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sábado, 17 de junho de 2017

Sobre canibalismo e previsibilidade do Direito na canoa furada chamada "Brasil"


Acredite: dá mais ou menos nisso o resumo do excelente artigo de Lenio Luiz Streck publicado no Consultor Jurídico em 08/06/17:

No naufrágio jurídico, quem os tubarões comerão primeiro? Há critérios?

Subtema ou dizendo-de-outro modo: Tubarões estudam realismo jurídico e devoram os jurista.

Escrevi há dias sobre o perigo de os professores de direito agirem como torcedores. Não só os professores. Parcela considerável da comunidade jurídica age assim. Alertei para o fato de que esquecemos de nosso objeto de estudo e trabalho: o Direito. Transformamos as Faculdades em cursos para apreender truques de teoria política do poder (aliás, uma péssima teoria política do poder). Sem querer e/ou sem saber, fazem o jogo de um realismo retrô, em que o relativismo é a cereja do bolo.

Hoje em dia precisamos pedir desculpas para falar de Direito. O professor chega na sala de aula e fala sobre tudo (e sobretudo) ...a partir de sua opinião pessoal. Como se os alunos pagassem para ouvir o que professor (ou o juiz, o membro do MP) pensam pessoalmente sobre o Direito (ou sobre a sociedade). Qual é a diferença de um juiz que decide conforme “seu posicionamento pessoal” e o que o professor faz em sala de aula? Ao que consta, não se vai ao judiciário pedir a opinião pessoal do magistrado. E nem do professor na sala de aula. Antes de tudo, há uma coisa chamada “Direito” (peço desculpas, de novo, por falar nessa coisa démodé, a Constituição).

Por exemplo: de que adianta falar mal da reforma trabalhista se não se discute o modo como são feitas as OJs e as Súmulas pelo TST? Ou o protagonismo judicial ínsito à Justiça laboral? Em vez de malhar (ou elogiar) a reforma previdenciária, não seria bom fazer um aprofundado estudo jurídico-constitucional a respeito? Ou essa discussão é meramente política? Em vez de elogiar (ou criticar) o STF acerca do “caso Bruno”, por que o professor não explica (ou pede ampla pesquisa) acerca do HC 126292, sua origem (comarca de Itapecerica da Serra), já aproveita para explicar o que é distinguishing, fala do artigo 926 do CPC que não foi obedecido? Ah: e quando for criticar o tal “princípio” (sic) da verdade real, o professor pode fazer duas coisas: primeiro, não somente fazer um “carnaval” em cima disso; precisa explicar tim-tim por tim-tim, uma vez que 90% dos críticos da verdade real sequer sabem do que estão falando; segundo, pegar um caso concreto baseado na “busca da verdade real” e mostrar como no lugar da VR poderia ter usado qualquer coisa...que chegaria na mesma conclusão, porque a VR é uma katchanga real. E assim por diante. Lembrando sempre que o professor está lecionando...Direito. Ou não está lecionando direito o Direito.

Por isso, precisamos de critérios. Não dá para um mesmo Tribunal livrar um sujeito acusado de corrupção de milhões e manter preso uma pessoa que furtou pedaços de queijo e peito de frango; não dá para depender, em Habeas Corpus, do poder discricionário do Judiciário (que é um não-critério); ora, temos já critérios que definem o resultado do carnaval em 0,01 e ainda não temos critérios para conhecer um HC – aliás, se um HC pode ser impetrado pela própria pessoa e sua origem é “traga-me o corpo”, como se pode não conhecer do remédio (chamado antigamente de “heroico”)? Qual é o critério para definir o conhecimento e deferimento de embargos de declaração? Por que quem impetra uma ação nunca sabe o que vai acontecer? Critérios. Critérios. Onde estão?

Talvez com a historinha que contarei a seguir seja possível passar de forma mais simples o que tento dizer de há muito. É de Luis Fernando Veríssimo. Divido-a com vocês (com pequenas adaptações). A crônica é “Critérios”. Vamos a ela. Eu gostaria de tê-la escrito.

Os náufragos de um transatlântico, dentro de um barco salva-vidas perdido em alto-mar, tinham comido as últimas bolachas dos pacotinhos e contemplavam a antropofagia como único meio de sobrevivência.

— Mulheres primeiro — propôs um cavalheiro.

A proposta foi rebatida com veemência pelas mulheres. Onde se viu, as mulheres? Machista. Safado.

De todo modo, estava posta a questão fulcral: qual critério usar para decidir quem seria comido primeiro para que os outros não morressem de fome?

— Primeiro os mais velhos — sugeriu um jovem.

Os mais velhos imediatamente se reuniram num protesto. Falta de respeito!

— É mesmo — disse um — somos difíceis de mastigar.

— Por que não os mais jovens, sempre tão dispostos aos gestos nobres?

— Somos, teoricamente, os que têm mais tempo para viver — disse um jovem. E vocês precisarão da nossa força nos remos e dos nossos olhos para avistar a terra.

— Então os mais gordos e apetitosos, sugeriu o jovem.

— Injustiça! — gritou um gordo. — Temos mais calorias acumuladas e, portanto, mais probabilidade de sobreviver de forma natural do que os outros.

— Então comamos os mais magros.

— Nem pensem nisso — disse um magro, em nome dos demais. Afinal, somos pouco nutritivos.

— Por que não comemos os religiosos, gritou outro.

— Negativo. Não esqueçam que só nós temos um canal aberto para lá — disse um pastor, apontando para o alto — e que pode se tornar vital, se nada mais der certo.

Era um dilema.

É preciso dizer que esta discussão se dava num canto do barco salva-vidas, ocupado pelo pequeno grupo de passageiros de primeira classe do transatlântico, sob os olhares dos passageiros da patuleia, apertada na segunda e terceira classes, isto é, o resto da embarcação e não diziam nada. Até que um deles perdeu a paciência e, já que a fome era grande, inquiriu:

— Cumé é que? Cadê a boia (na verdade, queria dizer “comida”).

Recebeu olhares de censura da primeira classe. Poxa, o patuleu não sabe nem falar o português. Mas como estavam todos, literalmente, no mesmo barco, também recebeu uma explicação.

— Estamos indecisos sobre que critério utilizar.

— Pois eu tenho um critério — disse o patuleu.

— Qual é?

— Vamos comer primeiro os indecisos.

Esta proposta causou um rebuliço na primeira classe acuada. Um dos seus teóricos levantou-se e pediu:

— Não vamos ideologizar a questão, pessoal!

Em seguida levantou-se um ajudante de maquinista e pediu calma. Queria falar.

— Náufragas e náufragos — começou — Neste barco só existe uma divisão real, e é a única que conta quando a situação chega a este ponto. Não é entre velhos e jovens, gordos e magros, poetas e atletas, crentes e ateus... É entre minoria e maioria.

E, apontando para a primeira classe, gritou:

— Vamos comer a minoria!

Novo rebuliço. Protestos. Revanchismo, não, gritavam os membros da primeira classe!

Mas a maioria avançou sobre a minoria. A primeira classe não era primeira em tudo?

Pois seria a primeira a ser devorada.

Entretanto, restava um problema. Não podiam comer toda a primeira classe, indiscriminadamente. Ainda precisava haver critérios. Foi quando se lembraram de chamar o Natalino. O chefe da cozinha do transatlântico. E o Natalino pôs-se a examinar as provisões, apertando uma perna aqui, uma costela ali, com a empáfia de quem sabia que era o único indispensável a bordo.

O fim desta pequena história admonitória é que, com toda agitação, o barco salva-vidas virou e todos, sem distinção de classes, foram devorados pelos tubarões. Que como se sabe, não têm nenhum critério.

Conclusão:

Por isso, a aplicação do Direito precisa de critérios. Aplicados sempre de forma equânime (por e com fairness). Não pode ser feita na base do “o clamor público exige”, “entre a lei e minha consciência, fico com a última”, “em nome da verdade real”, “julgar é um ato de fé”, “prova é o nome dado a uma crença” (sobre isso farei uma Coluna!), “a sociedade está pedindo mais punição”, “em nome dos fins, posso usar qualquer meio”, “é melhor condenar alguém do que ninguém” e assim por diante.

A democracia precisa de critérios. Antes que sejamos todos devorados pelos tubarões. Se é que já não estão às nossas portas. Na verdade, já estão.

MORAL DA HISTÓRIA: Tubarões não tem critérios. Tubarões não sabem nada de Direito. Tubarões cuidam apenas de seu apetite. Atendem apenas aos seus desejos. Quem cuida do Direito não deve e não pode se comportar como os tubarões. O Direito só funciona mediante critérios.

METAFORICAMENTE: Preocupado com o apetite dos tubarões e com sua irracionalidade, todas as semanas venho aqui para importuná-los e avisar que precisamos de critérios. Que o Direito é que serve para filtrar a moral e a política, e não o contrário.

Sei que é uma chatice. Mas é que conheço tubarões.... Estudo-os há anos. Especializei-me em “epistemologia do Negaprion brevirostris”. Descobri que os tubarões (principalmente os grandões, negaprions), se fossem juristas, seriam adeptos do realismo retrô. Realistas-retrô também não têm critérios. Ah: para os tubarões, tudo é relativo. Por isso eles não têm critérios.



domingo, 6 de julho de 2014

O ateísmo religioso entre Dawkins e Dworkin

Artigo publicado no IHU:

O ateísmo religioso de Ronald Dworkin

O último livro do filósofo Ronald Dworkin (1913-2013) foi publicado na Itália pela editora Il Mulino, com o título Religione senza Dio. Publicamos aqui o comentário do cientista político italiano Sebastiano Maffettone, professor da Libera Università Internazionale degli Studi Sociali Guido Carli de Roma.

O artigo foi publicado no blog Sperare per Tutti, 25-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Correndo o risco de cansar os meus 25 leitores, assinalo o lançamento do livro póstumo de Ronald Dworkin, Religion without God. Eu já tinha falado a respeito dele antes que o livro saísse, por ocasião da publicação de um artigo de Dworkin sobre o mesmo tema.

O lançamento do livro, porém, permite uma melhor exposição das ideias do autor e, acima de tudo, as apresenta em um marco geral mais claro. O principal problema discutido continua sendo o "ateísmo religioso". A tese central defende que a religião é mais profunda e importante do que Deus.

A religião de que fala Dworkin corresponde kantianamente à ética. Não qualquer tipo de ética, contudo, serve para essa tarefa. Deve-se tratar de uma ética baseada na ideia de valor objetivo. O valor, nessa ótica, permeia o universo e nos leva a pensar que a vida humana tem um sentido, e o mundo, uma ordem.

Segue-se daí que a divisão clássica entre pessoas religiosas e não religiosas é grosseira demais. Seria melhor dividi-las em crentes e não crentes, em que os crentes também incluem aqueles que compartilham de uma ética baseada no valor objetivo. Estes podem muito bem não acreditar em um Deus pessoal como o da Capela Sistina, mas acreditam em uma espécie de força espiritual que permeia a nós e ao mundo.

Depois de um primeiro capítulo introdutório, em que se apresenta a tese principal com os seus adiantamentos na literatura e na ciência, há três capítulos: o primeiro, dedicado ao universo, à física e ao sublime; o segundo, à liberdade religiosa; o terceiro, à morte e à imortalidade.

A tese central do capítulo introdutório afirma que as religiões teístas – como judaísmo, cristianismo e Islã – sempre têm dois aspectos, um científico e um valorial. A parte científica refere-se ao nascimento do universo e à origem da vida. A parte valorial nos diz como deveríamos viver e por quê. Dworkin argumenta – seguindo Hume – que a parte científica de uma religião não pode fundar a valorial, e que alguns ateus e os religiosos podem compartilhar a parte valorial.

Desse ponto de vista, o livro é mais uma crítica ao ateísmo militante – o que segue o estilo de um Dawkins, para que nos entendamos – do que à religiosidade teísta.

O segundo capítulo busca uma explicação teórica, ligada à física – o livro tem origem nas Einstein Lecturas, proferidas por Dworkin em Berna, em dezembro de 2011 –, da beleza do universo, do sublime que vemos no fundo da pesquisa. Depois de um virtuoso excursus entre arte e física teórica, Dworkin chega a defender que o sublime consiste na inevitabilidade do que acontece.

O terceiro capítulo trata da liberdade religiosa, dizendo que, mesmo do ponto de vista legal, os ateus crentes devem ser assimilados aos religiosos.

O último capítulo, sobre morte e imortalidade, tem um caráter especial se considerarmos que Dworkin o escreveu durante um período em que a leucemia que o levaria à morte, em fevereiro de 2013, se agravava. Não há a necessidade de um deus pessoal – sugere Dworkin – para dar um sentido a vida após a morte. Basta que acreditemos realmente na vida e no valor objetivo da nossa experiência, comportando-nos de uma maneira coerente com isso.

Dworkin certamente era um grande estudioso, mas não um especialista em teologia. Pessoalmente, sou fascinado pela sua tese central sobre o valor e acredito com convicção que ser ateu não envolve ceticismo moral. Espero também que alguns teólogos de valia levem a sério a sua tese e a discutam.





quinta-feira, 11 de abril de 2013

A ilusória superioridade do neoateísmo

O artigo abaixo foi publicado na página do facebook "The Atheist Delusion", e diante da dificuldade de encontrar o original, tomei a liberdade de traduzi-lo para compartilhar com os leitores do blog:

O neoateísmo e o efeito Dunning-Kruger

O efeito Dunning-Kruger é um preconceito cognitivo no qual indivíduos não qualificados padecem de uma superioridade ilusória, avaliando - equivocadamente - a sua capacidade muito acima da média. Este preconceito é atribuído a uma inabilidade metacognitiva de reconhecer os seus próprios erros.

Estariam os novos ateus sofrendo do efeito Dunning-Kruger?

Em 1999, dois psicólogos da Cornell University (David dunning e Justin Kruger) apresentaram a hipótese de que pessoas com pouca competência numa determinada atividade tendem a ter excesso de confiança nela. Esta crença exagerada vem da inabilidade de cumprir uma determinada tarefa enquanto, ao mesmo tempo, não se reconhece o seu nível de incompetência. Por outro lado, aqueles que têm competência suficiente para levar a cabo a tarefa, tendem a ter falta de confiança porque eles estão conscientes das suas próprias deficiências, especialmente quando comparam suas habilidades com as dos outros.

Esta observação se tornou linguagem corrente com qualquer número de casos examinados. Assim, por exemplo, o bêbado pensa que ele pode andar sobre uma linha reta porque ele está tão ocupado pensando em como vai fazer isto, que será incapaz de analizar a sua incapacidade de fazê-lo. Ou ainda alguém que usa um celular enquanto dirige está tão concentrado em falar ao telefone ao mesmo tempo em que pilota o carro que ele não notará a significante queda na sua competência de dirigir.

Para ter uma compreensão de iniciante neste campo do estudo, ocorreu-me perguntar a questão: "Estariam os neoateístas sofrendo do efeito Dunning-Kruger?" Por exemplo, muitas das resenhas do livro de Richard Dawkins, "Deus, Um Delírio" ("The God Delusion"), têm apontado a incompetência do autor nas áreas sobre as quais ele escreve. Algumas dessas resenhas não foram escritas por cristãos ou teístas se defendendo dos ataques deles, mas por profissionais não cristãos constrangidos pelo mau uso das suas disciplinas acadêmicas.

Escrevendo no The New York Times em 2007, o jornalista católico Prof. Peter Steinfels notou que as críticas ao livro "Deus, Um Delírio" de Richard Dawkins, vêm não somente de crentes mas também de ateus e descrentes. Ele se referiu às críticas de acadêmicos como o crítico literário de Oxford, Prof. Terry Eagleton, ao crítico literário de Harvard, James Wood, ao biólogo-evolucionista de Rochester, Prof. James H. Orr, e ao filósofo de New York, Prof. Thomas Nagel. E Steinfels poderia ter acrescentado outros como o filósofo e biólogo da Flórida, Prof. Michael Ruse. A principal queixa desses críticos de Richard Dawkins diz respeito à incompetência dele em lidar com o tema de Deus e da teologia.

A desculpa que o prof. Dawkins dá aos críticos, sobre a sua falta de estudo sério de teologia é a pergunta retórica "Você tem que saber 'leprechologia' antes de não acreditar em leprechauns [os folclóricos duendes irlandeses]?" Essa tática contraria o famoso conselho chinês d'A Arte da Guerra: conheça os seus inimigos. Desafortunadamente para Dawkins, aqueles de nós com algum conhecimento de cristianismo não nos abalamos pela sua tirada anti-teísta. Nós sabemos o suficiente para reconhecer a incompetência e a necessidade de uma humildade consideravelmente maior diante dos fatos.

Muitos cristãos têm escrito contra "Deus, Um Delírio", mas o fato de serem crentes faz com que seu ponto de vista ganhe pouca visibilidade da mídia e na opinião pública - sendo relevados com a frase "naturalmente, eles discordariam". Escritores que possuem tanta credibilidade acadêmica como o prof. Dawkins, tais quais o professor de Matemática de Oxford, John Lennox, ou o biólogo que se tornou teólogo, prof. Alistair McGrath, têm publicado críticas valiosas sobre o neoateísmo. O prof. McGrath, que obteve doutorados da Universidade de Oxford tanto em Biologia como em Divindade, se converteu do ateísmo para o cristianismo através da sua "descoberta da filosofia da ciência" e a sua investigação do "que o cristianismo realmente era". Ele escreveu um valioso pequeno livro chamado "O Delírio de Dawkins" ("The Dawkins Delusion").

Menosprezar tais escritos por causa do viés do autor é tão irracional como desprezar os escritos ateus por causa do seu viés. Cada um deles tem que ser avaliado de acordo com os seus méritos.

Aceitar o que eles dizem por causa de suas credenciais acadêmicas também é irracional. Há momentos na vida em que o pequeno garoto na multidão pode ver através da pretensão acadêmica e declarar que o imperador está nu. Naquela ocasião, uma rápida avaliação dos fatos trouxe o riso para ambos os lados. É razoável esperar que eruditos com qualificações acadêmicas de grande reputação irão escrever nas suas áreas de conhecimento e estarão cientes das limitações do seu conhecimento.

Isto nos traz de volta ao efeito Dunning-Kruger, que diz que quanto menos competente você for mais confiante provavelmente você será. Lançar uma campanha mundial sobre assuntos dos quais você sabe pouco e pesquisou menos ainda - omitindo que você intencionalmente não os estudou porque não crê neles - é menos do que aceitável para um debate público genuíno ou uma discussão acadêmica, para não dizer que está falhando na arte da guerra.

Foi o grande herói do prof. Dawkins, Charles Darwin, que escreveu na sua introdução a "A Descendência do Homem": "a ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento".



terça-feira, 21 de agosto de 2012

Como é gostoso brigar na internet...


O artigo abaixo, do Life's Little Mysteries, traduzido por Guilherme de Souza e publicado no HypeScience no mês passado, muito provavelmente foi inspirado em pessoas que adoram brigar por qualquer coisa em blogs e fóruns da internet.

Embora esta possibilidade não seja explicitamente abordada no artigo, ouso afirmar - entretanto - que uma das causas desse comportamento é o fato de que muita gente resolve descarregar no meio eletrônico a frustração de toda uma vida (a sua), e os receptáculos de tanta amargura são seus inimigos virtuais e imaginários.

Eis o artigo:

Por que as pessoas adoram brigar na internet?

Você provavelmente já viu (ou, quem sabe, já começou) discussões “acaloradas” em seções de comentários de sites ou em redes sociais. No ambiente virtual, muita gente gosta de “soltar os cachorros” e expor seus pontos de vista com sarcasmo e agressividade.

Para alguns especialistas, a prática não apenas faz pouco sentido, como também pode atrapalhar o convívio social cara-a-cara. “Ter uma forte experiência emocional que não acaba de modo saudável não pode ser bom para você”, diz o professor de psicologia Art Markman, da Universidade do Texas em Austin (EUA).

Fundamentos da discórdia

Ele apontou algumas possíveis razões por trás das brigas virtuais. O primeiro seria o anonimato – mesmo quando usamos perfis reais, muitas vezes o “adversário” provavelmente nem nos conhece direito. O segundo fator seria a distância, que deixa as pessoas mais à vontade para brigar. Por fim, é mais fácil “destilar veneno” com escrita do que com a fala – há séculos já era comum as pessoas publicarem artigos ou cartas em jornais atacando seus adversários.

Além da agressividade, outro elemento impressionante em alguns debates virtuais é o tamanho dos comentários. Como as brigas não acontecem exatamente em tempo real, a pessoa tem mais tempo para pensar e dar uma resposta – e, ao invés de se acalmar, muitas vezes acaba “refinando” a agressividade.

Para o professor de Ética em Jornalismo Edward Wasserman, da Universidade de Washington e Lee (EUA), há maus exemplos na mídia que reforçam esse tipo de comportamento – em artigo recente, ele cita apresentadores de televisão dos Estados Unidos famosos por seu estilo agressivo. “As pessoas, de modo compreensível, concluem que a ira é a linguagem da política e que é assim que se discutem ideias públicas”, escreveu Wasserman.

Como manter a cabeça no lugar

Embora a internet ajude a criar contato entre pessoas que, de outra maneira, jamais se conheceriam, ela muitas vezes não dá suporte a certos elementos fundamentais da comunicação, como os gestos, o tom de voz e o contato visual.

“Quanto maior a distância do diálogo cara-a-cara, em tempo real, mais difícil é se comunicar”, apontou Markman. Ele acredita que a mídia não deveria reforçar a ideia de que agressividade é boa para discussões. “Mesmo que alguém exponha uma ideia legítima, se usar um tom agressivo, está ferindo a natureza da discussão e incentivando outras pessoas a responder da mesma forma”.

Para os usuários “esquentados”, ele sugere que criem o hábito de debater ideias pessoalmente – o que incentiva o exercício da paciência na hora de expor pontos de vista. Se eles praticarem isso, terão mais facilidade para dialogar no meio virtual sem depender de “veneno” para dizer o que pensam.



terça-feira, 27 de março de 2012

Bill Maher expõe a teologia da prosperidade

Bill Maher é um conhecido comediante e apresentador de talk show nos Estados Unidos, além de ser militante ateu e político libertário, constantemente envolvido em polêmicas as mais variadas. Em 2008, ele escreveu o roteiro e lançou o documentário cômico (se é que esta categoria existe) Religulous (dirigido por Larry Charles), cujo título é uma junção irônica das palavras "religious" e "ridiculous", que, conforme o nome indica, é só um veículo para ridicularizar a religião e satisfazer o ego não só do Maher como de uma série de pessoas que se alegram com esse tipo de argumentação rasteira. Além da óbvia falácia do apelo ao ridículo, entre outras falácias menos importantes que pululam pelo documentário está a falácia da composição, que é tomar o todo pela parte, ou seja, a partir de um pilantra qualquer que se diz cristão, eu chego à conclusão de que todos os cristãos são pilantras. Cá entre nós, é esta - basicamente - a opinião que muitos brasileiros têm dos evangélicos quando não querem respeitar um pouco que seja a teoria da argumentação. De qualquer maneira, descontados esse partidarismo exacerbado e a miopia argumentativa enviesada, o Bill Maher é um cara bem mais inteligente, bem-humorado e informado do que a imensa maioria dos militantes ateus que só gostam mesmo é do xororô amargurado, o que torna as suas entrevistas com alguns expoentes da teologia da prosperidade norteamericana uma verdadeira aula sobre as falácias utilizadas por estes lobos travestidos de ovelhas, nada muito diferente do que você vê e ouve aqui no Brasil. No link do youtube abaixo (infelizmente não é possível incorporar o vídeo), você encontra esse confronto de falácias num trecho legendado em português do documentário Religulous, em que Maher entrevista o dourado "doutor" Jeremiah Cummings, "pastor" de mais uma dessas "igrejas" ávidas por dinheiro e merchandising que, infelizmente, muita gente ainda acha que são cristãs:

Bill Maher entrevista Jeremiah Cummings



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Agnosticismo de Dawkins é mesmo novidade?

Publicamos hoje a notícia de um debate entre Richard Dawkins e o Arcebispo da Cantuária, Dr. Rowan Williams, líder religioso da igreja Anglicana. Como dissemos ali, o debate não trouxe nada muito significativo, digno de nota, além da declaração de Richard Dawkins de que ele não é ateu, mas sim, agnóstico.

Alguns leitores então comentaram a notícia, dizendo que esta de fato não é uma notícia nova, e que em seu livro, Deus, uma ilusão, Dawkins teria dito que a probabilidade de Deus existir é baixa. Este foi um bom motivo então para que fôssemos verificar as referências que os leitores nos repassaram a fim de fazer algumas considerações.

Aparentemente, quando Dawkins diz que está convicto de "6,9 em cada 7 das suas crenças", ele está fazendo alusão à escala que ele mesmo criou em seu livro já mencionado, algo que uma leitora faz menção. Que escala é esta?
Levemos, então, a sério a ideia do espectro de probabilidades e coloquemos ao longo dele os juízos humanos sobre a existência de Deus, entre dois extremos de certezas opostas. O espectro é contínuo, mas pode ser representado por sete marcos:
1. Teísta convicto. Probabilidade de 100% de que Deus existe. Nas palavras de C. G. Jung, "Eu não acredito, eu sei".
2. Probabilidade muito alta, mas que não chega aos 100%. Teísta de facto. "Não tenho como saber com certeza, mas acredito fortemente em Deus e levo minha vida na pressuposição de que ele está lá."
3. Maior que 50%, mas não muito alta. Tecnicamente agnóstico, mas com uma tendência ao teísmo. "Tenho muitas incertezas, mas estou inclinado a acreditar em Deus."
4. Exatamente 50%. Agnóstico completamente imparcial. "A existência e a inexistência de Deus têm probabilidades exatamente iguais."
5. Inferior a 50%, mas não muito baixa. Tecnicamente agnóstico, mas com uma tendência ao ateísmo. "Não sei se Deus existe, mas estou inclinado a não acreditar."
6. Probabilidade muito baixa, mas que não chega a zero. Ateu de facto. "Não tenho como saber com certeza, mas acho que Deus é muito improvável e levo minha vida na pressuposição de que ele não está lá."
7. Ateu convicto. "Sei que Deus não existe, com a mesma convicção com que Jung 'sabe' que ele existe."
Fonte: Dawkins, Richard; Deus, um delírio, Editora Companhia das Letras, págs. 62 e 63.

Dentro desta escala então, onde Dawkins se posiciona e por quais motivos?
Eu ficaria surpreso de encontrar muita gente na categoria 7, mas a incluo em nome da simetria com a categoria l, que é bastante populosa. É da natureza da fé que alguém seja capaz, como Jung, de ter uma crença sem nenhum motivo adequado para tal (Jung também acreditava que alguns livros específicos de sua estante explodiam com um grande estrondo). Os ateus não têm fé; e a razão, sozinha, não tem como levar alguém à convicção plena de que alguma coisa definitivamente não existe. Daí por que a categoria 7, na prática, é muito mais deserta que seu oposto, a categoria l, que tem tantos habitantes devotados. Coloco-me na categoria 6, mas tendendo para a 7 — sou agnóstico na mesma proporção em que sou agnóstico a respeito de fadas escondidas no jardim.
Fonte: Dawkins, Richard; Deus, um delírio, Editora Companhia das Letras, pág. 63.
Assim, Dawkins não se considera no ponto 7 de sua escala, por que ele acha difícil que alguém possa estar neste ponto. Para ele, o ponto 7 revela uma fé igual àquela existente no ponto 1 de sua escala. E se ele está se colocando como 6,9, então ele está aproximando-se o máximo possível deste ponto 7, sem no entanto fazê-lo, já que para isto ele teria que admitir que possui fé em alguma coisa.

Mesmo assim, observem como ele define o ponto 6 onde ele se posiciona como Ateu de facto. Ele não se coloca no ponto 4 ou 5, que são os pontos que ele posiciona o agnosticismo. E de fato, é assim que ele se apresenta ao longo de seu livro, e é com o propósito de tornar pessoas ateias que ele escreve o livro, como ele mesmo informa em seu prefácio, na página 23:
Se este livro funcionar do modo como pretendo, os leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem.
Ainda em seu prefácio, discutindo a "religiosidade" de Einstein, ele faz a seguinte declaração (páginas 27 e 28):
A bióloga celular Ursula Goodenough, em The sacred depths of nature [As profundezas sagradas da natureza], soa ainda mais religiosa que Hawking e Einstein. Ela adora igrejas, mesquitas e templos, e vários trechos de seu livro são um convite a ser tirados de contexto e usados como munição para a religião sobrenatural. Ela chega até a chamar a si mesma de "naturalista religiosa". Mas uma leitura cuidadosa mostra que na verdade ela é uma ateia tão convicta quanto eu.
A próxima citação é do capítulo que várias pessoas citaram como prova de que Dawkins sempre se considerou um agnóstico. Este trecho descreve uma experiência dele em uma conferência em Cambridge sobre ciência e religião. Ali ele se define como (página 163):
Primeiro devo confessar (essa é provavelmente a palavra certa) que a conferência foi patrocinada pela Fundação Templeton. O público era um pequeno número de jornalistas científicos escolhidos a dedo, da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. Eu era o pobre ateu em meio aos dezoito palestrantes convidados.
E segue então discutindo como a fundação pagou pela participação destes jornalistas. No entanto, ele se define como o "pobre ateu", não como o pobre agnóstico.

Mas já que mencionamos o capítulo 4, Por que quase com certeza Deus não existe, é interessante também mencionar que o capítulo, ao contrário do que nossos leitores sugerem, não é para defender qualquer forma de agnosticismo. O capítulo se ocupa na verdade em refutar o argumento teísta de que por ser improvável que a vida tenha surgido por acaso, a Teoria da Evolução deveria ser descartada. Assim, tentando fazer uma reviravolta nesta argumentação, Dawkins afirma por todo capítulo que é a existência de Deus que tem baixa probabilidade, e por este motivo é que tais teístas deveriam descartar a existência de Deus. Na página 171 de seu livro, ele deixa claro que esta baixa probabilidade é um argumento contra a existência de Deus, e não um argumento a favor do agnosticismo:
Deixei a conferência animado e revigorado, e com minha convicção reforçada de que o argumento da improbabilidade — a tática do 747 Definitivo — é um argumento muito sério contra a existência de Deus, e para o qual ainda não vi nenhum teólogo dar uma resposta convincente, apesar das várias oportunidades e convites para fazê-lo.
Assim, quem sugeriu que este capítulo estaria demonstrando o agnosticismo de Dawkins, está muito enganado. O capítulo argumenta no sentido de que esta baixa probabilidade na verdade indica que Deus não existe - um argumento bem ateísta, diga-se de passagem.

Muitos de nossos leitores nos indicaram a obra de Dawkins, Deus, uma ilusão, como uma forma de refutar a notícia que foi postada. No entanto, embora Dawkins ali se reconheça como agnóstico em alguns pontos (e de forma muito ambígua), ele se define em outras partes do livro como ateu. Até mesmo em sua escala ele se coloca na forma mais alta possível de ateísmo (já que para ele o ponto 7 não deve ter muita gente). Por isto, o susto que as pessoas presentes no debate levaram, bem como o próprio jornal The Telegraph estão bem justificados. Citar seu livro agora parece mais uma forma de salvá-lo das próprias contradições (ou ambiguidades) que ele se sujeita, escrevendo uma coisa e dizendo outra. A resposta à pergunta que encabeça este artigo é, portanto: sim! o agnosticismo de Dawkins é novidade!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Dawkins assombrado por passado escravocrata da família

Dawkins de novo? 

Sim, eu mesmo me aborreço de ter que ficar falando direto desse ególatra, mas ele se expõe tanto às custas de argumentação barata que seus adversários de retórica resolveram baixar o nível tanto quanto ele, e os seus fãs ateus que me perdoem, mas essas notícias ganham um destaque tão grande na mídia especializada que se torna impossível não reproduzi-las, ainda que os argumentos tacanhos de ambos os lados se limitem ao mais escrachado deboche. 

Parece que Dawkins anda enfrentando o seu inferno astral. 

Depois da invertida que tomou alguns dias atrás por não saber o título completo da obra-prima de Darwin, a bomba da vez vem da pena de Adam Lusher, em artigo publicado ontem, 19 de fevereiro, no jornal britânico The Telegraph, que revela que a fortuna amealhada pela família Dawkins tem um pé na senzala da Jamaica. 

Um pé muito pesado, diga-se de passagem, já que um de seus ancestrais, Henry Dawkins, tinha uma fazenda de cana-de-açúcar na Jamaica, e os registros feitos por ocasião de sua morte, em 1744, indicam que ele tinha 1.013 escravos. 

A propriedade de 400 acres da família Dawkins em Chipping Norton, Oxfordshire, foi comprada, nessa época e pelo menos em parte, com o dinheiro dessa empreitada escravocrata jamaicana. 

Já a propriedade de Over Norton Park, herdada pelo pai de Richard Dawkins e que continua na família, foi comprada em 1726 por James Dawkins, irmão do tetravô do militante ateu, também chamado Henry Dawkins (filho caçula do Henry Dawkins acima).

Curiosamente, o grande campeão da causa abolicionista na virada do século XVIII para o XIX foi o parlamentar evangélico William Wilberforce (1759-1833), cuja conversão em 1785 o moveu a batalhar incessantemente pelo fim do tráfico negreiro em todo o mundo. 

Entretanto, numa de suas primeiras iniciativas legislativas para tentar acabar com a escravatura, em 1796, teve o voto contra do mesmo James Dawkins, que havia comprado a propriedade hoje em poder da família Dawkins. 

O outro irmão de James e Henry, George Hay Dawkins Pennant (1764-1840), também combateu incessantemente o fim do comércio de escravos, chegando a dizer em 1831, dois anos antes da vitória final de Wilberforce com a abolição definitiva em terras britânicas, que "a rápida aniquilação da escravatura seria acompanhada pela devastação das colônias das Índias Ocidentais, com inevitável desconforto e miséria reservados à população negra". 

Numa dessas coincidências macabras da história, o Relatório Anti-Escravidão de 1831 criticava os senhores de escravos na Jamaica por fazerem com que eles trabalhassem aos domingos e assim não podiam frequentar os serviços religiosos, condenando-os "ao trabalho duro e ao secularismo".

Como era de se esperar, Richard Dawkins tem ficado bastante irritado quando alguém lhe pergunta sobre o passado escravagista da família, respondendo, bem ao seu estilo, que apenas 1 em 512 genes dele descendem do senhor de engenho jamaicano, além de dizer que a propriedade herdada não dá lucro. 

Entretanto, também no estilo bullying do qual ele rotineiramente lança mão, já tem gente se movimentando para exigir reparações da família Dawkins por sua oposição ferrenha ao abolicionismo em séculos passados. 

Justo ele que gosta tanto de criticar a escravidão na Bíblia e tem um documentário de 2007 intitulado "Escravos da Superstição", agora tem um bode escravocrata enorme bem no meio de sua sala. 

Como diria o caipira, né, Dawkins: "pimentabilis annus outrem refrescorum est"... nada como um século atrás do outro...



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Dawkins não sabe o título da obra-prima de Darwin

Por essa Richard Dawkins não esperava... teve que experimentar do próprio veneno. Ele já andava estranhamente eufórico ultimamente, divulgando os resultados (nada suspeitos) de uma pesquisa patrocinada por sua própria fundação, que concluiu que as pessoas que se declaram cristãs raramente oram ou leem a Bíblia (como se isso fosse uma novidade estrondosa). Talvez ele não tenha querido gastar dinheiro com uma instituição isenta para constatar essa obviedade, e por isso a Fundação Richard Dawkins para a Razão e Ciência levou a cabo uma impactante sondagem de opinião pública que revelou que poucas pessoas são verdadeiramente cristãs.

(Opa! Parêntesis inevitável. Esperem aí, queridos amigos ateus! Não eram vocês mesmos que jogavam na cara dos cristãos, por anos a fio, que nós não podíamos usar a "falácia do escocês" toda vez que dizíamos que determinado sujeito não era, na verdade, cristão? Agora vem o Dawkins e diz exatamente a mesma coisa que nós dizíamos? E ele precisou fazer uma "pesquisa estatístico - científica" pra constatar isso? Quem é que surtou?)

A "pesquisa" concluiu ainda que 1 de cada 6 cristãos nunca leu a Bíblia e apenas 28% acreditam, de fato, nos ensinamentos cristãos. A intenção (na verdade, o "tiro pela culatra") de Dawkins era demonstrar que, se tão poucas pessoas são verdadeiramente cristãs, não se justifica a influência e os símbolos cristãos na educação e nos aparatos públicos. Depois dessa inesperada validação dawkinsiana do "cristão verdadeiro" (os ateus terão que nos engolir agora!), o pior (para Dawkins) ainda estava por vir. É que ele não contava com a astúcia do chanceler anglicano da Catedral de São Paulo, Rev. Giles Fraser, que lhe jogou uma casca de banana no meio do caminho. Num debate radiofônico (áudio no youtube abaixo) entre ambos dentro do contexto do movimento mundial de protestos civis "Occupy", ao se gabar dos dados que mostram que 2 de cada 3 cristãos não sabem qual é o primeiro livro do Novo Testamento (Mateus, para os esquecidinhos), o que para ele, é "surpreendente", Richard Dawkins verdadeiramente ficou surpreendido mesmo é com a pergunta que o Rev. Fraser lhe contrapôs em seguida: "Então me diga o título completo da 'Origem das Espécies' de Charles Darwin...". Darwin corou, gaguejou, escorregou e não conseguiu responder. O Rev. Fraser então tripudiou: "Você é o papa do darwinismo. Se você fizer a mesma questão aos evolucionistas e apenas 2% deles responderem corretamente, seria terrivelmente fácil para mim dizer que eles também não acreditam nisso de jeito nenhum". Ora, muitos não crentes sabem de cor vários versículos bíblicos (alguns o salmo 23 e o Pai Nosso inteiros). Como é que o "papa ateu" não sabe o título completo da obra-prima de seu máximo mentor?

Dawkins ainda tentou contestar Fraser dizendo que se tratava de uma "trapaça", como se ele próprio não recorresse aos mesmos expedientes. O que o Rev. Giles Fraser fez, na verdade, foi expor Dawkins ao próprio estilo rasteiro de argumentação rasa a que ele tanto recorre (e se vangloria). Uma retórica que apela ao emocionalismo mais barato dos dados mais singelos, e daí extrai uma conclusão universal, não fica nada a dever aos maiores demagogos que a história da humanidade já registrou. Enfim, foi mais um momento constrangedor na carreira de Richard Dawkins, e que demonstrou - ao fazê-lo experimentar do próprio veneno - que ele vai bem (enquanto não o pegam com a boca na botija) no campo da argumentação rasteira, o que pode até convencer mentes mais rasas, mas o faz querer fugir desesperadamente de debates mais sérios, como aquele com William L. Craig, que ele foge como o diabo da cruz. Dawkins amigão, eu bem que tento te esquecer um pouco aqui no blog, mas devo admitir: você é uma fonte inesgotável de inspiração!

P. S.: O título completo da obra de Darwin é "On The Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in The Struggle for Life" ("Sobre a Origem das Espécies por Meios de Seleção Natural, ou A Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida"). Só pelo título você entenderá o porquê de Hitler ter gostado tanto do livro...

Fonte: Mail Online

O áudio do debate com a engasgada antAlógica do Dawkins:




Leia também: Meninos tacando pedras nos vitrais das catedrais



terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Dawkins agora determina quem é cristão ou não

Dando vazão à sua proverbial megalomania, o militante ateísta britânico Richard Dawkins continua na sua jornada - cada vez mais religiosa - de combate à religião.

Provando ele próprio, por a+b, que o neoateísmo é uma antiga religião, Dawkins agora se dá ao trabalho de (pasme!) decidir quem é cristão ou não.

A arrogância do papa ateu veio mais uma vez à tona numa carta aberta publicada na revista New Statesman, em que combate o ensino oferecido por escolas confessionais, em sua maioria anglicanas, criticando a maneira como crianças são educadas a "pertencer" a uma determinada fé desde a mais tenra idade.

No bojo da carta, Dawkins diz ainda que tanto o primeiro-ministro britânico David Cameron, como uma série de ministros da Educação aos quais ele já teve oportunidade de levar as suas súplicas e catilinárias, não são verdadeiramente cristãos, mas ateus disfarçados, uma espécie bizarra de agentes ateístas infiltrados no sistema educacional britânico apenas para promover a religião.

A declaração estapafúrdia da Dawkins revela (inadvertidamente) o quanto a sua fixação mórbida contra a religião é - na verdade - apenas um profundo desgosto pelo fato de que nem todo mundo segue a brilhante religião da sua mente narcisista ateia.

Além disso, todos os cristãos que já tiveram oportunidade de debater com ateus, sempre tiveram jogada na sua cara a "falácia do escocês", quando diziam que determinada pessoa (Hitler, por exemplo) não era verdadeiramente cristã.

A "falácia do escocês", num brevíssimo resumo, vem da estorinha boba de que alguém diz que todo escocês toma mingau sem açúcar. Outra pessoa se lembra então de que tem um amigo escocês, digamos, o Scott, que bota - sim - açúcar no mingau. Aí o seu interlocutor lhe responde que o Scott não é um escocês de verdade.

A palavra "escocês' é redefinida, portanto, como somente aplicável a quem toma mingau sem açúcar.

Essa falácia é brandida na face de todo cristão que ousa dizer que determinado fulano que se diz cristão não é cristão de verdade.

Agora vem o bambambam dos ateus e diz que certos membros do governo britânico não são cristãos de verdade.

Já não bastava o neoateísmo ser uma antiga religião, agora eles querem se apropriar também das falácias com que nos condenavam?

Deem logo o título de papa pro Dawkins pra ver se ele sossega...



quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O dia em que ex nihilo virou ex nilo



Ex nihilo é uma expressão latina que significa "do nada", no sentido sobretudo teológico de que o mundo foi criado por Deus ex nihilo, ou seja, a partir "do nada" (creatio ex nihilo).

O contrário seria creatio ex materia, ou seja, que o mundo foi criado a partir de uma matéria pré-existente. 

Ex nihilo não se restringe ao campo teológico, entretanto. É utilizado também na filosofia, como na expressão latina ex nihilo nihil fit, frase comumente atribuída ao filósofo grego Parmênides, e que significa que "do nada nada se faz" ou "o nada não vem do nada", com o perdão da confusão que o duplo negativo causa na nossa bela e inculta língua portuguesa. 

A rigor, trata-se do princípio da causalidade, ou seja, deve existir sempre uma causa pré-existente para que o efeito visível e materialmente constatável seja observado. 

Obviamente, este argumento filosófico tem uma repercussão teológica fundamental, pois se o universo não surgiu do nada, então deve haver um Criador, o que já dá pano pra muita manga.

O problema é que apareceu um 'pastor' em Arapongas (PR) que deve ter ouvido ex nihilo em algum lugar, achou bonito e resolveu usar a expressão para parecer sábio aos próprios olhos e aos de sua congregação, só que na hora em que recebia um banho de 12 litros de óleo (supostamente uma "unção") ele se esqueceu de como é que se falava e soltou alguns ex nilo

A não ser que ele continue escravo besuntado do outro lado do rio Nilo e ainda não encontrou a Terra Prometida. 

Como a este povo já não basta mais a única e verdadeira unção de Cristo (1ª João 2:20-27), eles têm que inventar essas coisas esdrúxulas, tudo embalado a uma verdadeira (e antiga) "terapia do grito primal", com alguns toques de línguas estranhas (o famoso ralanabashuria). 

Que bom seria se eles aproveitassem de outra maneira o tempo que gastam imaginando novos modismos para "impactar" e "lubrificar" sua gente com malabarismos novidadeiros: lendo a Bíblia, por exemplo. 

No caso em questão, podiam também contextualizar um pouco mais: como Arapongas (PR) é uma bela e progressista cidade cheia de indústrias de móveis, não deve faltar óleo de peroba por lá (#ficadica). 

Confira o vídeo abaixo e se exaspere com mais esse espetáculo grotesco de crendice cóspel da pior qualidade:



Dica dos blogs Web Evangelista, Bereianos e Pensamento Quase Livre, com base em informação do Rev. Rodrigo G. da Silva



domingo, 25 de setembro de 2011

O argumento cosmológico da existência de Deus

Edward Feser é um renomado filósofo norteamericano, especializado em tomismo (ramo da filosofia que estuda a obra de São Tomás de Aquino), e um dos mais brilhantes apologetas cristãos da atualidade, sobretudo por sua refutação dos argumentos rotineiramente esgrimidos pelos militantes ateístas contra a existência de Deus. O Gustavo, co-editor deste blog, traduziu um de seus artigos e o disponibilizou no site E-Cristianismo. Trata-se de uma leitura fundamental para todos aqueles que se interessam pela discussão mais aprofundada (e sempre respeitosa, de preferência) com os ateus. Abaixo a introdução do texto, com posterior link para a sua íntegra:

Então você acha que entende o argumento cosmológico?

A maioria das pessoas que comentam sobre o argumento cosmológico não sabem, de forma demonstrável, sobre o que estão falando. Isto inclui todos os proeminentes escritores neo-ateístas. Definitivamente inclui a maioria das pessoas que vivem escrevendo comentários no blog de Jerry Coyne. Também inclui a maioria dos cientistas. E até mesmo inclui muitos teólogos e filósofos, ou pelo menos aqueles que não dedicaram muito estudo ao tema. Isto pode parecer arrogante, mas não é. Você poderia achar que eu estou dizendo, “Eu, Edward Feser, tenho conhecimento especial sobre este tema que tem de alguma forma iludido todo mundo”. Mas isto NÃO é o que eu estou dizendo. O ponto não tem nada a ver comigo. O que eu estou dizendo é bem um conhecimento comum entre filósofos profissionais da religião (incluindo filósofos ateístas da religião), que – naturalmente, dado o objeto de sua particular subdisciplina filosófica – são as pessoas que conhecem mais sobre o argumento cosmológico do que qualquer outro.

Em particular, eu acho que a vasta maioria dos filósofos que estudaram o argumento em qualquer profundidade – e novamente, isto inclui ateístas assim como teístas, apesar de não incluir a maioria dos filósofos fora da subdisciplina da filosofia da religião – concordariam com os pontos que eu estou para fazer, e com a maioria deles de qualquer forma. É claro, eu não quero dizer que eles todos deveriam concordar comigo que o argumento é ao fim do dia um argumento convincente. Eu só quero dizer que eles concordariam que a maioria dos não especialistas que comentam sobre ele não o entendem, e que as razões por que pessoas o rejeitam são normalmente superficiais e baseados em caricaturas do argumento. Nem digo eu que cada autointitulado filósofo da religião concordaria com os pontos que eu estou para fazer. Como todo outro campo acadêmico, a filosofia da religião tem sua parcela de mediocridades. Mas eu estou dizendo que a vasta maioria dos filósofos da religião concordariam, e novamente, isto inclui ateístas entre eles assim como teístas.

Eu não vou apresentar e defender qualquer versão do argumento cosmológico aqui. Eu fiz isto extensivamente em meus livros Aquinas e The Last Superstition, e isto precisa ser feito extensivamente ao invés de num contexto de um post de blog. A razão para isto é que enquanto a estrutura básica das versões principais do argumento são bem simples, a base metafísica necessária para um entendimento apropriado dos termos chave e inferências não é. Ela necessita de esclarecimentos, sendo por isto que Aquinas e The Last Superstition dedicam um longo capítulo à metafísica geral antes de endereçar a questão da existência de Deus. As objeções sérias ao argumento podem em meu ponto de vista todas serem respondidas, mas isto também pode ser apropriadamente feito somente depois que as ideias fundamentais terem sido estabelecidas. E isto também é uma tarefa conduzida nos livros.

Eu irei lidar com algumas das objeções não sérias, no entanto. Em particular, o que se segue tem a intenção de clarear algumas das futilidades intelectuais que previnem muitas pessoas de dar ouvidos ao argumento de forma justa. Aos pontos, então:

(Leia a íntegra do artigo no site E-Cristianismo)




Visite também o excelente (e sempre surpreendente) blog de Edward Feser (em inglês).



terça-feira, 10 de junho de 2008

Eclesiastes - capítulo 5

Leitura anterior: Eclesiastes - capítulo 4

O capítulo 5 de Eclesiastes marca uma inflexão no discurso do Pregador, no sentido de que é o primeiro capítulo onde Deus tem, digamos, um papel preponderante na sua exposição. 

Até então, a tônica estava na rotina da vida e nos fluxos e refluxos - inúteis e intermináveis - da vaidade humana. 

Como eu havia comentado antes, no capítulo 2, o Pregador apresentou – brevemente - 3 pilares onde apoiava o seu discurso: a sabedoria, a eternidade e a providência divina, o que lhe dava ainda alguma instabilidade na articulação das suas idéias; mas, para obter maior sustentação, no capítulo 5 ele introduz o quarto pilar: o temor de Deus

Logo no primeiro versículo (que nas versões católicas corresponde ao v. 17, o último do cap. 4), a Casa de Deus surge como que do "nada" no seu discurso, como se tudo o que houvesse escrito até então fosse vã (vaidosa) filosofia. 

Uma paráfrase possível de "Guarda o teu pé quando entres na Casa de Deus" talvez fosse: "toma consciência da importância deste passo, quando começas a falar das coisas de Deus". 

Dentro do contexto de Eclesiastes, "pé" (רגל - regel ) aí pode ser entendido também como "passo", ou seja, por "chão", que pode tanto significar uma caminhada "debaixo do sol" como o Pregador vinha propondo, como uma tomada de consciência da existência "pé no chão", realista, concreta, de cada um de nós, que, num certo marco da caminhada, não encontra mais respostas às suas perguntas nem alívio para o seu cansaço e enfado. 

Há momentos, portanto, em que somente o imanente (o "ser", o "estar", o "ter") não basta, não nos satisfaz, e por isso precisamos do (e buscamos o) transcendente (o "deve ser", o "pode ser", o "deverá ser"), e esta busca somente se aperfeiçoa na Casa de Deus, diante do Todo-Poderoso. 

Neste encontro, inevitável para todo ser humano, para o seu bem ou seu mal, todo cuidado é pouco. 

Não podemos oferecer "sacrifício de tolos", na expressão do v. 1, sacrifícios esses "que fazem mal". 




O silêncio, a prudência, o compromisso e a reverência são qualidades indispensáveis para aproximar-se de Deus em contemplação (v. 2), como o salmista já dizia: "Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Redentor meu!" (Salmo 19:14). 

A tradução da Bíblia do Peregrino para o v. 2 (que nas Bíblias católicas corresponde ao v. 1) é muito interessante: "Quando apresentares um assunto a Deus, que teus lábios não se precipitem, nem o pensamento te arraste". 

Quantas vezes temos essa experiência, de que nos apresentamos diante de Deus em oração e pensamentos errantes nos arrastam para longe de Sua presença. 

A leitura desta "precipitação" no falar pode ter uma interpretação muito mais abrangente, não só espiritual, mas também terrena e bastante cotidiana: quantas vezes, numa discussão (acalorada ou não) somos tentados a ter a última palavra? A ter sempre razão?

Quando isto acontece, dependendo - obviamente - das circunstâncias, ¿não podemos deixar a última palavra para a outra pessoa?

Não seria isto um exercício de humildade e disciplina?

Afinal, o v. 3 diz que, ao falar demais, corre-se o risco de dizer "palavras néscias" (Almeida Revista e Atualizada) e daí "nasce a prosa vã do tolo" (NVI).

Este versículo acrescenta que trabalhar demais produz sonhos, talvez porque o cansaço provoca o inevitável sono correspondente (vital à saúde física), talvez porque os sonhos são a única maneira do inconsciente reorganizar, digamos, a saúde mental e emocional da pessoa. 

A estes três tipos de saúde se deve adicionar a saúde espiritual.

Por isso, o Pregador prossegue ensinando que o que Deus requer de nós é inteireza de coração, e, como o salmista diz, "sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus" (Salmo 51:17). Assim, tolo é aquele faz um voto e não o cumpre, melhor é não fazê-lo do que desagradar a Deus (vv. 4-6).

A seguir, o Pregador retorna ao tema da opressão dos pobres (no extenso e profundo v. 8 - como já havia se referido no início do cap. 4). 

Fala do roubo e da cadeia de corrupção que dominam este mundo em lugar do direito e da justiça. 

É interessante que o Pregador faça esta distinção entre Direito e Justiça, algo que até hoje não é muito claro para quem vive nas sociedades modernas, e nem para quem estuda a Filosofia do Direito. 

Primeiramente, Justiça é um valor filosófico inalcançável pela sabedoria humana. Todos os grandes filósofos, desde Aristóteles, trataram de investigar e elaborar uma fórmula final e definitiva do que significa a verdadeira Justiça, e, embora as suas muitas contribuições, até hoje este conceito permanece impenetrável. 

Nietzche, por exemplo, entendia que o ideal de Justiça tem seu fundamento na inveja humana (como o Pregador já inferira em 4:4). 

Assim, ninguém valoriza a Justiça por mera contemplação de qualidades sublimes do homem, mas porque não quer que ao outro seja permitido o que a ele não é. 

Logo, se o outro comete um crime, por exemplo, ele o denuncia porque tem inveja de que o outro possa fazer impunemente o que a ele é ilícito. 

Enfim, cada um de nós tem um ideal de Justiça, coletivo ou individual, e nem sempre ele é protegido pelo Direito, ou seja, pela Lei e pela sua aplicação pelos juízes. 

Mesmo a Lei nem sempre é considerada justa por todos, mas por uma maioria democraticamente qualificada, como no caso das restrições do aborto ou do consumo de drogas tidas como "leves", por exemplo. 

O Pregador já percebia essa distinção tipicamente humana, mas também divina, já que a Lei mosaica, ainda que expressasse o Direito divinamente revelado ao povo judeu, não podia conter, na sua finitude terrena, todo o esplendor eterno e infinito da Justiça de Deus.

Ainda neste compasso, Salomão, o rei, diz algo que continua tão moderno que poderia ser usado pelo MST atualmente: "o proveito da terra é para todos; até o rei se serve do campo" (v. 9). 

Aparentemente, é um versículo deslocado do contexto do v. 8, mas o Pregador associa o fim da opressão ao proveito da terra por todos, e não por casualidade, a posse e o usufruto da terra sempre esteve ligada às questões de direito e justiça. 

Rousseau já dizia que "o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas bastante simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil"[1]

Roland Barthes[2] entende que a Retórica surgiu em função da reivindicação de terras entre os gregos do século V a.C., quando, depois da derrubada dos dois tiranos invasores sicilianos, Géron e Hiéron, os exilados voltaram e havia uma confusão de terras depois dos muitos confiscos. 

As questões possessórias terminaram sendo decididas em grandes assembleias públicas, em que era preciso ser eloquente para convencer os jurados da justiça do seu quinhão de terras. 

Um dos mais renomados filósofos do Direito no Brasil, Tércio Sampaio Ferraz Junior, lembra que “a palavra diké, que nomeava a deusa grega da Justiça, derivava de um vocábulo significando limites às terras de um homem. Daí uma outra conotação da expressão, ligada ao próprio, à propriedade, ao que é de cada um[3]

Diké era representada pela estátua de uma mulher segurando a balança na mão esquerda e a espada na direita, mas com os olhos abertos. 

A colocação da venda nos seus olhos vem com a absorção da mitologia grega pelos romanos, que criam a deusa Iustitia, que até hoje vemos em fóruns e escritórios de advocacia. 




É interessante observar, portanto, que a formulação ocidental moderna de Justiça já se encontrava presente em Eclesiastes, seja o seu autor Salomão ou um judeu do século VI a. C.. 

Alguém poderia objetar que as culturas se influenciaram mutuamente, mas não houve tempo nem condições para tanto, já que a menor datação possível para Eclesiastes é anterior à consolidação da cultura grega, que se dá a partir do século V a. C. 

De qualquer forma, se nota um ideal de direito e de justiça muito semelhante em vários povos antigos, e que permanece até hoje.

Não por acaso, o Pregador encerra o capítulo 5 falando do amor ao dinheiro, "a raiz de todos os males" na visão de Paulo (1 Timóteo 6:10). 

Afinal, a propriedade de terras era o sinal mais visível de alguém. Enquanto o trabalhador pobre dorme um sono tranqüilo, o rico se preocupa com a sua fartura (v. 12), transformando as riquezas no seu próprio dano (v. 13), e, se morre, o rico as deixará de herança para quem nunca trabalhou para merecê-las (v. 14). 

Assim, o Pregador retoma um tema com o qual já finalizara o capítulo 2. Afinal, por que trabalhar tanto, se nus saímos do ventre da mãe e nus voltaremos ao ventre da terra, e não poderemos levar nada conosco (v. 15)? 

Trabalhamos para o vento, então... (v. 16). Passamos por muitas dificuldades e muitos aborrecimentos para ajuntar dinheiro (v. 17), mas verdadeiramente "boa e bela coisa é comer e beber e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, com que se afadigou debaixo do sol, durante os poucos dias da vida que Deus lhe deu" (v. 18). 

"A vida é curta, aproveite-a!", grita o Pregador, e as coisas que batalhamos para conseguir ajuntar, na verdade, são dons de Deus (v. 19), e é Ele, e somente Ele que nos enche o coração de alegria (v. 20).


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[1] ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a Origem da Desigualdade. Rio de Janeiro: Athena Editora. Trad. de Maria Lacerda de Moura, s/d, p. 124
[2] BARTHES, Roland. A Aventura Semiológica. São Paulo : Martins Fontes, 2001, trad. port. de Mario Laranjeira, p. 9
[3] FERRAZ JUNIOR, Tercio Sampaio. Introdução ao Estudo Do Direito. Técnica, Decisão, Dominação. São Paulo: Atlas. 2003. 4ª ed., p. 52



Leitura seguinte: Eclesiastes - capítulo 6


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