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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Se hoje você tem o que comer, agradeça a quem viveu no México mais de 5 mil anos atrás


Artigo interessantíssimo do biólogo Fernando Reinach, publicado no Estadão de 10/12/16:

Foi no México, faz 5 mil anos

E você, provavelmente, nunca passou perto do local onde se domesticou o milho

Não se iluda, as bases tecnológicas de nossa civilização não surgiram em renomadas universidades ou em empresas do Vale do Silício. Elas surgiram muito antes, quando o homem desenvolveu a tecnologia que o liberou da busca contínua por alimento, atividade que toma o dia todo das comunidades caçadoras e coletoras. Nesse aspecto, não éramos muito diferentes de uma vaca, que passa o dia todo pastando, e não tem tempo para escrever um romance. Foi no tempo liberado pela agricultura que o cérebro humano pode dedicar-se ao desenvolvimento das artes e da ciência.

A domesticação de espécies de vegetais é uma dessas tecnologias. Ela foi tão importante que hoje, das 50 mil espécies de plantas comestíveis que existem no planeta, somente 15 respondem por 90% de nosso alimento. Pior, três delas, o milho, o arroz e o trigo, respondem por 66% de todo o alimento que consumimos. O milho é talvez o mais importante, pois não só é consumido diretamente, mas é comida de frango. Frango é milho com penas. O mundo produz hoje 900 bilhões de quilos de milho por ano, o equivalente a 10 quilos por habitante por mês.

E você, tão viajado, provavelmente nunca passou perto do local onde o ser humano domesticou o milho. Foi no Vale do Tehuacán, um local perdido no centro do México. Esse desenvolvimento tecnológico começou por volta de 9 mil anos atrás e tomou o esforço de nossos antepassados durante milhares de anos. Nesse período, eles transformaram o teosinto no milho, duas subespécies da mesma planta tão diferentes entre si quanto um chihuahua de um dog alemão.

Na década de 1960, um cientista chamado Richard MacNeish escavou o solo de uma caverna chamada San Marcos, no vale do Tehuacán. Essa caverna era habitada pelos domesticadores do milho. Em diversas camadas dos detritos, depositados por gerações desses cientistas intuitivos, ele descobriu sementes de vegetais que já não eram teosinto, mas ainda não eram milho. Passos intermediários do processo de domesticação.

Nos últimos anos, com o sequenciamento do genoma do teosinto e do milho, os cientistas descobriram os genes que foram alterados durante o processo de domesticação no vale do Tehuacán. Agora foi sequenciado o genoma das sementes que foram encontradas na caverna de San Marcos, que datam de aproximadamente 5.200 anos atrás, quando o processo de domesticação ainda estava em andamento.

Nesses exemplares foi encontrado o gene que deixa a planta ereta, permite o plantio em linhas e facilita a colheita. Também foram encontradas as versões modernas do gene que aumenta o tamanho dos grãos e deixa o milho mais doce. Mas ainda estavam ausentes o gene que deixa a casca do grão mais fina, o que facilita a digestão, e um outro gene que inibe a queda dos grãos maduros da espiga, que é essencial para que possamos colher os grãos ainda na espiga. Essa planta, de 5 mil anos atrás, já não era um teosinto, onde os galhos se espalham e ramificam, os grãos são poucos, pequenos, duros e caem fácil da espiga. Mas também não era o milho moderno com centenas de grãos por espiga, todos grandes, com casca fina, doces e que não se soltam facilmente.

Se você for ao México, não deixe de visitar Tehuacán, e passeando por lá imagine esses geneticistas intuitivos selecionando variedades de milho, que 5 mil anos depois, iriam alimentar a humanidade. O impacto desse desenvolvimento tecnológico deixa no pó a eletricidade, os celulares e as redes sociais.

MAIS INFORMAÇÕES: THE EARLIEST MAIZE FROM SAN MARCOS TEHUACÁN IS A PARTIL DOMESTICATE WITH GENOMIC EVIDENCE OF INBREEDING. PROC. NAT. ACAD. SCI. USA, VOL. 113 PÁG. 14151 (2016)



domingo, 8 de fevereiro de 2015

Reino Unido aprova paternidade tripla


É o que informa a BBC Brasil:

Parlamento britânico dá aval a bebês com material genético de 3 pais

A americana Alana Saarinen faz parte de um pequeno grupo de entre 30 e 50 pessoas que têm um pouco de mitocôndria (e, dessa forma, um pouco de DNA) de três pais biológicos. Ela foi concebida por meio de uma técnica pioneira de fertilidade que, pouco depois, foi banida nos Estados Unidos.

Agora, casos como o dela podem se tornar mais comuns no Reino Unido: em uma iniciativa histórica, a Câmara dos Comuns do Parlamento britânico aprovou, por 382 votos a 128, a concepção de bebês com o DNA de duas mulheres e um homem.

O projeto ainda tem de passar pela Câmara dos Lordes. Se aprovado, é possível que já no ano que vem nasçam bebês sob a técnica de substituição mitocondrial, que consiste no uso de mitocôndria de uma doadora para eliminar determinados males genéticos graves.

Com isso, o país pode se tornar o primeiro do mundo a promover leis que permitam que bebês tenham o material genético de três pessoas. A técnica visa impedir que doenças genéticas sejam transmitidas de mãe para filho.

Defensores argumentam que a medida pode beneficiar pais com problemas genéticos graves e fatais. Já críticos alegam que a técnica levanta diversas preocupações éticas e de segurança médica.

Técnica

A mitocôndria consiste em pequenos compartimentos dentro de quase todas as células do corpo que convertem comida em energia. Elas têm seu DNA próprio, mas que não afetam características como a aparência.

Falhas na mitocôndria, que são passadas apenas pelo DNA da mãe, levam a problemas cerebrais, musculares, cardíacos e oculares.

A técnica de substituição mitocondrial usa uma versão modificada da fertilização in vitro para combinar o DNA dos dois pais à mitocôndria saudável de uma mulher doadora. A ideia é que os bebês tenham 0,1% de seu DNA vindo de uma segunda mulher - uma mudança genética permanente que seria passada adiante às gerações seguintes.

O tema gerou um intenso debate no Parlamento britânico.

A ministra de Saúde Pública, Jane Ellison, disse à Casa que a aprovação da medida "é um passo ousado para o Parlamento, mas é um passo bem informado. E, para muitas famílias afetadas, é uma luz no fim de um túnel muito escuro".

Um dos casos que se tornou símbolo no país foi o de uma mulher que perdeu seus sete filhos por conta de doenças mitocondriais raras - os três primeiros morreram pouco depois do parto, e os outros padeceram de males cerebrais ou cardíacos. Em tese, ela poderia ter sido beneficiada pelo procedimento.

Já o parlamentar Robert Flello disse temer que famílias como essa se decepcionem por conta de incertezas ainda geradas pela técnica. Em resposta, o ex-ministro Frank Dobson argumentou que a incerteza está "na natureza da medicina e da ciência" e que a fertilização in vitro nunca teria ido adiante se tivesse-se exigido certeza absoluta da técnica.

O premiê britânico, David Cameron, alegou que a aprovação não significa que os parlamentares estejam "brincando de Deus". "Apenas estamos garantindo que dois pais que queiram um bebê saudável possam tê-lo."

Temores

Na semana passada, as igrejas Católica e Anglicana da Inglaterra fizeram oposição à medida, alegando que ela não é segura nem ética. Alguns cientistas também disseram ainda não estarem seguros quanto à eficácia da técnica.

Outros grupos advertiram que a iniciativa poderia abrir a porta para modificações genéticas mais profundas que alterassem características estéticas e de inteligência ou promovesse a concepção de bebês "livres de doenças".

"Se você cruza a linha da ética, fica difícil não dar o próximo passo, de 'projetar' bebês", argumentou o ativista David King.

Mas a especialista em reprodução ética Gillian Lockwood disse à BBC que a substituição mitocondrial consiste em uma "mudança pequena" na legislação.

"O maior problema é que o processo está sendo descrito como uma fertilização in vitro de três pais. Mas na verdade são dois (pais) mais 001", afirmou.

Ela argumenta que, de tão pequena a parcela genética adicionada, "não será parte do que nos faz o que somos geneticamente - não afeta altura, cor do olho, inteligência ou musicalidade".

No caso da americana Alana, ela nasceu no ano 2000 por meio de um tratamento chamado transferência citoplasmática.

Sua mãe, Sharon Saarinen, vinha tentando ter filhos havia dez anos, usando diversos métodos de fertilização in vitro, até que os médicos passaram a suspeitar que a infertilidade derivava de um problema genético na mitocôndria.

Os especialistas transferiram um pouco de citoplasma (contendo mitocôndria) de uma doadora ao óvulo de Sharon, depois fertilizado com o esperma do marido dela.

Outros dezessete bebês nasceram da mesma técnica na mesma clínica que tratou Sharon, sendo que alguns casos apresentaram problemas de saúde. Em 2002, porém, a FDA, agência reguladora de medicamentos e alimentos nos EUA, pediu a interrupção de transferências citoplasmáticas, por preocupações de segurança e ética.

Mas Sharon disse que, com a Alana, a técnica teve bons resultados. "Não poderia pedir por uma filha melhor. Ela é inteligente, bonita por dentro e por fora, adora matemática e ciência, vai muito bem na escola e me ajuda na casa... quando não está teclando (no celular)", contou à BBC no final do ano passado.

"Ela sempre foi saudável, nunca teve mais do que uma gripe comum, nenhum problema de saúde."



quarta-feira, 23 de abril de 2014

Bebês choram à noite para evitar que papai e mamãe gerem novos filhos

O título deste artigo poderia parecer até uma piadinha inocente, não fosse a prestigiosa universidade de onde procede a teoria sobre o choro egoísta do bebê: Harvard!

O biólogo evolucionista David Haig escreveu sobre isso no livro "Evolution, Medicine and Public Health" ("Evolução, Medicina e Saúde Pública"), onde defende a ideia de que o bebê que berra a todo momento à noite pedindo para ser amamentado, na verdade está tentando impedir que sua querida mamãe fique grávida de novo.

Esse choro nada altruísta serviria, portanto, para impedir que outro óvulo e outro espermatozoide da mesma família se encontrem e assim gerem um irmãozinho ou uma irmãzinha com o(a) qual o bebê ranheta teria que dividir os pais.

Já que ele não poderia forçar sua mãe a tomar pílulas ou seu pai a usar camisinha, só lhe restaria o aleitamento noturno para importunar sua mamãe e assim impedi-la de ter relações sexuais com o papai, até porque o cansaço torraria a libido de ambos.

Além disso, esse incômodo todas as noites faria com que a mãe atrasasse seu ciclo fértil, devido a mudanças hormonais que, embora não seja um método contraceptivo seguro, é o único recurso de que dispõe o bebê chorão.

Haig esclarece que, obviamente, os filhos recém-nascidos não fazem isso de propósito, mas em razão de que, no passado remoto, os bebês que eram amamentados à noite tinham uma maior possibilidade de sobrevivência.

O momento em que essas demandas noturnas começam a ser percebidas acontece por volta de 6 meses de idade do bebê, e tende a aumentar significativamente nos meses seguintes.

Em apoio à sua tese, David Haig acrescenta que certas desordens genéticas herdadas de cada um dos genitores mostram o acerto de sua teoria. Bebês que recebem certos genes do lado materno dormem mais à noite, o que favorece com que sua mãe engravide logo em seguida. 

Por outro lado, os rebentos que herdam os mesmos genes do lado paterno acordam mais vezes à noite, postergando a ovulação de suas mães, o que faz sentido evolucionário, pois os pais não teriam a garantia de que o próximo bebê fosse dele, o que lhes deixaria interessados em que o ciclo fértil de sua parceira fosse interrompido por um período.

Outros cientistas ouvidos pelo portal ScienceNews chamaram a atenção para o fato de que vivemos em uma sociedade muito diferente da primitiva, e que não há como voltar no tempo para testar a teoria na época em que o ser humano surgiu no mundo.

Haig conclui que, na sociedade moderna, não é mais necessário que as mães se preocupem tanto em amamentar os filhos à noite, pois bebês que não se alimentam à noite ou tomam mamadeiras durante o dia tendem a dormir um sono mais regular sem perturbar seus pais.



sábado, 15 de março de 2014

Israel garante descendência a pais mortos mediante "testamento biológico"


Matéria publicada no G1:

'Testamento biológico' permite nascimento de filhos de pais mortos

Juízes dão sinal verde para o uso de óvulos e sêmen de pessoas que, antes de morrer, autorizam entes queridos a gerar em seu nome 'filhos póstumos'.

A Justiça de Israel abriu precedentes para um experimento inédito no mundo, o chamado 'testamento biológico'. A concepção e o nascimento de bebês a partir de óvulos ou de sêmen deixados como 'herança' por pais já mortos está ocorrendo no país sob instrução escrita dos pais falecidos. A ideia é polêmica.

A israelense Hen Shavit tem um filho de 7 meses, que nasceu em consequência da doação do sêmen de um homem que havia morrido antes em um acidente. Ele deixou instruções para que seus pais entregassem o material genético para a mulher que escolhessem como 'mãe de seu neto'.

Nissim Ayash tem um filho de 2 anos, que veio ao mundo vários anos depois que sua mãe morreu de câncer. Ela havia deixado óvulos fertilizados congelados para criar um filho do casal.

Ayash viajou aos Estados Unidos onde contratou uma mulher como barriga de aluguel e conseguiu cumprir o testamento de sua esposa.

A ideia do testamento biológico é de autoria da advogada israelense Irit Rosenblum, diretora da ONG Nova Família.

Em entrevista à BBC Brasil, a advogada contou que a ideia surgiu em 1998, quando conversou com um ex-soldado que havia perdido a fertilidade durante o serviço militar. Aos 20 anos, o jovem foi informado que não poderia mais ser pai e foi conversar com Rosenblum para averiguar outras maneiras de constituir uma família.

'Durante a conversa com aquele moço me veio a ideia. Hoje em dia, nós, humanos, temos meios tecnológicos para dar continuidade à vida, apesar das doenças e mesmo apesar da morte. Homens podem congelar sêmen, mulheres podem congelar óvulos. O que faltava era um instrumento legal que possibilitasse que os herdeiros utilizassem esse material genético. Isso é justamente o que chamamos de testamento biológico'.

Para a advogada, a ideia é 'revolucionária e futurista'.

'O desejo de dar continuidade à nossa vida é um desejo natural e essa vontade da pessoa deve ser respeitada mesmo após sua morte', afirmou.

Precedente

Em 2011, Rosenblum estabeleceu um precedente legal ao vencer um processo para a execução de um 'testamento biológico', apesar da oposição da promotoria de Israel.

Dois anos antes, ela havia apresentado ao tribunal o pedido dos pais de Baruch Pozniansky, um homem que tinha morrido de câncer aos 25 anos.

Os pais de Pozniansky pediram à corte que ordenasse o banco de sêmen do hospital Tel Hashomer a entregar a eles o material genético do filho, para que uma mulher escolhida por eles pudesse engravidar e lhes dar um neto.

Após esse precedente legal, mais 13 testamentos biológicos foram aprovados por diversas cortes em Israel, três deles em casos de mulheres escolhidas pelos 'avós'. Nos outros dez, as mães potenciais eram namoradas dos homens mortos.

'Sinto que essa é a minha missão na vida, a de cumprir o desejo de continuidade dessas pessoas e realizar o sonho dos avós de terem um neto', disse Rosenblum.

'Também acho que essa opção é muito melhor do que a doação anônima de um banco de sêmen, pois assim a criança terá algo muito mais próximo a uma família normal. Ela saberá quem foi seu pai, quem são seus avós, seus tios, e receberá muito amor da família, dos dois lados', acrescentou.

Controvérsia

A ideia do testamento biológico gera polêmica no país. Segundo a promotoria geral da Justiça de Israel, que se opôs à entrega do sêmen aos avós no caso de Pozniansky, esse procedimento 'não necessariamente seria para o bem da criança, pois ela já nasceria órfã'.

Para os promotores, 'a lei defende o direito da mulher de ser mãe, mas não o direito dos avós de serem avós'. O juiz, no entanto, decidiu em favor do pedido dos avós.

'Meu objetivo é cumprir o testamento deixado por essas pessoas e possibilitar que seus pais, que já perderam o que tinham de mais precioso, possam realizar seu desejo de continuidade', disse Rosenblum.

De acordo com a advogada, a ONG Nova Familia já possui 'o primeiro banco de testamentos biológicos no mundo', que integra cerca de mil pedidos.

Atualmente, existem em Israel cerca de 100 famílias de pessoas que morreram e que têm em mãos testamentos biológicos assinados por seus filhos.

'Já trabalho com essa ideia há muitos anos mas só agora as pessoas começaram a entender seu caráter revolucionário', afirmou.

Na semana passada o maior canal de TV local dedicou uma longa reportagem a esse tema. Segundo Rosenblum, desde então o telefone não para de tocar.



sábado, 1 de fevereiro de 2014

Quando um neurocientista se descobre psicopata

Uma experiência parecida já foi relatada no excelente livro autobiográfico "Uma Mente Inquieta", de Kay Redfield Jamison, mas James Fallon parece ter ido mais fundo ao relacionar genética com determinismo comportamental.


A matéria foi publicada no UOL:

Pesquisador se descobre psicopata ao analisar o próprio cérebro

Um neurocientista americano que fazia estudos com criminosos violentos descobriu, por acaso, que ele próprio tinha "cérebro de psicopata".

Casado e pai de três filhos, James Fallon, professor de psiquiatria e comportamento humano da University of California, Irvine (UCI), disse à BBC Brasil que a descoberta fez com que ele reavaliasse seus conceitos a respeito de quem era. E transformou suas convicções enquanto cientista.

A experiência de Fallon, descrita no livro The Psychopath Inside, teve grande repercussão na internet.

Comentando o caso, um neurologista ouvido pela BBC disse que estamos interpretando os conhecimentos gerados pela genética de maneira "perigosa".

"Os profissionais estão atribuindo importância excessiva para a carga genética de uma pessoa, como se isso, por si só, fosse capaz de determinar o futuro de um ser humano", disse Eduardo Mutarelli, professor do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

Para ele, a experiência de Fallon ajuda a reequilibrar o debate que contrapõe a influência da herança genética à do meio (nesse caso em particular, a influência civilizadora da família e da sociedade sobre o indivíduo).

Revelação perturbadora

A descoberta de Fallon aconteceu em 2005, quando ele analisava tomografias de cérebros de assassinos em série na universidade. Ele queria ver se encontrava alguma relação entre os padrões anatômicos dos cérebros desses pacientes e seu comportamento.

Fallon explicou que, para ter uma base de comparação, tinha colocado na pilha tomografias de membros de sua própria família - a ideia era usá-los como modelos de cérebros "normais".

Ao chegar ao fim da pilha, onde estavam os exames de sua família, o cientista viu uma tomografia que mostrava um padrão claro de patologia. "O exame mostrava baixa atividade em certas áreas dos lobos frontal e temporal que estão associadas à empatia, moralidade e ao auto-controle".

Fallon contou que, no começo, pensou que fosse um engano. Mas feitas as checagens, o neurocientista, que estudava psicopatas há mais de duas décadas, viu-se às voltas com uma realidade um tanto quanto incômoda: o cérebro representado naquele exame era seu.

"As mesmas áreas do cérebro estavam completamente apagadas, como nos piores casos que eu tinha visto", disse Fallon.

Para se certificar, Fallon fez mais algumas investigações.

Exames do seu DNA confirmaram que ele tinha genes alelos associados à ausência de empatia e comportamento agressivo e violento.

Fallon também se submeteu a um teste usado por muitos pesquisadores e psicólogos para avaliar tendências antisociais e psicopáticas, a Robert Hare Checklist.

"Psicopatas alcançam acima de 30 pontos no teste de Robert Hare", disse Fallon. "A pontuação máxima é 40. Eu alcanço 18, 20 ou 22. Tenho vários traços em comum com psicopatas, só não sou criminoso. Nunca matei nem estuprei ninguém e prefiro vencer uma discussão com argumentos do que com força física", diz.

Charme perigoso

Fallon contou que quando compartilhou suas descobertas com a família e com amigos, eles não se surpreenderam. Gradualmente, o neurologista começou a se ver do ponto de vista das pessoas que o conheciam bem.

"Tive várias conversas reveladoras com minha mãe. Ela me disse que sempre percebeu um lado sombrio em mim e tomava cuidado especial para neutralizar essas tendências e incentivar outras, mais positivas", conta.

Nessas conversas, a mãe também contou ao filho que vários antepassados dele pelo lado paterno tinham sido criminosos temidos. Entre eles, Lizzie Borden, acusada de matar o pai e a madrasta em 1892.

Para a esposa, era como se existissem dois James Fallon convivendo num único homem.

"Sou casada com duas pessoas, uma é inteligente, engraçada e afetuosa. A outra é um sujeito perverso, de quem eu não gosto", disse a mulher do neurologista em uma entrevista para a TV.

"Tenho muito jeito para lidar com estranhos, faço muita caridade. Mas sou uma decepção como marido. Posso ver um bebê que não conheço e ficar com os olhos cheios de lágrimas, mas não sinto uma conexão emocional profunda com minha própria família", diz.

Fallon descreveu alguns dos traços típicos de um psicopata: "Psicopatas possuem um narcisismo agressivo, charme, desenvoltura aliada a superficialidade, senso de superioridade, tendência a manipular, são emocionalmente rasos, não sentem culpa, remorso ou vergonha".

"Podem ser magnânimos e generosos, mas são emocionalmente frios", afirma.

Teria Hitler, por exemplo, sido um psicopata?

"Não. Hitler era capaz de sentir empatia pelas pessoas e tinha relacionamentos próximos, então eu diria que ele não era um psicopata. Já Stalin, por exemplo, tenho quase certeza de que sim. Ele não era próximo nem dos próprios filhos", observa.

"A capacidade - ou não - de sentir empatia é essencial para se establecer se uma pessoa é um psicopata", diz o neurologista.

Amor de mãe

James Fallon diz não ter dúvidas de que foi o amor da família que impediu que ele realizasse seu "potencial" e se tornasse um criminoso violento.

"Sou uma pessoa agressiva e vingativa, gosto de manipular as pessoas, sinto prazer no poder. Mas todos foram tão amorosos comigo, tenho uma mãe afetuosa e uma esposa maravilhosa", afirma.

"Além disso, não tive experiências de abandono, abuso ou traumas violentos na infância. Tudo isso neutralizou minha biologia", relata.

O neurologista confessou que não teria feito essa afirmação cinco anos antes. "Eu costumava achar que a genética era tudo. Hoje, estou convencido de que a biologia é importante, mas a genética pode ser modificada pelo meio ambiente", diz.

Gene X meio

As revelações de James Fallon, descritas no seu livro e em palestras - algumas disponíveis na internet - revivem um debate que há muito intriga especialistas: somos produto da nossa herança genética ou do meio em que vivemos?

Para o neurologista da USP e do Hospital Sírio Libanês Eduardo Mutarelli, o caso de Fallon reforça o papel da sociedade (ou seja, do meio) na formação do indivíduo. E ajuda a combater uma certa tendência "determinista" na forma como nosso potencial genético vem sendo interpretado por médicos hoje.

"A genética hoje trabalha muito com probabilidades, com potencial genético e fatores de risco", disse Mutarelli.

O médico citou como exemplo doenças como o mal de Alzheimer ou o mal de Parkinson.

"Com o conhecimento atual, sabemos que existe uma certa carga genética associada a essas doenças. Mas você carrega um certo fator de risco e isso vai se transformar em doença caso outras coisas contribuam para isso", explicou.

"Você não se cuida, não come direito, esses são fatores de risco para que a pessoa venha a desenvolver a doença", observa.

Mas trazendo a discussão de volta para o caso de James Fallon, Mutarelli faz uma ressalva: "No caso dele, se ele tem um exame de imagem de cérebro que é igual ao de um psicopata, ele só não é psicopata porque foi bem educado".

"O lobo frontal está desregulado, a alteração existe na experiência dele e a ressonância mostra a alteração, ou seja o gene foi ativado. Ele só não é um serial killer por causa da família", reforçou o professor.

E concluindo: "O jeito de mudar o mundo é educando".



quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Vem aí o cruzamento de tomate com batata, a tomatata?

Apesar dos problemas financeiros e da decadência por que passa, a Redação da Veja deve estar eufórica. 

Afinal, se for verdadeira essa notícia do Estadão, o vexame histórico que a revista semanal passou 30 anos atrás, por ocasião do episódio "boimate", pode ser pelo menos amenizado.

A revista da Editora Abril poderá dizer, por exemplo, que o caminho para o "boimate" continua aberto, é só uma questão de tempo para obtê-lo e que eles é que foram visionários, não é mesmo?

Naquela edição de 27 de abril de 1983, a Veja publicou como informação séria a pegadinha inventada pela revista News Science para entreter seus leitores no 1º de abril britânico daquele ano, dizendo que cientistas haviam cruzado boi com tomate, criando o híbrido "boimate".

Ao "comer barriga" (gíria do meio jornalístico para notícia falsa), a Veja entrou para o Olimpo do anedotário da imprensa mundial, no qual estará na rubicunda companhia quatrocentona do Estadão se a notícia abaixo for mais um 1º de abril extemporâneo.

Pelo menos, o Estadão tem um vídeo para ilustrar a matéria, o que era impossível para a Veja na década de 80, época em que a expressão "engenharia genética" mal aparecia nas visões futuristas:




Tomate e batata são produzidos na mesma planta na Inglaterra

Empresa de agronegócio garante que sabor melhorou na planta batizada de 'Tomtato', que no Brasil poderia se chamar 'Tontata' ou 'Batamate'

SÃO PAULO - A empresa agrícola britânica Thompson & Morgan desenvolveu uma planta híbrida que produz ao mesmo tempo batatas e tomates

A experiência não é nova, mas é a primeira vez que pode funcionar em escala comercial.

A nova planta foi batizada na Inglaterra de TomTato, mistura das palavras em inglês 'tomatoes' e 'potatoes'. No Brasil poderia ser chamada de 'tomtata' ou 'batamate'.

Segundo reportagem da BBC, a empresa de agronegócio da cidade de Ipswich disse que as plantas híbridas não foram geneticamente modificadas.

O especialista Guy Barter, da Sociedade Real Horticultural, disse à BBC que está estudando a nova planta com "real interesse".

Ele disse que muitas dessas plantas - criadas por uma técnica conhecida como enxerto - já foram testadas antes, mas até hoje não haviam sido transformadas em um agronegócio rentável.

"Estamos analisando os resultados com interesse real, porque a Thompson & Morgan é uma empresa muito respeitável, e não descartamos que possa ser uma planta muito valiosa para eles", disse Barter.




sexta-feira, 14 de junho de 2013

Suprema Corte dos EUA rejeita pedido de patente de DNA humano

Vivemos num mundo em que a indústria farmacêutica e as pesquisas laboratoriais não são exatamente o que deveriam ser, pelo menos naquilo que delas se espera na, digamos, plenitude: que sejam centros de cura efetiva e de democratização do acesso à saúde.

As razões para tanto, como você deve imaginar, se resumem numa palavra só: lucro. Tanto que tinha empresa até querendo, por assim dizer, "privatizar" o DNA, que é a estrutura básica gratuita que nos une, nos iguala e nos torna a todos seres humanos.

É nesse aspecto que se insere o caráter histórico da decisão - já aguardada há um bom tempo - que a Suprema Corte norteamericana tomou ontem, 13/06/13, que ainda dará muito pano para manga, mas aponta um caminho mais seguro para que os avanços da medicina sejam estendidos a toda a humanidade a custo zero ou a preços minimamente aceitáveis.

A notícia é do UOL:

Suprema Corte dos EUA decide que DNA humano não pode ser patenteado

A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu nesta quinta-feira (13) que empresas não podem patentear uma sequência de genes humanos, pois o DNA é um "produto da natureza", e não uma "invenção humana".

Dos 23.688 genes identificados no banco de dados do Centro Nacional de Informação Biotecnológica norte-americano, 4.382 têm pedidos expressos de propriedade intelectual – isso significa que quase 20% do genoma humano é patenteado por universidades, instituições privadas e de pesquisa científica.

A medida do principal tribunal de justiça norte-americano, porém, garante que os genes copiados artificialmente e replicados, o chamado DNA complementar, podem ser protegidos por lei. "Um segmento de DNA de origem natural é um produto da natureza e não pode ser patenteado simplesmente porque foi isolado, mas o DNA complementar pode ser patenteado porque não se produz de maneira natural", definiu o juiz Clarence Thomas na sentença.

A decisão unânime dos nove juízes, que afeta diretamente o mercado de biotecnologia do país, foi baseado numa disputa travada ainda em 2005 entre a Myriad Genetics Inc, companhia de Utah que detém a patente dos genes BRCA 1 e BRCA 2, e a ONG American Civil Liberties Union e a Fundação de Patentes Públicas norte-americana, que representam associações médicas e defendem os direitos dos pacientes.

Desde 1997, o monopólio impedia que pesquisadores fizessem experimentos com esses genes, cujas mutações indicam maior risco de câncer de mama e ovário, sem obter uma permissão e pagar uma taxa para a Myriad.

De acordo com Sheldon Krimsky, cofundador do Conselho de Genética Responsável dos Estados Unidos, nem mesmo Angelina Jolie poderia ter uma segunda opinião sobre os testes que estimaram 87% de risco de a atriz desenvolver câncer de mama no futuro e 50% de câncer de ovário, pois a companhia tinha exclusividade nesses sequenciamentos.

"Myriad patenteou uma parte do genoma humano. Isso significa que ninguém mais podia usar essa sequência para fazer pesquisa adicional, criar um novo teste ou conduzir um teste secundário. Ninguém mais podia dar uma segunda opinião, porque a Myriad tinha controle exclusivo sobre eles", afirma o pesquisador da Universidade Tufts.

Os advogados alegavam na ação que, ao "isolar e extrair" o conteúdo genético, a Myriad poderia enquadrar os genes na categoria de "invenções humanas". Para a companhia, a quebra dessas nove patentes vai desestimular futuras pesquisas, pois o avanço médico é fruto de consideráveis investimentos financeiros.

A Suprema Corte reconheceu que a empresa "descobriu um gene importante e necessário", mas ponderou que "descobertas tão revolucionárias, inovadoras e brilhantes como esta não se aplicam por si só" na lei de patentes.

"As leis da natureza, os fenômenos naturais e ideias abstratas são ferramentas básicas do trabalho científico e tecnológico que não se inserem no âmbito da proteção de patentes."



sexta-feira, 3 de maio de 2013

Cientistas sugerem que a vida seja muito mais antiga que a Terra. E agora?

A matéria foi publicada pelo portal Ciência Online com base em artigo do MIT Technology Review:

A vida poderá ser mais velha que a própria Terra?

Aplicando uma máxima de ciência da computação à biologia emerge uma possibilidade intrigante sobre se a vida existia antes da Terra existir e pode ter originado fora do nosso sistema solar, dizem cientistas.

A Lei de Moore é a observação de que os computadores aumentam exponencialmente em complexidade a uma taxa de cerca de duas vezes os transistores de circuito integrado a cada dois anos.

Se você aplicar a Lei de Moore para a taxa de complexidade computacional dos últimos anos e trabalhar para trás, você vai voltar para a década de 1960, quando o primeiro microchip era, na verdade, inventado.

Agora, dois geneticistas têm aplicado a Lei de Moore para a taxa na qual a vida na Terra cresce em complexidade - e os resultados sugerem que a vida orgânica veio pela primeira vez à existência muito antes da própria Terra.

Alexei Sharov do Instituto Nacional sobre o Envelhecimento, em Baltimore, e teórico biólogo Richard Gordon do Gulf Specimen Marine Laboratory, na Flórida, usaram a Lei de Moore, substituíram os transistores por nucleotídeos - os blocos de construção de ADN e RNA - e os circuitos com material genético, e fizeram as contas.

Os resultados sugerem que a vida apareceu pela primeira vez há cerca de 10 biliões de anos, muito mais velha do que a idade da Terra, projetada para 4,5 bilhões de anos. Assim, mesmo se for matematicamente possível para a vida ter existido antes da Terra, é fisicamente possível? Novamente, Sharov e Gordon disseram que sim.

Como o nosso sistema solar estava a formar-se, organismos pré-existentes semelhantes a bactérias, ou nucleotídeos mesmo simples de uma parte mais antiga da galáxia, poderiam ter chegado à Terra engatando uma viagem interestelar, em cometas, asteróides ou outros detritos espaciais inorgânicos - um processo teórico chamado de panspermia.

Os cálculos dos cientistas não são prova científica de que a vida antecede a Terra - não há nenhuma maneira de saber com certeza a taxa a que a complexidade orgânica aumentou e mesmo se foi constante em qualquer ponto da história do universo. Trata-se de um exercício de pensamento ou um ensaio, ao invés de uma teoria, disse Sharov.

A ideia de Sharov e Gordon levanta outras possibilidades intrigantes. Por um lado, "a vida antes de terra" desmascara o a ideia da ficção científica das espécies exóticas cientificamente avançadas. Se a complexidade genética avança a um ritmo constante, então o desenvolvimento social e científico de qualquer outra forma de vida alienígena na galáxia Via Láctea seria mais ou menos equivalente ao dos seres humanos.

O estudo de Sharov e Gordon traça um paralelo teórico e prático entre a origem da vida e a relação entre vida e conhecimento. A evolução humana não ocorre apenas no genoma, que ocorre epigeneticamente, ou dentro da mente, como a memória de tecnologia, linguagem e cultural todos se tornam mais complexas. "A complexidade funcional de organismos [é] codificada no genoma parcialmente hereditário e parcialmente na mente perecível", explicam no artigo.

Ao aplicar a Lei de Moore - uma teoria originalmente concebida para explicar o desenvolvimento tecnológico - na vida, os geneticistas não estão a simplificar a evolução, eles estão a reconhecer a sua extraordinária complexidade, dizem eles.

Embora alguns possam ser cético em relação às conclusões de Sharov e Gordon, "a contaminação com esporos de bactérias a partir do espaço parece a hipótese mais plausível que explica o aparecimento precoce da vida na Terra", dizem no artigo, que foi publicado online na revista Arxiv.

Sharov disse que se tivesse que apostar, diria que "é 99% verdade que a vida começou antes da Terra". O relatório completo está disponível nos arquivos online da Cornell University Library.



terça-feira, 23 de abril de 2013

Darwin e o instinto moral

Alguns dias atrás (11/04/13), repercutimos aqui um artigo sobre o efeito Dunning-Kruger, que, no final, cita uma frase de Charles Darwin que abre o seu livro "A Descendência do Homem":"a ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento".

Já no domingo, dia 21/04/13, reproduzimos aqui uma matéria do mesmo jornal sobre o mais recente livro de Steven Pinker, "Os Anjos Bons da Nossa Natureza", que também fala sobre a diminuição da violência humana ao longo dos milênios.

Naquele mesmo dia 21 de abril, a Folha de S. Paulo trouxe uma resenha muito interessante de Carlos Alberto Dória sobre essa mesma obra esquecida de Darwin, "A Descendência do Homem", baseada na obra de Patrick Tort, "L'Effet Darwin: Séléction Naturelle et Naissance de la Civilisation" (Seuil, 2008).

No meio de tantas informações interessantes, não deixa de ser um tanto quanto, digamos, "patrioticamente" constrangedor, perceber como o contato de Darwin com o triste fenômeno da escravidão no Brasil do século XIX foi decisivo na formulação de seu pensamento.

Eis a íntegra do artigo:

Antropologia de Darwin: Os fundamentos materiais da moral

CARLOS ALBERTO DÓRIA

RESUMO "A Descendência do Homem" (1871), de Charles Darwin, foi praticamente ignorado em nome da ideia liberal de "guerra de todos contra todos". Releituras e pesquisas recentes em torno do livro revelam uma verdadeira teoria antropológica darwiniana que aponta para as raízes biológicas da moral.

Um dos casos mais intrigantes da epistemologia das ciências biólogicas é a quase absoluta ignorância que se seguiu à publicação de "A Descendência do Homem" (1871), de Charles Darwin.

Quase ninguém se deu conta de que a obra encerrava uma revolução no conhecimento, tão importante quanto "A Origem das Espécies" (1859).

Tão certos estavam os seguidores e detratores de Darwin de que se tratava de uma "continuação" ou "aplicação" da "Origem" à espécie humana, contestando a natureza divina do homem, que nem se deram ao trabalho de lê-la. Do mesmo modo, parte do trabalho --sobre o mecanismo da seleção sexual-- foi considerado um ensaio independente, sem conexão com a origem do homem. Passou em brancas nuvens esta que é considerada agora a "segunda revolução darwiniana".

A obra vale por não repetir argumentos da "Origem", constituindo uma verdadeira antropologia na qual se fundem as dimensões biológica e cultural, como nunca se vira antes e não se viu depois, pois as ciências humanas se desenvolveram de costas para a biologia e a cultura foi considerada algo além do mundo orgânico ("superorgânica") --isto é, a vida simbólica já aparece como plenamente constituída.

Essa antropologia só é possível porque Darwin não vê diferenças de natureza, e sim de grau, naquilo que une o homem às demais espécies animais. As habilidades, os instintos, a inteligência, a capacidade de comunicação (linguagem), os comportamentos são caracteres animais difundidos por infinitas espécies.

O impacto político dessa antropologia é enorme. Ao "animalizar" o homem e seus instintos mais "nobres", deixava a igreja falando sozinha, mesmo sem haver pensado a obra como um libelo antideísta. O livro mostra que os homens pertencem a uma espécie polimórfica, na qual todos são iguais, e as diferenças secundárias, como a cor da pele, foram desenvolvidas ao longo de milênios, através de escolhas estéticas de grupos humanos.

POLÍTICA

Mas por que Darwin escreveu esse livro, se as ciências humanas não eram seu foco de atenção? A razão foi de ordem política e humanitária, conforme hoje se sabe, graças ao estudo dos biógrafos de Darwin sobre suas anotações e diários (Adrian Desmond e James Moore, "Darwin's Sacred Cause: Race, Slavery and the Quest for Human Origins", Penguin Books, 2009).

Quando Darwin esteve no Brasil, horrorizou-se com a escravidão e, desde o distante ano de 1837, começou a reunir elementos para provar a origem comum e a igualdade entre os homens no plano biológico, de modo a sepultar as principais teses dos escravistas, com destaque para a tese da poligenia (tomando raças ou variedades como se fossem espécies "criadas" independentemente, segundo sugeria a leitura que faziam da Bíblia) com a qual "justificavam" o direito à escravizar seres aparentemente distintos.

Do ponto de vista historiográfico, a trajetória intelectual de Darwin também é surpreendente: uma obra sobre o homem, provando sua igualdade (monogenia), foi ideia anterior à concepção da seleção natural. Assim, se o estudo sobre a origem das espécies favoreceu sua compreensão sobre a animalidade do homem, ela contribuiu igualmente para o amadurecimento de sua antropologia.

A nova leitura esclarecedora de "A Descendência do Homem" deve-se ao trabalho de quase 20 anos do epistemólogo francês Patrick Tort, cujo livro "L'Effet Darwin: Séléction Naturelle et Naissance de la Civilisation" (Seuil, 2008) é síntese dessa trajetória persistente.

A primeira questão que Tort busca explicar é o desprezo pela antropologia de Darwin. E sua explicação é relativamente simples: a ideia de "luta pela vida" era extremamente conveniente para a economia política liberal; reforçava a noção de luta de "todos contra todos" e triunfo dos mais fortes, e os evolucionistas liberais, como Herbert Spencer, a ela se aferraram.

"A Descendência do Homem", ao contrário, é a obra na qual Darwin sofistica os mecanismos de seleção --faz até um mea-culpa por haver exagerado o papel da seleção natural-- introduzindo na história natural as noções cruciais da cooperação e "altruísmo".

Contudo, só nos países sem tradição de economia política liberal esses mecanismos de evolução foram percebidos e valorizados, como na Rússia czarista, resultando em algumas obras discrepantes em relação à interpretação dominante, como a de Peter Kropotkin, "Ajuda mútua: Um Fator de Evolução" (1888).

Em "A Descendência do Homem", Darwin mostra como esse animal surge da evolução de formas mais simples através da convergência fortuita de vários processos: a pedestrialização (quando o animal desce das árvores), o bipedismo, a encefalização (aumento do cérebro) e o desenvolvimento da linguagem simbólica. Mas não foram só as transformações físicas que Darwin captou. Ele indicou que, ao se desenvolver no plano social, criou-se uma ruptura com o processo anterior, no qual, por força de pressões ambientais, os animais se adaptavam mediante a transformação física milenar.

O Homo sapiens já não se transforma fisicamente, mas age sobre o ambiente, adaptando-o às suas necessidades (produz vestimentas, habitação etc.). Do mesmo modo, o instinto animal evolui e aprofunda seu caráter social, impondo formas cooperativas, tornando-o um animal social bastante sofisticado, capaz de várias ações altruístas.

Mas por que o altruísmo? Não se trata da manifestação de uma "essência humana", fruto de um sopro divino, mas de uma necessidade material da vida. O instinto social é característica de várias espécies --como as abelhas, as formigas e vários mamíferos superiores. Através dele, a reprodução do grupo entra em causa, condicionando as ações e escolhas individuais.

NOVO PERCURSO

No homem, desde a divisão de trabalho entre macho e fêmea para cuidar da cria (longamente inabilitada para, sozinha, prover a vida) até o desenvolvimento das instituições sociais, como a ciência ou a medicina, um novo percurso evolutivo se instaura quando crianças, velhos e indivíduos menos aptos são protegidos, em vez de eliminados.

Uma seleção natural de instintos e comportamentos antieliminatórios (ou "antisselecionistas") vai tomando corpo e reprimindo as ações eliminatórias.

O resultado cego desse longo processo é a civilização, isto é, a repressão sistemática da "lei do mais forte" na medida em que padrões encontram formas de se impor ao grupo e se sobrepor aos do indivíduo. Tort verá nesse mecanismo a "reversão da seleção natural", ou o nascimento da civilização sem ruptura com a dimensão biológica da vida. Em outras palavras, a base material, natural, da moral.

"A Descendência do Homem" traz uma segunda parte, sobre a "seleção sexual". Nela, o cientista inglês mostra justamente a necessidade do altruísmo --a capacidade de dar a vida por outros membros da espécie-- como fator de evolução. Por que em certas espécies, notadamente de aves, o macho é muito mais belo e exuberante que as fêmeas? Simplesmente porque, ao se desenvolverem dessa forma, eles têm mais chances de serem "escolhidos" pelas fêmeas e criarem descendência. Mas o pavão, por exemplo, ao desenvolver sua beleza perde a capacidade de voar, ficando à mercê dos predadores. Essa inabilitação adquirida só se explica pelo "altruísmo": correr riscos, o autossacrifício em nome do outro, da descendência.

Por esse mecanismo da seleção sexual, o homem também terá capacidade de alterar seus caracteres secundários. Sendo espécie polimórfica, variará na cor da pele e outros traços físicos exteriores ao perseguir padrões de beleza restritos a cada grupo humano isolado. O "belo ideal" é um conceito social que se materializa nos indivíduos que ocupam a chefia do grupo, nas mulheres que utilizam adornos, nas estátuas que representam os deuses e assim por diante.

Esses padrões se tornam dominantes na medida em que passam a intervir nas escolhas matrimoniais e, por esse processo, disseminam-se pelo grupo. Nada disso precisa ser consciente para agir sobre o homem, como o instinto não é consciente no animal.

Caminhos como esse mostram, mais de um século depois, a dimensão insuspeitada de uma obra que parecia "caduca" aos olhos das ciências naturais e ciências humanas. Trata-se de um clássico que, finalmente, impõe sua grandeza intelectual.



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