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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Talibã evangélico quer proibir aborto até em casos de estupro


O projeto da República Islâmica Evangélica do Brasil vai de vento em popa, para terror dos fracos e oprimidos, obrigado!

Uma comissão formada em sua maioria por homens e evangélicos aprovou a proposta de emenda constitucional (PEC) que criminaliza o aborto em toda e qualquer situação, inclusive naqueles casos em que o Código Penal (de 1940) já havia descriminalizado, ou seja, nos casos de gravidez resultante de estupro ou risco de morte para a mãe, além dos precedentes jurisprudenciais que incluíram nessa descriminalização a má formação do feto em certos casos.

A PEC ainda será submetida aos trâmites próprios nas duas casas do Congresso Nacional antes de - se aprovada - entrar em vigor.

Agora imagine você, querido leitor, a situação em que se encontraria uma mulher que foi estuprada e descobre estar grávida, sendo-lhe tirada a já difícil opção de abortar. 

Ela já tem problemas demais para lidar, e agora seria obrigada a carregar o feto do seu violador apenas para satisfazer a consciência religiosa de pessoas que não lhe dão a mínima.

Se ela escolher fazer o aborto neste caso que a lei atualmente autoriza, ela também já terá problemas suficientes de consciência para lidar, mas agora a bancada evangélica lhe acrescenta outras dores de cabeça no seu momento de maior fragilidade.

Curioso é que a bancada evangélica justifica sua posição antiaborto apelando para o direito à vida, mas apoia à Presidência da República nas próximas eleições um candidato (aquele cujo nome não se pronuncia) que defende incondicionalmente a tortura. 

Talvez a preocupação gospel seja só a idade do feto.

E durma-se com uma hipocrisia dessas...

A notícia é da revista Marie Claire:

Comissão aprova projeto para criminalizar aborto em todos os casos: "Retrocesso", diz deputada

A PEC 181/2011 foi votada nesta quarta-feira (08.11) e foi aprovada por 18 votos a 1. "Eles estão se aproveitando de um consenso que é a extensão da licença-maternidade para instalar um retrocesso", diz deputada Érika Kokay, que votou contra

Nesta quarta-feira (08.11) uma comissão especial da Câmera dos Deputados votou a PEC 181/2015. À princípio, a PEC era para ampliar o prazo de licença-maternidade para mães de bebês prematuros. Por uma monobra da bancada evangélica foi incluido no texto a proibição da interrupção da vida desde sua concepção, ou seja, o que tornaria crime o aborto até mesmo em casos considerados legais hoje pela legislação brasileira, como em situação de estupro ou de risco de morte para a mãe. Entre os 19 parlamentares, apenas a deputada Érika Kokay (PT-DF) votou contra.

Em entrevista à Marie Claire, a deputada disse que agora esse texto segue para uma discussão de seus destaques no dia 21 de novembro. Se aprovado, vai para duas sessões de votação na câmera, em que é preciso ter 308 votos favoráveis, e depois segue para o senado.

"Vamos mobilizar a sociedade contra esse adendo que desvirtuou a proposta original da licença-maternidade e criou o uma situação que é contra a lei aprovada nos anos 1940, que garante à mulher o direito ao aborto em casos de estupro, risco de vida da mãe e anencefalia. Eles estão se aproveitando de um consenso que é a extensão da licença-maternidade para instalar um retrocesso", diz a deputada. "Tentaremos retirar essa anomalia de todas as meneiras, mesmo que tenhamos de ir ao poder judiciário.

Em comunicado oficial à imprensa, Jurema Werneck, Diretora executiva da Anistia Internacional, afirma: “O Estado tem o dever de garantir o aborto seguro e legal, para casos de estupro, agressão sexual ou incesto, risco à vida ou a saúde da mulher, ou comprometimento fetal grave. Além de oferecer às mulheres acesso ao atendimento de qualidade após o aborto, especialmente nos casos de aborto realizados em condições inseguras. Qualquer proposta que busque retirar o acesso ao aborto legal e seguro em caso de estupro deve ser repudiada".

E completou: "Quem é vítima não pode ser exposta a um tratamento degradante, cruel e de extrema violência física e psicológica. O aborto em condições não seguras é uma das principais causas de morte materna. A tentativa de criminalização do acesso ao aborto nos casos já previstos na legislação viola obrigações do Brasil frente a tratados internacionais. Além disso, é fundamental que sejam garantidos serviços de qualidade para o controle de complicações resultantes do aborto, independente da legalidade do procedimento”.



segunda-feira, 31 de julho de 2017

Bolsonaro confirma "banana" aos fãs evangélicos

Conforme havíamos repercutido aqui em novembro de 2016, parece que o deputado federal Jair Bolsonaro escolherá outro partido que não o evangélico PSC para se candidatar às eleições presidenciais do ex-país que um dia foi conhecido como Brasil, em 2018, se é que o calendário eleitoral será respeitado nesta ex-nação ou se o ex-Brasil chegará até lá.

Resta saber como ficarão seus "adoradores" evangélicos, ou melhor, como ficará o seu atual partido, o PSC, já que o eleitorado gospel certamente se bandeará para o candidato paradoxalmente defensor da tortura e contrário ao aborto por respeitar o "dom da vida".

O puro e santo evangelho de Jesus Cristo, este sim - não se preocupe-, passará bem longe de mais essa empreitada dita "evangélica".

De qualquer maneira, haverá viúvas na política, do PSC ou do mundinho varonil gospel. Até o Eymael (o "democrata cristão") rejeitou o Bolsonaro, vocês acreditam?

A saída, então, é ressuscitar o Enéas ("meu nome é Enéas!") e seu Prona.

Basta um polpudo fundo partidário para que milagres assim aconteçam...

A matéria é do Congresso em Foco:

Bolsonaro acerta filiação ao PEN para disputar a Presidência

Pré-candidato à Presidência, o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) acertou sua transferência para o Partido Ecológico Nacional (PEN). Os três filhos dele com mandato político – o também deputado federal Eduardo Bolsonaro (SP), o deputado estadual Flávio Bolsonaro e o vereador do Rio Carlos Bolsonaro – devem seguir o mesmo caminho. A filiação deve ser assinada em duas semanas, segundo dirigentes da legenda.

Para se adequar ao perfil mais conservador do eleitorado de Bolsonaro, o PEN prepara mudança de nome. A tendência é que ressuscite o Prona, partido do recordista de votos na Câmara, Enéas Carneiro (SP), eleito em 2002 com o apoio de 1,57 milhão de eleitores. Enéas também disputou a Presidência três vezes (1989, 1994 e 1998). Outras denominações são estudadas pelo PEN, como Partido da Defesa Nacional ou Pátria Amada Brasil.

A saída de Bolsonaro do PSC foi antecipada em novembro do ano passado pelo Congresso em Foco. A relação do parlamentar com o presidente da sigla, Pastor Everaldo, que disputou a eleição presidencial em 2014, estava desgastada. Everaldo resistia a garantir ao deputado legenda para concorrer ao Planalto em 2018. Bolsonaro também estava contrariado com a coligação do PSC com o PCdoB e o PT em alguns municípios em 2016.

O deputado confirmou o acerto com o PEN em entrevista ao site O Antagonista. “Houve (o acerto). É verdade”, declarou. “É igual a um noivado. Você marcou a data do casamento. Em 99% das vezes, você casa”, emendou. Os números do PEN, por enquanto, são discretos: tem três deputados federais, 14 prefeitos e 13 deputados estaduais. Como mostra a nova edição da Revista Congresso em Foco, o deputado também tem produção legislativa pífia em seus 26 anos de mandato na Câmara.

Registrado em 2012, o PEN tem forte ligação com os evangélicos e chegou a oferecer abrigo à ex-senadora Marina Silva quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou a criação da Rede a tempo de ela disputar a eleição presidencial de 2014. Marina optou pelo PSB, em aliança com o então candidato Eduardo Campos (PSB), falecido em agosto daquele ano em um desastre aéreo. Com a morte de Campos, ela deixou a condição de vice para assumir a vaga dele e terminou a disputa na terceira colocação.

Há duas semanas Bolsonaro disse que namorava alguns partidos e que seu provável destino seria o PSDC, presidido por José Maria Eymael, que disputou a Presidência da República quatro vezes (1994, 2006, 2010 e 2014). Mas o flerte não foi correspondido. Por meio nota, a Executiva do Diretório Nacional da legenda negou que tivesse interesse na filiação do deputado: “Não existem esses entendimentos e não há interesse da Democracia Cristã”. Além disso, o partido afirma que terá candidato próprio nas eleições de 2018 e que a escolha se dará “entre os seus atuais filiados”, que será indicado no 7º congresso nacional da sigla a ser realizado em agosto.



terça-feira, 11 de abril de 2017

Sílvio Santos fez Rachel Sheherazade experimentar do próprio veneno


Na semana passada, por uma dessas lamentáveis infelicidades da vida, eu estava passando na sala quando a TV estava sintonizada no telejornal noturno do SBT, de cujo nome não me lembro nem pretendo lembrar.

Parei para observar a matéria que era tristemente interessante, a tortura aplicada a um jovem numa unidade militar do Rio de Janeiro, que teve, como um dos seus lamentáveis resultados, a perda de um testículo pela vítima.

Foram 2 ou 3 minutos de um excelente material jornalístico, deve-se reconhecer, e a câmara voltou para a apresentadora Rachel Sheherazade, que - impávida - passou para a própria notícia como se ninguém tivesse acabado de ouvir o relato de uma barbárie.

Foi inevitável comparar a reação da moça com aquela que ela teve em 2014, quando, ao ver a tortura de um rapaz negro amarrado a um poste, chamou-o de "marginalzinho" e lançou a campanha "adote um bandido!" num discurso fascista típico do seu raciocínio rasteiro e troglodita travestido de "evangélico", já que é assim que ela - religiosamente - se apresenta.

A repercussão foi tão negativa que até Silvio Santos, patrão e incentivador de Sheherazade, com medo de perder seu ganha-pão (a concessão de TV que ele ganhou bajulando a ditadura militar) fez a justiceira paraibana se calar a partir de então, e - parafraseando o jogador e senador Romário -, Rachel calada é uma poeta, não é mesmo?

Sheherazade se calou, o tempo passou, e no último domingo, na entrega do tal Troféu Imprensa, uma bobagem também patrocinada por Sílvio Santos e sua caricata rede de televisão, numa conversa ao vivo com a apresentadora, Silvio Santos disse, sem mais nem menos, que ela era paga por ser bonita, para ler notícias e não para dar opinião.

Foi o suficiente para que as redes sociais explodissem contra o discurso machista do magnata da TV, dito em tom de brincadeira, mas já invadindo as raias do escárnio, assim como as opiniões que a sua funcionária emitia quando ainda podia falar besteiras.

De fato, mesmo sendo alguém afeita aos mesmos arroubos fascistas, é muito constrangedor que Rachel Sheherazade seja exposta a este ridículo discurso retrógrado que reduz a mulher profissional a um objeto de prazer mórbido, um arremedo de subserviência, achincalhando-lhe a honra e a dignidade.

Quem sabe, ao experimentar do próprio veneno, Rachel não começa a pensar nos outros como seres humanos dignos de um mínimo de respeito, não é mesmo?



quinta-feira, 2 de março de 2017

Comunidade judaica se revolta e cancela palestra de Bolsonaro


A comunidade judaica brasileira mostrou que é muito mais coerente que seu equivalente evangélico no país, composto lamentavelmente por muita gente hipócrita que diz que defende o direito à vida mas apoia desavergonhadamente um político que defende a tortura e a ditadura.

A matéria é do Congresso em Foco:

Reação da comunidade judaica leva a suspensão palestra de Bolsonaro no clube Hebraica


O rabino Michel Schlesinger justificou o cancelamento: “O judaísmo tem tradição de debate. Mas a liberdade de expressão não pode servir de plataforma para a propagação de ideologia discriminatória e apologética à ditadura”

A reação da comunidade judaica levou o clube judaico Hebraica a suspender palestra com o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) marcada para março. Além de postagens nas redes sociais, um abaixo-assinado com 2.700 assinaturas pediu o cancelamento do evento por conta dos valores defendidos pelo deputado, que é pré-candidato a presidente da República em 2018. A informação foi publicada nesta terça-feira pelo jornal Folha de S.Paulo.

O deputado está sendo processado na Câmara pelas acusações de homofobia e defesa da tortura. Em discussão com a deputado Maria do Rosário (PT-RS), também foi acusado de fazer apologia ao estupro. O deputado nega as acusações. A palestra foi planejada pelo empresário Alexandre Nigri. Dois dias depois de perceber a reação negativa, anunciou o cancelamento do evento.

O organizador ao abaix0-assinado, Mauro Nadvorny, comentou a reação: “Tomou essa proporção por tudo de ruim que representa o Bolsonaro. Um racista, misógeno, antissemita, pensar em ser recebido em um clube da comunidade é, por si só, terrível”. Ele acrescentou que o episódio remete ao holocausto: “Quando Hitler começou, também teve apoio de judeus”.

O presidente da Hebraica, Avi Gelberg, disse que o convite ainda não havia sido oficializado. “Após conversa com a equipe do deputado, definimos que seria mais adequado fazer um evento com todos os pré-candidatos, num modelo equilibrado e democrático, como sempre agimos”, disse.

O rabino Michel Schlesinger apoiou o cancelamento: “O judaísmo tem tradição de debate. Mas a liberdade de expressão não pode servir de plataforma para a propagação de ideologia discriminatória e apologética à ditadura”.



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Crânio de Mengele vira material didático na USP

A informação é do Estadão:

Ossos de médico do Holocausto são usados em classe de Medicina em SP

Restos mortais de Josef Mengele, que conduziu experimentos em Auschwitz, viraram objeto de pesquisa na USP

SÃO PAULO - Por mais de 30 anos, os ossos de Josef Mengele, médico alemão que conduziu experimentos em milhares de judeus em Auschwitz, ficaram esquecidos em um saco plástico azul no Instituto de Medicina Legal (IML) em São Paulo.

O doutor Daniel Romero Muñoz, que liderou a equipe responsável pela identificação dos restos de Mengele em 1985, viu uma oportunidade de dar a eles uma utilidade. Há vários meses, o diretor do Departamento de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) obteve permissão para usá-los em estudos de Medicina Forense. Hoje, seus estudantes estão aprendendo a profissão estudando os ossos de Mengele e os conectando com a história de vida do homem conhecido como "Anjo da Morte".

"Os ossos serão úteis para ensinar como examinar os restos de um indivíduo e então confrontar a informação com dados de documentos relacionados àquela pessoa", disse Muñoz, recentemente, cercado de estudantes.

Mengele morreu há quase quatro décadas quando se afogou na costa do Estado de São Paulo. Ele esteve foragido por anos, escondido enquanto era procurado por conduzir experimentos em presos e por ter mandado milhares deles para a câmara de gás durante a 2ª Guerra Mundial.

"A vida de foragido de Mengele, e o mistério sobre o seu paradeiro, são parte do que faz seus ossos uma ferramenta útil de aprendizagem", disse Muñoz. "Por exemplo, examinando os restos dele, vimos que a pélvis esquerda estava fraturada", disse, acrescentando que a "informação encontrada em seu histórico militar dizia que ele tinha fraturado a pélvis em um acidente de moto em Auschwitz", o notório campo de concentração na Polônia.

Segurando o crânio de Mengele, Muñoz apontou para um pequeno buraco no lado esquerdo do osso da bochecha, que ele disse ter sido o resultado de um sinusite de longa duração. Muñoz disse que o casal alemão que recebeu Mengele no Brasil informou à polícia que ele frequentemente sofria de abscessos dentários que ele mesmo tratava com uma lâmina.

"Não me sinto bem (a respeito do uso dos ossos de Mengele para estudo)", disse Cyrla Gewertz, uma sobrevivente do holocausto de 92 anos. "Já tenho muitas memórias dolorosas dele, do que ele me fez e a outros em Auschwitz. Essas são memórias que não posso apagar da minha mente."

Depois da guerra, Cyrla, que disse ter sido internada também em outros campos de concentração como Ravensbruck e Malchow, foi para a Suécia, onde viveu por sete anos e onde conheceu e se casou com seu marido com quem veio ao Brasil em 1952.

Polonesa, Cyrla tem uma tatuagem no seu braço esquerdo a identificando como uma prisioneira de Auschwitz: A24840. Ela disse ter ficado cara a cara com Mengele em diversas ocasiões.

"(Mengele) me disse para tirar a roupa e entrar em uma caldeira com água extremamente quente", disse Cyrla em uma entrevista em seu apartamento em São Paulo. "Eu disse que a água estava muito quente e ele disse que se não fizesse o que ele mandava, me mataria. Depois, tive que entrar em uma caldeira com água congelante." Cyrla disse ter visto uma vez Mengele matando uma bebê recém-nascida jogando-a do topo da instalação do quartel. "Ele era uma pessoa má e perversa", ela disse. "Era um torturador."

Depois da guerra, diante do julgamento ao qual foram submetidos os membros de liderança do 3º Reich de Adolf Hitler, Mengele fugiu para a Argentina e morou em Buenos Aires por uma década.

Ele se mudou para o Paraguai depois que integrantes da agência israelense Mossad capturou o cabeça Adolf Eichmann, que também morava em Buenos Aires. Em 1960, ele chegou a São Paulo, onde recebeu abrigo do casal alemão Wolfram e Lisolette Bossert e de uma família de imigrantes húngaros.

Mengele, então com 67 anos, morreu enquanto nadava na praia da cidade de Bertioga em 1979. O casal Bossert o enterrou em Embu, nos arredores de São Paulo sob o falso nome de Wolfgang Gerhard. Anos depois, autoridades alemãs interceptaram uma carta enviada pelo casal à família de Mengele com a notícia da morte. Eles alertaram as autoridades brasileiras.

Em 1985, seu corpo foi exumado. Equipes da Alemanha, Israel, Estados Unidos e Brasil confirmaram que se tratava de Mengele, usando métodos incluindo a análise de testemunhos de pessoas que o conheceram no Brasil, comparando sua caligrafia em cartas apreendidas e estudando o crânio recuperado para checar se era compatível com fotos antigas.

A professora Maria Luiza Tucci Carneiro, historiadora que coordena o laboratório de estudos étnicos, racismo e discriminação da USP disse esperar que o aprendizado da classe chegue eventualmente além da ciência para a história e a ética. Estudantes devem também aprender "como médicos, psiquiatras e outros cientistas de relevância estavam a serviço do Reich, emprestando conhecimento para excluir grupos étnicos classificados como pertencentes a raças inferiores", disse Maria Luiza. "Uma exclusão que culminou em genocídio.



quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Pais espancam filho até a morte em igreja evangélica dos EUA

O pai Bruce, a mãe Deborah, Joseph Irvin, David Morey, Linda Morey, e a irmã Sarah

A informação absurda mas tristemente real vem da Folha de S. Paulo.

A "razão" para o espancamento (leia-se "tortura") era fazer Lucas (o rapaz morto aos 19 anos de idade) e seu irmão Christopher (de 17, internado em estado grave) confessarem seus pecados e pedirem perdão.

A irmã deles, Sarah Ferguson, também teria participado das agressões.

A Fox31 de Denver, Colorado, acrescenta alguns detalhes interessantes.

Os dois rapazes foram educados em casa, no esquema de "home school" típico de muitas famílias conservadoras americanas.

No total, seis monstros membros da igreja foram presos. Ao macabro trio dos pais e da irmã se juntaram Joseph Irwin, David Morey e Linda Morey. O sexteto do mal está na foto acima.

Ao averiguar o fato, as autoridades locais teriam encontrado algumas crianças na igreja, que foram encaminhadas ao serviço de proteção de menores da cidade.

É fácil atribuir uma loucura dessas ao fanatismo e à ignorância, mas o buraco pode estar mais embaixo.

No fundo, é uma demonstração de sadismo travestido de "piedade". 

Talvez haja muito mais sádicos dissimulados dentro das igrejas evangélicas do que nossa vã consciência consegue perceber.

Não há vez nem espaço para a compaixão...

É muito cômodo pensar que isto é uma exceção dentro das igrejas evangélicas, um fato isolado, mas a profilaxia começa em casa, seria muito interessante analisar como ajudam a reforçar esse quadro de horror o discurso do ódio, a obsessão com o "pecado", a indiferença com o sofrimento alheio e a tolerância pseudoecumênica e parcimoniosa com as heresias que se cometem abundantemente em nome de Cristo.

Eis a matéria da Folha:

Jovem é espancado até a morte 
pelos pais em igreja dos EUA

Um jovem de 19 anos foi morto após ser espancado durante horas dentro de uma igreja por seus próprios pais e irmã, além de outros membros da congregação, segundo informações divulgadas pela polícia nesta quarta (14). Seu irmão também foi espancado no ritual.

Os pais, Bruce Leonard, 65, e Deborah, 59, compareceram diante de um juiz na terça e se declararam inocentes pela morte do filho, Lucas.

Outros quatro membros da congregação da Igreja Palavra da Vida de Chadwicks, cidade de 22 mil habitantes no Estado de Nova York, foram presos e indiciados por torturarem o irmão mais novo de Lucas, Christopher.

"Ambos os irmãos foram continuamente sujeitos a punições físicas durante várias horas com o objetivo de que ambos confessassem seus pecados e pedissem pelo perdão", disse Michael Inserra, chefe da polícia de New Hartford, que investiga o caso.

Lucas Leonard morreu na tarde segunda-­feira após ser levado a um hospital por familiares, os quais mentiram aos médicos dizendo que ele havia sido atingido por um tiro de arma de fogo, segundo a polícia. Os ferimentos de Lucas eram compatíveis com "trauma contundente" em seu tronco e membros.

Por meio de interrogatórios de membros da igreja, a polícia soube que o irmão mais novo de Lucas, Christopher, 17, também havia sido torturado durante a sessão. O rito para a expiação dos pecados era realizado após as missas e presidido pelo pastor ou um membro da congregação, disse Inserra.

A polícia cercou a igreja, onde Christopher era mantido. O adolescente foi transferido para um hospital local e se encontrava em estado grave.

Sarah Ferguson, 33, irmã das duas vítimas, e três outros membros da igreja foram presos e indiciados por agressão.

A fiança dos pais de Lucas Leonard foram estipuladas em US$ 100 mil cada.

Os investigadores não têm muitas informações sobre a Igreja Palavra da Vida, que se descreve simplesmente como uma igreja cristã em uma placa na frente de seu templo.



sábado, 5 de outubro de 2013

Viúva de militar pede perdão por tortura

Matéria publicada no UOL:

Viúva de militar pede perdão a ex-preso por tortura no DOI-Codi, no Rio

Hanrrikson de Andrade

Maria Helena Souza, viúva do médico psicanalista Amilcar Lobo --morto em em 1997--, que servia ao DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) durante o regime militar, pediu perdão ao ex-preso político Cid Benjamin durante audiência da CEV (Comissão Estadual da Verdade), nesta quarta-feira (2), no auditório da Caarj (Caixa de Advogados Aposentados do Rio), no centro do capital fluminense.

Emocionada, Maria Helena foi a única depoente que aceitou responder aos questionamentos feitos pelos membros da Comissão da Verdade no decorrer da sessão. Antes dela, os militares da reserva Luiz Mário Correia Lima e Dulene Garcez, suspeitos de terem participado das sessões de tortura que levaram à morte o jornalista e dirigente do PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário) Mário Alves, em janeiro de 1970, se mantiveram em silêncio.

A testemunha disse que o marido participou "involuntariamente" das sessões de tortura. Sua função era analisar as condições físicas e psicológicas dos presos políticos submetidos às agressões dos torturadores, e atestar se eles poderiam ou não continuar no DOI-Codi. "Eu não o inocento. Ele teve sua participação involuntária, mas teve", afirmou a viúva em referência a Lobo.

Ao se dirigir a Cid Benjamin, que hoje trabalha no setor de comunicação da CEV, Maria Helena disse que o marido era obrigado a lidar com ameças de represália, principalmente em relação aos filhos e à família. "A vida do Amilcar foi marcada por muitas coisas que não batem uma com a outra. Descrever essa história é extremamente importante para mim e para o Brasil", disse ela.

A testemunha relatou que havia entre os torturadores uma "sensação de impunidade muito grande". Os militares, em nome do combate ao "suposto inimigo" e à ameaça do socialismo, não achavam que um dia seriam culpabilizados pelos crimes ocorridos durante o regime, segundo ela. "Havia aquela sensação de estar com a verdade. Eles achavam que aquilo era o melhor para o Brasil. Achavam que estavam salvando o país mesmo que para isso estivessem torturando pessoas", declarou.

Maria Helena contou ainda sobre o trauma de Lobo, que teria visto, de acordo com a testemunha, um preso político ser assassinado com um tiro na testa simplesmente por ter problemas mentais. "Esse preso tinha um distúrbio e o Amilcar não conseguiu tratá-lo a tempo. Como ele não ficou bom naquele dia, decidiram que ele não servia mais", disse.

A morte do ex-deputado federal Rubens Paiva após sucessivas sessões de tortura também foi relatada pelo ex-psicanalista do DOI-Codi, segundo a viúva: "Ele comentou que isso foi algo que mexeu muito com ele [o fato de ter visto a vítima agonizando]. Ele sonhou várias vezes com essa pessoa agonizando. (...) Ele chegou a falar 'Rubens Paiva' por três vezes para que o Amilcar não esquecesse aquele nome".

Suspeitos de tortura se calam

A audiência da Comissão da Verdade realizada nesta manhã tinha o objetivo de reunir informações sobre a morte de Mário Alves, porém os dois militares da reserva que compareceram à sessão, os então tenentes Luiz Mário Correia Lima e Dulene Garcez, respectivamente, nada falaram sobre o período no qual atuavam no DOI-Codi.

Garcez, inclusive, repetiu a mesma frase --"Nada a declarar"-- em resposta a mais de 30 perguntas feitas pelos membros da comissão. Já Correia Lima argumentou que já havia colaborado com os trabalhos da CEV no momento em que depôs "durante duas horas" na Comissão Nacional da Verdade.

Correira Lima afirmou ainda que fazia parte de uma "organização militar legalmente constituída", mas não entrou em detalhes sobre as tarefas que lhe eram designadas.

Segundo o advogado José Carlos Tórtima, que também foi torturado no DOI-Codi, Correia Lima deu um soco nas costas da militante do PCBR Angela Camargo Seixas, em 1970. A estudante, então com 19 anos, havia sido presa antes dele, e foi agredida após se calar ante aos questionamentos dos militares.

"Foi ele que espancou a Angela Seixas", afirmou Tórtima aos familiares de vítimas do regime militar que acompanhavam a audiência. Correia Lima deixou o plenário em silêncio.

O também militar da reserva Armando Avólio Filho também seria ouvido na manhã desta quarta-feira, porém não compareceu.

O neto de Mário Alves, o músico Leonardo Alves Vieira, 35, lembrou que, como já haviam faltado outras duas vezes, Correia Lima e Garcez seriam acionados judicialmente caso não comparecessem pela terceira vez à audiência da Comissão Estadual da Verdade.

"Eu nem esperava que eles viessem. Mas como a comissão já havia avisado que uma terceira convocação seria coercitiva, eles vieram por isso. (...) Estou engasgado até agora. Ficar ouvindo "nada a declarar, nada a declarar". Isso é sacanagem. Eles foram machos para torturar, mas na hora de olhar no olho e responder sobre o que fizeram, a situação é outra", disse.



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A greve de fome da feminista russa


As militantes feministas do grupo Pussy Riot foram presas e condenadas por "incitamento ao ódio religioso" em 2012, depois de terem se manifestado durante uma celebração ortodoxa russa na Catedral do Cristo Salvador, em Moscou.

Matéria publicada no portal português Público, com grafia lusitana, já que a reforma ortográfica foi mais uma lorota que nos contaram, e deve ter servido só para alguns espertalhões venderem livros e dicionários:

Pussy Riot em greve de fome: “As prisioneiras da colónia nº 14 têm medo das próprias sombras”

ANA DIAS CORDEIRO

Nadezhda Tolokonnikova, das Pussy Riot, entrou em greve de fome. Explica que o método "extremo" é o único possível num lugar onde o silêncio é imposto pelo terror.

Nadezhda Tolokonnikova, uma das duas Pussy Riot ainda presas, entrou em greve de fome. “É um método extremo” mas “a única forma de sair da situação em que me encontro”, escreve numa carta aberta em que detalhadamente denuncia as condições desumanas da colónia prisional da Mordóvia, para onde foi transferida no Outono passado. Uma situação também ela extrema, diz, perante a violência infligida a si e às outras prisioneiras, ainda mais indefesas por não serem, como ela, um foco da atenção do público.

Em Agosto de 2012, as três Pussy Riot foram consideradas culpadas da acusação de hooliganismo e incitamento ao ódio religioso, por terem cantado, uma “oração punk” na Catedral do Cristo Salvador, em Moscovo, na qual criticavam a Igreja Ortodoxa russa e Vladimir Putin. Nadezhda Tolokonnikova foi então condenada a dois anos de prisão, juntamente com Maria Aliokhina e Iekaterina Samutsevich, entretanto libertada.

Dentro da colónia penal nº 14, “o silêncio é imposto” pelo terror, diz nesta carta aberta publicada no jornal britânico The Guardian. As prisioneiras “têm medo das próprias sombras, vivem aterrorizadas". Não se ouvem queixas. Ou pelo menos, as queixas não atravessam os muros da prisão. Entrar em greve de fome era “a única forma” de se fazer ouvir.

“A administração da colónia prisional recusa ouvir-me”, expõe. “E eu recuso baixar os braços. Não ficarei em silêncio, resignada a ver colegas da prisão a desfalecer sob a pressão de condições de escravatura. Exijo que sejamos tratadas como seres humanos.”

Nadezhda Tolokonnikova lembra que chegou aqui há um ano, vinda do centro de detenção de Moscovo, onde a colónia prisional nº14 já era tristemente célebre por dela se dizer: “Quem nunca cumpriu pena no campo da Mordóvia, simplesmente não cumpriu pena.”

Violações flagrantes

Nada parecia, pois, comparar-se a este lugar, onde “os níveis de segurança [prisional] são os mais altos, os dias de trabalho mais longos e as violações de direitos humanos mais flagrantes.” Na colónia penal nº14, “ninguém ousa desobedecer”, onde o trabalho forçado ocupa dois terços das horas do dia, se dorme quatro horas e se tem uma folga a cada mês e meio. Aqui onde as mulheres podem ser espancadas por tudo e por nada – quando, por exemplo, não conseguem cumprir o nível irrealista de produção diária exigido na fábrica de uniformes da polícia onde Nadezhda Tolokonnikova trabalha. O corpo desfalece perante a brutalidade e, quando os sinais de doença surgem, as súplicas são atendidas sim, mas com humilhação e insultos.

Uma prisioneira de 50 anos, que sofria de tensão alta e se sentia mal, pediu um dia para terminar o turno mais cedo e dormir uma noite completa de oito horas, conta Tolokonnikova. Em vez disso, foi insultada e acusada de ser “parasita”. Noutro caso, uma mulher cigana foi espancada até à morte, há um ano. “A administração encobriu a morte [declarada na unidade médica da prisão]: a causa oficial foi uma trombose.”

Forçar à submissão

Algumas prisioneiras são instrumentalizadas pelos responsáveis. A mando destes ou com o seu consentimento, são elas que agridem as colegas que ficam abaixo das quotas exigidas num dia de trabalho de 16 ou 17 horas.

Os maus tratos são “um método conveniente” para a administração “forçar as prisioneiras à submissão total perante os sistemáticos abusos de direitos humanos”, continua a activista, antes de descrever a “atmosfera ameaçadora, de ansiedade que invade a [sua] área de trabalho”. E os casos de mulheres que, derrotadas pela falta de sono, “pela interminável luta de cumprir quotas de trabalho desumanas”, ficam à beira do esgotamento e se agridem mutuamente, pelas mais pequenas coisas do dia-a-dia ou, fora de controlo, se autoflagelam.

Nadezhda Tolokonnikova lembra-se de ter sido acolhida pelo chefe-adjunto da colónia, tenente-coronel Kupriyanov, que é na realidade, quem administra a prisão: “Devia saber que, no que diz respeito à política, sou um estalinista”, disse-lhe já depois de pressionada a “confessar a culpa”. E quando ela respondeu que apenas trabalharia o previsto no código laboral, oito horas por dia, o outro responsável da administração, coronel Kulagin, prontificou-se a esclarecer que na colónia, a regra era outra. “A nossa força de vontade é maior do que a tua.”

Violações "intermináveis"

O desrespeito pelos direitos e necessidades básicas – como o repouso, a alimentação ou a higiene – são “intermináveis”, escreve Tolokonnikova. “As condições de vida e de higiene do campo são calculadas para as prisioneiras se sentirem como um animal imundo e sem direitos”, denuncia ao mesmo tempo que relata momentos em que a sua unidade perdeu o direito a um banho durante duas ou três semanas.

“A administração força as pessoas ao silêncio”, diz Tolokonnikova. "Todos os outros problemas derivam deste. A administração sente-se intocável.” A activista diz que não compreendia por que toda a gente ficava em silêncio. Até ao dia em que ela própria se deparou “com uma avalancha de obstáculos que se abate sobre quem decide falar”. E continua: “As queixas simplesmente não saem da prisão”, diz sem especificar como conseguiu publicar esta carta.

Uma revolta é, porém, impensável. “Ninguém ousa desobedecer.” A uma exposição, pedido ou queixa por escrito, como fez Tolokonnikova, através do seu advogado, a solicitar o respeito dos direitos humanos das prisioneiras, a administração prisional sobe o nível de ameaça e opressão. Em resposta pela acção individual da activista, aplica o castigo colectivo que inibe, paralisa.

O efeito do castigo colectivo

“É possível tolerar qualquer coisa desde que nos afecte a nós apenas. Mas o método do castigo colectivo é maior do que isso. Significa que toda a unidade ou mesmo toda a colónia é submetida ao mesmo castigo. Isto inclui, pessoas a quem entretanto nos ligamos”, escreve, dando exemplos de amigas que sofreram represálias pelas queixas expressas pela activista. Uma viu recusada a passagem a liberdade condicional por que tinha lutado durante sete anos. Outra foi “atirada” para a unidade de espancamentos diários. O tenente-coronel Kupriyanov teve o cuidado de dizer a Tolokonnikova que tudo isto acontecia por causa dela. Nesse momento, ela decidiu parar: “Pus fim ao processo de interpor queixas.”

Agora, lembra que depois de uma dessas queixas, a vida na "unidade e brigada de trabalho” se tornou “impossível”. Desde então, “a pressão não tem parado de aumentar”. “Por isso”, conclui, “a partir do dia 23 de Setembro, inicio esta greve de fome e recuso participar no trabalho escravo na colónia. E assim me manterei até ao dia em que a administração decida cumprir a lei e pare de tratar as prisioneiras como gado”. Até “sermos tratadas como seres humanos”.



quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Justiça chilena pede perdão por ter apoiado o golpe de Pinochet

Hoje, dia 11 de setembro, é uma data que deve ser sempre lembrada por todos aqueles que amam e prezam a democracia na América Latina.

Foi num fatídico dia 11 de setembro, do ano de 1973, que as forças armadas chilenas, lideradas por Augusto Pinochet, com apoio dos Estados Unidos e das ditaduras militares vizinhas, entre elas a que golpeava o Brasil à época, derrubaram o governo democraticamente eleito de Salvador Allende e instauraram uma dinastia do terror no Chile.

Milhares de civis foram executados, sobretudo no período inicial, em que o glorioso Estádio Nacional de Santiago (palco da final da Copa do Mundo de 1962, em que o Brasil ganhou o bicampeonato vencendo a Tchecoslováquia por 3x1) foi transformado num matadouro das jovens aspirações democráticas da nação chilena.

A ditadura sanguinária de Pinochet só terminaria em 1990, e os governos civis democraticamente eleitos que lhe sucederam vão conseguindo, pouco a pouco, sanar as terríveis fraturas que ele provocou na sociedade chilena.

Por isso chama a atenção o fato de que, exatos 40 anos depois do golpe de 1973, o Poder Judiciário do Chile (pelo menos em parte) venha a público pedir perdão pelo apoio incondicional que deu às rotineiras execuções sumárias e violações de direitos humanos naqueles anos de chumbo, não ouvindo os incontáveis gritos de socorro, quando poderia ter salvo muitos inocentes da máquina pinochetiana de matar.

O exemplo deveria ser seguido pelos "nobres juristas" brasileiros que conspurcaram o Direito e a Democracia no seu afã de servir aos áulicos do poder militar que deixou refém a nação de 1964 a 1985.

Um pedido de desculpas não vai trazer de volta nenhuma vítima daqueles regimes ensandecidos, mas serve pelo menos de exemplo para que o erro jamais se repita. 

Antes tarde do que nunca.

A notícia é do jornal português Público, com a grafia lusitana típica (que reforma ortográfica, que nada!):

Juízes chilenos pedem desculpa por "acções e omissões" na ditadura de Pinochet

Livro da jornalista Alejandra Matus (1999),
proibido pela Suprema Corte chilena por 2
anos, que denuncia a subserviência do Poder
Judiciário à ditadura de Augusto Pinochet
Associação de magistrados admite que o poder judicial falhou "na sua tarefa essencial", mas o porta-voz do Supremo Tribunal rejeita pedir perdão.

Os magistrados do Chile pediram desculpas pelas "acções e omissões" do sistema judicial perante as violações dos direitos humanos na ditadura militar no país, nas décadas de 1970 e 1980.

"O poder judicial e, em especial, o Supremo Tribunal da época claudicaram na sua tarefa essencial de tutelar os direitos fundamentais e proteger as vítimas do abuso estatal", lê-se num comunicado da Associação de Magistrados do Poder Judicial, citado pelo jornal La Nación.

É um pedido de desculpas incondicional: "Sem ambiguidades nem equívocos, chegou a hora de pedir perdão às vítimas, aos seus familiares e à sociedade chilena", declaram os magistrados do país.

"O poder judicial podia e devia ter feito muito mais" durante a ditadura militar e "incorreu em acções e omissões impróprias das suas funções, ao ter-se negado, salvo raras mas valiosas excepções, a proteger quem pediu a sua protecção", dizem ainda os magistrados chilenos.

No mesmo comunicado, a associação pede que o Supremo Tribunal reflicta sobre os actos passados e que tome também uma posição: "Temos a esperança de que o actual Supremo Tribunal, cujo papel tutelar dos direitos fundamentais ficou demonstrado no actual exercício das suas funções, dê ouvidos à sentida solicitação dos juízes que aspiram a distanciar-se de um passado obscuro que receberam involuntariamente como herança."

Porta-voz do Supremo afasta pedido de desculpas O apelo lançado pela Associação de Magistrados do Poder Judicial já teve resposta do porta-voz do Supremo, Hugo Dolmetsch, embora a título pessoal. "O pedido de perdão é algo íntimo, quando se sente algum grau de responsabilidade. Acho que todos têm um grau de responsabilidade, mas não sei se estarei no grupo dos que devem pedir perdão", disse o representante do Supremo Tribunal chileno.

Numa entrevista à CNN do Chile, Hugo Dolmetsch recusou-se a falar em nome do Supremo, mas afirmou que "terá de sair alguma determinação" sobre um eventual pedido de perdão. "Um sim ou um não, mas algo terá de sair", afirmou.

Dolmetsch, que trabalhou no sistema judicial durante os anos da ditadura militar, admitiu que "podia ter feito mais". Mas "a situação era de uma gravidade tremenda. Eu era advogado, mas não creio que estivesse obrigado a assumir uma atitude de liderança nesta matéria. Ninguém é obrigado a cometer suicídio. Não necessariamente um suicídio porque alguém o vai matar, mas pode ser um suicídio do ponto de vista laboral", afirmou.

O responsável justificou mesmo o comportamento do Supremo durante a ditadura militar que colocou no poder Augusto Pinochet, depois do golpe que derrubou Salvador Allende em 1973.

Para o actual porta-voz do Supremo, o poder judicial apoiou o golpe de Estado militar para "manter a independência". "Foi um erro? Perante as circunstâncias foi correcto, de outro modo poderia haver uma ditadura absoluta. Assim, o poder judicial continuou a funcionar de forma independente", defendeu.

Salvador Allende e Pablo Neruda



domingo, 9 de junho de 2013

As peças que a memória prega

Nossa leitura (sempre) especial de domingo traz hoje Oliver Wolf Sacks, que é professor de neurologia e psiquiatria na Universidade de Columbia, em Nova York.

Com base em sua experiência real com pacientes catatônicos que recobram a vida normal, em 1973 escreveu o livro "Awakenings" que - em 1990 - foi levado ao cinema com o título brasileiro de "Tempo de Despertar", com Robin Williams no papel principal.

Sacks nos oferece hoje o brilhante artigo abaixo, que fala - entre outras coisas interessantíssimas - sobre memória, plágio e autoplágio,  que foi originalmente escrito para o The New York Review of Books, traduzido para o português por Clara Allain e publicado na Folha de S. Paulo:

Fala, memória

Quando as lembranças nos pregam peças

OLIVER SACKS
TRADUÇÃO CLARA ALLAIN

RESUMO Nem sempre as lembranças mais vivas correspondem a situações vividas: podem ser herdadas de outros ou fruto de "reconfiguração" pela mente. O mecanismo é explicado com base em casos de plágio, autoplágio, "criptomnésia" ("plágio" inconsciente) e sugestionabilidade em sessões de tortura e acusações de pedofilia.



É espantoso perceber que algumas de nossas recordações mais queridas talvez nunca tenham acontecido --ou talvez tenham acontecido com outra pessoa. Desconfio de que muitos de meus entusiasmos e impulsos, que parecem ser inteiramente meus, tenham nascido das sugestões de outros que me influenciaram, de modo consciente ou não, e depois foram esquecidas.

De modo semelhante, embora eu volta e meia faça palestras sobre tópicos similares, jamais consigo me lembrar exatamente do que disse em ocasiões anteriores, nem suporto reler notas antigas.

Ao perder a memória consciente do que disse antes e não tendo texto em que me basear, descubro meus tópicos novamente a cada vez, e eles volta e meia me parecem novos em folha. Esse tipo de esquecimento talvez seja necessário para uma criptomnésia criativa ou saudável, que permita que pensamentos velhos sejam reunidos, retranscritos, recategorizados e imbuídos de novos significados.

Ocasionalmente esses esquecimentos chegam a constituir autoplágio: eu me pego reproduzindo expressões ou orações inteiras como se fossem novas, e isso às vezes pode ser agravado por esquecimento genuíno. Relendo velhos cadernos, descubro que muitos pensamentos ali anotados foram esquecidos por anos e então retrabalhados como se fossem novos.

Desconfio de que esse tipo de esquecimento atinja a todos e que isso seja especialmente comum nas pessoas que escrevem, pintam ou compõem, pois a criatividade talvez exija tais esquecimentos para que nossas memórias e ideias possam renascer e ser vistas em novos contextos e perspectivas.

O dicionário "Webster" define "plagiar" como "roubar ou fazer passar por nossas (as ideias ou palavras de outro): usar (a produção de outro) sem citar a fonte [...] cometer roubo literário: apresentar como sendo nova e original uma ideia ou um produto derivado de uma fonte existente".

Existe uma sobreposição considerável entre essa definição e a de "criptomnésia". A diferença essencial é que o plágio, conforme é comumente entendido e reprovado, é consciente e intencional, enquanto a criptomnésia não é nem uma coisa nem outra. Talvez o termo "criptomnésia" precise ser mais bem conhecido, pois, embora possamos falar em "plágio inconsciente", a própria palavra "plágio" é tão moralmente carregada, tão sugestiva de delito e logro que conserva seu tom repreensível, mesmo que seja "inconsciente".

Em 1970, George Harrison compôs uma canção que foi um sucesso enorme, "My Sweet Lord", que, conforme se descobriu, guardava grandes semelhanças com uma canção de Ronald Mack ("He's So Fine"), gravada oito anos antes. Quando o caso foi a julgamento, o juiz considerou Harrison culpado de plágio, mas demonstrou "insight" psicológico e empatia na súmula que fez. Ele concluiu:

"Harrison utilizou propositalmente a música de He's So Fine'? Não creio que ele o tenha feito de caso pensado. Não obstante [...] trata-se, segundo a lei, de infração de direitos autorais, e não deixa de sê-lo, mesmo que tenha sido cometida de modo subconsciente."

Helen Keller foi acusada de plágio quando tinha apenas 12 anos de idade.1 Apesar de ter sido surda e cega desde pequena e de ignorar a linguagem até conhecer Anne Sullivan, aos seis anos, tornou-se escritora prolífica depois de aprender datilologia e braille.

Quando menina, escreveu um conto intitulado "The Frost King" (O rei da geada), que deu a uma amiga como presente de aniversário. Quando o conto saiu numa revista, os leitores logo perceberam que ele guardava várias semelhanças como "The Frost Fairies" (As fadas da geada), conto infantil de Margaret Canby.

A admiração por Helen Keller converteu-se em repreensão, e Keller foi acusada de plágio e falsidade proposital, apesar de afirmar não ter nenhuma lembrança de ter lido o conto de Canby e de achar que tinha criado a história. A pequena Helen foi sujeita a uma inquisição implacável que a deixou marcada pelo resto da vida.

Mas ela também teve defensores, entre os quais a plagiada Margaret Canby, que se surpreendeu ao saber que um conto "escrito" com o dedo sobre a mão de Helen três anos antes pudesse ser recordado ou reconstruído por ela com tantos detalhes. "Que mente maravilhosamente atenta e retentiva essa criança talentosa deve ter!", Canby escreveu. Alexander Graham Bell se manifestou em defesa de Keller, dizendo: "Nossas composições mais originais são feitas exclusivamente de expressões derivadas de outros".2

Na realidade, a mente e a imaginação notáveis de Helen não teriam podido se desenvolver e tornar-se tão férteis quanto foram sem se apropriarem da linguagem alheia. Talvez, de modo geral, sejamos todos dependentes dos pensamentos e das imagens de outros.

A própria Helen disse, fazendo referência a tais apropriações, que a probabilidade de ocorrerem era maior quando os livros eram traçados sobre suas mãos, sendo suas palavras recebidas passivamente. Ela disse que às vezes, quando isso era feito, ela não conseguia identificar ou lembrar-se da fonte, nem mesmo, por vezes, lembrar se o material vinha de fora dela ou não. Esse tipo de confusão raramente ocorria quando ela lia ativamente, usando o Braille e movendo seu próprio dedo pelas páginas.

COLERIDGE A questão dos plágios, paráfrases, criptomnésias ou apropriações feitas por Samuel Taylor Coleridge intriga estudiosos e biógrafos há quase dois séculos e é especialmente interessante em vista de sua memória prodigiosa, seu gênio imaginativo e seu senso de identidade complexo, multiforme, por vezes atormentado. Ninguém o descreveu com mais beleza que Richard Holmes, em sua biografia em dois volumes do poeta.

Coleridge era um leitor voraz e onívoro, que parecia reter tudo. Há descrições dele, estudante, lendo "The Times" de modo casual e depois sendo capaz de reproduzir o jornal inteiro "ipsis litteris", incluindo os anúncios. "No jovem Coleridge", Holmes escreve, "isso é realmente parte de seu dom: uma enorme capacidade de leitura, uma memória retentiva, o talento de falador para recriar e orquestrar ideias de outras pessoas e o instinto natural de um palestrante e pregador para colher materiais onde quer que os encontrasse."

A apropriação literária era comum no século 17 --Shakespeare apropriava-se livremente de criações de muitos de seus contemporâneos, e John Milton fazia o mesmo.3 A apropriação amigável continuou a ser comum no século 18, e tanto Coleridge como William Wordsworth e Robert Southey se apropriaram de materiais uns dos outros, chegando até mesmo, segundo Holmes, a publicar trabalhos sob os nomes uns dos outros.

Mas algo que era comum, natural e feito em espírito de brincadeira na juventude de Coleridge foi pouco a pouco assumindo uma forma mais inquietante, especialmente em relação aos filósofos alemães (sobretudo Friedrich Schelling), que Coleridge "descobriu", venerou, traduziu e, por fim, acabou utilizando de modo extraordinário. Páginas inteiras da "Biographia Literaria" de Coleridge consistem em trechos de Schelling reproduzidos "ipsis litteris" e não reconhecidos como tais.

Embora esse comportamento prejudicial e aberto tenha sido pronta (e redutivamente) qualificado como "cleptomania literária", o que aconteceu de fato é complexo e misterioso, como Holmes estuda no segundo volume de sua biografia, em que ele vê os plágios mais evidentes de Coleridge como tendo ocorrido num período devastadoramente difícil de sua vida, quando ele tinha sido abandonado por Wordsworth, estava paralisado por ansiedade profunda e dúvidas quanto a seu próprio valor intelectual e se encontrava mais profundamente dependente do ópio do que nunca. Nesse momento, escreve Holmes, "os autores alemães lhe proporcionavam apoio e conforto; numa metáfora que ele próprio empregava com frequência, Coleridge os enlaçava, como a hera enlaça o carvalho".

Antes disso, na descrição de Holmes, Coleridge tinha descoberto outra afinidade extraordinária, esta pelo escritor alemão Jean-Paul Richter --afinidade que o levou a traduzir e transcrever os escritos de Richter e então a deslanchar a partir deles, modificando-os à sua própria maneira e, em seus cadernos de anotações, dialogando com Richter. Em alguns momentos as vozes dos dois homens se misturam de tal maneira que se tornam quase indistinguíveis. [...]

Freud era fascinado pelos lapsos e deslizes de memória que ocorrem no cotidiano e por sua relação com a emoção, especialmente a emoção inconsciente; mas ele também foi obrigado a considerar distorções de memória muito mais grosseiras manifestadas por alguns de seus pacientes, especialmente quando relatavam que teriam sido seduzidos ou que teriam sofrido abuso sexual na infância.

De início ele interpretou todos esses relatos literalmente, mas, com o tempo, quando pareceu que havia poucas evidências ou plausibilidade em vários casos, começou a se perguntar se as recordações não poderiam ter sido distorcidas pela fantasia e se algumas delas não poderiam, na realidade, ser inteiramente fantasiosas, construídas inconscientemente, mas de modo tão convincente que os próprios pacientes acreditassem totalmente nelas.

As histórias que os pacientes contavam e tinham contado a si mesmos poderiam ter um efeito muito poderoso sobre suas vidas, e pareceu a Freud que a realidade psicológica dessas histórias poderia ser igual, quer elas viessem de experiências reais ou de fantasias.

Em nossa época, as descrições e acusações de abuso na infância alcançaram proporções quase epidêmicas. Muita importância é atribuída às chamadas memórias recuperadas --memórias de experiências tão traumáticas que foram reprimidas defensivamente e então, com terapia, libertadas da repressão. As formas particularmente sombrias e fantásticas disso incluem descrições de rituais satânicos de alguma espécie, com frequência acompanhados por práticas sexuais coercitivas.

Vidas e famílias foram devastadas por acusações dessa natureza. Mas foi demonstrado, pelo menos em alguns casos, que tais descrições podem ser insinuadas ou plantadas por outros. Aqui, a combinação frequente de uma testemunha sugestionável (muitas vezes uma criança) com uma figura de autoridade (talvez um terapeuta, professor, assistente social ou investigador) pode ser especialmente poderosa.

TORTURA Desde a Inquisição e os julgamentos das bruxas de Salem até os julgamentos soviéticos da década de 1930 e Abu Ghraib, variedades de "interrogatório extremo" ou tortura física e mental pura e simples vêm sendo empregadas para extrair "confissões" políticas ou religiosas.

Embora tais interrogatórios possam ter como objetivo inicial extrair informações, suas intenções mais profundas talvez sejam promover uma lavagem cerebral, efetuar uma mudança genuína de pensamentos, preencher a mente com memórias implantadas, autoincriminadoras, e nisso eles podem ter êxito assustador.4

Mas talvez não seja preciso recorrer à sugestão coercitiva para afetar as memórias de uma pessoa. Depoimentos de testemunhas oculares são notoriamente sujeitos à sugestão e ao erro, muitas vezes com efeitos altamente nocivos aos acusados sem razão.5

Com o advento dos exames de DNA, hoje é possível, em muitos casos, encontrar corroboração ou refutação objetivas de tais depoimentos, e Schacter observa que "uma análise recente de 40 casos em que provas de DNA apontaram a inocência de indivíduos erroneamente encarcerados revelaram que 36 desses casos (90%) envolveram a identificação equivocada feita por testemunhas oculares".

Se os últimos 30 anos foram marcados pelo surgimento ou ressurgimento de síndromes de memória e identidade ambíguas, também levaram a pesquisas importantes --forenses, teóricas e experimentais-- sobre a maleabilidade da memória.

A psicóloga e pesquisadora da memória Elizabeth Loftus documentou um sucesso inquietante na implantação de memórias falsas através da mera sugestão feita a um sujeito de que ele teria passado por um acontecimento fictício.

Esses pseudoeventos, inventados por psicólogos, podem variar desde incidentes cômicos ou incômodos leves (de que uma pessoa se perdeu num shopping quando era criança, por exemplo) até incidentes mais graves (que alguém foi vítima de um ataque grave de um animal ou de uma agressão grave por outra criança).

Depois do ceticismo inicial ("Nunca me perdi num shopping") e, em seguida, da incerteza, o sujeito pode passar a nutrir uma convicção tão profunda que continuará a insistir sobre a veracidade da memória implantada, mesmo após o autor do experimento revelar que o incidente nunca aconteceu.

O que fica claro em todos esses casos é que --quer se trate de abusos imaginados ou reais na infância, de memórias genuínas ou experimentalmente implantadas, de testemunhas induzidas ao engano ou de prisioneiros submetidos a lavagem cerebral, de plágio inconsciente ou das memórias falsas que todos nós provavelmente temos, baseadas em confusão quanto às fontes ou em atribuição equivocada--, na ausência de confirmação externa, não existe uma maneira fácil de distinguir uma memória ou inspiração genuína, sentida como tal, daquelas que foram apropriadas ou sugeridas; de distinguir entre o que o psicanalista Donald Spence descreve como "verdade histórica" e "verdade narrativa".

Mesmo que seja exposto o mecanismo subjacente a uma memória falsa [...], isso pode não modificar a sensação de uma experiência vivida de fato ou a realidade que tais recordações possuem.

Tampouco as contradições óbvias ou o caráter absurdo de determinadas memórias pode modificar o sentimento de convicção e de crença nelas. Na maioria dos casos, pessoas que afirmam terem sido abduzidas por extraterrestres não mentem quando contam como foram levadas até naves espaciais de alienígenas, não mais do que mentem quando têm consciência de terem inventado uma história: algumas creem genuinamente que foi isso o que aconteceu.

Uma vez construída tal narrativa ou memória, acompanhada de imagens sensoriais vívidas e de emoção forte, pode não haver jeito psicológico, interno, nem externo, neurológico, de distinguir o que é verdadeiro do que é falso.

As correlações fisiológicas dessa memória podem ser examinadas com neuroimagiologia funcional, e as imagens mostram que memórias vívidas produzem ativação ampla no cérebro, envolvendo áreas sensoriais, emocionais (límbicas), e executivas (lobo frontal) --padrão que é virtualmente idêntico, quer a "memória" seja baseada numa experiência, quer não.

Parece que não existe, nem na mente nem no cérebro, nenhum mecanismo para garantir a verdade de nossas recordações, ou pelo menos o caráter verídico delas. Não temos acesso direto à verdade histórica, e aquilo que sentimos ou afirmamos como sendo verdadeiro (como Helen Keller estava em ótima posição para observar) depende tanto de nossa imaginação quanto de nossos sentidos.

Não existe um modo pelo qual os acontecimentos do mundo possam ser transmitidos ou gravados diretamente em nossa mente; eles são experimentados e construídos de modo altamente subjetivo, que é diferente em cada indivíduo, para começar, e reinterpretado ou revivido diferentemente a cada vez que são recordados. (O neurocientista Gerald M. Edelman costuma falar em apreender como sendo "criar" e em lembrar como sendo "recriar" ou "reclassificar".)

Com frequência nossa única verdade é a verdade narrativa, as histórias que contamos uns aos outros e a nós mesmos --histórias que reclassificamos e refinamos sem cessar. Essa subjetividade está embutida na própria natureza da memória e decorre de seus mecanismos e bases no cérebro. O que surpreende é que aberrações grosseiras sejam relativamente raras e que, na maior parte do tempo, nossas memórias sejam relativamente sólidas e confiáveis.

Nós, seres humanos, carregamos sistemas de memórias que têm pontos falhos, fragilidades e imperfeições, mas que também possuem grande flexibilidade e criatividade. A confusão sobre fontes ou a indiferença a elas podem representar uma força paradoxal: se pudéssemos rotular as fontes de todos nossos conhecimentos, ficaríamos submersos em informações em muitos casos irrelevantes.

A indiferença às fontes nos permite assimilar o que lemos, o que nos é dito, o que outros dizem, pensam, escrevem e pintam com tanta intensidade e riqueza como se fossem experiências primárias. Ela nos permite enxergar e ouvir com outros olhos e ouvidos, penetrar em outras mentes, assimilar a arte, ciência e religião da cultura inteira, penetrar na mente comum e contribuir para ela, para a comunidade geral do conhecimento.

Essa espécie de partilha e participação, essa comunicação não seria possível se todos os nossos conhecimentos, as nossas memórias, fossem rotulados e identificados, vistos como privados, exclusivamente nossos. A memória é dialógica e nasce não só da experiência direta, mas também da intercomunicação de muitas mentes.

Notas

Originalmente publicado no jornal "The New York Review of Books" --leia íntegra em folha.com/ilustrissima. O título, "Speak, Memory", alude às memórias de Vladimir Nabokov, "Speak, Memory", publicadas no Brasil como "A Pessoa em Questão" (Cia. das Letras). (Nota do Editor)

1. Esse episódio é relatado de modo detalhado e empático por Dorothy Herrmann em sua biografia de Keller, "Helen Keller: A Life" (University of Chicago Press, 1998).


2. Mark Twain escreveu mais adiante a Helen Keller: "Quão indizivelmente engraçada e absurdamente idiota e grotesca foi aquela farsa do plágio'! Como se existisse muito de qualquer coisa na expressão humana que não seja plágio!... Pois, substancialmente, todas as ideias são de segunda mão, consciente e inconscientemente tiradas de um milhão de fontes externas."
De fato, o próprio Mark Twain tinha cometido um roubo inconsciente desse tipo, conforme descreveu em um discurso no 70º aniversário de Oliver Wendell Holmes: "Oliver Wendell Holmes... foi... o primeiro grande homem literário de quem eu roubei alguma coisa --e foi assim que eu acabei escrevendo a ele e ele a mim. Quando meu primeiro livro ainda era recente, um amigo me disse: Essa dedicatória é muito boa'. Sim, falei, eu achava que era. Meu amigo falou: Sempre a admirei, mesmo antes de vê-la em "The Innocents Abroad"'.
Naturalmente, eu disse: Como assim? Onde você a viu antes?'
Bem, eu a vi primeiramente alguns anos atrás como a dedicatória escrita pelo Doutor Holmes em suas "Songs in Many Keys".' Bem, naturalmente, eu escrevi ao dr. Holmes e lhe disse que não tinha tido a intenção de roubar, e ele escreveu de volta, e, nos termos mais gentis, me disse que não havia problema e que não tinha sido feito nenhum mal; e acrescentou acreditar que todos nós inconscientemente retrabalhamos ideias recebidas ao ler e ouvir, imaginando que sejam originais nossas."


3. "The Cambridge History of English and American Literature" diz a respeito de Milton: "Os caçadores de paralelos, plágios e fontes se deram a trabalho enorme [...] para demonstrar que Milton imitou, apropriou-se de ou, desse modo ou daquele, seguiu o Adamo' de [...] Andreini (1613), o Lucifer' [...] de [...] Vondel (1654), o Adamus Exul' de Grotius (1601), Du Bartas' (1605), de Sylvester, e até mesmo Caedmon. [...] Supondo que Milton tivesse lido todos esses livros, Paradise Lost' ainda seria obra de Milton; e é absolutamente certo não apenas que ninguém mais poderia ter construído Paradise Lost' a partir dessas outras obras, mas que um comitê composto pelos autores delas, cada um deles em seu melhor veio e trabalhando juntos como jamais colaboradores conseguiram trabalhar, não teria chegado nem sequer a uma distância mensurável de Paradise Lost' ou de Milton."

4. O tema da lavagem cerebral ou subjugação de um homem, com a desorganização forçada de sua memória, é ilustrada de modo assustador no romance "1984", de George Orwell, e no filme "Prisioneiro do Remorso", com Alec Guinness.

5. "O Homem Errado", de Alfred Hitchcock (o único filme de não ficção que o diretor fez), documenta as consequências apavorantes de uma identificação equivocada baseada no relato de uma testemunha ocular.



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