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sexta-feira, 22 de julho de 2016

Clérigos sauditas proíbem Pokemon (de novo)

A informação é d'O Globo:

Religiosos árabes dizem que 'Pokémon' promove blasfêmia

Justiça na Arábia Saudita reeditou lei islâmica contra franquia da Nintendo

DUBAI, Emirados Árabes - A alta corte religiosa da Arábia Saudita reeditou uma fatwa (decreto islâmico) de 2001 segundo a qual a franquia "Pokémon" é anti-islâmica, segundo informou a mídia estatal do país nesta quarta-feira.

O decreto, porém, não citou o jogo de realidade aumentada "Pokémon Go", que se tornou uma febre mundial desde seu lançamento, no último dia 6, nos EUA. Desde então, o jogo chegou a dezenas de outros países e deve estar acessível para brasileiros nos próximos dias.

O Secretariado Geral do Conselho de Acadêmicos Religiosos comunicou que reeditou o decreto de 2001, criado na época para responder a questionamentos de muçulmanos. Segundo os clérigos, as mutações dos personagens no jogo, que recebem poderes especiais, representam uma blasfêmia por promover a teoria da evolução natural.

"É escandaloso que a palavra 'evolução' esteja tão presente nas línguas de crianças", afirma a fatwa reeditada.

O decreto também diz que o game tem outros elementos proibidos pela Lei Islâmica, incluindo "politeísmo contra Deus por multiplicar o número de divindades, e jogatina, que Deus proíbe no Corão". A fatwa acrescenta que os símbolos usados no passatempo da Nintendo promove xintoísmo, cristiandade, maçonaria e outras crenças.

Na conservadora Arábia Saudita, país onde estão situadas as cidades sagradas de Meca e Medina, cinemas são proibidos e esportes femininos são criticados como algo que promove o pecado. O governo considera a era antes do Islã como uma idade da ignorância (a religião surgiu no século VII).



segunda-feira, 11 de julho de 2016

A mulher do caseiro da mesquita de SP é evangélica


A matéria foi publicada no Estadão:

O caseiro da mesquita: uma história de tolerância religiosa

Nascido em Alagoas, filho de mãe católica e casado com uma evangélica, ele se converteu ao Islã e foi à cidade de Meca

GILBERTO ALMENDOLA

“Lá vem o homem-bomba”. Não é difícil que Cícero Soares da Cruz, 68 anos, ouça esse tipo de comentário quando vai estacionar o carro da mesquita em algum ponto da cidade. Normalmente, ele finge que não ouve e segue em paz com as obrigações do seu ofício e religião.

Há 17 anos, Cícero trabalha como caseiro da Mesquita Brasil, a maior da América Latina, localizada no bairro do Cambuci, em São Paulo. Como tal, transformou-se no faz-tudo do lugar. Ele é o responsável pelas compras do mês, por pequenos consertos elétricos, pela equalização do som durante as cerimônias religiosas e por resolver todo e qualquer imprevisto ao longo do dia. Desde 2008, Cícero converteu-se ao islamismo e, no ano passado, realizou o sonho de fazer a peregrinação à cidade de Meca, na Arábia Saudita – dando, assim, as sete voltas ao redor da Grande Mesquita.

Mas antes de Cícero cumprir sua obrigação como muçulmano, vamos encontrá-lo ainda criança, na pequena cidade de Palmeira dos Índios, em Alagoas. O pai era um homem da roça, trabalhador braçal, sem tempo para “gastar” com religião. A mãe também era da lida, feirante, mas temente a Deus e Católica. Foi da mãe que Cícero herdou sua primeira religião.

Na adolescência, Cícero foi achando que Palmeira dos Índios ia ficando cada vez mais árida. O irmão mais velho já estava em São Paulo e havia passado da hora de tomar o mesmo ônibus em direção ao futuro. Ao desembarcar na velha rodoviária, no final dos anos 60, tomou um susto com o tamanho da cidade – mas também sentiu o prazer de estar solto no mundo.

Cícero foi morar com o irmão que já estava estabelecido por aqui. Por influência dele, começou a trabalhar como metalúrgico e frequentar a Igreja Presbiteriana. Foi do irmão que herdou, portanto, sua segunda religião.

Para conseguir uma melhor condição de sobrevivência em São Paulo, matriculou-se em um curso supletivo (na época, sabia apenas escrever o próprio nome). Nas aulas, aprendendo o básico do português, conheceu Filomena, a Filó – que também fazia o mesmo curso supletivo. Os dois se apaixonaram e não esperaram tempo demais para juntarem os trapos. Como casal, frequentaram a Congregação Cristã do Brasil e abriram uma pequena loja de roupas.

Quando tudo parecia bem encaminhado na vida de Cícero e Filó, a loja de roupas foi invadida e todas as peças foram levadas. O prejuízo foi enorme. Todas as economias do casal estavam naquele comércio. Cícero sentiu o baque de morar em uma cidade grande e insegura: estava quebrado.

A luz veio de um irmão de fé da Filó, um frequentador da Congregação Cristã. “Parece que na mesquita estão contratando, estão precisando de cozinheira”, disse o colega. Mesmo sem saber direito o que era uma mesquita, o que era um muçulmano ou o Islã, Filó foi ver se ali havia uma oportunidade. Cozinheira talentosa, não demorou para conquistar a vaga na cozinha da mesquita. A vida financeira do casal estava salva.

Enquanto a mulher trabalhava como cozinheira, Cícero defendia um troco como manobrista no centro. Mas um dia Filó chegou em casa dizendo que tinha uma vaga no trabalho dela, uma vaga de caseiro, uma vaga boa porque além do salário ainda trazia a possibilidade de o casal morar no próprio trabalho. Ou seja, na mesquita.

Cícero foi conversar, não sabia nada do islamismo, teve receio de não se acostumar. Afinal, ainda era evangélico. “Mas minha mulher também era e estava muito feliz no trabalho. Então, tentei a sorte e me apresentei para o trabalho.”

No começo, além das funções corriqueiras de caseiro, Cícero começou a prestar atenção nas cerimônias, nas palavras do sheik e nas festas de encerramento do Ramadan. “Me senti tocado por Alá. Me senti pertencendo àqueles rituais e entendendo o que aquilo queria dizer”, conta.

Em 20z08, começou a jejuar durante o período do Ramadan. “Os frequentadores da mesquita admiraram minha atitude, me apoiaram. Como eu não estava acostumado, tinha muita fraqueza durante o dia, mas Alá me tocou, me manteve firme.” Filó acompanhou o jejum do marido de perto, tentando demovê-lo da ideia no início, mas depois respeitando a opção dele. “Filó continua evangélica. Não tem problema nenhum nisso. Somos a prova de que não existe isso de conflitos entre religiões na nossa vida”, fala Cícero. Depois do jejum, o próximo passo era realizar aquilo que todo muçulmano precisa fazer pelo menos uma vez na vida: ir a Meca.

Puro sonho, Cícero que nunca havia embarcado em um avião, que nunca havia saído do País e que era um recém-convertido, não tinha nenhuma perspectiva de fazer a peregrinação. Mas...

A direção da mesquita reconheceu em seu caseiro a vontade e a dedicação de vivenciar o islamismo, reconheceu que ali estava um homem realmente tocado pela palavra de Alá. Em 2015, Cícero ganhou uma passagem para a Arábia Saudita e, com um grupo de muçulmanos, foi para Meca. “Me disseram que o único risco do avião era a decolagem e o pouso”.

As elevadas temperaturas da Arábia Saudita fizeram com que Cícero tivesse febre nos primeiros dias. Apesar da provação, ele seguiu em peregrinação. Naquele ano, a aglomeração (3 milhões de muçulmanos) terminou em confusão e mais de 700 pessoas morreram pisoteadas. Em São Paulo, Filó acompanhou tudo pela televisão e chegou a pensar no pior. “Eu não estava próximo de onde aconteceu a tragédia. Minha peregrinação foi dura, mas realizada em paz”, comenta Cícero.

Assim, quando ouve alguém chamá-lo de homem-bomba, Cícero lamenta a ignorância e a intolerância. “Se alguém faz alguma coisa errada, se alguém mata ou se explode, não está fazendo isso em nome de Alá ou do Islã. Nossa religião não tem nada a ver com essas atrocidades”, fala. Ao ouvir esse tipo de acusação sem sentido, Cícero finge que não entendeu e segue seu caminho em paz.



terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Irã condena execução de líder xiita pela Arábia Saudita


A matéria é da Agência Brasil:

Arábia Saudita sofrerá "vingança divina", diz líder supremo do Irã

O líder supremo do Irã, Ali Khamenei, condenou a execução do líder religioso xiita Nimr al-Nimr, ocorrida este sabado (2). Khamenei afirmou que os sauditas sofrerão "uma vingança divina" pelo ato.

"Sem dúvidas, o ilegítimo derramamento de sangue deste mártir inocente terá um efeito rápido, e uma vingança divina se abaterá sobre os políticos sauditas", disse Ali Khamenei hoje (3) sobre a morte de Nimr al-Nimr.

O religioso era opositor declarado da família real saudita e havia sido preso em 2012, após uma série de protestos da minoria xiita no Bahrein. A manifestação no país vizinho foi contida em uma ação conjunta das autoridades sauditas e barenitas e foi considerada extremamente violenta pelas entidades de defesa dos direitos humanos.

Al-Nimr era acusado de motim, desobediência ao rei e porte de armas e foi executado ao lado de 46 terroristas que pertenciam, em sua maioria, ao grupo Al Qaeda. O xiita sempre reconheceu sua posição opositora ao governo, mas negava ter incitado a violência nos protestos ou portar uma arma.

Após a execução, centenas de muçulmanos xiitas foram às ruas protestar pela morte de al-Nimr na Arábia Saudita, no Bahrein, no Iêmen, no Irã e no Líbano.

Um grupo de pessoas chegou a invadir a embaixada saudita em Teerã e destruiu o local. O governo iraniano informou que deteve 40 pessoas que teriam invadido o centro diplomático. O consulado saudita em Mashaad, no norte do Irã, também foi invadido por pessoas que protestavam contra a morte do líder.



sábado, 26 de dezembro de 2015

Onde é proibido comemorar o Natal?

Matéria publicada na BBC Brasil:

Quais são os países que proíbem o Natal?

O Natal é uma das celebrações mais difundidas no mundo, mas não é vista com bons olhos em todos os lugares.

Em alguns países, as celebrações natalinas são reguladas ou totalmente proibidas.

Em outros lugares a compra e venda de certos produtos e até as reuniões familiares são limitadas.

O país que mais recentemente entrou na lista dos que proíbem a festividade é o Tajiquistão, na Ásia central. Nesta semana autoridades do país anunciaram que endurecerão as restrições para a celebração do Natal.

O Tajiquistão é uma república faz fronteira com o Afeganistão ao sul, com a China ao leste, com o Quirguistão ao norte e com o Uzbequistão a oeste. O governo proibiu as seguintes tradições natalinas:

  • Árvores de Natal (naturais ou artificiais)
  • Fogos de artifício
  • Comidas natalinas
  • Troca de presentes
  • Arrecadação de dinheiro
  • Fantasia de Papai Noel


A religião muçulmana é maioria no país e cresce desde que o Tajiquistão se separou da União Soviética em 1991.

Outros países

Em Brunei, no sudeste asiático, proibiu-se o uso em público de gorros de Papai Noel ou qualquer outro tipo de indumentária relacionada. As pessoas não muçulmanas são autorizadas a celebrar o Natal, desde que não em público.

O Islã é a religião oficial do país e o sultão é o chefe religioso neste reino, que faz fronteira com a Malásia.

Como ocorre anualmente, a Arábia Saudita emitiu uma regulamentação anual que proíbe "sinais visíveis" da celebração do Natal.

Tanto muçulmanos como visitantes não podem participar da celebração. O governo determina que todos devem se orientar pelo calendário lunar e não pelo gregoriano.

Na Arábia Saudita também é proibida a celebração do Dia das Bruxas.

Em 2012, 41 cristãos foram detidos pela polícia religiosa árabe acusados de "conspirar para celebrar o Natal".

Enquanto isso, na China, onde convivem a abertura ao capitalismo de mercado e a proteção das tradições, há zonas onde as festividades natalinas seguem vetadas.

Uma das cidades onde a celebração é proibida é Wenzhou (na China oriental), cuja prefeitura vetou todas as celebrações natalinas nas escolas e nos centros comunitários.

Natal entre refugiados

O Natal é celebrado com moderação no Iraque e na Síria, locais onde aumentaram os ataques a centros de culto cristãos desde que a guerra civil se agravou. Um grupo de voluntários chegou a ir ao Iraque para celebrar com os cristãos que vivem em campos de refugiados.



segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Donald Trump e princípe saudita batem boca pelo twitter


Com o perdão do péssimo trocadilho, isso é o que dá se meter com quem não tem papas na língua, mas nada como ser bilionário, não é mesmo? 

A gente pode falar o que quiser, só tem que tomar cuidado com algum outro bilionário que desaprove o que falamos. 

Afinal, o vírus da verborragia muitas vezes infecta a ambos.

(se bem que há alguns "pastores" evangélicos infectados pelo mesmo vírus.... será que são bilionários também? - dúvida cruel)

A matéria é da BBC Brasil:

Twitter é palco de bate-boca entre Donald Trump e príncipe saudita

Um príncipe saudita descreveu o empresário Donald Trump, candidato à indicação do Partido Republicano para as próximas eleições à Presidência dos Estados Unidos, como uma "vergonha para a América".

O príncipe Alwaleed bin Talal disse por meio do Twitter que Trump deveria desistir de suas ambições presidenciais, porque ele nunca ganhará a disputa.

O comentário foi feito em meio às reações aos comentários de Trump de que muçulmanos deveriam ser impedidos de entrar no país por questões de segurança.

O empresário respondeu a Bin Talal com uma mensagem que chama o príncipe de "dopey" (drogado, em inglês).

Progressista

Nascido em 1955, Alweed bin Talal é sobrinho do rei Salman bin Abdulaziz al-Saud, empresário e investidor.

Ele tem participações em grandes companhias americanas, como Disney, 21st Century Fox, News Corp, Apple, GM, Twitter e uma s[érie de redes de hotéis de luxo, incluindo o Plaza, em New York, e o George V, em Paris.

Com uma fortuna estimada em US$ 32 bilhões (R$ 121,6 bilhões), figurou entre os árabes mais ricos do mundo na lista de 2015 da revista Forbes.

Ele é conhecido na Arábia Saudita por seus costumes ocidentalizados e posições progressistas. É, por exemplo, um defensor da ampliação de direitos femininos, e a maioria de seus funcionários são mulheres.

"Você é uma vergonha não só para o GOP (sigla em inglês para o Partido Republicano), mas também para toda a América", disse ele em um post no Twitter. "Desista da corrida presidencial, já que você nunca a vencerá."

Trump respondeu acusando que o príncipe de usar o "dinheiro do papai" para tentar controlar políticos americanos. Isso não acontecerá, afirmou o empresário, quando ele for eleito.

Controvérsia

Trump lidera as pesquisas sobre a indicação dos republicanos para as eleições e tem sido amplamente criticado por sua proposta de vetar a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos.

Na quinta-feira, a Damac Properties, uma empresa que está construindo um complexo de golfe para o empresário em Dubai, nos Emirados Árabes,, retirou o nome do empresário e uma foto sua com sua filha da fachada do empreendimento.

Os comentários de Trump foram feitos após os ataques realizados na Califórnia por dois muçulmanos que se radicalizaram, segundo o FBI



sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Guindaste despenca em Meca e mata ao menos 65 peregrinos


A trágica informação ainda está começando a chegar via agências internacionais de notícias, mas os primeiros relatos dão conta de que pelo menos 65 pessoas teriam morrido em decorrência do colapso de um guindaste utilizado nas obras de restauração e ampliação da Grande Mesquita de Meca, o local mais sagrado do Islã.

Os números ainda são provisórios, mas se acredita que pelo menos 150 pessoas tenham ficado feridas em função do acidente, que ocorreu às 18:30 h desta sexta-feira, 11 de setembro de 2015 (12:30 h pelo horário de Brasília).

Embora não seja ainda a época do Hajj, a tradicional peregrinação que todo muçulmano deve fazer a Meca, que cairá este ano entre os dias 21 e 26 de setembro, hoje é sexta-feira, o dia sagrado da semana para a religião islâmica, o que faz crer que o número de vítimas tenha sido maior em razão do feriado semanal.

Testemunhas dizem que o guindaste caiu sobre o teto da Grande Mesquita logo após ter sido atingido por um raio, conforme mostra a foto acima, cuja procedência e datação não pôde ser verificada.

De fato, as autoridades sauditas haviam previsto um dia de tempestades em Meca.

O sítio onde se localiza a Grande Mesquita vem sendo obra de reparos há vários anos, e polêmicas também, conforme já noticiamos aqui em março de 2013.

As informações aqui colhidas vieram do The New York Times e do Daily Mail.



sexta-feira, 6 de março de 2015

Quando a Arábia era cristã


Matéria publicada no Gaudium Press:

Arqueólogos descrevem presença cristã na Arábia no século V

Beirute - Arábia Saudita (Quinta-feira, 29-01-2015, Gaudium Press) Recentemente, uma descoberta feita por arqueólogos franco-sauditas revelou a presença de uma comunidade cristã viva e atuante no deserto saudita no século V.

Orientados pelo Professor Frédéric Imbert, da Universidade de Aix-Marseille, na França, os pesquisadores acabaram descobrindo centenas de cruzes que haviam sido esculpidas em rochas, e até mesmo nomes de cristãos e bíblicos, mais precisamente mártires mortos durante as perseguições que assolavam a região na época.

De acordo com informações da agência de notícias francesa "Orient-Le Jour", a descoberta nas paredes de rocha de Jabal Kawkab (a montanha da estrela), no Emirado de Najran, situado no sul da Arábia Saudita, foi apresentada pelo Professor Imbert em conferência realizada na Universidade Americana de Beirute.

De acordo com Imbert, as cruzes e as inscrições são consideradas "o mais antigo livro dos Árabes", tendo sido escrito "nas pedras do deserto", uma "página da história dos Árabes e do cristianismo".

Conforme o professor, "as cruzes não são as únicas conhecidas na Arábia do Sul e do Leste, mas, sem dúvida, são as mais antigas cruzes cristãs em um contexto que remontamos o ano 470 da nossa era", junto com diversos textos encontrados, feitos ainda no período do Reino himairita de Shurihbil Yakkuf, governante da Arábia do Sul de 470 a 475.

Durante o governo de Shurihbil, tiveram início as perseguições cristãs no local, sendo mortos Marta e Rabi, ambos inscritos na lista dos martírios de Najran, no chamado "Livro dos Himairiti".

Propagado no século IV, o cristianismo na Arábia "difundiu-se na região do Golfo, nas regiões costeiras do Iêmen e de Najran", graças aos missionários persas do Império Sassânida e aos missionários siríacos. Naquele tempo, dois bispos consagrados em 485 e 519, pertenciam à comunidade siríaca, provavelmente oriundos do Iraque. (LMI)



segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Arábia Saudita proíbe casamento com estrangeiras

Matéria da BBC Brasil que vai pra gaveta das notícias esquisitonas:

Arábia Saudita proíbe casamento com estrangeiras de quatro países

O governo da Arábia Saudita ampliou as restrições ao casamento de seus cidadãos com estrangeiras, incluindo uma proibição expressa ao matrimônio com mulheres de quatro países.

Os homens sauditas estão proibidos de se casarem com mulheres nascidas no Paquistão, Bangladesh, Chade e Myanmar e que estejam vivendo na Arábia Saudita. Segundo estatísticas não oficiais, 500 mil mulheres desses países vivem hoje na Arábia Saudita.

A Arábia Saudita possui um dos maiores contingentes de mão de obra estrangeira entre os países do Golfo. São 9 milhões de pessoas – ou 30% da população. A nova medida gerou polêmica em jornais e revistas do Golfo e do Paquistão. Leitores do jornal paquistanês Pakistani Dawn acusaram a Arábia Saudita de racismo.

Já o diário saudita Saudi Gazette questionou o fato de que o novo decreto afetar apenas mulheres desses quatro países.

Divórcio e poligamia

Pelas novas regras, os noivos que quiserem se casar com estrangeiras têm de encaminhar à polícia o documento de identidade original junto com a proposta de casamento assinada pelo prefeito da cidade onde moram. A papelada será então remetida ao governo para apreciação, explicou o chefe de polícia de Mecca, Assaf Al-Qurshi.

Os solicitantes precisam ter idade superior a 25 anos. Caso tenham se divorciado, terão que esperar seis meses antes de um novo casamento, informou o jornal Makkah.

Para homens casados, o requerente "deve incluir um relatório de um hospital federal atestando que sua esposa está sofrendo de uma doença crônica ou é estéril".

Enquanto isso, homens casados com mulheres saudáveis precisam provar que suas esposas autorizam o segundo matrimônio. A Arábia Saudita permite a poligamia - um homem pode ter várias esposas.



segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Adeus a Peter O'Toole, o Lawrence da Arábia do cinema

Para tristeza de todos os fãs da sétima arte, morreu no dia 14/12/13 o grande ator irlandês Peter O'Toole, aos 81 anos de idade.

Ainda que relativamente desconhecido para os jovens apreciadores do cinema, felizmente, não passou despercebido o seu falecimento.

Homenagens mais que merecidas foram feitas ao redor do mundo.

Alguns críticos de cinema e cinéfilos dizem que - curiosamente - o "grande pecado" de O'Toole foi ter começado por cima.

Tendo iniciado sua carreira na telona em 1960, já em 1962, aos 30 anos de idade, emplacou o papel-título pelo qual ficaria eternamente conhecido: Lawrence da Arábia.

Com apenas dois anos de filmografia, portanto, Peter O'Toole já havia alcançado o ápice a que um ator com sua fleuma e seu gabarito poderia almejar.

A partir daí, suas atuações em tantos outros filmes como "O Homem de La Mancha" (1972), "Calígula" (1979), "O Último Imperador" (1987) e "Troia" (2004), ou a brilhante e esquecida obra televisiva "O Caçador" ("Rogue Male", 1977), se tornaram meras notas de rodapé à sua inesquecível encarnação de "Lawrence da Arábia", dirigido por David Lean e inspirado no vulto histórico T. E. Lawrence, personagem real de uma das grandes aventuras da época da Primeira Guerra Mundial.

O que pouca gente sabe é que tanto Peter O'Toole como T. E. Lawrence, a quem ele deu vida no cinema a ponto se ser confundido com o personagem, tinham profundas raízes cristãs, que, cada um a seu modo e tempo, foram sendo diluídas durante suas trajetórias no planeta.

De origem galesa, T. E. Lawrence (1888-1935), que passou para a posteridade como o "Lawrence da Arábia", foi uma das mais emblemáticas figuras que emergiram do primeiro conflito que envolveu o mundo todo, de 1914 a 1918.

Numa época em que o colonialismo europeu iniciava sua decadência e aquela certa dose de, digamos, "cavalheirismo" medieval cedia vez à barbárie da (ainda incipiente) tecnologia moderna de guerra, T. E. Lawrence viajou em 1911 à Arábia, então pertencente ao Império Otomano (hoje Turquia), como assistente nas escavações arqueológicas promovidas pelo Museu Britânico.

Ainda que seu trabalho no Oriente Médio tenha se concentrado nas ruínas dos hititas e das Cruzadas, seu esforço científico lançou as bases da moderna arqueologia bíblica naquelas terras.

As profundas raízes cristãs de sua família - enfronhada em Oxford - fizeram com que Lawrence, desde a mais tenra idade, se interessasse pelos relatos bíblicos, e já em 1909 a sua correspondência enviada à Grã-Bretanha dava conta de que ele havia visitado e esquadrinhado 36 castelos e fortalezas (a maioria em ruínas) na região da Síria, Líbano e Palestina.

Com o estouro da Primeira Grande Guerra, em 1914, Lawrence, então na Inglaterra, é chamado de volta pelo exército britânico para trabalhar no Oriente Médio, que ele conhecia tão bem.

Seus laços com a comunidade nativa árabe, cultivados durante suas viagens nômades e seu trabalho arqueológico, fizeram com que Lawrence, insuflado pelos britânicos, os estimulasse a lutar contra o imperialismo otomano, que, aliado à Alemanha, era o inimigo comum de ambos os povos naquela zona conflagrada.

Antes de T. E. Lawrence morrer por
traumatismo craniano decorrente de um
acidente de motocicleta, ninguém pensava
em usar esse tal "capacete".
Depois de ajudar a consolidar a independência dos países árabes em relação à nascente Turquia, embora colocando-os sob a esfera britânica, Lawrence voltou para a Inglaterra, onde levou uma vida relativamente pacata até morrer num acidente de motocicleta em 19 de maio de 1935.

Curiosamente, outra de suas contribuições para a humanidade, ainda que involuntária, é que somente depois de sua morte o governo britânico investiu na cultura do capacete para motociclistas, o que veio a salvar milhões de vidas no mundo todo a partir de então.

Peter O'Toole, por seu lado, foi criado como católico na anglicana Leeds, tendo inclusive estudado num colégio de freiras durante os bombardeios nazistas da Segunda Guerra Mundial, embora tenha abandonado a fé a partir de sua adolescência.

Além de "Lawrence da Arábia", foi indicado 8 vezes ao Oscar da Academia de Hollywood, sendo sempre preterido até que finalmente, cônscios de seu erro, lhe outorgaram um Oscar honorário pelo conjunto de sua obra em 2003.

Entretanto, o já consagrado ator não conseguiu deixar a lembrança de Jesus para trás. Mais tarde, confessou: "Ninguém consegue tirar Jesus de mim... não há qualquer dúvida que ele foi uma figura histórica de tremenda importância, com enormes ensinamentos. Como a paz, por exemplo".

Não se sabe a extensão exata da fé de O'Toole e Lawrence, mas a feliz congruência desses dois grandes homens num personagem cinematográfico da maior relevância neste mundo moderno tão contraditório e ansioso por símbolos de fé e de coragem, faz com que a gente agradeça o privilégio de  ter conhecido as suas histórias de vida.

Peter O'Toole no papel-título de "Lawrence da Arábia" (1962)

Foto autografada de Peter O'Toole no papel de um dos três
anjos que visitam Abraão no épico "A Bíblia" (1966)



domingo, 15 de dezembro de 2013

Quando a mitologia grega se exilou na Arábia


Artigo interessante publicado no Guia do Estudante - Aventuras na História:

Arábia, o refúgio dos deuses gregos

Antes da ascensão do islamismo, credos politeístas encontraram na Península Arábica um local para continuar existindo, preservadas das grandes religiões que acreditavam em um deus único, como o cristianismo triunfante

Texto Álvaro Oppermann | Ilustração acima: Daniel Rosini |

Por volta do século 5, os habitantes da região do Mediterrâneo tinham se convertido ao cristianismo. O panteão de deuses da Grécia e de Roma era só lembrança do passado. E, pelo jeito, os velhos deuses estavam mesmo na hora de se aposentar. O historiador Plutarco, sacerdote do templo de Delfos, lamentava-se, no século 2, que Apolo se calara: não respondia mais às consultas oraculares feitas por ele. Até os cultos de deuses "importados", como o da egípcia Ísis e do persa Mitra, estavam em baixa. Em 394, um pequeno grupo de devotos de Ísis fez a última procissão em homenagem à deusa pelas ruas de Roma.

As religiões pagãs tinham sido varridas do mapa? Não. No século V, na Península Arábica, os deuses greco-romanos sobreviviam. Em Failaka (no atual Kuwait), festivais populares eram organizados em devoção ao deus Poseidon (o Netuno dos romanos) e à deusa Artemis (Diana). A deusa Minerva (Al-Lat) tinha adoradores na Arábia, na Síria e na Palestina. "Até o século 4, quase todos os habitantes da Arábia eram politeístas", diz o professor de Oxford Robert G. Hoyland, autor de Arabia and the Arabs - From the Bronze Age to the Coming of Islam ("Arábia e os Árabes - Da Era do Bronze à Vinda do Islã"). "Al-`Uzza (Afrodite) era cultuada no Sinai e na Arábia", diz James E. Montgomery, professor de História Árabe da Universidade de Cambridge, autor de Arabic Theology, Arabic Philosophy: From the Many to the One ("Teologia Árabe, Filosofia Árabe: do Múltiplo ao Uno").

Como aconteceu essa assimilação? Bem, não foi só da Grécia e de Roma que os árabes pegaram deuses emprestados. "Hoje se acredita que as divindades árabes eram formas locais, adaptadas, das divindades do mundo antigo do Mediterrâneo", registrou Timothy Winter, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, no ciclo de palestras A Crash Course in Islamic History (Breve Curso de História Islâmica). Os árabes assimilaram os deuses dos povos vizinhos, adaptando-os à sua religião. A deusa Al-Lat, como vimos, era Minerva (nome romano da grega Atena) sob disfarce, mas nem tão disfarçada assim: em Cartago, a mesma deusa usava o nome de Allatu. "Muitas das divindades da Antiguidade ocidental poderiam ser facilmente intercambiáveis", diz a historiadora Mary Beard, autora de Religions of Rome ("Religiões de Roma"). No século 5 a.C., isso já tinha despertado a atenção de Heródoto. Em seu périplo por terras árabes, o historiador observou um pacto entre dois chefes tribais feito em nome de Dionísio (o Baco romano). "Os árabes chamam Dionísio de Orotal", escreveu Heródoto nas Histórias (430 a.C.).

Um caso ilustrativo é fornecido pelas observações do general romano Aelius Gallus. Em 26 a.C. ele foi enviado ao sul da Arábia para costurar acordos comerciais com os reinos da região (chamada de Arabia Felix, "feliz"). Os romanos cobiçavam o incenso e as especiarias. Gallus, em seu diário, não deixou de notar a semelhança entre os deuses locais e o panteão romano. "O nosso Júpiter aqui é Dhu'Shara", espantou-se.

Ídolos na caaba

O panteão árabe era bem pobre em termos de causos mitológicos. A origem da religião, ou religiões, da Arábia pré-islâmica está envolta em um manto de obscuridade. "Nós praticamente não possuímos informações sobre os mitos e narrativas que decodificariam a religião da Arábia pré-islâmica", diz Hoyland. "Muitos autores greco-romanos escreveram tratados sobre a Arábia e as coisas dos árabes, mas infelizmente eles foram perdidos, ou deles só sobraram fragmentos." Os dados completos disponíveis são provenientes da historiografia islâmica, posterior. Tal como os primeiros autores cristãos (Eusébio de Cesareia, Santo Agostinho, Tertuliano), os muçulmanos viram o passado pagão - romano ou árabe - sob o prisma da religião nascente. Reza a lenda (exposta no Livro do Gênesis, na Bíblia), que os árabes descenderiam de Ismael, o filho de Abraão com a concubina Hagar, a serva egípcia de sua esposa, Sara. Quando Sara deu à luz Isaac, obrigou o marido a expulsar a serva e o primogênito. Hagar e o menino erraram pelo deserto, até chegarem ao árido vale de Meca, onde se estabeleceram.

A religião original da Arábia seria estritamente monoteísta, baseada na crença no Deus Uno, ensinada por Abraão a Ismael. Segundo a história islâmica, a Caaba - "A Casa de Deus", prédio de forma cúbica no coração de Meca - teria sido construída por Abraão e Ismael. Na obra O Livro dos Ídolos, do século 9, que trata do politeísmo árabe, é dito que o primeiro descendente de Ismael a adulterar a religião de Abraão foi um certo Al-Harith, guardião da Caaba. Ele retornou a Meca com um ídolo de pedra e pediu sua intercessão junto a Deus. Com o tempo, a presença de Deus tornou-se tênue no imaginário local, e os ídolos, que antes serviam de ponte entre os homens e Deus, usurparam a posição divina. Viraram deuses, no plural. No século 3, segundo Al-Azraqi, autor das Crônicas da Meca Gloriosa, 400 ídolos de pedra haviam sido erigidos ao redor da Caaba, homenagem aos mais diversos deuses da Arábia e dos povos vizinhos. Essa é a versão dos historiadores muçulmanos, que enfatizaram, em suas narrativas, um monoteísmo mítico em Meca. Os vestígios arqueológicos, no resto da Arábia, apontam à anterioridade das religiões politeístas na região.

Ascensão do Islã

Graças à Caaba, Meca teve, antes do Islã, importância na vida religiosa árabe. Era uma espécie de Aparecida, que atraía romeiros à cidade. Os líderes de Meca davam boas-vindas a todas as divindades e religiões. A cidade funcionava como uma espécie de ONU multicultural do paganismo antigo. Cada tribo tinha o seu próprio santuário ali. Ao contrário da imponente estatuária romana, os ídolos árabes eram bem modestos. A estátua de Al-Lat em seu templo oficial, em Ta'if, era fruto da reforma de uma panela de pedra, utilizada por um judeu para cozinhar mingau. "Muitas vezes, os ídolos eram somente uma pedra polida", diz Ibn Al-Kalbi.

A vida religiosa não estava restrita a Meca. Cada cidade tinha seu deus. Em Hegra, no norte, os habitantes diziam-se "filhos de Manat", que os gregos chamavam de Tyché - a Fortuna dos romanos. Em Mleiha, nos atuais Emirados Árabes, o deus popular era Kahl. Em Palmira, na Síria, o culto era à deusa Bel. Os templos religiosos pré-islâmicos não diferiam, em sua arquitetura simples, da casa de um árabe afluente da época, em cuja sala de estar erigia-se um pequeno altar dedicado ao deus, ou deuses, da predileção do proprietário. Leite, vinho, cereais, carne de camelo e de ovelha eram depositados diante do altar. Junto à Caaba, em Meca, costumava-se sacrificar camelos. "Os árabes possuíam deidades auxiliares, chamadas mundhat, que cuidavam da proteção dos vilarejos, das casas e até das pessoas individualmente", diz Hoyland. Esses entes sobrenaturais não seriam muito diferentes do que hoje se chamam "anjos".

Na época do surgimento do Islã, no século 7, há indícios de declínio econômico na Península Arábica. O comércio de incenso, vindo do Iêmen, sofreu um baque com a concorrência marítima dos romanos, pelo Mar Vermelho, estabelecida após a missão do general Gallus (que foi na verdade uma rasteira nos mercadores árabes). Um segundo golpe, ainda mais duro, foi sentido com a ascensão do cristianismo, que praticamente aboliu, no Mediterrâneo, o uso religioso do produto, associado ao paganismo. Na época de Mao-mé, o sul da Arábia era uma pálida imagem do passado. Meca tinha uma economia pequena.

O advento do Islã representou o fim do paganismo. Na história do apostolado de Maomé (por volta de 609 a 632 d.C.), os senhores políticos de Meca tentaram dissuadi-lo de sua missão religiosa. Em 622, em reunião na Câmara do Conselho da cidade, chefes de diversos clãs decidiram assassiná-lo. Para sacramentar a decisão, fizeram um banquete, sacrificando animais num altar a Al-`Uzza. O atentado falhou, motivando a Hégira, o êxodo de Maomé a Medina, que marca o início do calendário islâmico.

Em 630, o exército comandado pelo Profeta conquistou Meca. Os ídolos em volta da Caaba foram queimados. Maomé enviou missões militares para demolir os principais templos da península, como o de Al-`Uzza em Nakhla. Lá, o general Khalid bin Walid, um brilhante estrategista militar, conhecido como a "Espada do Islã", não se contentou em destruir o templo. Segundo Waqidi, cronista das campanhas militares dos primórdios do Islã, Khalid viu surgir dos escombros uma mulher nua. Os fios da sua cabeleira, de tão longos, iam quase até o chão. Ela fitou o general, impávida, imóvel, majestosa. Khalid diz ter sentido um calafrio à sua visão. Era a sacerdotisa de Al-`Uzza. "Nós negamos a ti, e não à veneração!", gritou ele. A cavalo, avançou em disparada contra ela, sacou a espada e a decapitou. Era o fim dramático da última representante de Afrodite na Arábia. Nem os deuses duram para sempre.


Divino trio

Na história da Arábia pré-islâmica, três deusas estiveram no centro da devoção popular: Manat, Al-Lat e Al-`Uzza. Segundo o antigo historiador Ibn Al-Kalbi, elas seriam as divindades mais antigas da região. Manat representava a sábia anciã, e seria uma adaptação da deusa grega Tyché (Fortuna para os romanos). Al-Lat, figura materna, uma versão local de Atena (Minerva em Roma). E Al-`Uzza, a adolescente, um sincretismo com a deusa Afrodite (Vênus).

Depois da Caaba, os templos de Al-`Uzza, no Vale de Nakhla (um dia de viagem de camelo ao sul de Meca), e de Al-Lat, em Ta'if, eram os mais visitados. Ta'if, cercada por muralhas, era localizada numa região verdejante e de clima ameno do Hijaz, região centro-oeste da Arábia, próxima ao Mar Vermelho. A cidade era conhecida como "Jardim do Hijaz", e a deusa, a "Dama de Ta'if". (Os árabes gostavam de uma alcunha; esta, aliás, uma palavra de origem árabe: Al-qunya).

Os pastores e camponeses da Arábia faziam preces a Al-Lat para aumentar a fertilidade dos rebanhos. Manat era a deusa da morte e do destino. Isso pode soar funesto, mas tinha um lado positivo: quando uma mudança surpreendente acontecia na vida de um árabe - o paciente desenganado que se recuperava de uma doença grave, ou o pobre que ficava rico por um golpe de sorte -, fazia-se uma oferenda a Manat, a senhora da roda da fortuna. Na Nabateia, os fraudadores de escrituras de tumbas funerárias (comércio escuso que, pelos registros, devia ser bem ativo) tinham de pagar multa - mil moedas de prata - ao templo de Manat em Petra, ao serem descobertos. O culto árabe mais fervoroso era o dedicado a Al-`Uzza, segundo testemunho de autores cristãos que pregaram na região. "Os sarracenos adoram a deusa Vênus e a associam à estrela da manhã", escreveu Santo Hilário, no século 4. ("Sarraceno", de acordo com uma etimologia, seria "aquele expulso por Sara": os árabes eram tidos como descendentes de Ismael, filho de Abraão com a serva egípcia Hagar). Em Meca, a poderosa tribo dos Quraish, principais oponentes de Maomé e do Islã, dizia-se "filha de Hubal e Al-`Uzza".

Deuses e monstros

Os deuses e criaturas sobrenaturais do panteão árabe

Dhu'Shara, o leão alado

Categoria: divindade

Também chamado de Dusares, foi cultuado na Arábia e na Nabateia (atual Síria). Era o "Senhor de Petra", uma grande cidade de estilo romano, com ágora, banhos públicos e avenidas em colunata. Era identificado com Júpiter. Mas, ao que se saiba, não lançava raios. Seu poder mágico era o de se transformar em leão alado. Dhu'Shara era casado com Al-`Uzza (Vênus), virgem adolescente na mitologia árabe.

Nakruh, o senhor da destruição

Categoria: divindade

"Deus da Morte", "Deus do Ódio", "Senhor da Destruição", "Vingador Implacável". Não, não são filmes antigos com Clint Eastwood, e sim algumas das alcunhas do deus árabe. Ele foi muitas vezes associado ao Saturno romano (e ao Cronos grego). Enfezado, tentou assassinar o próprio irmão, Wadd. Mas Nakruh tinha um lado bom e justo. Era o protetor das mulheres grávidas.

Ghila, a maligna

Categoria: animal fantástico

A criatura teria surgido por causa de uma maldição de Dhu'Shara. Certa vez, um grupo de demônios femininos foi à mansão celeste para bisbilhotar. Como punição, foram arremessadas para a Terra. Algumas caíram nos rios, e viraram a fêmea do crocodilo. Outras, cuja parada foi o deserto, viraram ghilas.

Hubal, o deus da Lua

Categoria: divindade

Deus da Lua, na religião de Moab, na atual Síria, foi adotado na Arábia, tornando-se uma de suas principais divindades. O seu primeiro vestígio na região - descoberto nos anos 1990 - é o de um altar e incensórios em Muweilah, nos Emirados Árabes, cuja data aproximada é de 800 a 700 a.C. Não há correspondência entre ele e os deuses greco-romanos. Segundo uma etimologia possível, seria uma corruptela de "Baal", deus semita.

Al-Qaum, o deus da guerra e das caravanas

Categoria: divindade

Quando os mercadores árabes voltavam sãos e salvos de uma longa viagem, faziam oferendas ao deus. Conhecido como divindade da guerra, Al-Qaum era igualmente o protetor das caravanas. Também foi chamado de "Deus da Noite": os nabateus, que, assim como os árabes, o adoraram, transportavam cargas valiosas à noite, para não serem roubados. Faziam então uma reza ao deus.

Serpentes aladas

Categoria: animal fantástico

A melhor descrição sobre estas criaturinhas peçonhentas voadoras foi de Heródoto, que ficou conhecendo sobre elas em suas andanças pela Arábia, no século V a.C. Estes ofídios com asas gostavam de fazer voos migratórios sazonais ao Egito. Mas lá eram repelidos pela íbis, ave que lembra a cegonha.

Orotal, o boa-praça

Categoria: divindade

O Baco da Arábia. Assim como o deus romano, era chegado a um vinho. Aliás, na Arábia pré-islâmica, o costume de beber era arraigado. "O vinho era tido como um dos melhores presentes que a fortuna poderia agraciar ao árabe da era pré-islâmica", diz Toshihiko Izutsu, professor da Universidade de Keio, no Japão. Orotal foi popular na parte norte da Arábia. Não há referência arqueológica a ele no sul da península.

Al-Khutby, o sábio

Categoria: divindade

O deus mais afeito ao conhecimento era Al-Khutby. Foi o deus da sabedoria, protetor dos estudiosos e escribas. Sua representação iconográfica era bem simples, um mero pilar. Na Arábia, sofreu sincretismo com o deus romano Mercúrio (Hermes na Grécia). Tinha asas nos pés, com o poder de percorrer grandes distâncias em pouco tempo. Nas tempestades, "surfava" pelas nuvens, conduzido pelos relâmpagos.

Gênios do bem e do mal

Categoria: ser sutil

Os djinns (traduzidos por "gênios" em línguas ocidentais) eram criaturas feitas de ar, fumaça e fogo. "Um tipo particular de gênio era o qarîn, o 'djinn acompanhante'." Quando uma pessoa nascia, um qarîn nascia ao mesmo tempo. Os dois viveriam juntos e morreriam no mesmo dia. O gênio seria uma alma gêmea do ser humano.

Linha do tempo

2 500 a.C. a 1 750 a.C.

Escavações dão indícios de que, na fronteira da Arábia com a Mesopotâmia, vivia-se um período de prosperidade.

715 a.C.

Primeira referência pictórica à religião do Reino de Sabá: uma inscrição no templo do deus Almaqah. Os sabeus cultuavam essa divindade central.

430 a.C.

Relato de Heródoto sobre os árabes, na obra Histórias. Faz referência aos deuses árabes Orotal e Al-Lat.

50

Em Petra, cidade cosmopolita no norte da Arábia, há registros do culto à deusa Bel e à deusa egípcia Ísis.

219

O autor Al-Azraqi escreve a obra Crônicas da Meca Gloriosa. Retrato do culto politeísta em Meca. Na cidade, 400 estátuas de divindades foram erigidas em volta da Caaba.

609

Início da história do Islã, com a revelação dos primeiros versículos do Alcorão ao profeta Maomé.

622

Perseguição e tentativa de assassinato a Maomé leva à fuga do Profeta para Medina, a Hégira.

624 v A Batalha de Badr marca o primeiro conflito armado entre os clãs politeístas de Meca e os adeptos do Islã.

630

Conquista de Meca pelo exército de Maomé. Destruição dos ídolos das divindades da religião politeísta árabe.

632

Morte de Maomé.

632 - 634

Repressão à idolatria pelo primeiro califa, Abu Bakr. Com a morte do Profeta, a região do Najd, no centro da Arábia, abandonou as práticas islâmicas e voltou à antiga religião.

Saiba mais

Livro

Arabia and the Arabs - From the Bronze Age to the Coming of Islam, Robert G. Hoyland, Routledge, 2001

Internet

O Livro dos Ídolos, de Ibn Al-Kalbi (em inglês)



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