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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O intrincado arranjo político-religioso que garante a governabilidade do Líbano


Guga Chacra, em seu blog no Estadão, conta como as facções político-religiosas conseguem entrar em acordo para garantir a paz e a governabilidade do Líbano, em constante risco desde a guerra civil que devastou o país de 1975 a 1990:

Michel Aoun, maior líder cristão do Oriente Médio, deve ser presidente do Líbano

O ex-general Michel Aoun, principal líder político dos cristãos libaneses em décadas e aliado do Hezbollah, deve ser eleito presidente do Líbano, se tornando a mais importante liderança política cristã de todo o Oriente Médio, onde os demais países são governados por muçulmanos ou, no caso de Israel, um judeu.

Samir Geagea, também cristão e seu inimigo desde os tempos da Guerra Civil Libanesa (1975-90), anunciou que abandonará a sua candidatura para apoiar Aoun. Desta forma, está aberto o espaço para a eleição do ex-general. E o Líbano se consolida mais uma vez como a nação onde os cristãos possuem mais força em todo o Oriente Médio.

O presidente do Líbano, por lei, tem de ser cristão maronita, assim como o premiê precisa ser muçulmano sunita e o presidente do Parlamento, muçulmano xiita e o chefe das Forças Armadas também cristão maronita. Cabe aos parlamentares, eleitos democraticamente, o elegerem – metade do Parlamento é cristão, com subdivisões entre maronitas, ortodoxos, melquitas, armênios e outras, e metade muçulmana, com subdivisões entre sunitas, xiitas, alauítas e drusos.

O Líbano, nos últimos anos, é dividido em duas principais coalizões. A primeira, chamada 8 de Março comandada pelo partido cristão Frente Patriótica Nacional, de Michel Aoun, com o apoio de outros partidos cristãos e dos grupos xiitas Hezbollah e Amal, conta com o suporte do Irã e do regime de Bashar al Assad. A outra, chamada 14 de Março, comandada por Saad Hariri e com o apoio da Arábia Saudita, conta com os principais partidos sunitas e de alguns partidos cristãos, como o de Gegea. Os drusos mantinham neutralidade.

Há quase dois anos, os libaneses estão sem presidente, desde o fim do mandato de Michel Suleiman. Tanto Aouns quanto Geagea insistiam em ser candidatos, mas nenhum conseguia 50% porque dependiam do líder druso Walid Jumblatt.

O temor de Geagea era de um acordo para que um terceiro candidato, chamado Suleiman Frangieh e também cristão, fosse eleito. Geagea é acusado de líder operação que matou o pai, a mãe, a irmã e o cachorro de Frangieh durante a Guerra Civil e os dois se odeiam.

A escolha de Aoun, se concretizada, fortalece, primeiro, os cristãos libaneses, que terão talvez o seu presidente mais poderoso em 40 anos. Em segundo lugar, o Hezbollah, que sempre foi um aliado de Aoun. Já no caso de Assad é um pouco mais complexo. Aoun ficou 15 anos no exílio por ser contra a presença síria no Líbano. Mas se aliou ao regime quando voltou por questões políticas, não ideológicas.



quinta-feira, 30 de julho de 2015

Os enigmáticos cristãos ortodoxos do Oriente


Artigo interessante de Gustavo Chacra no Estadão:

Os cristãos ortodoxos são inimigos do Ocidente?

Por que, quando falamos de Israel, associamos ao judaísmo, quando falamos do Irã ou Arábia Saudita, associamos ao islamismo, e quando falamos do Ocidente, associamos ao cristianismo, mas, quando falamos de Rússia, Grécia ou Síria, não falamos dos cristãos ortodoxos? E por que esta insistência em achar que a Cristandade se resuma a católicos, protestantes e evangélicos?

Quem conhece Jerusalém sabe da importância dos cristãos ortodoxos, principal grupo cristão da cidade. E o cristianismo ortodoxo tem um papel ultra relevante na geopolítica internacional. Basta lembrar que a segunda maior potência militar do mundo é a Rússia, cristã ortodoxa. A Grécia, no coração da maior crise europeia deste século, também é cristã ortodoxa. Parte do apoio ao regime de Bashar al Assad vem de cristãos ortodoxos. Aliás, há milícias cristãs ortodoxas lutando contra o ISIS, também conhecido como Grupo Estado Islâmico ou Daesh. Cristãos ortodoxos também sempre estiveram em movimentos de independência palestinos.

Há até quem diga que, se não houvesse o islamismo, os cristãos ortodoxos ainda seriam os maiores inimigos do Ocidente. Os países árabes mediterrâneos possivelmente seriam majoritariamente cristãos ortodoxos. Os palestinos, idem, e os cristãos ortodoxos seriam os adversários de Israel. Aliás, a Turquia também seria cristã ortodoxa e sua capital seria Constantinopla.

Os cristãos ortodoxos se dividem em oito patriarcados – Alexandria, Antióquia (hoje removido para Damasco), Jerusalém, Moscou, Geórgia, Sérvia, Romênia e Bulgária. Além destes, temos o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla (Istambul). O Patriarca ecumênico se chama Bartolomeu I e ele exerce enorme influência no Leste Europeu e em regiões do Oriente Médio.

Um dos motivos de a Rússia apoiar o regime de Assad, embora longe de ser o mais importante, é a população cristã ortodoxa síria. Na visão de Moscou, se o regime de Assad cair, os cristãos ortodoxos sírios tendem a ser perseguidos e massacrados. O Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa abertamente condena os que apoiam intervenção ocidental para derrubar Assad na Síria. Ele chegou a se encontrar com o líder sírio já durante a Guerra Civil e o parabenizou pela reeleição em 2014.

Aliás, curiosamente, muitos cristãos ortodoxos não simpatizam em nada com posições políticas de evangélicos no Ocidente, como o senador Ted Cruz, um ultra-conservador pré-candidato a Presidência dos EUA pelo Partido Republicano, descobriu depois de ser vaiado por criticar Assad e os palestinos para uma plateia de cristãos ortodoxos de origem sírio-libanesa. O senador republicano não sabia que os cristãos ortodoxos costumam ser pró-Assad e pró-palestinos (aliás, muitos são palestinos).

Quando vemos a Rússia se aproximando do Chipre e da Grécia, não podemos esquecer que estes países também são cristãos ortodoxos. Mesmo com o comunismo sendo contra a religião, culturalmente os países do Leste Europeu ortodoxos, como a Bulgária, possuíam uma relação melhor com Moscou do que católicos, como a Polônia.

Há algumas semanas, completou-se 20 anos do massacre de Srebrenica, cometido por sérvios, que são cristãos ortodoxos, e foram apoiados pelos russos, também cristãos ortodoxos. Curiosamente, tanto na Guerra da Bósnia quanto na de Kosovo, o Ocidente defendeu os muçulmanos contra os cristãos ortodoxos.

Os cristãos ortodoxos do Oriente Médio, historicamente, sempre estiveram na vanguarda dos movimentos arabistas. Também costumam ser urbanos, de cidades como Beirute, Damasco, Trípoli (a do Líbano), Jerusalém e Aleppo. No passado, eram ingrediente importante do caldo cosmopolita do Mediterrâneo, junto com os judeus e os muçulmanos.

No Líbano, os cristãos ortodoxos são minoria entre os cristãos, embora sejam a maioria dos cristãos de Beirute (Ashrafyeh, o sofisticado bairro cristão de Beirute, é cristão ortodoxo). A maior parte dos cristãos libaneses é cristã maronita, uma vertente catolicismo no Oriente, com ritos distintos dos católicos-romanos e com Patriarca próprio – por lei, o presidente libanês e o chefe das Forças Armadas precisam ser cristãos maronitas. Mas muitos dos imigrantes libaneses para o Brasil possuem origem cristã ortodoxa, incluindo o meu avô paterno. No Clube Monte Líbano de São Paulo, muitos sócios são cristãos ortodoxos. Há ainda a grande catedral do Paraíso.

Enfim, para entender o mundo, ajuda entender um pouco do cristianismo ortodoxo. Aliás, antes que me esqueça, diferentemente do judaísmo, “ortodoxo” para os cristãos não significa ser mais religioso.

E vale, neste caso, contar a história de dois conhecidos meus. Ele era cristão ortodoxo, do Monte Líbano. Ela, judia ortodoxa, da Hebraica. Mas, curiosamente, a mãe dele, também cristã ortodoxa, dava aulas de matemática em um colégio judaico e foi a um Bar Mitzva. O filho foi buscá-la e, na porta, viu a moça judia bonita. Deu uma paquerada. Ela perguntou a religião dele, por curiosidade. Orgulhoso, respondeu “ortodoxo” (na realidade, cristão ortodoxo). Ela, que era judia, achou meio estranho, pois ele não parecia ortodoxo. Mas a química já os havia atraído, independentemente das origens. Os dois se apaixonaram e casaram. Hoje são sócios do Monte Líbano e da Hebraica, mas frequentam o Paulistano. O filho foi batizado na Catedral Ortodoxa, mas também fez Bar Mitzva.



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O delicado equilíbrio político-religioso no Líbano


No seu blog no Estadão, Guga Chacra tenta explicar como funciona a complicada matemática político-religiosa que conseguiu, pelo menos temporariamente, acabar com a guerra civil no Líbano, que devastou o país de 1975 a 1990:

A mágica matemática libanesa para colocar inimigos mortais em um governo de união nacional

Como única nação do mundo sem maioria religiosa, tendo diferentes pluralidades (cristãos maronitas, muçulmanos xiitas e sunitas), os libaneses precisaram resolver suas diferenças com um acordo sectário para atingir uma balança de poder. Desta forma, o presidente é cristão maronita, o premiê, muçulmano sunita, e o presidente do Parlamento, muçulmano xiita. Drusos, cristãos ortodoxos, armênios, melquitas e outras minorias possuem seus cargos. O Parlamento é metade cristão, metade muçulmano (e druso), com suas subdivisões.

Para complicar, as facções políticas se dividem em duas, com nomes de datas. Uma, a 8 de Março, conta com xiitas e cristãos. A outra, 14 de Março, com sunitas e cristãos. Os primeiros são aliados do Irã e de Assad. Os seguintes, dos EUA, Arábia Saudita e da oposição síria. Eles divergem em praticamente tudo e têm um apoio quase idêntico da população libanesa. Você acha que democratas e republicanos nos EUA ou tucanos e petistas no Brasil divergem? Visite o Líbano e veja a que ponto chega o antagonismo.

Ainda assim, depois de 11 meses de governo interino, o premiê Tammam Salam conseguiu formar um governo de união nacional, levando em consideração todas as divisões religiosas e políticas, no esquema 8-8-8 – oito da 14 de Março, 8 da 8 de Março e 8 centristas (drusos ou ligados ao presidente Michel Suleiman e ao premiê). Antes que os desinformados venham dizer que o Hezbollah controla o governo libanês, vamos ver cada um dos ministros pela sua religião e seu grupo político.

Ministros Centristas

Primeiro Ministro, Tammam Salam, muçulmano sunita
Vice-premiê e ministro da Defesa, Samir Moqbel, – cristão grego-ortodoxo
Ministro da Saúde, Wael Abu Faour – druso
Ministro da Agricultura, Akram Shehayyeb – druso
Ministro do Meio-Ambiente, Mohammad Mashnouq – sunita
Ministro dos Deslocados, Alice Shabtini – cristã maronita
Ministro dos Assuntos Sociais, Rashid Derbas – muçulmano sunita
Ministro dos Esportes e da Juventude, Abdul Muttaleb Al-Hinawi – Muçulmano xiita

Ministros da 14 de Março (sunitas e cristãos)

Ministro do Interior, Nuhad Mashnouq – muçulmano sunita
Ministro das Telecomunicações, Boutros Harb – cristão maronita
Ministro do Trabalho, Sejaan Azzi – cristão maronita
Ministro do Turismo, Michel Pharaon – cristão melquita (grego-católico)
Ministro da Informação, Ramzi Joreige – cristão grego-ortodoxo
Ministro da Justiça, Ashraf Rifi – muçulmano sunita
Ministro da Economia, Alain Haim – católico romano
Ministro de Estado, Nabil De Freij – protestante

Ministros da 8 de Março (xiitas e cristãos)

Ministro da Energia, Artur Nazarian – cristão Armênio-Ortodoxo
Ministro da Cultura, Remon Areiji – cristão maronita
Ministro da Educação, Elias Abu Saab – cristão maronita
Ministro das Relações Exteriores, Gebran Bassil – cristão maronita
Ministro de Estado, Mohammed Fneish – muçulmano xiita
Ministro da Indústria, Hajj Hasan – muçulmano xiita
Ministro das Finanças, Ali Hassan Khalil – muçulmano xiita
Ministro dos Transportes, Ghazi Zeaiter – muçulmano xiita

Agora, a matemática

Número de ministros cristãos (independentemente da denominação) – 12
Número de ministros muçulmanos e drusos (independentemente da denominação) – 12
Número de ministros cristãos maronitas – 6
Número de ministros muçulmanos sunitas – 5
Número de ministros muçulmanos xiitas – 5
Número de ministros drusos – 2
Número de ministros cristãos grego-ortodoxos – 2
Número de ministros cristãos grego-católicos (melquitas) – 1
Número de ministros cristãos armênio-ortodoxos – 1
Número de ministros protestantes – 1
Número de ministros católico-romanos – 1
Número de ministros homens – 23
Número de ministras mulheres – 1
Número de ministros do Hezbollah – 2
Número de ministros pró-Assad – 8
Número de ministros anti-Assad – 8

Conclusão – O Ministério libanês favorece os cristãos em detrimento dos muçulmanos. Isso é aceito por todos os lados. O Hezbollah tem 1/12 do governo, sendo completamente equivocado dizer que controlam o gabinete. Um terço dos ministros é anti-Hezbollah. As mulheres lamentavelmente quase não são representadas no Ministério, apesar de o Líbano ser disparado o país árabe mais liberal



domingo, 12 de janeiro de 2014

Ariel Sharon morre 31 anos depois do massacre de Sabra e Chatila


Faleceu ontem em Tel Aviv, aos 85 anos de idade, o comandante militar e ex-primeiro ministro de Israel Ariel Sharon, após passar 8 anos em coma em decorrência de um acidente vascular cerebral.

Figura controversa no já complicadíssimo tabuleiro do jogo político no Oriente Médio, Sharon passa para a história responsabilizado pelo massacre dos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, no Líbano, um horroroso episódio que, por mais que tenham tentado abafar, jamais se descolará de sua biografia.

Naquele dia 16 de setembro de 1982, Sabra e Chatila representaram a conjunção tenebrosa de todos os fatores políticos e religiosos que continuam alimentando a guerra na chamada "Terra Santa".

Guga Chacra, colunista do Estadão e da Globo News e - ele próprio - descendente de cristãos libaneses , publicou em seu blog sua opinião sobre esse vergonhoso episódio que a humanidade nunca se esquecerá:

Qual o papel de Sharon (1928-2014) no massacre de Sabra e Shatila, cometido por cristãos libaneses?

Ariel Sharon morreu hoje, aos 85 anos, depois de passar os últimos oito em coma. Será sempre lembrado como herói por alguns e como criminoso de guerra por outros. Inclusive, dentro de Israel, sua imagem variou de acordo com o período. Há dezenas de ótimos obituários sobre a vida dele. Muitos neutros, alguns defendendo, outros atacando. Em português, recomendo o ótimo texto do Caio Blinder, na Veja . Eu vou me concentrar apenas no massacre de Sabra e Chatila porque já estive nestes campos três vezes, entrevistei sobreviventes e também milicianos cristãos envolvidos nas mortes.

Israel entrou no Líbano em 1982 supostamente por 48 horas para se vingar da morte de um diplomata israelense em Londres em ação atribuída à OLP. No fim, permaneceu em partes do território até 2000. O comando palestino, incluindo Yasser Arafat, estava no Líbano desde os anos 1970. A Guerra Civil libanesa havia se iniciado em 1975 e tinha diferentes facções cristãs, sunitas, xiitas e drusas, além do envolvimento do Exército da Síria.

Uma vez dentro do Líbano, Israel ocupou Beirute e levou adiante uma aliança com a facção cristã Phalange, fundada em 1936 com inspiração no Estado nazista de Hitler, comandada por Bashir Gemayel, então, com apenas 34 anos. O objetivo de Sharon era consolidar seus aliados cristãos no poder e assinar um acordo de paz com eles.

Gemayel foi eleito presidente do Líbano e, três semanas mais tarde, morreu em atentado terrorista. Seus seguidores, que atribuíram o ataque aos palestinos, decidiram se vingar. Ariel Sharon era ministro da Defesa de Israel, que controlava os campos de Sabra e Shatila e não impediu os cristãos falangistas de entrarem para cometer o massacre. Foram cerca de 2.000 mortos, incluindo mulheres e crianças, muitas vezes cortadas em pedaços pelos milicianos cristãos. Os soldados israelenses em nenhum momento os interromperam.

Posteriormente, o governo de Israel estabeleceu uma comissão investigadora comandada pelo juiz Yitzhac Kahan, que recomendou a saída de Sharon do posto de ministro da Defesa. Ele não foi considerado responsável direto, mas deveria, de acordo com o chefe da Justiça de Israel, ter previsto o que poderia ocorrer ao permitir a entrada dos cristãos falangistas, liderados por guerrilheiros de vinte e poucos anos.

Resumo– Israel controlava os campos de Sabra e Shatila. Quem cometeu os massacres foram os cristãos libanesas (em tempo, eu tenho origem cristã libanesa). Segundo a Justiça israelense, Sharon deveria ter previsto que os milicianos cristãos cometeriam os massacres



segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Adeus a Peter O'Toole, o Lawrence da Arábia do cinema

Para tristeza de todos os fãs da sétima arte, morreu no dia 14/12/13 o grande ator irlandês Peter O'Toole, aos 81 anos de idade.

Ainda que relativamente desconhecido para os jovens apreciadores do cinema, felizmente, não passou despercebido o seu falecimento.

Homenagens mais que merecidas foram feitas ao redor do mundo.

Alguns críticos de cinema e cinéfilos dizem que - curiosamente - o "grande pecado" de O'Toole foi ter começado por cima.

Tendo iniciado sua carreira na telona em 1960, já em 1962, aos 30 anos de idade, emplacou o papel-título pelo qual ficaria eternamente conhecido: Lawrence da Arábia.

Com apenas dois anos de filmografia, portanto, Peter O'Toole já havia alcançado o ápice a que um ator com sua fleuma e seu gabarito poderia almejar.

A partir daí, suas atuações em tantos outros filmes como "O Homem de La Mancha" (1972), "Calígula" (1979), "O Último Imperador" (1987) e "Troia" (2004), ou a brilhante e esquecida obra televisiva "O Caçador" ("Rogue Male", 1977), se tornaram meras notas de rodapé à sua inesquecível encarnação de "Lawrence da Arábia", dirigido por David Lean e inspirado no vulto histórico T. E. Lawrence, personagem real de uma das grandes aventuras da época da Primeira Guerra Mundial.

O que pouca gente sabe é que tanto Peter O'Toole como T. E. Lawrence, a quem ele deu vida no cinema a ponto se ser confundido com o personagem, tinham profundas raízes cristãs, que, cada um a seu modo e tempo, foram sendo diluídas durante suas trajetórias no planeta.

De origem galesa, T. E. Lawrence (1888-1935), que passou para a posteridade como o "Lawrence da Arábia", foi uma das mais emblemáticas figuras que emergiram do primeiro conflito que envolveu o mundo todo, de 1914 a 1918.

Numa época em que o colonialismo europeu iniciava sua decadência e aquela certa dose de, digamos, "cavalheirismo" medieval cedia vez à barbárie da (ainda incipiente) tecnologia moderna de guerra, T. E. Lawrence viajou em 1911 à Arábia, então pertencente ao Império Otomano (hoje Turquia), como assistente nas escavações arqueológicas promovidas pelo Museu Britânico.

Ainda que seu trabalho no Oriente Médio tenha se concentrado nas ruínas dos hititas e das Cruzadas, seu esforço científico lançou as bases da moderna arqueologia bíblica naquelas terras.

As profundas raízes cristãs de sua família - enfronhada em Oxford - fizeram com que Lawrence, desde a mais tenra idade, se interessasse pelos relatos bíblicos, e já em 1909 a sua correspondência enviada à Grã-Bretanha dava conta de que ele havia visitado e esquadrinhado 36 castelos e fortalezas (a maioria em ruínas) na região da Síria, Líbano e Palestina.

Com o estouro da Primeira Grande Guerra, em 1914, Lawrence, então na Inglaterra, é chamado de volta pelo exército britânico para trabalhar no Oriente Médio, que ele conhecia tão bem.

Seus laços com a comunidade nativa árabe, cultivados durante suas viagens nômades e seu trabalho arqueológico, fizeram com que Lawrence, insuflado pelos britânicos, os estimulasse a lutar contra o imperialismo otomano, que, aliado à Alemanha, era o inimigo comum de ambos os povos naquela zona conflagrada.

Antes de T. E. Lawrence morrer por
traumatismo craniano decorrente de um
acidente de motocicleta, ninguém pensava
em usar esse tal "capacete".
Depois de ajudar a consolidar a independência dos países árabes em relação à nascente Turquia, embora colocando-os sob a esfera britânica, Lawrence voltou para a Inglaterra, onde levou uma vida relativamente pacata até morrer num acidente de motocicleta em 19 de maio de 1935.

Curiosamente, outra de suas contribuições para a humanidade, ainda que involuntária, é que somente depois de sua morte o governo britânico investiu na cultura do capacete para motociclistas, o que veio a salvar milhões de vidas no mundo todo a partir de então.

Peter O'Toole, por seu lado, foi criado como católico na anglicana Leeds, tendo inclusive estudado num colégio de freiras durante os bombardeios nazistas da Segunda Guerra Mundial, embora tenha abandonado a fé a partir de sua adolescência.

Além de "Lawrence da Arábia", foi indicado 8 vezes ao Oscar da Academia de Hollywood, sendo sempre preterido até que finalmente, cônscios de seu erro, lhe outorgaram um Oscar honorário pelo conjunto de sua obra em 2003.

Entretanto, o já consagrado ator não conseguiu deixar a lembrança de Jesus para trás. Mais tarde, confessou: "Ninguém consegue tirar Jesus de mim... não há qualquer dúvida que ele foi uma figura histórica de tremenda importância, com enormes ensinamentos. Como a paz, por exemplo".

Não se sabe a extensão exata da fé de O'Toole e Lawrence, mas a feliz congruência desses dois grandes homens num personagem cinematográfico da maior relevância neste mundo moderno tão contraditório e ansioso por símbolos de fé e de coragem, faz com que a gente agradeça o privilégio de  ter conhecido as suas histórias de vida.

Peter O'Toole no papel-título de "Lawrence da Arábia" (1962)

Foto autografada de Peter O'Toole no papel de um dos três
anjos que visitam Abraão no épico "A Bíblia" (1966)



domingo, 14 de julho de 2013

Só o fanatismo ganha com as guerras no Oriente Médio

Artigo interessante publicado no Estadão em 8 de julho de 2013:

Um jogo de política e de religião

Sectarismo transforma diversidade religiosa do Oriente Médio em seu maior problema

USSAMA MAKDISI

"As sociedades civilizadas estão perpetuamente ameaçadas de desintegração", escreveu Sigmund Freud em A Civilização e seus Descontentamentos. E, da mesma maneira, a violência sectária dilacera o Oriente Médio nos dias atuais. A luta entre sunitas e xiitas é produto de pressões internas e externas sustentadas que manipularam e tornaram tóxico um dos marcos das sociedades do Levante, que é sua diversidade religiosa. Nem as razões internas ou as externas, são inteligíveis por si só. Mas elas se reforçam.

Os fracassos internos são mais evidentes na Síria. O fato de Bashar Assad ser alauita e muitas de suas forças militares serem lideradas por oficiais alauitas é um fator claro que contribui para a exacerbação das tensões sectárias no país. Mas o regime não é alauita no sentido religioso. Do mesmo modo que o regime ostensivamente sunita de Saddam Hussein que por muito tempo brutalizou o Iraque, o regime sírio é fundamentalmente despótico.

O Partido Baath nominalmente era uma legenda nacionalista secular, mas seus líderes viraram a ideia de secularismo de cabeça para baixo. Em vez de criar uma comunidade nacional construtiva, os regimes no Iraque e na Síria forjaram alianças de classe, regionais e sectárias com o objetivo de reprimir todas as dissidências contra seu governo. E assim, o sunita Saddam esmagou os curdos sunitas de modo tão brutal como esmagou a oposição xiita.

A principal característica desses regimes não é o sectarismo; eles manipulam as divisões entre suas populações para assegurar e preservar o poder. Inversamente, as dinastias da Arábia Saudita e do Catar rejeitam o pluralismo religioso como questão de ideologia de Estado.

Ambos os países incentivaram uma extraordinária onda de incitação contra xiitas do mundo árabe para preservar o poder absoluto e corroer o que consideram ser seu maior inimigo regional, o xiita Irã. Teerã tem relações estreitas com Damasco e é patrono do Hezbollah no Líbano.

Mas a intervenção da Arábia Saudita e o Catar contra o regime Assad não é necessariamente por razões sectárias. Pelo contrário, as duas monarquias têm interesses seculares - ou seja, preservar a ordem do petróleo da região pró-Ocidente, que propicia grandes benefícios para os regimes de Thain e Saud. A ponto de sua disputa contra o Irã ser empreendida em explícita coordenação com os Estados Unidos.

Portanto, a dimensão sectária não pode e não deve ser isolada da dimensão geopolítica secular muito mais óbvia e saliente. É a política que impulsiona o sectarismo, que lhe fornece o contexto adequado e agora incentiva e empresta legitimidade à violência devastadora em todas as linhas sectárias que assolam a Síria, o Iraque e o Líbano.

Pela mesma razão, também é verdade que quando o sectarismo é autorizado, não é facilmente controlado enquanto a situação política e militar continua caótica. Como a história da jihad antissoviética no Afeganistão nos lembra, é muito mais fácil mobilizar o fervor religioso do que difundi-lo. Os elementos sectários do país não respeitam necessariamente a hierarquia. São imprevisíveis.

As razões externas da catástrofe sectária que ameaça o Oriente Médio são igualmente óbvias. O colonialismo francês na Síria depois da 1.ª Guerra fortaleceu explicitamente as divisões sectárias e encorajou o elemento alauita entre os militares que assistiram à ascensão de Hafez Assad ao poder. Também provocou uma reação nacionalista contra o Ocidente, cujo exemplo claro é o Partido Baath.

Do mesmo modo, o xiita Hezbollah, atualmente envolvido abertamente com o regime de Assad, surgiu como resposta direta à invasão de Israel ao Líbano, em 1982, uma invasão justificada pelos Estados Unidos. E o apoio americano à ditadura do xá contribuiu para precipitar a revolução iraniana e o discurso contra o Ocidente adotado pelo aiatolá Ruhollah Khomeini.

Os EUA também apoiaram consideravelmente os sauditas wahabitas contra os nacionalistas seculares do Oriente Médio. Finalmente, e de modo mais óbvio, a invasão americana do Iraque em 2003 influiu fundamentalmente na desestabilização da região, fortalecendo inadvertidamente a influência de Teerã e provocando o temor do Irã pelos sauditas e catarianos.

O sectarismo, portanto, não é produto de uma ordem natural das coisas, mas de sua deformação. É uma manifestação da política e do poder dos nossos dias e não de ódios religiosos de outras eras. Os atores tanto internos quanto externos conspiraram juntos sem uma conspiração, de maneiras diferentes, com intensidades diferentes, para transformar a maior riqueza do Oriente Médio - sua diversidade religiosa histórica - em seu maior problema. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA





quarta-feira, 27 de março de 2013

Líbano tem primeiro casamento civil da sua história

Nidal Darwish e Kholoud Sukkarieh: o amor vencerá no Líbano?

Sempre é bom lembrar que o casamento civil no Brasil só veio a ter força de lei pela primeira Constituição republicana, de 1891, já que até então o que valia era o casamento católico, a então religião oficial da Constituição imperial de 1824.

Portanto, já em 2013, num tempo em que a sociedade ocidental debate intensamente o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, é uma enorme surpresa saber que isso sequer existia (entre um homem e uma mulher) no conturbado Líbano até recentemente, e isto pode causar sérias consequências ao corajoso casal, conforme publicou a Folha de S. Paulo de 26/03/13:

Casal encontra brecha para driblar proibição ao matrimônio civil no Líbano

DIOGO BERCITO

Nidal Darwish e Kholoud Sukkarieh celebraram o primeiro casamento civil feito no Líbano, tornando-se marido e mulher --até que a fatwa os separe.

O matrimônio, realizado em novembro, é a bandeira da visão de país que o casal compartilha: uma nação com base em princípios seculares (não religiosos).

Contrariadas, lideranças islâmicas locais emitiram uma fatwa, espécie de ordem religiosa, afirmando que é dever de todo muçulmano opor-se ao matrimônio civil.

"Estamos vivendo num país sectário, que divide as pessoas em grupos", diz Sukkarieh à Folha. "Não queremos mais isso. Queremos uma nação que respeite a todos."

O Líbano é exceção entre países árabes ao não basear sua Constituição nas leis islâmicas. No entanto, as leis familiares estão sob jurisdição religiosa.

Assuntos como casamento e, se preciso, divórcio ainda são decididos por autoridades religiosas. Não há opção de um casamento civil.

Ativistas pelo secularismo, no entanto, convenceram Darwish e Sukkarieh a forçar o sistema, escorregando por fresta aberta na legislação.

O fato de ela ser muçulmana do ramo sunita, e o marido, do xiita, não os impedia de ter um casamento religioso. No entanto, eles encamparam a ideia da união civil.

"Alguém me disse que precisavam de pessoas corajosas para fazer o primeiro casamento civil no Líbano", diz Sukkarieh. "Eu e meu marido aceitamos os sacrifícios."

Apoiados em um texto de 1936, que permite que um cidadão não se identifique com nenhum dos 18 credos oficiais, Sukkarieh e seu marido retiraram a filiação religiosa de suas identidades oficiais. Assim, afirmaram que a união entre eles não era mais assunto de fé - e, portanto, não havia impedimento legal.

Assessorados gratuitamente pelo Centro Civil para a Iniciativa Nacional, eles levaram o pedido a um notário e oficializaram o casamento.

"Tivemos de manter segredo por dez meses", diz Sukkarieh. "Alguns dos documentos que tivemos de providenciar eram novos. Foi necessário prepará-los sem poder dizer às autoridades o porquê."

A união, porém, não foi validada pelas autoridades responsáveis, e o casal ficou sem os direitos familiares, como aqueles relativos a herança e guarda de filhos.

"Isso balança o sistema e força os legisladores a rascunhar uma lei civil para o casamento", diz à Folha o parlamentar Ghassan Moukheiber, um dos fundadores do Centro Civil. "É uma mudança importante no modo com que o país está lidando com os seus próprios processos."

A união foi desafiada pelo sistema e atacada pelas lideranças religiosas. Mas, em um sinal de que o buraquinho aberto no dique da lei pode levar a uma enxurrada laica, políticos de peso, como o presidente Michel Suleiman e o ex-premiê Saad Hariri, saíram em defesa de realizar o matrimônio secular no país.

Pela lei atual, apesar de não ser possível fazer o casamento civil no Líbano, o país reconhece matrimônios seculares contraídos no exterior. Dessa maneira, virou tradição casar-se em Chipre ou na Turquia.

"Alguns casais estavam planejando fazer isso em breve, mas, quando ouviram falar sobre nós, cancelaram suas viagens", diz Sukkarieh.

Criticados por amigos e familiares, esse casal libanês afirma estar orgulhoso de sua união servir de símbolo para um país secular ainda por vir.

"Nós ouvimos milhares de vozes contrárias", diz Sukkarieh. "Mas estamos orgulhosos de nunca ter desistido."





terça-feira, 8 de novembro de 2011

A faxina étnica cristã no mundo árabe

Um artigo muito interessante de Gustavo Chacra, no seu blog no Estadão, sobre como - pouco a pouco - os cristãos estão sendo varridos do mundo árabe:

A limpeza étnica dos cristãos no mundo árabe

no twitter @gugachacra

Uma amiga minha de origem síria cristã me disse nesta sexta aqui em Nova York que seu pai, morador da Califórnia, idolatra Assad e tem um poster dele na sala. Quando ela liga para seus primos cristãos em Aleppo, todos respondem que a situação está normal, sem protestos, e o líder sírio segue firme no poder. Eles não querem genuinamente o fim do regime, apesar da morte de 3 mil pessoas, segundo a ONU.

Alguns, é claro, porque temem ter o mesmo fim dos cristãos iraquianos. Os caldeus, que por séculos habitaram as margens do rio Eufrates, passaram a ser alvo de limpeza étnica depois de os Estados Unidos terem invadido o país para derrubar Saddam Hussein.

Não estou dizendo que os americanos realizaram a limpeza étnica. Certamente isso não aconteceu e provavelmente muito poucos cristãos iraquianos foram mortos pelos soldados dos EUA. Mais importante, nenhum deles foi morreu nas mãos das tropas enviadas por George W. Bush por serem cristãos.

Mas a ofensiva americana abriu as portas para um ambiente em que minorias, como as cristãs, passaram a ser perseguidas. Eles foram alvos tanto de grupos xiitas como sunitas que chegaram a explodir igrejas.

Na Síria, e insisto neste ponto, os cristãos, que totalizam 2 milhões de pessoas e 10% da população, acreditam que a história deles não será diferente da dos iraquianos se acabar o regime. E, pelo visto, também dos cristãos do Egito pós-Mubarak, com os massacres e igrejas queimadas.

A Primavera deve trazer a democracia para a Tunísia e, no longo prazo, para outros países. Porém sempre tenham em mente os efeitos colaterais. O Iraque hoje é infinitamente mais democrático, no sentido de haver eleições, do que na época de Saddam. Mas cristãos não têm mais liberdade de ir à igreja e de andar livremente sem correr o risco de ser mortos. Centenas de milhares fugiram. Para onde? Para a Síria. E depois, quem os receberá? O Líbano? Pode ser. E depois? Depois não teremos mais cristãos no mundo árabe assim como não temos mais judeus.



sábado, 7 de maio de 2011

Quando Jesus ressuscita no Líbano


Pelo menos o hino "Jesus ressuscitou dentre os mortos" foi cantado - de surpresa - no shopping City Mall em Beirute, capital do Líbano, no último domingo de Páscoa. O país tem cerca de 40% de cristãos na sua população de maioria islâmica, o que já rendeu uma terrível guerra civil, mas hoje vive um período de paz, ainda que sujeita a chuvas e trovoadas de todo tipo.


ترنيمة المسيح قام من بين الأموات | انتاج قناة سات 7 |
التصوير بسيتي مول - بيروت - لبنان | عيد القيامة 2011


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