com mulheres, mas tampouco se interessa por homens. "Eu me considero heterossexual, porque pessoas do mesmo sexo nunca me atraíram. Às vezes penso que posso ser assexual."

A carreira de pastor

Durante o segundo casamento, Heraldo, espírita kardecista desde a infância, decidiu conhecer mais sobre a religião da companheira, que era evangélica. Acabou se tornando pastor, função que exerceu por mais de 10 anos na Assembleia de Deus em Cuiabá.

"Eu pregava, dava testemunhos e falava sobre a palavra de Deus. Eu fazia até culto em minha residência, para 150 pessoas. Gostava muito". E costumava liderar cerimônias religiosas com roupas íntimas femininas. "Ninguém percebia, mas eu usava, porque me sentia bem."

Com o passar dos anos, passou a se questionar sobre como a religião enxergaria o fato de se sentir como uma mulher. "As minhas fantasias continuavam e, muitas vezes, perguntei a Deus se eu estava errada. Mas me sentia em paz com minha consciência e isso me tranquilizava."

Em 2013, após decidir que iria se tornar crossdresser, deixou a Assembleia de Deus. "Muitas coisas iam contra os meus princípios e me sentia muito reprimida. Eu acho que não deveria ter ficado tanto tempo (na igreja). Hoje penso que não deveria ter retardado tanto a minha felicidade."

Relação com a família

Afrodite conta que tinha uma boa relação com seus irmãos - com quem chegou a formar uma sociedade em uma empresa eletrotécnica - até ela passar a usar roupas femininas abertamente.

"Falaram que eu estava ficando maluca. Foram me isolando e até me proibiram de atender clientes", afirma.

Afrodite chegou a registrar boletim de ocorrência contra parentes, alegando sofrer ameaças de agressão. E abriu um processo contra os dois irmãos por injúria e difamação. "Já tivemos algumas audiências e a juíza orientou que a gente faça acompanhamento psicológico", diz.

A doutora em psicologia social Sandra Elena Sposito afirma que o acompanhamento psicológico pode auxiliar uma crossdresser a se entender melhor. "Essas pessoas podem precisar, talvez, de algum amparo para enfrentar situações de estigma e preconceito. Não pelo crossdressing em si, mas para que compreendam que essa situação não precisa gerar sofrimento. A dificuldade vem da forma de estar no mundo e não ser reconhecida, não poder transitar na sociedade nem se expressar socialmente."

O preconceito dentro da própria família foi justamente a parte mais difícil para Afrodite. "Eram pessoas que eu esperava que, ao menos, me respeitassem. Não imaginava que fossem me atacar dessa forma", lamenta. No entanto, ela afirma ter recebido apoio dos sobrinhos e do pai. "Ele agiu normalmente comigo. Não fez nenhum comentário quando me viu de mulher pela primeira vez."

Ao recordar-se da mãe, já falecida, ela se emociona. "Ela me amaria ainda mais. Sei que ela me assiste, porque nada dá errado para mim. Sei que estou conseguindo vencer. Hoje, sinto a presença dela me encorajando", diz, entre lágrimas.

Outro apoio importante veio da filha, a dona de casa Tatiana Rodrigues, de 42 anos. "Ela lidou tranquilamente com isso. Na primeira vez em que ela me viu, só me deu um conselho: 'não pinta a unha de cor muito forte quando estiver trabalhando'. Mas eu disse que gosto de cores assim, pois escondem a sujeira da unha, por conta do meu trabalho como caminhoneira."

Rodrigues conta que, até 2017, nunca havia identificado no pai um interesse em se transformar em mulher. "Nunca pensei nisso. Meu pai não era aquela figura extremamente machista, mas nunca demonstrou tendência afeminada. Era um senhor comum", explica.

"Não posso dizer que (vê-lo vestido de mulher) foi algo que você olha e pensa: 'tudo bem'. A primeira coisa que pensei foi: 'nossa, é o meu pai. Aquela imagem que eu tinha antes não existe mais'. Mas a essência dele é a mesma e é isso que importa. Depois do primeiro impacto, passei a encarar normalmente, porque meu pai para mim é um tesouro, junto com a minha mãe", conta.

Preconceito e mudança de gênero

Mas a filha teme pela integridade física do pai. "O meu medo é que ele sofra algum tipo de violência, porque o mundo está cada vez mais perigoso e existem muitas pessoas intolerantes", diz.

É o mesmo temor do pai. "Nunca fui agredida fisicamente, mas esse é o meu maior medo", conta Afrodite.

Desde que se assumiu como crossdresser, ela passou a enfrentar comentários maldosos e situações constrangedoras. "Já levei empurrões em bares, mas outras pessoas entraram para me defender. Eu também já fui impedida de entrar em alguns estabelecimentos. O preconceito agora faz parte da minha rotina. As pessoas torcem o nariz, às vezes levantam e vão sentar em outro lugar. Eu ignoro, mas isso tudo machuca."

Um dos momentos mais difíceis é quando precisa utilizar banheiro em algum estabelecimento público. "Muitos não me deixam entrar no feminino e eu tenho que ir ao masculino. É ruim, porque eu uso meia-calça, tenho que usar o mictório e acabo tendo que levantar o vestido. Me sinto exposta, porque sempre tem alguém que me constrange ou me xinga dentro do sanitário", lamenta.

Afrodite gostaria de realizar a cirurgia de mudança de sexo ainda neste ano. Antes, porém, deverá fazer acompanhamento terapêutico, para que possa receber laudo psicológico/psiquiátrico favorável e o diagnóstico de transexualidade.

Enquanto isso, ela entrou com uma ação na Justiça para que o nome Afrodite passe a constar em seus documentos. "Expliquei para a juíza que eu não sou homossexual, sou transexual. No Fórum, todos me chamavam de Afrodite", relata. O processo ainda está em tramitação.

Atualmente, Afrodite se classifica como crossdresser, por não ter feito nenhuma modificação em seu corpo. Quando fizer a cirurgia de mudança de sexo, passará a se considerar transexual. "Eu quero chegar o mais próximo possível de uma mulher, que é como eu realmente me sinto", conta.

Crossdresser há cerca de dez anos, a psicóloga e artista plástica Fe Maidel argumenta que o crossdressing não necessariamente precede uma mudança de gênero: "Cada pessoa tem uma maneira única de se expressar no mundo. Ser crossdresser pode ser o começo de um processo de conhecimento, que pode culminar na transição de gênero, ou não".

A vontade de concluir a fase de transição é tamanha que Afrodite tem tomado hormônios por conta própria, sem consultar um médico, há cinco meses. "A minha filha já me deu bronca. Ela falou: 'papai, eu convivi com o Heraldo por 42 anos e quero viver o mesmo período com a Afrodite'", comenta. A crossdresser prometeu suspender o medicamento até a devida indicação médica.

A redesignação sexual será, segundo ela, o começo de uma nova vida. "É um sonho que tenho desde criança. Eu preciso muito dessa cirurgia", diz. E, mesmo antes disso, Afrodite já decretou a morte do homem que era desde a infância. "As pessoas me perguntam o porquê de eu gostar tanto de preto. É porque estou de luto, em respeito ao Heraldo, que morreu."

A crossdresser leva uma vida solitária. Sua rotina se resume a alguns fretes no caminhão, ir a lojas comprar roupas e frequentar bares, nas noites em que está feliz. A maior parte de seus dias ela tem passado em casa, onde mora sozinha, junto com 16 gatos. Diz que há poucas pessoas com as quais pode contar. "É triste, mas eu sei que acabam se afastando de mim. Só tenho a minha filha, minha neta, meu genro e minha primeira esposa."

Mesmo assim, Afrodite não se arrepende de ter se assumido crossdresser. "Eu só me culpo por não ter feito isso antes. O que me deixa triste é que sei que já estou velha e não vou ter tanto tempo para desfrutar desse meu sonho."



terça-feira, 20 de setembro de 2016

Bastião do moralismo, Colégio Pedro II do RJ libera saias para garotos

A notícia foi publicada no Estadão de 19/09/16:

Colégio Pedro II, no Rio, libera saia para meninos

Colégio tradicional aboliu a distinção entre uniformes e já adota nome social na chamada

Clarissa Thomé

O tradicional Colégio Pedro II, escola federal fundada em 1837, não tem mais uniformes masculino e feminino. Na prática, o uso de saias está liberado para os meninos. Em 2014, estudantes fizeram um “saiato”, depois que uma aluna transexual vestiu a saia de uma colega e teve de trocar o uniforme. Desde maio deste ano, o Pedro II adota na lista de chamada o nome social escolhido por alunos e alunas transexuais.

Portaria publicada em 14 de setembro lista o uniforme, sem distinguir que peças são para uso masculino ou feminino. Anteriormente, as meninas deveriam usar saia e camisa branca com viés azul e os meninos, calça de brim e camisa totalmente branca.

“Não se trata de fazer ou não distinção de gênero. Trata-se de cumprir resolução do Conselho Nacional de Combate à Discriminação LGBT (órgão ligado ao Ministério da Justiça). Eu apenas descrevo as opções de uniforme; deixo propositalmente em aberto, para o uso de acordo com a identidade de gênero”, afirmou o reitor Oscar Halac.

Ele reconhece que a decisão pode “causar certo furor” pelo fato de o Pedro II estar entre as escolas mais tradicionais do País. “Tradição não é sinônimo de anacronia. Mas pode e deve significar nossa capacidade de evoluir e de inovar”, disse.

De acordo com o reitor, a medida tem ainda o objetivo de “contribuir para que não haja sofrimento desnecessário” entre estudantes transexuais e levantar a discussão sobre tolerância e o respeito às diferenças. “A escola pública precisa sinalizar que é hora de parar de odiar por odiar.” Nesta segunda, não havia alunos de saia ou meninos e meninas que tenham trocado camisas nas unidades do Centro e zona sul. Halac disse acreditar que serão poucos os que adotarão saias. “Aqui dentro eles estão seguros. Lá fora, ainda não.”

Reações. De acordo com o reitor, não chegou à direção qualquer reação negativa de pais de alunos. O manobrista Afonso Marcelo, de 50 anos, pai de uma aluna de 12, no 6.º ano da unidade Centro, não gostou da mudança. “Saia? Pelo amor de Deus. Aí é demais”, comentou. Já a professora Ana Lúcia Pereira, de 49 anos, mãe de estudante também do 6.º ano, elogiou a medida. “Se o aluno se sente à vontade de saia ou de calça, não é isso que vai interferir na qualidade do ensino nem no caráter.”

As estudantes do 3.º ano Fabíola Lopes, de 19 anos, e Georgia Gusmão, de 17, elogiaram a mudança. “A quebra dessa distinção de uniforme para menino e para menina permite a inclusão das pessoas que não se identificam com esse ou aquele gênero”, disse Fabíola.

O Pedro II tem 13 mil alunos. De acordo com Iracema Cruz, integrante de uma das quatro comissões de pais e responsáveis, a edição da portaria foi feita depois de um longo processo. “Essa portaria atende a um anseio dos próprios alunos de poderem usar os uniformes com que se sentem à vontade.”



sexta-feira, 23 de outubro de 2015

TJSP aplica Lei Maria da Penha para transexual

A informação é do Tribunal de Justiça de São Paulo:

TJSP APLICA LEI MARIA DA PENHA PARA PROTEÇÃO DE TRANSEXUAL

A 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo determinou que medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha sejam aplicadas em favor de uma transexual ameaçada pelo ex-companheiro. O homem não poderá aproximar-se da vítima, dos familiares dela e das testemunhas do processo, está proibido de entrar em contato e não poderá frequentar determinados lugares.

A vítima, que não fez cirurgia para alteração de sexo, afirmou que manteve relacionamento amoroso por cerca de um ano com o homem. Após o fim do namoro, ele passou a lhe ofender e ameaçar. Assustada, registrou boletim de ocorrência e pediu em juízo a aplicação das medidas protetivas. O pedido foi negado pelo juízo de primeiro grau, sob fundamento de que a vítima pertence biologicamente ao sexo masculino, estando fora do escopo da Lei Maria da Penha.

No entanto, em julgamento de Mandado de Segurança impetrado no Tribunal de Justiça, a magistrada Ely Amioka, relatora do caso, afirmou que a lei deve ser interpretada de forma extensiva, sob pena de ofensa ao princípio da dignidade da pessoa humana. “A expressão ‘mulher’, contida na lei em apreço, refere-se tanto ao sexo feminino quanto ao gênero feminino. O primeiro diz respeito às características biológicas do ser humano, dentre as quais a impetrante não se enquadra, enquanto o segundo se refere à construção social de cada indivíduo, e aqui a impetrante pode ser considerada mulher.”

E acrescentou: “É, portanto, na condição de mulher, ex-namorada, que a impetrante vem sendo ameaçada pelo homem inconformado com o término da relação. Sofreu violência doméstica e familiar, cometida pelo então namorado, de modo que a aplicação das normas da Lei Maria da Penha se fazem necessárias no caso em tela, porquanto comprovada sua condição de vulnerabilidade no relacionamento amoroso”.

O julgamento teve participação dos desembargadores Sérgio Coelho e Roberto Solimene. A decisão foi por maioria de votos.

Comunicação Social TJSP – GA (texto)



quinta-feira, 21 de maio de 2015

Juiz argentino reduz pena de pedófilo alegando que vítima seria gay

A vítima tem 6 anos de idade. Tempos estranhos estamos vivendo.

A decisão absurda provocou reações inclusive da comunidade LGBT da Argentina.

A informação é do Estadão:

Pedófilo tem pena reduzida porque vítima 'era gay'

RODRIGO CAVALHEIRO

Magistrado argentino atenuou sentença de abusador, sob argumento de que menino, de 6 anos, já tinha sido violado

Um juiz argentino reduziu a pena de um pedófilo sob a alegação de que a vítima, de 6 anos, já tinha orientação homossexual e, como havia sido alvo de abuso de outro violador, esse segundo caso "não era tão ultrajante" e não justificaria uma agravante.

A decisão do magistrado de segunda instância Horacio Piombo o colocou sob ameaça de cassação de organizações jurídicas e associações LGBT. Ele defendeu, porém, a sentença. "A decisão é técnica. O réu não merecia a agravante pedida, pois a vítima não tinha sido violada pela primeira vez", disse à Rádio La Red. Em sua sentença, o juiz escreveu que o menino "estava habituado a situações de travestismo". "Não pode ser ultrajado alguém cuja orientação sexual está definida."

Ao baixar a pena de 6 anos para 3 anos e 2 meses do condenado, Mario Tolosa, dirigente de um clube de futebol da região metropolitana de Buenos Aires, foi solto. Ele vive a quatro quarteirões da família da vítima, que hoje tem 11 anos. A aproximação ocorreu quando ele se ofereceu para dar carona ao menino, que treinava no clube Florida. Segundo a vítima, o homem deu à vítima 2 pesos (R$ 0,67). Haverá recurso da decisão na Suprema Corte da Província de Buenos Aires.

A outra rádio, a Vorterix, o juiz queixou-se de perseguição política por outras decisões. Em 2011, ele reduziu pela metade a pena de um pastor que havia violado duas adolescentes, a quem prometia salvação se tivessem relação sexual com ele. O juiz argumentou em sua decisão que as meninas viviam em lugar pobre, onde as relações sexuais começam mais cedo.

Piombo é alvo de um processo de cassação por isso. "É a ideologia dele, não é uma decisão causal. Há muita garantia para delinquente, pouca para as vítimas", disse o advogado Julio Torrada ao Estado, que trabalha na cassação do juiz e de outro magistrado ligado ao caso.



sexta-feira, 20 de março de 2015

Papa almoçará amanhã em Nápoles com 90 presos, 10 deles transexuais

Nápoles já ama um argentino que jogou no time local, o Napoli, de 1984 a 1991. Ele se chama Diego Armando Maradona.

Outro argentino, o papa Francisco, visitará amanhã, 21 de março de 2015, a penitenciária de Poggioreale, nas cercanias de Nápoles, onde almoçará com 90 presos da instituição.

O detalhe, digamos, curioso da visita é que 10 desses presos são transexuais.

Além disso, os próprios presos se encarregarão de preparar o almoço pra lá de especial.

O papa sairá de helicóptero do Vaticano às 7 da manhã e pousará primeiro no Santuário de Pompéia, onde dedicará alguns minutos a oração.

O programa inclui, em seguida, um traslado de helicóptero até Nápoles, onde o pontífice se encontrará às 9:30h com grupos de pessoas em situação vulnerável na praça João Paulo II.

Estão programadas, também, reuniões com religiosos e diáconos responsáveis pela manutenção da Basílica de Nápoles.

Para completar a visita tipicamente italiana, o papa Francisco se encontrará com jovens empresários e agitadores culturais no bairro de Sciampia, na periferia de Nápoles, região conhecida também por ter áreas controladas pela máfia napolitana, a Camorra.

Tudo indica, portanto, que outro argentino entrará no panteão napolitano.

As informações acimas foram divulgadas pelo canal de televisão da Conferência Episcopal Italiana e reproduzidas no Religión Digital.



quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Papa concede audiência privada a transexual

transexual
A informação é do IHU:

Francisco derruba outro muro: o encontro com um transgênero


"Se eu pudesse escolher, não teria escolhido a minha vida", disse ele, em lágrimas, ao papa. E descreveu o sofrimento de ser expulso da paróquia como "criatura do diabo". No sábado, Francisco recebeu em audiência privada no Vaticano um transsexual espanhol, acompanhado pela atual namorada. O transgênero, Diego Neria Lejárraga, de 48 anos, que nasceu mulher e se submeteu a uma operação de mudança de sexo há oito anos, tinha escrito ao papa denunciando que tinha sido marginalizado da Igreja na sua cidade de Plasencia, em Extremadura. 


A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no jornal La Stampa, 27-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


Bergoglio lhe telefonou duas vezes em dezembro e, no sábado, recebeu-o na sua residência, em Santa Marta. Na sua carta, Diego, fiel e praticante desde a infância, lamentava que, depois da cirurgia, na sua cidade natal em Extremadura, ele havia sido rejeitado e insultado na paróquia que ele frequentava.

A "filha do diabo"

O pároco tinha lhe chamado até de "filha do diabo". Depois de escrever ao papa, o primeiro telefonema do pontífice chegou-lhe no dia da Imaculada e um segundo nos dias antes do Natal, quando Francisco o convidou para ir ao Vaticano com a namorada.

O encontro foi estritamente privado. Ocorreu no sábado, às 17h. "Nunca antes eu teria me atrevido, mas, com o Papa Francisco, sim; depois de ouvi-lo em muitos discursos, senti que ele me escutaria", disse Diego, que, depois da mudança de sexo, tinha sofrido fortemente a rejeição social, a condenação e o impedimento da Igreja.

"Como você ousa a vir aqui com a sua condição? Você não é digno", diziam-lhe alguns na missa, quando ele voltou à igreja da sua cidade. "Você é a filha do diabo", ouviu na rua, um dia, pela boca de um sacerdote.

Foi assim que, no fim, decidiu enviar uma carta ao papa. E também o fez graças ao bispo de Plasencia, Amadeo Rodríguez Magro, junto com o qual encontrou nos últimos tempos incentivo, conforto e apoio. Depois, a surpresa do telefonema do pontífice.

"O primeiro telefonema já era muito mais do que eu esperava", diz, emocionado. "Na segunda, eu continuava sem acreditar no que estava acontecendo comigo, porque eu sei que o meu caso não é nada, que há tantas pessoas que sofrem neste mundo, que eu não mereço a atenção do papa."

O abraço no Vaticano

Era a ele que, na carta, Diego havia exposto as suas dúvidas e as suas esperanças. A ele perguntara por que a Igreja o rejeita, porque ele não pode ser um católico praticante, por que deve ter medo de fazer a comunhão, por que não pode se sentir parte da comunidade, por que não pode encontrar um pastor.

Bergoglio quis responder a tudo isso pessoalmente, abraçando Diego no Vaticano, junto com a mulher com quem esse homem de 48 anos em breve irá formar uma família. Um sinal muito forte.

Espírito de acolhida

O espírito de "acolhida" e de abertura do papa se volta a uma Igreja que se inclina sobre as feridas do mundo, que não pode e não deve ser uma "alfândega da fé". A sua Igreja não fecha as portas nem mesmo a quem, pelo desconforto de um corpo que não sentia como seu, optou, com sofrimento, por mudar de sexo. No voo de Manila, Francisco estigmatizou a teoria de gênero. Isso, porém, não o impediu de estender a mão a uma pessoa que tinha se voltado a ele para compartilhar o sofrimento da marginalização. O gesto de Francisco apaga a discriminação sofrida por Diego na paróquia ("Como você se atreve a entrar aqui na sua condição? Você não é digno"). E se liga à comunhão dada pelo cardeal Angelo Bagnasco a Vladimir Luxuria no funeral, em Gênova, do padre Andrea Gallo, em maio de 2013.



quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Ameaçado de morte transexual eleito vereador pelo PSDB em Piracicaba

Piracicaba (SP) volta a ser manchete alguns dias depois de um cidadão ter sido expulso da Câmara Municipal por não ter se levantado durante a leitura de um trecho da Bíblia, conforme noticiamos aqui.

O que pouca gente sabia é que um transexual (outras fontes se referem a ele como travesti) foi eleito vereador nas últimas eleições piracicabanas, e pelo PSDB, aquele partido que Silas Malafaia costuma apoiar quando quer atacar os kits gay da vida.

A matéria é do Jornal de Piracicaba:

Madalena é ameaçada de morte caso assuma no dia 1º de janeiro

Eleita vereadora de Piracicaba no dia 7 de outubro, a transexual Madalena, 57, foi até a polícia na terça (16/10) denunciar ameaças de morte. Os telefonemas à casa da líder comunitária começaram no dia 8 e na segunda (15/10) indivíduos num carro não identificado a fotografaram enquanto caminhava na rua.

Acompanhada de diretores da Câmara de Vereadores, ela fez um Boletim de Ocorrência no 5º DP (Distrito Policial). A polícia investiga o caso para identificar os autores. A primeira ligação foi na segunda- feira, 8. “Ligaram na minha casa às 4h15, eu estava dormindo e quando atendi falaram ‘você pensa que vai assumir a cadeira no dia 1º de janeiro? Você não vai não’. Quis saber quem era, a pessoa não disse e começou a xingar, falar barbaridades mesmo. Eu comecei a chorar e desliguei. Tocou novamente e, quando atendi, falaram ‘você toma muito cuidado que nós não estamos brincando, estamos falando sério. Sabemos a hora que você sai do serviço, a hora que chega’, e falando barbaridades”, relatou Madalena, que também recebeu telefonemas na madrugada e no fim da tarde do dia 9.

Embora as investigações da polícia ainda nem tenham começado, a hipótese de que as ameaças tenham motivação homofóbica foi descartada pela vereadora, que acredita em crime político. “Me disseram ao telefone: ‘ninguém concorda com o número (de votos) que você teve, e os outros com um número baixo’. Acho que é alguém que foi candidato a vereador e perdeu para mim, ou candidato que entrou com pouco voto. Um vizinho comentou que havia um boato na Rua do Porto de que não me deixariam assumir”, afirmou a vereadora, eleita com 3.035 votos pelo PSDB.

Madalena, cujo nome verdadeiro é Luis Antônio Leite, disse que estava conversando com uma amiga na rua Governador Pedro de Toledo na tarde de segunda quando foi fotografada por pessoas num carro. A partir daí, decidiu procurar uma amiga e, depois, recorreu à Câmara de Vereadores, que disponibilizou todos os diretores para atendê-la.

O diretor jurídico da casa, Robson Soares, recomendou que a líder comunitária registrasse o Boletim de Ocorrência e a levou à delegacia ao lado do diretor de cerimonial, Evandro Evangelista.

De acordo com o delegado assistente da seccional, Ricardo Fiore, as investigações preliminares vão determinar como o caso será apurado. “Serão feitas diligências para identificar a autoria dos telefonemas, e dependendo do grau de dificuldade podemos contar com o apoio da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) para essa identificação. Qualquer afirmação sobre isso agora, porém, é muito preliminar”, afirmou.



quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Novo passaporte australiano abre possibilidade de terceiro sexo

A Austrália anda cheia de novidades. Depois de querer tirar Cristo da datação convencional, agora vai incluir uma terceira opção de gênero nos passaportes emitidos pelo seu governo. A notícia é do Terra:


Passaporte australiano terá terceira opção de gênero

Os habitantes da Austrália têm a partir de agora a opção de escolher uma terceira opção de gênero na hora de preencher a documentação para obtenção de passaporte no país. Transexuais e pessoas de sexo ambíguo poderão escolher a opção "indeterminada", que será mostrada com um "X" no documento. A medida tem o objetivo de combater a discriminação de gênero, de acordo com informações da BBC.

Antes da nova norma, transexuais precisavam realizar a cirurgia de mudança de sexo para ter em seu passaporte o novo gênero. A senadora Louise Pratt, cujo parceiro nasceu mulher mas agora é identificado como um homem, afirmou que a medida foi um grande avanço.

"Tem havido muitos casos de pessoas detidas em aeroportos do exterior porque seus passaportes não refletiam a sua aparência", disse a uma rádio local. "É muito angustiante, totalmente inconveniente e, francamente, perigoso em alguns casos", concluiu, referindo-se à classificação de gêneros "tradicional".

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Transexualismo não é mais doença na França

É o que informa o jornal O Estado de S. Paulo de 13/02/10:

Transexualismo deixa de ser doença

França foi o primeiro país a retirá-lo da lista de problemas psiquiátricos

O transexualismo já não é considerado uma doença mental na França. O país foi o primeiro a tirá-lo da lista de problemas psiquiátricos, segundo um decreto, publicado nesta semana no Diário Oficial do país.

O decreto do Ministério da Saúde francês suprime "os transtornos precoces da identidade de gênero" de um artigo do código da Previdência Social relativo às "doenças psiquiátricas de longa duração".

A classificação era feita de acordo com a realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ainda em vigor, denominada Classificação Internacional de Doenças (ou CIM-10, na sigla em francês).

A ministra da Saúde na França, Roselyne Bachelot, tinha anunciado no dia 16 de maio do ano passado, antes do Dia Mundial da Luta contra Homofobia e a Transfobia, que o transexualismo já não seria considerado como uma doença psiquiátrica na França.

Na ocasião, personalidades do mundo político e científico tinham firmado um artigo, divulgado na imprensa, para pedir à OMS que "não considerasse os transexuais como afetados por doenças mentais".

"A França é o primeiro país no mundo que já não considera o transexualismo como patologia mental", afirmou ontem Joël Bedos, responsável francês no Comitê do Dia Internacional contra a Homofobia e a Transfobia (IDAHO, na sigla em inglês).

Para explicar sua classificação, a OMS justifica que o transexualismo aparece no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, estabelecido por médicos americanos. A revisão deste manual, em curso, parece não prever a retira do transexualismo, aponta Bedos.

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