Mostrando postagens com marcador Rembrandt. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rembrandt. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Lázaro ressurge: médico diz que algumas pessoas podem ser ressuscitadas horas depois da "morte"

"A Ressurreição de Lázaro", por Rembrandt

Já publicamos aqui vários relatos sobre experiências de quase-morte, e agora um médico americano escreve um livro afirmando que é possível ressuscitar alguém horas depois de sua "morte". Não por acaso o título do livro é "O Efeito Lázaro".

A matéria é da BBC Brasil:

Pacientes podem ser ressuscitados horas após morte, diz médico

William Kremer

Um médico defende que uma pessoa pode ser ressuscitada várias horas depois de seu coração parar de bater. Será que isto pode mudar a forma como encaramos a morte?

Carol Brothers não consegue se lembrar da hora em que "morreu", há três meses.

"Eu sei que era uma sexta-feira, na hora do almoço, porque a gente tinha acabado de voltar do supermercado", conta a britânica de 63 anos. "Mas não me lembro de ter saído do carro."

Já seu marido David tem memórias muito mais claras daquele dia. Ele abriu a porta de casa e viu a mulher caída no chão, ofegante e pálida. Carol acabara de sofrer uma parada cardíaca. Por sorte, um vizinho conhecia os procedimentos básicos de ressuscitação cardiopulmonar (RCP) e rapidamente começou a pressionar seu tórax repetidas vezes na tentativa de reanimá-la.

Os paramédicos chegaram logo em seguida e, em algum momento entre 30 e 45 minutos depois do ataque cardíaco, o coração de Carol voltou a bater. "Apesar de 45 minutos ser um tempo enorme que levaria muitas pessoas a acreditarem que ela estaria morta, hoje sabemos que há pessoas que voltaram a vida três, quatro, cinco horas após morrerem e depois disso tiveram vidas normais", diz o médico Sam Parnia, diretor de pesquisa sobre ressuscitação na Stony Brook University, em Nova York.

Muitas pessoas consideram uma parada cardíaca como sinônimo de morte, diz ele. Mas muitas vezes não é o fim.

O efeito de Lázaro

Parnia é autor do livro, Lazarus Effect ("O Efeito de Lázaro", em tradução livre, uma alusão à passagem bíblica que relata que Jesus ressuscitou Lázaro quarto dias após sua morte). Ele explica que depois que o cérebro para de receber oxigênio por meio da circulação sanguínea, não morre imediatamente, mas entra em estado de hibernação, uma forma de se defender do processo de decomposição.

E o "acordar" desse estágio de hibernação pode ser o momento mais crítico de todos, já que o oxigênio pode se tornar tóxico para o cérebro. O efeito, compara Parnia, é como o de um tsunami após um terremoto, e a melhor resposta é resfriar os pacientes, de 37ºC para 32ºC.

"A razão pela qual a terapia de resfriamento funciona bem é porque desacelera a decomposição do cérebro", diz Parnia.

E foi nesse momento que Carol Brothers teve sorte. Depois que seu coração voltou a bater, ela foi transferida para um helicóptero, onde um médico a resfriou utilizando pacotes de comida congelada que ela havia acabado de comprar.

Depois de dias em coma na UTI, durante os quais exames sugeriam que ela estava com morte cerebral, Carol acordou.

"Ela me disse três palavras", relembra a filha Maxine. "Estou voltando para casa", teria dito Carol, sussurrando.

Deus ou diabo

Sam Parnia é fascinado por relatos de pacientes que sentiram a morte de perto.

"Pessoas no mundo todo descrevem experiências semelhantes, mas a interpretação do que eles veem depende muito de sua crença", diz ele.

Essas descrições incluem viagens em túneis iluminados, encontros com figuras angelicais, recordações de eventos passados e, em alguns casos, a sensação de se observar a mesa de cirurgia da perspectiva de quem está "fora do corpo".

O médico está atualmente trabalhando com vários hospitais para investigar relatos desse tipo de experiências "fora do corpo". Como parte do estudo, os pesquisadores posicionaram objetos em prateleiras em salas de operação, que só podem ser observados do alto.

Caroline Watt é psicóloga na Universidade de Edimburgo especializada em examinar relatos paranormais. De mente aberta, ela é também crítica. Ela foi coautora de um artigo que sugere que a sensação da morte pode ser baseada em atividades neurológicas.

Ela afirma que um estudo indica que cerca de metade dos pacientes que disseram ter visto a morte de perto tiveram essa experiência sem estar perto de morrer. Essa sensação foi vivida em momentos de grande expectativa de experiência traumática, como no caso de um nascimento, quando se da à luz, por exemplo. Isso sugere que, qualquer que tenha sido essa sensação, ela não chega a ser uma amostra do que pode ser experimentado perto ou depois da morte.

Ruth Lambert diz ter tido a sensação da morte depois que uma queda interrompeu a circulação de sangue para seu cérebro.

"Foi uma sensação de boas-vindas e de estar indo para um lugar melhor", relembra. "Eu senti a presença forte de Deus, de que não era a minha hora, e então eu acordei".

Desde então, ela disse ter ouvido relatos de outras pessoas que quase morreram. Ela se lembra especificamente de um homem que voltou do coma horrorizado.

"Ele achava ter visto o diabo se aproximando e dizendo: você é meu agora, peguei você."

Se Carol Brothers viu Deus ou o Diabo, ela não se lembra.

"Nenhum dos dois me quis. Eles jogaram cara ou coroa e a moeda caiu em pé."



segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O evangelho de Lucas - parte 40



Encerrando o estudo sobre o evangelho de Lucas, com o capítulo 24:

Quando se lê o último capítulo do evangelho de Lucas, se nota uma diferença significativa em relação ao epílogo dos outros três evangelhos. Enquanto os outros se preocupam em dar mais detalhes sobre o evento da ressurreição propriamente dito (no caso de João, no penúltimo capítulo, o 20), Lucas se concentra em poucos discípulos, suprimindo alguns fatos e narrando outros acontecimentos de maneira muito rápida, talvez já preparando o leitor para a continuação de seu relato que se daria no livro de Atos dos Apóstolos, cujos 11 primeiros versículos se referem um pouco mais sobre os passos de Jesus desde a sua ressurreição até a ascensão ao céu.

Por sinal, cada evangelista tem uma maneira própria de encerrar seu evangelho. Mateus (cap. 28) dá mais atenção aos eventos da manhã da ressurreição, tanto da reação dos discípulos como das autoridades judaicas e romanas. Marcos (cap. 16) se assemelha mais a Lucas e concentra o relato pós-ressurreição nos encontros com os discípulos, inclusive aquele do caminho de Emaús (vv. 12-13) que Lucas ampliará bastante no seu evangelho, o que mostra que Marcos (que já circulava à época) e a misteriosa “fonte Q”, comum a ambos, talvez tenham sido a sua maior influência.

João, por sua vez, é o mais detalhado de todos a respeito da reação dos discípulos imediatamente após a ressurreição, isto no capítulo 20, mas depois fala do encontro de Jesus com seus discípulos no mar de Tiberíades (cap. 21), e sobre como ele os confirmou e os enviou, especialmente a Pedro e o próprio João. O traço comum a todos os evangelhos é, portanto, a resposta de Jesus à pergunta que podemos supor que os discípulos estavam se fazendo, mesmo depois de ver o Salvador ressurreto e já na expectativa de Sua ascensão ao céu: “E agora, o que vamos fazer?”

Dos 53 versículos do último capítulo de Lucas, 24 deles são utilizados para contar a história dos dois discípulos desde sua ida para Emaús até a volta repentina para Jerusalém a fim de contar aos outros que Jesus havia ressuscitado, ou seja, praticamente metade do capítulo é dedicado a contar essa história.

Os primeiros versículos, entretanto, se concentram nas mulheres que foram as primeiras testemunhas da ressurreição de Lucas, seguindo o estilo do evangelista de dar vez e voz ao olhar feminino sobre a missão de Cristo na Terra. Logo cedo, “Maria Madalena, e Joana, e Maria, mãe de Tiago” (identificadas no v. 10) vão ao sepulcro de Jesus, mas a pedra que selava a entrada havia sido movida e não havia mais nenhum corpo por lá (vv. 1-3).

Joana devia ser uma discípula muito importante, já que Lucas havia se referido a ela (cap. 8:3), dizendo que era “mulher de Cuza, procurador de Herodes”. Alguém que gozava de uma boa reputação em Jerusalém, portanto. Aparecem-lhes, então, “dois varões com vestes resplandecentes” (v. 4), que elas reconhecem como anjos e baixam os olhos em sinal de temor e reverência (v. 5), enquanto eles lhes perguntam “Por que buscais entre os mortos ao que vive?” e lhes mostram como elas já deveriam saber disso se houvessem prestado mais atenção nas palavras de Jesus (vv. 6-8).

Aliás, essa é outra tônica do capítulo 24: relembrar como a vida, morte e ressurreição do Messias já estavam previstas nas Escrituras judaicas e nos ensinamentos do próprio Cristo. As mulheres voltaram rapidamente para o encontro dos demais discípulos, relatando-lhes os estranhos fatos daquela manhã, mas ninguém lhes deu crédito (vv. 9-11), salvo Pedro, que, por via das dúvidas, tratou de correr ele mesmo até o sepulcro e constatou que ele estava vazio (v. 12). João, com a humildade que lhe é característica, depois dirá no seu evangelho que ele correu atrás de Pedro e chegou lá primeiro, mas não entrou no túmulo (João 20:4).

A partir de então, Lucas volta seus olhos para o caminho de Emaús, ampliando enormemente uma história que já havia sido mencionada rapidamente por Marcos (16:12). Emaús era um pequeno vilarejo localizado a “60 estádios” (equivalente a cerca de 11 km) de Jerusalém, que tinha uma certa importância para o povo judeu por ter sido lá que houve a batalha de Emaús, em que Judas Macabeu venceu os selêucidas no ano 166 a. C. (deuterocanônico 1ª Macabeus cap. 4), mas que perdeu importância com o passar do tempo e foi destruída após a morte de Herodes, o Grande por ordem do então governador romano Varus (ano 4 a. C.).

Logo, no tempo da caminhada de Jesus com os discípulos até lá, Emaús começava a ser reabitada depois de ter sido queimada pelos romanos quase 40 anos antes. Continuará pouco povoada até que no ano 221 d. C. o imperador romano Heliogábalo refunda a cidade dando-lhe o nome de Nicópolis. Curiosamente, alguns séculos depois estava reservada a Emaús fazer parte da história da fundação de outra religião, a islâmica.

O profeta Maomé havia morrido no ano 632 e sete anos depois, em 639 d. C., Emaús havia acabado de ser conquistada pelas tropas muçulmanas do Califado Rashidun, que estabeleceu ali um acampamento militar, quando uma praga - provavelmente de peste bubônica - se propagou pela cidade levando à morte de 25.000 pessoas. Apesar da distância concêntrica de 11 km a partir de Jerusalém diminuir as possibilidades de se localizar o local exato da antiga Emaús, há vários vilarejos que se candidatam ao honroso posto, embora a versão mais aceita atualmente é a de que o povoado palestino de Imwas mereça o título de herdeiro de Emaús.

No começo do relato de Lucas 24, dois discípulos se dirigem desconsolados para Emaús (v. 13). Um deles se chama Cleopas (v. 18), que a tradição oral identifica também como Alfeu, que teria sido irmão de José, marido de Maria mãe de Jesus, logo, uma espécie de “tio postiço” do Mestre, além de pai dos apóstolos Tiago e Judas Tadeu, embora não haja qualquer evidência conclusiva neste sentido.

Mais tarde, por volta do ano 404 d. C., São Jerônimo escreverá em sua carta 108 (a Eustáquio), que uma igreja cristã foi posteriormente instituída na casa de Cleopas em homenagem à ceia que Jesus participaria logo depois de encontrar os discípulos no caminho, conversando sobre as coisas que haviam acontecido naqueles dias terríveis em Jerusalém (v. 14). O v. 15 diz ainda que eles “discutiam” sobre isso, provavelmente comparando o medonho sacrifício da cruz com todos os ensinamentos que eles tinham ouvido do próprio Mestre quando conviviam com ele.

Neste momento, Jesus se aproxima deles, mas os discípulos não o reconhecem (v. 16), talvez por estarem tão concentrados na sua dor e nem cogitarem que Jesus pudesse ter ressuscitado. Cristo então lhes pergunta por que estavam tão preocupados e tristes (v. 17) e eles lhe dão uma resposta atravessada, irônica, perguntando se o recém-chegado companheiro de viagem era o único peregrino que havia estado em Jerusalém naqueles dias e não sabia do que tinha ocorrido (v. 18).

Utilizam para tanto a palavra grega παροικέω - paroikeō - que significa “estrangeiro”, “peregrino”, alguém que era de fora do contexto social e nacional em que ele viviam. Afinal, a crucificação de Cristo havia sido um acontecimento público que movimentou de tal maneira a comunidade local que era inconcebível que alguém estivesse por lá, ainda que de passagem, e não soubesse o que estava acontecendo.

Jesus não se dá por vencido, e lhes pergunta que coisas eram essas, incitando-os a “dissecar” a sua dor, o que eles fazem em seguida, relatando a injustiça cometida contra o Salvador desde o julgamento até a crucificação (vv. 19-20). Jesus estava lhes dando a oportunidade de desabafar e compartilhar a sua tristeza e incredulidade, e eles a aproveitam ao máximo, contando como esperavam que Ele fosse redimir Israel (de maneira política, armada talvez) e como as mulheres lhes haviam dito que o Cristo ressuscitara, mas ninguém o havia visto (vv. 21-24).

O Mestre, então, os chama de “néscios e tardos de coração para crer” em tudo o que já havia sido predito pelos profetas sobre o seu sofrimento (vv. 25-26), expondo-lhes detalhadamente todas as profecias que davam conta das coisas que aconteceram e eles tinham visto e ouvido (v. 27). É interessante o contraste que Lucas promove entre essa saída desconsolada de Jerusalém e o período anterior à subida animada a Jerusalém (Lucas 18:31-34), em que Jesus já alertava aos seus discípulos que ali se cumpriria tudo o que já havia sido predito sobre Ele pelos profetas.

Quando chegaram a Emaús, Jesus prosseguiu no seu caminho, como se fosse mais adiante (v. 28), mas os discípulos, talvez temerosos de perder uma companhia tão agradável e reconfortante, o convidaram para passar a noite com eles (v. 29), aproveitando o adiantado da hora.

Prepararam uma pequena ceia, e quando Jesus pegou o pão, o abençoou, partiu-o e repartiu-o com eles (v. 30), os seus olhos finalmente foram abertos e o reconheceram, mas o Mestre desapareceu diante dos mesmos olhos que até então não o haviam enxergado (v. 31). Só aí se deram conta de que o coração deles ardia enquanto ouviam a exposição das Escrituras pela boca do próprio Senhor (v. 32).

Não deixa de ser um relato que tem lições profundas para o nosso dia-a-dia, sobre a maneira como os olhos espirituais precisam estar abertos para atenderem e aprenderem sobre as verdades espirituais, e como o nosso coração se aquece quanto mais nos aproximamos de Deus. Maravilhados, os discípulos nem se preocuparam pelo fato de que já era tarde da noite e o caminho de volta era perigoso.

A mesma Providência Divina que os havia brindado com a companhia do Mestre até Emaús, haveria de protegê-los no caminho inverso. Trataram de voltar imediatamente para Jerusalém, onde estavam os onze apóstolos e outros discípulos (v. 33), que lhes contam que Jesus havia ressuscitado e já tinha aparecido a Pedro (v. 34).

Essa primeira aparição a Pedro é um fato que só Lucas registra entre os evangelistas, mas que será confirmado mais tarde por Paulo em sua 1ª Carta aos Coríntios (15:5). Os discípulos de Emaús contam então o que lhes havia acontecido (v. 35), e ainda estavam no meio do seu relato quando o próprio Cristo se materializa diante deles (v. 36), deixando-lhes assustados porque imaginavam que estavam vendo uma assombração (v. 37).

Não deixa de ser importante notar que, apesar de ser composto de carne e osso, o corpo ressurreto de Jesus tem propriedades que transcendem a compreensão humana. A incredulidade coletiva dos discípulos é, de certa forma, ironizada por Ele, que lhes pede que o toquem, mostrando-lhes as mãos e os pés com as chagas (vv. 38-40). Agora, era a alegria que os impedia de crer (v. 41), e Jesus lhes pede algo para comer, e lhe preparam um pedaço de peixe assado e um favo de mel (vv. 42-43).

De novo, Ele faz referência à importância das profecias e das Escrituras (v. 44), abrindo-lhes o entendimento para – finalmente – entendê-las (v. 45), explicando-lhes sobre a necessidade de seu padecimento e de sua ressurreição (v. 46) para que a salvação fosse pregada a todo o mundo, a começar por Jerusalém (v. 47), já que os discípulos eram testemunhas de todas essas coisas (v. 48), mas deviam ficar na cidade até serem revestidos do poder do Espírito Santo (v. 49).

Esse é um dado importante, pois ao lermos essa narrativa temos a tendência de criticar a ignorância espiritual dos discípulos, mas nos esquecemos facilmente de que eles não tinham ainda a sabedoria e o discernimento espiritual que hoje nos é dado pelo Espírito Santo quando nos convertemos (ou mesmo quando toca o pecador perdido com a graça regeneradora para que ele creia).

Isto não nos exime, entretanto, da simbologia à qual Lucas dá tanta atenção: a importância de se abrirem os olhos espirituais para ter um encontro verdadeiro com Deus através de Seu Filho Jesus Cristo. J. C. Ryle disse certa vez: “Agradeçamos a Deus pelo fato de poder haver graça verdadeira escondida debaixo de muita ignorância intelectual. Um conhecimento claro e acurado é algo muito útil, mas não é absolutamente necessário para a salvação, e pode até mesmo ser alcançado sem a graça”.

Nos versículos finais, que contam muito rapidamente a ascensão de Jesus (que será mais detalhada no primeiro capítulo de Atos, também escrito por Lucas), Jesus leva seus discípulos até Betânia (vv. 50-53).

Não está claro aqui a que lugar eles foram, exatamente, mas é de se supor que, antes de ascender aos céus, Jesus quis voltar ao lugar que lhe era mais familiar, onde se sentia melhor na sua jornada humana por este mundo: a casa de Maria, Marta e de Lázaro, seu amigo e companheiro de ressurreição, pessoas a quem Ele amava profundamente, a ponto de João (11:5) fazer questão de registrar.

Não havia outro lugar onde o Mestre se sentisse mais à vontade e onde pudesse, talvez, ressaltar a seus discípulos a importância do companheirismo e da amizade diante das enormes dificuldades que eles não sabiam ainda que teriam que enfrentar. Em Atos 1:3, Lucas escreverá que Jesus ficou com seus discípulos ainda por 40 dias, ensinando-os e preparando-os para a missão evangelística que os esperava, e como deviam esperar em Jerusalém até que fossem revestidos do poder do Espírito Santo (Atos 1:4).

Interessante como Lucas ressalta no v. 52 que os discípulos “o adoraram”. A palavra grega aqui é προσκυνέω - proskuneō - e significa literalmente “prostrar-se em adoração”. Agora eles reconheciam plenamente a divindade de Jesus, o que é uma dificuldade enorme para as seitas que a negam e têm que forçar uma tradução para “adorar” como sendo “prestar homenagem”, o que é algo que destoa completamente do contexto de todo o evangelho, como se os discípulos se sentissem agora na obrigação de “homenagear” alguém mediante um gesto (prostrar-se) típico (tanto à época como atualmente) de quem adora.

Só não explicam porque – em Apocalipse 5 - traduzem a mesma palavra por “prostrar-se” (v. 8) e “adorar” (v. 14). Só os hereges modernos têm essa dificuldade em reconhecer a divindade absoluta de Jesus, algo que os discípulos não tinham mais, como o evangelista faz questão de dizer. Deus havia aberto os seus olhos afinal. E é nesse espírito de verdadeira adoração que Lucas os coloca no templo no final de seu evangelho, felizes e esperando pelo cumprimento da promessa de Seu Senhor.



"A Ceia de Emaús", por Rembrandt
(clique na imagem para ampliá-la)



"A Ceia de Emaús", por Caravaggio
(clique na imagem para ampliá-la)



segunda-feira, 6 de junho de 2011

O triste fim da igreja evangélica brasileira


Os últimos acontecimentos envolvendo os evangélicos brasileiros, mais precisamente no período de um ano para cá, foram decisivos na consolidação definitiva de uma “ideologia evangélica” em detrimento (e substituição) a uma teologia evangélica construída ao longo de dois milênios de cristianismo, e mais especificamente nos quase 500 anos de Reforma Protestante. 

O posicionamento político panfletário e dogmático nas últimas eleições presidenciais e as recentes manifestações contestando os movimentos gays são apenas o marco final de uma trajetória que começou teológica e termina ideológica, a ponto de existir uma “bancada evangélica” no Congresso Nacional, que – curiosamente – permeia todos os partidos e espectros políticos, e age e negocia como tal.

Doutrinas e confissões construídas e ensinadas ao longo dos séculos foram sistematicamente vilipendiadas e abandonadas em prol de uma interpretação extremamente particular de trechos pinçados das Escrituras, capaz de justificar as mais abjetas heresias. 

Por isso não é de se estranhar que o desrespeito aos preceitos básicos do cristianismo gere quase nenhuma comoção ou mobilização, já que não se vê ninguém convocando passeatas para protestar contra aqueles que deturpam o evangelho e utilizam o nome de Deus para se locupletar às custas dos incautos. 

Pelo contrário, estão todos juntos quando se trata de combater adversários imaginários, que convenientemente desviam o olhar dos fiéis do que realmente interessa: a pregação pura e íntegra do evangelho da cruz de Cristo, que é sequestrada por aproveitadores que a fazem refém dos seus interesses privados e escusos. 

Aliás, a igreja evangélica brasileira deixou de fitar seus olhos em Jesus, autor e consumador da fé (Hebreus 12:2) para mirar única e exclusivamente em seu umbigo. 

É incapaz de dialogar com a sociedade e se mostrar - sobretudo - solidária, amorosa, desinteressada, acolhedora, sofredora e caridosa. 

O gigantesco rebanho prefere seguir cegamente seus líderes materialistas e gananciosos, como se eles - de fato - fossem os autores e consumadores da sua "fé", entregando-se de corpo e alma aos seus desígnios militarescos e panfletários. 

Mesmo denominações antigas e históricas se deixam levar pelo canto da sereia que os convoca a uma jihad contra os infiéis. 

 A demonização desses inimigos de ocasião é necessária para sublimar as divergências doutrinárias (muitas irreconciliáveis) e forjar artificialmente um sentimento de unidade oportunista, na base do “nós contra eles”, o que justifica o seu partidarismo ideológico e – o que não é de se duvidar – arrecada muito dinheiro também.

Graças ao bom Deus, ninguém consegue manter o evangelho refém de suas vontades inconfessáveis por muito tempo. 

É claro que muita gente se converte verdadeiramente a Cristo nessas igrejas que se dizem evangélicas, assim como há pessoas que são alcançadas pelo evangelho da graça de Deus nos lugares mais improváveis e menos cristãos, mas dificilmente nelas permanecem. 

As igrejas evangélicas brasileiras se transformaram em casas de passagem de alta rotatividade, ensinando pessoas a gritar seus slogans e mantras gospel e a honrar cegamente seus ideólogos de plantão, enquanto se silenciam sobre o Cristo crucificado e seu sangue redentor. 

Correm o risco de - muito em breve -  ver surgir "do nada" uma mão escrevendo em suas paredes “Mene, Mene, Tequel, Ufarsim”, “contou Deus o teu reino e o acabou; pesado foste na balança, e foste achado em falta” (Daniel 5). 

O último que sair que acenda a luz!




"O Banquete de Belsazar", de Rembrandt
(clique na imagem para ampliá-la)

domingo, 6 de julho de 2008

Paulo e Aristóteles

Vez ou outra, aparece alguém criticando a teologia, dizendo que o pensamento teológico é "engessador", o que muitas vezes é verdade, para o bem e para o mal. 

Afinal, uma estrutura religiosa que se baseie em fundamentos voláteis dificilmente se sustentará ao longo do tempo. 

Por outro lado, a teologia demanda permanente reflexão, o que efetivamente ocorreu no decorrer da História, e continua animando muita gente a seguir o caminho da crítica consciente e construtiva. 

Entretanto, quando alguém diz que "não gosta de teologia", ou a vê "contaminada" pelo pensamento filosófico, a questão se assemelha àquelas frases que muita gente diz.... "não gosto de política", ou "não faço política", ou ainda "odeio política". 

Ora, podem até não gostar de política, mas estão fazendo política pela sua omissão em participar da vida política. 

O mesmo se pode dizer da ideologia. Podemos criticar todos os movimentos ideológicos do mundo, mas, em suma, ninguém é imparcial, todos nos movemos por algum tipo de ideologia, mesmo que nosso discurso seja negá-la. 

Quanto à teologia, o cenário não é diferente. Até os ateus militantes fazem um discurso teológico, mesmo que possa ser considerado como um tipo de "a-teologia". Os teístas afirmam e os ateístas negam a existência de Deus, e este debate é feito através de discursos teológicos. 

Todos os nossos discursos, teológicos ou não, padecem da mesma ambiguidade. Não há ninguém que seja verdadeiramente neutro, imparcial, ou "contra o sistema", até porque o "sistema" precisa dos contrários para se validar. 

Logo, o discurso contra a teologia também é teológico, mas com apenas um viés: todos devem abandonar a teologia que, consciente ou inconscientemente, abraçam, e render-se incondicionalmente à contra-teologia dos insatisfeitos.

A filosofia é outro campo de batalha, bastante antigo, em que alguns vêem o cristianismo como que um desenvolvimento natural do pensamento grego, e outros a combatem como se ela simbolizasse um Armagedom das idéias. 

Nunca é demais relembrar, entretanto, que Paulo caminhava com tranqüilidade nesta seara. No capítulo 17 do livro de Atos, por exemplo, Paulo faz uso claro e transparente da filosofia e da poesia grega, ao pregar para os gregos, citando especificamente os poetas gregos, que literalmente disseram o que Paulo reproduz no versículo 28:

Atos 17:28 porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois dele também somos geração.

As fontes poéticas que Paulo cita literalmente (assumindo o plágio), neste versículo, tanto pode ser o poema Phaenomena, de Aratus, como o Hino a Júpiter, de Cleantus, além de outros poetas que usaram a mesma idéia, ou seja, do homem ser geração de Deus. 

E, além disso, o "nele vivemos, nos movemos e existimos", se refere especificamente às polêmicas filosóficas que motivaram os gregos por tantos séculos, ou seja, o que significa a vida, o movimento, e a existência. Paulo ainda escreve o seguinte:

Filipenses 2: 1 Portanto, se há alguma exortação em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão do Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões, 2 Completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa. 3 Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. 4 Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. 5 De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, 6 Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, 7 Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;

E, ao fazer isso, ele está se referindo especificamente aos estados da psiquê humana, conforme Aristóteles havia ensinado quatro séculos antes, dividindo os fenômenos da psiquê humana em três espécies, conforme já postei neste blog:

a) Estados afetivos ou paixões (ou afecções) - (apetite, cólera, medo, audácia, desejo, alegria, amizade, ódio, saudade, inveja, piedade – inclinações da alma que implicam em prazer ou desprazer);

b) Capacidades (ou faculdades) – aptidões ou capacidades para experimentar as paixões (citadas acima): por exemplo, a capacidade para experimentar a piedade, a inveja ou a cólera;

c) Disposições (ou deliberações) – o próprio comportamento concreto, prático, que tenhamos, bom ou mau, relativamente às paixões. O exemplo é o da cólera: se nos entregamos a ela ou a experimentamos de forma violenta, a cólera é má; já poderá ser boa se a experimentarmos com moderação (o que envolve também adequação ao momento, e a devida proporcionalidade).

Além dos afetos, das paixões, a palavra grega traduzida por "sentimento" em Filipenses 2:5, é φρονέω ("phroneō", "fron-eh'-o"), que nada mais é do que o que Aristóteles entendia por "disposição", hoje mais conhecida por "fronesis", que nada mais é do que a prudência, a temperança, o bom senso para encontrar o caminho do meio, caminho este que, associado à verdade e a vida, define Jesus (João 14:6).

Portanto, me parece que é melhor refletir com calma e equilíbrio sobre a teologia e a filosofia, do que simplesmente rejeitá-las. Tal atitude soa mais como uma fuga inconsciente a um dos mais preciosos bens que Deus concedeu aos humanos: simplesmente pensar.



Rembrandt, "Aristóteles e o busto de Homero"


quarta-feira, 21 de maio de 2008

Carta aos Romanos - 21

OBS.: Os estudos anteriores de Romanos (partes 1 a 20) foram feitos pelo Hélio. A partir deste texto, a Carta aos Romanos será revisitada pelos estudos feitos pelo Gustavo.




Talvez uma das mais importantes epístolas do Novo Testamento, é aqui que muito da teologia de Paulo é tratada. Sua autoria é indiscutivelmente de Paulo. Sua autoridade nunca foi questionada na igreja. Segundo Barnes, apenas seitas consideradas heréticas questionam a autoridade desta epístola: Ebionitas, Encratitas e Cerintianos, apesar de não negarem que tenha sido escritas por Paulo. Muitos concordam que a epístola foi escrita em grego apesar de ser direcionada para pessoas de fala latina. Também não há debate sobre este ponto, pois segundo Barnes: 1. A epístola foi escrita para ser lida também em outras igrejas, compare com Colossenses 4:16. E como a língua grega era mais difundida do que a latina, ela serveria melhor para este propósito.

2. O grego era entendido naquela época em Roma. Os jovens romanos aprendiam grego. Quanto a isto, Cícero escreve (Pro. Arch.) "A linguagem grega é falada em quase todas as nações; o latim é confinado a nossas comparativamente limitadas fronteiras". Tácito dizia (Orat. 29) "Um bebê nascido agora é entregue a uma enfermeira grega". Juvenal (vi. 185) fala de ser indispensável para uma boa educação o conhecimento de grego.

3. Não era impossível para os judeus em Roma, que constituíam uma colônia separada, estarem mais acostumados com o grego do que com o latim. Eles tinham uma tradução grega das Escrituras, não latina. E é bem possível que eles usassem a linguagem que usavam nas Escrituras, e que eram amplamente usada pelos gentios de todo o império.

4. O próprio apóstolo provavelmente era mais familiar com o grego do que com o latim. Ele era nativo de Cilicia, onde sem dúvida era falado o grego. Muitas vezes citava poetas gregos em suas pregações e epístolas, como em Atos 21:37; 17:28; Tito 1:12; 1 Coríntios 15:33.

A epístola é colocada em primeiro lugar na Bíblia não por ter sido a primeira escrita, mas pelo tamanho e importância. Há razões para se acreditar que as epístolas aos Gálatas, Primeira aos Coríntios e talvez as duas aos Tessalonicenses foram escritas antes desta. Sobre quando foi escrita, há poucas dúvidas, que o próprio Barnes nos explica. No ano de 52 ou 54, o imperador Cláudio baniu todos os judeus de Roma. Em Atos 18:2 temos um relato do encontro de Paulo com um judeu chamado Áquila e Priscila, que partiram de Roma em consequência deste decreto, e que aconteceu em Corinto. Em Romanos 16:3,4, Paulo fala para a igreja saudar os dois, os quais expuseram seus pescoços por ele. Este ato deles deve ter sido portanto depois do ano 52. Em Atos 18:19, Paulo deixa Áquila e Priscila em Éfeso, enquanto pregava em regiões adjacentes. Em Atos 19:1 Paulo retorna a Éfeso, onde fica por dois anos (Atos 19:10). Provavelmente neste momento escreve sua primeira carta aos Coríntios, onde Paulo menciona Áquila e Priscila (1 Co 16:19). Assim, a epístola aos Romanos não poderia ser escrita enviando saudações para Áquila e Priscila até que eles deixassem Éfeso e fossem novamente para Roma. Prosseguindo, quando Paulo escreveu esta epístola, ele estava prestes a ir para Jerusalém por causa da coleta para os pobres santos de lá (Romanos 15:25,26). Depois de concluir isto, ele pretendia ir a Roma (Romanos 15:28). Olhando o livro de Atos, podemos determinar quando foi isto. Em Atos 19:21 temos uma descrição exata desta ocasião. Neste tempo ele manda Timóteo e Erasmo para a Macedônia enquanto fica nas igrejas da Ásia por algum tempo (Atos 19:22). Depois disto, ele mesmo foi para a Macedônia (Atos 20:1,2) passando pela Grécia, e ficou ali três meses (Atos 20:3). Nesta jornada é quase certo que ele foi para Corinto (2 Coríntios 1:15,16), onde se supõe que a epístola tenha sido escrita. Depois disto, ele foi para Jerusalém, onde ficou preso por dois anos (Atos 24:27). Ele foi mandado a Roma por volta do ano 60. Adicionando o tempo de viagem e o aprisionamento, podemos concluir que Paulo deve ter escrito esta epístola em torno do ano de 57 D.C. Também está claro que a epístola deve ter sido escrita de Corinto. Em Romanos 16:1, Paulo menciona Febe, membro da igreja de Cencréia. Ela deveria estar responsável pela epístola. Cencréia era a cidade portuária de Corinto, e Corinto foi manifestamente sua residência (2 Coríntios 1:15,16). Também é mencionado Erasto como tesoureiro da igreja presente nesta cidade (Romanos 16:23), enquanto que se fala que ele ficou em Corinto (2 Timóteo 4:20). Tudo isto indica que a carta foi escrita em Corinto no ano 57 D.C. Sobre a fundação desta igreja, muito foi discutido sobre o assunto. Para católicos, a fundação dela se deve aos apóstolos, talvez baseando-se na citação de Ireneu:

Mas visto que seria coisa bastante longa elencar, numa obra como esta, as sucessões de todas as igrejas, limitar-no-emos à maior e mais antiga e conhecida por todos, à igreja fundada e constituída em Roma, pelos dois gloriosíssimos apóstolos, Pedro e Paulo, e, indicando a sua tradição recebida dos apóstolos e a fé anunciada aos homens, que chegou até nós pelas sucessões dos bispos, refutaremos todos os que de alguma forma, quer por enfatuação ou vanglória, quer por cegueira ou por doutrina errada, sereúnem prescindindo de qualquer legitimidade. Com efeito, deve necessariamente estar de acordo com ela, por causa da sua origem mais excelente, toda a igreja, isto é, os fiéis de todos os lugares, porque nela sempre foi conservada, de maneira especial, a tradição que deriva dos apóstolos.

Ireneu, Contra as Heresias, capítulo 3, livro 3.

Porém podemos perceber que Ireneu não estava correto nesta informação. O próprio Paulo escreve para uma igreja em Roma, dizendo que pedia em orações para ter uma ocasião de estar com aquela igreja (Rm 1:10), pois muitas vezes ele se propôs a visitá-los, sendo impedido até aquele momento (Rm 1:13). Se Paulo foi impedido de ir àquela igreja até aquele momento, ele não poderia tê-la fundado. Resta saber quem teria fundado aquela igreja. Por outro lado, se Pedro estivesse em Roma, certamente seria mencionado nas saudações de Paulo àquela igreja. O mais provável é que a igreja tenha surgido sem a fundação de nenhum apóstolo. Em Atos 2:10 há a menção de forasteiros romanos, o que pode levar a crer que estes após sua pregação, onde foram convertidos quase três mil pessoas (At 2:41).


Rembrandt, "O Apóstolo Paulo na Prisão"




terça-feira, 22 de abril de 2008

O evangelho de Lucas - parte 22

Na Bíblia, Lucas 15 é conhecido como o capítulo das parábolas de Jesus na Bíblia. Talvez por registrar 3 parábolas sobre algo ou alguém que se havia perdido e foi achado ou recuperado. Curiosamente, este algo ou alguém pode ser um animal (uma ovelha), uma coisa (uma moeda), ou uma pessoa (o filho pródigo). Talvez esta última parábola seja uma das mais conhecidas por cristãos e não cristãos (ao lado da do bom samaritano) e todas elas, as do capítulo 15 e a do bom samaritano (Lucas 10:30-37) são registradas com exclusividade por Lucas. Nenhum outro evangelho as registra. E o capítulo 15 começa com uma crítica dos fariseus pelo fato de Jesus receber pecadores e comer (e banquetear-se) com eles (vv. 1-2). Esta era uma queixa recorrente dos fariseus a respeito de Jesus. Certamente, eles admiravam Jesus pois não só os seus ensinamentos, como os sinais que promovia, eram dignos de sua atenção. Como o próprio Jesus havia notado antes, os fariseus buscavam, acima de tudo, o reconhecimento da sua importância para a religião e para a nação judaicas. Gostavam particularmente dos primeiros assentos e das saudações pomposas que recebiam em público (Lucas 11:43 e 14:7). Representavam a versão judaica do narcisismo greco-romano. Jesus os conhecia bem, e sabia que o seu comportamento de buscar os doentes (e não os que se julgavam sãos) os escandalizava (Lucas 5:31). Uma das fontes de prestígio (e poder) dos fariseus era justamente o controle dos rituais religiosos pelos quais os pecadores se apresentavam no templo para realizar seus sacrifícios. Os fariseus se especializaram em impor novos encargos para tornar esses rituais ainda mais elaborados e passíveis dos seus muito controles. Receber os pecadores desta maneira assim tão aberta e abrangente era um enorme perigo para sua reputação e posição dentro da estrutura altamente formalista da religião judaica. Ainda mais se este alguém que, digamos, "facilitava" as coisas para os pecadores, se dizia o próprio Deus.

Para reforçar esta sua posição anti-farisaica, Jesus então lhes conta 3 parábolas, todas com o tema de algo (ou alguém) que se havia perdido, mas que era recuperado no final. A primeira envolvia um animal, uma ovelha que se desgarrava do rebanho em que estavam outras 99 (vv. 3-6), e o pastor deixava essas 99 no deserto e ia procurar a que se havia perdido, não descansando enquanto não a encontrasse, e quando finalmente a encontra, retorna feliz para seu rebanho e sua casa, alegrando-se com os amigos e vizinhos. Jesus complementa esta parábola dizendo que, da mesma maneira, haveria muito mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por 99 justos que não necessitam de arrependimento (v. 7). As 99 ovelhas deixadas "no deserto", devem ser entendidas não como "largadas à própria sorte", mas como o seu original grego propõe, ou seja, εν τό ερημος (en tēi erēmōi), na sua derivação portuguesa, "ermo", um lugar deserto e desabitado, onde estariam livres dos perigos dos animais selvagens e dos penhascos que as ameaçavam na Palestina. O pastor de nossas almas busca as ovelhas perdidas, mas sempre cuida daqueles que estão no seu aprisco. Em seguida, Jesus lhes propõe outra parábola, a de uma coisa perdida, de uma mulher que tinha dez dracmas e perdia uma dentro da própria casa (vv. 8-10). Uma dracma era uma moeda de alto valor para alguém pobre, pois era o equivalente grego do denário romano, ou seja, o salário pago por um dia de trabalho. Dez dracmas podiam representar, muito bem, as economias de uma vida de alguém muito pobre. Há outra tradução possível para dracma, igualmente revestida de um enorme valor simbólico. Além de representar a moeda, considerada isoladamente, uma "dracma" podia ser, também, uma grinalda de dez moedas, usadas por mulheres casadas. Dentro da metáfora da Igreja como noiva de Cristo, que o próprio Jesus usaria em João 3:29, e João usaria bastante em Apocalipse, esta imagem da dracma como grinalda também é muito forte. Na parábola, a dracma era perdida dentro de casa, e as casas dos judeus pobres era geralmente um cômodo sem janelas, apenas com uma porta que dava diretamente para a rua, com um pé-direito baixo, sem nenhuma iluminação externa. Daí a necessidade de se acender uma candeia, uma vela ou uma lamparina, e varrer a casa para encontrar a moeda perdida. Quando a mulher finalmente a encontrava, chamava suas amigas e vizinhas para comemorar a recuperação de algo que lhe era tão valioso. Da mesma maneira, os anjos de Deus se alegravam por um pecador que se arrepende (v. 10).

Nas duas parábolas anteriores, e na seguinte, há outros dois componentes que lhes são comuns. Um deles é o fato de que todas elas tratam de coisas, animais, e pessoas que estão e são muito próximas umas das outras. Não se trata de algo ou alguém desconhecido ou distante que se perdeu. Pelo contrário, era algo ou alguém que estava muito próximo, fosse do físico, fosse do coração. Outro dado comum a essas parábolas é o arrependimento. Nas duas primeiras parábolas, este é um tema tocado no final, na relação que Deus faz entre o pecador arrependido e a festa que os anjos fazem no céu. Na terceira parábola, entretanto, esta proximidade e este arrependimento são levados ao máximo de suas possibilidades de apreensão da metáfora pelo homem comum quando Jesus conta a história de um pai e dois filhos, em que um deles é o que se arrepende e volta para o pai. A parábola do "filho pródigo" (vv. 11-31) é, para mim, a mais bela dos evangelhos. É certamente a mais rica em detalhes, dentro do estilo de Lucas de dar uma visão panorâmica e completa do que Jesus havia vivido e falado. Primeiramente, entretanto, é preciso entender bem o que significa "filho pródigo". Esta é uma expressão arcaica que hoje não faz sentido para quem fala um português moderno, porque "pródigo" está geralmente associado a coisas boas, como um "prodígio", ou a abundância, fertilidade, como na frase "o Brasil tem uma terra pródiga; em se plantando, tudo dá". Entretanto, no sentido com que ficou conhecida a parábola, "pródigo" vem de "prodigalidade", que é a pessoa que dissipa, desperdiça os seus bens. Juridicamente falando, até hoje, a prodigalidade é um dos princípios para se interditar alguém (art. 1.782 do Código Civil). Também segundo o Código Civil brasileiro (art. 4º, inciso IV), uma pessoa pródiga é relativamente incapaz, da mesma maneira que os jovens de 16 a 18 anos (inciso I); os ébrios habituais, os viciados em drogas e os deficientes mentais com discernimento reduzido (inciso II); e os excepcionais sem desenvolvimento mental completo (inciso III). É nesse contexto jurídico que deve ser entendido o "pródigo" que adjetiva o "filho" da parábola, conforme a expressão que nos foi legada por nossos antepassados em todas as línguas. Talvez um nome mais adequado fosse a "parábola do pai que espera", mas o uso e a tradição a consagrou com o nome antigo.

Desta maneira, na parábola do filho pródigo, um pai, certamente muito rico, tinha dois filhos (v. 11), e o mais moço deles pediu que o pai lhe adiantasse a sua parte na herança (v. 12), equivalente a 1/3 dos bens do pai, já que o filho mais velho tinha direito a 2/3 segundo Deuteronômio 21:17. Esta não era uma prática comum, obviamente, e representava também uma grave ofensa ao pai dentro da cultura dos povos semitas. Entretanto, o pai consentiu. Preferiu ver o caçula livre do que tê-lo em casa a contragosto. O filho, então, ajuntou tudo o que era seu e foi para uma terra distante (v. 13), e lá gastou tudo o que tinha, como dizemos hoje, na "gandaia". O fato dele ter ido para muito longe revela o quanto ele já se havia distanciado emocionalmente da sua família. Era como se quisesse esquecer seu passado e suas origens. Algum tempo depois, houve grande fome naquele país (v. 14), e o rapaz começou a passar necessidade. A fome, até hoje, é um fenômeno que desloca pessoas e populações, sobretudo nos países mais pobres, e na Bíblia, a fome está sempre relacionada a grandes mudanças na história do povo de Deus, como na história de José no Egito, e da ida de Jacó e sua família para lá. Nesta parábola, a fome vai exercer outro papel transformador, primeiro negativamente, quando o filho vai trabalhar no campo de um dos cidadãos daquela terra, que o manda cuidar de seus porcos (v. 15). Não havia trabalho mais degradante e humilhante para um judeu do que este, cuidar de animais imundos, e a coisa piora a tal ponto do rapaz ter vontade de comer a ração dos porcos (v. 16), mas nem isso as pessoas lhe davam. Vem, então, a transformação positiva. O filho "cai em si" (v. 17). Modernamente, chamaríamos isso de "ter um insight", ou "cair a ficha", mas ele se toca de que os empregados de seu pai tinham o que comer com fartura enquanto ele morria de fome. Ele poderia ter ficado apenas no remorso, remoendo esses sentimentos frustrantes e negativos, mas ele toma uma atitude decisiva, de se levantar e voltar para o seu pai, reconhecendo o seu pecado (v. 18), não sendo mais digno de ser chamado de seu filho, mas pediria que o pai o tratasse como um dos seus empregados (v. 19). Não teve dúvidas, então, apenas "se levantou" (mostrando o quão baixo ele estava não só física mas emocionalmente) e foi para o seu pai. Estava chegando à sua casa quando o pai o avistou e correu para abraçá-lo e beijá-lo (v. 20). Isto revela, de imediato, duas coisas: 1) o pai certamente esperava que o filho um dia voltasse e se colocava sempre de prontidão para vigiar, de longe, se algum dia o veria vindo pela estrada; 2) era indigno para um pai levantar as suas vestes e correr em direção ao filho, a tradição mandava exatamente o contrário, mas o pai não deu a mínima para os rituais e cerimônias que dele eram esperados; antes, pelo contrário, o que mais pulsava nele era o amor pelo filho. Este, provavelmente já com um discurso ensaiado durante todo o trajeto de retorno, confessa o pecado e diz que não é mais digno de ser chamado de seu filho (v. 21), ao que o pai nem responde, apenas chama os seus servos e pede que eles vistam o filho com as melhores roupas, o anel no dedo e as sandálias nos pés, restaurando-o plena e dignamente à condição de filho seu (v. 22), organizando um churrasco para celebrar a ocasião (v. 23), "porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado" (v. 24). A parábola não termina aí, mas há um filho que estava fora de cena até agora, justamente o filho mais velho que havia ficado com o pai, respeitando-o com toda a cerimônia que sua posição exigia. Este, ao retornar do campo, ouve o barulho da festa (v. 25), chama os criados e pergunta o que estava acontecendo (v. 26), no que é informado do retorno do seu irmão (v. 27), o que o deixa indignado, sem querer entrar na própria casa (v. 28). O pai sai de novo, agora em busca do filho mais velho, procurando acalmar a situação, mas este extravaza a frustração, talvez, de toda uma vida, ao dizer que havia respeitado seu pai por tanto tempo, e nunca fora considerado digno de uma festinha que fosse (v. 29). Seu ódio é tão grande que diz ao pai que "vindo esse teu filho", quando o normal seria "vindo o meu irmão", que tanta desonra havia trazido para si e para a família, o pai lhe dava uma festa (v. 30). Há claramente, aqui, um confronto entre a graça e a lei, entre a fé e as obras. O filho mais novo pecou, reconheceu o pecado, confessou e confiou que o pai o perdoaria, enquanto o mais velho confiava nos seus próprios méritos, nas obras, como garantidores de um relacionamento justo com o pai. Este, entretanto, gracioso e contemporizador, lhe responde que ele, o filho mais velho, estava sempre com o pai, e tudo o que ele tinha era dele (v. 31), o que, de fato correspondia à verdade, já que o filho mais novo não mais poderia participar de uma nova partilha dos bens do pai, segundo a lei, mas, recolocando os relacionamentos nos seus devidos lugares, eles precisavam comemorar o fato de "esse teu irmão" ter morrido e revivido, ter-se perdido e agora era achado novamente, e o Pai, dentro da Sua graça e soberania, é livre e justo para acolher todos os que dEle se aproximam, em paz e com fé, seja o que for que eles tenham passado.

A parábola do filho pródigo é belíssima (veja uma meditação sobre ela clicando aqui), de fato, e tem ainda o mérito de ter inspirado grandes obras dos melhores pintores, como o de Rembrandt abaixo:


P. S.: Para acessar o estudo feito pelo Gustavo sobre Lucas 15, clique aqui.

terça-feira, 18 de março de 2008

Quando nosso nome é Legião

Leitura bíblica: Marcos 5:1-20

“Eles atravessaram o mar e foram para a região dos gerasenos. Quando Jesus desembarcou, um homem com um espírito imundo veio dos sepulcros ao seu encontro. Esse homem vivia nos sepulcros, e ninguém conseguia prendê-lo, nem mesmo com correntes; pois muitas vezes lhe haviam sido acorrentados pés e mãos, mas ele arrebentara as correntes e quebrara os ferros de seus pés. Ninguém era suficientemente forte para dominá-lo. Noite e dia ele andava gritando e cortando-se com pedras entre os sepulcros e nas colinas.

Quando ele viu Jesus de longe, correu e prostrou-se diante dele, e gritou em alta voz: “Que queres comigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te por Deus que não me atormentes!” Pois Jesus lhe tinha dito: “Saia deste homem, espírito imundo!”

Então Jesus lhe perguntou: “Qual é o seu nome?”

“Meu nome é Legião”, respondeu ele, “porque somos muitos”. E implorava a Jesus, com insistência, que não os mandasse sair daquela região.

Uma grande manada de porcos estava pastando numa colina próxima. Os demônios imploraram a Jesus: “Manda-nos para os porcos, para que entremos neles”. Ele lhes deu permissão, e os espíritos imundos saíram e entraram nos porcos. A manada de cerca de dois mil porcos atirou-se precipício abaixo, em direção ao mar, e nele se afogou.

Os que cuidavam dos porcos fugiram e contaram esses fatos na cidade e nos campos, e o povo foi ver o que havia acontecido. Quando se aproximaram de Jesus, viram ali o homem que fora possesso da legião de demônios, assentado, vestido e em perfeito juízo; e ficaram com medo. Os que estavam presentes contaram ao povo o que acontecera ao endemoninhado, e falaram também sobre os porcos. Então o povo começou a suplicar a Jesus que saísse do território deles.

Quando Jesus estava entrando no barco, o homem que estivera endemoninhado suplicava-lhe que o deixasse ir com ele. Jesus não o permitiu, mas disse: “Vá para casa, para a sua família e anuncie-lhes quanto o Senhor fez por você e como teve misericórdia de você”. Então, aquele homem se foi e começou a anunciar em Decápolis o quanto Jesus tinha feito por ele. Todos ficaram admirados.”


Versículo-chave: “Meu nome é Legião”, respondeu ele, “porque somos muitos”.
(Marcos 5:9)

Meditação: Como é que Legião foi parar num estado desses? O que foi que a vida lhe fez, e então, por causa disso, o que foi que ele fez a si mesmo? O que ele temia fazer a outros por causa do que estava fazendo a si mesmo? Que recordações atormentavam esse homem desesperado? O que o levou a uma separação auto-imposta das pessoas a quem ele amava? Se a dor e as dificuldades de encontrar e lidar com as pessoas, em realidade são difíceis demais ou dolorosas demais, ou se encontramos rejeição repetida, seguem-se rapidamente o jogo da autocomiseração e o remorso. Legião havia-se desviado do canal da cura. Era uma legião sem líder, marchando em todas as direções.

Quem é a legião da criança magoada, do adolescente frustrado e rejeitado, do jovem que promete, mas está desapontado, do fracasso repleto de recordações, do pai exigente, do juiz acusador, do irmão mais velho que infunde culpa, que vive em nossa pele? A maioria de nós somos um punhado de pessoas interiores conflitantes que concorrem pelo reconhecimento. Somos um punhado de coisas não resolvidas. Nós também somos legiões... sabemos disso pela maneira estranha de reagirmos, quase inadvertidamente, em algumas situações. Jesus curou Legião, e pode unificar nossa legião de impulsos competitivos e naturezas mistas e, como Legião, podemos voltar para a vida falando abertamente do que nos vai por dentro e do que Jesus está fazendo a esse respeito.

Pensamento do dia: “Quanto mais o homem tenta ser ele mesmo sem estar certo com Deus, tanto menos semelhante a si mesmo se torna e mais semelhante a todos os demais. O homem foi criado para ter comunhão com Deus, e jamais pode ser ele mesmo até que se submeta a essa regra divina... O ser completo é o que Deus pede e requer – não para torná-lo escravo, mas para emancipá-lo”. (Richard C. Halverson)

(Lloyd John Ogilvie, em “O que Deus tem de melhor para a minha vida”, Ed. Vida, meditação de 17 de fevereiro)

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails