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sábado, 22 de abril de 2017

Sobre falar, engasgar e soltar pum


Alegre o seu feriadão com a leitura divertidíssima da crônica de Luis Fernando Verissimo, publicada no Estadão em 06/04/17:

Em comum

Uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais, sendo a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum

O homem é o único animal que fala pela mesma razão que é o único animal que se engasga. Algo a ver com a localização da laringe. Ou é da faringe? Enfim, algo no homem lhe dá o dom da expressão verbal que nenhum bicho tem, mas os bichos, em compensação, nunca se veem na situação embaraçosa de dizer o que não deviam ou se engasgar na mesa.

O fato também sugere uma questão: foi a necessidade que o homem — ou, mais provavelmente, a mulher — sentiu de falar que determinou a eventual localização privilegiada da laringe, ou foi o acaso da laringe humana evoluir como evoluiu que determinou a fala?

O ser humano desenvolveu a fala por um acidente anatômico e assim virou gente ou a linguagem foi uma etapa lógica da sua evolução, porque para ser gente só faltava falar?

O próprio Darwin chegou a especular que a fala começou com a pantomima, com os órgãos vocais inconscientemente tentando imitar os gestos das mãos.

A linguagem oral teria se desenvolvido porque, antes da invenção do fogo, a linguagem gestual não era vista no escuro e as pessoas, ou as pré-pessoas, não podiam se comunicar. A linguagem é filha da noite!

Teorias estranhas sobre a origem da linguagem não faltam.

No século XVII um filólogo sueco afirmou com certeza que no Jardim do Éden Deus falava sueco, Adão falava dinamarquês, e a serpente falava francês (Sempre a má vontade com os franceses).

Na sua infância — a palavra “infância”, por sinal, vem do latim “incapacidade de falar” — a humanidade não produzia palavras mas certamente produzia sons, e uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais para identificá-los e que esta foi a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum.

Foi chamada de “teoria bow-wow”, e o nome já a desmentia, pois “bow-wow” é como latem os cachorros anglo-saxões, enquanto os luso-brasileiros fazem “au-au” e os japoneses, segundo os japoneses, “bau-bau”.

A única linguagem comum a toda a humanidade é a dos ruídos involuntários do nosso corpo.

Toda a espécie humana espirra e tosse da mesma maneira, não há como variar a pronúncia de um arroto e nada simboliza melhor a nossa igualdade intrínseca do que o pum, que todos dão da mesma maneira, não importa o que digam do pum alemão.

Eis uma receita para o entendimento, inclusive entre os grupos e facções em choque no Brasil de hoje, esquerda x direita, políticos x Lava-Jato etc. Todos os confrontos entre partes litigantes deveriam começar com um coro de ruídos elementares, para enfatizar nossa humanidade em comum.



domingo, 19 de fevereiro de 2017

A Bíblia na língua dos esquimós


A informação é da Gaudium Press:

Bíblia é traduzida para o idioma dos esquimós

Toronto - Canadá (Sexta-feira, 17-02-2017, Gaudium Press) A Bíblia foi o primeiro livro impresso no mundo e já foi traduzida para inúmeros idiomas. Agora foi divulgada uma nova tradução das Sagradas Escrituras para o idioma 'inuíte', a língua dos esquimós, um dos poucos idiomas que não possuía uma versão do livro sagrado.

Recentemente estudiosos e biblistas do Alasca, Nunavut e da Groenlândia se reuniram em Toronto, Canadá, para o primeiro congresso sobre a tradução da Bíblia para este idioma, que é usado pelos habitantes do Ártico além de aproximadamente 30 mil esquimós que vivem no Canadá, no Alasca e na Groenlândia.

A tradução demandou um trabalho de 30 anos. Em 2012 a Bíblia havia sido traduzida para um dialeto do 'inuíte', o 'inuktitut'. "Traduzir os textos sagrados em vários dialetos locais ajuda a conservá-los e transmiti-los às futuras gerações", afirmou Rejean Lussier, um dos estudiosos que participaram do projeto.

De acordo com os responsáveis pelo projeto, nenhum livro contribuiu tanto para a alfabetização e a conservação da língua tradicional da população do Ártico como a Bíblia. (EPC)



segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Discurso de ódio apertou gatilho da chacina de Campinas


Estamos vivendo tempos perigosíssimos.

A chacina da noite de Ano Novo, ocorrida em Campinas (SP), que vitimou treze pessoas, ainda terá capítulos que se desdobrarão para tentar explicá-la.

As investigações certamente envolverão questionamentos de insanidade mental, abuso sexual e alienação parental.

Entretanto, a julgar pela carta que o assassino deixou, há claros sinais de como o extremismo político-ideológico influenciou uma mente já perturbada e a levou a perpetrar o absurdo ato.

O discurso de ódio que é divulgado fartamente na imprensa e nas redes sociais (sobretudo nas cartas do leitor e caixas de comentários), por gente aparentemente "normal", seus amigos, parentes, irmãos da igreja, não é muito diferente da carta-testamento da infâmia que o atirador deixou.

Todo cuidado é pouco quando se está lidando com extremistas e fanáticos em geral.

Faça sua parte: melhor contar até 10 antes de compartilhar esse tipo de lixo tóxico.

A matéria é do Estadão:

Autor de chacina em Campinas escreveu carta sobre seu plano; veja trechos

Homem que matou a ex-mulher, o filho e mais dez pessoas em festa de réveillon enviou texto a amigos dizendo: "vou levar o máximo de pessoas daquela família comigo"

CAMPINAS - O técnico de laboratório Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, deixou cartas e áudios gravados tentando justificar por que matou a ex-mulher, o filho e mais dez pessoas na noite de Réveillon. No material, obtido com exclusividade pelo Estado, ele afirma que as acusações de que teria abusado do menino são mentira, diz que foi vítima de uma injustiça e de uma “sacanagem” e que não conseguia mais “suportar tudo isso.”

Para se referir à ex-mulher, Isamara Filier, à mãe dela e a outras mulheres da família dela, ele só usa uma palavra, o tempo todo: “vadia”. E revela os planos de matá-las. “Quanto mais ela distanciar ele de mim, mais ódio eu fico dela e menos peso na minha consciência eu vou ter”, diz em um dos áudios, endereçado “aos policiais”, modificado pela última vez no dia 30.

Logo no começo deste arquivo, ele pede desculpas. “Quero pedir desculpa até mesmo para a polícia, para o resgate. Vou gerar muito transtorno para vocês.” O plano original, pelo que diz nos arquivos, era cometer o crime no Natal. “Eu tentei pegar a vadia no almoço do Natal e dia da minha visita, assim pegaria o máximo de vadias da família, mas como não tenho prática não consegui.”

A princípio, parecia que não tinha a intenção de também matar o filho, já que ele direciona cartas a ele e também fala diretamente com o menino nos áudios. Mas em um dado momento, no final da gravação “aos policiais”, parece ter outra ideia, ao se comparar a Deus. “Filho, papai te ama muito. Julguem o que quiser julgar, cada um tem seu jeito de amar. Deus não crucificou o filho dele por amor aos outros filhos, como fala na Bíblia? Eu não vou deixar você sofrer na mão dessa vadia mais não, filho”, diz.

Antes, alega inocência e acusa Isamara e a mãe dela, já morta, de mentirosas. Diz que quer ir para o inferno para “buscar essa velha maldita”, em relação à ex-sogra. “Até peço para meus amigos... eles sabem que eu não acredito mais em Deus porque Deus sabe da verdade. Existem quatro seres que sabem da verdade. Deus, o diabo, a vadia e a mãe dela. Elas sabem que eu nunca fiz mal para o João Victor. Se me garantir que eu vou para o inferno me enterrar de ponta-cabeça, eu peço para me enterrarem de ponta-cabeça.”

Veja abaixo alguns trechos de duas cartas. Foram excluídas citações que ele faz de outras pessoas e acusações sem comprovação. Foram deixadas apenas as partes em que ele relata seu plano de matar a família e comentários políticos. Também foi mantida a sua própria grafia.
"Não tenho medo de morrer ou ficar preso, na verdade já estou preso na angustia da injustiça, além do que eu preso, vou ter 3 alimentações completas, banho de sol, salário, não precisarei acordar cedo pra ir trabalhar, vou ter representantes dos direito humanos puxando meu saco, tbm não vou perder 5 meses do meu salário em impostos.

Morto tbm já estou, pq não posso ficar contigo, ver vc crescer, desfrutar a vida contigo por causa de um sistema feminista e umas loucas. Filho tenha certeza que não será só nos dois quem vamos nos foder, vou levar o máximo de pessoas daquela família comigo, pra isso não acontecer mais com outro trabalhador honesto. Agora vão me chamar de louco, más quem é louco? Eu quem quero justiça ou ela que queria o filho só pra ela? Que ela fizesse inseminação artificial ou fosse trepar com um bandido que não gosta de filho.

No Brasil, crianças adquirem microcefalia e morrem por corrupção, homens babacas morrem e matam por futebol, policiais e bombeiros morrem dignamente pela profissão, jovens do bem (dois sexos) morrem por celulares, tênis, selfies e por ídolos, jornalistas morrem pelo amor à profissão, muitas pessoas pobres morrem no chão de hospitais para manter políticos na riqueza e poder!

Eu morro por justiça, dignidade, honra e pelo meu direito de ser pai! Na verdade somos todos loucos, depende da necessidade dela aflorar! A vadia foi ardilosa e inspirou outras vadias a fazer o mesmo com os filhos, agora os pais quem irão se inspirar e acabar com as famílias das vadias. As mulheres sim tem medo de morrer com pouca idade.

Aproveitando, peço aos amigos que sabem da minha descrença, que não rezem e por mim, se fazerem orações façam por meu filho ele sim irá precisar! Quero ser enterrado com a cabeça para baixo se garante que assim posso ir pro inferno buscar a velha vadia (que era até ministra de comunhão na igreja) que morreu antes da hora. Demorei pra matar ela pq me apaixonei por um anjo lindo!

(...)

Ela não merece ser chamada de mãe, más infelizmente muitas vadias fazem de tudo que é errado para distanciar os filhos dos pais e elas conseguem, pois as leis deste paizeco são para os bandidos e bandidas. A justiça brasileira é igual ao lewandowski, (um marginal que limpou a bunda com a constituição no dia que tirou outra vadia do poder) um lixo!

Se os presidentes do país são bandidos, quem será por nós?

Filho, não sou machista e não tenho raiva das mulheres (essas de boa índole, eu amo de coração, tanto é que me apaixonei por uma mulher maravilhosa, a Kátia) tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha!

Não posso dizer que todas as mulheres são vadias! Más todas as mulheres sabem do que as vadias são capazes de fazer!

Filho te amo muito e agora vou vingar o mal que ela nos fez! Principalmente a vc! Sei o qto ela te fez chorar em não deixar vc ficar comigo qdo eu ia te visitar. Saiba que sempre te amarei! Toda mulher tem medo de morrer nova, ela irá por minhas mãos!"

"(...) eu ia matar as vadias (eu já tinha a arma e raspei a numeração pra não prejudicar quem me vendeu, ela precisava de dinheiro). Família de policial morto não recebe tantos benefícios com a família de presos. Cadê os ordinários dos direitos humanos? Estão sendo presos por ajudar bandidos né? Paizeco de bosta.

Sei que me achava um frouxo em não dar uns tapas na cara dela, más eu não podia te dizer as minhas pretensões em acabar com ela! Tinha que ser no momento certo. Quero pegar o máximo de vadias da família juntas.

A injustiça campineira me condenou por algo que não fiz! Espero que eles sejam punidos de alguma forma. Chega!! Ela tem que pagar pelo que fez."




segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Uma budista tenta acalmar Bolsonaro

A matéria foi publicada no Estadão de 20/11/16:

Media training ensina Bolsonaro a 'olhar para si'

Olga Curado agora dá aulas a deputado do PSC, políticos e empresários implicados na Lava Jato

Gilberto Amendola

Entre os políticos que já fora ajudados por Olga Curado estão nomes como o de Lula, Dilma e Aécio

Ensinar o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) a se ouvir, a compreender que tudo aquilo que ele diz pode ter consequências na vida de outras pessoas; ensiná-lo a olhar para dentro de si e a encontrar um ponto de equilíbrio – tudo isso, claro, usando técnicas do Aikidô, arte marcial que prega os princípios da não violência.

Parece uma missão impossível, mas esse já foi um dos trabalhos da especialista em media training, jornalista, poeta e budista Olga Curado. Sim, Bolsonaro foi um dos políticos nacionalmente conhecidos que, ao longo dos últimos 16 anos, procurou melhorar a própria comunicação tendo se socorrido dos serviços de Olga (o ex-presidente Lula, a ex-presidente Dilma Rousseff e o senador Aécio Neves também já foram ajudados por ela).

A ética profissional não permitiu que Olga contasse detalhes das sessões com o deputado linha dura. O que não impediu que a reportagem imaginasse o excelentíssimo se atirando e rolando no tapete macio do escritório da especialista – eventualmente utilizado para dinâmicas físicas. “É importante ensinar a cair para que a pessoa aprenda a se levantar. Proponho exercícios de equilíbrio físico. A pessoa tem que cair para perceber o seu ponto de equilíbrio. Cair no chão, rolar e perceber como é rígida. No filme O Discurso do Rei, o coach usa técnicas parecidas com essa para melhorar a comunicação do rei gago”, diz Olga.

A reportagem procurou Bolsonaro para que o próprio comentasse as aulas, mas o pedido parou na assessoria do deputado que, automaticamente e sem ouvi-lo, avisou que ele não falaria sobre o assunto.

Ainda sobre Bolsonaro, Olga comenta que ele é um personagem curioso – com crenças que ela não discute. “Ele tem o público dele. O importante é que políticos como Bolsonaro tenham a medida clara do que falam. Às vezes, políticos falam sem a noção das consequências. Falam e se surpreendem com o efeito nocivo do ódio. Se surpreendem com a interpretação que fazem do que eles dizem. É preciso cuidado com a força bruta da inconsciência”, diz.

‘Água no pescoço’. Sem revelar especificidades de seus clientes, Olga conta como muitos dos políticos chegam em seu escritório. “Normalmente me procuram quando a água já está batendo no pescoço”, fala. Não à toa, citados na Operação Lava Jato (políticos e empresários) estão entre os seus clientes mais recentes. “Claro, o meu trabalho acontece antes do caso chegar em Curitiba”, avisa. “Mas eu preparo, por exemplo, quem vai dar algum depoimento em CPI ou explicações públicas. Tento passar técnicas para que eles tenham autocontrole mesmo diante das perguntas mais duras. Até para dizer que não vai responder é preciso algum preparo”, lembra.

Mas existiria alguma dica básica que poderia ser aplicada para a maioria dos políticos em maus lençóis? “Não adianta querer ser simpático, seduzir os interlocutores ou fingir ser íntimo demais. Não precisa cometer suicido público, mas não se deve enrolar. Não ajudo políticos a se esconderem. Eles precisam assumir responsabilidades por aquilo que pensam ou querem. Não ensino a mentir. Não faço teatro”, afirma Olga.

Para ela, o que faz muitos homens públicos apresentarem problemas de comunicação é a falta de clareza em seus propósitos. “Quando pergunto por que determinado político quer ser prefeito ou governador, ele me diz que é pra ‘melhorar a vida das pessoas’. Ok, tudo bem. Isso é mais ou menos verdade porque muitos não têm uma agenda concreta. A qualidade da comunicação tem a ver com coerência. Não adianta exercício de retórica. Ou o político explica como ele pretende ajudar as pessoas ou o eleitor percebe. O eleitor tem uma sensação quando o que se diz é verdadeiro ou apenas um exercício artístico, uma elaboração artificial”, diz.

Segundo Olga, a nossa “cultura do líder” faz com que muitos tenham vergonha de dizer coisas como ‘não sei’. “O mais fácil é a gente ouvir: ‘isso eu não sei, mas na minha opinião...’ Essa é a síndrome da opinião sobre assuntos que as pessoas não sabem. Políticos sofrem disso e, por isso, sofrem com a exposição pública”, conta. “Tento confrontá-los para que não assumam os dois personagens mais manjados do comportamento político: o da vítima ou o do super-herói. Nenhum funciona. Quando se escondem atrás desses personagens, só falam para convertidos. Portanto, não ganham eleições majoritárias.”

Além das questões conceituais, a especialista trata de problemas bastante concretos, como o de ensinar como um político deve respirar, como olhar para as pessoas, segurar um olhar sem constrangimento, como não parecer arrogante, usar as mãos de uma maneira correta, manter a postura e ter a consciência do próprio corpo. “Muitos tomam um susto quando se olham. Dizem: ‘ eu não sabia que era assim. Trata-se de um processo de educação não verbal”, afirma.

Questionada sobre políticos que teriam o domínio da arte da comunicação, Olga cita dois que não foram seus alunos: “Tem um que é bastante óbvio: o Obama. Ele sabe criar um ambiente empático, sabe dar a atenção devida aos seus interlocutores, tem clareza e etc.”.

Cunha. O outro é um pouco mais surpreendente. “Eduardo Cunha. Ele não precisa de aula. Acho que já nasceu sabendo. Não é um julgamento de conteúdo, mas de forma. Ele tem a fala clara e sabe o que quer quando está se expressando. Na votação do impeachment, ele ouvia os maiores xingamentos contra ele e apenas repetia: ‘Excelência, por favor, o seu voto’”.



domingo, 20 de novembro de 2016

A arte de mentir em tempos de pós-verdade

Eleitores de Trump e o próprio em êxtase.
Quanto desta cena é verdade?
Ou pós-verdade...

Sim, é isto mesmo o que você leu no título, a mentira virou uma forma de "arte" nesses tempos em que a verdade não basta mais por si só, ela precisa de um "plus".

Qualquer semelhança com o discurso político único supostamente "ético" que ouvimos diariamente no Brasil não é mera coincidência.

Leia o artigo abaixo, publicado no The Economist, traduzido e reproduzido no Estadão, que você vai entender o porquê:

Arte da mentira

Na política, a verdade já não é mais é falseada ou contestada; tornou-se secundária no debate público

Os políticos sempre mentiram. Faz alguma diferença se resolverem deixar a verdade totalmente de lado?

A essa altura deve estar claro que Donald Trump habita um mundo onde os fatos são, quando muito, imigrantes indesejáveis. Nesse mundo de fantasia, Barack Obama usa uma certidão de nascimento falsa e é o fundador do Estado Islâmico (EI), os Clinton são assassinos e o pai de um dos adversários do magnata nas primárias esteve com Lee Harvey Oswald quando este distribuía panfletos pró-Cuba.

Trump é o principal expoente da política “pós-verdade”, um estilo de atuação na esfera pública que se distingue pelo uso frequente de afirmações aparentemente verdadeiras, mas sem qualquer respaldo na realidade. O descaramento do bilionário não é penalizado, sendo antes tomado como prova de que o eleitor está diante de alguém que não abaixa a cabeça para as elites no poder.

E Trump não é o único. Na Grã-Bretanha, um dos argumentos utilizados pela campanha que venceu o referendo de junho foi o de que, se não aprovassem a saída da União Europeia (UE), os britânicos seriam invadidos por uma horda de imigrantes, já que a Turquia estaria prestes a ingressar no bloco.

Se, como The Economist, o leitor acredita que a política deve se basear em fatos, isso é preocupante. As democracias mais sólidas dispõem de mecanismos de defesa para se proteger da pós-verdade. Países autoritários são vulneráveis.

Mas a pós-verdade é mais que uma simples invenção de elites que ficaram a ver navios. A expressão põe em evidência o cerne do que há de novo na política: a verdade já não é falseada ou contestada; tornou-se secundária. No passado, o objetivo das mentiras políticas era criar uma visão enganosa do mundo. As mentiras de homens como Trump não funcionam assim. Seu intuito não é convencer, e sim reforçar preconceitos.

São os sentimentos, não os fatos, que importam nesse tipo de discurso. A incredulidade dos adversários legitima a mentalidade “nós-contra-eles” que os candidatos anti-establishment exploram com sucesso. E se os oponentes tentam mostrar que as palavras não correspondem à realidade, veem-se obrigados a lutar no campo de batalha escolhido pelos líderes pós-verdade. Quanto mais os defensores da permanência da Grã-Bretanha na UE se esforçavam para mostrar que os partidários do Brexit usavam cálculos superestimados ao determinar os valores gastos pelo país por fazer parte do bloco europeu, por mais tempo mantinham a magnitude desses gastos sob os holofotes.

A política pós-verdade tem muitos pais. Alguns são dignos de louvor. Submeter as instituições e as autoridades a questionamentos é uma virtude democrática. Assumir uma atitude cética e desafiadora diante dos líderes é o primeiro passo para reformar uma sociedade. O colapso do comunismo foi acelerado graças a pessoas corajosas para contestar a propaganda oficial.

Acontece que há também forças corrosivas em ação. Muitos eleitores sentem que foram enganados e deixados para trás, ao passo que as elites continuam a viver no bem-bom. Detestam os tecnocratas que diziam que o euro contribuiria para melhorar suas vidas . Nas democracias ocidentais, as pessoas já não confiam como antes nos especialistas e nas instituições.

Mídia. A evolução da mídia também ofereceu terreno fértil para que a pós-verdade florescesse. A fragmentação das fontes noticiosas criou um mundo atomizado, em que mentiras, rumores e fofocas se espalham com velocidade alarmante. Mentiras compartilhadas online, em redes cujos membros confiam mais uns nos outros do que em qualquer órgão tradicional de imprensa, rapidamente ganham aparência de verdade. Confrontadas com evidências que contradizem crenças que lhes são particularmente caras, as pessoas preferem fechar os olhos para a realidade. Práticas jornalísticas bem-intencionadas também têm culpa no cartório. A busca da “imparcialidade” na veiculação de notícias com frequência cria um falso equilíbrio, às custas da verdade. Os cientistas da Nasa dizem que Marte provavelmente é desabitado; o professor Zureta diz que pululam alienígenas no planeta. Opinião por opinião, cada qual que escolha a sua.

Quando a política começa a ficar parecida com um ringue de luta-livre, a sociedade arca com os custos. Ao insistir em dizer - para perplexidade de alguns dos conservadores mais empedernidos - que Obama fundou o EI, Trump impede a realização de um debate sério sobre como lidar com extremistas violentos. Governar é complicado; aos olhos da política pós-verdade, porém, a complexidade é só um truque ilusionista que os especialistas usam para levar todo mundo no bico.É tentador pensar que, quando ideias vendidas sem amparo na realidade começarem a soçobrar, os eleitores abrirão os olhos e perceberão que se deixaram levar por líderes que não se dão o trabalho nem de disfarçar as mentiras. A pior parte da pós-verdade, porém, é que não se deve contar com esse movimento de autocorreção. Quando as mentiras tornam o sistema político disfuncional, é possível que os resultados negativos acabem por realimentar a mesma alienação e o mesmo descrédito nas instituições que estão na própria origem da política pós-verdade.

Políticos “pró-verdade”, às armas. Para enfrentar essa situação, os políticos comprometidos com os fatos e com a democracia precisam partir para o contra-ataque e incorporar uma linguagem mais aguerrida . Assumir uma posição de humildade e reconhecer os equívocos a que foram levados pela arrogância e pelo excesso de confiança também ajudaria. A verdade conta com forças poderosas a seu lado.

As democracias também têm instituições que podem ajudar. Sistemas judiciários independentes dispõem de mecanismos para estabelecer a verdade. O mesmo se aplica a órgãos criados para orientar a implementação de políticas públicas - em especial os que têm laços com a comunidade científica.

Se Trump for derrotado em novembro, a política pós-verdade parecerá menos ameaçadora, muito embora o bilionário tenha feito sucesso demais nos últimos meses para que ela suma do mapa de uma hora para a outra. Bem mais preocupante é a situação de países como Rússia e Turquia, onde autocratas recorrem à pós-verdade para silenciar os adversários. Deixadas à deriva num oceano de mentiras, as pessoas não terão em que se agarrar. Embaladas pela novidade da política pós-verdade, correm o risco de se ver nas mãos da opressão à moda antiga. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER



Erasmo Carlos cantando "Pega na Mentira" em 1981. Premonitório?




domingo, 18 de setembro de 2016

"Gringo é a mãe!"


É o que diz o artigo abaixo, do ótimo repórter e correspondente da BBC no Brasil, Tim Vickery*, publicado - não por acaso - na BBC Brasil:

Tim Vickery: Está na hora de os brasileiros deixarem de usar a palavra 'gringo'

O jornalista sacudiu a cabeça num gesto de decepção. Belga de raízes indianas, ele estava no Rio, uma cidade onde já tinha morado, para cobrir os Jogos Olímpicos. "A imprensa aqui", ele me contou, "ainda usa a palavra 'gringo'."

"Pois é," respondi. "Isso foi parar na capa de uma revista importante. Na capa! Parece que nem sediando os megaeventos a ficha caiu."

Lembro-me de uma gravação que tocava no metrô do Rio durante a Copa do Mundo de 2014, nas estações de Copacabana. "Levanta a torcida brasileira!", gritava o infeliz, "levanta a torcida gringa!" Bem, se só havia dois lados na disputa, então o desempenho da seleção brasileira, que terminou em quarto, foi pior do que eu pensava.

Antigamente, eu achava que o jornalista que fazia uso da palavra "gringo" deveria ser banido da profissão. Hoje em dia, sob o efeito de cordialidade tropical, já pensei numa punição mais branda: o sujeito deveria ser condenado a assistir à cerimonia de abertura dos Jogos Olímpicos, repetindo e sem parar - mas somente aquela parte interminável quando os atletas do mundo todo desfilam no estádio.

A gravação só pararia quando ele finalmente deixasse de ser o idiota da aldeia e descobrisse que a humanidade é feita de diversidade, de mais de 200 nações, e que a realidade é muito mais complexa e gostosa do que uma simples divisão entre brasileiros e "não brasileiros".

Estou ciente de que muitos estrangeiros no Brasil se referem a si mesmos como "gringos". Se o desespero de se enturmar é tão grande que eles estão dispostos a abrir mão de uma identidade mais completa, só posso sentir pena.

Também estou ciente de que, na grande maioria das vezes, a palavra é empregada sem intenções pejorativas. Não adianta. Tem coisas que você pode lavar quantas vezes quiser, mas não vão ficar novas.

Um par de anos atrás eu fiz um programa de televisão com o grande jornalista Alberto Dines. Toquei nesse assunto - defendendo que a imprensa brasileira deveria parar de usar uma palavra que, além de não trazer informações específicas, estava manchada. Dines concordou e se ofereceu a escrever um artigo para um jornal que, infelizmente, não levou a proposta adiante.

A posição de Dines se baseava no conhecimento e na sua própria história. Filho de imigrantes, Dines me contou que a palavra "gringo" o fazia chorar quando criança. Fora dita contra ele num contexto xenófobo - porque, como tantas coisas no Brasil, a maneira como se usa a palavra tem suas raízes no fascismo da década de 30.

Um fascismo relativamente benigno, com um líder com cara de tio em vez de um demagogo agressivo gritando para as massas. Mas, ainda assim, um projeto de fascismo, que implicava um projeto de modernização conservador, uma tentativa de desenvolver o país sem mudar a estrutura social. Ou seja, um parque industrial avançado aliado a uma noção de hierarquia quase feudal. Embraer no país do elevador de serviço.

Como vender esse projeto de capitalismo sem conflito de classes? Como conseguir o pacto nacional necessário? Fácil. Evocar o inimigo externo - aqueles gringos, que só querem saber de explorar o Brasil!

É por isso que, mesmo saindo da boca mais suave, a palavra muitas vezes vem com um toque de hostilidade. O gozado aqui é que estamos falando de um país de imigração. Falar em "brasileiro" tem muito mas a ver com profissão do que com nacionalidade; trata-se de alguém que chegou aqui para explorar o pau-brasil. O que quer dizer que, com a exceção dos povos indígenas, gringos são sua mãe, sua avó, sua bisavó...

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick



domingo, 14 de agosto de 2016

Albert Camus, estrangeiro, estranhamento e fanatismo, por Leandro Karnal

Artigo de Leandro Karnal publicado no Estadão de 07/08/16:

Cordeiros de Deus

"Hoje, morreu mamãe. Ou talvez, ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames’. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.” Assim Albert Camus inicia O Estrangeiro, o curto romance símbolo de uma geração.

Nas primeiras linhas, define-se a indiferença da personagem Mersault, o protagonista que dizia “tanto faz” (ça m’est égal) para quase tudo. A frieza foi usada contra ele no julgamento. O conjunto The Cure citou o romance na música Killing an Arab. Mersault era um pied-noir, ou seja, um francês nascido na Argélia colonizada. Ele era estrangeiro porque habitava num país com cultura distinta da sua e era estranho porque se sentia diferente de todos. É a duplicidade em muitas línguas, das palavras estranho/estrangeiro; étranger, strange. Mersault era um francófono num país de maioria árabe. Os franceses de hoje temem virar minoria na própria França. Camus fala desse estranhamento diante de um mundo indiferente, povoado de seres sem paixões e que abandonaram as grandes explicações românticas e de redenção. Mersault perdeu a mãe física e perdeu o pai simbólico: a pátria. Porém, ele não é um misantropo de fato, pois a misantropia é uma forma de paixão por si ou pelo isolamento. Mersault é aquele que é obrigado a dizer coisas depois do Hamlet, ou seja, depois que o resto se torna silêncio. O franco-argelino vive além do horizonte sobre o qual o príncipe dinamarquês se calou. A indiferença não é mais uma opção, em 2016. O outro não está mais no litoral da Argélia, ele entra na sua pequena paróquia normanda e corta seu pescoço. Foi o caso trágico do padre Jacques Hamel, assassinado por dois jovens fundamentalistas. Testemunhas disseram que um fez uma espécie de sermão em árabe. Para quem eu prego, quando falo na língua que o outro não entende? Para mim mesmo, claro, porque somente admito meu monólogo. Talvez por isso, todo fanático fale muito alto e grite muito. A voz alta deve tentar calar todas as vozes e, acima de tudo, o imenso grito do contraditório.O mundo lida mal com a diferença. Formamos guetos há séculos. Criamos ônibus com lugares para brancos e negros nos EUA. Criamos legislação do apartheid na África do Sul. Dizemos aos diferentes que estejam com os diferentes e evitem contato com os outros.A política de gueto tem a sua eficácia. Afastando a convivência, impede o desafio da negociação. Trump promete erguer mais muros na fronteira com o México, como se os latinos já não fossem parte expressiva da população dos EUA e ainda fosse possível negar a diferença. Trump encarna esse medo ancestral da diferença. Mersault não entendia o que o árabe falava durante o crime. The Cure cantou: “Can see his open mouth but I hear no sound” (posso ver sua boca aberta, mas não ouço nada). Os reféns da igreja da Normandia não entenderam o que os fundamentalistas gritavam. Mersault/estrangeiro é uma tragédia ficcional. O fundamentalismo é uma tragédia real e ocorre em muitos campos religiosos e políticos. O discurso fundamentalista ocupa um pouco do niilismo da modernidade, demarcando fronteiras absolutas onde a liquidez deixou muita gente perdida. Não creio que seja possível uma comunicação com militantes do Estado Islâmico. Fundamentalistas encaram o diálogo como fraqueza e não buscam uma forma de convívio. É sempre doloroso afirmar a morte do diálogo, mas o contrário é ingênuo, perigoso até. Eu sinto em relação aos fundamentalistas um pouco o que se atribui a Golda Meir, que, referindo-se à violência do conflito israelo-palestino, afirmava que poderia até perdoar os árabes pela morte de crianças israelenses, mas não poderia perdoá-los por ter sido obrigada a matar crianças árabes. Eu o culpo pelo que você me obrigou a ser. Será que o Ocidente teria de se tornar fundamentalista para vencer o fundamentalista? Nós já não seríamos fundamentalistas na nossa crença sobre os valores corretos? O bombardeio “por engano” de aldeias sírias relativizaria o crime na França? Crianças afogadas no mar, cartunistas assassinados, hospitais destruídos, meninas com rosto deformado por ácido: é longa a lista de vítimas. Há um diálogo de surdos: o padre Hamel é chamado de mártir pelos católicos e seus assassinos são mártires para o Estado Islâmico. Haveria dois Paraísos? Os militantes fundamentalistas vivem como virtude aquilo que rejeitamos como defeito. Tornam-se, inclusive, os bárbaros necessários à nossa catarse civilizacional. Justificam Bush II e alimentam Trump. Esvaziam nossa racionalidade e nos tornam assassinos também, como acusava Golda Meir.

A Civilização já foi muitas coisas. Hoje é um debate sobre a sobrevivência de valores como democracia e convivência com diferentes num mundo que ri deste debate de relativismo cultural. No meio de discussões e práticas de barbárie, a imagem das vítimas é um desafio, na Europa e na Síria. O sacrifício de cordeiros de Deus sempre foi uma metáfora fundante da fé. Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai-nos a paz.



terça-feira, 24 de novembro de 2015

Bilíngues se recuperam melhor de um AVC


É o que diz matéria da BBC Brasil:

Falar mais de uma língua pode evitar sequelas de AVC, sugere estudo

Falar mais de uma língua não traz apenas benefícios culturais. Segundo um estudo recente feito na Universidade de Edimburgo, na Escócia, ser bilíngue pode ajudar pacientes a se recuperarem melhor de um AVC (acidente vascular cerebral).

A pesquisa foi feita com 600 pessoas que foram vítimas de AVC – o resultado mostrou que 40,5% das que falavam mais de uma língua ficaram sem sequelas mentais; entre as que falavam apenas uma língua, só 19,6% ficaram sem sequelas.

Os pesquisadores acreditam que o estudo, que foi financiado pelo Conselho Indiano de Pesquisa Médica, sugere que o desafio mental de falar vários idiomas pode aumentar nossa reserva cognitiva – habilidade que o cérebro tem para lidar com influências prejudiciais, como AVC ou demência.

O estudo – divulgado na publicação científica American Heart Association - também levou em consideração idade dos pacientes, se eles eram fumantes ou não, se tinham pressão alta e se eram diabéticos.

Resultados

De acordo com os resultados da pesquisa, a habilidade bilíngue teria um papel "protetor" no desenvolvimento de qualquer disfunção cognitiva após um AVC.

É a primeira vez que se faz um estudo estabelecendo uma relação entre o número de línguas que um paciente fala e as consequências de um AVC para as funções cognitivas.

"A porcentagem de pacientes com funções cognitivas intactas depois de um AVC representava mais que o dobro em pessoas bilíngues em comparação com aquelas que só falam uma língua", diz a pesquisa.

"Em contraste, pacientes com disfunções cognitivas eram muito mais comuns entre os que só falavam uma língua."

Aprender outras línguas é algo que exige uma "ginástica" do cérebro, e vários estudos científicos já mostraram que falar muitos idiomas pode melhorar a atenção e a memória, formando uma "reserva cognitiva" que atrasa o desenvolvimento da demência, por exemplo.

"O bilinguismo faz com que as pessoas mudem de uma língua para outra, então quando eles inativam uma língua, eles precisam ativar a outra para poderem se comunicar", explicou Thomas Bak, um dos autores do estudo na Universidade de Edimburgo.

"Essa troca oferece um treinamento cerebral praticamente constante , o que pode ser um fator relevante para ajudar na recuperação de um paciente que teve um AVC", finalizou.



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Quando um garoto surdo africano aprende a língua de sinais


Prepare-se para se emocionar com o vídeo abaixo, que mostra a transformação na vida de Patrick, um adolescente ugandense de 15 anos, que nunca tinha conseguido se comunicar até aprender a linguagem dos sinais.

A mudança no brilho de seus olhos e na expressão facial é surpreendente, e seu exemplo é uma demonstração prática da importância da educação na vida de uma pessoa:




domingo, 19 de outubro de 2014

Essa incompreendida seita dos acadêmicos de Direito

Artigo interessante de Valter Camilo Junior para o Brasil Post:

Estudantes de Direito e o senso de superioridade

"Não pensei que o curso de Direito fosse mudar a sua personalidade", diz uma conhecida, num tom de lamento. Logo você, tão determinado, se deixou corromper. Mas existe uma frase de alívio, no final das contas: o Direito faz isso com as pessoas. Aquilo que não pode ser evitado não nos atormenta. Logo você... Isso significa que existe esperança.

Faz algum tempo que venho ruminando essa ideia de superioridade ostentada pelos estudantes de Direito. Não sei por onde começar, eu também sou um estudante  -  de Direito, para ser mais preciso, além de um tanto quanto redundante. Tento imaginar o que se passa na cabeça de alunos de outros cursos, como a Medicina, Filosofia, Engenharia e tantos quanto existem.

Em alguns casos é possível perceber que não se trata apenas de superioridade, mas de ignorância. "Ele está complicado demais", comentam os amigos e familiares. Complicado por que se sente superior, inalcançável. Essa é a palavra certa. Aquilo que não podemos tocar, sentir, entender  -  só Deus pode ser tão magnífico.

Mas por que o Direito? Isso é questão de linguagem. A advocacia ocupa o segundo lugar na lista das profissões que mais atraem psicopatas, conhecidos pela astúcia, destreza, inteligência e indiferença. Misture esses elementos e chegará a um resultado interessante: o curso de Direito forma intérpretes, indivíduos capazes de analisar cada proposição, fato ou evidência de modo frio e calculista.

A superioridade é aparente. Ela esconde outros sentimentos, mais profundos, mais perturbadores, mais compreensíveis: a solidão e a angústia. O distanciamento dos estudantes de Direito não acontece de forma vertical, o que comprovaria a superioridade hierárquica, mas sim de forma horizontal.

Uma pessoa complicada é, por definição, indefinível. Esse nó no nosso cérebro é perfeitamente desfeito por meio de uma ascese filosófica. O Direito está imerso em filosofia. A literatura contribui com sua imensa variedade de estilos, ideias, possibilidades. A lei, por si só, não vale nada. O que era superioridade passa a ser uma busca por compreensão.

Por isso de os alunos do curso de Direito formarem grupos, clãs cheios de mistério, cheios de si. Apenas ali podem conversar sobre o mundo, sobre as suas inquietações, sobre o tão falado Estado Democrático de Direito.

Não existe superioridade. Existe distância, um verdadeiro deserto entre as pessoas. Esse deserto não pode ser percorrido pelo simples diálogo, sem esforço, sem habilidades genuínas. A aproximação requer que uma das partes abandone a sua concepção de mundo e se entregue aos designíos alheios. Um estudante de Direito dificilmente fará isso.

E nisso parece que retornamos à ideia de superioridade. Por que defender uma forma de pensar, de agir, de se comunicar, em detrimento de amizades, diálogos e relações familiares? Isso é uma questão de fé, não de superioridade.

Mas tudo isso pode estar errado. E essa minha modéstia pode parecer falsa e proposital. Esse texto pode conter uma mensagem de superioridade. Quem vos escreve pode muito bem se sentir superior. Eu sou superior, diz o escritor de si para si. "Ele está complicado demais". Isso diz muito sobre o ser humano e pouco sobre o Direito.



sexta-feira, 20 de junho de 2014

Como se comunicar com extraterrestres


A premissa é um tanto esquisita, mas vai que - de repente - você se depara com um extraterrestre por aí... neste caso, siga as instruções recomendadas pela NASA, conforme indica a Folha de S. Paulo:

O que você diria a um ET?

SALVADOR NOGUEIRA

Se você anda sem leitura, e na sua casa #nãovaitercopa, fica uma sugestão do Mensageiro Sideral: a Nasa, agência espacial americana, acaba de publicar um livro que é basicamente um guia sobre como estabelecer comunicação com alienígenas.

O volume foi editado por Douglas Vakoch, especialista em formulação de mensagens interestelares do Instituto SETI, organização que concentra suas atividades na busca por sinais de inteligência extraterrestre.

A premissa do livro é interessante. Ela transcende a famosa discussão “estamos sós no Universo?” e se concentra na pergunta seguinte: “e se descobrirmos que não estamos sós e estabelecermos contato com outra civilização no cosmos, como faremos para trocar informações com ela?”.

Daí o título “Arqueologia, Antropologia e Comunicação Interestelar”. O livro tenta emprestar dessas disciplinas voltadas para problemas mais “mundanos” — como a decifração de linguagens escritas antigas ou a compreensão do modo de pensar de povos que nunca tiveram contato direto conosco — possíveis lições aplicáveis ao futuro contato com alienígenas.

POLÊMICO

Naturalmente, com esse tema e a abordagem escolhida, o livro acabou instantaneamente envolvido em controvérsia. Uma citação pinçada de um dos capítulos e divulgada na internet fez parecer que a obra defende certas teorias conspiratórias segundo as quais sociedades humanas da antiguidade teriam recebido visitas de astronautas alienígenas, e que marcações em rochas seriam obras extraterrestres.

Veja a citação que circulou por aí: “Podemos dizer pouco, se é que podemos dizer alguma coisa, sobre o que esses padrões significam, por que foram cortados nas rochas e quem os criou. Para todos os efeitos e propósitos, eles poderiam ter sido feitos por alienígenas.”

O autor do capítulo em questão é William H. Edmondson, especialista em ciências cognitivas e inteligência artificial da Universidade de Birmingham, no Reino Unido. Mas uma leitura atenta revela que ele jamais sugeriu que há sinais de visitas alienígenas no passado terrestre. Sua passagem se refere à dificuldade inerente na interpretação de mensagens produzidas por povos (no caso em questão, humanos) separados culturalmente de nós. É uma maneira de dizer que, se tentarmos compreender mensagens alienígenas, teremos dificuldade ainda maior.

Se lido pela perspectiva certa, o livro agrega muito valor à reflexão sobre vida inteligente no universo, ao tentar avançar numa questão pouco discutida: o que esperamos de um contato com outra civilização?

O saudoso astrônomo Carl Sagan defendeu que encontrarmos uma sociedade alienígena mais avançada nos ajudaria a superar nossa “adolescência tecnológica”. Ele sugeriu que esses extraterrestres poderiam estar transmitindo uma versão da “Enciclopédia Galáctica” para nós, por meio de sinais de rádio. Até agora, todos os esforços de detecção de transmissões interestelares obtiveram, na melhor das hipóteses, resultados duvidosos e inverificáveis. Mas, se um dia eles tiverem sucesso, a pergunta que vem a seguir é: conseguiremos interpretar o significado contido na transmissão alienígena? E outra: devemos responder? Se sim, o que devemos dizer a eles, e como?

Essas e outras interessantes questões são todas investigadas minuciosamente no livro, que também apresenta um bom histórico da pesquisa SETI na Nasa. Se você estiver com o inglês afiado, recomendo a leitura. O livro pode ser baixado gratuitamente aqui, em diversos formatos, inclusive no universal PDF.



domingo, 1 de setembro de 2013

O desafio de aprender árabe


Artigo interessante publicado na Folha de S. Paulo de 18/08/13:

Como aprender árabe

DIOGO BERCITO

RESUMO Na última década, o interesse global por assuntos ligados ao Oriente Médio e ao islã contribuiu para aumentar o número de estudantes do árabe. Correspondente da Folha em Jerusalém aborda complexidades do aprendizado da língua, como a diglossia, a convivência de sua variante formal e dialetos locais.

Com a queda das Torres Gêmeas, em 2001 e, dez anos depois, a derrocada de ditadores como o egípcio Hosni Mubarak e o líbio Muammar al-Qaddafi, o idioma árabe tornou-se um "habib" -querido- dos estudantes de idiomas.

Já falado por milhões ao redor do mundo, o árabe teve aumento de 46,3% de procura no bancos acadêmicos americanos entre 2006 e 2009, segundo a Modern Language Association. Foi o idioma estrangeiro com maior procura no país, com incremento de 126,5% em relação à edição anterior do mesmo estudo, no qual o árabe havia passado a figurar entre os dez idiomas estrangeiros mais estudados nos Estados Unidos.

O fenômeno é recente, mas não está desligado do fato de que o árabe foi, no passado, uma das línguas da ciência no mundo. É o idioma da conquista islâmica, do califado de Córdoba, do Alcorão e dos clássicos medievais de Avicena. É a fala do cinema egípcio, dos discursos do ditador sírio Bashar al-Assad e de populações associadas, via preconceito, ao terrorismo.

Estudar árabe, porém, é um compromisso de longo prazo -digo por experiência própria. Mais de dois anos depois de decidir estudar o idioma e após ter estado em um punhado de países árabes como correspondente desta Folha no Oriente Médio, ainda passo minhas tardes tentando me lembrar das declinações e da vocalização correta. Isso quando não estou frustrado, em um mercado de Jerusalém, tentando entender quanto custa uma latinha de Coca-Cola.

LENDA

Uma lenda do século 7º fala de como Ziyad ibn Abihi, governador de Basra, no atual Iraque, convenceu o sábio Abu al-Aswad a normatizar o árabe. Abertos os portões da expansão islâmica, as fronteiras da península Arábica devoravam África e Ásia. Os novos falantes emprestavam erros à língua.

Como o sábio resistia à tarefa, o governador teve uma ideia: pediu que um homem sentado à beira de uma estrada recitasse o Alcorão, trocando, porém, as terminações dos casos gramaticais. Em árabe, isso faz com que uma frase como "Deus e o profeta salvam dos incrédulos" tenha seu sentido subvertido para "Deus salva dos incrédulos e de seu profeta".

Assim Aswad se convenceu da necessidade de compilar um conjunto de regras para chegar a um árabe padrão. Essa lenda passou a servir como um dos mitos fundadores da tradição gramatical do árabe, reunindo diversas das características que marcaram, desde então, o estudo dessa língua.

Está presente na historieta, por exemplo, a ideia ainda corrente de que a língua é uma característica biológica dos povos árabes e que os desvios, portanto, nascem nos povos arabizados. Ou a ideia de que a língua é um fato estanque, desvinculado da história, preso a um texto sagrado do qual é, aliás e antes de tudo, uma manifestação.

Além disso, a lenda do governador e do sábio dá conta da obsessão pela manutenção dos casos gramaticais na língua -cujo bom uso, aparentemente, é ameaçado desde os anos desérticos do surgimento do islã, no centro da península Arábica, até a manhã em que assisti à minha primeira aula de árabe, na Universidade de São Paulo.

Minha história com o estudo do árabe decepcionaria aqueles que gostam de narrativas orientadas pelo "maktub", o conceito de que algo "estava escrito" -popularizado (mesmo no mundo árabe) por Paulo Coelho.

Quando escolhi essa língua, não estava pensando na "qisma", a ideia de que o árabe é a parte do latifúndio linguístico que coube aos árabes como dádiva divina. Nem me motivava um bisavô paterno talvez damasceno, de quem não há nenhum registro ou memória.

Eu escolhi me habilitar em árabe, durante o curso de letras, porque o hebraico só era ensinado à noite, enquanto eu trabalhava na Redação. Os anos se seguiram e, antes de me mudar para Jerusalém, eu só havia passado de raspão por essa língua irmã do árabe.

Durante uma corrida de táxi em Rabat, a capital do Marrocos, onde por três meses fui bolsista do projeto Ibn Batuta de ensino da língua, o motorista desandou a falar em árabe ao me ouvir conversar sobre xiismo com um colega holandês.

Ainda iniciante, perdi quase todas as palavras. Mas aproveitei para perguntar como se dizia "direita", em árabe. Podia ser útil para dar indicações no próximo trajeto. "Al-yamin", ele respondeu. E aí, bem de longe, o hebraico fez sua aparição: "Mas não confunda com Binyamin", brincou o motorista, fazendo troça com Binyamin Netanyahu, atual premiê de Israel.

Eu ri e disse que usaria a tirada para memorizar a palavra. "Como vai fazer com a esquerda?", ele me perguntou. "Fácil. Al-shimon", brinquei. A resposta correta é "Al-yasar", mas eu estava então falando de Shimon Peres, o presidente israelense. O táxi balançou de tanto que nós três rimos da piada, ainda que não tivesse havido graça.

Talvez pelo contato com todo tipo de passageiro, os taxistas dominam a variante padrão do árabe -o termo se entende pelo fato de que não existe, na prática, a "língua árabe". O que há é um conjunto de línguas, nem sempre compreensíveis entre si, que não formam um idioma, do ponto de vista linguístico. São dialetos. Mais por política e religião, as variantes se cobrem sob um mesmo véu, no que se chama uma sociolíngua.

Para os muçulmanos, Deus decidiu que o Alcorão fosse revelado a Maomé em árabe -não em hebraico, grego ou persa, porque era aquela a revelação feita especificamente a eles (em árabe, diz-se que o livro "nazala", "desceu"). Assim, para autoridades religiosas, a língua está em seu estágio único. Não há antes, não há depois.

É como diz o poeta sírio Adonis, o nome mais cotado, entre os que se expressam em língua árabe, para o Nobel de literatura. "O Islã se revelou como inspiração divina em língua árabe. A partir daí, a língua, como portadora das verdades divinas, deixou de ser uma parte da realidade relativa e mutável. Tornou-se absoluta: imagem absoluta do absoluto Deus."

Se existe uma unidade na religião ("não há nenhum deus que não seja Deus", diz a profissão de fé do árabe, uma das bases teológicas do islamismo), a ideia de que haveria também uma homogeneidade na língua árabe se debate diariamente contra a realidade.

Dessa maneira, uma ação cotidiana, como tomar o café da manhã antes da aula, pode se transformar num desafio linguístico. Em que língua pedir dois croissants? Em árabe -ou em árabe?

Havia duas opções. Eu poderia dizer o número como "ithnan", em árabe formal, e soar como saído do século 7º, de um manuscrito ou da lenda de Abu al-Aswad. Mas, se preferisse usar a palavra "juj", típica do coloquial marroquino, os vendedores poderiam ver nisso a pretensão de me passar por local. Como se um estrangeiro em São Paulo usasse uma expressão como "de boa" para dizer "tudo bem".



ESQUIZOFRENIA

A linguística tem nome específico para essa convivência entre formal e coloquial. Chama-se "diglossia", "duas glossas", situação geralmente exemplificada pelo latim, que manteve por séculos uma variante culta e diversas versões vernaculares. "É claro que isso é uma espécie de esquizofrenia", explica o escritor libanês Amin Maalouf.

Maalouf escreve em francês -entre os vários reconhecimentos a sua obra está o Goncourt, prêmio máximo da literatura na França, que ele recebeu em 1993 por "O Rochedo de Tânios". Ele defende, intelectualmente, a manutenção da variante culta do árabe, diante de propostas de simplificar a língua a partir de um consenso entre as dezenas de dialetos. "É preciso viver com a dicotomia."

"O latim desapareceu como uma língua falada. Mas, com o árabe, as coisas aconteceram de maneira diferente. O árabe produziu dialetos locais, mas a variante culta não desapareceu. Ela permanece verbalizada, escrita e compreendida pelos falantes educados", diz Maalouf. "Ter uma língua em comum é um recurso cultural importante."

O árabe seguiu um caminho distinto daquele trilhado pelo latim -que, diante da queda do Império Romano, perdeu seu centro, possibilitando que surgissem, nas periferias, as línguas românicas, transformadas pelos séculos em idiomas como o português, o castelhano, o sardo e o romeno.

Professor na Universidade de Zaragoza, o acadêmico Federico Corriente, autoridade no estudo do árabe falado na península Ibérica durante o califado de Córdoba (séculos 10 e 11), insiste que um processo semelhante ao do latim seria um "empobrecimento" tanto cultural quanto político para a comunidade de países falantes.

"O latim, infelizmente, foi destruído pelos nacionalismos da idade moderna e contemporânea, prejudicando todos os europeus, já que não temos mais uma língua culta comum a todos", diz. Unificar o árabe, afirma Corriente, seria repetir o "disparate que a Europa cometeu ao abdicar do latim: fragmentação e preguiça mental".

LÍNGUA FRANCA

Ao contrário do que houve no Ocidente, continua havendo uma língua franca para a comunicação entre os Estados de população árabe. Também são ligados pelo árabe como língua litúrgica os milhões de muçulmanos ao redor do mundo. O Alcorão não pode ser traduzido, e o estudo do árabe formal torna-se, assim, um imperativo religioso.

"O Alcorão teve uma grande influência na língua árabe", opina o jovem saudita Muhammad Hassan Alwan, autor de "The Beaver", uma das obras que concorreram ao Arabic Booker Prize, competição pan-árabica lançada em 2007. "Esse livro sagrado manteve a língua por 14 séculos de maneira que pode ser facilmente entendida hoje."

Apesar dos mitos sobre sua inacessibilidade, o árabe padrão ainda é compreendido nas ruas. Foi com essa variante que um grupo de crianças me cercou, em Rabat, para perguntar se eu era muçulmano. Quando disse que não, uma gritou, as mãos na cabecinha indignada: "La! La tarif al-nar?" ("Não! Você não conhece o fogo?")

Um estudioso do idioma que não segue o islã e não é nem sequer de origem árabe se vê, por vezes, obrigado a justificar seus estudos. É possível argumentar que o interesse vem do prazer histórico. Mantida estática pelas exigências da religião, a língua ainda é próxima do dialeto urbano falado em Meca no século 7º. Falar árabe é como conversar com beduínos -o falante ideal, segundo a tradição.

O árabe é parente não só do hebraico mas também das demais línguas semíticas, como o acadiano, o aramaico e o fenício. Quem diz "salam", em árabe, de certa forma está dizendo "shalam" (acadiano), "shlam" (aramaico) e "shalom" (hebraico).

O termo "semita" vem de Sem -na Bíblia, um dos filhos de Noé. Emprestado da linguística, foi compreendido politicamente como designação étnica. Em sua origem, era a reunião de um grupo específico das línguas afro-asiáticas, como o hebraico e o árabe, parentes distantes do egípcio antigo.

Para falantes de línguas latinas ou germânicas, ambas indo-europeias, aprender um idioma semítico envolve adaptar-se a um modo de pensar. O árabe não tem verbos "ser", "estar" e "ter". A existência é presumida (de "eu Diogo" se entende "eu sou Diogo"). O estado, também ("eu doente"). Para a posse, se diz "para mim, um carro".

"Línguas orientais exigem muita dedicação", diz Mamede Mustafa Jarouche. Tradutor do "Livro das Mil e Uma Noites", Jarouche ensina gramática árabe na USP. "Com línguas como o inglês, é possível haver aprendizado passivo. Um aluno pode aprender sem nunca ter ido aos Estados Unidos. Isso não ocorre com o árabe."

A forma da escrita, com alfabeto próprio, correndo da direita para a esquerda na página, é outro aspecto a levantar curiosidade em torno de um estudante de árabe. Quando foi estabilizada, em cerca de 1.000 a.C., a escrita fenícia -origem dos sistemas do árabe, do aramaico e do hebraico- seguia esse sentido. Os gregos, ao se apropriarem da invenção semítica num momento posterior, mudaram-lhe o rumo.



LEITURA

Pouco se fala, porém, da real dificuldade da leitura em árabe. Para os acadêmicos mais rigorosos com a classificação, a escrita do árabe não é de fato "alfabética", apesar de "alfa" e "beta" serem ironicamente palavras emprestadas do fenício pelos gregos. O árabe é escrito por meio de um "abjad" -uma escrita consonantal.

O árabe (como o hebraico, o siríaco e o nabateu) não registra todos os sons que são falados. Boa parte de suas vogais é subentendida. Assim, escreve-se "ktb" para dizer "kataba", ou "ele escreveu". O que pode levar a problemas, uma vez que "ktb" também pode ser lido "kutub", "livros". Ou "kutiba", "foi escrito".

(A hstór de Abu al-Aswd nos lembr de que os árbs stveram, desd o níci do slmism, prcpads com a mntnção do text crânc. Tref inglóri par um livr sgrad scrit sem dverss de sus vgais.1)

Daí entram os diacríticos, marcações feitas sobre ou sob as letras para indicar vogais ocultas. Os sistemas de diacríticos são, de certa maneira, uma invenção siríaca motivada pelas traduções da Bíblia e pela necessidade de grafar com exatidão os nomes gregos registrados durante a Antiguidade.

A atual vedete do ensino do árabe é um método didático chamado "Al-Kitaab fi Ta'alum al-Arabiya", organizado por professores americanos. É usado em Chicago e em Harvard, e também na USP e na escola Qalam wa Lawh, onde estudei no Marrocos.

É, porém, um livro controverso. Em 2008, um editorial do "Washington Post" expressava preocupação quanto ao método. O quarto capítulo do manual mostra a personagem Maha, antipática filha de uma professora palestina, dizendo a frase que se tornou clássica entre estudantes (no meu caso, rendeu a ideia para um rap, escrito para um trabalho da USP): "Ana la uhibu madinat Niw Yurk", "Não gosto da cidade de NY". Os motivos? Trânsito e calor. De onde vinha Maha? Do Cairo, a quente e caótica capital do Egito.

Apesar do estranhamento que o livro possa ter causado, é exagerada a alegação de que o método do "Kitaab" forme terroristas. Mas é pertinente a observação de acadêmicos, como o espanhol Corriente, que se opõem às tentativas de ensinar o árabe padrão por diálogos.

O árabe formal não é uma língua falada. As situações de comunicação são em geral pouco naturais, como discursos na ONU -o idioma é uma das seis línguas oficiais das Nações Unidas, ao lado do inglês, do chinês, do francês, do russo e do espanhol. Experimente pedir uma cerveja em árabe formal a um garçom no Marrocos: ele vai olhar para você como se estivesse diante de um personagem de um filme.

O estudante de árabe nunca está em paz, entre a "fusha" ("a eloquente", como se chama a variante formal) e a "amia" ("a popular", os dialetos). Se estuda o padrão, lhe perguntam por que não quis o dialeto -afinal, é a língua das ruas. Caso estude o vernacular, lhe perguntam por que não escolheu o formal -ora, é a língua dos livros!

O ideal, opina o espanhol Corriente, é "um conhecimento equilibrado da realidade linguística árabe, abarcando tanto a habilidade de ao menos ler a língua clássica quanto falar um dialeto". Mas isso esbarra, diz, na realidade de que o ensino do árabe "é catastroficamente terrível, por falta de métodos, de definição de objetivos e de preparação pedagógica".

A predominância da "fusha" como única variante escrita, porém, parece estar caindo. Os livros dizem ser impossível registrar os dialetos, porque têm sons sem equivalente na escrita. Mas, na estação de ônibus de Rabat, um outdoor anuncia: "kein" desconto -"kein" é o equivalente dialetal marroquino para o formal "hunaka", "há".

A Wikipedia também aposta em um futuro menos rígido para as línguas árabes. Alguns verbetes, como o referente a Cleópatra, têm versões em "egípcio". "Egípcio", como vem sendo chamado na enciclopédia colaborativa o dialeto cairota, era o termo que designava, até há pouco, a língua escrita com hieróglifos, no tempo dos faraós.

CENÁRIO

O terreno para um novo cenário cultural, ainda que o total declínio do árabe formal como língua franca seja pouco provável, é a literatura. É nela, e sobretudo em diálogos, que as variantes vernaculares ganham corpo. "O árabe dialetal está carregado de história, de cultura religiosa e de cultura profana, de memória", diz o escritor libanês Rachid Daif.

O autor -que terá um de seus livros, "Que se Estrepe Meryl Streep", traduzido ao português por Felipe Benjamin Francisco, monitor de cursos de gramática na USP, como dissertação de mestrado- afirma que "os dialetos estão vivos e são capazes de traduzir o ritmo da vida contemporânea".

A americana Meredith Meyer, minha colega no Marrocos, era um exemplo de estudante capaz de usar o dialeto naturalmente.

Além de sua notável pronúncia do "ayn", uma consoante tão gutural que parece vir do âmago do ser humano, ela soltava qual um nativo o corrente "ghadi an darrrbak": "Vou sentar a mão na sua cara", em tradução livre.

Como as ruas que ligavam os antigos califados islâmicos no passado, o caminho que leva o estudante de árabe até o domínio do idioma é longo. Às vezes, mesmo para os mais hábeis nos dialetos ou para os afiados na variante padrão, parece sem fim. Costumamos nos perguntar, ansiosos: "Seremos, um dia, fluentes?". A resposta possível, por ora, está numa palavra que aprendi com o tempo: "Mumkin". Talvez.


Nota

1. Ou, com todas as letras: "A história de Abu al-Aswad nos lembra de que os árabes estiveram, desde o início do islamismo, preocupados com a manutenção do texto corânico. Tarefa inglória para um livro sagrado escrito sem diversas de suas vogais".



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