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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Transformados pelo relacionamento


Artigo de Mateus Prates Mori, que gentilmente autorizou sua publicação aqui:

TRANSFORMADOS PELO RELACIONAMENTO

Já faz um tempo, ao menos na igreja onde congrego, ruminamos conversas intermináveis a respeito de relacionamentos. Porém, convenhamos, no geral, já sabemos o que os homens esperam de uma mulher e o que as mulheres esperam de um homem. Porém, não há como não admitir que há algo de errado conosco. Onde estamos falhando?

Além dos clichês que vemos por aí, ainda bem que, como cristãos, podemos ser autocríticos aplicando o conhecimento de Deus ao autoconhecimento e, consequentemente, a nossa condição desfavorável e indigna. Vejo que o que ocorre é uma antiga tática judaizante: esperar do outro algo que eu não cobro de mim mesmo. Mulheres elencam qualidades que desejam nos homens, como poder de decisão, gentileza, bom-humor, sensibilidade, paciência; e rejeitam defeitos como indecisão (bananice), grosseria, rabugice, indiferença e impulsividade. Homens por sua vez desejam submissão, companheirismo, suporte, admiração e cuidado; e rejeitam rebeldia, ciúmes, fofoca, espírito acusatório e dominação. OK! Sendo assim, como encontrar essa pessoa?

É nessa pergunta que mora o erro. Você não vai encontrar essa pessoa. Isso porque não estamos voltando os nossos olhos para a pessoalidade do relacionamento, e sim para o status do relacionamento. Ora, assim como o Pai nos aceita como somos, assim devemos aceitar aquele(a) que tomarmos a decisão de nos relacionar. O Pai nos aceita em Cristo Jesus e isso gera transformação; de igual modo devemos ser transformados durante o relacionamento.

Por favor, entendam! Não se espantem se eu disser para vocês não mudarem a si mesmos para serem aceitos por alguém. Essa mudança é falsa, mesquinha e egoísta; e digo mais, não procede de Deus e, sim, da sua vontade em ser aceito por alguém. Isso gera um impostor que não consegue se esconder por muito tempo, graças a Deus (caso você seja filho dEle). Não há mudança efetiva que possamos fazer para sermos aceitos. Isso é uma perversão do Evangelho.

Antes, se fomos resgatados do nosso fútil procedimento, especialmente agora não andaremos em novidade de vida, sendo transformados continuamente? Então como alguns de nós esperam que o outro seja formado completamente perfeito e não continuamente transformado rumo ao seio do Pai, através da operosidade da graça de nosso Senhor Jesus?

Sinceramente, estou cansado de escutar os inúmeros deveres e marcas de caráter que um homem e uma mulher devem ter. Onde está o diálogo sincero? Por que cosemos folhas de figueiras para esconder nossas vergonhas? Não deveríamos nos gloriar das nossas fraquezas para que em nós repouse o poder de Deus? Já tenho dito e insisto: você pode até gostar de uma pessoa por suas qualidades, mas, certamente, você a ama por seus defeitos. Verdadeiramente, você nunca será amado(a) porque você é amável; você é amável porque você é amado pelo Pai, em Cristo Jesus.

Então meus amados, não tentem procurar um amor baseado no que a pessoa tem a oferecer, mas no mesmo Cristo que te ama e que está nele(a). Lembremos que esse mistério já foi revelado, que é Cristo em vós, a esperança da glória (Cl 1.27); e não deturpem a referência de relacionamento que não seja nem libertina nem legalista, onde não reside qualquer sombra de relacionamento verdadeiro, mas em unidade de relacionamento com Jesus, sem o qual nada podemos fazer (Jo 15.5).



sexta-feira, 30 de maio de 2014

Hitler e a espiritualidade contemporânea

Hitler comanda ataque nazista em caricatura soviética de 1942

Artigo de Mateus Prates Mori, a quem agradecemos por ter gentilmente autorizado sua reprodução aqui:

ESPIRITUALIDADE CONTEMPORÂNEA:
O que Hitler tem a ver com isso?

Muitos hoje baseiam qualquer tipo de espiritualidade com algo absorvido ou criado por eles mesmos. Como diz o ditado, no Mundo há tantas pessoas como religiões. Mas, o que Hitler tem a ver com tudo isso?

A grosso modo, pode-se dizer que hoje a religião imperante é uma espécie de Unismo. Como explica o Dr. Peter Jones, no Unismo acredita-se que se há um deus, ele está em todas as coisas e é todas as coisas. Em uma analogia, deus seria o conjunto dos números reais, ou seja, todos os números. Nesse bem bolado, você necessita ter olhos para ver o todo. Você faz parte do Cosmos sendo uma parte muito importante do Universo. Você deve exercitar olhar para dentro de si e achar o seu deus interior. Não é um exercício fácil e você pode e deve fazer o uso de várias técnicas, como meditação transcendental, questionamento da moralidade vigente, esvaziamento e libertação da mente em direção a um estado de harmonia com o universo, algo semelhante a um Nirvana. Seja como for, o que se deve buscar é toda a capacidade dentro de si para ser feliz e ser uma pessoa realizada, amando a si mesmo primeiro, para enfim entrar em harmonia consigo e com o universo. Só assim você entenderá o seu papel. Somente dessa forma você pode oferecer ao próximo o seu melhor. Você deve ser satisfeito sozinho e buscar a completude sem haver a necessidade de encontrar a felicidade em alguém. Você pode ser tudo o que você desejar, sendo capaz de realizar seus sonhos sempre tendo em mente que isso faz parte de um plano geral.

Tudo isso é muito bonito, muito belo e com certeza fala ao coração da humanidade. Não acredito que haja um ser humano que em sua essência natural deseja ser um fracassado. Esse discurso se assemelha bastante com a filosofia de Nietzsche destacando que "A sociedade nunca considerou a virtude outra coisa senão um meio para a força, o poder e a ordem". Em 'A vontade de poder', Nietzsche profetizou a vinda de uma raça de dominadores, "uma espécie humana particularmente forte, altamente dotada de inteligência e vontade". Quase todo tipo de ideologia mama, de alguma forma, nesse fundamento. A teologia da prosperidade que cresce no meio evangélico não é diferente. Afinal, se o Todo-Poderoso o salvou, Ele o salvou para ser um vencedor. Você é um campeão de Deus e como tal deve determinar a sua vitória sobre todas as coisas, pois se Ele prometeu nos dar todas as coisas, assim Ele fará.

De modo muito interessante esse tipo de pensamento rondava a mente de Adolf Hitler. Ouve-se, por vezes, que Hitler era cristão católico. Não era, sabemos, mas não também era abertamente anticristão. Sempre usou a Igreja como massa de manobra para impor sua ideologia e quando necessário distorcia as Escrituras. O Führer apoiou a ala da Igreja denominada de Cristãos Alemães que criaram o 'Cristianismo Positivo'. Uma similaridade que se nota com a espiritualidade atual e a doutrina propagada pelos Cristãos Alemães era o DESPREZO AO ENSINO DO PECADO E DA GRAÇA. O próprio Hitler considerava a pregação cristã de "mansidão" inútil à ideologia nacional-socialista da época, dizendo: "Temos a desgraça de que a nossa religião não nos convém.

Por que não temos a religião dos japoneses, cuja aspiração máxima é o sacrifício pela pátria? Para nós a religião maometana teria sido melhor que o cristianismo, uma religião frouxa e paciente". Em seu livro 'A cruz distorcida: o movimento cristão alemão do Terceiro Reich', a historiadora Doris Bergen escreveu que "os Cristãos Alemães pregavam um cristianismo como o polo oposto do judaísmo, Jesus como líder antissemita, e a cruz como símbolo de guerra contra os judeus". O Evangelho da cruz de Cristo era aquém e negativo demais para recuperar o orgulho e a força do povo alemão após a humilhação no Tratado de Versalhes. Admitir a derrota não é uma opção.

Se você leu até aqui, espero que você possa trazer à memória o que traz esperança. Sim, Jesus Cristo venceu todas as coisas e nos deu a salvação eterna oferecendo-se a si mesmo, de uma vez por todas, como sacrifício vicário (substitutivo) pelos nossos pecados (Hb 7.27). Porém, Cristo jamais pregou e viveu como se dele emanasse poder autogerado. Todo poder por ele exercido emanava do Pai das Luzes (Tg 1.17) e vinha como resultado da perfeita submissão do Filho ao Pai (Mt 11.27; Jo 8.28; Jo 12.49). O Evangelho de Jesus veio revelar que o homem é pecador e que não há esperança de salvação para ninguém abaixo dos céus senão por uma ação ativa de amor do Pai revelando esse favor imerecido por intermédio de Jesus (Mt 19.16-26). O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16). Mas apesar de sermos filhos de Deus, nós não somos deuses. "A igreja possui um único altar, o altar do Todo-Poderoso [...] perante o qual toda criatura deve se ajoelhar. Aquele que procura coisa diferente disso deve se afastar; não pode se juntar à casa de Deus [...]. A igreja possui um único púlpito, e, do púlpito, a fé em Deus (que está em Cristo Jesus) será pregada, e nenhuma outra fé, e nenhuma outra vontade que não a vontade de Deus, por mais bem-intencionada. [...] não podemos simplesmente não estar atento com o fato de que a causa de Deus nem sempre é o sucesso; nós realmente podemos ser 'malsucedidos': e, ainda assim, estar no caminho certo" (Dietrich Bonhoeffer).

Na verdadeira espiritualidade, para Deus sucesso é:

  • Humildade para o reconhecimento de sua natureza pecaminosa.
  • Arrependimento do que te leva a se distanciar de Deus (inclusive, eventualmente fazer tudo "certinho" e não dar glória a Deus pelo privilégio de ser participante de Sua Obra)
  • Submissão à vontade de Deus (que é naturalmente contrária a sua, o que inclui negar-se a si mesmo).
  • Fidelidade à promessa da Palavra de Deus de que Ele irá cumprir a transformação que começou em cada um dos crentes até o dia que encontraremos com o nosso Senhor Jesus Cristo, mesmo diante dos fracassos e derrotas que tivermos aqui nesse mundo.


Disse Jesus: "Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo" (Jo 16.33).

"Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou" (Rm 8.36 e 37).



terça-feira, 27 de maio de 2014

Por que tarda o pleno avivamento?


Artigo de Mateus Prates Mori, a quem agradecemos por ter gentilmente autorizado sua reprodução aqui:

POR QUE TARDA O PLENO AVIVAMENTO?

Não sou nenhum pastor, teólogo ou filósofo, mas acredito no sacerdócio universal do crente em Cristo Jesus, por isso esse tema tem me incomodado e me chamado atenção. Pode ser que eu esteja errado. Se for, certamente estou falando para mim mesmo. Mas, creio que há algo de errado com TODO o cristianismo contemporâneo.

O título emprestado do livro de Leonard Ravenhill denuncia o mundanismo que adentrou a Igreja de Jesus Cristo. Pior que eu já li esse livro. Milhares de cristãos leram esse livro. E, obviamente, não muita coisa mudou.

O que eu questiono são os pesos que temos dado as práticas diárias da vida cristã. Lembro-me que na última aula da escola bíblica dominical foi levantado uma questão da prática devocional e do testemunho cristão. Um irmãozão meu questionou o ritualismo morto da leitura bíblica que o levava a chegar atrasado no trabalho. Todos foram unânimes em apontar para a necessidade de cumprir o seu dever com excelência, chegando pontualmente, fazendo o seu melhor no serviço, sendo luz naquele ambiente. Aqui, estou pondo minha cara a tapa, pois tenho a certeza que serei duramente criticado (até por reconhecer meu certo "desprezo" com o meu doutorado/trabalho). Porém, estou certo no Espírito Santo de que isso pode ter cara de piedade, mas no fundo é a mais pura vaidade.

Lembro-me de várias passagens a respeito do coração de um adorador. O que dizer da mulher que "desperdiçou" aquele perfume de nardo puro na cabeça de Jesus (Mc 14.3-9)? O que dizer de Maria, enquanto Marta estava atarefada em servir a Jesus, indo lá pra cá, inquieta e impaciente com a "lerdeza e a preguiça" de Maria (Lc 10.38-42)? O que está por trás de tudo isso? O antropocentrismo da obra contra a dependência cristocêntrica da adoração. Temos vivido no desespero confortável de cumprir a nossa agenda ou até mesmo a agenda da nossa igreja, ou temos vivido no descanso amedrontador de cumprir a agenda de Deus?

Quando lembro de sermões da Palavra que os meus pastores Arival e Hernandes tem pregado, não consigo não parar para pensar em como temos respondido. Será que não está na hora de deixarmos os nossos afazeres de segunda, terça, da semana toda e ficarmos em oração, súplica, intercessão, na casa de Deus - que o Senhor afirmou que será chamada casa de oração (Is 56.7; Mt 21.13) - até que Ele nos revista do Alto com o poder do Espírito Santo, para sermos suas testemunhas? Entenda, eu não estou falando de um segundo pentecostes. Estou falando da essência de tudo que é puro e de tudo que é digno diante do Senhor. "Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus" (Sl 51.17). Está na hora de nos humilharmos. Onde estão os Neemias do nosso tempo (Nm 1)? Onde estão os Elias (1 Rs 19.9-18)? E onde está a alegria de compartilharmos dos sofrimentos de Cristo, como na Igreja Primitiva (At 5.40-41)?

"Lembra-te, Senhor, do que tem acontecido conosco; olha e vê a nossa desgraça. (..) Dos nossos corações fugiu a alegria; nossas danças se transformaram em lamentos. A coroa caiu da nossa cabeça. Ai de nós, porque temos pecado! E por esse motivo o nosso coração desfalece, e os nossos olhos perdem o brilho. (...) Por que motivo então te esquecerias de nós? Por que haverias de desamparar-nos por tanto tempo? Restaura-nos para ti, Senhor, para que voltemos; renova os nossos dias como os de antigamente" (Lm 5.1, 15-17, 20 e 21).

Antes da obra, a cruz. Antes da ressurreição, a morte. Antes da glória, a humilhação.



quinta-feira, 18 de abril de 2013

Uma homenagem aos cristãos anônimos


É uma pena que, quando se ouve a palavra “evangélico” no Brasil, imediatamente se associe o termo a uma série de líderes vaidosos e gananciosos mais preocupados com batalhas políticas, dinheiro e poder, além do séquito de pessoas que os defendem cegamente.

Imediatamente também se esquece de uma legião de homens e mulheres simples e anônimos, que levam o amor e a Palavra de Deus a milhares, talvez milhões de pessoas, sem esperar nada em troca.

Fazem isso não só pelo prazeroso dever de compartilhar o evangelho, mas principalmente pelo amor que o Espírito Santo lhes derramou no coração (Romanos 5:5).

Na mesma carta aos Romanos, no capítulo 16, Paulo listou várias pessoas que, se não ficaram exatamente anônimas, foram reconhecidas pelo apóstolo e tiveram os seus nomes associados ao verdadeiro significado de ser cristão.

Poucos atentaram para os seus nomes, mas estão lá Febe, Prisca, Áquila, Epêneto, Maria, Andrônico, Júnias, Ampliato, Urbano, Estáquis, Apeles, Aristóbulo, Herodião, Narciso, Trifena, Trifosa, Pérside, Rufo, Asíncrito, Flegonte, Hermas, Pátrobas, Hermes, Filólogo, Júlia, Nereu e sua irmã, Olimpas, Timóteo, Lúcio, Jáson, Sosípatro, Tércio, Gaio, Erasto e Quarto.

Com exceção de Timóteo e de Hermas (a quem se atribui o antigo livro “O Pastor”), todos os demais pouco ou nenhum destaque tiveram na história registrada da igreja cristã.

Muito provavelmente nem Paulo nem seus acompanhantes se lembravam do nome da irmã de Nereu, mas o apóstolo fez questão de mencioná-la para que ninguém se esquecesse da sua humilde existência e do seu trabalho simples e valoroso.

Da mesma maneira, milhares, talvez milhões de crentes, hoje estão fazendo seus trabalhos simples, sem esperar reconhecimento, poder ou dinheiro.

Eles levam a preciosa semente da mensagem da cruz de Cristo (Salmo 126:6) a todo lugar, indistintamente, de porta em porta, de pessoa em pessoa, sem negociá-la com as trevas.

É quase impossível que pelo menos alguns de seus nomes venham a ser conhecidos na imensa balbúrdia em que se tornou a militância ideológica evangélica no Brasil, mas o seu valoroso anonimato merece ser homenageado assim como Paulo fez com seus anônimos cooperadores da Roma de 20 séculos atrás.

Desconfio, porém, que é por amor a esses pastores e crentes fiéis (e àqueles a quem eles servem piedosa e silenciosamente) que Deus – na Sua infinita misericórdia - ainda não trouxe a destruição que merecem todos os usurpadores da fé que profanam Seu nome por aqui.



sábado, 4 de agosto de 2012

Cristão, um marginal

Artigo instigante publicado no IHU:

A marginalidade como paradigma da vida do cristão

Para o monge italiano Matteo Ferrari, do Mosteiro de Camáldoli, os discípulos de Jesus de hoje, assim como o seu mestre, devem ser homens e mulheres da aldeia e do deserto, habitando nas margens.

"Se percorrermos novamente os textos dos Evangelhos, podemos descobrir que o próprio Jesus viveu essa condição de "marginalidade" e escolheu no seu ministério aqueles que estavam às margens da sociedade da sua época".

O artigo foi publicado na revista Ricerca, 3/4 de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Sempre me chamou a atenção um texto de Dietrich Bonhoeffer no início de Sequela [Seguimento], em que ele fala da vida monástica. Ele afirma que o monaquismo consiste "pôr-sè às margens" para guardar "a graça cara", tornando-se "um protesto vivo contra a mundanização do cristianismo, contra a redução da graça a mercadorias baratas" [1]. Falando dos monges, Bonhoeffer afirma: "Às margens da Igreja se encontrava o lugar onde foi mantida desperta a cognição da graça cara e do fato de que a graça implica o seguimento" [2].

A partir do Novo Testamento, se poderia perguntar se o estar "às margens" não é precisamente uma condição do cristão que vive a sua fé de modo autêntico. De fato, se percorrermos novamente os textos dos Evangelhos, podemos descobrir que o próprio Jesus viveu essa condição de "marginalidade" e escolheu no seu ministério aqueles que estavam às margens da sociedade da sua época.

Um homem da aldeia e do deserto

Acima de tudo, tentemos considerar o espaço habitado por Jesus. Nos Evangelhos, Jesus é um homem sempre a caminho, que passa de vilarejo em vilarejo. Ele privilegia no seu contínuo caminho uma região marginal de Israel, a Galileia. Além disso, ele não entra em grandes cidades, mas sim em pequenas aldeias. Se levarmos em consideração unicamente os relatos evangélicos, podemos até mesmo pensar que, na época de Jesus, não havia, com exceção de Jerusalém, grandes centros habitados [3]. Mas, ao contrário, nós sabemos bem que, na realidade, não é assim. Trata-se, portanto, de uma escolha de Jesus o fato de privilegiar os vilarejos no seu ministério.

A esse tema M. Pesce e A. Destro dedicaram algumas páginas sugestivas no seu livro L'uomo Gesù. Giorni, luoghi, incontri [4]. Referindo-se ao Evangelho de Marcos, eles afirmam que Jesus é "um homem de aldeia que olha para as grandes cidades e para todo o resto da Terra de Israel a partir de um ponto de vista periférico e marginal" [5].

O que pode significar essa preferência de Jesus pela aldeia? As tentativas de dar uma resposta a essa pergunta certamente poderiam ser múltiplas; a nós basta unicamente fazer um sublinhado. O vilarejo é um lugar marginal, mas nem por isso menos importante, da vida social. As cidades são o lugar onde se tomam as decisões, onde se governa a vida social e econômica. A aldeia, com a sua marginalidade, o seu apego às tradições, a sua natural resistência ao anonimato que a vida citadina pode trazer consigo, pode ser, de certo modo, uma "contestação" da cidade, um modo para se pôr às margens e chamar a atenção para uma outra possibilidade de vida.

Jesus, além disso, é não somente um homem da aldeia, mas é também um habitante do deserto. A missão de Jesus inicia no deserto, onde o Espírito o leva para lhe fazer viver a prova (Mc 1, 12). O deserto é lugar marginal por excelência. Os primeiros monges no antigo Egito também se retirariam no deserto para viver a prova e se tornar uma advertência para toda a Igreja para a radicalidade do seguimento do evangelho.

No deserto, Jesus é "posto à prova" por Satanás e ali ele se revela como o homem segundo o sonho de Deus, capaz de recuperar a harmonia com a criação (cf. Mc 1, 13). Ao deserto, Jesus também se retiraria no término da "jornada de Cafarnaum", que abre o segundo Evangelho (cf. Mc 1, 21-39). Marcos narra que, "de madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto" (Mc 1, 35). Estamos no término de uma jornada típica de Jesus, na qual ele realizou obras grandes: ensinou na sinagoga com autoridade, libertou um endemoninhado, curou a sogra de Pedro e muitos outros doentes da cidade. Mas, de manha cedo, Jesus se afasta da multidão e do sucesso para se retirar para um lugar deserto para rezar. Quando Simão, juntamente com os outros discípulos, o encontram e o convidar para retornar para o vilarejo para continuar a obra que lhe trouxera tanto sucesso e notoriedade, Jesus lhes diz: "Vamos para outros lugares, às aldeias da redondeza. Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim" (Mc 1, 38).

Dirigindo-se para um lugar deserto, às margens da aldeia, na oração, Jesus retorna ao sentido mais profundo e verdadeiro da sua missão – "Foi para isso que eu vim" – e reafirma a soberania de Deus sobre a sua própria vida. O deserto é para o próprio Jesus, para a sua vida, "o lugar marginal" para reencontrar o sentido das coisas.

Mais adiante no relato de Marcos, Jesus também vai convidar os seus discípulos, retornando da missão à qual ele os havia convidado, a se dirigirem para um lugar deserto para repousar (Mc 6, 31-32). É como se Jesus quisesse indicar aos seus discípulos a necessidade de viver a missão como ele, encontrando no deserto, isto é, nas margens, o sentido autêntico das suas atividades. No deserto, alcançados pela multidão faminta de palavra e de pão, eles terão que descobrir que o sucesso da sua missão não dependerá de grandes ações e meios poderosos, mas sim da disponibilidade de pôr à disposição a própria pobreza – cinco pães e dois peixes (Mc 6, 38; também cf. 8, 5) – para que, a partir dela, o Senhor possa saciar uma multidão imensa de modo superabundante.

Amigo de publicanos e pecadores

Do ponto de vista das relações, Jesus também se apresenta como alguém que "vive às margens". De fato, ele "se afasta da própria família e da própria aldeia, expondo-se a instabilidades, incertezas e críticas. Ele é contra a estabilidade e contra a certeza. Escolhe uma vida que não tende a se enraizar em um tecido seguro e confortável" [6].

No Evangelho de Lucas, Jesus é chamado de "amigo de publicanos e pecadores" (Lucas 7, 34). O fato de que quem vê Jesus em ação possa dizer algo semelhante nos diz algo de muito significativo sobre as relações de Jesus. Se percorrermos o início do Evangelho de Marcos – o mais antigo dos evangelhos –, essa impressão é confirmada. Basta pensar que o primeiro gesto público que Jesus realiza não é nem um milagre, nem um grande discurso inaugural, mas sim o de entrar na fila com aqueles que iam ao encontro de João para serem batizados (Mc 1, 9-11). João no deserto, e portanto ele também às margens da vida social, "proclamava um batismo de conversão para o perdão dos pecados" (Mc 1, 4). Aqueles que iam até ele, portanto, se sentiam necessitados de ser perdoados e de mudar de vida.

Em Lucas, sabemos que iam até João diversas categorias de pessoas, dentre as quais os publicanos, considerados pecadores públicos. Não é por acaso que Jesus inaugura a sua missão com esse gesto e que, justamente nesse momento, uma voz do céu o chama de "meu filho" e proclama a complacência divina para com ele (cf. Mc 1, 11).

Continuando a percorrer o Evangelho de Marcos, encontramos a jornada de Cafarnaum. Como já dissemos, nesse dia, Jesus encontra um endemoninhado, uma mulher com febre e muitos outros doentes. Pessoas, portanto, que vivem uma situação limite e, muitas vezes, se pensarmos na sociedade da época, marginalizadas. Posteriormente, Jesus cura uma pessoa afetada pela lepra (Mc 1, 40-45), a pessoa marginalizada por excelência (cf. Lv 13, 45-46), à qual era proibido entrar nos centros habitados. Um homem que vivia às margens por constrição, e não por escolha.

Por fim – mas os episódios poderiam ser outros –, lembremos o chamado de Levi e o posterior banquete com os pecadores (Mc 2, 14-17). Nesse episódio, emerge, na comunhão à mesa, a solidariedade de Jesus com as pessoas mais marginalizadas da sua época. Notemos que não se trata de justificar "de forma barata" a conduta equivocada de algumas categorias de pessoas, mas sim de assumir a atitude do médico que veio para curar (Mc 2, 17).

Fora da porta da cidade

A Carta aos Hebreus lembra que Jesus foi crucificado "fora da cidade" (Hb 13, 12), ou seja, às margens do lugar santo. O próprio Jesus, portanto, além de ser "solidário" na sua vida, principalmente com aqueles que estão às margens, na sua Páscoa, sofre o destino dos malfeitores, como um marginalizado. Na paixão e morte de Jesus, emerge do modo mais forte e provocante a sua escolha de habitar às margens e de ser o amigo dos marginalizados.

Nos eventos pascais, se revela o que caracterizou toda a sua existência, isto é, a escolha dos últimos e dos marginalizados. No fundo, a sua própria morte é o fruto de tal escolha. De fato, a decisão de matar Jesus em Marcos 3, 6 por parte dos fariseus e dos herodianos se coloca precisamente no término de uma série de episódios que evidenciam o comportamento provocativo de Jesus com o qual ele revela o rosto do Pai.

Homens e mulheres da aldeia e do deserto

Qual pode ser o sentido dessa escolha de marginalidade vivida por Jesus para os seus discípulos hoje? Estes, como o seu mestre, devem ser homens e mulheres da aldeia e do deserto, habitando nas margens. Esse seu chamado deve se traduzir em escolhas concretas não para se tornar uma "seita de puros", mas sim para lembrar com o seu testemunho o alegre anúncio sobre Deus que Jesus trouxe e foi. Viver a marginalidade não significa se separar da sociedade ou se erguer como juízes dos outros, mas sim permitir que todos possam olhar com olhos diferentes, se distanciar de uma vida que flui sem se interrogar mais sobre a bondade e a beleza das escolhas que são feitas.

Das margens, de fato, pode-se chamar a atenção para as coisas que verdadeiramente importam e que muitas vezes se corre o risco de perder de vista.

Notas:

1 – D. Bonhoeffer. Sequela (= Obras de Dietrich Bonhoeffer 4). Bréscia: Queriniana, 20012,31.
2 – Bonhoeffer, Sequela, pp.30-31.
3 – Cf. A. Destro; M. Pesce. L’uomo Gesù. Giorni, luoghi, incontri di una vita. Milão: Mondadori, 2008, p.19.
4 – Cf. Destro; Pesce. L’uomo Gesù, pp.19-25.
5 – Destro; Pesce. L’uomo Gesù, p.22.
6 – Destro; Pesce, L’uomo Gesù, p.45.



domingo, 24 de junho de 2012

Tinha uma árvore no meio do caminho


Mais uma ótima meditação do meu querido amigo e irmão Almir Albuquerque, sobre a importância de se viver a vida cristã na íntegra, e não somente na fachada:





terça-feira, 8 de maio de 2012

O cristão e o mundo corporativo

Por Edson Henrique, do blog Filhos da Graça:

O CRISTÃO E O MUNDO CORPORATIVO

Depois de ensaiar escrever sobre este assunto diversas vezes, hoje tomei a coragem necessária para fazê-lo. Mas, o que me motivou a escrever sobre o tema, foi uma reunião de homens da igreja que freqüento, onde o assunto foi abordado de uma maneira bem resumida, mas impactante, então percebi o quão complexo este assunto é no meio cristão.

É possível ser um cristão autêntico no mundo corporativo?

Sou da opinião que o cristianismo e o mundo corporativo são conflitantes entre si, mas que é possível sim, as duras penas, ser um cristão autêntico neste meio. É claro que haverá consequências sobre a atitude de se manter cristão o tempo todo, muitas das vezes com a perda do emprego.

Quem trabalha como empregado ou empregador, seja um simples funcionário até o mais alto funcionário de uma companhia, passa por situações diárias que vão de encontro com princípios bíblicos, seja na hora de dizer que o chefe não está no departamento, ou de mandar dizer que não está, seja oferecer vantagens para conseguir fechar um negócio, situação muito comum nos dias de hoje (corrupção). Alguns argumentarão que isso faz parte da política da empresa, e que estão apenas exercendo a política da empresa (corrupção omissa), sabe que é errado mas joga a culpa em alguem superior, seja o chefe ou a empresa. Mas se a empresa é de um cristão, então seria diferente? Seria corrupção? Mas é o sistema, é assim que funciona, se não for desse jeito, a empresa fecha.

Tenho um amigo empresario que não é cristão, mas possui um caráter como poucos. Ele confidenciou algumas vezes, o quão dificil é prestar um serviço sem se corromper, sem pagar para entrar no sistema, sem ter seu nome, sua idoneidade maculada pelo simples fato de ceder ao jogo mercadológico e participar do sistema corrupto. A conseqüência é que nem sempre se dá bem no seu ramo, visto que muitos oferecem vantagens para poder oferecer seu serviço.

Uma vez ouvi de um pastor que comentou não ver problema no cristão que trabalha com venda, em participar do jogo, oferecendo as vantagens que a empresa permite, para poder vender e defender a sua comissão, ou o seu pão de cada dia. Hmmm, posso estar sendo injusto, mas não concordo com esta idéia. Como cristão não precisamos participar de nenhum esquema do mundo corporativo para garantirmos nosso sustento, alias o nosso sustento vem do Senhor, ou então a palavra de Deus não é verdade em Mateus 6:25-26.

Por isso vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu; não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros, e, contudo, o vosso Pai celestial as alimenta. Não tende vós muito mais valor do que elas? Mateus 6:25-26

Apesar de acreditar que é possível sim ser um profissional de carreira bem sucedida e ser um autêntico cristão, o que temos visto no mercado de trabalho, são pessoas cristãs que buscam cade vez mais ser um profissional melhor, muitas vezes procurando os principais lugares na companhia, mas com um custo elevado, muitas das vezes se omitindo em prol do seu status ou de conseguir os seus objetivos. Mas o qual é o objetivo de ser um cristão? Não é buscar as coisas do reino em primeiro lugar? Não é viver para adorar a Deus? Não nos tornamos co-herdeiro com o Cristo, para o louvor e adoração a Deus? Então o sistema capitalista e o mercado de trabalho, são totalmente contraditórios e com objetivos distintos ao cristianismo, mas temos que viver, não podemos deixar de trabalhar, mas também não podemos nos conformar com este mundo, e nem seguir os padrões deste mundo. Não devemos ser morno, ficar no meio do muro, nos omitirmos, mesmo quando for do nosso interesse, seja sempre nosso dizer SIM,SIM e NÃO, NÃO, o que passar disso vem do maligno.

Existem muitas profissões que acredito que nenhum cristão deveria seguir (minha opinião), advogado, juíz, policial, militar, político entre outros, pois são profissões que o limite entre fazer o que é certo (bíblico) e o que é errado é muito tênue. Isso sem falar na ética cristã, que em muitas profissões já não existem mais, pois ser ético é o mesmo que ser um mal profissional, pois para se chegar a lugares mais altos, na maioria das organizações e necessários passar por cima de outras pessoas, é necessário jogar sujo.

Mas dou graças a Deus que ainda assim, com todas nossas falhas, muitas vezes de caráter, estamos em processo de conversão, sendo todos os dias perdoados e graças que temos o sangue de Cristo, nosso advogado para nos lavar e nos perdoar, mas mais ainda ao amor com que Deus nos amou e nos deu seu infalível plano por intermédio de Cristo, pois se não fosse isso estariamos todos mortos.

A minha oração é parque eu não sucumba as tentações e desejos da carne, fazendo o mal que não quero, mas que consiga submeter a carne ao espírito para que assim ande conforme Jesus andou, não apenas seguir a Cristo por empatia, mas seguindo a Cristo carregando a cruz que nos foi imposta (Mateus 10:38).

Graça e Paz!



quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Agora é a vez do Ganso ser papai

Parece que vida de jogador evangélico do Santos é muito dura. Longas concentrações, treinos diários, jogos nervosos, enfim, tudo deve contribuir para que nos poucos intervalos que têm eles façam filhos. Depois de Neymar, agora é a vez de Paulo Henrique Ganso, aquele que um dia disse que - como jogador e evangélico - se espelhava em Kaká, engravidar uma moça (que não é a namorada que ele tinha até algum tempo atrás, diga-se de passagem), segundo noticia a ESPN Brasil e o Globo Esporte. Registre-se também que ninguém está querendo julgar a atitude de quem quer que seja, até porque tentações e acidentes acontecem, mas fatos como esses, que - no caso - acontecem com jogadores consagrados do Santos, que fazem questão de dizer que são evangélicos, não contribuem em nada para o anúncio do verdadeiro evangelho. Talvez, no máximo, aumentem um pouco a legião de "fãs" de Jesus, sem nenhum conhecimento ou comprometimento a respeito do que Ele veio fazer no mundo 2.000 anos atrás. Servem para reforçar a sensação de que o nome "evangélico" é - hoje - apenas um rótulo para uma embalagem com aparência e supostas credenciais de "santidade", mas sem nenhum conteúdo. Por dentro está vazia não só de Deus, como também de uma palavra surrada (coitadinha!), que os evangélicos usavam muito antigamente: "testemunho". O rótulo serve, inclusive, quando os jogadores evangélicos do Santos se recusam a visitar um abrigo espírita. Como hoje vale tudo, pode qualquer coisa (menos fazer caridade em instituições de outra religião), desde que a pessoa bata no peito e diga que é "evangélica", o testemunho morreu e ninguém vai mandar flores. Pouparemos o leitor de piadas prontas e infames com o apelido do jogador, mas algum pastor precisa distribuir camisinha na concentração do Santos urgentemente...




segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O cristão imperfeito

por Calvino:

5. A VIDA CRISTÃ NÃO IMPLICA PERFEIÇÃO, INATINGÍVEL NA PRESENTE CONDIÇÃO HUMANA, PORÉM RECLAMA ESFORÇO, DILIGENTE E CONTÍNUO, DE BUSCÁ-LA, DIA APÓS DIA, SEM DESFALECIMENTO


Não exijo que o viver do homem cristão nada exale senão o evangelho absoluto, o qual, no entanto, não se deve exatamente só almejar, mas também necessário se faz intentar. Contudo, não exijo perfeição evangélica em moldes tão estritos que não se possa reconhecer como cristão aquele que não a haja ainda atingido plenamente. Se esse fosse o caso, seriam todos excluídos da Igreja, uma vez que ninguém se acha que não esteja tão afastado dela por mais que haja adiantado, e contudo não há razão para que sejam rejeitados.

Então, o que fazer? Esteja fixado diante dos olhos este alvo, rumo ao qual se dirijam todas as nossas ações e rumo a ele lutemos e nos esforcemos até chegarmos. Pois não é lícito tentar partilhar com Deus dessas coisas que estão prescritas em sua Palavra, acatando parte delas, e de teu arbítrio desconsiderando outra parte. Ora, por toda parte ele recomenda, em primeiro lugar, a integridade como a parte capital de sua adoração [Gn 17.1; Sl 41.12], termo que significa a sincera candidez de espírito que careça de dolo e fingimento, à qual se contrapõe o coração dobre, como se estivesse dizendo que o princípio do bem viver é espiritual, quando o afeto interior do espírito se devota a Deus, sem fingimento, para cultivar-se a santidade e a justiça. Mas, uma vez que não sobeja a ninguém tanta força, neste cárcere terreno do corpo, que se possa avançar com a justa celeridade da corrida, ao contrário tão grande fraqueza oprime a grande maioria que, vacilando e claudicando, até mesmo rastejando no solo à frente se movem com dificuldade, avancemos, cada um segundo a medida de sua reduzida capacidade, e prossigamos a jornada iniciada. Ninguém vagueará tão desafortunadamente que não avance cada dia ao menos um pouco de caminho.

Portanto, não cessemos de progredir no caminho do Senhor, avançando incessantemente, não nos desesperando ante a insignificância de êxito alcançado. Ora, por mais que o êxito não corresponda ao desejo, contudo, o labor não foi perdido quando o dia de hoje supera o de ontem, contanto que, com sincera candidez, olhemos firmemente para nosso alvo e aspiremos alcançar nossa meta, não nos lisonjeando com adulação, nem condescendendo a nossas más disposições; ao contrário, em esforço contínuo proponhamo-nos a ser cada dia melhores até que alcancemos a perfeita bondade que devemos buscar toda nossa vida. Conquistaremos essa perfeição quando, despojados da debilidade de nossa carne, sejamos plenamente admitidos na companhia de Deus.

(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 3, pp. 159-160)

sábado, 18 de dezembro de 2010

Precisamos de Barnabés

Só pra lembrar de uma época em que os líderes cristãos não tinham amor ao dinheiro, nem se locupletavam daquilo que os outros repartiam, e a única semente que plantavam era o amor à Igreja e ao próximo, e pra também reviver outra época, em que se fazia música evangélica de qualidade no Brasil:






BARNABÉ, HOMEM DE DEUS


Composição: Guilherme Kerr Neto e Jorge Rehder

Não fica bem a gente passar bem e o outro carestia,
ainda mais quando se sabe o que fazer e não se faz.
Como fruto do amor de Cristo,
fruto do seu compromisso,
vendeu um homem o que tinha e repartiu.

Era o seu nome Barnabé, natural de Chipre,
também chamado de José da Consolação,
homem bom e piedoso, cheio de temor e fé,
homem de Deus.

E quando Saulo converteu-se a Cristo lhe faltou amigo,
alguém que fosse companheiro, fonte de consolo e abrigo.
Como fruto do amor de Cristo,
fruto do seu compromisso,
foi um homem procurá-lo, dando-lhe a mão.

E quando a igreja se espalhou por todo canto que havia,
por providência, sim, por mão de Deus chegou a Antioqui.
Precisando de um pastor de almas,
mesmo de um pastor de homens,
foram procurar aquele Deus que preparou.

segunda-feira, 8 de março de 2010

O maior milagre




Leitura bíblica: Colossenses 1:1-29

Versículo-Chave: “Porque aprouve a Deus que nele residisse toda a plenitude” (Colossenses 1:19)

Meditação: O próprio Cristo é o maior milagre de todos os tempos. A encarnação, como o milagre central da história, ajuda-nos a interpretar os milagres realizados pelo “Eu Sou”, Yaveh conosco (Êxodo 3:15). Esses atos especiais do poder de Deus, presente, conosco no Emanuel, foram sinais, prodígios e maravilhas do Todo-Poderoso Senhor de toda a criação. Não são infrações da lei natural, mas intervenções de uma lei mais alta de amor, que veio ao encontro da necessidade humana. Todos os milagres de Jesus faziam parte do negócio do seu Pai que ele veio realizar, como Deus encarnado. Cada obra poderosa foi para que alguém, seus seguidores e todo o Israel conhecesse o “Eu Sou!” (Yaveh). Alguém disse que os milagres de Jesus foram e são o toque de jantar, chamando-nos ao banquete preparado para que participemos com ele.

A pergunta é: ainda acontecem milagres? Sim! O milagre da vida, da salvação, da transformação da personalidade e das intervenções específicas de cura e bênção. Um exame dos milagres leva-nos ao tipo de fé que diz que tudo é possível para o viver diário e para nossas necessidades. O grande Médico ainda realiza curas físicas, emocionais, e espirituais por meio do Espírito Santo.

Pense nas necessidades das pessoas no contexto do poder miraculoso que está à nossa disposição. Fyodor Dostoievsky tinha razão, ao dizer: “A fé que a pessoa realista tem não surge dos milagres, mas sim os milagres é que surgem da fé”. Cremos que a fé vem do resultado da atenção que o Espírito nos leva a dispensar ao amor e perdão da cruz; essa fé, então, ousa crer que, como milagres de Deus, podemos esperar milagres ao nosso redor e ter prazer especial neles.

Pensamento do dia: “O próprio Jesus foi um milagre singular, convincente e permanente” (Ian Maclaren)

(Lloyd John Ogilvie, “O que Deus tem de melhor para a minha vida”, Ed. Vida, meditação de 08 de março)

domingo, 10 de janeiro de 2010

O cidadão Paulo

O apóstolo Paulo é visto, por muitos, como o seguidor de Jesus que, utilizando um verbo moderno, “formatou” a teologia cristã, organizando as igrejas nascentes, abrindo-as aos gentios, repudiando os judaizantes e consolidando a doutrina da justificação pela fé no sangue redentor de Cristo. Sua conduta biblicamente registrada nos é apresentada rotineiramente de maneira quase que totalmente espiritualizada. Fica claro, por seus atos e suas cartas, que Paulo investia todos seus recursos físicos, financeiros e intelectuais na modelagem e conformação de uma igreja doutrinariamente unida em torno dos princípios fundamentais da fé. Por outro lado, isto não o impedia de dar ordens e conselhos práticos quanto à maneira do cristão se comportar no seu cotidiano na vida em família, na igreja e na sociedade.

Um outro aspecto da vida de Paulo, entretanto, é pouco abordado nas pregações e nos estudos mais aprofundados: o seu apego ao direito. Uma primeira cautela é necessária antes de se analisar o tema: o vocábulo “direito” da época do apóstolo não tem exatamente o mesmo significado que tem hoje em dia, de um direito codificado, com valores universais e garantias fundamentais que permeiam, com lamentáveis exceções, todos os povos do mundo. Ainda que o direito romano tenha sido a fonte básica das instituições jurídicas que hoje compartilhamos com quase todos os povos e tribos, como propriedade, casamento, família, herança, etc., naquela época ele se restringia a poucas pessoas, consideradas “cidadãos romanos” por nascimento (como Paulo afirma em Atos 22:28), ou por alguma concessão especial. Em segundo lugar, o fato de ser cidadão romano garantia - a quem possuía esta condição – o acesso aos serviços formais de justiça ainda precários na época. Aos demais nada era reservado, senão os humores – nem sempre pacíficos e justos – de quem estava em posição de autoridade. O exemplo maior disso foi o próprio Jesus, transformado que foi num verdadeiro joguete entre as esferas de poder de Pilatos, do Sinédrio e de Herodes. Como um cordeiro, foi enviado ao matadouro sem direito a nada.

O exemplo de Jesus não foi seguido por Paulo, que também terminou sendo enviado ao matadouro, mas, por mais espiritual que fosse, não titubeou em invocar sua condição de cidadão romano para fazer valer seus direitos ("civis romanus sum"). Diante do direito da época, Paulo era “alguém” enquanto Jesus não era ninguém. A primeira vez que Paulo se apresenta como “cidadão romano” acontece no cárcere de Filipos, no qual ele e Silas são injustamente presos depois de serem açoitados. Depois do terremoto que abre as grades e anima o carcereiro se converter, os magistrados decidem soltar Paulo e Silas, mas o apóstolo não aceita sair sem a presença dos oficiais, já que se declara cidadão romano (Atos 16:37), o que provoca justificado temor nos seus algozes, que haviam ousado torturar “alguém” que privava da cidadania romana. A segunda vez ocorre em Jerusalém, quando os soldados romanos se preparavam para açoitá-lo (Atos 22:25) e a terceira diante de Festo em Cesaréia, quando Paulo, conhecedor do ordenamento jurídico de seu tempo, apela para César (Atos 25:11), sendo que, depois, quando é interrogado por Agripa, este comenta com Festo que Paulo bem podia ter sido solto se não tivesse apelado para César, direito que lhe conferia a condição de cidadão romano (Atos 26:32).

O final da história todos nós sabemos. Paulo é levado preso para Roma e lá, enquanto tramita o seu processo, tem oportunidade de pregar o evangelho, confirmar os irmãos distantes através de cartas e consolidar a nascente igreja de Roma, terminando por ser decapitado, segundo a tradição, já que cidadãos romanos, com raríssimas exceções, não eram crucificados, castigo reservado aos “outros”. Nas suas cartas é nítida a sua preocupação em que os cristãos respeitassem a lei e obedecessem as autoridades (Romanos 13 talvez seja o melhor exemplo). Portanto, Paulo foi cidadão romano do nascimento à morte, e exerceu sua cidadania nos momentos mais difíceis de sua vida, sem abdicar do seu crescimento espiritual, trabalho este que resultou num gigantesco legado à cristandade. Isto não o impediu de dizer que sua “pátria” estava no céu (Filipenses 3:20). A palavra aí traduzida para o português como “pátria” é πολίτευμα - politeuma – e significa mais propriamente “comunidade à qual se pertence”, figurativamente uma “cidadania”. A forma verbal de politeuma, politeumai (πολιτεύομαι) é utilizada um pouco antes, em Filipenses 1:27, em que o apóstolo recomenda que, "acima de tudo, vivamos por modo digno do evangelho de Cristo" e não deixa de ser no mínimo curioso que Paulo transmita esta ideia através de uma frase que, em grego, significa primariamente "viver vida de cidadão".

Desta forma, Paulo conciliou, como poucos, sua cidadania fática com a espiritual, numa clara demonstração de que é possível ser cristão sem deixar de ser cidadão, vivendo na plenitude o paradoxo cristão de estar neste mundo, interagir nele mas a ele não pertencer. É claro também que todo cristão sabe que – pelo menos metaforicamente – seu destino é o mesmo de uma ovelha indo para o matadouro, morto para a terra e vivo para o céu, tendo sempre em vista que não pertence a este mundo que jaz no maligno. "Porque, na verdade, nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos oprimidos, porque não queremos ser despidos, mas sim revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida" (2 Coríntios 5:4). O desafio do cristão é, portanto, seguir o exemplo de Paulo e discernir todas as circunstâncias e oportunidades de exercer a sua condição total de cidadão da terra e do céu.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A verdadeira vida abundante

No meio da confusão generalizada em que as igrejas evangélicas estão metidas ultimamente, não deixa de ser curioso observar como pastores se deixam levar pelo oba-oba da teologia da prosperidade e começam a desvirtuar os textos bíblicos com o objetivo de seguir as, digamos, “tendências” atuais da (má) exegese. Talvez isso se explique (mas não se justifique) pelo mundo materialista em que vivemos, em que as estratégias mercadológicas ditam a maneira como as pessoas devem se comportar, relacionar e organizar. Somos bombardeados diariamente com o consumismo desenfreado e o discurso fácil e pegajoso da teologia da prosperidade que impera na televisão, e os frequentadores das igrejas evangélicas exigem que seus líderes sigam a onda que veem nos telepastores. Perceba que eu disse “frequentadores”, já que a alta rotatividade dos templos e suas “propostas de trabalho” ou “planos de riqueza” já não permite mais o antigo e romântico nome de “membros”. O líder, na iminência de perder o seu rebanho, não vê outra saída senão aderir ao modismo, deixando o bom ensino bíblico de lado, e assim retroalimenta o problema, pois pessoas mal instruídas na Bíblia são presas fáceis para os espertalhões que travestem o evangelho da cruz de Cristo pela ilusão fácil do pensamento positivo com floreios bíblicos.

Este atávico desejo de pertencer a alguém ou a um grupo, que os seres humanos desenvolveram tão bem, faz com que as igrejas evangélicas se pareçam mais hoje em dia com clubes de serviço – do tipo Rotary, Lions, etc. -, onde as pessoas trocam cartões, quando deviam trocar orações, ensino e admoestações. Este instinto gregário é facilmente manipulado por quem não tem compromisso algum com o ensino da Palavra, e está muito mais preocupado em se dar bem, não importa quais textos bíblicos tenha que distorcer. Um desses textos é João 10:10, em que Jesus diz que veio para que tivéssemos vida, e vida em abundância. A “pregação moderna” engloba no quesito “vida abundante” tudo quanto seja sinal externo de prosperidade. Assim, tem vida abundante quem tem posses, riquezas, ou seja, onde cair morto, para aproveitar o curioso contraste com o ditado popular. Entretanto, uma análise mais acurada das palavras de Jesus mostra que ele não estava se referindo às coisas materiais quando falava de “vida”, mas da vida espiritual que os humanos, mortos em seus pecados, jamais teriam se não se convertessem a Ele. Dentro do contexto do evangelho de João, fica claro que é a esta ressurreição espiritual que Jesus se refere, como vemos em João 5:24 – “Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entra em juízo, mas já passou da morte para a vida”. “Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior correrão rios de água viva” (João 7:38). “Pois, assim como o Pai levanta os mortos e lhes dá vida, assim também o Filho dá vida a quem ele quer” (João 5:21). “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem; eu lhes dou a vida eterna, e jamais perecerão; e ninguém as arrebatará da minha mão” (João 10:28-29).

Não por acaso, a palavra “vida” aparece 40 vezes só no evangelho de João, e nunca com o sentido de posse de bens materiais, ou como uma promessa de prosperidade a quem crê em Jesus. Vida, para João, está associada à crença em Jesus e à salvação espiritual que daí advém, conforme ele próprio finaliza o seu evangelho (20:31): “Jesus, na verdade, operou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão escritos neste livro; estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” Só nos resta esperar e orar para que os pastores simplesmente preguem a Palavra tal como nos foi revelada, e parem de adicionar “revelações” e “interpretações” particulares que nada acrescentam; apenas demonstram que o líder é só mais um no meio da massa ignara que quer utilizar a Bíblia para fins escusos.

“Vida abundante”, portanto, na acepção bíblica da expressão, significa o gozo, a alegria do crente que estava morto em seus pecados, e pela graça de Deus, rendeu-se a Cristo certo de que o sacrifício dEle em seu lugar é poderoso e bastante para salvá-lo. Aí ele tem entrada na vida abundante, não importa em que situação esteja ou venha a estar. Todo o resto é secundário. Há vida abundante para o rico e para o pobre. Há vida abundante na alegria, nas posses, mas também na pobreza, na dor e no sofrimento. Paulo foi preso, apedrejado e apanhou muitas vezes, passou fome, frio e nudez (2 Coríntios 11:23-27) e ninguém tem coragem de dizer que a sua vida não era abundante. Como ele próprio disse: “Sei passar falta, e sei também ter abundância; em toda maneira e em todas as coisas estou experimentado, tanto em ter fartura, como em passar fome; tanto em ter abundância, como em padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Filipenses 4:12-13). Até este último versículo é acintosamente subtraído do contexto para justificar as pregações megalomaníacas de quem vê apenas dinheiro na sua frente.

Prefiramos, então, a verdadeira vida abundante. Como diz o antigo corinho, “com Cristo no barco, tudo vai muito bem...”. Pode vir qualquer tempestade, que tudo seguirá muito bem. Vida abundante se resume em estar com Cristo em todos os momentos da vida, bons ou difíceis, com a certeza de que este é só o começo de toda uma eternidade com Ele, porque Ele nos amou primeiro (1 João 4:19) e nos resgatou com Seu sangue, tirando-nos da morte para a vida. Vida abundante é a nossa entrega incondicional a Deus, mediante Jesus Cristo, nosso Salvador. Como Jeremias já profetizava no Velho Testamento: “Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em entender, e em me conhecer, que eu sou o Senhor, que faço benevolência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor. (Jeremias 9:23-24)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Preconceito ou Posição?

O preconceito religioso existe de todas as partes, mas é preciso diferenciá-lo de um simples posicionamento, ainda que dogmático, a respeito das crenças de uma determinada religião, ou mesmo da descrença na ausência dela. 

Muitas vezes os crentes são criticados por pregar contra o preconceito, mas vivê-lo na prática.

Todos nós temos o nosso sistema de crenças, independentemente de sermos religiosos ou não, crentes ou descrentes. 

E isto varia de povo para povo, de cultura para cultura, e, de etnia para etnia. 

Para mim, preconceito é uma atitude mecânica, automática, de excluir o outro de antemão. 

Alguém é preconceituoso quando se nega a interagir com o outro em qualquer nível, apenas porque ele tem uma etnia, crença, cultura, idioma, origem social, etc., diferente da sua. 

"Pregar" contra o preconceito não tem nada a ver com crença ou descrença. 

Eu, como cristão, posso muito bem me unir a um ateu para pregar contra o preconceito racial, por exemplo. 

De fato, há muitos religiosos que excluem de antemão pessoas de outras religiões, ou que não creiam em nada, assim como há muitos ateus que excluem religiosos sem nem pensar no assunto. 

O fato deles agirem assim não deve ser generalizado, nem se pode confundir as diferenças doutrinárias entre grupos que dizem seguir uma mesma base religiosa, por exemplo. 

O fato de eu ser enquadrado como protestante não pode nem deve me impedir de conversar com um ateu, um católico ou o espírita. 

O fato de eu crer em alguns dogmas da minha religião, não me impede de debatê-los respeitosamente com quem quer que seja, e esta minha crença neste determinado dogma não se confunde com "preconceito", porque não excluo ninguém da possibilidade de discuti-lo. 

Apenas o tenho por certo devido à minha experiência de vida, que me permitiu pensar e repensar sobre ele durante muito tempo, e, embora não creia que alguém venha a mudá-lo um dia, não tenho medo de expô-lo a um debate crítico sério que me permita, inclusive, aprender muito mais sobre ele quando o submeto à avaliação de alguém que pensa diferente.

A mesma coisa vale para TODAS as nossas relações sociais. 

Se, por um desses acasos do destino, eu tenho que interagir com um muçulmano polígamo, ainda que a minha cultura (e a lei do meu país) diga que a monogamia é o relacionamento conjugal aceitável, eu tenho toda a liberdade de interagir com um polígamo, por entender que na cultura, na legislação e na religião dele, esse comportamento é admissível. 

Aí não se trata de preconceito, mas de uma questão cultural. 

Da mesma maneira, eu não posso excluir alguém porque gosta de um estilo musical que eu abomino, que é típico da sua cultura e da sua região. Aí também não se trata de preconceito, mas de gosto musical. 

E o que dizer de quem come cachorro, escorpião, barata, gafanhoto, etc., como acontece na China? Vou desistir de ir lá só porque eles tem um paladar diferente do meu? 

Posso até sentir asco quanto à comida, mas de maneira alguma eu vou deixar de interagir com os chineses por causa disso. 

E falando de China ainda, eu acho que é um país que tem um governo autoritário e ditatorial, e que oprime o Tibete. 

Sei, entretanto, que há uma série de fatores que fazem com que esta situação perdure até hoje, mas não tenho preconceito contra o governo chinês. O que eu tenho é uma oposição política.

Quanto a "julgar", todos nós julgamos todos os dias, em todos os instantes da vida.

Estamos sempre avaliando o que é melhor para nós, para nossa família, nossos amigos, nossa cidade, nosso país, nossa cultura. 

O problema acontece quando nós condenamos imediatamente, sem dar ao outro a oportunidade de interagir conosco e, se for o caso, defender o seu ponto de vista. 

Portanto, todos nós, crentes e ateus, temos o direito de pregar contra o preconceito, porque diferença de opinião não deve ser confundida com preconceito, é apenas uma questão de posicionamento.

sábado, 27 de setembro de 2008

O cristão imperfeito, segundo Calvino

5. A VIDA CRISTÃ NÃO IMPLICA PERFEIÇÃO, INATINGÍVEL NA PRESENTE CONDIÇÃO HUMANA, PORÉM RECLAMA ESFORÇO, DILIGENTE E CONTÍNUO, DE BUSCÁ-LA, DIA APÓS DIA, SEM DESFALECIMENTO

Não exijo que o viver do homem cristão nada exale senão o evangelho absoluto, o qual, no entanto, não se deve exatamente só almejar, mas também necessário se faz intentar. Contudo, não exijo perfeição evangélica em moldes tão estritos que não se possa reconhecer como cristão aquele que não a haja ainda atingido plenamente. Se esse fosse o caso, seriam todos excluídos da Igreja, uma vez que ninguém se acha que não esteja tão afastado dela por mais que haja adiantado, e contudo não há razão para que sejam rejeitados.

Então, o que fazer? Esteja fixado diante dos olhos este alvo, rumo ao qual se dirijam todas as nossas ações e rumo a ele lutemos e nos esforcemos até chegarmos. Pois não é lícito tentar partilhar com Deus dessas coisas que estão prescritas em sua Palavra, acatando parte delas, e de teu arbítrio desconsiderando outra parte. Ora, por toda parte ele recomenda, em primeiro lugar, a integridade como a parte capital de sua adoração [Gn 17.1; Sl 41.12], termo que significa a sincera candidez de espírito que careça de dolo e fingimento, à qual se contrapõe o coração dobre, como se estivesse dizendo que o princípio do bem viver é espiritual, quando o afeto interior do espírito se devota a Deus, sem fingimento, para cultivar-se a santidade e a justiça. Mas, uma vez que não sobeja a ninguém tanta força, neste cárcere terreno do corpo, que se possa avançar com a justa celeridade da corrida, ao contrário tão grande fraqueza oprime a grande maioria que, vacilando e claudicando, até mesmo rastejando no solo à frente se movem com dificuldade, avancemos, cada um segundo a medida de sua reduzida capacidade, e prossigamos a jornada iniciada. Ninguém vagueará tão desafortunadamente que não avance cada dia ao menos um pouco de caminho.

Portanto, não cessemos de progredir no caminho do Senhor, avançando incessantemente, não nos desesperando ante a insignificância de êxito alcançado. Ora, por mais que o êxito não corresponda ao desejo, contudo, o labor não foi perdido quando o dia de hoje supera o de ontem, contanto que, com sincera candidez, olhemos firmemente para nosso alvo e aspiremos alcançar nossa meta, não nos lisonjeando com adulação, nem condescendendo a nossas más disposições; ao contrário, em esforço contínuo proponhamo-nos a ser cada dia melhores até que alcancemos a perfeita bondade que devemos buscar toda nossa vida. Conquistaremos essa perfeição quando, despojados da debilidade de nossa carne, sejamos plenamente admitidos na companhia de Deus.

(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 3, pp. 159-160)

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