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terça-feira, 26 de setembro de 2017

Data venia, vem aí o robô-advogado

E tem gente que fica falando que advogado (humano) não tem coração...

Vocês ainda vão pagar sua língua (risos).

A matéria é da revista Exame:

Funções típicas de advogados já são feitas por softwares e robôs

Robôs estão assumindo cada vez mais funções em grandes escritórios - que vivem as mesmas pressões por eficiência de qualquer negócio

Por Naiara Bertão

São Paulo — Um em cada quatro empregos conhecidos hoje deverá ser substituído por softwares e robôs até 2025 — e há quem aposte numa proporção ainda maior. O fato é que a tecnologia ameaça não apenas trabalhos braçais, mecânicos e técnicos mas também profissionais de carreiras tradicionais, como medicina, jornalismo, engenharia e, agora, direito. Os robôs estão assumindo cada vez mais funções nos grandes escritórios de advocacia — que, não é de hoje, são tocados como empresas e vivem as mesmas pressões por eficiência de qualquer negócio. “Nos próximos três anos, vamos ver outro mundo jurídico”, diz Guilherme Horn, diretor executivo da consultoria Accenture.

Os softwares de última geração não só compreendem significados como também fazem correlações. Além de analisar milhões de documentos em segundos, eles sugerem decisões a ser tomadas e alertam para qualquer mudança que possa afetar o caso. É o que o “robô” Ross faz, por exemplo. Desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá, com base na tecnologia de computação cognitiva Watson, da IBM, o Ross já está “trabalhando” em alguns escritórios de advocacia dos Estados Unidos. Outro exemplo é o Luminance, criado na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, que promete acelerar o processo de auditoria em fusões e aquisições — quando um time completo de advogados analisa centenas de documentos complexos sobre uma empresa a ser comprada para determinar a viabilidade do negócio. Outras iniciativas, que vão de softwares de gestão de processos a plataformas virtuais de documentos e serviços ao consumidor, também estão ganhando espaço.

A possibilidade de redução de custo, obviamente, é um dos principais atrativos — no Brasil, as empresas gastam, em média, 2% de seu faturamento com litígios. Foi nesse ambiente que, em 2013, foi criada a Finch Soluções, como braço de um dos maiores escritórios do país, o JBM e Mandaliti, do interior paulista. A necessidade de automatizar procedimentos e reduzir despesas fez com que as áreas de suporte e tecnologia se unissem para desenvolver softwares que fazem em segundos o trabalho que dezenas de advogados demorariam meses — e analisa até mesmo o histórico de decisões de determinado juiz e a chance de sucesso de cada causa. O negócio deu tão certo que, em 2014, a Finch se mudou para São Paulo e começou a atuar de forma independente. “Não queremos substituir o advogado, mas dar ferramentas a ele para não perder tempo e ter o máximo de dados qualificados para tomar decisões”, diz Renato Mandaliti, um dos fundadores da Finch, que faturou cerca de 50 milhões de reais em 2016.

Assim como a Finch, outras companhias se apropriaram da tecnologia para atacar ineficiências na área jurídica. A paulista Looplex, por exemplo, padroniza e consegue diminuir para 5 mi-nu–tos a criação de uma peça jurídica de dezenas de páginas que levaria de 2 a 3 horas. A também paulista Justto faz a intermediação de impasses — casos de defesa do consumidor, por exemplo — sem que tenham de passar pela Justiça. A baiana JusBrasil, primeira startup brasileira a receber investimento de fundos, conta com um banco de dados de processos na Justiça e seu site recebe mais de 20 milhões de visitas por mês. Os aportes, que somam 10 milhões de reais de fundos como o brasileiro Monashees e o americano Founders Fund, do Vale do Silício, ajudarão a expandir o serviço de informação e busca por advogados. “Ajudamos as pessoas a encontrar um advogado, e isso chamou a atenção dos investidores”, diz Luiz Paulo Pinho, um dos fundadores da startup.

A eficiência dos robôs também tem seu preço. A contratação de assistentes virtuais mais sofisticados ultrapassa a casa do 1 milhão de reais por ano. Mas, como em outros setores, a expectativa dos empresários é que a inteligência artificial fique cada vez mais barata; e os serviços, mais acessíveis. Um mundo em que ninguém precisará se deslocar para participar de uma audiência ou para assinar documentos no cartório está mais próximo? Certamente vai levar muito tempo até que nossos abarrotados e caretas tribunais sejam transformados pela tecnologia. Mas a pressão por mais eficiência é real. O Instituto de Direito Público de São Paulo acaba de lançar o curso de extensão em ciência de dados aplicada ao direito para ensinar noções básicas de análise de dados aos advogados. “A carreira de analista e estrategista de dados deve ganhar muita relevância no meio jurídico”, diz Alexandre Zavaglia Coelho, coordenador do curso. Assim como os médicos estão se valendo de tecnologia para melhorar a qualidade de seu trabalho, os advogados também podem usar os novos serviços a seu favor — o robô, afinal, está vindo para ficar.



domingo, 20 de setembro de 2015

Desacelere a sua mente, elimine o excesso de informação e viva melhor!


É o que aconselha o neurocientista Daniel Levitin em entrevista concedida a Lúcia Guimarães e publicada no Estadão:

Contemplar o capim

Em livro, neurocientista desmonta o mito das multitarefas e mostra que descansar a mente libera espaço para as grandes ideias

Folgo e convido minha alma,
deito-me e folgo à vontade vendo
uma lança de capim no estio.
(CANÇÃO DE MIM MESMO, POEMA DE FOLHAS DE RELVA, DE WALT WHITMAN)

Quem tem tempo de se espalhar na grama e admirar a lança de capim em vez de conferir a tela do smartphone? Em 1855, o poeta Walt Whitman não sabia nem precisava saber o que era ser multitarefas, mas já ensinava, em seu poema clássico, que a mente precisa vadiar. Vivemos uma era de aceleração de fontes de informação como nenhuma outra na história da humanidade. Mas o nosso cérebro tem a mesma capacidade fisiológica de enfrentar esse ataque de dados que tinha o cérebro do poeta. Em um livro best-seller escrito para você e para mim, não para cientistas, o celebrado autor Daniel Levitin oferece recursos para impedir que o leitor seja soterrado pela avalanche diária de informação. A Mente Organizada combina a apresentação das descobertas recentes em estudos sobre o cérebro e sugere rotinas para assumir o controle do ecossistema de informação, e não ser controlado por ele. Levitin é um neurocientista, especialista em psicologia cognitiva e músico, autor de outro best-seller, A Música no Seu Cérebro.

Ele dirige um laboratório de percepção musical na McGill University, em Montreal, e é cofundador e diretor do programa de Ciências Sociais do Projeto Minerva, universidade fundada em 2012 em San Francisco. O Minerva é um programa de graduação com 120 alunos que visa a reformar a educação superior do século 21 para enfrentar as rápidas mudanças em vários campos de conhecimento. “Não achamos honesto cobrar altas anuidades de estudantes que, ao se formar em certos campos profissionais, não podem mais usar o que aprenderam porque seu conhecimento já está superado”, diz Levitin, em entrevista exclusiva ao Aliás. “Temos foco em pensamento crítico, solução de problemas e 25% do currículo é concentrado em promover a comunicação efetiva.” Engraçado: na era dos nerds esquisitões da tecnologia, uma escola de vanguarda privilegia o diálogo.

Em A Mente Organizada, Levitin observa o que têm em comum as pessoas bem-sucedidas e produtivas. Sugere estratégias de organizar a memória – esvaziá-la com exercício e instrumentos que chama de extensões do cérebro, como calendários eletrônicos, smartphones e cadernos de anotação. Curiosamente, ele notou, entre seus mais ocupados interlocutores, um apego físico a objetos analógicos, pequenos cadernos de anotação, fichas, canetas e lápis. E especula sobre as vantagens de manter esse hábito.

O cérebro precisa de resets neurais. São esses resets que nos tiram de situações como a de um carro atolado na lama. É frequente, depois de uma pausa de repouso, encontrar a solução para um problema que parecia fora de alcance. A neurociência, conta Levitin, comprova que contemplar a natureza oferece um poderoso reset – até mesmo olhar imagens da natureza.

A eficiência em organizar a informação nos torna mais do que produtivos. É um instrumento de libertação para o ócio, para os momentos em que podemos contemplar a grama e ter grandes ideias. Como ter inspiração para escrever o maior clássico da poesia norte-americana.

Por que falamos em sobrecarga de informações?

Para os cientistas, a sobrecarga é a diferença entre a quantidade de informação com que somos bombardeados e a capacidade do nosso cérebro de lidar com ela.

O que é a obsolescência evolucionária, que o senhor aponta como parte do obstáculo para lidar com o excesso de informação?

Todos os organismos vivos estão constantemente se adaptando ao meio ambiente. A seleção natural exerce influência sobre essa adaptação. Por exemplo, nós nos adaptamos à erosão da camada de ozônio e pessoas que adquirirem maior resistência aos raios ultravioleta transmitirão aos descendentes o gene de sobrevivência a eles. Mas é um longo e lento processo. Nosso cérebro evoluiu para lidar com um ambiente que existia há 10, 20 mil anos. O genoma humano precisa de tempo para se adaptar. Para você ter uma ideia, em 30 anos quintuplicou a quantidade de informação que recebemos a cada dia. Pense nisso como o equivalente a ler 175 jornais de ponta a ponta diariamente. Outro número extraordinário: em 1976, nos Estados Unidos, havia cerca de 9 mil produtos únicos à venda num supermercado. Hoje, há cerca de 40 mil. O consumidor americano, que compra uma média de 150 produtos, tem que navegar entre uma quantidade muito maior de escolhas.

Embora a evolução do cérebro esteja “atrasada”, há duas gerações essa obsolescência era muito menos sentida, certo?

Vamos considerar um aprendizado que foi necessário para nossos avós. Eles tiveram que aprender a usar o telefone uma ou duas vezes – tiveram que fazer chamadas com ajuda de telefonistas e depois aprenderam a discar. Hoje, os smartphones não param de mudar. Você troca de modelo e tem que aprender inúmeras funções, que daqui a poucos anos serão trocadas.

Há um site chamado “Deixe eu googlar isto pra você” inspirado na exasperação que muitos sentem quando alguém faz uma pergunta que pode ser respondida online. Qual a importância de ter tanta informação disponível em poucos segundos?

Quando eu cursava a Universidade Stanford, na Califórnia, gostava de estudar dentro da enorme biblioteca principal. Havia ali respostas para tudo o que eu queria saber. Mesmo se eu me distraísse e quisesse conferir algo que não tinha ligação direta com o trabalho em questão, era preciso levantar, localizar um livro ou publicação num sistema de classificação. Hoje, a nossa atenção é desviada o tempo todo para novas fontes e isso afeta a possibilidade de recuperar o foco inicial. Há enorme variação na nossa capacidade de virar a chave da atenção. Mulheres e jovens tendem a ser mais rápidos do que homens e idosos. Mas varia muito. Se me distraio de algo, demoro uns cinco minutos para retomar a concentração.

A palavra multitarefas, executar várias tarefas ao mesmo tempo, é indissociável da rotina do século 21. Mas o senhor diz que multitarefas não passam de ficção.

Não existem multitarefas, é um mito. O cérebro simplesmente não comporta isso. A pessoa pensa que está lidando com várias coisas ao mesmo tempo quando, de fato, o cérebro está experimentando rápidas mudanças de foco que mal percebemos, o que resulta numa atenção fragmentada a várias coisas e nenhuma atenção sólida a uma que seja. Recentemente ficou provado que conseguimos prestar atenção a, no máximo, três ou quatro coisas de uma vez. O cérebro é eficaz em provocar autoilusão. Achamos que estamos no controle das coisas. Mas executar várias tarefas ao mesmo tempo libera um hormônio de estresse, o cortisol. O cortisol tem um papel evolucionário, mas também provoca ansiedade, nervosismo e afeta a clareza de pensamento. Comparo o ato de fazer várias tarefas ao mesmo tempo com uma espécie de embriaguez. Há trabalhos que exigem essa capacidade, como tradutor simultâneo ou controlador de tráfego aéreo. E não é à toa que, nessas funções, as pessoas são obrigadas a fazer várias pausas de descanso para recuperar a capacidade de se concentrar.

No entanto, há uma noção de que as pessoas bem-sucedidas, e o senhor entrevistou mais de 100 para escrever o livro, são as que têm o poder de acumular mais tarefas do que os outros.

Exato, mas a história e a ciência de laboratório nos provam o contrário. Estudos mostram que o trabalho de quem mantém o foco numa tarefa é mais criativo. Isso vale tanto para grandes empresários, atletas e inovadores como para artistas. Valia para Da Vinci e Michelangelo. Olhe para o alto na Capela Sistina, considere grandes conquistas como o cubismo, a 5ª Sinfonia de Beethoven, a obra de William Shakespeare – tudo é resultado de atenção sustentada ao longo do tempo.

Por que o senhor diz que as crianças devem aprender na escola, já aos 10 anos, a enfrentar a sobrecarga de informação?

Qualquer criança alfabetizada sabe que pode encontrar uma informação em segundos. Mas a maior parte do que está online é desinformação. Ficções mascaradas de fatos. Até estudantes universitários se deixam confundir. Recolhem informações sem perguntar quem está por trás. Como saber que a fonte é confiável? Na escola, os professores devem ensinar, para começo de conversa, que websites não são iguais. Devem incutir um questionamento crítico na pesquisa. À medida que os alunos crescem, vão adquirindo mais nuances para se informar. Por exemplo, se a criança quer um brinquedo, pode-se ensinar a ela que o website do fabricante não é a fonte mais confiável sobre a segurança do brinquedo. Antes, no ecossistema analógico, tínhamos curadores de informação, era mais fácil distinguir a credibilidade de fontes.

O senhor diz que as pessoas mais produtivas são as que melhor estabelecem prioridades.

A maioria de nós chega ao trabalho hoje em dia e é bombardeada com o “por fazer”. É como entrar cambaleando num ambiente em que há muitas exigências e começamos a atacar o que passa pela frente. Não fazemos um esforço consciente e deliberado de evitar que o ambiente em volta nos domine. Isso aumenta o cansaço e diminui a produtividade. Todas as pessoas altamente bem-sucedidas com quem converso têm em comum o fato de que elas anotam o que há por fazer e já começam a trabalhar cientes de prioridades.

O senhor diz que uma ferramenta útil para priorizar são os chamados exercícios de limpeza da mente.

Sim. O David Allen, um guru da produtividade e autor de A Arte de Fazer Acontecer, aponta para a importância de externalizar a informação. Recomenda anotar tudo o que está se passando na sua cabeça, coisas que têm a ver com a tarefa em questão e preocupações que podem distrair a pessoa. É um processo neurológico, porque o cérebro teme esquecer o que é importante. Quando o cérebro sabe que a informação foi arquivada externamente, nas anotações, e o efeito é de nos acalmar, é libertador. Retira o entulho mental que prejudica a atenção.

A sobrecarga de informação se estende ao excesso de objetos. Por que o senhor defende uma gaveta de bagunça?

Um profissional precisa saber exatamente onde estão seus instrumentos. Pode ser um cirurgião, um dentista, um bombeiro. Este tipo de organização nos libera para pensar e tomar decisões. Mas excesso de organização é contraprodutivo, uma perda de tempo. O importante é deixar visíveis os objetos que utilizamos regularmente. Quantas vezes você encontra um parafuso, uma peça e não se lembra de onde vem? Jogue na gaveta de bagunça, a que tem objetos de utilidades diferentes. Isso é uma forma de fazer economia cognitiva, porque não é preciso classificar tudo.

O senhor aponta a correlação entre eliminar o excesso de informação e de pertences e a felicidade.

Se quiser destilar tudo o que se conhece sobre pessoas que se consideram felizes, a frase é a seguinte: elas se satisfazem com o que têm. E são as que querem conquistar algo, não receber prêmios e elogios. O que é diferente de não ter ambição pessoal ou criativa. O empresário Warren Buffett, o terceiro homem mais rico do mundo, com uma fortuna de mais de US$ 70 bilhões, mora na mesma casa há mais de cinco décadas. Ele inventou o neologismo “satisficing”, sobre as coisas que bastam. Não perde tempo com o que não lhe interessa e tem uma agenda diária de trabalho quase vazia, de poucas reuniões, que o deixa livre para ser produtivo.



sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Sabedoria islâmica aplicada à decadência dos impérios eletrônicos


Interessante artigo de Paul Krugman publicado na Folha de S. Paulo de 26/08/13:

O declínio dos impérios eletrônicos

O inesperado anúncio de Steve Ballmer de que ele deixaria a presidência executiva da Microsoft causou grande volume de comentários. Não sendo especialista em tecnologia e nem guru de gestão, não há muito que eu possa acrescentar quanto a essas duas frentes. Mas creio saber um pouco sobre economia, e também leio muita História. Assim, o anúncio de Ballmer me levou a pensar sobre externalidades de rede e Ibn Khaldun. E eu argumentaria que pensar sobre essas coisas pode ajudar a garantir que extraiamos as lições corretas dessa reviravolta empresarial específica.

Primeiro as externalidades de rede: considere o estado do setor de computação por volta de 2000, quando o preço das ações da Microsoft atingiu seu pico e a companhia parecia completamente dominante. Recorde as camisetas que mostravam Bill Gates como um borg (um ser integrado a uma mentalidade coletiva de colmeia em "Jornada nas Estrelas"), com os dizeres "resistir é fútil. Prepare-se para ser assimilado". Você se lembra, além disso, que a Microsoft ocupava posição central nas preocupações quanto à aplicação das leis antitruste?

O estranho era que ninguém parecia gostar dos produtos da Microsoft. Todos concordavam em que os computadores Apple eram melhores que os computadores equipados com o sistema operacional Windows. Mas a vasta maioria dos computadores de mesa e laptops usava o Windows. Por quê?


A resposta, basicamente, é que todo mundo usava o Windows porque todo mundo usava o Windows. Se você tinha um computador equipado com o Windows e precisava de ajuda com ele, bastava pedir ao cara no cubículo ao lado, ou ao pessoal da informática no andar de baixo, e a probabilidade de que obtivesse a resposta desejada era considerável. O software era criado para operar com o Windows; os periféricos idem.

Era um retrato das externalidades de rede em ação, e elas fizeram da Microsoft um monopólio.

A história de como situação surgiu é complicada, mas não creio que seja injusto afirmar que a Apple acreditou, erroneamente, que os compradores comuns dariam à qualidade superior de seus produtos o mesmo valor que as pessoas da empresa atribuíam. Por isso, ela cobrava preços mais caros que os da concorrência, e quando veio a perceber o número de pessoas que estavam optando por máquinas que não eram assim tão boas mas faziam o trabalho do mesmo jeito, o domínio da Microsoft já estava garantido.

Discussões como essas sempre atraem intervenção dos devotos da Apple, que insistem em que tudo que um computador Windows pode fazer, um Apple faz melhor, e apenas idiotas compram computadores Windows. Pode ser que estejam certos. Mas isso não importa, porque existe grande número desses idiotas - entre os quais me incluo. E o Windows continua a dominar o mercado de computadores pessoais.

Os problemas da Microsoft surgiram com a ascensão de novos aparelhos cuja importância notoriamente escapou à empresa. "Não há chance", declarou Ballmer em 2007, "de que o iPhone conquiste fatia de mercado significativa".

Como a Microsoft conseguiu ser tão cega? É nesse ponto que Ibn Khaldun entra na história. Ele foi o filósofo muçulmano do século 14 que basicamente inventou o que hoje designamos como ciências sociais. E uma de suas percepções, baseada em uma história de sua África do Norte natal, era a de que existia um ritmo na ascensão e queda de dinastias.

Os nômades do deserto, ele argumentou, sempre tiveram mais coragem e coesão social do que o as pessoas civilizadas e assentadas em cidades, e por isso ocasionalmente eles emergem de seus baluartes para conquistar terras cujos governantes se tornaram corruptos e complacentes. Os novos soberanos criam dinastias - e com o tempo se tornam igualmente corruptos e complacentes, e ficam à mercê de um novo conjunto de bárbaros.

Não creio que seja absurdo aplicar essa história à Microsoft, uma companhia que se saiu tão bem com seu monopólio sobre os sistemas operacionais que perdeu o foco, enquanto a Apple - ainda vagueando pelo deserto depois de tantos anos - estava alerta a novas oportunidades. E assim uma nova onda de bárbaros deixou o deserto.

Às vezes, aliás, os bárbaros são convidados a intervir por uma facção doméstica em busca de reacomodação. Talvez seja isso que está acontecendo no Yahoo: Marissa Miller não se parece muito com um feroz líder beduíno, mas é possível que esteja cumprindo o mesmo papel funcional.

De qualquer forma, o divertido é que a posição da Apple nos aparelhos móveis agora porta forte semelhança com aquela que a Microsoft detinha nos sistemas operacionais. É fato que a Apple produz aparelhos de alta qualidade. Mas a maioria dos observadores concorda em que são pouco melhores do que os dos rivais, se é que o são, e seus preços são altos.

Por que as pessoas os compram, então? Externalidades de rede: muita gente mais usa os iQualquercoisa, há mais apps para o iOS do que para outros sistemas operacionais, e com isso a Apple se torna a escolha mais segura e fácil. Meet the new boss, the same as the old boss [diga olá ao novo patrão, igualzinho ao velho patrão].

Há uma moral política a aprender com isso? Deixem-me propor ao menos um argumento negativo: mesmo que a Microsoft na verdade não tenha conseguido dominar o mundo, as preocupações antitruste quanto a ela não eram levianas. A Microsoft era um monopólio, vivia como rentista desse monopólio e não exibia inovação. A destruição criativa significa que monopólios não duram para sempre, mas não que sejam inofensivos enquanto duram. Isso valia para a Microsoft ontem; pode valer para a Apple, o Google, ou uma empresa que ainda não está em nosso radar, amanhã.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia (2008), colunista do jornal "The New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos científicos publicados.



domingo, 26 de maio de 2013

Ciência ainda não sabe se o mundo terminará no céu ou no inferno


Nossa leitura especial de domingo traz a resenha de dois livros, digamos, "futurólogos", escrita por Helio Schwartsman num artigo pra lá de interessante publicado na Folha de S. Paulo de 19/05/13:

Por que o inferno é aqui, e o paraíso, também

RESUMO O estudo de sistemas complexos, tão caro à ciência atual, está na origem de dois livros que tecem prognósticos opostos sobre o futuro da humanidade. Enquanto para John Casti os avanços tecnológicos podem nos levar ao descontrole e ao fim, para Peter Diamandis e Steven Kotler, eles nos aproximam de uma era de abundância.

O fenômeno é o mesmo --a complexidade--, mas, para um autor, ela trará a redenção da humanidade, na forma de energia e recursos inesgotáveis, enquanto, para o outro, implicará o colapso geral da sociedade. Para tornar as coisas um pouco mais complexas, é perfeitamente razoável sustentar que ambos estão certos.

Se queremos tornar a discussão pelo menos inteligível, convém começar pelo começo.

Numa definição para lá de problemática, "complexidade" é o termo que usamos para caracterizar sistemas compostos por muitas partes, que interagem de diversas maneiras, produzindo resultados que vão além da soma de seus componentes e são frequentemente imprevisíveis. O estudo de sistemas complexos e seus parentes, como a teoria do caos, emergência, dinâmicas não lineares, auto-organização, comportamento coletivo, abordagens holísticas etc., é a nova coqueluche da ciência.

O problema com a complexidade, como já insinuei no parágrafo acima, é que, além de ser complicada, ela anda perigosamente perto da imprevisibilidade ou, pelo menos, de diferentes graus de opacidade em relação ao futuro.

Para tornar o conceito um pouco menos abstrato, vale recorrer a um exemplo concreto. Pense numa carroça. Ela não é muito complexa. Você olha para o boi, as rodas, o eixo etc. e entende mais ou menos o que faz cada parte. Se ela quebrar, você pelo menos sabe qual peça precisa ser reparada ou substituída. Considere agora um avião moderno. Ele é complexo. Nenhuma de suas partes voa, mas elas interagem de forma a que o aparelho possa fazê-lo. E nem pense em consertar em casa o seu Airbus.

A complexidade não se limita a engenhocas. Ela também está presente em fenômenos naturais, como a meteorologia, e, principalmente, humanos. Há poucas coisas mais complexas do que a economia, por exemplo. Nela, milhões de agentes fazendo a mesma coisa quase sempre produzem efeitos qualitativamente diferentes dos que geraria uma única pessoa agindo deste modo.

INFERNO

4 veículos com diferentes níveis de complexidade
Como a complexidade se relaciona à destruição ou à salvação da nossa espécie? Seguindo o modelo de Dante, comecemos pelo Inferno. Aqui, nosso guia não é o poeta Virgílio, mas o matemático John Casti, especializado em teoria dos sistemas, que já lecionou em Princeton e nas universidades do Arizona e de Nova York, autor de "O Colapso de Tudo" [trad. Ivo Korytowski e Bruno Alexander, Intrínseca, 352 págs., R$ 29]. O subtítulo da edição brasileira é ainda mais ameaçador: "Os Eventos Extremos que Podem Destruir a Civilização a Qualquer Momento".

A primeira parte da obra traz uma explicação razoavelmente didática da complexidade e apresenta a noção de eventos X, que são acontecimentos relativamente raros, muito difíceis de prever (senão quanto ao "o quê", pelo menos quanto ao "quando") e que causam enorme impacto para grande número de pessoas. Estamos falando de coisas no patamar do 11 de Setembro ou da crise de 2008.

Não pretendo chatear o leitor descrevendo as propriedades matemáticas da complexidade e como ela se relaciona com os teoremas da incompletude de Gödel, mas creio que vale a pena destacar alguns dos sete princípios elencados por Casti, já que eles nos ajudam a entender melhor com que bicho estamos lidando.

O primeiro, que leva o nome de emersão, é justamente o fato de o todo diferir da soma das partes, como é o caso do seu Airbus.

O segundo princípio a merecer algum detalhamento é o mundialmente famoso efeito borboleta, um emblema da teoria do caos. A história de sua descoberta já revela suas propriedades.

O matemático Edward Lorenz testava modelos meteorológicos nos primeiros computadores --era 1960. Em certa ocasião, resolveu projetar cálculos no futuro, mas se serviu de dados que tinha numa planilha impressa para alimentar a máquina, em lugar de refazer tudo desde o princípio. No fim, os resultados do modelo original não batiam com os das projeções.

A diferença, Lorenz perceberia, tinha origem prosaica: na primeira conta, os dados numéricos iam até a sexta casa decimal, enquanto nas projeções iam só até a terceira, devido ao limite da impressora.

A diferença entre a terceira e a sexta casa --digamos, a diferença entre os números 0,506127 e 0,506-- bastou para "produzir" climas totalmente distintos. Como ela era pequena demais para ser detectada pelos instrumentos meteorológicos existentes à época, Lorenz concluiu que teria sido possível que o bater de asas de uma gaivota provocasse, semanas mais tarde, um furacão do outro lado do mundo. A gaivota, para fins poéticos, virou borboleta, o que não mudou o conceito que diz que sistemas caóticos são patologicamente sensíveis a mudanças minúsculas no estado inicial.

O terceiro princípio que me parece mais relevante é a chamada lei da variedade necessária. Ela basicamente postula que, numa interação entre dois ou mais sistemas, aquele encarregado de exercer a regulação sobre o(s) outro(s) precisa ter pelo menos o mesmo nível de complexidade do(s) controlado(s). Se eles estão em patamares diferentes, é muito possível que sobrevenha um evento X para reequilibrar o jogo.

Um exemplo concreto é o do coletor de impostos. De um modo geral, ele conta com uma variedade de ações para cobrar que é muito menor do que as disponíveis para contadores, advogados e contribuintes evitarem o pagamento.

Como não é muito sábio conferir superpoderes a agentes públicos, a melhor forma de reduzir a diferença é diminuir a variedade de instrumentos ao alcance dos sonegadores. Isso se faz reduzindo a quantidade de leis, decretos, portarias e regimes de exceção (a complexidade) do sistema tributário.

TRAGÉDIAS

Deixemos, porém, as questões teóricas e passemos ao ponto alto do livro de Casti, que é o guia das tragédias prestes a nos atingir. São 11 capítulos que fazem a alegria dos pessimistas, mostrando tudo o que pode dar errado. Os títulos e/ou subtítulos das seções são autoexplicativos: apagão digital, o esgotamento do sistema global de alimentos, um pulso eletromagnético destrói todos os aparelhos eletrônicos, o colapso da globalização, destruição da Terra pela criação de partículas exóticas, a desestabilização do panorama nuclear, o fim do suprimento global de petróleo, uma pandemia global, falta de energia elétrica e de água potável, robôs inteligentes sobrepujam a humanidade, deflação global e o colapso dos mercados financeiros mundiais.

São precisos altos níveis de paranoia para levar muito a sério certos cenários descritos pelo autor, como aquele em que um colisor de partículas acaba criando um buraco negro que suga o nosso planeta para sabe-se lá onde, ainda que eles sejam teoricamente possíveis.

Mas mesmo um realista tranquilo tem de admitir que vários dos casos levantados são não apenas verossímeis como prováveis. Ainda que não na escala imaginada por Casti, vários países já foram atingidos por blecautes mais ou menos generalizados. O problema fundamental é que os avanços tecnológicos cada vez mais complexos dos quais nos tornamos dependentes nos tornam extremamente vulneráveis a falhas nos sistemas.

Pior: como os próprios sistemas tendem a integrar-se e tornar-se dependentes uns dos outros, nossa vulnerabilidade aumenta: muitos dias sem energia significam não só falta de luz, mas também de água (que é bombeada), alimentos (que precisam ser resfriados), comunicações etc. Os distúrbios podem ser raros, isto é, os sistemas são individualmente seguros, mas, se dermos tempo suficiente, é certeza que eles ocorrerão.

Phytophthora ramorum, a praga
Para dar uma ideia mais precisa de "colapso", vejamos mais de perto o que ele tem a dizer sobre a falta de comida que cedo ou tarde nos matará a todos. Casti começa o capítulo lembrando que existem pragas botânicas e cita o terrível fungo Phytophthora ramorum, que pode destruir florestas inteiras de árvores e pula de uma espécie para outra. Imagine agora uma mutação no Phytophthora que o torne capaz de infectar grãos e não apenas árvores, e os dias da humanidade estão contados.

Na sequência, ele se põe a analisar outras ameaças que pairam sobre as culturas vegetais, como a misteriosa morte das abelhas (que são agentes polinizadores), a escassez de água, a erosão dos solos, as mudanças climáticas, o aumento dos preços de petróleo e a maior produção de biocombustíveis, o crescimento da população. Nesse mundo, até uma boa notícia, como o enriquecimento de nações mais pobres (e o consequente crescimento da demanda), se torna um problema.

Antes de comprar seu jazigo no cemitério mais próximo, convém dar uma olhadela no outro lado da complexidade. Para nos servir de guia na viagem ao paraíso, escolhi não Beatriz, mas Peter Diamandis e Steven Kotler, autores de "Abundância - O Futuro É Melhor do que Você Imagina" [trad. Ivo Korytowski, HSM, 424 págs., R$ 69].

Diamandis é um milionário com formação em engenharia espacial, genética e medicina. Kotler é jornalista científico. Ambos são seguidores do futurólogo Ray Kurzweil e membros ativos da Singularity University (SU), o "think tank" que pretende promover tecnologias que revertam para o bem da humanidade.

Quem leu "Cândido", de Voltaire, deve se lembrar do dr. Pangloss, o personagem doentiamente otimista inspirado em Leibniz. Pegue o otimismo de Pangloss, eleve-o a uma potência bem grande e você chegará perto do que diz o pessoal da SU. Para eles, estamos prestes a entrar numa era de superabundância, na qual tecnologias tornarão itens essenciais tão baratos que todos os habitantes da Terra terão acesso a bens e serviços até há pouco ao alcance apenas dos muito, muito ricos. E tudo isso no horizonte de uma geração.

O motor de tamanho progresso é a complexidade, mais especificamente o caráter exponencial do desenvolvimento tecnológico. Vale a pena dedicar algumas linhas a explicar melhor esse conceito.

Não faz muito tempo, o mundo era um lugar linear. Um músico até o século 19, por exemplo, recebia pelo número de execuções que fosse capaz de fazer. Sua plateia era limitada ao número de assentos no local de exibição e, se ele queria um par de trocados a mais, tinha de fazer uma apresentação extra.

Vieram, porém, o fonógrafo, a indústria do entretenimento, os computadores e entramos num universo exponencial. Hoje, um músico pode ficar milionário compondo uma única peça que faça sucesso. A casa cheia do mundo exponencial já não se restringe ao número de cadeiras no teatro, mas aos milhões, talvez até bilhões de terrestres que se disponham a baixar a canção em seus iPods.

A contrapartida disso é que a vida ficou mais difícil para os profissionais que não tiram a sorte grande (a maioria deles). Antes, eles tinham uma espécie de reserva de mercado, que era dada pela proximidade física necessária para escutar os sons emitidos pelos instrumentos. Essa barreira foi rompida. O trompetista do bar de jazz perto da sua casa concorre com todos os trompetistas do mundo, cujas performances estão disponíveis na internet.

LEI DE MOORE

A tecnologia, muito mais do que os músicos, se beneficia desse caráter exponencial. A rapidez e a precisão do computador para fazer contas permitem a criação de programas mais sofisticados, que ajudam a produzir componentes mais eficientes, que melhoram a performance dos computadores, que... No final do processo, temos coisas como a Lei de Moore, segundo a qual os aparelhos dobram sua rapidez a cada 18 meses. E pelo mesmo preço.

Isso, é claro, tem impacto na vida das pessoas. Num exemplo citado pelos autores, hoje, um guerreiro massai com seu smartphone tem acesso a mais informações do que dispunha o presidente dos EUA apenas 15 anos atrás.

Para Diamandis e Kotler, revoluções semelhantes estão para acontecer no acesso a água, alimentos, energia, educação e saúde. No que é provavelmente o aspecto mais interessante do livro, a dupla descreve dezenas de pesquisas, algumas bem adiantadas, que poderão em breve mudar a face do mundo. São coisas como membranas que dessalinizam a água, carne (sem colesterol) sintetizada em tubos de ensaio, reatores nucleares portáteis (e seguros) e telefones celulares que realizam exames de sangue e fornecem diagnósticos de doenças a seus donos.

No ensino, eles preveem nada menos do que "educação praticamente gratuita e personalizada para qualquer um em qualquer lugar". Isso seria possível graças à convergência da "computação infinita com a inteligência artificial, a banda larga ubíqua e os tablets de baixo custo". Evidentemente, uma população muito mais instruída seria capaz de fazer a tecnologia avançar muito mais.

Num exemplo bem escatológico, Diamandis e Kotler falam da verba que a Fundação Bill e Melinda Gates disponibilizou para reinventar a privada. A ideia aqui é desenvolver tecnologias que permitam às pessoas ir ao banheiro sem gastar água nem precisar construir esgotos e, é claro, sem contaminar todos à sua volta.

Em teoria, é possível queimar a matéria fecal e produzir energia suficiente para transformar a urina em água potável e alguns poucos resíduos sólidos. Na verdade, como a queima das fezes expelidas por um ser humano típico dá um megajoule por dia, até sobraria um pouco de energia para carregar o seu celular. As tecnologias para isso já existem. O desafio é juntar tudo a um preço acessível.

Vale destacar aqui que o mentor Kurzweil vai além do que dizem os autores de "Abundância" e prevê para breve uma singularidade tecnológica, na qual o passo dos avanços seria "tão rápido que pareceria infinito". Isso culminaria na criação de uma superinteligência artificial, que nos permitiria manipular características humanas como o desempenho intelectual e sensorial, levando a uma era transumana. Evidentemente, aqui já nos afastamos do terreno das especulações inspiradas na ciência para nos aproximar perigosamente da religião em estado puro.

Quem tem razão? Casti ou a dupla Diamandis/Kotler? O colapso ou a singularidade?

Como destacamos no início do texto, ambos são consequências lógicas possíveis da maior complexidade tecnológica que trouxemos para nossas vidas. Excluídos os cenários mais catastróficos, que impliquem a extinção da humanidade, dificilmente poderemos cravar que um dos lados tenha triunfado.

A razão é que não há linha de chegada definida. Eventos X deverão se alternar com conquistas tecnológicas com potencial para transformar nossas vidas, condenando-nos a uma espécie de maldição de Cassandra, na qual as previsões mais otimistas serão desmentidas por acontecimentos trágicos, e visões muito pessimistas serão rechaçadas por avanços claros.

Por ora, Diamandis/Kotler estão com a vantagem. Para começar, nós ainda estamos aqui. De resto avanços científicos e tecnológicos respondem pelo fato de vivermos hoje mais e, em termos materiais, muito melhor do que nossos antepassados. A expectativa de vida ao nascer saltou de 26 anos na Idade do Bronze para quase 70 anos hoje, chegando a 80 nos países desenvolvidos. A captura de calorias passou de cerca de 2.000 por pessoa por dia, a alimentação mínima necessária para sobreviver, para perdulários 228 mil no Ocidente.



quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Internet não é sinônimo de livre informação

Interessante matéria publicada na revista Época de 06/08/12:

"A internet esconde quem discorda de você"

Autor do livro O filtro invisível, o ativista digital americano Eli Pariser alerta contra a personalização do conteúdo em sites como o Google e o Facebook

DANILO VENTICINQUE

Numa tarde em 2011, ao acessar seu perfil no Facebook, o americano Eli Pariser, de 31 anos, notou uma mudança repentina. Sem aviso, todos os posts de seus amigos republicanos tinham desaparecido. A fórmula usada pelo site para decidir que posts eram mais relevantes determinara que, como ele clicava mais em links enviados por democratas, as atualizações desses amigos eram mais importantes que as dos outros e deveriam receber mais destaque. A mudança não lhe agradou. Embora trabalhasse num site que arrecadava doações para as campanhas de candidatos democratas, Pariser não queria deixar de ter acesso às opiniões de colegas conservadores, que considerava igualmente importantes para seu trabalho.

A busca por uma explicação para o sumiço dos amigos republicanos inspirou o livro O filtro invisível, que aborda os perigos da personalização do conteúdo em sites como o Facebook e o Google. Quanto maior for o esforço para oferecer informações personalizadas a cada usuário, maior o risco de que os filtros isolem as pessoas em bolhas virtuais, sem nenhum acesso a opiniões diferentes das suas. Além de transformar o autor num dos palestrantes mais populares do mundo da tecnologia, o livro provocou um debate intenso nas redes sociais e inspirou pequenas mudanças no sistema de buscas do Google.

ÉPOCA – O título de seu livro, O filtro invisível, sugere que as informações que acessamos na internet são filtradas antes de chegar a nós. Quando isso começou a acontecer?

Eli Pariser – Costumo dizer que a internet não é a mesma desde dezembro de 2010, quando o Google ativou as buscas personalizadas para todos os usuários. Foi o momento em que deixamos de ter um Google para todos, com os mesmos resultados, e passamos a ter resultados filtrados para cada pessoa. Duas pessoas procurando as mesmas palavras ao mesmo tempo podem receber resultados muito diferentes. Foi uma mudança importante, pois os usuários imaginam que o Google seja neutro e imparcial e ofereça respostas universais. Mas ele deixou de fazer isso há algum tempo.

ÉPOCA – Como esses filtros digitais funcionam?

Pariser – A personalização surgiu como uma forma de tentar adivinhar o que o usuário quer, mesmo que ele faça uma busca incompleta. Se você buscar por “Egito” e suas informações pessoais armazenadas no banco de dados do Google indicarem que você costuma viajar com frequência, é mais provável que os primeiros resultados sejam sites de companhias aéreas que vendam passagens para lá. Isso pode até ser bom. Mas informações importantes podem ficar de fora dos resultados. Se a situação interna no Egito estiver tensa e houver algum tipo de revolta naquele dia, essa informação é tão importante para você quanto para um amigo seu interessado em política internacional. O mesmo vale para o Facebook. O site edita o conteúdo de sua linha do tempo para dar mais ênfase aos amigos com quem você costuma interagir mais e esconder os posts de amigos com quem você interage menos. Isso é feito por fórmulas matemáticas complexas, que levam em conta cada um de nossos cliques quando estamos no site, e funciona de acordo com regras obscuras para o usuário. Sabemos de concreto apenas que, quanto mais tempo passamos no Facebook, mais temos acesso apenas às opiniões de nossos amigos. E, entre nossos amigos, as pessoas com quem interagimos mais ou concordamos mais têm um peso maior. Isso nos coloca num ciclo: quanto mais vemos os posts de algumas pessoas, mais interagimos com elas e mais destaque elas têm. No fim das contas, os sites escondem quem discorda de você, e sua visão de mundo acaba ficando distorcida.

ÉPOCA – Fora da internet, também é comum dar mais atenção a pessoas cujas opiniões são parecidas com as nossas. Esse fenômeno nas redes sociais não seria apenas a repetição de um hábito comum a todos?

Pariser – Isso sempre existiu, mas o agravante da internet é que existe uma suposta neutralidade. Quando você lê uma revista ou liga a televisão, você tem uma ideia de qual é a linha editorial daquela publicação ou canal. O mesmo vale, mais ainda, quando você conversa pessoalmente com um amigo cujas opiniões políticas você conhece. Você sabe quais pontos de vista estão lá e quais não estão, e sabe onde encontrar os que ficaram de fora. No Google e no Facebook, nada é explícito. Você não sabe em que perfil de usuário os sites te enquadram nem em que informações se basearam para chegar àquela conclusão. Não é possível saber o que você está perdendo, que partes da internet estão fora de seu alcance. As informações desaparecem sem aviso.

ÉPOCA – O livro compara a ação dos filtros à censura. Não é exagero?

Pariser – É uma forma muito sutil de censura. Você não é proibido de ver nada, mas sua atenção é dirigida de forma que você não note que a informação existe. Como dependemos cada vez mais dos resultados de busca ou de indicações nas redes sociais para chegar a um conteúdo na internet, o filtro invisível pode esconder páginas e pessoas definitivamente. As consequências disso podem ser muito graves.

ÉPOCA – Isso muda a visão romântica da internet como um espaço livre e sem fronteiras para a troca de informações?

Pariser – É pior que isso. Nós, na prática, não estamos todos na mesma internet. Duas pessoas podem acessar o mesmo site ao mesmo tempo e ver informações diferentes, adaptadas a suas opiniões. Cresci com grandes expectativas em relação à internet. Esperava que ela fosse um lugar em que todos pudessem expandir sua visão de mundo. A personalização excessiva não permite que isso aconteça. E a tendência é que ela aumente, porque os sites que fazem isso são muito lucrativos. É mais fácil vender publicidade num site quando o anunciante sabe que o público que chegou a ele foi filtrado e gosta do produto anunciado. Também existe um mercado enorme para empresas que vendem nossas informações pessoais para outros sites. Quanto mais empresas compram essas informações, mais nossas preferências continuam a ditar o que nos é mostrado. Há muito dinheiro nesse mercado. Mas o mais lucrativo não é necessariamente o melhor para a sociedade. As grandes empresas de tecnologia são comandadas por pessoas muito jovens, com uma capacidade técnica impressionante, mas que não têm a formação humana necessária para perceber que existe um dilema ético na personalização dos sites.

ÉPOCA – Que riscos corremos quando não temos contato com opiniões diferentes das nossas?

Pariser – A primeira coisa que você perde é seu senso de falibilidade. Quando todas as pessoas a seu redor concordam com você, é fácil acreditar que sua opinião é a verdade para todos, e não apenas para alguns de seus amigos. E, se ninguém enfrenta seus argumentos, é natural que você imagine que está certo e que não há espaço para discussão. Isso vale para tudo, desde as grandes questões políticas aos pequenos preconceitos. Com o tempo, essa falta de debate pode tornar as pessoas mais intolerantes.

ÉPOCA – É possível reverter esse fenômeno ou a era de ouro da internet acabou?

Pariser – Não sou um pessimista. Acredito que as empresas precisam achar uma maneira de dar poder aos usuários, e não apenas aos anunciantes. É possível encontrar formas de personalizar o conteúdo e, ao mesmo tempo, permitir que os usuários saibam o que é deixado de fora. Assim, poderíamos decidir se queremos os resultados filtrados ou não. Depois que lancei meu livro, o Google passou a permitir que as pessoas tivessem acesso aos resultados sem filtro mais facilmente. Algumas pesquisas que fizemos mostram que vários usuários preferem esses resultados. Fiquei feliz com a mudança. Quando tive minhas primeiras conversas com executivos do Google para escrever O filtro invisível, era muito difícil convencê-los de que havia dilemas éticos na maneira como os resultados das buscas eram apresentados. O Twitter é outro bom exemplo de como o usuário pode estar no controle. Ao contrário do Facebook, ele não atribui maior ou menor relevância aos tweets de quem concorda conosco. Quando você decide seguir alguém, passa a receber todo o conteúdo produzido pela pessoa. Se quiser deixar de ver os posts de alguém, precisa deixar de segui-lo. É uma relação menos passiva entre usuário e serviço.

ÉPOCA – O que podemos fazer para evitar esses filtros quando estamos na internet?

Pariser – É muito difícil acessar a internet sem fornecer informações pessoais. O Facebook não existe sem isso. Alguém que quisesse escapar do filtro invisível teria de ficar fora dessa rede social. Para algumas pessoas, seria uma perda muito grande. O Google também depende muito dessas informações para funcionar. Se você fizesse uma busca por “pizza” sem que o Google tivesse acesso a dados sobre sua localização, seria impossível indicar uma pizzaria perto de sua casa. Um pouco de personalização ajuda a fornecer resultados mais úteis. O que precisamos fazer não é evitar usar esses sites, mas sim lutar para que eles nos permitam escolher se acessaremos a versão personalizada ou não. Também deveríamos ter mais controle sobre o que é feito com nossas informações pessoais. Elas são valiosas. Quando acessamos um serviço teoricamente gratuito, como o Gmail ou o Facebook, na verdade estamos pagando com nossos dados, que têm um valor de mercado. Essas informações ajudam a construir filtros de conteúdo ainda mais elaborados, usados para vender publicidade. Não sabemos o preço que estamos pagando para acessar um site gratuito, mas as empresas sabem.



terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Um silêncio ensurdecedor

Desde meados da semana passada, uma parte significativa da população brasileira, pelo menos aquela porção que tem condições de acessar informação não controlada pela mídia ou pelo governo, está estarrecida com o lançamento de um livro pela Geração Editorial, "A Privataria Tucana", do jornalista Amaury Ribeiro Jr., que expõe os intestinos da era da privatização da telefonia brasileira, no governo FHC, do PSDB, com ênfase nas articulações pouco ortodoxas de José Serra, ex-candidato a Presidente da República em 2002 e 2010, mas também sobra parte da munição para gente do PT, segundo dizem, já que não tive oportunidade de ler ainda o livro, que já está a caminho de casa, segundo a Livraria Saraiva me informou ontem. Entretanto, o livro em si, ao que parece, traz provas irrefutáveis de ligações tucanas no mínimo estranhas com gente que foi (muito) beneficiada pelas privatizações no Brasil. Aliás, não se trata nem de uma discussão se a privatização foi ou não uma boa solução para o Brasil, mas se a sua motivação principal foi a abertura da economia ou o desvio de recursos públicos e a venda de estatais a um grupinho seleto de amigos. Independentemente do que você ache a respeito, ou mesmo da sua posição política a favor ou contra esse ou aquele partido, o que está chamando a atenção nos últimos é o silêncio da grande mídia brasileira a respeito do assunto. Não só da mídia, registre-se, mas também do PT, a quem - em tese - interessaria investigar e execrar seus rivais tucanos diante de uma bomba como essa. Só que os deputados e senadores do PT fingem que nada sabem, e seu comportamento de avestruz revela que o teatro político brasileiro não deve ter nenhum mocinho. Pelo jeito, são todos vilões.

Diante desse quadro de mistura nada ética de políticos de situação e oposição num pacto do algodão no ouvido e do esparadrapo na boca, a imprensa deveria ser a nossa salvação. Só que reina um silêncio mortal nas redações da Globo, SBT, Folha, Abril e Estadão. A lei da mordaça impera nesse lugares, e eles nem se preocupam em desqualificar o livro ou seu autor, talvez porque seja realmente impossível desmontar as provas documentais que ele traz. Este silêncio ensurdecedor, como diz Bob Fernandes no comentário abaixo, feito na pouco vista TV Gazeta de SP, é revelador. Mostra o perigo que TODA a sociedade brasileira está correndo com uma mídia que - ao que tudo indica - deve ter o rabo preso com alguém, ou com algum esquema do qual se favoreceu ou é favorecida, a ponto de se calar sobre o maior fenômeno editorial dos últimos anos, um livro que tem vendido na casa dos milhares ao dia, mesmo que a primeira edição já tenha se esgotado e as próximas reimpressões já estejam dobradas. Mais do que a reputação desse ou daquele político medalhão, ou da própria imprensa, o que está em jogo é a democracia brasileira. Como já dissemos em outra oportunidade aqui no blog, liberdade de imprensa não é sinônimo de liberdade de expressão, e ambas também não se confundem com a liberdade de informação. São três liberdades distintas, e do equilíbrio entre elas depende a saúde democrática de um país. Liberdade de expressão temos todos. Liberdade de imprensa só têm aqueles que conseguem montar um veículo próprio para noticiar o que querem. Liberdade de informação deveríamos ter todos, mas ultimamente só aqueles que vão buscá-la em veículos como a internet é que conseguem alcançá-la. Além do conchavo político por baixo dos panos entre PSDB e PT, o silêncio que reina na imprensa brasileira sugere, pelo menos, que existe algo tão grave por trás dos bastidores das suas redações que jornais, revistas e televisões têm tanto medo de revelá-lo a ponto de arriscarem a sua própria sobrevivência para levar o segredo à cova. Independentemente da sua preferência partidária, você tem TODO o direito de ser corretamente informado. É por essa e outras que o comentário de Bob Fernandes, abaixo, é tanto revelador como assustador:



Abaixo segue a íntegra da entrevista do escritor Amaury Ribeiro Jr., em que fatos e conexões nunca imaginados são revelados:






Abaixo a entrevista do autor Amaury Ribeiro Jr. a Heródoto Barbeiro, no Jornal da Record News:



Abaixo a entrevista do autor a Paulo Henrique Amorim, na Record News:






sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A realidade segundo William Bonner

Dunga, o ex-técnico da seleção brasileira na última Copa do Mundo na África do Sul (2010), deu uma entrevista a Jorge Kajuru no programa deste no canal Esporte Interativo e, entre uma e outra declaração relativamente polêmica (já que nenhuma novidade gritante veio a público), um detalhe passou desapercebido, quando ele comentou que teve um jantar com William Bonner e Fátima Bernardes, apresentadores do Jornal Nacional da Rede Globo, e Bonner teria lhe dito que "quanto estiverem te batendo muito, eu vou equilibrar... quando estiverem elogiando muito, eu também vou equilibrar". 

O contexto permite inferir que Bonner se referia a um eventual tratamento excessivamente duro ou afável da mídia, que o seu Jornal Nacional procuraria "equilibrar". 

Esse pequeno detalhe diz muito sobre o papel da imprensa e a sua capacidade de, por assim dizer, "fabricar a verdade" à margem da realidade dos fatos. 

A favor da Globo e de Bonner, registre-se que esta não é uma prática exclusiva deles, mas da mídia em geral, que - com uma certa frequência - tem mesmo que encontrar a voz média entre as muitas vozes conflitantes e contraditórias sobre um determinado fato controverso, mas - em tese e em regra - não lhe cabe "equilibrar" as versões ou o tratamento dado por outros órgãos da imprensa, valendo-se do seu poder de audiência (como é o caso do JN) para "determinar" o que é real e o que é falso na abordagem de uma determinada notícia. 

Liberdade de imprensa é ótimo e essencial, mas liberdade de informação, com todos os erros e exageros que lhe são inerentes, é muito mais importante.

Abaixo, o trecho em que Dunga fala do jantar:



domingo, 14 de fevereiro de 2010

Informação é poder

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