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sábado, 23 de dezembro de 2017

Quem são as mulheres católicas e evangélicas que lutam pelo direito ao aborto?


Matéria extensa publicada na BBC Brasil:

Os argumentos das católicas brasileiras que há 25 anos defendem o aborto

Camilla Veras Mota

O Papa Francisco não chega a comover. Elas não vão à missa aos domingos, defendem o Estado laico, a contracepção, o casamento gay e, há quase 25 anos, o aborto.

O mais antigo movimento no Brasil de católicas que pregam os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres nasceu entre um grupo de jovens que se inquietavam com questões que não ecoavam na Igreja, ainda no início dos anos 90.

"Nós falávamos dos pobres, mas não olhávamos para as mulheres", diz Regina Soares Jurkewicz, coordenadora do Católicas pelo Direito de Decidir (CDD), referindo-se à Teologia da Libertação, corrente progressista que norteava a atuação das pastorais sociais das quais ela, a professora da PUC-SP Maria José Rosado-Nunes e a teóloga Luiza Tomita, também fundadoras, faziam parte nos anos 80.

Em 1993, elas conheceram a médica uruguaia Cristina Grela - hoje parte da equipe do Ministério da Saúde do Uruguai, único país da América do Sul onde o aborto foi totalmente legalizado, em 2012, até a 12ª semana de gestação - em alguns casos, esse limite é maior.

Naquela época a ativista era integrante do grupo americano Catholics For Choice - que completa 45 anos em 2018 - e fazia um périplo pelo continente na tentativa de organizar um movimento semelhante na região. Além do Brasil, há "Católicas por el Derecho a Decidir" em outros dez países latinoamericanos.

Depois de um evento na Igreja do Carmo, em São Paulo, o movimento foi lançado no dia 8 de março daquele ano. Está presente hoje em 14 Estados e atua em duas frentes - a educativa, com a produção de material didático para o ensino da religião e a realização de seminários para formação de multiplicadoras, e política, organizando debates, marchas e idas a Brasília.

Em uma de suas campanhas mais recentes, o CDD foi às ruas em novembro para protestar contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 181, que pode criminalizar o aborto mesmo nos casos em que ele hoje é permitido, como em gestações resultantes de estupro.

Entre seus membros, leigos e religiosos, está a freira feminista Ivone Gebara, punida pelo Vaticano em 1995 por defender publicamente em uma entrevista a descriminalização e a legalização do aborto.

Na época à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Joseph Ratzinger - que anos depois se tornaria o papa Bento 16 - determinou que ela voltasse à Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, onde obteve seu doutorado, para passar dois anos reclusa, em "reeducação teológica".

Por não estar ligado à estrutura da Igreja, contudo, o movimento em si está fora dos limites de repreensão da hierarquia católica. As perseguições também não são frequentes, diz Jurkewicz.

O que há são questões pontuais como a de Gebara e a que ela mesmo enfrentou quando publicou seu doutorado. Logo após a apresentação do trabalho, que reunia 21 casos de abuso sexual de mulheres por padres, a assistente social foi demitida da universidade em que lecionava, ligada à diocese de Santo André.

O antagonismo mais organizado vem de setores conservadores da religião, de instituições como Arautos do Evangelho e Opus Dei.

As "ameaças", dizem, chegam geralmente por email ou pelas redes sociais. "São mensagens dizendo que a gente vai para o inferno, essas coisas. Nada grave."

O aborto sempre foi considerado pecado?

Para defender o aborto dentro da lógica religiosa, as ativistas argumentam que o início da vida sempre foi um ponto de divergência dentro da fé católica.

Nos primeiros séculos do cristianismo, exemplifica Jurkewicz, houve Santo Agostinho, que condenava o controle de natalidade e o aborto por romperem a conexão entre ato conjugal e procriação, mas que afirmava que ele não era um ato de homicídio.

Seus escritos a respeito do Êxodo diziam, sobre o feto, que "não existe alma viva em um corpo que carece de sensações". Ele nunca chegou a uma conclusão sobre o momento em que a vida começava.

Já o teólogo Tertuliano defendia em 160 que a concepção era o início de tudo e, por isso, condenava a prática.

"Não é um dogma de fé, é uma questão disciplinar", diz ela, acrescentando que nos cadernos penitenciais da Igreja na Idade Média o aborto era colocado entre outros pecados sexuais.

Os Cânones Irlandeses de 675, por exemplo, previam 14 anos a pão e água para aquele que tivesse relação sexual com a vizinha e três anos e meio para quem destruísse um embrião no ventre.

O tema passou a ser oficialmente condenado pela Igreja apenas em 1869, a partir de um boletim do papa Pio 9.

A posição da Igreja hoje e o papa Francisco

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em sua nota "Pela vida, contra o aborto", de abril deste ano, afirma que "a tradição judaico-cristã defende incondicionalmente a vida humana".

O texto defende a "integralidade, inviolabilidade e a dignidade da vida humana desde a sua concepção até a morte natural" e condena "todas e quaisquer iniciativas que pretendam legalizar o aborto no Brasil".

"A posição sempre foi a mesma: defender e cuidar da vida humana desde a sua concepção. A vida humana é preciosa demais para ser eliminada ou descartada", diz o bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, em nota enviada à BBC Brasil.

O papa Francisco manteve o entendimento que herdou dos antecessores, apesar de ter autorizado, em novembro do ano passado, que padres pudessem perdoar o aborto - prerrogativa que antes era restrita a bispos ou confidentes especiais da Igreja.

"A ideia (por trás da iniciativa do Papa Francisco) é mais de compaixão, de perdão. A Igreja não trabalha com direitos (para as mulheres)", diferencia Jurkewicz.

As ativistas do CDD são críticas em relação ao papel do feminino na Igreja Católica, que limitaria "os espaços de poder e saber" aos homens.

"A posição oficial guarda a tradição da mulher como mãe, está carregada de atributos de gênero. Mesmo as freiras são vistas como 'mães espirituais'", ressalta.

São Tomás de Aquino

O princípio do "recurso à consciência" é outro argumento usado pelas ativistas para defender suas bandeiras e o primeiro destacado pelo movimento do qual se originou o CDD, o americano Catholics for Choice (CFC).

A ideia é que cada católico tome decisões guiadas pelo pensamento individual, ponderando o efeito de suas ações sobre si e sobre o próximo, e que respeite o arbítrio do outro.

"São Tomás de Aquino afirmava que nossa consciência não é um atributo das instituições", diz Amanda Ussak, diretora do programa internacional do CFC.

A organização surgiu nos Estados Unidos em 1973, ano em o aborto foi legalizado no país após decisão da Suprema Corte no emblemático caso Roe v. Wade.

Prevendo uma onda de reações contrárias de instituições religiosas, um grupo de católicas decidiu se reunir e se contrapor às pressões por recuos. Uma década depois, o movimento deu início à sua expansão internacional.

A iniciativa, afirma Ussak, veio da percepção de que criminalização do aborto prejudicava especialmente as mulheres pobres, grupo que ainda hoje registra o maior número de mortes por complicações em procedimentos feitos em clínicas clandestinas.

Hoje a organização atua também na Europa e na África, dando treinamento às organizações para comunicar as campanhas e apoio às iniciativas para mudar as leis locais.

Um exemplo recente de atuação nesse sentido aconteceu no Chile, onde o Congresso aprovou, em agosto, a descriminalização em caso de risco de vida da mulher, inviabilidade fetal e estupro. Até então, qualquer tipo de aborto era proibido.

Na Argentina, o Católicas por el Derecho a Decidir (CDD) participou das discussões que culminaram, em 2006, na Lei de Educação Sexual Integral - semelhante à educação de gênero hoje debatida no Brasil -, na Lei para Prevenir e Erradicar a Violência contra a Mulher, de 2009, e a Lei de Identidade de Gênero, de 2012, que permitiu que travestis e transexuais escolhessem o sexo no registro civil.

"Nos falta ainda a legalização do aborto", afirma Victoria Tesoriero, uma das coordenadoras do movimento argentino.



As evangélicas

Hoje há iniciativas semelhantes às ONGs católicas entre mulheres pentecostais e neopentecostais. O Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG), por exemplo, nasceu em 2015 voltado especialmente para a questão da violência contra a mulher.

"Eu nasci nas Assembleias de Deus, no movimento pentecostal, e durante muito tempo testemunhei todo tipo de violência, institucional, simbólica, assédio", conta Valéria Vilhena, uma das fundadoras da rede, que hoje soma 3 mil mulheres.

Em sua tese de mestrado, feita na Universidade Metodista, onde dá aulas hoje, ela mergulhou no cotidiano de uma casa de acolhimento para vítimas de violência doméstica em São Paulo e verificou que 40% das atendidas eram evangélicas.

O aborto, para ela, entra na problemática da negação de direitos às mulheres e da violência. A posição pública a favor, contudo, veio apenas neste ano, em reação à PEC 181.

"Não estamos trabalhando a questão da legalização a partir da Bíblia porque nós queremos desvinculá-la da questão religiosa. É uma questão de saúde pública", destaca. "A questão é essa: mulheres morrem", emenda.



sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 27


LIVRE-ARBÍTRIO E PRESCIÊNCIA DE DEUS

Na verdade confesso que a questão é difícil, e até impossível, se queres estabelecer ao mesmo tempo ambas as coisas, a presciência de Deus e a liberdade do ser humano. Pois o que é mais difícil, e até mais impossível, do que sustentares que as coisas contrárias ou contraditórias não se opõem, ou que um número qualquer seja simultaneamente dez e nove? A dificuldade não está em nossa questão, mas é buscada e introduzida do mesmo modo que se busca e se introduz violentamente a ambiguidade e a obscuridade nas Escrituras. Por esta razão ele refreia os ímpios, os quais se ofendiam com essas palavras claríssimas, porque percebiam que a vontade divina se cumpre estando nós sob a necessidade e percebiam que está irrevogavelmente definido que nada lhes resta de liberdade ou de livre-arbítrio, mas que tudo depende apenas da vontade de Deus. Refreia-os, porém, ordenando-lhes que se calem e reverenciem a majestade do poder e da vontade divina em relação à qual não temos nenhum direito, mas que, em relação a nós, tem direito pleno de fazer o que quiser. E a nós não se faz qualquer injustiça, pois Deus não nos deve nada, nada recebeu de nós e nada prometeu além do que quis e lhe agradou.

Por conseguinte, este é o lugar e o tempo de adorar não aquelas grutas de Corício [grutas que ficam perto de onde estava o oráculo de Delfos], mas a verdadeira majestade em suas temíveis maravilhas e incompreensíveis juízos, e de dizer: “Faça-se tua vontade, assim como no céu também na terra” [Mt 6.10]. Nós, porém, em nenhum lugar somos mais irreverentes e temerários do que quando penetramos e acusamos esses mesmos mistérios e juízos ininvestigáveis; entrementes, contudo, simulamos uma incrível reverência ao escrutarmos as Santas Escrituras que Deus nos ordenou escrutar. Aqui não escrutamos; lá, porém, onde proibiu que escrutássemos, não fazemos nada exceto escrutar com contínua temeridade, para não dizer blasfêmia. Porventura não é um escrutar temerário envidar esforços para que a presciência libérrima de Deus concorde com nossa liberdade, dispostos com isso a derrogar a presciência de Deus se não nos conceder a liberdade ou se impuser a necessidade de dizer com os murmuradores e blasfemadores: De que ele se queixa ainda? Quem resiste à sua vontade? Onde está o Deus clementíssimo por natureza? Onde está o que não quer a morte do pecador? Acaso nos criou para deleitar-se com os tormentos dos seres humanos? Estas perguntas e outras semelhantes serão eternamente uivadas nos infernos e entre os condenados.

Mas a própria razão natural é forçada a confessar que o Deus vivo e verdadeiro precisa ser tal que nos imponha a necessidade por meio de sua liberdade, pois certamente seria um Deus ridículo – ou melhor, um ídolo – aquele que previsse de modo incerto o que há de acontecer ou que fosse enganado pelos eventos, já que até os gentios concederam aos seus deuses um “destino inelutável”. Ele seria igualmente ridículo se não pudesse e não fizesse todas as coisas, ou se algo acontecesse sem ele. Porém, admitidas a presciência e a onipotência, segue-se naturalmente, por meio de uma consequência lógica irresistível, que nós não fomos feitos por nós mesmos, e não vivemos nem fazemos coisa alguma que não [ocorra] através de sua onipotência. Mas já que ele pré-soube anteriormente que haveríamos de ser tais como somos, e agora nos faz, move e governa como tais, eu te pergunto: o que se pode imaginar em nós que seja livre, que seja diferente e que aconteça de modo diferente do que ele pré-soube e agora faz? Por isso, a presciência e a onipotência de Deus opõem-se diametralmente ao nosso livre-arbítrio. Pois ou Deus se enganará em sua presciência e errará também ao agir (o que é impossível), ou nós agiremos e seremos conduzidos segundo a sua presciência e ação. Todavia, não chamo de onipotência de Deus aquela onipotência pela qual ele não faz muitas coisas de que é capaz, mas, sim, aquela [onipotência] ativa, pela qual faz poderosamente tudo em tudo, da maneira como a Escritura o chama onipotente. Digo que esta onipotência e presciência de Deus abolem completamente o dogma do livre-arbítrio. E aqui não se pode pretextar a obscuridade da Escritura ou a dificuldade do assunto. As palavras são claríssimas, conhecidas até por meninos. O assunto é evidente e fácil, examinado até mesmo pelo juízo natural do senso comum, de modo que nada importa, por maior que seja a série de séculos, tempos e pessoas que escrevem ou ensinam de outra maneira.

Naturalmente, ofende no mais alto grau aquele senso comum ou razão natural de que Deus, por sua mera vontade, abandone, endureça e condene os seres humanos, como se encontrasse deleite nos pecados e nos tão grandes e eternos tormentos dos míseros, [logo] ele, de quem ser prega que possui tamanha misericórdia e bondade, etc. Ter tal opinião acerca de Deus pareceu iníquo, cruel e intolerável; por isso também se ofenderam tantos e tão grandes homens por tantos séculos. E quem não se ofenderia? Eu mesmo me ofendi mais que uma vez até a profundeza e o abismo do desespero, de sorte que desejei jamais ter sido criado como ser humano antes que soubesse quão salutar aquele desespero seria, e quão próximo da graça. Foi por isso que se suou e trabalhou tanto a fim de escusar a bondade de Deus e acusar a vontade do ser humano; aí foram inventadas as distinções entre vontade ordenada e vontade absoluta de Deus, entre necessidade da consequência e necessidade do consequente, e muitas outras semelhantes. Contudo, com essas coisas nada se obteve exceto lograr os incultos com a inânia [vazio de conteúdo] das palavras e a oposição daquilo que é falsamente chamado de ciência. Entretanto, quer para os incultos quer para os eruditos, permaneceu sempre cravado no fundo do coração – quando porventura se chegava a tratar seriamente do assunto – aquele acúleo [espinho, desgosto] quando percebiam nossa necessidade ao se crer na presciência e na onipotência de Deus.

E a própria razão natural, que se sente chocada por essa necessidade e tanto se esforça por suprimi-la, é forçada a admiti-la, convencida por seu próprio juízo, ainda que não houvesse Escritura alguma. Pois todos os seres humanos encontram este pensamento escrito em seus corações, e o reconhecem e aprovam (mesmo que contra sua vontade) quando ouvem falar dele: primeiro, que Deus é onipotente não só segundo o poder, mas também segundo a ação (como eu já disse); de outra maneira seria um Deus ridículo. Segundo, que ele conhece e tem presciência de todas as coisas, e que não pode errar nem enganar-se. Uma vez admitidos estes dois pontos no coração e no entendimento de todos, são forçados a admitir imediatamente, mediante uma conclusão inevitável, que nós não fomos feitos por nossa vontade, mas por necessidade; e assim, conforme a presciência de Deus e conforme conduz de acordo com [seu] conselho e poder infalível e imutável. Por isso, acha-se simultaneamente escrito nos corações de todos que o livre-arbítrio nada é, ainda que isso seja obscurecido por tantos debates contrários e pela tão grande autoridade de tantos homens que por tantos séculos ensinaram de maneira diferente. O mesmo também ocorre (conforme o testemunho de Paulo) com toda a outra lei em nossos corações: é reconhecida quando tratada de modo correto, e obscurecida quando maltratada por mestres ímpios ou tomada por outras opiniões.

Volto a Paulo. Se ele não explica a questão em Rm 9 e nem define a necessidade a que estamos ligados a partir da presciência e da vontade de Deus, por que lhe seria necessário introduzir a analogia do oleiro, que de um e o mesmo barro faz um vaso para a honra e o outro para a desonra? E não obstante, a obra não diz ao que a faz: por que me fazes assim? Isso porque ele fala sobre os seres humanos, comparando-os ao barro e Deus ao oleiro. A analogia é sem dúvida tímida, e até absurda e aduzida em vão, se ele não compartilha a opinião de que nossa liberdade é nula. E o que é mais: todo o debate de Paulo, com o qual defende a graça, é inútil. Pois toda a epístola tem por alvo mostrar que não somos capazes de nada, nem mesmo quando parecemos obrar bem; é como ela diz, na mesma passagem, a respeito de Israel, que, ao perseguir a justiça, não a alcançou, ao passo que os gentios a alcançaram sem a perseguir. Tratarei disso mais extensamente quando fizer avançar nossas tropas.

Mas a Diatribe [“Diatribe sobre o livre arbítrio”, de Erasmo de Roterdã] finge não ver todo o corpo do debate paulino e a direção para a qual Paulo tende, consolando-se entrementes com palavras tiradas [do contexto] e distorcidas. Tampouco em nada auxilia a Diatribe o fato de que posteriormente, em Rm 11.20, Paulo de novo exorte dizendo: “Estás de pé pela fé, vê que não te ensoberbeças”; e, semelhantemente: “Também aqueles, se tiverem crido, serão enxertados” [11.23], etc. Pois ali ele nada diz acerca das forças dos seres humanos, e, sim, pronuncia palavras imperativas e subjuntivas; e o que é feito por estas foi suficientemente dito acima. E o próprio Paulo se adianta, nesta mesma passagem, aos que gabam o livre-arbítrio: não diz que aqueles podem crer, mas diz que Deus é poderoso para enxertá-los. Resumindo: ao tratar estas passagens de Paulo, a Diatribe procede de forma tão tímida e hesitante que em sua consciência parece divergir de suas próprias palavras. Pois quando ela deveria ter prosseguido acima de tudo e aduzido provas, quase sempre interrompe o discurso dizendo: “Aqueles diriam assim”. E diz muitas outras coisas similares, deixando a questão em dúvida, de modo que não sabes se ela quis dar a impressão de falar em favor do livre-arbítrio ou apenas de eludir Paulo com palavras inanes, seguindo nisso sua lei e costume pelo fato de que para ela inexiste um problema sério neste pleito. A nós, porém, não nos convém ser frios desta maneira, andar sobre ovos ou ser agitados pelos ventos como uma cana, mas, sim, fazer asserções com certeza, constância e ardor, e então demonstrar de maneira sólida, destra e copiosa aquilo que ensinamos.

Mas quão belamente ela conserva agora a liberdade ao mesmo tempo que a necessidade quando diz: “Nem toda necessidade exclui a vontade livre, assim como Deus Pai gera o Filho necessariamente e, não obstante, o gera porque quer e livremente, pois não foi coagido”. Peço-te: porventura debatemos agora acerca da coação e da força? Acaso não testemunhamos em tantos livros que estamos a falar sobre a necessidade da imutabilidade? Sabemos que o Pai gera o Filho porque quer, que Judas entregou a Cristo porque quis; mas dizemos que, se Deus teve presciência, este querer teve de existir no próprio Judas de maneira certa e infalível. Ou, se ainda não se compreende o que digo, queremos referir uma necessidade obrigatória à obra e uma outra necessidade infalível ao tempo. Que aquele que nos ouve compreenda que estamos falando acerca da última, e não da primeira; ou seja: não debatemos se Judas tornou-se traidor contra a própria vontade ou por querer, mas se, após Deus ter predefinido o tempo, foi necessário acontecer infalivelmente que Judas entregasse a Cristo por querer. Vê, porém, o que a Diatribe diz a respeito: “se olhas para a presciência infalível de Deus, Judas havia necessariamente de ser traidor; e, não obstante, Judas podia ter mudado sua vontade”. Compreendes também o que falas, cara Diatribe? Deixando de lado o fato de que a vontade não pode senão querer o mal, como se provou acima: como pôde Judas mudar sua vontade ficando de pé a infalível presciência de Deus? Acaso pôde mudar a presciência de Deus e torná-la falível? Aqui a Diatribe sucumbe; e, depois de ter abandonado os estandartes e deposto as armas, retira-se do campo de batalha remetendo o debate para as sutilezas escolásticas concernentes à necessidade da consequência e do consequente, como quem não quer seguir essas argúcias até o fim. Certamente ages com prudência quando, após teres levado a causa para um debate tumultuado e no momento em que mais é necessário um debatedor, volta as costas e deixas a outros a tarefa de responder e definir.

Esse conselho deveria ter sido seguido desde o início, abstendo-se totalmente de escrever, conforme o dito: “Quem não sabe lutar, abstenha-se dos jogos marciais”. Pois não se esperava que Erasmo fosse provocar essa dificuldade relativa ao modo com que Deus poderia ter presciência com certeza, e, não obstante, nossas ações poderiam produzir-se de maneira contingente. Esta dificuldade estava no mundo muito antes da Diatribe. Contudo, esperava-se que a respondesse e definisse. Mas ele, tendo usado uma transição retórica, arrasta consigo a nós que somos ignorantes na retórica como se aqui não estivesse em jogo coisa alguma sobre a questão, e como se meramente houvesse certas argúcias; retira-se corajosamente do meio do tumulto da luta, coroado de hera e louro.

Assim não dá, irmão! Nenhuma retórica basta para enganar uma consciência verdadeira; o acúleo da consciência é mais forte que todas as forças e figuras da eloquência. Não toleraremos aqui que o retórico passe de largo [por essa questão] e dissimule; neste momento não há lugar para tal atitude. Aqui se ataca o ponto principal dos assuntos e o essencial da questão. E aqui ou se extingue o livre-arbítrio ou ele triunfará de todo. Tu, porém, percebendo o perigo e até a vitória certa contra o livre-arbítrio, simulas não perceber nada exceto argúcias. Acaso isso significa agir como teólogo confiável? A questão não te afeta seriamente? A ti, que desta maneira deixas os ouvintes em suspenso e o debate confuso e inflamado, querendo, entretanto, causar a impressão de que deste satisfação honestamente e levaste a palma? Em questões profanas, esta manha e astúcia pode ser tolerada; em um assunto teológico, porém, onde se busca a simples e aberta verdade em favor da salvação das almas, ela é extremamente odiosa e intolerável.

Também os sofistas perceberam a força invencível e irresistível deste argumento; por isso inventaram a necessidade da consequência e do consequente. Contudo, ensinamos acima como esta invenção nada efetua. Pois tampouco eles observam o que dizem e o quanto admitem contra si próprios. Pois se admitires a necessidade da consequência, está vencido e prostrado o livre-arbítrio, e de nada ajuda a necessidade nem a contingência do consequente. Que me importa se o livre-arbítrio não é coagido, mas faz o que faz de acordo com a vontade? Para mim é suficiente que admitas isto: há de acontecer necessariamente que ele faça o que faz de acordo com a vontade, e não pode ser diferente se Deus teve presciência disso. Se Deus tem presciência de que Judas cometerá traição ou que mudará sua vontade de trair, acontecerá necessariamente aquilo de que ele teve presciência; ou Deus se enganará em sua presciência e predizer, o que é impossível. Pois é isso que realiza a necessidade da consequência; arbítrio nada é. Esta necessidade da consequência não é obscura nem ambígua, de modo que, ainda que os doutores de todos os séculos sejam cegos, são todavia forçados a admiti-la, pois ela é de tal modo evidente e certa que se pode apalpá-la. Mas a necessidade do consequente, com a qual se consolam, é um mero fantasma, e opõe-se diametralmente à necessidade da consequência. Haverá por exemplo uma necessidade da consequência se eu tiver dito: Deus teve presciência de que Judas cometeria traição, portanto acontecerá segura e infalivelmente que Judas será traidor. Diante desta necessidade e consequência, tu te consolas assim: visto que Judas pode mudar sua vontade de trair, não há necessidade do consequente. Como, eu te pergunto, se coadunam essas duas afirmações: Judas pode não querer trair e: é necessário que Judas queira trair? Dizes que ele não será coagido a trair contra sua vontade. Que tem a ver isso com o problema? Tu falaste acerca da necessidade do consequente, a saber, que aquela não é introduzida pela necessidade da consequência; não disseste nada sobre a coação do consequente. A resposta relacionava-se com a necessidade do consequente e tu apresentas um exemplo sobre a coação do consequente. Pergunto uma coisa e tu respondes outra. O motivo disso é aquela oscilação por causa da qual deixa-se de observar como essa ficção da necessidade do consequente nada efetua.

(LUTERO, Martinho. Da Vontade Cativa. 1525. Tradução de Luís Marcos Sander, Luís Henrique Dreher e Ilson Kayser. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 1993. Vol. 4, págs. 136-142)



sábado, 21 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 21


ENCARNAÇÃO: A REDENÇÃO

(para ler o texto anterior, clique aqui)

Ademais, como os anjos no céu o adoram e o chamam de seu Senhor, enquanto jaz na manjedoura, e dizem aos pastores, Lc 2[.11]: “Eis que vos nasceu o Salvador, Cristo, o Senhor”, etc., ele deve ser verdadeiro /Deus. Pois os anjos não adoram mera carne ou natureza humana. Por isso, deve haver tanto Deus quanto ser humano, lado a lado, nessa pessoa. E, ao falar de Cristo, fala-se de uma pessoa indivisa, que é Deus assim como homem. Aquele que vê, ouve ou encontra Cristo com a fé do coração, certamente não encontra apenas o homem, mas, também, o verdadeiro Deus. Assim, não deixamos Deus sentado ocioso no céu entre os anjos, mas o encontramos aqui embaixo, deitado na manjedoura e no colo da mãe. Resumimos dizendo: “Onde encontramos essa pessoa, certamente encontramos a Majestade Divina”.

Como se disse frequentemente, isso nos possibilita resistir ao diabo e derrotá-lo na agonia da morte e em outras necessidades, quando nos aterroriza com o pecado e o inferno. Pois, se ele lograsse fazer com que eu considerasse Cristo como mero homem que foi crucificado e morreu por mim, então eu estaria perdido. Porém, se atribuo toda a importância ao fato de Cristo, verdadeiro Deus assim como verdadeiro homem, ter morrido por mim, isso excede e eclipsa em muito todo pecado, morte, inferno e qualquer miséria e aflição. Pois, se sei que aquele que é verdadeiro Deus sofreu e morreu por mim e que, por outro lado, este mesmo verdadeiro homem ressuscitou dos mortos, ascendeu ao céu, etc., então posso concluir, com certeza, que meu pecado e minha morte foram abolidos e superados por este e que Deus não mais me vê com ira e desfavor, porque vejo e ouço nessa pessoa nada além de sinais e obras de pura graça.

Cuida, portanto, para que compreendas essa doutrina de tal maneira que preserves a pessoa de Cristo por inteiro e lhe atribuas as funções de ambas as naturezas, embora estas sejam distintas. Pois, de acordo com a natureza divina, ele não nasceu de um ser humano, nem assumiu coisa alguma da Virgem. É verdade que Deus é Criador e que o homem é criatura. Mas, aqui, os dois se reuniram em uma única pessoa, e, agora, Deus e homem são um Cristo. Maria deu à luz um filho, e os judeus crucificaram uma pessoa que é Deus e homem. Caso contrário, se ele fosse somente homem, como o são outros santos, não seria capaz de nos livrar de um só pecado ou de apagar um tiquinho do fogo do inferno com toda sua santidade, sangue e morte.

Este é o conhecimento, a doutrina e o consolo que temos de Cristo com base na Escritura, embora o mundo e a esperta razão os considerem pura tolice. Mas deixemos que outros sejam perspicazes em nome de seu deus, o diabo, e se danem com sua inútil gramática e retórica, com que pretendem corrigir a Escritura, rasgá-la ou, pelo menos, anulá-la. São uns pobres gramáticos, ou seja, pessoas que, repetidamente, lutaram e se atormentaram com o pecado e a morte ou que brigaram e porfiaram com o diabo. Deixemos que ensinem as regras de como falar latim corretamente, que interpretem seus poetas, seus juristas e seus médicos e que sejam espertos e instruídos em seu próprio ofício. Nessas questões, porém, não queremos ter outros árbitros senão aqueles que provaram e experimentaram o poder dessa doutrina.

São espíritos importunos e nocivos que jamais estiveram em uma batalha ou experimentaram algo em questões espirituais. No entanto, imediatamente, querem colocar-se, baseados em sua razão, como mestres da Escritura e julgar sobre questões tão sublimes. Eles fazem o mesmo em relação a outros assuntos, como o Batismo, o Evangelho e o Sacramento. “Água é água” (dizem eles) “e pão é pão. Em que isso pode ajudar a alma? Por acaso, as palavras do pregador são mais do que um hálito passageiro?”, etc. Imaginam que deram uma grande contribuição quando apresentam o que aprenderam no jardim-de-infância e declaram que água não é fogo. Mas, se estivessem experimentado, alguma vez, o poder e o efeito do Batismo, do Sacramento e da Palavra oral, certamente ficariam de boca fechada.

Experimentei, louvado seja Deus, um pouco do que é essa doutrina e do que ela é capaz e a sustentei diante de outros espíritos cujo dedo mínimo é mais instruído e inteligente do que todos esses gramáticos. E também vi que essa doutrina foi preservada durante mais de mil anos contra todas as cabeças espertas e diabos no inferno que se opuseram a ela. Certamente, sobreviverá a todos eles. Por isso, honremos o Espírito Santo, admitindo que ele sabe mais e é mais inteligente do que nós e nosso conhecimento infantil e preservemos essa doutrina em sua pureza de acordo com a Escritura.

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado, 1537-1538. Tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer, in MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 144-146)

(aqui termina o comentário de Lutero sobre João 14:6a)



sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 20


ENCARNAÇÃO: MARIA, MÃE DE DEUS

(para ler o texto anterior, clique aqui)

Dizemos de cada ser humano que ele come, bebe, digere, dorme, acorda, anda, fica parado, trabalha, etc., embora a alma não participe em nenhuma dessas atividades, mas apenas o corpo. Contudo, afirma-se isso da pessoa toda, que tem corpo e alma. Pois ele é um ser humano não só por causa do corpo, mas por causa do corpo e da alma. Por outro lado, também afirmamos que o ser humano pensa, inventa, aprende. Pois, de acordo com sua razão ou alma, ele pode tornar-se professor ou mestre, juiz, conselheiro ou governante. Nem o corpo nem qualquer um de seus membros lhe dá essa competência. No entanto, afirmamos: “Ele tem uma cabeça boa; é sensato, instruído, sábio, eloquente, artístico”. Dessa maneira, diz-se de uma mulher que ela está grávida, dá à luz e amamenta uma criança, embora não seja a alma, mas tão-só o corpo que faz dela uma mãe. Todavia, atribuímos isso à mulher toda. Igualmente, se alguém golpeia uma pessoa na cabeça, dizemos: “Ele bateu no João ou na Margareta”. Ou, quando um membro do corpo é lesionado ou ferido, pensamos na pessoa toda como estando machucada.

Estou empregando essas ilustrações simples para que se entenda como se devem separar na pessoa de Cristo as duas naturezas distintas e como, no entanto, isso deixa a pessoa inteira e indivisa. Tudo que Cristo diz e faz, tanto Deus quanto o homem dizem e fazem, mas cada palavra e cada ação estão de acordo com uma ou outra natureza. Aquele que observa essa distinção, encontra-se no caminho seguro e certo. Ele não será desencaminhado pelas ideias errôneas dos hereges, as quais provêm unicamente do fato de não reunirem o que pertence junto e constitui uma unidade, ou por não separarem e dividirem, apropriadamente, o que deve ser diferenciado.

Por isso, devemos nos ater ao discurso e às palavras da Escritura e reter e confessar a doutrina de que este Cristo é verdadeiro Deus, através de quem todas as coisas são criadas e existem, e, ao mesmo tempo, que este mesmo Cristo, Filho de Deus, nasce da virgem Maria, morre na cruz, etc. Ademais, Maria, a mãe, não carrega, dá à luz, amamenta e alimenta tão-somente o homem, tão-somente carne e sangue – pois isso seria dividir a pessoa -, mas ele carrega e alimenta um filho que é Filho de Deus. Por isso, ela é corretamente chamada não só a mãe do home, mas, também, a mãe de Deus. Isso, os antigos Pais ensinaram contra os nestorianos, que se opunham a que Maria fosse chamada de mãe de Deus e se recusavam a dizer que ela dera à luz o Filho de Deus.

Aqui, devemos ratificar com o nosso Credo: “Creio em Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus Pai, nosso Senhor, que nasceu da virgem Maria, sofreu, foi crucificado, morreu”. Ele é sempre o mesmo e único Filho de Deus, nosso Senhor. Por isso, é certo que Maria é a mãe do real e verdadeiro Deus. E os judeus não só crucificaram o Filho do Homem, mas, também, o verdadeiro Filho de Deus. Pois não quero um Cristo em que devo crer e a quem devo invocar como meu Salvador que seja apenas um ser humano. Nesse caso, eu estaria indo ao encontro do diabo, pois simples carne e sangue não poderiam extinguir o pecado, reconciliar a Deus e abolir sua ira, superar e destruir a morte e o inferno, e conceder a vida eterna.

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado. 1537-1538. Tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 143-144)

(para ler a sequência do comentário de Lutero
sobre João 14:6 a, clique aqui)



domingo, 23 de julho de 2017

Sobre magia, auto-ajuda e graça de Deus

Coluna de Leandro Karnal publicada no Estadão de 19/07/17:

A magia do amor

A política absorveu parte do que era a teologia antiga na promessa da felicidade

Existe um livro extraordinário de Sir Keith Thomas: Religião e o Declínio da Magia – Crenças Populares na Inglaterra, Séculos XVI e XVII (Companhia das Letras, 1991). A pergunta básica do professor de Oxford ao lançar o livro, em 1971, foi saber por qual motivo a crença no pensamento mágico declinou na Idade Moderna. O livro é repleto de trechos memoráveis e é daquelas leituras que lamentamos terminar. Qual o motivo para um livro tão fundamental estar esgotado há mais de 25 anos? Trata-se de insondável mistério editorial brasileiro.

Após examinar astrologia, bruxas, fantasmas e outros, ele encerra a obra com um capítulo sobre o recuo das crenças mágicas. Por qual motivo ocorreu o declínio mágico? Para o autor, o avanço do pensamento científico, dos seguros (que diminuem a insegurança) e da própria reforma protestante colaborou para o processo. Porém, uma nova atitude pessoal de confiança em si foi anterior ao processo de crescimento científico. Para Thomas, a magia declinou um pouco antes de um domínio real do pensamento científico. “Na medicina, como em outras áreas, as teorias sobrenaturais saíram de cena antes que entrassem técnicas eficazes” (pág. 537); “Somos, portanto, forçados a concluir que os homens se emanciparam das crenças mágicas sem terem, necessariamente, criado quaisquer tecnologias eficazes para pôr no lugar delas” (pág. 540).

Há, na primeira modernidade, a ascensão de um modelo de confiança e segurança do valor de cada um, que excede o campo do avanço técnico. Os séculos 18 e 19 viram emergir a crença otimista no indivíduo, que tem uma ponta, simbólica, no Iluminismo. Keith Thomas trata do tema da autoajuda, da ideia de autonomia de cada consciência de promover uma melhora efetiva na sua vida e no seu meio. Com certos recuos, a curva ascensional da autoajuda é o sintoma do mundo que substituiu ou transformou as crenças mágicas.

Vejamos três exemplos. Um dos grandes sucessos editoriais do século 19 foi o livro Self-Help, de Samuel Smiles (1812-1904). O livro do escocês é do mesmo ano da Origem das Espécies, de Charles Darwin: 1859. O texto é um louvor ao modelo do empreendedor, citando grandes nomes dos negócios e dando conselhos muito úteis sobre o uso de dinheiro e progresso. Acima de tudo, espalha a ideia de que você é gestor da sua vida. O tímido igarapé de Samuel Smiles viraria um caudaloso rio no mundo atual. Até a morte do autor, o livro tinha atingido a cifra de quase um quarto de milhão de exemplares vendidos e era admirado por quase todos no Império Britânico.

O processo de ascensão do realizador individual que se orienta rumo ao sucesso cresceu. Ele é contemporâneo de duas outras criações. O segundo exemplo é o crescimento da questão do amor materno e da certeza do amor incondicional. A Idade Moderna é a lenta ascensão da figura da mãe e da devoção aos filhos que aparecem no Emílio (1762) de Rousseau ou nas pinturas de madame Vigée LeBrun (1755-1842). O século 19 é o triunfo da criança e do amor materno, consagrado, no início do 20, com a instituição do Dia das Mães.

O amor materno torna-se incondicional e assim será representado. A mãe desnaturada é um monstro e a literatura vai torná-la uma caricatura. As crianças passam a ouvir que são lindas, que podem contar sempre com o auxílio materno e que tudo será perdoado. Mudamos a psicologia do indivíduo ocidental.

O último ponto a transformar é a customização do Deus do Juízo Final, do deus vingativo do Dies Irae e do capítulo 25 de Mateus para um deus de pleno amor e inesgotável perdão. O deus definido como amor (como no apóstolo João) substituiu o Deus do afresco de Michelangelo. Nada de um Jesus juiz, mas um Jesus todo amor. A ascensão do culto católico ao Sagrado Coração, sempre aberto e receptivo, sempre acolhedor e que me ama incondicionalmente é um salto imagético. Os protestantes, com mau humor, chamaram o culto ao Coração de Jesus como “idolatria cardíaca católica”.

Um Deus julgador e terrível condenando almas ao inferno aparece nas visões das crianças de Fátima, mas representam uma voz camponesa e pouco culta de um mundo antigo. A vitória era do misericordioso coração do qual emanam graças incessantes sobre todos. Claro que o tema de Deus-amor é bíblico e a misericórdia divina é milenar. Porém, basta comparar um catecismo antigo cheio de pecados e punições com um atual, cheio da beleza de um Deus sorridente e amigão.

Livros de autoajuda, mães incondicionais e Deus misericordioso expondo seu coração a uma humanidade pecadora são três exemplos (há centenas) de uma nova concepção de um indivíduo otimista e feliz, cheio da ideia de que o mundo o ama e que deve estar à sua disposição. A nova crença em si substituiu (ou sublimou) a crença mágica de outrora. A política absorveu parte do que era a teologia antiga na promessa da felicidade. Relendo a obra de Keith Thomas, interrompia o livro para pensar nos novos deuses humanos, o Homo Deus de Yuval Harari. Terminei o livro no sábado pensando: acho que ainda teremos saudades do pensamento mágico que colocava o mal em bruxas que podiam ser queimadas. O novo homem feliz e realizado é um deus terrível. Boa semana a todos!



quinta-feira, 6 de julho de 2017

Teria sido um bispo inglês medieval o primeiro a ensinar o "big bang"?


A matéria é da BBC Brasil:

Como um bispo medieval adiantou a teoria do Big Bang no século 13

O livro bíblico do Gênesis, no capítulo 1, versículo 3, conta: "E Deus disse: faça-se a luz! E a luz foi feita".

Mas esse foi apenas o começo da criação do universo. Isso, de acordo com a Bíblia, é o que Deus fez depois da luz:

"E disse Deus: Haja luzeiros no firmamento do céu para dividir o dia e a noite, e para sinais e para estações, e para dias e anos;
e sirvam de luminares no firmamento do céu para alumiar a terra. E assim foi.
E fez Deus os dois grandes luminares, o luminar maior para governar o dia e a luz menor para governar a noite; fez também as estrelas.
E Deus os pôs no firmamento do céu para alumiar a terra, e para governar o dia e a noite, e para separar a luz das trevas. E Deus viu que isso era bom."

No século 13, um estudioso inglês da ordem dos franciscanos mergulhou nesse tema.

Robert Grosseteste trabalhou em um dos grandes centros de aprendizagem em Oxford, local que as pessoas já tinham começado a chamar de "faculdade".

Para Grosseteste, tudo tinha a ver com a luz, até o ato divino primordial da própria criação.

Mas como exatamente Deus fez a criação?

A resposta do religioso foi a primeira tentativa de descrever os céus e a Terra usando um conjunto de leis.

Do ponto de vista de Grosseteste, tudo começou com a luz e a matéria explodindo a partir de um centro: uma versão medieval do Big Bang.

Sua história mostrou como a fé em princípios científicos, combinada com a crença em um cosmos ordenado por Deus, resultou em uma ideia surpreendentemente profética. Inicia com luz...

Mas o que é a luz? Essa pergunta nunca foi simples.

Alguns dos primeiros escritores cristãos pensavam que havia dois tipos diferentes de luz.

A lux, como era chamado em latim, era o que Deus usou para fazer o cosmos, uma espécie de força criativa divina, quase uma manifestação do próprio Deus.

A outro era lúmen, luz comum que emana de corpos celestes e nos permite ver as coisas.

Essa visão fica evidente para qualquer pessoa que tenha estado em uma catedral gótica inundada pela luz que entra através dos vitrais das janelas.

Sacerdotes e teólogos pensavam que, ao contemplar a bela lúmen da igreja, os fiéis seriam atraídos pela lux bendita de Deus.

Religião e ciência

Embora hoje pareça haver um conflito entre ciência e religião, durante grande parte da história a religião foi uma grande motivação para a busca de conhecimento no mundo.

Nas escolas das catedrais dos séculos 11 e 12 - predecessoras das universidades - alguns estudiosos pensavam que era seu dever aprender mais sobre o universo que, para eles, havia sido criado por Deus.

Eles não consultavam apenas a Bíblia: liam os escritos dos antigos gregos como Platão, Aristóteles e Hipócrates, que tinham sido preservados em traduções feitas por escritores islâmicos.

O aprendizado sobre o mundo natural floresceu na era das grandes catedrais góticas, e muitos historiadores falam de um primeiro Renascimento no século 12.

A mais bela das entidades

No início do século 13, ele era um professor proeminente, erudito e, como todos os pesquisadores em Oxford, cristão devoto. Em 1235, tornou-se bispo de Lincoln, na Inglaterra.

Para ele, a luz era uma das mais maravilhosas criações de Deus.

"A luz física é a melhor, a mais deleitável, a mais bela de todas as entidades que existem. A luz é o que constitui a perfeição e a beleza de todas as formas físicas", escreveu.

Mas Grosseteste não se conformava com apenas apreciar a luz que entrava pelas grandes janelas da catedral gótica de Lincoln. Ele começou a estudá-la como um cientista. Analisou, por exemplo, a passagem da luz através de um copo de água.

Ele percebeu que lentes poderiam ampliar objetos, e quando alguém lê o que o bispo escreveu sobre o assunto, começa a se perguntar por que demorou mais de 300 anos para que telescópios e microscópios fossem inventados.

"Esta parte da ótica, quando bem compreendida, mostra-nos como podemos fazer as coisas que estão a uma distância muito grande parecerem como se estivessem muito próximas, e as coisas grandes que estão perto parecerem muito pequenas, e como podemos fazer as pequenas coisas que estão distantes parecerem de qualquer tamanho que queremos, de modo que poderia ser possível ler as letras mais pequenas a distâncias incríveis ou contar a areia ou sementes ou qualquer tipo de objetos minúsculos", escreveu Grosseteste.

Além disso, ele notou que a luz muda de trajetória ao passar do ar para a água, um efeito chamado de refração.

Como outros antes dele, Grosseteste viu que a luz poderia dividir-se em um espectro colorido como um arco-íris, e escreveu um tratado sobre o fenômeno, no qual chegou perto de explicar sua origem: pensou que as nuvens agiam como uma lente gigante que refratava a luz e a enchia de cor.

"De luce"

Em 1225, Grosseteste reuniu o que havia concluído sobre a luz em um livro chamado "De Luce" (Sobre a Luz).

Era uma mistura de teologia, ciência, metafísica e especulação cósmica.

Mas tratava, em particular, da questão de como Deus fez todo o cosmos usando a luz.

Em vez de tratar a criação como uma espécie de ato mágico, Grosseteste começou a transformá-la em um processo natural, algo que hoje chamaríamos de "estudo científico".

Como muitos de seus contemporâneos, ele acreditava que Deus trabalhava com princípios simples, baseados em regras que a humanidade poderia compreender pela lógica, geometria e matemática.

"Todas as causas de efeitos naturais devem ser expressadas por meio de linhas, ângulos e figuras, porque caso contrário seria impossível ter conhecimento da razão destes efeitos", escreveu.

E como o universo era governado pela matemática, era também ordenado e racional - e seria possível deduzir suas regras.

Na verdade, a descrição de Grosseteste da criação divina é tão precisa, que pode ser expressada em um modelo matemático, algo que historiadores e cientistas da Universidade de Durham, no Reino Unido, fizeram com a ajuda de um computador.

A máquina do mundo

Para Grosseteste e seus contemporâneos, o universo consistia na Terra, que ficaria no centro, e todos os corpos celestiais - o Sol, a Lua, os sete planetas conhecidos e as estrelas que giravam ao seu redor em círculos perfeitos.

Mas, para ele, tudo começou com uma espécie de Big Bang, no qual uma explosão de luz - do tipo lux - fez com que uma densa esfera da matéria se expandisse, tornando-se cada vez mais leve e diluída.

"Essa expansão dispersaria a matéria 'dentro de uma esfera do tamanho da máquina do mundo', que é como ele chama o cosmos", diz Tom McLeish, um dos físicos da Universidade de Durham que traduziu a teoria cosmológica de Grosseteste para um modelo matemático.

"Mas logo encontra um problema: (a matéria) não pode se expandir infinitamente, porque nessa época o universo era enorme, mas finito. Como pará-lo? Com uma brilhante ideia científica. Pensando como um físico, recorre a algo simples para explicar não apenas como (o universo) deixa de expandir, mas como as esferas são formadas."

Uma luz brilhante na escuridão

"Se você não pode alcançar o vazio, porque a natureza tem aversão a ele", reflete Grosseteste, "deve haver uma densidade mínima, e quando chega-se a ela, a (matéria) tem que cristalizar".

Seguindo essa linha de raciocínio, isso ocorreria em primeiro lugar na parte mais distante: o firmamento. Esse se cristaliza primeiro e se aperfeiçoa, adquirindo luz - lúmen-, que também empurra a massa, neste caso, para dentro, e, portanto, são criadas as esferas nas quais residem os planetas, o Sol, a Lua e a Terra.

"Outro pensamento moderno que ele teve foi que, quando olhamos para o céu, o universo que vemos de alguma forma contém os rastros ou eco dos processos que o formaram", disse McLeish.

"Isso é precisamente o que os cosmólogos pensam hoje em dia. Lembre-se da busca por microondas no eco do Big Bang", acrescentou com entusiasmo.

"A única parte obscura da Idade das Trevas (entre a queda de Roma e o Renascimento) é a nossa ignorância sobre essa época. Grosseteste é um pensador impressionante", disse McLeish.

"A história que me contaram quando era jovem era que antes de 1600 não havia mais do que misticismo, teologia e dogmatismo. E de repente apareceram Galileu, Kepler, uau! Tudo é luz e iluminação, e voltamos a andar com a ciência ", diz o físico.

"Mas a verdade é que a ciência não funciona assim. Todos nós damos pequenos passos e, como disse Isaac Newton, todos nós subimos nos ombros de gigantes. E Grosseteste é um daqueles gigantes em cujos ombros subiram os primeiros cientistas modernos."



domingo, 2 de julho de 2017

Teologia canina


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Americano rouba US$ 7 bi porque "Jesus queria que ele ficasse rico"

Já publicamos vários artigos comentando sobre esta estranha predominância do "pensamento mágico" no meio evangélico brasileiro, importado em larga escala dos EUA, discurso que é filho bastardo da "teologia da prosperidade" importada de lá e ao qual damos o nome de "triunfalismo" e abordamos por vários ângulos, como em:

As jumentinhas de Balaão (agosto de 2009)

O conto do bilhete premiado (agosto de 2009)


Pirlimpimpim gospel (julho de 2010)

Sentimentalismo gospel (fevereiro de 2011)


Crendices quânticas (setembro de 2013)


Agora chega dos Estados Unidos uma notícia publicada no UOL Tabloide que dá uma ideia de até onde esse delírio pode chegar:

Homem diz que roubou US$ 7 bilhões porque Jesus quer que ele fique rico

Um norte-americano acusado de ter acumulado US$ 7 bilhões (cerca de R$ 21,8 bilhões) em transferências fraudulentas afirmou, em audiência na Justiça, que só roubou o dinheiro porque Jesus queria que ele ficasse rico.

John Michael Haskew, morador de Lakeland, na Flórida (EUA), foi preso em dezembro do ano passado depois de ter feito transferências bancárias fraudulentas de uma "renomada instituição financeira" para sua própria conta.

Haskew precisava de dinheiro para pagar uma dívida com o governo federal. O americano usou um esquema para fazer mais de 70 transferências que acumularam um total de US$ 7 bilhões.

Segundo os investigadores da polícia, Haskew afirmou que acreditava que merecia o dinheiro porque "Jesus quer que todos sejam ricos". O fraudador disse que com o esquema criminoso iria conseguir "obter a riqueza que Jesus criou para ele e que pertencia a ele".

Apesar de toda sua "fé", Haskew pode ser condenado a até cinco anos de prisão e terá de pagar uma multa de até US$ 250 mil (cerca de R$ 780 mil).



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