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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

As mulheres de Stalingrado, 75 anos depois

Lydia Litvyak, a "Rosa Branca de Stalingrado"

Cinco anos atrás, comentamos longamente sobre a importância da batalha de Stalingrado nos destinos da Segunda Guerra Mundial e da humanidade como um todo, e convidamos você a reler esse artigo clicando aqui.

Amanhã, 2 de fevereiro de 2018, o planeta relembra os 75 anos do desfecho daquela batalha, que influenciou decisivamente na derrota alemã, para desespero de Hitler e seu delírio nazista, o que nos reacende a esperança de que o mal nunca tem a palavra final.

Nunca conseguiremos agradecer e valorizar o suficiente esse sacrifício de mais de 1 milhão de soldados e civis que deram sua vida nessa luta, mas - em homenagem a eles - republicamos aqui artigo do El País que celebra especialmente as mulheres que mostraram a sua força em meio a tanta morte e insanidade:

75 anos de Stalingrado: o decisivo papel das mulheres na maior batalha da Segunda Guerra Mundial

Com todos os homens no Exército, trabalhavam nas fábricas, dirigiam tratores e criavam os filhos.
Também tiveram de assumir todas as funções militares conforme o país perdia seus soldados

Lyuba Vinogradova 

Passaram-se 75 anos do final daquela que foi certamente a maior batalha da Segunda Guerra Mundial, 75 anos desde o momento em que os russos, seus aliados e milhões de pessoas de todo o mundo deram um suspiro de alívio coletivo. Todos vinham acompanhando as informações de Stalingrado com angústia e de forma compulsiva, haviam perdido o ânimo quando parecia que o destino da cidade pendia de um fio, e se alegraram quando chegavam boas notícias. O aterrador e imparável avanço dos Exércitos de Hitler por toda a Europa desde 1939 se deteve. O preço foi a destruição de uma bela cidade à beira do rio Volga.

A caminho da cidade sitiada, em agosto de 1942, o escritor Vasili Grossman, que mais tarde elogiaria a heroica luta pela defesa de Stalingrado, notou repetidamente e com grande tristeza o imenso ônus que recaía sobre as mulheres. Com todos os homens incorporados ao Exército, elas tinham que se virar como podiam. Trabalhavam nas fábricas, dirigiam tratores e criavam os filhos sozinhas. Não tinham ninguém em quem se apoiar. Eram cada vez mais convocadas para cobrir os buracos deixados pelas terríveis perdas do primeiro ano de guerra. Começaram a assumir funções outrora masculinas. A espantosa catástrofe lhes endureceu o coração.

“Hurra, hurra, hurra! Os alemães estão totalmente destruídos, os prisioneiros de guerra partem em longas filas. Dá nojo vê-los. Cheios de muco, esfarrapados, congelados. São a escória!”, escreveu uma jovem de Stalingrado em seu diário em 3 de fevereiro de 1943. Referia-se aos soldados e oficiais do Sexto Exército da Wehrmacht, que haviam se rendido na véspera. Cerca de 100.000 prisioneiros, dos quais só metade sobreviveu. Andavam em fila e tentavam se manter perto dos guardas ou no centro da coluna, para estarem mais ou menos a salvo dos civis. Os alemães capturados ofereciam uma imagem patética: mortos de fome, enregelados e doentes, envoltos em mantas para se aquecer. Os guardas, em vingança pelas atrocidades germânicas, davam um tiro nos que não tivessem força suficiente para andar. E as mulheres, os velhos e as crianças do lugar se postavam no acostamento da estrada para tentar arrancar suas mantas, atirar pedras, empurrá-los, chutá-los e cuspir na sua cara. Depois de meio ano de uma batalha que cobrou mais de um milhão de vidas de soldados e civis, não restava qualquer compaixão.

O objetivo da ofensiva alemã em Stalingrado era interromper as comunicações entre as regiões centrais da União Soviética e o Cáucaso e estabelecer uma cabeça de ponte a partir da qual invadir a região e suas jazidas petrolíferas. O ataque durou de meados de julho até meados de novembro de 1942, e sua interrupção ocorreu a um preço terrível para a URSS. Enquanto os soldados defendiam a cidade, os habitantes e centenas de milhares de refugiados vindos de outras regiões ficaram abandonados à própria sorte. Anna Aratskaya, que morava em Stalingrado, escreveu em 27 de setembro: “Nossa casa queimou, assim como a nossa roupa, que tínhamos enterrado no pátio. Não temos roupa nem sapatos, não temos um teto sob o qual nos refugiar. Quando este pesadelo terminará?”.

A cidade havia se tornado um "gigantesco campo de ruínas" pelos bombardeios maciços dos alemães, particularmente o de 23 de agosto. Haviam ficado em pé algumas casas com janelas quebradas, algumas paredes ou uma chaminé. Muitos soldados "que nunca mais se levantariam jaziam nos pátios e nas ruas, centenas deles, mesmo milhares, mas ninguém os contava. As pessoas vagavam entre as ruínas em busca de comida ou qualquer coisa que pudesse ser útil". Vasili Grossman comparou esta cidade espectral com Pompeia, mas com a diferença de que, em meio do caos, restaram almas vivas, centenas de milhares delas. Os civis também lutaram brutalmente em Stalingrado, não pelo seu país, mas pelas suas próprias vidas e pelas de seus filhos.

Sem teto, com as casas destruídas pelas bombas ou pelo fogo, não havia outro remédio a não ser tentar encontrar lugar em um barco para atravessar o rio Volga. Quantos morreram na costa esperando uma oportunidade de cruzá-lo, quantos se afogaram no rio quando suas embarcações foram atingidas por um projétil? Outros preferiram nem tentar. Tornou-se comum viver em buracos escavados na parede de um barranco. Muitos fizeram isso na costa íngreme do Volga, onde testemunharam cenas assustadoras na água. À medida em que avançavam os alemães, até quase chegarem ao rio, as pessoas também tiveram que abandonar esses buracos. Como sobreviveram durante os meses que a batalha durou? Muitos morreram pelas balas de franco-atiradores alemães enquanto tentavam encontrar cereais queimados nos locais destruídos. Outros arriscaram suas vidas para roubá-los do Molino Gerhardt, protegido por soldados soviéticos. "Quando acabou o cereal, comemos lama", lembrou um sobrevivente.

Talvez o próprio Stalin, ou algum de seus colaboradores, ordenou que fosse proibida a evacuação de civis? Realmente existiu essa ordem ou, como em tantos outros lugares, simplesmente não havia recursos suficientes para evacuar a população porque o rápido avanço dos alemães pegou-os de surpresa? Dizem que havia, sim, uma ordem implícita de Stalin para manter os civis na cidade para que os soldados, muitos dos quais eram locais, lutassem com mais paixão para proteger suas famílias.

Mulheres lutando no Exército Vermelho

A verdade é que muitos soldados haviam sido recrutados na cidade e nos seus arredores pouco antes da batalha ou mesmo assim que ela começou. À medida que os combates se desenvolviam, muitos adolescentes passaram a trabalhar nas fábricas militares e se incorporaram de forma oficial ou extraoficial ao Exército. Entre eles, havia muitas garotas. Embora ainda não tivessem idade para se alistarem, queriam contribuir com a batalha e acelerar o fim do pesadelo. Além disso, o Exército oferecia alguma esperança de melhor alimentação para civis mortos de fome.

Durante algumas semanas, Alexandra Mashkova viu como, toda madrugada às quatro da manhã, jovens recrutas subiam a ladeira até o Volga, atravessavam o barranco em que suas famílias haviam escavado suas casas e desapareciam em direção a Mamáyev Kurgán, uma colina que domina Stalingrado. Pareciam-lhe assustados e muito jovens; na verdade, haviam nascido em 1924 e tinham quase a mesma idade que ela. A maioria nunca voltou, mas alguns foram vistos mais tarde, feridos, voltando a pé ou se arrastando. Pouco a pouco, as adolescentes começaram a ajudar esses soldados machucados, tapando suas feridas ou carregando-os em macas improvisadas até o rio. Alexandra, que tinha 17 anos, juntou-se ao departamento médico de uma unidade militar e cruzou para o outro lado do Volga. Aprendeu com rapidez e brevemente estava pronta para ajudar o cirurgião. No começo, tinha muito medo quando precisava segurar um soldado durante a operação "enquanto lhe amputavam a perna ou abriam o seu braço até o osso", mas "você se acostuma a tudo". Muito rapidamente, as jovens enfermeiras comiam, sem se preocupar, na própria sala de operações improvisada. "Tínhamos pedaços de pão no bolso, então limpávamos as mãos de sangue na roupa branca, pegávamos o pão e o colocávamos na boca".

A motorista Angelina Kolobushhenko pensou que havia enganado a morte quando a febre tifoide a afastou do 1077º Regimento Antiaéreo, formado quase exclusivamente por mulheres, a maioria adolescentes. Depois de disparar contra os aviões que bombardeavam Stalingrado, as jovens deviam mirar os canhões contra os carros de combate que haviam conseguido chegar à fábrica de tratores da cidade. Quase todas morreram, inclusive as encarregadas pelos telefones, as cozinheiras e as enfermeiras. Poucas sobreviveram.

Quando se curou, Angelina foi enviada para outro regimento antiaéreo. Tinha aparência frágil depois da doença, feia e esquelética. As outras garotas a desprezavam e se negaram a dormir na mesma vala que ela. Diziam que podia contagiá-las. No entanto, duas semanas depois, estava totalmente recuperada, recebeu um novo uniforme e, como não havia nenhum veículo disponível para ela, começou a treinar para manejar as armas propriamente ditas. Sentiu-se muito orgulhosa quando a sua unidade, a 5ª Bateria, derrubou um avião alemão. As jovens correram para a planície para buscar a tripulação da aeronave, encontraram-nos e os prenderam. Os três alemães eram muito jovens, um alto e de rosto arrogante e outro menor e mais agradável, mas Angelina lembrou especialmente do terceiro, que tinha queimaduras terríveis e dores insuportáveis quando foi encontrado. Nunca esqueceu seus grandes olhos azuis, cheios de sofrimento.

As motoristas do frente, toda hora andando para cima e para baixo, viam e ouviam muitas coisas. Em novembro, começou a parecer que a situação estava mudando. Havia cada vez mais prisioneiros alemães, e Angelina sentia pena tanto deles quanto dos que viu morrer de frio. Ela e suas camaradas tinham botas novas de feltro e casacos de pele de cordeiro. Sentiam pena dos prisioneiros alemães, com seus casacos finos e estranhos sapatos de palha por cima das botas, nem um pouco preparados para o bruto inverno russo. Quando foi anunciado que havia um grande grupo de soldados alemães cercados, Angelina entendeu que não sobreviveriam por muito tempo, com suas roupas de verão, quase sem comida, na cidade destruída ou na estepe, sem lugar para se refugiar, nem madeira para fazer fogo.

Duas contemporâneas de Angelina, as pilotos de combate Lidya Litvyak e Katya Budanova, voavam com seu regimento para impedir que os alemães arremessassem provisões para as tropas sitiadas. As duas haviam pilotado aviões esportivos e haviam sido instrutoras de voo antes da guerra, mas aprenderam mais em seus 10 meses de exército do que em toda a carreira anterior. Outro piloto lembra a reação do comandante do regimento quando chegaram quatro mulheres com suas tripulações. "Me dói ver uma mulher lutando na guerra. Me dói e me dá vergonha. Como é possível que nós, os homens, não tenhamos conseguido evitar que fizessem um trabalho tão pouco feminino?". As jovens tiveram que demonstrar suas habilidades e comprometimento. Klava Nechaeva, de 23 anos, morreu em sua primeira missão, depois de convencer seu chefe a deixá-la participar da batalha. As duas corajosas mulheres desafiaram a morte com várias missões no inferno de Stalingrado e sobreviveram àquele inverno, mas ambas caíram em agosto de 1943.

Quando a batalha de Stalingrado chegou ao fim, centenas de milhares de mulheres haviam se alistado ao Exército. O país havia perdido tantos homens que as autoridades não tiveram outra alternativa que não fosse utilizar mulheres em todas as funções militares. Não existem dados concretos sobre as mulheres que serviram, de modo que os cálculos variam muito, desde meio milhão a quase um milhão. O fronte se transferiu e as jovens que continuavam vivas e com boa saúde foram com ele. Muitas das mulheres que entrevistei continuaram lutando até o final da guerra e estiveram em Berlim para comemorar a vitória (muitos soldados estavam convencidos de que Berlim deveria ficar em ruínas como os alemães haviam deixado Stalingrado). Continuaram presenciando a morte e a dor e perdendo suas camaradas. Mas nunca voltaram a viver uma situação tão desesperadora quanto a de Stalingrado, nunca voltaram a sentir que estavam sendo esfaqueadas tão profundamente que poderiam perder a guerra.

Lyuba Vinogradova é autora de As Bruxas da Noite e Anjos Vingadores (ambos pela editora Passado e Presente). Os testemunhos citados neste artigo são de entrevistas realizadas pela própria autora e do projeto 'Iremember. Lembranças de veteranos da Segunda Guerra Mundial'. (www.iremember.ru).



segunda-feira, 15 de maio de 2017

Enfim uma ferramenta para comparar o tamanho real dos países

Projeção de Mercator: uma ideologia geográfica em desuso?

Manja o mapa-múndi?

Aquela projeção antiga, conhecida como Mercator, em que a parte norte parece muito maior do que o restante do planeta.

Por isso você repara que a Groenlândia é tão grande, mas tão grande que chega a sair voando pela parte de cima do mapa.

Rússia e Canadá, então, são gigantescos, mal cabem na representação geográfica. O próprio Alaska parece quase do mesmo tamanho do conjunto dos 48 Estados Unidos que formam a parte continental do país.

Hoje todo mundo sabe que não existe a possibilidade de fazer uma projeção fidedigna do mapa-múndi por uma questão muito simples: o planeta é redondo, e ao "transplantar" sua representação geográfica de 3D para 2D (do cilindro para o papel, por exemplo) é inevitável que informações importantes sejam perdidas.

O mapa-múndi, tal como o conhecemos, é criação do cartógrafo flamenco (de Flandres, hoje Bélgica) Gerhard Kramer, cujo nome foi transliterado para o latim como Gerardo Mercator, em 1569.

Por esta data, fica difícil acreditar que Mercator, já naquela época, tivesse a preocupação ideológica de criar um papa que privilegiasse os países colonizadores do Hemisfério Norte sobre os países colonizados do Hemisfério Sul, até porque as Américas eram ainda um vasto território essencialmente indígena e tampouco se havia descoberto a Austrália (cujo primeiro avistamento europeu teria se dado em 1606).

De qualquer forma, a projeção de Mercator se impôs pelo uso e pela praticidade, sobretudo na época das navegações com observação das estrelas, sextantes, mapas simples e compassos.

Para uma melhor compreensão do que dissemos acima, dê uma olhada no vídeo abaixo, intitulado "Por que todos os mapas-múndi estão errados", narrado em inglês, mas existe o recurso de legendas em português brasileiro:


Captou a mensagem?

Então...

Já que o problema é incontornável na prática, a internet agora provê uma ferramenta que vai nos ajudar a comparar o tamanho real dos países.

Trata-se do portal "The True Size" ("O Tamanho Verdadeiro"), que você pode acessar clicando aqui.

Inicialmente, você deleta os países que já estão assinalados lá clicando no botão direito do seu mouse.

Depois, você digita o nome do país que você quer comparar no campo "The True Size of..." e "arraste-o" para lá e para cá fazendo as comparações aleatórias que a sua imaginação sugerir.

Veja, por exemplo, a comparação dos tamanhos reais do Brasil e do Canadá:




E do Brasil com a Rússia:





Chega a ser divertido. E a gente aprende, o que é melhor.



sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

100 anos atrás morria Rasputin


Rasputin é um desses personagens da vida real, de carne e osso, cuja história parece ter sido inventada por alguém durante o uso de algum alucinógeno.

Já chegamos a comentar aqui no blog sobre a canção em ritmo discothèque que o grupo Boney M. lhe, digamos, "dedicou" em 1978 (clique aqui para acessar o divertido e musical artigo).

Só que cada detalhe sinistro ou bizarro de sua biografia (sobretudo as tentativas de matá-lo) é verdadeiro.

Santo ou demônio, o fato é que o fim do Império Russo centralizado na figura do czar e a Revolução Comunista de 1917 tiveram nele um dos mais importantes antecedentes.

A matéria abaixo é da Rádio Agência Nacional:

História Hoje: Conheça a história do monge russo Rasputin, morto há 100 anos

Há cem anos morria num vilarejo da Sibéria Grigori Iefimovich Novy, ou Grigori Rasputin, monge russo que se tornou personagem influente na corte de Nicolau Segundo e Alexandra Feodorovna.

Além da fama por seus poderes sobrenaturais, Rasputin tinha reputação de santo entre os camponeses e fama de devasso na corte.

Ainda pequeno chamava a atenção dos moradores do vilarejo em que vivia que acreditavam que ele tinha poderes hipnóticos e de cura.

Na adolescência, foi para o mosteiro de Verkhoture, nos Montes Urais, para se tornar monge, mas não completou os estudos, se casando aos 19 anos de idade. A fama de possuir poderes sobrenaturais se espalhou pelo império russo por volta de 1905, quando, já morando em São Petersburgo, foi procurado pelo czar Nicolau Segundo e sua esposa, a czarina Alexandra Feodorovna, que buscavam a cura de seu filho, Alexei, que sofria de hemofilia.

Envolvente e sedutor, Rasputin conseguiu tranquilizar o príncipe, diminuindo seus sangramentos e conquistou a confiança do casal. Por isso, durante anos passou a exercer o papel de conselheiro da czarina. Na corte, interferia na atuação da igreja e nos assuntos de estado, chegando a nomear e demitir ministros.

Rasputin conquistou a antipatia de grande parte da corte. Foi acusado de indecente. Ele afirmava que era capaz de livrar as mulheres de seus pecados e, dormindo com elas, ajudava a encontrar a graça divina. Por sua conduta, em 1914, sofreu seu primeiro atentando a faca e sobreviveu milagrosamente.

Aproveitando da fama de místico, previu que a Rússia cairia em desgraça durante a Primeira Guerra Mundial. Preocupado com a previsão, o czar abandonou a corte em 1915 para comandar pessoalmente o Exército. Rasputin e a czarina então passaram a governar a Rússia e foram responsáveis, em grande parte, pelo fracasso do imperador em contornar a onda de descontentamentos que antecederam à Revolução Russa.

Em 30 de dezembro de 1916, um grupo de nobres organizou uma cilada e Rasputin comeu uma refeição envenenada por cianureto, mas novamente não morreu. Foi então foi fuzilado, sendo atingido por um onze tiros, e escapou. Depois disso, foi castrado e atirado inconsciente no rio Neva.

Após o corpo resgatado, foi encontrada água nos pulmões, confirmando que ele ainda estava vivo ao ser jogado no rio parcialmente congelado.



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O dia em que a América acabou

Parece que ninguém - a não ser o próprio - esperava que Donald J. Trump vencesse as eleições americanas da última terça-feira, dia 8 de novembro de 2016, que entrou para a história como o dia em que a América acabou.

O candidato foi tratado por anos a fio como um bufão, uma espécie de bobo da corte que jamais teria chances de vitória diante da profusão de asneiras que insistia em pronunciar a cada minuto.

O establishment da política e da mídia nacionais e internacionais, reunidos em torno do hoje cadáver político de Hillary Clinton, se deliciaram com o ar canastrão, o jeito de falar de caricatura, enfim, a piada pronta chamada de Trump.

Só que os seus piores medos se tornaram realidade e Donald é hoje presidente eleito dos Estados Unidos, e não há mais nada a fazer senão aceitar o fato consumado.

Como se diz no popular, "aceita que dói menos"...

Afinal, se Donald Trump cumprir tudo o que prometeu na campanha eleitoral, da construção da muralha da fronteira com o México até o banimento de latinos e muçulmanos do território dos EUA, pouco restará a fazer senão esvair-se em lágrimas, coisa que já estão fazendo pessoas enquadradas nessa situação.

Curioso, entretanto, é ver evangélicos fundamentalistas norte-americanos e líderes russos comemorando juntos, irmanados, a eleição de Trump para a presidência dos Estados Unidos.

Sim, amigos, evangélicos e "comunistas" juntos festejando a vitória política de alguém no continente americano. 

Isto pode, sim, mas só fora do Brasil, já que aqui continuarão imperando as falácias, a ignorância e a mediocridade sem fim.

Resta saber se o mundo vai nos acompanhar nesta jornada de bonde (ou tanque) sem freio em direção ao caos total.



sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Já estão tocando as trombetas da Terceira Guerra Mundial


Eita mundinho esquisito esse planeta que nos tocou habitar... guerras devem dar muito dinheiro, só assim se explica a voracidade mórbida para fabricar um conflito qualquer.

A matéria foi publicada em 13/10/16 pela estatal portuguesa RTP, com grafia lusitana:

Guerra (mundial) iminente?

Rui Sá, Daniel Catalão - RTP

Rússia e Estados Unidos estão em rota de colisão militar e não é apenas na Síria.

Há movimentações de misseis balísticos nucleares em vários pontos da Europa e da região da ásia-pacifico.

Em São Petersburgo, por exemplo, raciona-se já o pão à espera do eclodir da terceira guerra mundial, enquanto em Moscovo se preparam os abrigos nucleares.

Felipe Pathé Duarte, porta-voz do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, lembra que há em tudo isto uma componente de retórica discursiva muito importante mas diz que "há de facto movimentações preocupantes que não podem ser tomadas de ânimo leve" porque não são apenas palavras.

"Putin procura endurecer palavras e gestos simbólicos como forma de ganhar um lugar de destaque à mesa da diplomacia internacional", concluí o comentador do Jornal 2.

O presidente russo ordenou o regresso à pátria de todos os oficiais das forças armadas que estão no estrangeiro.

Fala em guerra iminente. Em Moscovo preparam-se abrigos antinucleares.

Imprensa próxima do Kremlin aponta para a Síria, olha os Estados Unidos e diz - "A terceira guerra mundial já começou".

No terreno é no entanto Putin quem intensifica os bombardeamentos sobre Aleppo. Os franceses cancelam a visita do presidente russo a Paris, falam em crimes de guerra e exigem responsabilização.

A Casa Branca diz nãoser possível negociar com quem não mantém os acordos, o Kremlin afirma que são os Estados Unidos e os seus aliados ocidentais quem está a provocar uma escalada da tensão na Síria.

Mas não é apenas a Síria a estar no centro da escalada das tensões entre Rússia e ocidente.

Na frente europeia há um aumento da repressão na Crimeia, com o FSB (serviços secretos russos) a liderar as rusgas e as detenções de ativistas locais.

Esta semana Putin ordenou a instalação de misseis balísticos nucleares no enclave de Kaliningrado, entre a Polónia e a Lituânia. Ambos países da OTAN.

De lembrar que este ano a Organização do Tratado do Atlântico Norte levou a cabo um dos maiores exercícios militares da sua história precisamente na Polónia, e que no Báltico, há a mobilização permanente de recursos para a defesa avançada do espaço aéreo ocidental. Portugal participa nessa missão na Lituânia com caças F-16.

Felipe Pathé Duarte lembra que há um claro sentimento na Rússia "de que o país está já sobre ataque por parte do Ocidente", pelo que as ações tomadas são justificadas pelos políticos, e militares, como sendo de defesa e inteiramente aceites pela generalidade dos russos.

Na oposição militar aos Estados Unidos da América Rússia e China dão mãos. Preparam-se gigantescos exercícios militares conjuntos.

Na mira de todos os discursos e ações a política dos Estados Unidos de instalar sistemas defensivos anti míssil em vastas zonas do mundo, da Europa a Israel, do Japão à Coreia do Sul.

Mas escalada global joga-se também num novo tabuleiro - o ciber espaço.

Os Estados Unidos acusam Moscovo de piratear informaticamente o partido democrata e a candidatura de Hilary Clinton, bem como de apadrinhar um plano para adulterar a votação eletrónica nas presidenciais de novembro.

Obama e Putin tiveram um encontro sobre o assunto. Moscovo nega. Washington garante não ter dúvidas do envolvimento russo.

As duas potências encontram-se este sábado para tentar o desanuviamento. De novo a questão Síria assume o centro da agenda.

Todos, no entanto, assumem que a Síria é apenas o ponto quente de uma nova guerra fria, mais vasta e global, que obriga a outro diálogo e diplomacia.



sexta-feira, 21 de outubro de 2016

TV russa diz que 3ª Guerra Mundial já começou


Apocalípticos de plantão, divulgai as vossas teorias da conspiração, o Armagedom está próximo... a matéria é do Estadão:

Para TV russa, 3.ª Guerra já começou

O cenário de um novo conflito mundial é remoto, mas quem ligar a televisão na Rússia vai se surpreender ao saber que, na verdade, ele já começou

O cenário de uma 3.ª Guerra é remoto, mas quem ligar a televisão na Rússia vai se surpreender ao saber que, na verdade, ela já começou. Na principal emissora pública do país, o apresentador do programa estrela do domingo à noite anunciou que as baterias antiaéreas russas na Síria vão “derrubar” aviões americanos.

O canal de notícias 24 horas Rossia 24 exibiu uma reportagem sobre a preparação de abrigos antinucleares em Moscou.

Em São Petersburgo, o canal digital Fontanka diz saber que o governador quer racionar o pão diante de uma futura guerra, embora as autoridades garantam que a única coisa que estão tentando fazer é estabilizar o preço da farinha.

Na rádio, debate-se sobre exercícios de “Defesa Civil”, os quais, segundo o Ministério de Situações de Emergência, mobilizam 40 milhões de russos durante uma semana. O objetivo: retiradas de edifícios e simulações de incêndio.

Se o visitante preferir passear pelas ruas de Moscou a ver televisão, é muito provável que esbarre em um dos imensos grafites “patrióticos” dos artistas pró-Putin da organização “Set”, que tomam os prédios. Em um deles, vê-se, por exemplo, um urso – símbolo da Rússia – distribuir coletes à prova de balas a pombas das paz.

Esse enaltecimento da iminência de uma “3.ª Guerra” ganhou cada vez mais espaço com a ruptura, em 3 de outubro, das negociações entre Washington e Moscou sobre a guerra síria, após o fracasso de um cessar-fogo negociado em setembro entre as duas potências em Genebra.

Uma ruptura com consequências. As bombas russas e sírias transformaram Aleppo em um “inferno na Terra”, segundo a ONU, avivando as críticas dos países ocidentais.

No terreno, o Exército russo mobilizou em sua base naval do porto sírio de Tartus baterias antiaéreas S-300, artefatos capazes de destruir caça-bombardeiros. Uma demonstração de força que não é dirigida aos extremistas, nem aos rebeldes sírios, mas à Marinha e aos aviões americanos.

Confrontação. Em Moscou, onde os jornalistas russos e ocidentais dormem e acordam com os comunicados do Ministério da Defesa, os veículos de comunicação plasmam e amplificam o clima de confrontação. O porta-voz do Exército russo, general Igor Konachenkov, lança advertências à Casa Branca, ao Pentágono e ao Departamento de Estado dos EUA.

“Lembro aos estrategistas americanos que os mísseis antiaéreos S-300 e S-400 que garantem a cobertura aérea das bases russas de Hmeimim e de Tartus têm um raio de ação que pode surpreender qualquer aeronave não identificada”, advertiu o general Konachenkov, em 6 de outubro, em uma ameaça velada aos Estados Unidos.

Na emissora pública Rossia 1, o apresentador Dimitri Kisilev, que também é chefe da agência de notícias Ria Novosti, resume a declaração do general Igor Konashenkov para “pessoas comuns, como eu e você”: “derrubaremos” os aviões americanos.

Em seguida, ele revela o “plano B” dos Estados Unidos na Síria. “O plano B é, em linhas gerais, que os Estados Unidos recorram diretamente à força contra as forças sírias do presidente Bashar Assad e contra a aviação russa”, relata. “Deve-se temer provocações? Foi assim que os Estados Unidos entraram em guerra no Vietnã”, conclui Kisilev, advertindo os ocidentais de que os mísseis estacionados em Kaliningrado, território russo próximo à Polônia, podem carregar ogivas nucleares.

“A Rússia atual está mais do que preparada, sobretudo psicologicamente, para a nova espiral de confrontação com o Ocidente”, resume o cientista político Gueorgui Bovt, em uma tribuna no veículo digital Gazeta.ru. Bovt avalia os cenários possíveis, levando-se em conta as dificuldades econômicas da Rússia.

No primeiro deles, otimista, as duas potências “chegam a um acordo sobre novas condições de coexistência, como uma espécie de Ialta-2”, referindo-se à distribuição das zonas de influência entre os Estados Unidos e a então União Soviética, após a 2.ª Guerra. O outro é catastrófico. A Rússia reagirá, partindo da máxima “se não se pode evitar o confronto, deve-se ser o primeiro a bater”.

Em recente entrevista à Ria Novosti, o último presidente soviético, Mikhail Gorbachev, alertou que o mundo flerta “perigosamente com a zona vermelha”. Há 30 anos, Gorbachev e o então presidente dos EUA, Ronald Reagan, promoviam o princípio do fim da Guerra Fria.

Na quarta-feira (12), surgiu o primeiro sinal de distensão, depois de dias de acusações verbais. Moscou anunciou uma reunião internacional sobre a Síria para sábado (15) em Lausanne. Visto como uma última chance de diálogo, o encontro colocará frente a frente, mais uma vez, o secretário de Estado americano, John Kerry, e o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov.



segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Conclusões olímpicas


Sim, meus queridos amigos, é triste ter que admitir isso mas a Olimpíada brasileira, mais especificamente carioca, acabou...

A grande notícia é que ela transcorreu sem maiores problemas, sobretudo quanto a violência e terrorismo, embora ainda tenhamos que passar pelas Paralimpíadas para podermos comemorar dois eventos pacíficos em seguida.

Quanto aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, foram duas semanas bastante divertidas, em que o brasileiro mostrou ao mundo o seu jeito estabanado de ser, meio confuso, espalhafatoso e contraditório, mas espontâneo e bem-humorado tanto quanto possível.

As cerimônias de abertura e de encerramento agradaram por sua simplicidade e baixo custo, mostrando ao mundo a cultura e a criatividade brasileiras em seu estado de pura arte, sem querer concorrer com festas e sedes antigas, até porque, cá entre nós, ainda que os mais jovens não entendam o que isso significa, nada vai superar o painel humano do ursinho Misha derramando uma lágrima na despedida de Moscou 1980.

Só quem viu esta cena pela televisão 36 anos atrás pode tentar descrever a emoção que sentiu naquele contexto histórico em que a tecnologia ainda perdia de 10 x 0 para a ideologia.

Depois disso, tudo virou mais do mesmo, inclusive a grandiosidade de Pequim 2008, que mostrou ao globo o despropósito de uma China faraônica, logo uma cultura milenar que tem tantas coisas lindas e simples para compartilhar.

Portanto, o Rio de Janeiro acertou em cheio ao fazer cerimônias relativamente simples, muito mais ligadas à emoção do que à ostentação, mostrando o que o Brasil tem de melhor, sua música, sua gente, sua malemolência, seu bom humor.

Claro que este rumo foi ditado, em larga parte, pelas limitações orçamentárias, mas que bom que foi assim, pois serviu de antítese ao negócio bilionário que são os jogos patrocinados pelo Comitê Olímpico Internacional.

Sim, no fim tudo se limita a isso, um negócio. Vivemos num mundo onde a economia impera, e o espírito olímpico é só uma desculpa para que grandes contratos sejam assinados à sombra dos seus arcos.

Tenebrosa é a coincidência a que permitiu que o Brasil encerrasse sua Olimpíada na mesma semana em que vai decidir o impeachment de sua primeira mulher que chegou à Presidência.

De novo, engana-se quem acha que é a lei ou os políticos que vão decidir o destino de Dilma Rousseff. Não, caros amigos, quem parece que já decidiu pela sua defenestração é a economia, mediante aqueles famosos tentáculos invisíveis do mercado, que são afinal quem decide o destino de cidades olímpicas e presidentes.

Era este o cenário em 2009, quando o Rio de Janeiro foi escolhido como sede olímpica para 2016, e o Brasil era muito mais interessante do ponto de vista econômico do que político ou esportivo.

Cabalísticos sete anos depois, tudo mudou.

Parece que o Brasil se despediu não só dos seus Jogos mas também de uma era, e - seja no esporte ou na política - não há boas perspectivas no horizonte.

Tentemos, então, perpetuar (enquanto pudermos) este sentimento gostoso e anestésico de duas semanas em que o mundo nos visitou e interagimos com o diferente.

Foi bom enquanto durou...



segunda-feira, 20 de junho de 2016

Apesar das ameaças de ausência, começou o Concílio Pan-Ortodoxo


A matéria é do IHU:

O Concílio ortodoxo “que cambaleia” e os sinais dos tempos


O Santo e Grande Concílio ortodoxo, meio cambaleando, começa hoje [domingo, 19 de junho] na ilha de Creta. (1) E, independentemente do jeito que terminar, já pertence à categoria dos eminentes sinais dos tempos. Visto na perspectiva da fé dos Apóstolos, o cabo de guerra que surgiu “in extremis” no âmbito do encontro de comunhão que estava sendo preparado há décadas pelas Igrejas que compartilham o mesmo tesouro apostólico e sacramental mostra, pelo menos por um momento, o vertiginoso caminho pelo qual procede sempre na história a promessa da salvação cristã, encomendada aos sucessores desses mesmos apóstolos. 

A reportagem é de Gianni Valente e publicada por Vatican Insider, 19-06-2016. A tradução é de André Langer.


As últimas notícias sobre as decisões e os pronunciamentos dos líderes das Igrejas ortodoxas são muito sugestivas. O Santo e Grande Concílio começa com a presença dos líderes de 10 das 14 Igrejas autocéfalas ortodoxas, sob a presidência do Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu.

Do ponto de vista dos grupos e dos equilíbrios de força, tem um peso relevante a participação da Igreja ortodoxa da Sérvia (que no começo tinha se negado a participar), a qual, em seu último comunicado oficial, se reserva o direito de abandonar o encontro caso este se negar a “considerar todas as questões, problemas e diferenças” expressadas durante as últimas semanas pelos quatro patriarcas ortodoxos (de Antioquia, Bulgária, Geórgia e Rússia) que decidiram não participar.

Com a decisão manifestada na segunda-feira passada, o Patriarcado de Moscou de alguma maneira deixou cair a máscara e mostrou-se com o verdadeiro artífice das iniciativas que, coagulando diversos mal-estares e reservas, apostavam na suspensão ou em dar outra direção, “in extremis”, à máquina conciliar que já estava em andamento.

O Patriarca de Moscou, Kirill, em sua última mensagem oficial dirigiu-se intencionalmente aos “Primados e representantes das Igrejas ortodoxas locais que se reúnem em Creta”, sem utilizar a expressão “Concílio”, para dar a entender que esta reunião era “um encontro que pode servir para a preparação do Santo e Grande Concílio”, negando ao encontro de Creta a categoria de Assembleia Conciliar.

Além disso, o Metropolita Hilarion de Volokolamsk, presidente do Departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou, homem chave na política eclesiástica do aparelho ortodoxo russo, em uma entrevista, fez algumas advertências pessoalmente ao Patriarca Bartolomeu, indicando que o “Primus inter pares” entre os primados ortodoxos “dará prova de prudência” e destacando que “se se convoca o Concílio apesar da ausência de ao menos quatro das Igrejas locais, constituirá uma brutal transgressão do regulamento do próprio Concílio, que estabelece que deve ser convocado pelo patriarca ecumênico com o consenso de todas as Igrejas”.

Enquanto isso, a partir de Kiev, os círculos nacionalistas ucranianos tratam de aproveitar a confusão e o Parlamento pede oficialmente ao Patriarca Bartolomeu para que reconheça a autocefalia da Igreja ortodoxa ucraniana (atualmente sujeita com um estatuto de autocefalia à jurisdição do Patriarcado de Moscou), patrocinando um “Concílio de unificação pan-ucraniana” com o qual possam unir-se “todas as Igrejas ucranianas ortodoxas”.

No entanto, em Creta, a máquina midiática do Concílio, nas mãos de órgãos da imprensa estadunidenses, começa a inundar a rede de comunicados e informes feitos de acordo com padrões já acordados em nível global para encontros e “quermesses” religioso-espirituais para todos os gostos.

Nas últimas notícias, a questão do Concílio ortodoxo e seu semi-naufrágio ou seu desejado “êxito midiático”, seguem sendo apresentados principalmente como uma questão político-eclesiástica. Os comentários e narrações da mídia, com poucas exceções, ressaltam as estratégias, alianças, provas de força, pressões, sintonias mais ou menos claras entre os aparelhos político-clericais.

Nos tribunais da rede que infestam a blogosfera católica, as manipulações mais descaradas e interesseiras usam como pretexto os problemas ortodoxos para confeccionar condenações baratas sobre as dinâmicas da sinodalidade eclesial, tão citadas pelo Papa Francisco. Mas estes informes “déjà vu” que elucubram sobre as mutáveis alquimias do poder eclesiástico ou sobre os erros táticos (verdadeiros ou não) dos diferentes aparelhos clericais raramente intuem a raiz profunda das tribulações ortodoxas.

Podem ajudar muito mais as intuições manifestadas por Bartolomeu em uma antiga entrevista de 2004 à revista italiana 30Giorni, na qual o patriarca ecumênico, ao falar sobre o cisma entre a Igreja de Roma e a de Constantinopla, disse que a origem distante dessa divisão está nas “primeiras manifestações do pensamento mundano na Igreja”. Se os ortodoxos sempre reconheceram em tal infiltração a matriz da pulsão “hegemônica” do Papado ocidental, agora parece muito mais claro que tal pulsão não só não foi neutralizada por um ou outro modelo abstrato de eclesiologia “institucional” e pode facilmente servir-se das dinâmicas e dos instrumentos sinodais.

Em relação ao caso das Igrejas ortodoxas, a referência à penetração do pensamento mundano nas dinâmicas eclesiais tem muito pouco a ver com a tradicional e dócil sintonia com os poderes civis nacionais que os polemistas católicos sempre reprovaram na Ortodoxia. Os problemas do Santo e Grande Concílio não dependem de Putin, que paradoxalmente, justamente perseguindo seus interesses, poderia ter sido capaz de favorecer um resultado mais fecundo para o caminho e para a missão apostólica das Igrejas ortodoxas.

Pelo contrário, o que criou muitos obstáculos foi o peso morto do orgulho clerical enquanto tal, a “hybris” que contamina os aparelhos eclesiásticos cada vez que as Igrejas, em qualquer nível, constroem e perseguem um modelo de auto-suficiência e de auto-afirmação no cenário do mundo. Nenhuma das instâncias eclesiais é imune a esta tentação de uma desnaturalização semelhante, como repetiu em várias ocasiões o Papa Francisco ao fazer alusão à gangrena do “mundanismo espiritual”.

Neste momento, devemos admitir que esta atitude ameaça particularmente a Igreja russa. Considerando apenas as últimas duas semanas (e inclusive o que aconteceu antes do início das convulsões sobre o Concílio ortodoxo), o Patriarca Kirill disse que a Igreja russa tem agora, nada mais e nada menos, a tarefa de “mudar a atitude em relação à fé e ao cristianismo em muitos países da Europa e da América”, para voltar a dar uma relevância global ao cristianismo (19 de maio).

O Metropolita Hilarion, por sua vez, apresentou, em 19 de abril passado, a Rússia atual como a única nação de destaque na qual se “expandem a fé e a Igreja”, descrevendo um Ocidente completamente aniquilado pelo ateísmo e o secularismo, com uma inversão total de papéis com relação aos tempos da União Soviética. Em um ataque de triunfalismo identitário, o próprio Hilarion, no final de maio, disse que o Patriarcado de Moscou ocupa “o segundo lugar no mundo” em número de fiéis, atrás apenas da Igreja católica, separando conceitualmente os fiéis russos de todos os outros cristãos ortodoxos.

Apenas aqueles que amam com sincera gratidão a grande aventura cristã que começou com o batismo do Grande Príncipe Vladimir sentem a urgência de informar aos irmãos russos a deriva de retrocesso a que parecem tão expostos neste momento. Mas o escorregão pelo Concílio ortodoxo antes de mesmo de começar deve fazer pensar que não apenas entre os líderes da Ortodoxia russa se rarefez a percepção do tempo escatológico vivido pela Igreja de Cristo.

“Os Primados das Igrejas que colocam em primeiro lugar questões mundanas como o primado de honra”, disse em meio às convulsões pré-conciliares Theodoros II, Patriarca ortodoxo de Alexandria, “deveriam descer de seus tronos suntuosamente decorados e visitar a África, para ver o que quer dizer ser pobres e humildes filhos de Cristo”.

Como já aconteceu em outros momentos da história, o tropeço inicial do encontro conciliar ortodoxo, seu “fracasso” em termos de estratégia humana, vivido à luz da cruz, da descida aos infernos, da Ressurreição e do Pentecostes, poderia sugerir novas vias de fuga para abandonar a soberba clerical e andar mais rapidamente para Cristo.

Como disse Matta el Meskin – o pai da renovação dos monges coptas durante um rico congresso organizado pela comunidade monástica de Bose –, a unidade entre os cristãos, embora pertençam à mesma confissão, nunca nasce como espírito de “coalizão” para sentir-se mais fortes, para unir forças contra inimigos verdadeiros ou imaginários e dar maior relevância e poder à Igreja e aos homens da Igreja. Sempre nasce acompanhada da perda do instinto de conversação e da pretensão de caminhar na história por força própria, como uma realidade autossuficiente.

A unidade em Cristo dos cristãos, escreveu Matta el Meskin, “é um estado de fragilidade divina perante o mundo, seguindo o exemplo de seu Mestre, que renunciou ao seu poder infinito para ser crucificado por qualquer pessoas que ele amava e na maneira como a amava. E todos os problemas que dividem a Igreja – acrescentou Matta – demonstram exatamente que o Senhor não está presente no meio da assembleia. E sua ausência nos obriga a voltar a colocar em questão a finalidade da reunião, o método da busca e as intenções dos membros reunidos [...] O problema da unidade encontra-se clara e decisivamente no problema da presença do Senhor”, porque “só o Senhor ‘pode fazer de dois povos um só, tendo derrubado os muros que os separam (cf. Ef 2, 14)’”.



segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Patriarca ortodoxo russo encerra visita ao Brasil no RJ e em SP

O patriarca ortodoxo russo Kirill reza no Cristo Redentor

O patriarca de Moscou e de toda a Rússia, Kirill, concluiu ontem em São Paulo o seu périplo pela América Latina que começou no último dia 12 de fevereiro, quando teve o encontro histórico com o papa Francisco em Havana, capital de Cuba.

Antes de chegar a Brasília na sexta-feira, dia 19, onde se reuniu com a presidente Dilma Rousseff, o chefe da Igreja Ortodoxa Russa passou rapidamente pelo Paraguai e pelo Chile.

No sábado, dia 20 de fevereiro, o patriarca Kirill realizou o seu tão desejado sonho, de conhecer o Cristo Redentor, no Corcovado, onde oficiou uma cerimônia na qual estava presente D. Orani João Tempesta, cardeal católico do Rio de Janeiro, conforme se pode ver no vídeo abaixo, da teleSUR:


Na sua homilia no Corcovado, o líder russo enfatizou a necessidade de se renovar a fé cristã e combater a perseguição que os cristãos sofrem em todo o mundo, em especial no Oriente Médio e na África, bem como aproveitou para criticar o aborto, os divórcios e a alteração do conceito de casamento como a união entre homem e mulher, conclamando os católicos a enfrentar conjuntamente estes desafios.

Já no domingo, 21 de fevereiro, Kirill visitou São Paulo, onde está concentrado o maior número de fiéis ortodoxos russos no Brasil (cerca de 3.000 seguidores).

A celebração aconteceu no belo templo da Catedral Metropolitana Ortodoxa de São Paulo, localizada no bairro do Paraíso e pertencente ao Patriarcado de Antioquia, mas que foi fraternalmente cedida ao patriarca russo para que ele oficiasse a missa que contou com a presença do cardeal católico D. Odilo Pedro Scherer, e do prefeito da capital, Fernando Haddad, cujo avô paterno, Cury Habib Haddad, se tornou padre ortodoxo antioquino após ficar viúvo.

Na cerimônia paulista, o patriarca Kirill repetiu os temas de sua pregação no Rio de Janeiro, e concluiu sua visita ao Brasil com uma visita no começo da tarde de domingo à Igreja Ortodoxa Russa de Nossa Senhora da Anunciação, no bairro paulistano do Ipiranga, de onde se dirigiu ao aeroporto de Guarulhos para retornar a Moscou.

Termina assim a primeira peregrinação de um patriarca ortodoxo russo por terras latino-americanas.

Patriarca Kirill celebra missa em São Paulo, com presença do cardeal D. Odilo Scherer e do prefeito Fernando Haddad



sábado, 20 de fevereiro de 2016

Dilma Rousseff recebeu o patriarca ortodoxo russo em Brasília


A informação é do Terra, com vídeo do encontro mais abaixo:

Patriarca russo Kirill inicia visita ao Brasil em reunião com Dilma

O patriarca ortodoxo russo Kirill se reuniu nesta sexta-feira com a presidente Dilma Rousseff no início de sua visita de três dias ao Brasil, o último dos países de sua viagem pela América Latina.

O encontro, inicialmente previsto para o Palacio do Planalto, foi antecipado e realizado no Palácio da Alvorada. Após uma recepção no gabinete de Dilma, que foi aberto para o registro de imagens por parte da imprensa, a governante e o patriarca se reuniram em privado na biblioteca do palácio.

Depois do encontro com a presidente, o patriarca viajou para o Rio de Janeiro, onde neste sábado celebrará uma missa no alto do Corcovado e depois se reunirá com o arcebispo da cidade, o cardeal Dom Orani Tempesta. O patriarca russo termina no domingo, em São Paulo, sua visita de três dias ao Brasil.

Na capital paulista, o líder religioso celebrará uma liturgia magna na Igreja Ortodoxa Antioquina, próxima à Avenida Paulista, e visitará a Igreja Ortodoxa Russa de Nossa Senhora da Anunciação, no tradicional bairro do Ipiranga.

Segundo um comunicado do governo, a igreja ortodoxa russa conta com 150 milhões de fiéis no mundo todo e no Brasil os praticantes estão calculados entre 3 mil e 4 mil, a maioria no estado de São Paulo.




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