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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 30


SOBRE O CASAMENTO E O CELIBATO


S. Paulo escreve: É bom para os viúvos e as viúvas que permaneçam no estado em que também eu vivo. Caso, porém, não se dominem, que se casem. É melhor casar do que viver abrasado. [1 Cor 7.8-9]

Sem dúvida, é bom permanecer como S. Paulo. No entanto, coloca ao lado disso a razão por que não é bom permanecer assim, e por que é melhor casar-se de novo do que permanecer viúvo. S. Paulo resumiu todas as razões para o casamento num só ponto e delimitou toda a glorificação da castidade nas palavras: “Caso, porém, não se dominem, que se casem”. Isso significa: a necessidade te obriga a casar. Por mais que se glorifique a castidade, e por mais nobre que seja a dádiva da castidade, a necessidade a impede, de maneira que poucos são aptos para ela, pois não se dominam. Embora sejamos cristãos e tenhamos o Espírito de Deus na fé, nem por isso está eliminada a criatura de Deus, tu como mulher, eu como homem. Apesar disso o Espírito deixa ao corpo sua natureza e suas funções naturais, como comer, beber, dormir, digerir, defecar, como o faz o corpo de qualquer pessoa.

Da mesma forma também não elimina os caracteres femininos ou masculinos, seu instinto, sua fecundidade e capacidade de procriar. O corpo de um cristão se procria e se multiplica da mesma forma como o de outros seres humanos, pássaros e todos os animais, para o que foi criado por Deus (Gn 1.28). Por isso um homem tem que se unir à mulher e a mulher ao homem por necessidade, quando Deus não faz um milagre por meio de um dom especial, impedindo [a destinação de] sua criatura. É isso que S. Paulo quer dizer aqui: “Quem não se domina, que se case”, como a dizer: A quem Deus não conceder o dom especial, mas deixa ao corpo, seu gênero e natureza, para este é melhor, sim, necessário, que se case, e que não permaneça nem viúvo nem virgem. Ora, Deus não tem a intenção de dar essa graça às pessoas em geral; o comum há de ser o casamento, tal como o instituiu uma vez e como criou ambos os corpos. Não anulará ou bloqueará em todas as pessoas os caracteres recebidos na criação.

Além do mais, um cristão é espírito e carne. Por causa do espírito ele não necessita de matrimônio. Visto, porém, que sua carne é carne comum, corrompida em Adão e Eva, cheia de maus desejos, ele necessita do matrimônio por causa dessa mesma enfermidade e não está em seu poder livrar-se dele. Pois seu corpo tumultua, arde e tem o desejo de procriar como o corpo de qualquer outra pessoa, se não lhe vem em socorro e o dominar com o devido remédio o matrimônio. Deus tolera esse tumultuar por causa do matrimônio e seu fruto. Pois revelou em Gn 3.16 o que está disposto a tolerar no homem, ao não revogar a bênção da multiplicação, pelo contrário, a confirmou, embora soubesse que a natureza corrupta, cheia de maus desejos, não seria capaz de efetuar essa benção sem pecado.

Querer desprezar o estado matrimonial, afastar dele e querer atrair as pessoas para a castidade, visto que acarreta muito sofrimento e incômodos, de nada adianta e não vale, é um empreendimento louco e maldoso. Pois assim não se resolve o problema, porque a necessidade sempre se interpõe e diz: Não pode ser, não é possível, a gente não consegue viver neste céu. Como diz S. Paulo: “Quem não se domina, que se case”. Por outro lado, também não resolve glorificar o estado matrimonial, pois de fato é algo divino, cheio de bens espirituais, pois ninguém ou somente poucos se deixariam comover ao casamento por causa de tais bens. A natureza teme esforço e trabalho.

Existem muitos motivos para casar. Alguns se casam por causa de dinheiro e bens; grande parte casa-se por paixão, à procura de prazer e satisfação; outros ainda para gerar herdeiros. S. Paulo aponta este um, e em princípio não conheço outro mais forte do que este: a necessidade. Sim, necessidade. A natureza procura realizar-se, quer fecundar e multiplicar-se e Deus não quer que isso aconteça fora do matrimônio. Portanto, por causa dessa necessidade, todos têm que procurar o matrimônio, se quiserem viver de boa consciência e orientar-se em Deus. Além dessa necessidade, todas as demais, evidentemente, farão um mau matrimônio, especialmente a paixão que leva as pessoas doidas a entrarem levianamente num estado tão sério, necessário e divino, para logo depois se darem conta do que prepararam para si mesmos.

No entanto, que significa: “Casar-se é melhor do que viver abrasado”? Sem dúvida, toda pessoa que quer viver sem matrimônio e castamente sem a graça [especial] entenderá essa palavra e saberá o que significa. Pois S. Paulo não fala de segredos, mas dos sentimentos comuns e evidentes daqueles que vivem castamente sem serem casados e que, não obstante, não receberam a graça para tanto. Pois diz que vivem abrasados todos os que vivem na castidade sem possuírem a graça, e aponta como único remédio o matrimônio. Se isso não fosse algo tão comum ou se existisse outra solução, não teria aconselhado o matrimônio, embora em alemão se fale do “sofrimento oculto”, que não seria tão comum se fosse um mal oculto.

Também é indubitável que aqueles que têm a graça da castidade não obstante sentem às vezes o mau desejo e são tentados. Mas é algo passageiro, por isso não se pode falar em ardor. Resumidamente, viver abrasado é o ardor da carne que não cessa de tumultuar, é a atração diária pela mulher ou pelo homem que existe em toda parte onde não há gosto e amor pela castidade, de maneira que são tão poucos os que não vivem abrasados, como são poucos os que receberam a graça de Deus para a castidade. Esse ardor é mais forte num, mais brando no outro. Alguns o sentem com tanta violência que se satisfazem a si mesmos. O lugar de todos esses é o casamento. Ouso até dizer: Para cada pessoa casta deve haver mais do que cem mil pessoas casadas.

Nada melhor do que um exemplo: S. Jerônimo, que glorifica a castidade da forma mais exagerada, confessa que não conseguiu dominar sua carne nem com jejum nem com vigílias, de modo que sua castidade se lhe tomou extremamente amarga. Quantas horas boas deve ter perdido com pensamentos carnais! Insistia em que a castidade deve ser trabalhada e que é algo comum. Ora, o homem vivia abrasado e devia ter-se casado. Aí percebes o que significa viver abrasado. Ele foi um daqueles que devia ter casado, e injustiçou-se e fez sofrer a si mesmo pelo fato de não ter-se casado. Há muitos desses exemplos nas biografias dos pais.

S. Paulo chega à seguinte conclusão: Onde não existe o especial dom de Deus, há que se viver abrasado ou casar-se. Em todo o caso (diz Paulo) é melhor casar do que viver abrasado. Por quê? Viver abrasado é castidade inexistente, ainda que não se concretize em atos, porque não é vivida com prazer e boa vontade, mas com grande desgosto, aversão e sob coerção. Desse modo ela é considerada incastidade perante Deus, pois o coração é incasto embora o corpo não ouse ser incasto. De que adianta sustentares uma castidade inexistente e incasta com grande, amargo sacrifício contra tua vontade? Em todos os casos seria melhor ser casado e fugir desse dissabor. Embora também o matrimônio tenha seus desgostos e dissabores, é possível aceita-los e de vez em quando ter seus dias de sossego e prazer. E onde, fora do matrimônio, não existe a graça [especial], é impossível consentir com a castidade e viver nela com prazer.

Aí vês quão tolos mestres e governantes são esses que em toda parte obrigam a juventude à castidade e ainda pretextam que quanto mais amarga e quanto maior a resistência, tanto melhor seria a castidade. Brinca desse jeito com outros assuntos, mas não com a castidade, pois ninguém pode aceder prazerosamente a ela quando não tiver a graça especial. Todas as demais coisas podem ser aceitas prazerosamente, desde que haja fé. Procedem como os judeus que queimavam seus filhos em sacrifício ao ídolo Moloque [cfe. Jr 32.35], de modo que até parece que S. Paulo usou o termo “arder” porque quis apontar e denunciar essa abominação. Pois que diferença existe entre manter um jovem abrasado a vida inteira num convento ou de outra forma e queimar uma criança em honra ao diabo, somente para manter uma miserável castidade inexistente?

Em homenagem a esses mestres e governantes tenho que contar o que ouvi certa vez a respeito de um homem valente, para que essas grosseiras cabeças cegas compreendam com que sabedoria procedem em seu governo. Um desses pregadores escrevera certa vez que quem quisesse prestar um serviço a Deus, deveria empreender algo grande e machucar bastante a si mesmo. Para tanto cita como exemplo a Simeão de Vitae Patrum [*], que ficou um ano inteiro apoiado numa só perna sobre uma alta coluna, orando sem cessar, nem comer nem beber, até que se desenvolveram vermes em seu pé. Ao caírem, os vermes se transformaram em pedras preciosas. É assim que deves proceder contigo, se quiseres servir a Deus (disse dito pregador). É próprio desses pregadores pregar essas mentias que o diabo sem dúvida inventou outrora por meio de malvados patifes para zombar dos cristãos, para acabar com seus milagres que faziam em grande número naqueles tempos, como se todos eles não passassem de tais ludíbrios.

Um desses pregadores doidos teve por discípulo outro doido, conforme o provérbio: “Um louco produz mais outros dez”. Este quis servir a Deus e resolveu torturar-se a si mesmo e começou a reter a urina. Tendo retido a urina por quatro dias, ficou doente; mas ninguém conseguiu dissuadi-lo e quis morrer. Até que Deus inspirou alguém que elogiou seu intento e o apoiou dizendo que ele estava certo (como se deve falar com loucos, para que o entendam, diz Salomão [cfe. Pv 26.5]). “No entanto”, disse ele, “estás fazendo isso por pura vaidade. Se assim for, de nada vale”. Ouvindo isso, desistiu de seu intento e disse: “Se é como me acabais de explicar, desisto”.

Ora, isso é uma loucura grosseira, mas não se deve desprezá-la simplesmente. Com isso Deus mostrou (como disse) o que esses mestres e governantes são capazes de aprontar. Vamos sublinhar o seguinte: a realidade é como a ensina a Escritura e toda a experiência: esta vida na terra é miserável, cheia de miséria e sofrimento, qualquer que seja a posição social que venhas a escolher (desde que seja divina). No entanto, ninguém é tão miserável como aquele a quem se ordena reter a urina ou as fezes. Seria preferível escolher qualquer das condições [de miséria e sofrimento] do que sujeitar-se a algo tão impossível. Visto que ninguém tem obrigação de cumprir tal mandamento, as pessoas não percebem o quanto é agradável urinar e defecar; enquanto isso ficam contemplando e lamentando a miséria em sua condição, que não é a décima parte do que seria essa miséria.

A mesma coisa acontece com esse fogo. Pois os casados estão livres dele, podem apagar seu fogo e esquecem o sofrimento (do mesmo modo como a mulher pensa de maneira muito diferente depois do parto do que antes e durante o parto), e passam a olhar somente para as dificuldades e dissabores de seu estado. Pois ninguém dá atenção às coisas boas que tem, e as coisas más se esquecem depois que passaram. Aqueles, porém, que vivem abrasados e não têm perspectivas, só podem zombar e chamar de loucos aqueles que são casados e, não obstante, se queixam do matrimônio. Pois estão obrigados a dominar o que não se pode dominar, e ainda deverão dominá-lo em vão e perder toda essa amarga fadiga. Sem dúvida, uma desgraça lamentável! O quanto preferiram suportar todos os dissabores do matrimônio do que esse fogo. É isso que S. Paulo quer dizer com: “É melhor casar do que viver abrasado”, querendo significar: casar é ruim, mas viver abrasado é pior. Em resumo: o matrimônio cheio de dissabores é melhor do que a castidade cheia de dissabores. O matrimônio amargo e difícil é melhor do que a castidade amarga e difícil. Motivo: esta de nada vale, aquele pode ser útil.

Digo isso a respeito do fogo que sofrem os que se dominam, que são muito poucos, pois a maioria não suporta esse ardor e não se domina, mas encontram maneiras para se livrarem dele. Disso, porém, não pretendo escrever agora. Quando, porém, se livram dele fora do matrimônio, logo a consciência os acusa, o que é a desgraça mais insuportável e a mais miserável condição na terra. O resultado final de tudo é que a maior parte dos solteiros e dos que vivem na castidade sem terem o dom para isso são constrangidos e obrigados a pecar fisicamente com incastidade, e os demais são obrigados a viver castos exteriormente e incastos interiormente. Dessa maneira aqueles levam uma vida condenável e estes, uma vida desgraçada e sem sentido. E onde estão os governantes espirituais e seculares que se preocupam com esse sofrimento das pobres almas? Com sua incitação e constrangimento [à castidade] apenas ajudam ao diabo a multiplicar diariamente essa miséria.

[*] Vitae patrum. Migne, Patrol. Lat. Tom. 73, cl. 328s. A citação refere-se a Simeão, o Estilita (390-459), que levou a vida eremita e ascética a um certo auge, vivendo sobre uma coluna [em grego stylos - "pilar"] de 20 metros. Do alto dela dirigia-se aos que o procuravam, tendo grande influência em seus dias com suas pregações de acento calcedonense [o Concílio da Calcedônia foi realizado no ano 451 d. C.].

(LUTERO, Martinho. O 7º Capítulo de S. Paulo aos Coríntios. 1523. Tradução de Ilson Kayser. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. 1995. Vol. 5, págs. 204-208)



sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 20


ENCARNAÇÃO: MARIA, MÃE DE DEUS

(para ler o texto anterior, clique aqui)

Dizemos de cada ser humano que ele come, bebe, digere, dorme, acorda, anda, fica parado, trabalha, etc., embora a alma não participe em nenhuma dessas atividades, mas apenas o corpo. Contudo, afirma-se isso da pessoa toda, que tem corpo e alma. Pois ele é um ser humano não só por causa do corpo, mas por causa do corpo e da alma. Por outro lado, também afirmamos que o ser humano pensa, inventa, aprende. Pois, de acordo com sua razão ou alma, ele pode tornar-se professor ou mestre, juiz, conselheiro ou governante. Nem o corpo nem qualquer um de seus membros lhe dá essa competência. No entanto, afirmamos: “Ele tem uma cabeça boa; é sensato, instruído, sábio, eloquente, artístico”. Dessa maneira, diz-se de uma mulher que ela está grávida, dá à luz e amamenta uma criança, embora não seja a alma, mas tão-só o corpo que faz dela uma mãe. Todavia, atribuímos isso à mulher toda. Igualmente, se alguém golpeia uma pessoa na cabeça, dizemos: “Ele bateu no João ou na Margareta”. Ou, quando um membro do corpo é lesionado ou ferido, pensamos na pessoa toda como estando machucada.

Estou empregando essas ilustrações simples para que se entenda como se devem separar na pessoa de Cristo as duas naturezas distintas e como, no entanto, isso deixa a pessoa inteira e indivisa. Tudo que Cristo diz e faz, tanto Deus quanto o homem dizem e fazem, mas cada palavra e cada ação estão de acordo com uma ou outra natureza. Aquele que observa essa distinção, encontra-se no caminho seguro e certo. Ele não será desencaminhado pelas ideias errôneas dos hereges, as quais provêm unicamente do fato de não reunirem o que pertence junto e constitui uma unidade, ou por não separarem e dividirem, apropriadamente, o que deve ser diferenciado.

Por isso, devemos nos ater ao discurso e às palavras da Escritura e reter e confessar a doutrina de que este Cristo é verdadeiro Deus, através de quem todas as coisas são criadas e existem, e, ao mesmo tempo, que este mesmo Cristo, Filho de Deus, nasce da virgem Maria, morre na cruz, etc. Ademais, Maria, a mãe, não carrega, dá à luz, amamenta e alimenta tão-somente o homem, tão-somente carne e sangue – pois isso seria dividir a pessoa -, mas ele carrega e alimenta um filho que é Filho de Deus. Por isso, ela é corretamente chamada não só a mãe do home, mas, também, a mãe de Deus. Isso, os antigos Pais ensinaram contra os nestorianos, que se opunham a que Maria fosse chamada de mãe de Deus e se recusavam a dizer que ela dera à luz o Filho de Deus.

Aqui, devemos ratificar com o nosso Credo: “Creio em Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus Pai, nosso Senhor, que nasceu da virgem Maria, sofreu, foi crucificado, morreu”. Ele é sempre o mesmo e único Filho de Deus, nosso Senhor. Por isso, é certo que Maria é a mãe do real e verdadeiro Deus. E os judeus não só crucificaram o Filho do Homem, mas, também, o verdadeiro Filho de Deus. Pois não quero um Cristo em que devo crer e a quem devo invocar como meu Salvador que seja apenas um ser humano. Nesse caso, eu estaria indo ao encontro do diabo, pois simples carne e sangue não poderiam extinguir o pecado, reconciliar a Deus e abolir sua ira, superar e destruir a morte e o inferno, e conceder a vida eterna.

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado. 1537-1538. Tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 143-144)

(para ler a sequência do comentário de Lutero
sobre João 14:6 a, clique aqui)



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

STF não deixou João Paulo Cunha fazer curso sobre "iniciação cristã"


Notícia curiosa publicada no Estadão de 03/01/15:

STF não autoriza pedido de João Paulo Cunha para fazer curso


ISADORA PERON

Como o pedido não tem caráter de urgência, ele será analisado apenas após o recesso do STF, quando o curso já terá terminado


BRASÍLIA - O ex-deputado João Paulo Cunha (PT-SP), condenado no julgamento do processo do mensalão, não recebeu autorização do Supremo Tribunal Federal (STF) para deixar a prisão e fazer um curso na próxima semana. Intitulado "Iniciação Cristã - Aspectos Teológicos e Patrísticos", o curso é do tipo "intensivo de verão" e será oferecido pela Faculdade de Teologia da Arquidiocese de Brasília entre os dias 5 a 9 de janeiro.

Segundo a assessoria do STF, o pedido de Cunha não foi negado, mas como a Corte trabalha em regime de plantão, o presidente do Supremo, ministro Ricardo Lewandowski, declarou em seu despacho publicado na última sexta-feira que o pedido não tinha caráter de urgência e, por isso, só seria apreciado na volta do recesso do Judiciário, o que, na prática, inviabiliza que o ex-deputado compareça às aulas.

O curso tem um custo de R$ 300 (se for parcelado em duas vezes o valor sobe para R$ 320) e será dado pelo Monsenhor Antônio Luiz Catelan Ferreira, que foi nomeado no ano passado pelo Papa Francisco para fazer parte da Comissão Teológica Internacional, um grupo de teólogos responsável por discutir as doutrinas da igreja. No mês passado, o STF negou um outro pedido de Cunha, para que ele começasse a cumprir a pena no regime aberto. Ele, no entanto, foi autorizado a passar o fim de ano com familiares em São Paulo. O ex-deputado foi condenado a seis anos e quatro meses no semiaberto.



quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O antissemitismo de Cruz e Souza


O simbolismo foi o movimento artístico e literário surgido na França no final do século XIX, que tinha como principais características a reação ao realismo, o uso e abuso das metáforas e a musicalidade dos versos.

No Brasil, os seus maiores representantes foram os poetas Cruz e Souza (1861-1898), Augusto dos Anjos (1884-1914) e Alphonsus de Guimaraens (1870-1921).

É deste último, por exemplo, o belo poema "Ismália":

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

A musicalidade dos versos pode ser facilmente percebida nessa quadra do poema "Violões Que Choram", de Cruz e Souza:

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

De certa forma, naquela confusão de escolas artísticas da virada do século XIX para o XX, o embate e a conjunção entre aspectos do simbolismo, do parnasianismo e do realismo (mescla da qual Augusto dos Anjos seria - talvez - o maior ícone), foram precursores do movimento modernista que impera até hoje.

O poeta e diplomata Felipe Fortuna escreveu um artigo, que foi publicado no jornal Valor Econômico de 04/10/13, em que questiona se o grande poeta Cruz e Souza seria (ou não) antissemita.

Apesar da excelente abordagem do tema, parece que o artigo peca pelo anacronismo, ao julgar não só um poeta do século XIX, como também a obra de São João Crisóstomo (século IV), com os olhos do século XXI.

Outro questionamento pode ser feito, portanto: até que ponto Cruz e Sousa, o negro filho de escravos alforriados, seria antissemita no sentido atual que se dá ao termo?

Talvez a interrogação do título do artigo seja uma concessão do seu autor à dúvida dele próprio sobre a procedência de sua indagação.

Feito este pequeno reparo, que não chega a prejudicar a leitura da tese de Felipe Fortuna sobre o poema "Marche aux Flambeaux" (que pode ser lido na íntegra mais abaixo).

Eis o artigo:




Seria Cruz e Sousa antissemita?

Felipe Fortuna

É conhecida a extraordinária obra poética de Cruz e Sousa (1861-1898), que trouxe uma musicalidade singular e versos surpreendentes, alguns estranhamente repetitivos. Também é conhecida a revolta racial do poeta catarinense, que se expressou de modo dramático na prosa de "Emparedado", "Dor Negra" e "A Nódoa", do livro "Evocações". Muito menos conhecido é o longo poema "Marche aux Flambeaux", o maior exemplo de antissemitismo literário já publicado no Brasil. Deve-se a Andrade Muricy, que organizou, em 1961, a edição da "Obra Completa" de Cruz e Sousa, o aparecimento do poema. Ao longo dos seus 216 versos alexandrinos, desfilam insultos e impropérios que transmitem a extremada violência de uma linguagem de exclusão.

"Marche aux Flambeaux" é um desses raríssimos títulos em língua francesa de que se vale o poeta - já que Cruz e Sousa geralmente mostra preferência pelo latim, de ressonância bíblica e espiritual. O antissemitismo do poema está vinculado à tradição europeia e, mais propriamente, à francesa, seguindo uma voga que culminou com o debate em torno do caso Dreyfus, a partir de 1894, e se irradiou em escritores como Alphonse Daudet. É possível considerar, assim, que o surpreendente antissemitismo de Cruz e Sousa seja bem mais uma imitação literária do que uma convicção; uma absorção dos clichês e da retórica da perseguição, em vez de um programa político e ideológico. Mas uma análise do poema poderá revelar aspectos significativos e paradoxais do poeta que tanto sofreu o preconceito da raça e da origem social.

O ataque de Cruz e Sousa tem início na segunda seção do poema, toda ela dedicada aos "filósofos titãs" que elaboraram uma "Ciência fatal"; filósofos que transformaram tudo "num doloroso caos". O lamento do poeta se converte numa invectiva contra a morte de Deus, que talvez possa ser resumida à pergunta formulada por Jean-Paul Sartre quando estudou a poesia de Mallarmé: "Se o Universo se reduz a uma desordem de átomos, sobre o que fundar a ordem moral?" A análise do filósofo também detecta, entre os poetas simbolistas, o surgimento de um "arianismo simbólico" e uma atitude de recusa em relação ao fim do Ideal. E salienta as condições de extrema pobreza material que caracterizavam a vida desses escritores.

Para o poeta, filósofos e cientistas devem pagar pelo erro monumental de abalar a fé dos seres humanos e de fazê-los "rudes, egoístas, maus". São eles os principais personagens do desfile, durante o qual serão expostos à denúncia e à execração. E o poeta Cruz e Sousa, presente à multidão dos que verão passar os condenados intelectuais, aparece, pela primeira vez, em tudo consciente da sua função crítica: "Com toda intrepidez hercúlea de acrobata/ vou sobre eles soltar, gloriosa, intemerata,/ a sátira que tem esporas de galhardo/ cavaleiro ideal que joga a lança e o dardo".

Ainda assim, a segunda seção do poema é apenas uma preparação para a erupção do ódio. Obviamente, o antissemitismo não foi exclusividade dos simbolistas, que aproximaram a morte de Deus e o liberalismo social ao estereótipo do "povo deicida": sua origem se encontra em textos teológicos e em sermões acusatórios que criaram uma imagem grotesca do judeu, associada não apenas à blasfêmia e ao antiespiritualismo, mas também à glutonaria e ao canibalismo... Já no século IV, a retórica de São João Crisóstomo (347-407), em suas furiosas homilias, atribuía aos judeus inumeráveis defeitos e vícios e os expunha a uma vingança sem possibilidade de defesa.

Quando Cruz e Sousa designa os seus filósofos como "apóstolos sombrios" que "lutaram pelo Bem dos Bens contemporâneos!", está de fato introduzindo, com a possível sutileza, o tema do materialismo ateu. Na análise rigorosa que fez sobre o antissemitismo na poesia de T.S. Eliot, o crítico Anthony Julius faz referência à imagem dos judeus livres-pensadores, que são descritos, de modo genérico, como intelectualmente subversivos, anárquicos e céticos. O estereótipo do filósofo que nega a divindade, identificado à exaustão com o judeu, alcança dimensões monstruosas até então desconhecidas em sua poesia.

Já na terceira seção de "Marche aux Flambeaux", Cruz e Sousa lança seu bestiário: "Lobos, tigres, chacais, camelos, elefantes,/ hipopótamos, ursos e rinocerontes,/ leopardos e leões, panteras acirrantes,/ hienas do furor, membrudos mastodontes,/ tredas feras do mal, soturnos dromedários,/ serpentes colossais que rastejais na treva,/ monstros, monstros cruéis, medonhos, sanguinários,/ cuja pata esmagante a presa aos antros leva".

A desfiguração do judeu pelo grotesco anatômico é um topos comum à literatura antissemita. O poeta catarinense apenas a amplia pela animalização, seguindo outra tendência não menos comum. Não é difícil encontrar, na poesia e na prosa de Cruz e Sousa, o gosto pela violenta caricatura verbal, marcado pela comparação agressiva e depreciativa da figura humana com algum animal. Em geral, os exemplos existentes estão vinculados a um estado de excitação e de indignação moral.

Aplicada ao judeu, a animalização ganha o aspecto de monstruoso estigma: trata-se de comunicar, com eloquência, a desumanidade do personagem. Ele se torna suspeito e imediatamente subtraído da sociedade em que vive: ostentando a indefinida fronteira entre o humano e o animal, ele se torna vítima, já não importa se social, étnica ou religiosa. O judeu, violentamente associado a quadrúpedes e a bichos rastejantes, passa a encarnar as piores qualidades e os aspectos arquetípicos que caracterizam, como no trecho de "Marche aux Flambeaux", os animais em estado selvagem. Discretamente, também se insinua no poema de Cruz e Sousa um tema igualmente caro à literatura da sua época, o do judeu como símbolo do feio.

No entanto, para além da discussão estética, o que parece sobressair, no poema, é a gratuidade do discurso da perseguição: os judeus são insultados porque se encontram no fim de um processo que poderia ser descrito, redutoramente, como o de reação a um questionamento da natureza e da fé. Na caracterização do estereótipo, é importante notar que o judeu habita as cidades industriais, onde exerce atividades financeiras e comerciais, apesar de descrito como um deslocado. É o que escreve Cruz e Sousa: "Gafentos histriões, ridículos da moda,/ que fingis entender Berlim, Londres, Paris,/ mas nos altos salões, por entre a fina roda,/ meteis sordidamente o dedo no nariz".

Anthony Julius tem razão ao afirmar que o antissemitismo encontrou, no momento simbolista, um período oportuno para a transmissão dos principais estereótipos e das imagens de perseguição: escritores declaradamente antissemitas, como J.K. Huysmans, fizeram largo uso da prosa visionária, na qual combinaram a emoção extremada ao uso vertiginoso da metáfora - tudo redundando numa combinação da fantasia e da revelação. Também é preciso considerar um aspecto essencial do simbolismo, que consiste na dificuldade de definir os limites entre o mundo real e o imaginário, para o qual ainda concorre o uso intensivo da sinestesias. O grande poeta, no simbolismo, é aquele que atinge uma visão delirante e personalíssima do assunto que está tratando.

É o que acontece com Cruz e Sousa em "Marche aux Flambeaux": dá-se uma explicação do mundo que é, a rigor, uma reação violenta ao mundo. No poema se encontram, irmanados de maneira sórdida, não apenas os "tábidos judeus", mas também outros grupos que vêm reunir-se e desfilar: "burgueses que já são bem bons comendadores/ e marqueses de truz, com ares de mistério" e "velhacos de batina".

Ao fim do poema se descobre que o poeta tem consciência de que sua parada não poderia mesmo ser noturna, já que sua intenção é revelar à luz solar os vícios e as caricaturas humanas que governam o mundo. Atento para o uso que deve fazer da "marche aux flambeaux", essa importação chegada da Europa, o poeta escreve como se estivesse anunciando uma correção: "Mas eu quero assim mesmo, eu quero-vos assim,/ em marcha tropical, à crua e ardente luz/ que vos seja uma febre indômita, sem fim,/ um cautério de pus a vos queimar o pus/ venéreo da Moral".

Lamentavelmente, a marcha que transcorre ao sol não contém nenhuma outra novidade em relação a um possível modelo europeu: nela está presente uma crítica à nobreza, mas não, por exemplo, aos escravocratas. A opção pelo período diurno parece representar, assim, apenas um capricho do poeta, que por motivos possivelmente estéticos tomou a decisão de apresentar a sua sátira à cáustica luz dos trópicos. De todas as importações presentes no poema, a mais deplorável é certamente a do antissemitismo, não apenas por sua irracionalidade e despropósito, mas também pela inevitável consequência que a divulgação dos estereótipos de perseguição poderia provocar na consciência de um poeta que se defrontou com a questão racial no Brasil.

Praticante de diversos recursos verbais, Cruz e Sousa demonstra ser, em sua obra de poeta e de prosador, um dos escritores de maior inconsistência ideológica. Em geral, os seus versos mais engajados se misturam a devaneios e a referências necessariamente vagas, num complexo de hesitações e de ambiguidades que é capaz de deixar perplexo o seu leitor. "Marche aux Flambeaux" representa, em si mesmo, um exemplo modelar da aparente falta de consciência para um problema de discriminação. O que não resolve as contradições do poeta, mas torna o seu sofrimento mais sublime.

Felipe Fortuna é poeta, ensaísta e diplomata. Recentemente, publicou o livro de poemas "A Mesma Coisa" (Topbooks)




MARCHE AUX FLAMBEAUX

I

Rompe na aurora o sol que a terra esbofeteia
Com látegos de chama, iriando o pó e a areia,
Iriando os vegetais de ricas pedrarias,
Dos rubis e cristais das ourivesarias;
Aurora acesa em cor de púrpura de cravos v Opulentos, febris, ensanguinados, bravos;
De ritmos leves de harpa e frêmitos e beijos v Que são da natureza os trêmulos arpejos;

Aurora que sorri, que traz pomposamente
Todo o raro esplendor da luz resplandecente,
Das paisagens loucas no fúlgido matiz
O aroma a derramar da meiga flor de liz.

Na alegria dos tons os pássaros cantando
Vão as asas abrindo, entre os clarões ruflando, v Asas emocionais, que assim dentre clarões
Palpitam num fervor de alados corações.

E no luxo oriental de etéreo Grão-Mogol
Como um Baco feliz rubro flameja o sol.

II

Filósofos titãs, filósofos insanos
Que destes turbilhões, que destes oceanos
De lutas e paixões, de sonho e pensamentos
Espalhásteis no mundo aos clamorosos ventos v A Ciência fatal, talvez como um veneno,
Que os tempos abalou no caminhar sereno;
Filósofos titãs, que os séculos austeros
No flanco da Matéria abris, graves, severos,
Sobre o escombro da fé, da crença e da esperança,
Da civilização o trilho que hoje alcança
No seu aço viril as regiões supremas,
Traçado em novas leis, doutrinas e problemas;
Vós que sois no Saber os monges da existência
E só acreditais na força da Ciência,
Que da morte sabeis os filtros invisíveis,
Narcóticos, sutis, incógnitos, terríveis,
Não sabeis, entretanto, apóstolos sombrios,
Como a luz da Ciência os homens estão frios,
Como o tudo ficou num doloroso caos
E os seres que eram bons, rudes, egoístas, maus.

Em vão! em vão! em vão! os vossos largos crânios
Lutaram pelo Bem dos Bens contemporâneos!
Tudo está corrompido e até mais imperfeito...
Não há um lírio são a florescer num peito,
De piedade, de amor e de misericórdia...
Se brota uma virtude o ascoso vício morde-a,
Envilece, corrompe e abate essa virtude
Com o cinismo revel dum epigrama rude...
E até muita alma vil, feroz, patibular,
Impunemente sobe ao mais sagrado altar.

Por isso vão passar perante a turbamulta
Como abrupta avalanche, enorme catapulta,
Numa marche aux flambeaux, os famulentos vícios
Que cavaram no globo horrendos precipícios,
Os vícios imortais, que infestam tribos, greis,
Povos e gerações, seitas, templos e reis
E que são como a lava obscura da cratera
Que subterraneamente em tudo se invetera.

Com toda intrepidez hercúlea de acrobata
Vou sobre eles soltar, gloriosa, intemerata,
A sátira que tem esporas de galhardo
Cavaleiro ideal que joga a lança e o dardo.
Vou com esse altanado e muscular esforço
De quem galga triunfal o soberano dorso,
A crista vigorosa, altiva, sobranceira,
Da mais agigantada e vasta cordilheira.

III

Lobos, tigres, chacais, camelos, elefantes,
Hipopótamos, ursos e rinocerontes,
Leopardos e leões, panteras acirrantes,
Hienas do furor, membrudos mastodontes
Tredas feras do mal, soturnos dromedários,
Serpentes colossais que rastejais na treva,
Monstros, monstros cruéis, medonhos, sangüinários,
Cuja pata esmagante a presa aos antros leva;
Ó ventrudos judeus, opíparos, obesos,
De consciência obtusa, ignóbil e caolha
Que no mundo passais grotescamente tesos
Com honras de entremez e grandezas de rolha.
Gafentos histriões, ridículos da moda,
Que fingis entender Berlim, Londres, Paris,
Mas nos altos salões, por entre a fina roda,
Meteis sordidamente o dedo no nariz;
Brasonados truões, inúteis como eunuco,
Que as pompas ostentais de aurífero nababo
Mas apenas valeis como um limão sem suco,
Tendes rabo no corpo e dentro d′alma rabo;
Nobres de papelão, milionários vândalos
De ventre confortado e rosto rubicundo,
Que no torvo cancã no cancã dos escândalos
Sois o horrendo espantalho, a ignominia do mundo;
Ó deuses do milhão, ó deuses da barriga,
Que sentindo a aguilhada intensa da luxúria
Buscais a mais em flor e linda rapariga
Para então vos fartar na luxuriante fúria;
Gamenhos de toilette e convicções de lama
Onde tudo afinal se atola e se chafurda,
Que do clube e do esporte sintetizais a fama
Mas tendes para o Bem a fibra sempre surda;
Palhaços, clowns senis, hediondos borrachos
Que aos trambolhões urrais afora no universo,
Desdenhando de tudo e até rindo dos fachos,
Do clarão do saber em toda a parte imerso;
Almas negras, servis, d’ergastulos caóticos,
Gerado no paul das lúgubres voragens,
Do crime nos bulcões, nos vícios mais despóticos
Aos quais tanto rendeis eternas homenagens,
Manequins, charlatães, devassos do bom-tom,
Que viveis nas Babéis das grandes capitais
Apodrecendo sempre infamemente com
O cancro do dinheiro as forcas virginais;
Mascarados tafuis de gordos ventres de ouro,
Ó bonzos do deboche e cínicos esgares,
Que sois o único sol esterlinado e louro
Das parvas multidões, das multidões alvares;
Fidalgos de barril, sicofantas, malandros
Do templo e do bordel, da crápula de harém
Que ao puro mar do Ideal, com torpes escafandros,
Arrancais, p′ra vender, a pérola do Bem;
Ó trânsfugas, ladrões que difamais a terra,
Que tudo poluís, do próprio lodo a flor,
A serena humildade, - intrepidez da guerra.
Aos beijos maternais, ao nupcial amor;
Espíritos de treva, espíritos de barro
Que enegreceis de horror o sangue das papoulas
E das ostentacões vos aclamais no carro,
Cobertos de cetins, arminho e lantejoulas;
Que se vem de repente o Nada sepulcral
Nunca deixais, sequer, no tétrico leilão,
No leilão da memória, estranho, universal,
Nem um som a vibrar do estéril coração!
Dentre feras brutais de ríspidos penhascos
E a torrente caudal de rijos versos francos
E a zombaria e o riso e as sátiras e os chascos,
Nesta marche aux flambeaux ides passar, aos trancos
Do mundo os naturais, zoológicos museus
Despejem pare fora as pavorosas massas,
Para virem reunir-se aos tábidos judeus
Irromper e seguir e desfilar nas praças.
Que a cada mate, a entranha, o seio virgem se abra
Jorrando tigres, leões, panteras do seu centro
E na dança infernal, estrupida, macabra,
Siga a marche aux flambeaux pelo universo a dentro.

Gargalhadas abri a rubra flor sangrenta
Da humanidade vã na amargurada boca
Vai agora passar a marcha truculenta
Sob o espingardear duma ironia louca.
E desfila e desfila em becos e vielas
E torna a desfilar por vielas e por becos
às risadas da turba, estultas e amarelas
Que tem o áspero som de gonzos perros, secos...
E desfila e desfila, estrídula e execranda,
Das praças na amplidão, rugindo em mar desfila,
Enquanto além dardeja, heróica e formidanda,
A metralha do sol que rútilo fuzila...
E mastodontes vão de braço dado a sérios
Burgueses que já são bem bons comendadores
E marqueses de truz, com ares de mistérios
De lunetas gentis e aspectos sonhadores
Dão o braco fidalgo e airoso das nobrezas
Aos ursos boreais, enquanto os conselheiros
Os condes, os barões, os duques e as altezas
Lá vão de braço dado aos lobos carniceiros.
E nessa singular, atroz promiscuidade,
Animais e truões de catadura suína
Gordalhudos heróis da infâmia e da maldade,
Vendidos da honradez, velhacos de batina
Bobos, cães, imbecis, humanos crocodilos
E déspotas, jograis, todos os miseráveis
De todas as feições e todos os estilos,
Uns aos outros lá vão jungidos, formidáveis!...
Mas a marche aux flambeaux derrama um pesadelo,
A agonia dum tigre, em sonhos, sobre um ventre,
Agonia mortal que envolve tudo em gelo...
E desfila e desfila entre sarcasmos e entre
As sátiras-fuzis, relampejando açoite,
Por essa imensa aurora, estranhamente imensa
Por um sol que angustia e que não tem da noite
Para a Miséria a sombra atenuante e densa.

Os vícios, as paixões, os crimes, ódios e erros,
Na marcha, de roldão, caminham fraternais
Com bandidos, vilões, burgueses rombos, perros
E focas e mastins, macacos e chacais.
Aos sobressaltos vão como visões, fantasmas
Bichos de toda a casta, anões de chapéu alto,
Deixando em convulsão todas as almas pasmas
E o globo num tremendo e fundo sobressalto.
E nas praças, ao sol, confundem-se os bramidos,
Os uivos com a expressão humana misturados,
Através do sussurro e bruscos alaridos
Das chacotas bestiais, dos risos trovejados.
E segue e segue e segue, afora, légua a légua
Essa marche aux flambeaux, ciclópica, estupenda
Caminha atravessando um longo sol sem trégua,
Um dia secular, um dia de legenda;
Caminha atravessando um sol de foco aberto,
Por um dia fatal, interminável, mudo,
O dia do remorso, aterrador, incerto
Que em todo o coração crava um punhal agudo.
Mas eu quero assim mesmo, eu quero-vos assim,
Em marcha tropical, à crua e ardente luz
Que vos seja uma febre indômita, sem fim,
Um cautério de fogo a vos queimar o pus
Venéreo da Moral, carbonizando-o até
Para que nunca mais se sinta dele a origem
Nem volte, como sempre, então, a ser o que é,
Deixando-vos no mundo inteiramente virgem;
Eu quero-vos assim, de fachos apagados,
Apagados, ao alto, os joviais flambeaux,
Que os tereis de acender nos campos ignorados
Que de sóis de Vingança a Eternidade arou.

E depois de vagar às sátiras de todos,
Na evidência da luz, numa perpetua aurora;
De caminhar ao sol, por tremedais, por lodos,
No tédio do sarcasmo, o tédio que a devora,
Essa Marcha afinal penetrará aos urros,
Titânica, sinistra e bêbada, irrisória,
Num caos de pontapés, coices, vaias e murros,
Na eterna bacanal ridícula da História.



terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O verdadeiro Papai Noel gostava de dar tapa na cara de hereges

Mesmo que o Natal tenha se tornado essa festa mercantilista, com o Papai Noel como figura proeminente (e exótica), em substituição ao menino Jesus, é interessante pesquisar as raízes do “bom velhinho” na cultura popular.

Primeiro, é curioso ver como a nomenclatura varia de país para país, inclusive dentro do mesmo idioma, como acontece em Portugal, onde Papai Noel é conhecido como Pai Natal.

Isto se justifica pelo fato de que Noël significa Natal em francês, e a influência gaulesa se fez sentir também nos países hispânicos, que o chamam de Papá Noel, com a divertida e defasada exceção do Chile, que o chama de Viejito Pascuero (Páscoa?!).

Entretanto, é pelo idioma inglês, sobretudo americano, que o nome Santa Claus remete à origem mais remota (e cristã) do Papai Noel.

O personagem histórico que teria inspirado a criação do mito do bom velhinho foi Nicolau de Mira, também conhecido como São Nicolau de Bari, canonizado por católicos e ortodoxos, e entronizado como santo padroeiro da Rússia, da Grécia e da Noruega.

Lembre-se de que a Lapônia, terra onde habitaria o Papai Noel, é uma região ártica que engloba parte dos territórios de Suécia, Noruega, Finlândia e um pequeno trecho da Rússia.

Só que São Nicolau de Mira nasceu mais ao sul, em Patara, hoje Demre (na Turquia), supostamente na segunda metade do século III, vindo a morrer no mesmo local em 6 de dezembro de 342 d. C.

O santo continua tão popular na Europa que, depois do alegado descobrimento – em 1993 - de sua tumba na ilha turca de Gemile, o governo muçulmano da Turquia requereu formalmente à Itália, em 2009, a devolução dos restos mortais de Nicolau, que haviam sido levados a Bari em 1087, ainda na época das Cruzadas.

Em 2000, governo russo chegou a doar uma estátua de São Nicolau à cidade de Demre, mas em 2005 o prefeito da cidade trocou o pobre Nicolau de bronze por um Papai Noel de plástico (vermelho, é claro - foto abaixo), de olho nos ganhos monetários advindos do turismo.



Os protestos russos não tardaram a ser ouvidos, mas o prefeito turco foi irredutível. Deixou Papai Noel no seu pedestal e retornou São Nicolau a uma esquina próxima da igreja ortodoxa da cidade.




É difícil separar o que é lenda do que é real na vida de São Nicolau, mas o fato incontestável é que ele era muito popular no seu tempo. Conta-se, por exemplo, que ele teria ressuscitado três crianças vítimas de um macabro assassinato, além de ter convertido hereges que queriam saquear a sua igreja.

A mais famosa história que se conta a seu respeito é a de um pai muito pobre que não tinha como prover o dote para casar as três filhas. Nicolau, à noite, teria atirado três sacos de moedas de ouro e prata na casa da família, e assim salvou as moças de se tornarem prostitutas, o que fatalmente seria o seu fim caso não pudessem se casar.

Por esse dado (histórico ou não), você pode perceber de onde vem boa parte da inspiração que, associada a pitadas de mitos germânicos e escandinavos (a figura idosa e bonachona de Odin, por exemplo), resultou na “invenção” folclórica do Papai Noel.

Já que o mito suplantou em larga escala o personagem histórico, é bom voltar às origens e resgatar um pouco da humanidade e da cristandade de São Nicolau.

Ele era muito religioso desde a mais tenra idade, e após perder os pais ainda muito jovem, em decorrência de uma epidemia, foi criado pelo tio, que também se chamava Nicolau e era bispo de Patara à época.

O jovem Nicolau teria ido a Jerusalém, buscando se dedicar a uma vida eremita de oração, como era comum naqueles tempos, mas Deus conseguiria convencê-lo de que devia voltar a sua terra, onde seria mais útil ao Senhor.

Foi assim que ele subiu paulatinamente na hierarquia eclesiástica e, por ocasião do Concílio de Niceia, em 325 d.C., Nicolau de Mira foi um dos cerca de 300 bispos presentes para decidir questões cruciais que ameaçavam os rumos da ortodoxia da Igreja.

O tema mais disputado em Niceia foi a doutrina da Trindade, combatido por Ário de Alexandria e seus seguidores.

Reza a lenda que, enquanto Ário defendia sua doutrina de que Jesus, o Filho, não era nem nunca havia sido igual (ou cosubstancial) ao Pai, Nicolau ficou tão furioso que cruzou o recinto (na presença do imperador Constantino) e deu um tapa na cara do herege alexandrino.

O ato intempestivo teria causado profundo constrangimento no concílio, e Nicolau foi sumariamente despido de suas vestes episcopais e lançado na masmorra, onde Jesus e Maria teriam aparecido a ele para dizer que ele não seria punido.

Lendas à parte, o fato é que, terminado o concílio, o arianismo foi derrotado e suas ideias declaradas como anátemas, consolidando-se o dogma da Trindade, e Nicolau foi restituído à sua posição de bispo.

Talvez outra semelhança entre São Nicolau e o Papai Noel seja a dificuldade em separar o que é lendário e o que é real, mas – obviamente – é muito mais fácil acreditar que (pelo menos) algumas coisas que se contam sobre Nicolau tenham muito mais substrato fático do que sobre um bom velhinho de roupa vermelha esquisita que voa numa carruagem puxada por renas aladas.

De qualquer maneira, o tapa que São Nicolau teria dado em Ário por conta de sua heresia é uma história (ou estória) boa demais para não ser recordada.

Muito provavelmente, se vivo fosse, ele daria um tapa na cara do consumismo que impera no tal "espírito natalino" dos tempos atuais.

Feliz Natal, Nicolau!





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