
E é nisso, basicamente, que o artigo falha. Entende uma resposta pontual, específica, mínima até, como é o retorno das duas matérias ao currículo escolar, como fruto de uma profunda agitação sindical de esquerda, revelando desconhecer que o sindicalismo brasileiro, como representante autêntico das bases, é um fenômeno em extinção, já que existe hoje, principalmente, para favorecer as suas estruturas dirigentes e não a massa trabalhadora. A CUT e a Força Sindical estão aí para comprovar esta afirmação, embora de vez em quando atirem algumas migalhas ao povão. O Brasil conseguiu criar uma versão original e perversa de plutocracia sindical. Assim, ao apontar um sindicalismo militante pretensamente esquerdista, praticamente inexistente no Brasil, o artigo passa a apontar algumas causas para a desgraça da Educação no país, causas essas muito simplistas e falaciosas, como a de que a explosão populacional do século XX foi uma das causas decisivas na degradação escolar. Resumo da ópera: o culpado é o povão, porque se procria! Deveriam ter-se contentado a viver como bichos nos latifúndios, perder 8 dos 10 filhos no parto, e morrer aos 30 anos de idade. A elite dominante do país assistiu a este fenômeno impávida. Não se preparou, não se ajustou à nova realidade que levou décadas para se instalar. Quando percebeu – surpresa das surpresas -, os coelhos haviam se multiplicado fora de controle (como se não precisassem de paus-de-arara e mão-de-obra barata para se sujeitarem aos seus caprichos e quase-escravidão). Este ocaso da educação, ocorrido não por acaso na ditadura militar, levou, segundo o artigo, à proletarização do professorado, assim, por gênese espontânea, como se não fosse um caso pensado e ideologicamente premeditado para solapar as bases da sociedade brasileira a partir das escolas.
Ora, bolas! Façamos uma analogia, então. Por vias tortas tentemos endireitar este caminho, já que, segundo o autor, ele está tão "esquerdizado". As ferrovias brasileiras floresceram durante toda a primeira metade do século XX, até a década de 60. Consideradas as condições tecnológicas da época, atendiam boa parte da população do país e se expandiam com constância e qualidade. Quando JK trouxe a indústria automobilística para o país, era necessário fazer estradas. Não por acaso, o traçado da imensa maioria das estradas federais brasileiras é dessa época e a maior parte delas foi traçada em Minas Gerais. Para fazer o Brasil entrar no ciclo econômico mundial em que o pólo principal era a indústria automobilística, o país precisava não só fabricar, mas também comprar automóveis e caminhões. Como fazer isto, se as nossas ferrovias eram tão boas? Com o regime militar instaurado a partir de 1964, é que começa o desmonte do sistema ferroviário, relegado ao abandono. Chegaram ao cúmulo de estatizar as ferrovias privadas, como aconteceu em São Paulo, em que as ótimas ferrovias privadas, como a Paulista (sobretudo), Sorocabana e Mogiana, foram reunidas numa estatal, a FEPASA, que tinha a mórbida missão de matá-las à míngua. A RFFSA (Rede Ferroviária Federal), além de ter-se tornado um antro de corrupção, deveria ter entrado para o Guiness como o maior pátio de ferro velho a céu aberto do mundo. Nisso, a direita brasileira é nefastamente curiosa. Quando o negócio é bom para o Estado e ruim para eles, eles estatizam para destruí-lo, recolhendo o rescaldo nas suas contas bancárias. Quando o negócio é bom para ambos, eles inventam todas as desculpas possíveis para privatizá-lo. Assim, os anos passaram, as ferrovias foram sucateadas, bilhões de dólares do povão foram jogados no lixo (para que outros bilhões recheassem poucos bolsos privados), e, salvo algumas ferrovias recentes e de transporte específico (como minério), o Brasil hoje roda sobre caminhões e não sobre vagões. Um única ferrovia que transporta passageiros resiste, entre Belo Horizonte e Vitória, talvez porque mineiro adore ir à praia de trem.
Guardadas as devidas proporções, o desmonte do sistema educacional brasileiro seguiu os mesmos trilhos. Não interessava à ditadura governar um país de pessoas que aprendessem a pensar. Um povo educado e politizado ameaça a supremacia da elite hegemônica, enquanto uma massa ignara desconhece seus direitos e aceita trabalhar por um prato de comida ou se deixa escravizar pelos mais "espertos". Era preciso evitar este perigo, senão pela perseguição, tortura e assassinato de quem se lhes opusesse, mas principalmente, pelo desestímulo a qualquer tentativa de melhorar a educação. Da mesma maneira que fizeram com as ferrovias, sucatearam a educação, no que foram muito ajudados pelos meios de comunicação, diga-se de passagem. Eu acho tragicômico quando a Globo hoje reclama da impunidade, da falta de educação, e dos índices sociais alarmantes do país. Ora, eles ajudaram a produzir esta triste realidade, ao domar a sociedade, e desviar a sua atenção, enquanto os monstrengos devoravam o patrimônio e a inteligência do país. Se boa parte da população hoje não tem pensamento crítico ou não sabe votar, ou, ainda, prefere assistir Sônia Abrão em vez de ler um bom livro, é porque assim foi (de)formada pela própria Globo, que apenas está colhendo o fruto dos anos de (des)serviço que prestou à sociedade brasileira.
O autor finaliza o artigo com uma lógica de mercado: "o 'segredo' do ensino de qualidade é a soma de um truísmo (bons professores formam bons alunos) com uma obviedade (para recrutar os melhores profissionais, é preciso oferecer uma carreira atrativa, senão financeiramente, ao menos em termos de valorização social). É exatamente o que não estamos fazendo". Esquece-se apenas de que isto tudo é exatamente o que não fizemos nas últimas décadas, muito mais por imperativos ideológicos do que mercadológicos, e que tentar apontar – ideologicamente – a esquerda como causadora dessa tragédia brasileira, continua sendo tão ideológico como hipócrita. Assim, fica fácil entender porque Hélio Schwartsman não quer que a filosofia e a sociologia voltem aos currículos escolares: para a geração vídeo-game, vai ficar fácil demais desmontar farsas ideológicas como a que ele propôs.