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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 4

Lutero perante Carlos V na Dieta de Worms em 1521

NINGUÉM SERÁ JUSTIFICADO PELAS OBRAS

Pois, por obras da lei, ninguém será justificado.
(Gálatas 2:16)

Até aqui, as palavras são de Paulo que falou a Pedro. Nelas, resumiu o artigo principal da doutrina cristã, que faz verdadeiros cristãos. Agora, ele muda o discurso aos gálatas a quem escreve e conclui, dizendo: “Como a situação é essa que somos justificados pela fé em Cristo, conclui-se que, por obras da lei, não será justificada toda carne”.

“Não toda carne” é um hebraísmo que peca contra a gramática. Lemos, Gn 4[.15]: “Para que não o matasse todo aquele que o encontrasse”. Os gregos e os latinos não falam assim. “Não todo aquele” quer dizer “ninguém”. “Não toda carne” quer dizer “nenhuma carne”. Mas, em latim, “não toda carne” significa “alguma carne”. O Espírito Santo, todavia, não observa tal rigor da gramática.

Carne, contudo, não significa, me Paulo, aqueles pecados grosseiros como os sofistas supõem, pois esses, ele costuma mencionar por seus nomes explícitos, como, por exemplo, adultério, fornicação, imundícia, etc., Gl 5[.19ss]. Para Paulo, carne significa o mesmo que para Cristo, que diz em Jo 3[.6]: “O que é nascido da carne é carne”. Carne, portanto, significa toda a natureza do homem, com a razão e todas as suas forças. “Essa carne”, diz, “não é justificada por obras, nem mesmo, por obras da lei”. Não diz: “A carne não é justificada por obras contra a lei, como violência, bebedeira, etc., mas por obras feitas segundo a lei, as quais são boas”. Para Paulo, portanto, carne significa a mais alta justiça, sabedoria, culto, religião, intelecto, vontade, por maiores que sejam nesse mundo. Por isso, o monge não é justificado por sua ordem, nem o sacerdote pela missa ou pelas horas canônicas, nem o filósofo pela sabedoria, nem o teólogo pela teologia, nem o turco pelo alcorão nem o judeu por Moisés. Em suma, por mais sábios e justos que sejam os homens, segundo a razão e a lei divina, não são justificados, contudo, por suas obras, méritos, missas, por sua mais alta justiça e pela prestação de cultos.

Os papistas não creem nisso, mas, cegos endurecidos, defendem suas abominações contra a consciência e perseveram nessa sua blasfêmia e, ainda, agora, vangloriam-se com estas palavras: “Quem faz essa e aquela obra merece a remissão dos pecados; prometemos, com certeza, a vida eterna a quem serve a essa ou àquela santa ordem”. É uma blasfêmia indizível e horrível atribuir às doutrinas dos demônios, aos estatutos e regras dos homens, às ímpias tradições do papa e às obras dos monges aquilo que Paulo, o apóstolo de Cristo, recusa a atribuir à lei divina e às suas obras. Se ninguém é justificado por obras da lei divina, segundo o testemunho do apóstolo, muito menos, alguém será justificado pelas regras de Benedito, de Francisco, etc., em que não se encontra nenhuma sílaba a respeito da fé em Cristo, mas, apenas, insiste-se nisto: “Quem observa essas coisas, tem a vida eterna”.

Por isso, sempre me admirei muito que, por tantos séculos, em que perduravam essas seitas da perdição, a Igreja pôde subsistir em meio a tantas trevas e erros. Houve alguns que deus chamou, simplesmente, pelo texto do Evangelho, que permanecia em seus sermões, e pelo Batismo. Esses andavam perante deus na simplicidade e humildade do coração, pensando que, somente, os monges e os que foram ordenados pelos bispos fossem santos e religiosos, mas eles, profanos e seculares que, de forma alguma, poderiam ser comparados com aqueles. Não encontrando eles em si mesmos, nem boas obras, nem méritos que pudessem contrapor à ira e ao juízo de Deus, refugiaram-se na paixão e morte de Cristo e, nessa simplicidade, foram salvos.

Horrível, porém, e infinita é a ira de Deus que, através de tantos séculos, puniu a ingratidão e o desprezo do Evangelho e de Cristo nos papistas, entregando-os a uma mente reprovável. Negando totalmente a Cristo no que diz respeito à necessidade dele e blasfemando-o, acolheram, no lugar do Evangelho, as abominações das regras e tradições humanas as quais, unicamente, veneraram e preferiram à Palavra de Deus até que, finalmente, foi-lhes proibido o matrimônio e foram forçados àquele celibato incestuoso. Então, também, foram poluídos, exteriormente, com toda a sorte de escândalos, adultério, devassidão, impureza, sodomia, etc. Esse era o fruto daquele celibato impuro. Assim, Deus, com justiça, entregou-os, interiormente, a uma mente reprovável e, exteriormente, permitiu que caíssem em tantos crimes, pois blasfemaram o unigênito Filho de Deus no qual o Pai quer ser glorificado, a quem entregou à morte, a fim de que os que nele creem fossem salvos por intermédio dele e não, pelas ordens deles. “Aos que me honram”, diz Deus em 1 Rs 2[sc. 1 Sm 2.30], “honrarei”. Mas Deus é honrado em seu Filho, Jo 5[.23]. Quem, pois, crê que o filho de Deus é nosso Mediador e Salvador, honra o Pai e Deus, por sua vez, o honra, isto é, orna-o com seus dons: a remissão dos pecados, a justiça, o Espírito Santo e a vida eterna. Do outro lado, “os que me desprezam”, diz Deus, “serão desmerecidos” [1 Sm 2.30].

A conclusão principal, portanto, é esta: “Por causa das obras da lei, ninguém será justificado”. Dando a essa conclusão dimensões mais abrangentes e percorrendo todas as posições sociais, concluirás que um monge não será justificado por sua ordem, nem uma freira pela castidade, nem um cidadão justificado por sua honradez, nem um príncipe por sua beneficência, etc. A lei de Deus é maior que o mundo inteiro, porque abrange todos os homens e as obras da lei excedem, extremamente, às obras seletivas dos homens de justiça própria. No entanto, diz Paulo, que nem a lei nem as obras da lei justificam. Uma vez estabelecida a proposição, o apóstolo começa, agora, a confirma-la com argumentos. E o primeiro argumento é, por assim dizer o oposto da conclusão.

(LUTERO, Martinho. Comentário à Epístola aos Gálatas, 1531. MARTINHO LUTERO, Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2008, Vol. 10, pág. 147-149)



sábado, 26 de outubro de 2013

Por uma vida mais simples e sustentável

Há famílias inteiras mudando seu comportamento com vistas a um mundo melhor. Uma gota no oceano, mas estão fazendo a sua parte.

A matéria é do G1 Paraná:

Famílias urbanas preferem vida simples a facilidades modernas

Casal de Curitiba, com dois filhos pequenos, trocou o carro por bicicleta.
Com 80% a menos de renda, dentista diz que vida agora faz mais sentido.

Substituir o carro pela bicicleta e a fralda descartável por fralda de pano são parte das escolhas que transformam a cada dia a vida do casal Luis e Lia Patrício, analista de informática e veterinária, respectivamente. Moradores de Curitiba, eles optaram em viver de uma maneira mais simples.

A televisão e outros equipamentos eletrônicos foram abolidos da vida deles. Eles mantêm apenas um laptop para manter contato com familiares que não moram na mesma cidade. Uso de sacolas plásticas no supermercado e consumo carne também foram práticas eliminadas dos hábitos do casal.

“É uma escolha que a gente fez muito consciente e que a gente continua fazendo todo dia. A gente acha que é viável. A gente está satisfeito com isso, a gente é feliz com isso”, conta Lia. Pais de duas crianças – Ana Maria de três anos e Rafael, de um –, o casal passa os valores nos quais acreditam desde cedo para os filhos.

Patrício leva os meninos à escola todos os dias de bicicleta. Às 7h30, eles saem de casa, faça chuva ou sol. O tradicional “tempo cinza” da capital paranaense, com dias frios e chuvosos, não é empecilho nem desculpa para eles. Munidos com jaquetas, luvas, gorros, calças impermeáveis, botas e capas de chuva eles enfrentam o frio e a chuva. “Você não pode simplesmente desprezar [o mau tempo]. Quando está no inverno e está muito frio tem que sair agasalhado”, afirma Patrício.

Compostagem (um processo de transformação do lixo orgânico em adubo, que pode ser utilizado na agricultura, em jardins e plantas), horta no quintal de casa e a produção dos próprios alimentos também fazem parte do dia a dia da família. “A gente acha que faz muito sentido fazer o máximo de coisas que a gente pode para a gente mesmo. A gente tenta fazer o nosso pão, a nossa granola, o iogurte – o menos industrializado, que passe por menos linha de produção, o mais natural possível. Essa opção concorda mais com o nosso estilo de vida e deixa a gente mais confortável. Faz mais sentido”, explica Lia.

Saindo da inércia

A troca total do carro pela bicicleta foi em 2007, quando o analista de informática decidiu vender o veículo da família. Desde então, o casal começou a enxergar a vida de outra maneira. “A bicicleta foi o que tirou a gente da inércia. Fazer o pão, cuidar do lixo e não usar o saco plástico são coisas que aconteceram durante a humanidade inteira. A sociedade passou a maltratar tanto a natureza há pouco tempo. É um resgate, mas a gente não tem a ilusão de que já está salvando o mundo. A gente tem uma vida relativamente normal, ainda tem um longo caminho para ir. É uma decisão de cada dia. A gente vai descobrindo uma coisinha, um jeitinho novo de fazer e vai tentando agregar isso a nossa rotina”, diz Patrício.

“Quando você ocupa a mente com as coisas mais simples e mais básicas aí, naturalmente, você precisa fazer menos escolhas”, completa. O estilo de vida da família inclusive virou livro. Em setembro de 2013, Patrício lançou “Minha garagem é uma sala de estar”.

Convicto das escolhas, o analista de informática também reflete sobre a vida em sociedade. Segundo Patrício, umas das maiores ilusões do mundo atual é a independência. “Nós somos seres sociais e poder depender das outras pessoas ao invés de ser uma falha, uma fraqueza, na verdade, é a nossa força. É quando a gente está com outras pessoas, ajudando outras pessoas e aceitando essa ajuda é que a gente se sente parte de uma coisa maior. Uma das ilusões de hoje em dia é querer sair de casa, terminar a faculdade, conseguir um emprego para conseguir independência”, pondera.

Casa da Videira

Cláudio Oliver também é adepto da simplicidade como forma de vida. Tanto que, há quase seis anos, largou o consultório dentário onde trabalhava como dentista para viver uma vida com mais sentido, conforme ele mesmo diz. Oliver é coordenador da Casa da Videira, um coletivo definido como uma associação sem fins lucrativos que desenvolve iniciativas nas áreas ambiental e social em busca de um estilo de vida equilibrado e coerente, promovendo práticas regenerativas para o bem comum.

Na sede, uma casa no bairro Mossunguê, em Curitiba, o grupo almoça junto todos os dias. As refeições vêm quase que totalmente do quintal, onde eles criam pequenos animais e plantam hortaliças, legumes e frutas.

“A gente transformou o que era casa e o que sempre foi a casa nos últimos seis mil anos de civilização. A casa, a não ser a casa de pouquíssimos nobres, sempre foi um centro de produção. Um lugar onde se produz não só vida, mas se produzia coisas concretas: roupas, comida, a própria casa, os móveis. Muito recentemente, não estamos falando em mais de 60 anos, a gente vem em um processo, que se acelerou nos últimos 20 anos de uma maneira especial, no qual a casa deixou de ser um centro de produção e passou a ser um centro de consumo. É nisso que se centraliza o estilo de vida que a gente tenta colocar aqui”, define Oliver.

O dentista conta que, com a decisão de parar de atuar no consultório, a renda dele reduziu 80%. Mesmo assim, a vida que hoje ele leva faz mais sentido. Questionado se é mais feliz ao viver de uma maneira mais simples, ele diz: “Eu tenho muito mais momentos de alegria. Eu tenho menos estresse. Eu consigo perceber uma dose muito maior de lealdade na minha vida. Se isso tudo for sinônimo de felicidade, a resposta seria sim. Mas eu descobri que tem coisa que é bem mais importante do que ser feliz, é fazer sentido”.

“Eu não sei quanto custa o tempo que eu passo de qualidade com a minha filha. Eu não sei quanto custa a comida boa que eu como com os meus amigos todo dia. Eu não sei dizer quanto custa ou quanto custaria, isso é, se seria possível através do dinheiro, eu dormir do jeito que eu durmo, eu estar cercado de gente boa como eu estou. Eu avalio é que, antes, eu tinha uma angústia enorme de ter que ganhar dinheiro para conseguir coisas que me satisfizessem momentaneamente, alguma necessidade que eu supusesse que eu tinha e não, necessariamente, me desse alegria, prazer, tempo com a minha esposa e com a minha filha, com meus amigos, tempo para pensar, para estudar”, explica Oliver.

Simplicidade

O filósofo e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Jelson Oliveira, está escrevendo um livro sobre o tema: “Simplicidade”, previsto para ser lançado ainda em 2013. Ele relata que, com o crescimento do número de ofertas e de facilidades de acesso aos bens de consumo, as pessoas devem se dar conta da necessidade de “colocar freios voluntários”.

“Cada vez mais temos aumentado o excesso de oferta. Tudo é em excesso: informação, produtos, oferta desde educação até igreja. Em cada esquina tem alguém oferecendo ‘n’ oportunidades para a gente. Quanto mais isto acontece, mais a gente recua no tempo e mais a gente parece que quer buscar aquilo que Epicuro [filósofo grego] chamou de ‘simplicidade’ ou ‘autarquia’. Buscou a ideia de que a gente precisa viver encontrando dentro de nós mesmos os motivos da felicidade”.

De acordo com o professor, o conceito de sustentabilidade, tão em voga na atualidade, está diretamente relacionado à simplicidade. “Significa: eu posso optar por não fazer agora. Eu posso optar por não tomar banho de uma hora porque as gerações do futuro vão precisar de água. Eu não posso hipotecar essa possibilidade em troca da minha realização pessoal, individual, agora. Aí caímos no problema do individualismo da nossa cultura e do egoísmo. Somos sociedade de massa em que o indivíduo foi atomizado. A gente vive como se só que a gente faz, o nosso prazer, é só isso que interessa; e do ponto de vista da sociedade isto não é possível. Nenhuma sociedade se ergue sobre o egoísmo de um indivíduo”, explica.

Na avaliação de Oliveira, a iniciativa de viver de maneira mais simples é de pessoas que já tiveram acesso aos bens de consumo e perceberam o quão danoso pode ser no ponto de vista espiritual e da felicidade e, por essa razão, decidiram recuar.

Reflexão

Aos interessados em viver com mais simplicidade, o professor concede algumas dicas, como pensar sobre as ações e sobre a realidade para, então, dar o primeiro passo. “Não se trata de quebrar tudo que a gente tem e dizer ‘não, não quero’. Trata-se de refletir sobre como vamos usar essas coisas de uma forma mais intensa”.

“Meu exemplo é sempre o do vinho. Se eu compro um vinho, eu posso comprar um caro ou barato, não interessa quanto o que eu posso pagar no vinho, o que interessa é como eu vou usar este vinho. Eu bebo este vinho, chamei a pessoa que eu amo e bebo aquela noite e sou muito feliz. Qualquer coisa que eu tomar depois, muito mais caro ou melhor, meu corpo anula aquela possibilidade de que eu usufrua daquela segunda, terceira, ou quarta garrafa de vinho da mesma forma que usufruí da primeira”, exemplifica.

Ele orienta a mudança a partir de coisas práticas do dia a dia, como não pegar sacolas plásticas no supermercado, separar o lixo, deixar o carro em casa e usar a bicicleta. “Práticas cotidianas que advém de um cuidado, um gesto reflexivo”.

“A simplicidade é o valor mais urgente do nosso tempo. Eu me recuso a acreditar que o ser humano autêntico é esse ser humano da correria. É esse ser humano dos milhões de compromissos, cheio de dependências das coisas exteriores. Eu acho que o ser humano autêntico é o ser humano capaz de se relacionar de forma mais honesta, de forma mais bonita, mais justa com os outros, consigo mesmo, quem sabe com a natureza e, quem sabe, até com Deus”.



sábado, 12 de outubro de 2013

O primeiro peixe a gente nunca esquece


Já que o dia é dedicado às crianças, mais um vídeo que homenageia a simplicidade e delicadeza delas, com um garotinho que, pela primeira vez, consegue fisgar o seu primeiro peixe, e dá a ele o nome de "Liberdade".

E não é história de pescador...




quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Deus está nos detalhes


Interessante artigo de Rodrigo Petronio(*), sobre "a enormidade espiritual da pequenez", publicado no Valor Econômico de 19/07/13:

Deus não é grande

Em uma das minhas caminhadas cotidianas, fui surpreendido por uma pergunta um tanto estranha. Para não dizer mórbida. Supondo que Deus exista, qual seria o tamanho de Deus? Não é uma "boutade". Esse problema, se podemos chamá-lo assim, perturbou as mentes e os corações de centenas de teólogos, filósofos e cientistas ao longo dos últimos três mil anos. E tudo isso por causa da complexa relação existente entre grandeza e pequenez. É difícil não olharmos ao redor sem realçar a presença marcante dessas dimensões.

Adorno percebeu que até mesmo os valores precisam ser enxutos para ter eficácia. Por isso a sua "minima moralia". Como diria o filósofo e matemático Whitehead, pensamos em ideias gerais, mas vivemos o detalhe. O infinitamente grande tende a obscurecer a imaginação. Torna nossas faculdades cada vez mais genéricas. Dissipa-nos. Pensar nos bilhões e bilhões de constelações do Universo é um exercício de variáveis. Sonhar com o cosmo contido no grão de areia e com a flor silvestre abrangendo a amplidão celeste é obra de um poeta excepcional, como William Blake.

Talvez esse seja o motivo de Leibniz, uma das mentes mais brilhantes do século XVIII, ter se lançado com tanta ênfase à pesquisa do cálculo infinitesimal. Talvez por isso Pascal, no século XVII, após dissolver a natureza no abismo de espaços infinitos, tenha chegado à conclusão de que somos tudo perante o nada e nada perante o infinito. O homem não passaria de um caniço pensante. O infinitamente grande nos distancia da experiência mais primária. Obseda um contato afetivo. Torna-se uma conjectura. Liga-se à visão e à audição, os sentidos mais abstratos e espirituais, segundo Santo Agostinho. O infinitamente pequeno parece estabelecer uma estranha e invisível cumplicidade com o tato.

Seria o reino dos céus dos pequeninos? Há um mistério no ínfimo. De tal ordem que nos sugere realidades espirituais inenarráveis. São conhecidas as imagens de Cristo ao tratar de seu reino como um grão de mostarda. E a equívoca alegoria do camelo e do buraco da agulha. As enormes e policrômicas mandalas budistas, feitas com grãos de areia, destinam-se a ser dispersas pelo vento, tão logo estejam prontas. É constante na tradição taoísta comparar o ser humano a uma folha, um grão, um fruto, um inseto, uma semente ou mesmo a um verme. Os jainistas, uma antiga vertente do hinduísmo, têm o costume de andar com uma varinha amarrada na cintura, varrendo o chão à sua frente. Fazem-no para evitar pisarem em uma formiga ou um grilo, que, como tudo, contêm a centelha de Brahma.

Em uma parábola bíblica, Jesus chega a uma casa. Enquanto Maria se prostra de joelhos e o enaltece como o Salvador, Marta corre para apanhar água em uma bacia e tratar seus pés feridos. Na sua magistral interpretação, o místico Meister Eckhart nos diz que a atitude de Marta é muito mais sublime do que a de Maria. Pois amar a humanidade ferida de um Deus feito homem é muito mais espiritual do que adorar a divindade de um homem que se proclama Deus.

Para Eckhart, o pequeno gesto humano sobrepuja em virtude o grande gesto de adoração de Jesus como Deus, porque envolve mais desprendimento. Amar o desprendimento como essência da experiência espiritual fez de Eckhart um dos maiores místicos da humanidade. Por essas e outras interpretações, condenado pelo Santo Ofício, Eckhart desaparecera misteriosamente na floresta às margens do Reno. Talvez tenha se dissipado. Evanescido na luz. Talvez tenha retornado às trevas luminosas da deidade. Quem sabe fora sorvido por Deus em um botão de rosa ou nas ínfimas partículas da seiva vegetal.

A enormidade espiritual da pequenez ainda vai mais longe. Os egípcios inseriam escaravelhos-coração, amuletos de ametista em forma de escaravelho, dentro do peito das múmias. Concebiam esse pequeno animal como um guia dos Campos de Juncos, no mundo do além. Ele também o é para a tradição alquímica chinesa. Para os cabalistas, todo o Universo está contido na primeira letra do alfabeto hebraico. Não por acaso, a cabala é a fonte direta do magistral conto de Borges, "O Aleph", no qual o orbe pode ser visto, com todos os seus seres e atributos, em três dimensões, em todos os seus aspectos e em todas as suas perspectivas, em um minúsculo ponto no porão da casa de Beatriz Viterbo, na rua Garay, em Buenos Aires.

O padre Antonio Vieira, imperador da língua portuguesa, segundo Fernando Pessoa, dedicou um de seus mais engenhosos sermões a tratar do círculo do ventre de Maria. Seu fascínio era supor como a esfera de um ventre do tamanho de um punho pôde circunscrever Deus. Para explicá-lo, usa sem sucesso algumas das mais agudas metáforas da oratória e todos os recursos da filosofia escolástica. O mesmo ocorre com as imagens hiperbólicas do cardeal Nicolau de Cusa, no século XV, ao descrever Deus como infinitamente grande e infinitamente pequeno, por coincidência dos opostos.

Essa ênfase no enigma oculto do mínimo está presente até em uma das frases mais convencionais da história das ideias: Deus está no detalhe. Atribuída a autores tão díspares quando Platão, Vitruvio, Paul Valéry e Mies van der Rohe ou relegada a um divino anonimato, a frase designa a força da minoridade na dimensão intelectual humana. O impacto que o minúsculo exerce sobre nossos afetos.

Por outro lado, a pequenez pode ser uma ambígua forma de baixeza. O antropólogo alemão Hans-Jünger Greschat relata seu desconcerto ao chegar à Índia e ver ascetas se banhando em um esgoto com fezes. A biógrafa Karen Armstrong nos lembra que Buda, antes de chegar à via do caminho do meio, teria vivido durante anos com os "biddhus", ascetas radicais da floresta, alimentando-se dos próprios excrementos e atingido níveis infra-humanos de automortificação. Se tudo tem Brahma, desde as realidades celestes macrocósmicas até os seres mais vis, nada pode ser desprezado.

Em um contexto cristão do século XIII, a beguina Angela de Foligno, talvez radicalizando a parábola bíblica de Marta e Maria, assina surpreendentes descrições de seu tratamento dos leprosos. Após lavar os pés dos doentes, bebia a água viscosa. E confessa ao leitor: aquela era sua hóstia. Aquela era a sua comunhão.

Mas nem tudo é grandeza no mundo da pequenez. Por isso, Voltaire confessava-se estupefato ao imaginar como as mentes religiosas conseguiam ver Deus em um repolho. No começo da década de 1990, os "brights", mais conhecidos como novos ateus, lançaram uma cruzada antirreligiosa protagonizada pelo biólogo Richard Dawkins, pelo filósofo Daniel Dennett e pelo brilhante polemista britânico Christopher Hitchens, entre outros pensadores.

A despeito das generalizações de toda polêmica, uma das propostas de Dawkins é a de uma espiritualidade laica. Para ele, a observação racional do espetáculo do universo e da evolução é de per se uma epifania. Para além do ateísmo virulento que o notabilizou, Dawkins na verdade propõe uma religião minimalista. A simples consciência cotidiana de nossa ancestralidade animal e da maravilhosa formação do cosmos é, em si mesma, uma atitude espiritual.

Mas é Hitchens quem chega, em um de seus livros, a uma fórmula insuperável: Deus não é grande. A lucidez de Hitchens é cortante. A fé, em seu impulso enaltecedor, não apenas amesquinha Deus. Também nos impede de ver Deus nas menores partículas de nossa vida. Mesmo os teólogos não podem negar que há muita razão nesses argumentos. Afinal, nada menos divino do que reduzir Deus a uma mera questão de abrangência. Nada mais frívolo do que quantificar o infinito de sua misericórdia. Nada mais humilhante para Deus do que depender de nós para dimensionar sua grandeza.

Em um pequeno nódulo de lama chamado Terra, perdido em meio a bilhões de galáxias, em uma fração desprezível de tempo, uma criatura igualmente desprezível, chamada ser humano, cria algo chamado conhecimento. Esse foi o momento mais arrogante da história do universo. Essa exuberante intuição de Nietzsche sobre a origem do conhecimento como um delírio de grandeza guarda mais sabedoria do que toda a grandiosa história da filosofia.

Apenas os ressentidos se vingam da indiferença do universo criando para si o álibi da grandeza. Apenas os medíocres se deslumbram com a grandeza. Os grandes são grandes justamente por nunca perder de vista a própria insignificância. Um dos escritores máximos do século XX, Elias Canetti confessou-se farto de cavalgar o cavalo da presunção. E arrematou: "Nem sequer cheguei a me tornar um ser humano".

Em "O Sacrifício", filme-testamento de Tarkovsky, retemos o seguinte ensinamento: se repetirmos um pequeno gesto, todos os dias, como em um ritual, algo no mundo vai mudar. A repetição infinita de pequenos gestos não gera um acúmulo de gestos. Gera um milagre. Para a gestação desse milagre, é preciso que enfim despertemos para a presença desse ínfimo Deus que mal se distingue de nossa condição mortal.

Talvez resida nessa pequenez humana, demasiado humana, indefinidamente repetida, o futuro misterioso e promissor da espécie. Quando abandonarmos de vez as ilusões vazias das ideologias, das religiões e das utopias, quem sabe consigamos enfim enxergar os pés feridos daquele que bate à nossa porta.

(*)Rodrigo Petronio é escritor, professor da Faap e da Casa do Saber. Autor dos livros "Venho de um País Selvagem" (Topbooks, 2009), "Pedra de Luz" (A Girafa, 2005), entre outros. Organizou os três volumes das "Obras Completas" do filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva (Editora É, 2010)



segunda-feira, 29 de julho de 2013

Papa Francisco 10 x 0 Falastrões Gospel

O papa Francisco já foi embora depois de uma semana agitada no Brasil, e muitas conclusões já foram e continuarão sendo feitas a respeito de sua estada entre nós.

Limitaremos nossa análise preliminar, entretanto, a um quesito apenas: sua notória capacidade de se comunicar com os mais diferentes estratos da sociedade.

Nesse aspecto, o papa Francisco deu um show de comunicação, simpatia, empatia e simplicidade.

Sem abrir mão do dogmatismo católico inerente à fala do trono do Vaticano, o pontífice romano conseguiu fazer-se ouvir e ouviu com mansidão e brilhantismo.

Fez a sua mensagem compassiva ser recebida mesmo através do silêncio de seu olhar contemplativo.

Foi fiel, portanto, a pelo menos três preceitos neotestamentários (e paulinos) sobre como dialogar com um mundo não cristão:
Filipenses 4:5 Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Perto está o Senhor.

Colossenses 4:6 A vossa palavra seja sempre com graça, temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um.

Tito 2:7-8 Em tudo te dá por exemplo de boas obras; na doutrina mostra integridade, sobriedade, linguagem sã e irrepreensível, para que o adversário se confunda, não tendo nenhum mal que dizer de nós.
Aos quais podemos acrescentar o sempre bem-vindo conselho de Pedro:
1ª Pedro 3:15 antes santificai em vossos corações a Cristo como Senhor; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que vos pedir a razão da esperança que há em vós;
Sem querer entrar nas diferenças doutrinárias aparentemente irreconciliáveis entre católicos e protestantes, foi inevitável comparar a postura papal com aquela de alguns expoentes evangélicos que usam e abusam cotidianamente de todas as formas de mídia.

Os nomes desses nem precisam ser citados, pois a sua verborragia e seus interesses monetários invadem os lares brasileiros todos os dias pelas ondas do rádio e da TV.

Outra maneira pela qual os falastrões gospel são conhecidos é pela sua falta de compaixão e sua contundência em atacar os adversários e rebater as críticas, desqualificando os oponentes e partindo para a agressão verbal sem o menor pudor.

Qualquer pessoa minimamente versada na Bíblia já identificaria que lhes falta não só humildade e simplicidade, mas a moderação que deve caracterizar qualquer pessoa que diz professar o evangelho.

A julgar apenas por este critério, o papa Francisco deu de 10 x 0 nos pugilistas verbais que se dizem “evangélicos” e infestam nossos rádios e televisões.

Conclusão óbvia: considerando os líderes que aparecem na mídia, os católicos estão muito melhores de papa do que os evangélicos.



quinta-feira, 18 de abril de 2013

Uma homenagem aos cristãos anônimos


É uma pena que, quando se ouve a palavra “evangélico” no Brasil, imediatamente se associe o termo a uma série de líderes vaidosos e gananciosos mais preocupados com batalhas políticas, dinheiro e poder, além do séquito de pessoas que os defendem cegamente.

Imediatamente também se esquece de uma legião de homens e mulheres simples e anônimos, que levam o amor e a Palavra de Deus a milhares, talvez milhões de pessoas, sem esperar nada em troca.

Fazem isso não só pelo prazeroso dever de compartilhar o evangelho, mas principalmente pelo amor que o Espírito Santo lhes derramou no coração (Romanos 5:5).

Na mesma carta aos Romanos, no capítulo 16, Paulo listou várias pessoas que, se não ficaram exatamente anônimas, foram reconhecidas pelo apóstolo e tiveram os seus nomes associados ao verdadeiro significado de ser cristão.

Poucos atentaram para os seus nomes, mas estão lá Febe, Prisca, Áquila, Epêneto, Maria, Andrônico, Júnias, Ampliato, Urbano, Estáquis, Apeles, Aristóbulo, Herodião, Narciso, Trifena, Trifosa, Pérside, Rufo, Asíncrito, Flegonte, Hermas, Pátrobas, Hermes, Filólogo, Júlia, Nereu e sua irmã, Olimpas, Timóteo, Lúcio, Jáson, Sosípatro, Tércio, Gaio, Erasto e Quarto.

Com exceção de Timóteo e de Hermas (a quem se atribui o antigo livro “O Pastor”), todos os demais pouco ou nenhum destaque tiveram na história registrada da igreja cristã.

Muito provavelmente nem Paulo nem seus acompanhantes se lembravam do nome da irmã de Nereu, mas o apóstolo fez questão de mencioná-la para que ninguém se esquecesse da sua humilde existência e do seu trabalho simples e valoroso.

Da mesma maneira, milhares, talvez milhões de crentes, hoje estão fazendo seus trabalhos simples, sem esperar reconhecimento, poder ou dinheiro.

Eles levam a preciosa semente da mensagem da cruz de Cristo (Salmo 126:6) a todo lugar, indistintamente, de porta em porta, de pessoa em pessoa, sem negociá-la com as trevas.

É quase impossível que pelo menos alguns de seus nomes venham a ser conhecidos na imensa balbúrdia em que se tornou a militância ideológica evangélica no Brasil, mas o seu valoroso anonimato merece ser homenageado assim como Paulo fez com seus anônimos cooperadores da Roma de 20 séculos atrás.

Desconfio, porém, que é por amor a esses pastores e crentes fiéis (e àqueles a quem eles servem piedosa e silenciosamente) que Deus – na Sua infinita misericórdia - ainda não trouxe a destruição que merecem todos os usurpadores da fé que profanam Seu nome por aqui.



segunda-feira, 9 de abril de 2012

Mazzaropi faria 100 anos hoje

Se vivo fosse, Amácio Mazzaropi completaria hoje, 9 de abril de 2012, 100 anos de idade. Infelizmente, morreu aos 69, em 13 de junho de 1981, deixando uma obra cinematográfica das mais importantes no Brasil. Símbolo maior do humor ingênuo do caipirão do interior, encarnou como ninguém o Jeca Tatu, personagem criado por Monteiro Lobato para homenagear e perpetuar na memória nacional o típico sujeito simplório do interior do Brasil, mais especificamente do Estado de São Paulo.

É uma pena que as gerações mais jovens não tenham tido a oportunidade de conhecer Mazzaropi. Muito provavelmente ele não faria atualmente - com essa geração conectada 24 horas -  o sucesso que fez no século passado, mas é difícil imaginar alguém que pudesse hoje reunir multidões tão gigantescas como ele reuniu em shows de circo ou num cinema qualquer das cidades pequenas e médias do país.

Os mais antigos diziam que o seu sucesso inicial se deveu ao controle rígido que ele exercia sobre as suas produções, despachando as antigas latas com os rolos de filme pelas ferrovias do interior, e indo atrás para conferir pessoalmente os rendimentos das bilheterias. E o povo lotava os cinemas, e as crianças não perdiam as sessões de domingo à tarde, que se chamavam "matinês". Entre elas estava eu, no início dos anos 1970. Assim Mazzaropi construiu seu pequeno império, retratando um país que não existe mais.

Fica para sempre, entretanto, a sua lição de simplicidade e humor ingênuo, valores que podem e devem ser resgatados para se ter uma vida melhor, mais leve e menos estressante. Abaixo um trecho do filme "O Grande Xerife", de 1972, em que Mazzaropi interpreta o sacristão que - debochadamente - passa a sacolinha para recolher fundos para a construção da igreja. Nada muito diferente do que se vê hoje em rede nacional de TV:





quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Quatro anos de blog e um funeral

mourning
Hoje não é um bom dia para comemorar o 4º aniversário do blog. 

Acabo de chegar do enterro de um amigo de infância, o Zé Augusto, que faleceu ontem aos 48 anos de idade, vítima de um mieloma múltiplo, uma espécie rara de câncer ósseo. 

Lembrei-me então de uma foto que tiramos exatos 40 anos atrás (vide abaixo), no 1º semestre de 1972, quando cursávamos o 3º ano do curso primário, como se chamava à época. 

Como a foto alegre denuncia, nela estão crianças felizes na faixa dos 8 anos de idade e na simplicidade de uma infância em que o bem maior era a amizade que as unia. O Zelão (como o chamávamos) era o último garoto sorridente agachado à direita, do meu lado. 

No funeral desta manhã, das crianças retratadas apenas o Reginaldo, o último agachado à esquerda, estava lá do meu lado. As lembranças, entretanto, continuam presentes. 

No mês passado, eu conversava com o Zelão e percebíamos o quanto aquela ligação antiga continuava viva. 

Brincávamos com o fato dele ser 3 dias mais velho que eu e, apesar da distância natural e temporária causada pelos caminhos diferentes que cada uma dessas crianças trilhou, conseguimos manter firmes e fortes os laços antigos. 

Poucos, entretanto, têm essa possibilidade e esse prazer de manter viva uma amizade de infância. 

Imagino que, depois de uma certa idade, muitos prefiram descartar todas as lembranças que os ligam a situações difíceis, especialmente da adolescência, e belas e valiosas histórias de vida se perdem nessa faxina emocional deletéria. 

Um funeral, 40 anos de uma foto e 4 anos do blog. 

Ainda que seja um fenômeno recente na história da humanidade, manter vivo um blog também é tarefa difícil. 

Requer amor, trabalho, carinho, desprendimento, renúncia às vezes. 

Mas tanto o blog, a infância e mesmo a morte jamais deixam de ser celebrações da vida, com todas as alegrias e dificuldades que ela nos apresenta. 

Se a morte marca o fim da existência terrena, apesar da tristeza e da saudade, os que ficam não podem perder a alegria de viver e deixar de celebrar tudo o que foi vivido antes da pessoa querida partir, encontrando nisso forças para seguir adiante. 

Prosseguir sempre, enquanto pudermos, é isto o que o blog e nós todos faremos, inclusive como homenagem aos que não tiveram tempo e oportunidade de nos acompanhar até aqui.




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