sexta-feira, 25 de abril de 2008

O evangelho de Lucas - parte 23

O capítulo 16 de Lucas segue relatando duas parábolas muito importantes contadas por Jesus, a do administrador infiel e a do rico e Lázaro, que também são exclusivas deste evangelho, não aparecendo em nenhum outro. São parábolas que geram uma certa polêmica quanto à sua interpretação, mas que devem ser entendidas no contexto em que estão inseridas, ou seja, Jesus estava na presença de fariseus e escribas que o criticavam por receber e comer com publicanos e pecadores (Lucas 15:1). Todos eles o ouviam, e todas essas parábolas são relatadas neste contexto. O capítulo 16 fala basicamente sobre o bom e o mau uso do dinheiro. A parábola imediatamente anterior, a do filho pródigo (15:11-31), não deixa de ter um fundo com este tema, ainda que sua preocupação central seja outra, mais espiritual. A parábola do administrador infiel é dirigida aos discípulos (16:1), e é também conhecida como a parábola do mordomo infiel. Tendo em vista a conotação negativa que a palavra "mordomia" assumiu na sociedade brasileira, em função dos privilégios e do nepotismo de muitos governantes, hoje se prefere falar em "administrador", para que a idéia fique mais clara, mas muitas igrejas ainda utilizam o termo "mordomia" para referir-se ao serviço que todo discípulo de Cristo deve ter em relação ao seu Senhor. Já a parábola do homem rico e de Lázaro (vv. 19-31) é dirigida, prioritariamente, aos fariseus, como o próprio contexto indica (vv. 14-18). Examinemo-las mais de perto.


A parábola do administrador infiel (vv. 1-13) tem a sua interpretação dificultada pelo fato de não termos a noção exata do que representava, naquela época, a utilização de um administrador para dirigir os negócios de uma pessoa rica. Ainda hoje, este recurso é muito utilizado, com os mesmos problemas inerentes à má administração, mas na sociedade judaica daquela época era comum que um homem rico entregasse a direção dos seus negócios a um administrador de confiança. Ocorre que, na parábola contada por Jesus, este foi denunciado como mau gestor da fortuna alheia (v. 1), pelo que o homem rico o convocou para que prestasse contas. "Prestação de contas" é até hoje o nome técnico para definir essa situação jurídica, havendo inclusive um tipo especial de ação cível assim denominada. Se alguém se recusa a prestar contas da sua administração voluntariamente, poderá ser forçado judicialmente a fazê-lo. No caso bíblico, o homem rico exigiu-a com a maior rapidez o administrador teve pouco tempo pra pensar (v. 2). De imediato, descartou mendigar e trabalhar a terra (v. 3), serviço que ele julgava humilhante para quem, até então, tinha uma alta posição e gozava de considerável reputação na sociedade em que estava inserido. Ele queria minimizar o prejuízo, queria, pelo menos, continuar sendo recebido pelas pessoas de suas relações (v. 4) e, para tanto, arquitetou um plano (v. 5) em que ele perguntava a cada credor quanto eles deviam e fazia um desconto. Deve-se ter em mente que esta era uma prática comum entre alguns judeus de mais posses. Afinal, a lei, esta velha conhecida de quem é desonesto e hipócrita, existe para ser burlada. A lei proibia a usura, ou seja, cobrar juros (Ex 22:25, Lev 25:36-37, Deut 23:19-20). A artimanha usada para contornar esta proibição era registrar um número bem maior do que devia ser pago, em relação ao que havia sido efetivamente emprestado ou vendido a prazo. Assim, como relata a parábola, é muito provável que o que havia sido negociado era cinqüenta cados de azeite (ou algo menos), mas o escrito de dívida registrava cem cados (vv. 5-6). O mesmo fez o administrador infiel com a conta de cem coros de trigo, pela qual aceitou oitenta (vv. 7-8). O seu senhor elogiou a astúcia do administrador infiel (v. 8), pois, segundo o rigor da lei judaica, não havia sido defraudado em nada, embora, obviamente, se pudesse alegar que tinha tido, sim, prejuízo, pelo fato do administrador não seguir os costumes hipócritas locais. Entretanto, o senhor não poderia cobrar a dívida em juízo do administrador, já que ao fazer isto admitiria que patrocinava, ou pelo menos concordava com o descumprimento da lei. É nesse contexto que Jesus aconselha que "das riquezas de origem iníqua fazei amigos, para que, quando aquelas vos faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos" (v. 9).


Aqui é que está o problema, aparentemente insolúvel, de interpretação da parábola. Estaria Jesus aconselhando a se aproveitar das riquezas ilícitas? Não contrariaria esse suposto ensinamento de Cristo, expressamente, a própria Palavra de Deus que o Mestre tanto prezava? Afinal, um dos "ais" de Habacuque é justamente quanto a esta questão: "Ai daquele que ajunta em sua casa bens mal adquiridos, par por em lugar alto o seu ninho, a fim de livrar-se das garras do mal!" (Habacuque 2:9). A questão, talvez, seja um pouco mais profunda do que parece. Será que existe alguma riqueza, no mundo, seja a da pessoa aparentemente mais honesta e trabalhadora, que não guarde no seu início, ou em um dos elos da cadeia sócio-econômica que a gerou, algum fato ilícito, por mínimo que seja? Em suma: toda e qualquer fonte de riqueza deste mundo não deve estar centrada em Deus, e ser exercida em seu louvor e honra? O homem iníquo, que repudia a Deus, ao que tudo indica, não é o objeto, o destinatário desta parábola. É aos seus discípulos que Jesus se dirige, ensinando-os algo que o Salomão já dizia, e que Paulo retomaria como mensagem central da carta aos Romanos (em conexão com o próprio Habacuque): "Não há homem justo sobre a terra que faça o bem e que não peque" (Ecl 7:20) e "Não há um justo, nem um sequer" (Romanos 3:10), ao qual Paulo ligaria Habacuque 2:4 – "o justo viverá por fé" (Romanos 1:16). Retomando o significado da parábola, portanto, o que Jesus está ensinando aqui é o desapego ao dinheiro, a não servir dois senhores, Deus e as riquezas (o deus Mamon – v. 13), não no sentido de ser perdulário e dissoluto como o filho pródigo da parábola anterior, mas com o propósito de fazer o bem aos outros, pois, a rigor, nenhum de nós é imune aos erros, aos problemas e à injustiça que o dinheiro traz intrinsecamente consigo. Logo, façamos amigos com os poucos ou muitos recursos que tivermos. Há um perigo aqui, entretanto, de se confundir esta atitude com algum tipo de boas obras através das quais mereçamos o favor de Deus. Comentando sobre essa parábola, Calvino ensina:



Além disso, a Escritura tem também uma terceira regra pela qual regula o uso das coisas terrenas, acerca da qual dissemos algo quando tratávamos dos preceitos da caridade. Pois declara-se que todas elas nos foram assim outorgadas pela benignidade de Deus e destinadas ao nosso proveito, para que sejam como que depósitos dos quais um dia se haja de prestar conta. Portanto, assim importa administrá-las para que aos ouvidos nos soe constantemente esta ordem: "Dá conta de tua mordomia" [Lc 16.2]. Ao mesmo tempo, deve ocorrer-nos por quem é exigida essa prestação de contas. Deveras é por aquele que, como tanto recomendou a abstinência, a sobriedade, a frugalidade, a moderação, também abomina o luxo, a soberba, a ostentação, a vaidade; a quem não é aprovada outra gestão de bens senão aquela que esteja associada com a caridade; que já de sua boca condenou todos e quaisquer deleites que afastem o coração do homem da castidade e da pureza ou embotam sua mente de trevas.

(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 3, p. 195)


Mas a Escritura nos humilha ainda mais e, no entanto, ao mesmo tempo, também nos exalta. Ora, além de vedar que se glorie nas obras, visto que são dádivas graciosas de Deus, concomitantemente ensina que elas estão sempre sujas de certas poluições; de sorte que, se forem examinadas de conformidade com o padrão de seu juízo, não podem satisfazer a Deus. Mas, para que não nos desfaleça o bom ânimo, a mesma Escritura declara também que elas são agradáveis a Deus, porque ele as apóia. Mas ainda que um pouco diferentemente de nós fala Agostinho, contudo, em substância se verificará que suas palavras não se desafinam das de Bonifácio, o qual, depois de comparar entre si dois homens, supondo que um fosse de vida mui santa e perfeita, e que o outro, também de vida boa e honesta, porém não tão perfeito como o outro, por fim conclui que o que parece não ser tão perfeito como o outro, pela retidão de sua fé em Deus pela qual vive e segundo a qual se acusa de todos seus pecados, louva a Deus em todas suas obras boas, atribuindo-se a si mesmo a ignomínia e a Deus, a honra, e recebendo dele a remissão dos pecados, e o anseio de fazer bem suas obras, quando chega a hora de deixar esta vida será recebido em companhia de Cristo. Por quê, senão graças à fé, a qual, embora a ninguém salva sem as obras (pois ela é uma fé não réproba, que opera por amor), entretanto, por meio dela os pecados são também perdoados, pois que o justo vive da fé, mas sem elas as obras que parecem boas a pecados se convertem? Aqui, sem dúvida, ele está a confessar, não obscuramente, o que tanto temos discutido: que a justiça das boas obras depende e procede do fato de que Deus as aprova por fazer uso de sua misericórdia e de perdoar as falhas que há nelas.

6. AS PASSAGENS BÍBLICAS QUE FALAM DE RIQUEZA OU TESOUROS NOS CÉUS NÃO COMPROVAM O MÉRITO ÀS OBRAS

Há outras passagens quase semelhantes às que acabamos de expor, a saber: "Granjeai amigos com as riquezas da injustiça; ara que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos"; "Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas usufruirmos; que façam bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente, e sejam comunicáveis; que entesourem para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a vida eterna" [1 Tm 6.17-19]. Ora, as boas obras estão sendo comparadas com as riquezas que haveremos de usufruir na bem-aventurança da vida eterna.

(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 3, pp. 295-296)
No seu comentário a 1 Timóteo, Lutero segue esta mesma linha de pensamento:
Desse modo, quanto mais formos favorecidos com riquezas, tanto mais será necessário, para todos nós, algum defeito pelo qual nos tornemos humildes. Em segundo lugar, os ricos confiam nas riquezas. Ora, Deus quer que eles transformem os outros em pessoas ricas. As suas riquezas são sombras e sinais das verdadeiras riquezas. Se querem ser salvos, empenhem-se para que sejam "ricos em boas obras". "Que pratiquem o bem". [O apóstolo] não diz, apenas, que devem praticar boas obras, mas que devem fazê-lo em abundância, pois está ao alcance de suas mãos a capacidade de vestir os pobres e dar de beber aos que têm sede. Isso porque "a quem mais foi dado, dele mais será pedido" [Lc 12:48]. Que não façam, apenas, o bem, mas que o façam em maior profusão do que os outros, a fim de que não sejam ricos em ouro e prata, mas, sim, em boas obras. "Que repartam com presteza". Aqui ele fala de um ponto de vista específico ou de acordo com a "espécie", ao passo que, acima, falara em geral, ou de acordo com o "gênero" fazer boas obras. Que tenham presteza em partilhar. "[Que sejam] generosos". São "pessoas que repartem" com aqueles que passam necessidade e que se comportam com benevolência e disposição para compartilhar, de sorte que as pessoas possam obter algum benefício de sua parte. Assim como as coisas ou a caixa comum está disponível ao uso de todos os irmãos, o mesmo se dá com o rico. É difícil repartir, ser magnânimo. "Coinônico" (de koinonicosgeneroso – em contraposição a canônico - canonicus), pelo contrário, é que se gostaria de ser! "Que acumule tesouros" [6.19]. Isto explica a frase "nem depositem a sua esperança na incerteza [da riqueza]", etc. [1 Tm 6.17], pois é isso o que fazem os ricos. Aqui, porém, eles procuram um "fundamento" fiel, que dura para sempre. O mesmo diz Cristo: [Lucas 16.9]: "Fazei, para vós, amigos a partir da idolatria da riqueza" [Lc 16.9]. "Dai esmola e eis que tudo [vos será limpo]" [Lc 11.41]. Os ricos devem observar isso diante dos outros, daqueles que são atribulados pela penúria.

(Martinho Lutero, "Apontamentos do Dr. M.[artinho] à Primeira Epístola a Timóteo", in Obras Selecionadas Interpretação do Novo Testamento – Mateus 5-7 – 1 Coríntios 15 – 1 Timóteo, Eds. Sinodal/Ulbra/Concórdia, 2005, vol. 9, p. 594)
É desta maneira, portanto, que os reformadores também entendiam esta parábola, no uso das riquezas para a caridade, fazer amigos, não como um requisito essencial da salvação, mas como um sinal de que o crente, efetivamente, entendeu e vive o que significa ser salvo. Infelizmente, hoje em dia, muitas igrejas evangélicas do Brasil vivem uma realidade completamente diferente, em que o que importa é ajuntar riquezas, e não reparti-las, o que não deixa de ser lamentável (para dizer o mínimo). Para muitos pregadores brasileiros, para ser fiel no pouco, precisa ser fiel no muito, de preferência administrado por eles. Jesus inverte esta lógica ao finalizar esta parábola, comentando que "quem é fiel no pouco também é fiel no muito" (v. 10). A "verdadeira riqueza" é a salvação em Cristo, o verdadeiro tesouro celestial (v. 11), mas se somos infiéis na aplicação das riquezas alheias, como nos apresentaremos diante de Deus (v. 12)? Responda quem quiser.... ou puder....

Um comentário:

  1. Alexandre Luquete19 de julho de 2008 12:50

    Caro irmão, gostei muito do que você escreveu, inclusive algumas menções a Calvino estarão no meu sermão de amanhã.
    Acho que você poderia ler As Parábolas de Lucas. A Poesia e o Camponês: Uma Análise lieterária-cultural da Vida Nova, 1995.
    Ampliaria muito a discussão que você apresentou aqui.

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