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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Charlottesvile mostra o perigo de ser complacente com fascistas em geral

Na próxima vez em que o seu amiguinho burro disser que nazismo é uma ideologia de esquerda, mostre-lhe a matéria abaixo em que eles se assumem "de direita" e, de preferência, desenhe o que isso significa porque eles têm uma dificuldade enorme em compreender as obviedades.

Na próxima vez em que a sua amiguinha burra disser que é fãzóca do projeto "escola sem partido", mostre-lhe a matéria abaixo e lhe pergunte quem é que vai ensinar às crianças que nazismo e fascismo são atitudes e posições ideológicas imbecis, para dizer o mínimo. Talvez seja necessário desenhar também...

Na próxima vez em que os seus amiguinhos "evangélicos" disserem que vão votar para presidente do Brasil num candidato fascista cujo nome não deve nem ser pronunciado, mostre-lhes a matéria abaixo, e lhes diga que os "evangélicos" americanos apoiaram Donald Trump, mesmo sabendo que ele está relacionado com esta gente que defende a "supremacia dos brancos", tanto que não os criticou veementemente pelo acontecido, o que está gerando enorme reação inclusive por parte dos republicanos que o apoiavam.

Quem sabe ainda haja lugar para arrependimento e salvação no que restou da alma deles, se é que restou alguma coisa.

Não se assuste, entretanto, se nada disso funcionar, porque raciocínio e bom senso costumam faltar a esses acéfalos, mas faça a sua parte, denuncie e tente salvar o máximo de pessoas dessa desgraça chamada nazismo.

Lembre-se sempre que aqueles que não aprendem com os erros que a História lhes ensina, estão condenados a repeti-los.

A matéria é do G1:

"Sou nazista, sim": O protesto da extrema-direita dos EUA contra negros, imigrantes, gays e judeus

Autoproclamados fascistas, supremacistas, nacionalistas e alt-right marcham à luz de tochas e promovem eventos em cidade do sul americano.

Centenas de homens e mulheres carregando tochas, fazendo saudações nazistas e gritando palavras de ordem contra negros, imigrantes, homossexuais e judeus.

Foi a cena - surreal, para muitos observadores - que desfilou aos olhos da pacata cidade universitária de Charlottesville, no Estado americano de Virgínia.

O protesto, na noite da sexta-feira, foi descrito pelos participantes como um aquecimento para o evento "Unir a Direita", que acontece na tarde deste sábado na cidade e promete reunir mais de mil pessoas, incluindo os principais líderes de grupos associados à extrema direita no país.

A cidade, de pouco mais de 50 mil habitantes e a apenas duas horas de Washington, foi escolhida como palco dos protestos após anunciar que pretende retirar uma estátua do general confederado Robert E. Lee de um parque municipal.

Durante a Guerra Civil do país (1861-1865), os chamados Estados Confederados, do sul americano, buscaram independência para impedir a abolição da escravatura. Atualmente, várias cidades americanas vêm retirando homenagens a militares confederados - o que tem gerado alívio, de um lado, e fúria, de outro.

Os participantes do protesto desta sexta-feira carregavam bandeiras dos Confederados e gritavam palavras de ordem como: "Vocês não vão nos substituir", em referência a imigrantes; "Vidas Brancas Importam", em contraposição ao movimento negro Black Lives Matter; e "Morte aos Antifas", abreviação de "antifascistas", como são conhecidos grupos que se opõem a protestos neonazistas.

Estudantes negros do campus da universidade da Virginia, onde ocorreu a marcha, e jovens que se apresentavam como antifascistas tentaram fazer uma "parede-humana" para impedir a chegada dos manifestantes à parada final do marcha, uma estátua do terceiro presidente americano, Thomas Jefferson.

"Fogo! Fogo! Fogo!", gritavam os manifestantes, enquanto se aproximavam do grupo de estudantes.

Em número bem menor, o grupo que fazia oposicão à marcha foi expulso da estátua em poucos minutos. A reportagem flagrou homens lançando tochas sobre os estudantes, enquanto estes, por sua vez, dispararam spray de pimenta nos olhos dos oponentes.

A polícia, que acompanhou todo o protesto de longe, interviu e separou os dois grupos, enquanto ambulâncias se deslocavam ao local para socorrer feridos pelo confronto.

"Esta manifestação é ilegal", afirmou um dos oficiais aos manifestantes, que se afastaram. A polícia não confirmou se houve presos.

Nazis

"Sim, eu sou nazista, eu sou nazista, sim", afirmou um homem, em frente à reportagem, durante uma discussão com um dos membros do grupo opositor.

Ao contrário das especulações anteriores, a marcha incluiu muitas mulheres, que também seguravam tochas.

A BBC Brasil conversou com um pai e uma mãe que levaram a filha de 14 anos ao protesto. "Eu aprendi com meu pai que precisamos defender a raça branca e hoje estou passando este ensinamento para a minha filha", afirmou o pai.

"Se não fizermos algo, seremos expulsos do nosso próprio país", disse a mãe. A conversa foi interrompida por um homem forte e careca. "Vocês estão falando com um estrangeiro. Olha o sotaque dele!", afirmou, rindo, em referência ao repórter.

A família se afastou e se juntou ao coro, que cantava "Judeus não vão nos substituir". Os três seguravam tochas.

Outro homem afirmou que estava ali porque "têm o direito de se expressar".

"Gays, negros, imigrantes imundos, todos eles se manifestam e recebem apoio por isso. Porque quando homens brancos decidem gritar por seus direitos e sua sobrevivência vocês fazem esse escândalo?", questionou o homem a um grupo de jornalistas.

Perto dali, sozinho, um rapaz jovem extendia a mão e fazia uma saudação nazista, enquanto era fotografado por fotojornalistas e gritava "Vocês não vão nos substituir".

As tochas são uma marca da Ku Klux Klan, grupo fundado pouco depois da guerra por ex-soldados confederados - derrotados no conflito. Originalmente concebida como um clube recreativo, a KKK rapidamente começou a promover a violência contra populações negras do sul dos EUA.

Por muitas décadas, grupos supremacistas brancos promoveram linchamentos, enforcamentos e assassinatos de negros.

Não houve referências ao presidente americano Donald Trump durante todo o ato. Mas as críticas à imprensa eram constantes e faziam coro com o slogan de Trump: "Não temos medo de 'fake news', seus mentirosos".

Chorando muito, uma estudante era amparada por amigos. "É pior do que a gente pensava. É muito pior. Isso vai virar um inferno."

"A negra está assustada!", gritou uma mulher, rindo junto a um grupo de homens portando tochas.

Alt-right

O prefeito de Charlottesville divulgou uma nota após a marcha, classificando o ato como "uma parada covarde de ódio, fanatismo, racismo e intolerância".

"A Constituição permite que todo mundo tenha o direito de expressar sua opinião de forma pacífica, então aqui está a minha: não só como prefeito de Charlottesville, mas como membro e ex-aluno da universidade de Virginia, fico mais do que incomodado com essa demonstração não-autorizada e desprezível de intimidação visual em um campus universitário".

Para o protesto deste sábado, são esperadas figuras como Richard Spencer, criador do termo alt-right, uma abreviação de "alternative right", ou "direita alternativa", em português. O grupo é acusado de racismo e antissemitismo e têm representantes no governo de Donald Trump.

Esta é a segunda vez que a cidade se torna sede de protestos de grupos supremacistas. Em 8 de julho, aproximadamente 40 membros da sede local da Ku Klux Klan também acenderam tochas em Charlottesville.

Presidente de um organização que define como "dedicada à herança, identidade e ao futuro de pessoas de ascendência europeia nos EUA", Spencer ganhou visibilidade internacional por fazer a saudação "Hail Trump, hail nosso povo, hail vitória", logo após a eleição do republicano.

Formado em filosofia política na Universidade de Chicago, Spencer já declarou que o ativista negro Martin Luther King Jr. era uma "fraude" e um símbolo da "desconstrução da Civilização Ocidental".

Também disse que imigrantes latinos nos EUA estavam "se assimilando ao longo das gerações rumo à cultura e ao comportamento dos afro-americanos" e lamentou que o país estivesse se tornando diferente da "América Branca que veio antes".



terça-feira, 18 de novembro de 2014

Como o confronto político favoreceu o ateísmo nos EUA

Artigo interessante publicado na Folha de S. Paulo de 16/11/14:

O ateísmo sai do armário

RAUL JUSTE LORES


RESUMO Pesquisas apontam crescimento acelerado dos que se declaram sem religião nos EUA, parcela que hoje corresponde a 20% da população adulta. Para estudiosos, tanto o aumento da descrença quanto eventuais reações conservadoras religiosas estão diretamente vinculadas ao ambiente político do país.

*

Pela Constituição do Tennessee, um cidadão não pode concorrer a cargo público se não acreditar em Deus; mas em Nashville, a capital do Estado, um grupo de 150 pessoas se reúne semanalmente na Assembleia dos Domingos, um fórum de ateus praticantes, que conta com mil inscritos.

Nos encontros, de uma hora de duração, revezam-se os "mestres de cerimônias". "Não queremos que uma figura carismática se repita na condução", explica um dos organizadores, o designer gráfico Landry Butler, 47. Durante o encontro, uma dona de casa lê, de um púlpito, escritos de Margareth Mead e J. R. R. Tolkien; uma assistente social relata sua evolução como mãe solteira e seu trabalho com pacientes de Alzheimer; e um grupo desfila um repertório que vai de "Start Me Up", dos Rolling Stones, a "The Cave", dos Mumford & Sons. "Quantas chances você teria de cantar em público regularmente sem ser um artista?", indaga o vocalista Adam Newton, 39.

Nashville ainda é conhecida como "a fivela do Cinturão da Bíblia", formado pelos Estados mais religiosos do Sul dos EUA -título que disputa com Dallas, no Texas.

Um fazendeiro que viajou 75 km com a mulher para não perder o evento dominical dos não crentes relata uma conversa que ouviu na fila para fazer compras em um entreposto agrícola. O vendedor contava a uma freguesa que um dos candidatos a xerife, escolhido em eleição direta, não frequentava nenhuma igreja. A mulher reagiu dizendo: "Esse não leva o meu voto, deve ser imoral". O fazendeiro calou-se. "Fiquei no armário", diz.

Apesar da compreensível cautela do visitante, o fato é que ateus, agnósticos e os "sem religião" estão saindo do armário em um dos países mais religiosos do mundo. O número de adultos menores de 30 anos que se encaixam nesta última categoria já é mais que o triplo do observado no Brasil.

O crescimento é recente e acelerado: em 2007, 15% dos americanos não tinham religião, contra 20% em 2012, segundo pesquisa do Pew Research Center. No Brasil, entre 2000 e 2010, os sem religião oscilaram de 7% para 8%.

O índice de norte-americanos sem religião sobe de 20% para 32% se considerada somente a faixa de 18 a 30 anos. Entre brasileiros, 8% dizem não ter religião e apenas 10% dos que têm de 15 a 29 anos se enquadram nessa categoria, segundo o IBGE (2010). Ateus no Brasil são 0,8% da população -enquanto o cálculo do Pew, que soma ateus e agnósticos, é de 6% da população americana.

Nesse cenário, ateus famosos começam a tratar do assunto -ainda tabu- em público, caso do ator Brad Pitt ou do criador do Facebook, Mark Zuckerberg. Promovem-se conferências anuais para os não crentes, chamadas "Skepticons" (conferência dos céticos), e "paradas do orgulho ateu" são organizadas pelas redes sociais.

"Hoje é mais fácil ser ateu também por causa internet. De repente, começamos a nos achar na rede, a marcar encontros e a nos expor", diz P. Z. Myers, 57, cientista e professor de biologia da Universidade de Minnesota, autor do best-seller "The Happy Atheist" (o ateu feliz), lançado no ano passado.

Com essa onda, coexiste a maioria da população, que preserva um fervor religioso pouco comum em países ricos: a frequência semanal a igrejas e templos nos EUA ainda é quatro vezes superior à europeia. Os que acreditam no criacionismo são 44%, enquanto 55% dizem rezar diariamente.





São o rebanho de uma nação cuja história foi forjada pela presença inaugural de puritanos e outros grupos religiosos em fuga da Europa, que estreitavam os laços com Deus na busca da nova terra prometida. Um país em que se popularizou uma imagem retratando Jesus, entre George Washington e outros patronos da nação, segurando a Constituição como se fossem os Dez Mandamentos.

Especialistas concordam que o enfraquecimento da religiosidade nos EUA tem relação direta com a política. "George W. Bush [2001-09] prestou grande ajuda à causa ateísta", ironiza Myers.

"O que vemos é uma reação a anos em que forças religiosas se colocaram do lado errado da história, apoiando guerras, atitudes machistas, homofobia e doutrinas cada vez mais associadas à crença. No quesito 'relações públicas', foi um desastre para a religião", diz o professor, que tem mais de 150 mil seguidores no Twitter e um blog, premiado pela revista "Nature", no qual mistura ciência, feminismo e ativismo antirreligioso.

O estudioso britânico Nick Spencer, diretor de pesquisa do centro de estudos Theos, frisa que os EUA são "um raro país ultracientífico, onde grandes descobertas tecnológicas acontecem desde o século 19, que ainda é muito religioso". Autor do recém-lançado "Atheists: the Origin of the Species" (ateus: a origem das espécies), Spencer lembra que, como pastores e religiosos abraçaram a revolução americana e participaram do processo de independência, os "pais fundadores" asseguraram na primeira emenda da Constituição a liberdade de culto, proibindo o Estado de legislar sobre o tema e de se assumir oficialmente como cristão.

Foi, na realidade, no século 20, em oposição ao socialismo e seus regimes de ateísmo forçado, que os governos americanos passaram a abraçar com mais convicção a identidade cristã.

Em 1952, por exemplo, foi criado pelo presidente Harry Truman (e aprovado pelo Congresso) o Dia Nacional de Oração, celebrado até hoje em 1º de maio -data em que diversos países comemoram o Dia do Trabalho, escolhido pela Internacional Socialista para marcar um atentado contra grevistas em Chicago, em 1886. Os americanos, no entanto, celebram seu "Labor Day" em setembro.

O juramento à bandeira, repetido em repartições públicas, escolas, quartéis e no Congresso americano, foi modificado em 1954, em plena Guerra Fria, para acrescentar a expressão "uma nação sob Deus". E a célebre inscrição "In God we trust", nas cédulas de dólar, nasceu em 1956, no governo do general Dwight Eisenhower.

Eram os anos do auge do macarthismo, quando o Senado promoveu investigações sobre atividades consideradas "un-american", e o senador Joseph McCarthy (cujo nome veio a batizar a era), via comunistas por todos os lados -do Departamento de Estado a Hollywood.

Em seu primeiro discurso famoso, de 1950, quando denunciou diplomatas de seu país como "comunistas infiltrados", McCarthy disse que a "grande diferença entre o mundo ocidental cristão e o mundo comunista" não era política, "mas moral". "Hoje estamos em uma batalha final, de tudo ou nada, entre cristãos e ateus", anunciou. Pouco depois, pessoas consideradas comunistas, homossexuais e ateus entraram em "listas negras" -centenas foram presas.



CONTRACULTURA

Não tardaria muito para que a crise de identidade da Guerra Fria, com a contestação do conflito no Vietnã, o florescimento de movimentos de liberação sexual e a onda da contracultura, nos anos 1960, passassem a colocar em xeque esse processo de exacerbação persecutória e religiosa. Nas décadas seguintes, situações como a aprovação do aborto pela Suprema Corte, em 1973, e a maior visibilidade dos gays, associada à epidemia de Aids, terminaram por acirrar conflitos e despertar uma nova reação.

Uma espécie de segundo macarthismo desenhou-se a partir do final da década de 1980, época em que líderes religiosos cada vez mais assertivos passaram a condenar a "ruína moral da América". Evangélicos, que vinham conquistando espaço nos meios de comunicação, mostravam-se mais diretamente preocupados com o ativismo político. Chegou-se a ensaiar um impeachment contra um presidente adúltero (Bill Clinton, 1993-2001) e o primeiro episódio da clássica série de TV "The West Wing", sobre os bastidores da Casa Branca, trazia um grupo de evangélicos cobrando compromissos de um presidente democrata.

A reação religiosa-moralista fez a então superstar Janet Jackson ser praticamente banida da TV por ter exibido, acidentalmente ou não, um mamilo durante o show no intervalo da final do Super Bowl, o campeonato de futebol americano, em 2004. E o marqueteiro do então presidente George W. Bush, Karl Rove, estimulou a realização de plebiscitos contra o casamento gay, como garantia de que muitos eleitores sairiam de casa para votar contra -o que favoreceria a reeleição do mandatário naquele ano, que de fato aconteceu.

"Os evangélicos abandonaram o mutismo e encontraram sua voz, às vezes problemática e grotesca. Como resposta, assistimos a um recrudescimento do ateísmo. Não em nome da ciência, mas porque Deus voltou à arena política americana", diz Spencer.

Alguns ateístas têm adotado a política dos decibéis a mais praticada pelos evangélicos -mas para metralhar religiões. Myers diz que "gosta do confronto" e que "precisamos denunciar as loucuras dos crentes". Nessa trincheira também se aloja Sam Harris, um dos principais ativistas ateus do país, presente na lista dos livros mais vendidos desde setembro, com sua segunda obra, "Waking Up" (acordando). A primeira, "O Fim da Fé", de 2004, virou best-seller e fustiga não apenas religiões cristãs mas especialmente o islã.

Foi no programa de Bill Maher -um show de humor político e entrevistas há 20 anos no ar na TV americana- que Harris se meteu em uma arenga a respeito da islamofobia de parte dos ateus que, como ele, fomentam o confronto.

Maher, que já produziu um documentário hostil às religiões ("Religulous", de 2008), disse que "a esquerda americana, em nome do multiculturalismo, é muito tímida em denunciar os absurdos do mundo islâmico". Acrescentou que o islã se tornou "como a Máfia, que mata quem ousa falar mal dela". Harris pegou a deixa e foi mais longe: "O islã é a mãe de todas as más ideias do presente", atacou.

Ben Affleck, o ator e diretor de "Argo", disse que Maher estava generalizando e que "os EUA já mataram mais muçulmanos do que qualquer grupo fundamentalista muçulmano, mas nós não somos acusados disso". O vídeo do embate viralizou em 24 horas.

Maher também fez piada com os pacatos ateus da Assembleia dos Domingos. "A graça de ser ateu" -disse ele- "é não ter que ir a uma igreja. Frequentar essa assembleia é um contrassenso. É como convidar um membro do Tea Party para uma feira de ciências".



terça-feira, 26 de julho de 2011

Glenn Beck compara vítimas norueguesas à Juventude Hitlerista

O ativista mórmon Glenn Beck é um dos expoentes do conservadorismo norteamericano, que tinha até alguns meses atrás um programa seu na rede Fox News, de propriedade de Rupert Murdoch, recentemente envolvido no escândalo de escutas ilegais ("grampos") que acarretou o fechamento do tabloide britânico News of the World (do qual era também dono), além de tê-lo levado a depor no Parlamento do Reino Unido. 

Conhecido pela defesa dos princípios mais à direita do que já está na direita o Partido Republicano dos EUA, o que o levou a formular novas teorias da conspiração a cada programa seu no rádio ou na TV, Glenn Beck também faz questão de se apresentar como um brilhante líder religioso mórmon, nem que para isso tenha que fingir-se "especialista" no que não é, como quando desancou o Concílio de Niceia num programa de rádio de 27 de maio de 2010, misturando-o com os manuscritos do Mar Morto (Qumram), alegando que um havia sido substituído pelo outro, sem qualquer evidência histórica que sustentasse sua fantasiosa versão.

Suas reiteradas acusações infundadas contra tudo e todos terminaram gerando um boicote aos anunciantes do seu programa na Fox News, que não resistiu à metralhadora giratória inconsequente de seu apresentador e foi cancelado alguns meses atrás. 

Agora, só lhe resta o programa radiofônico, no qual ele comentou o recente ataque terrorista perpetrado por um fanático religioso conservador na Noruega, Anders Behring Breivik, agora conhecido como "o carniceiro de Oslo", segundo informa o jornal britânico The Guardian

Estranhamente, em vez de aproveitar a chance para desvincular seu pensamento extremista e condenar o ataque terrorista, Beck, ao que parece, joga a culpa nas vítimas inocentes, ao afirmar que não entende como jovens estavam reunidos na ilha de Utøya para um acampamento político, comparando-os com a Juventude Hitlerista, que também utilizava esse expediente nos mórbidos tempos da Alemanha nazista. 

Torbjørn Eriksen, antigo assessor de imprensa do primeiro-ministro da Noruega, Jens Stoltenberg, rebateu as críticas de Beck dizendo que já há 60 anos este acampamento é realizado, e nunca houve qualquer ameaça à democracia. 

Já na lógica enviesada e corrompida de Glenn Beck, jovens não podem se reunir para um congresso ou encontro político de qualquer matiz, sob pena de se equipararem a nazistas e serem alvejados por algum lunático religioso. 

Esquece-se convenientemente, entretanto, que o movimento conservador Tea Party dos EUA, do qual Beck é um dos incentivadores, também reúne jovens em muitos acampamentos por todo o país. 

O discurso distorcido de Glenn Beck é tudo o que o mundo não precisa num momento como este (e em todos os outros).

sábado, 22 de janeiro de 2011

Jesus odeia Obama?

Seria tudo apenas (mais) uma piada de mau gosto que só o estranho extremismo político norteamericano é capaz de proporcionar, mas a repercussão da rejeição da Fox Sports de um anúncio televisivo patrocinado pelo site "Jesus Hates Obama" ("Jesus odeia Obama") deu ainda mais publicidade a outra loucura religiosa dos EUA, no mesmo (baixo) nível do "God Hates Fags" ("Deus Odeia os Bichas") do Fred Phelps. Se já não bastasse a tentativa de assassinato da deputada Gabrielle Giffords em Tucson (Arizona) alguns dias atrás (com vários mortos de "efeito colateral"), agora o site Jesus Hates Obama queria veicular um anúncio de 30 segundos (veja abaixo) no próximo dia 6 de fevereiro, durante o famoso SuperBowl, a decisão do futebol americano, o evento de maior audiência na TV do país, e com os intervalos comerciais mais caros . A cadeia de TV Fox - que detém os direitos de transmissão - se negou a retransmitir o anúncio e aí está formada a pequena confusão, segundo informa o blog Belief da CNN. Como a Fox é a ponta-de-lança do império de comunicação erigido pelo magnata (de origem australiana) Rupert Murdoch, que tem entre suas subsidiárias, além da Fox Sports, a Fox News, porta-voz do neoconservadorismo religioso nos EUA, parece tudo assim meio combinado, digamos. Afinal, pouca gente sabia que este site (que tem o ódio como mote) existia, já que vive de vender quinquilharias como camisetas, copos e bonés. Agora o mundo inteiro sabe.

O proprietário do site, Richard Belfry, se defende dizendo que realmente não acredita que Jesus odeie Obama, mas acredita na liberdade de expressão e de poder ironizar o governo do presidente norteamericano quando não concorda com suas políticas. Omite o fato de que está ganhando muito dinheiro com isso (diz que já vendeu 70.000 camisetas, como a que ilustra este texto, que diz "Jesus Loves You But Hates Obama" - "Jesus te ama mas odeia Obama"), e a partir de toda essa publicidade gratuita, certamente ganhará mais. Ele acredita no lucro também. A Fox não deu explicações sobre as razões da rejeição do anúncio, mas provavelmente não ficou nem um pouco triste com a repercussão do "incidente". Como costuma acontecer nessas ocasiões, a religião apenas desempenha um papel auxiliar na perseguição de objetivos políticos às vezes não tão claros. O mandamento de "não levar o nome de Deus em vão" é o primeiro a ser esquecido. É muito perigoso misturar duas instâncias explosivas da sociedade como política e religião, e infelizmente o Brasil parece que está seguindo pelo mesmo caminho. Ainda dá tempo de pensar melhor...


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Pastor americano diz que Deus ordenou assassinatos em Tucson

Que Fred Phelps tem muitos parafusos a menos na cabeça, todo mundo já sabia. O pastor da Igreja Batista de Westboro é mais (tristemente) conhecido por sua campanha "God Hates Fags" (algo como "Deus odeia os bichas"), mas que também faz incursões pela xenofobia como no caso da subcampanha "God Hates Brazil" ("Deus odeia o Brasil"), entre outras nações do mundo, tudo sob o pretexto de anunciar o ódio de Deus ao mundo, que o teria escolhido como porta-voz. Prática rotineira do seu grupo é participar dos velórios de desafetos para comemorar a sua "entrada no inferno". Pois é nesta condição que o exótico e pernicioso "pastor" publica agora um vídeo em que dá a entender que Jared Lee Loughner - o atirador que atacou várias pessoas uma reunião política em Tucson, Arizona, entre elas a deputada norteamericana Gabrielle Giffords, que está seriamente ferida -, agiu em nome de Deus. Desta forma, as 6 pessoas mortas (entre elas uma menina de 9 anos de idade) e os 14 feridos nas estatísticas do massacre até o momento, seriam vítimas de um desígnio de Deus executado pelo desequilibrado. Pois é este tipo de raciocínio desequilibrado, reproduzido inclusive no boletim da igreja em questão (veja a imagem abaixo), que - temo eu - leva muita gente a se afastar sequer da possibilidade de ouvir o bom e puro evangelho da graça de Deus. No boletim, o "pastor" inclusive diz aos americanos que "your soldiers & fellow citizens are dying for your sins" ("os seus soldados e companheiros cidadãos estão morrendo por seus pecados"). Portanto, passa a léguas de distância da cruz de Cristo. Triste assim...





dica do blog Scotteriology

domingo, 18 de abril de 2010

Vulcão da Islândia é castigo de Deus para Obama

É o que garante Rush Limbaugh, radialista conservador norteamericano, responsável por um dos programas de maior audiência do país, em que invariavelmente defende as ideias republicanas mais radicais em contraste com os ataques aos democratas de Obama. Política americana é uma coisa um tanto quanto esquizofrênica, já que são todos capitalistas e protecionistas extremados, e a única diferença é a maior ou menor intervenção do Estado na economia e as limitações à iniciativa privada. No fundo, é uma questão de gradação da intervenção, mas isso é suficiente para os mais conservadores acusarem os mais liberais de socialistas, comunistas, etc. Outra distinção significativa é que os republicanos têm uma ligação com os setores mais fundamentalistas do evangelicalismo norteamericano, razão pela qual vemos o Pat Robertson (que já foi pré-candidato republicano à Presidência nas eleições de 1988) dizer que o terremoto foi castigo para o Haiti. Seguindo esta lógica obtusa, Pat Robertson não se magoaria, certamente, se as religiões nórdicas começassem a dizer que o cataclisma vulcânico é uma vingança de Odin contra os escandinavos (e europeus em geral) por terem abandonado sua mitologia ancestral. Rush Limbaugh se defenestra no mesmo abismo, ao dizer que o caos aéreo provocado pelo vulcão Eyjafjallajoekull na Islândia é castigo de Deus por Obama ter conseguido aprovar a reforma da saúde pública nos Estados Unidos, que universaliza o atendimento médico com enormes investimentos públicos, o que deixou os conservadores irados. Logo, Deus teria castigado Obama por ele ter permitido que pobres tivessem acesso à saúde. A declaração de Limbaugh, segundo o site Think Progress (com áudio incluso), é a seguinte:


Vocês sabem, alguns dias após a lei da reforma da saúde ter sido promulgada, o Obama saiu por todo o país dizendo, "Sabem, eu estou olhando em volta e a terra não se abriu, não tem Armagedom lá fora. Os pássaros ainda estão cantando". Já eu acho que a terra se abriu. Deus pode ter respondido. Este vulcão na Islândia colocou mais aviões no chão - e o espaço aéreo foi mais afetado - do que no 11 de setembro, por causa dessa coluna de fumaça, por causa dessa nuvem de cinzas sobre o Norte e o Oeste da Europa. No aeroporto de Paris, eles estão dizendo às pessoas para se dirigirem à estação e pegar trens pra fora da França, e quando as pessoas chegam à estação de trem, eles lhes comunicam, "Não há lugares vazios até 22 de abril, pelo menos", basicamente daqui a uma semana. Isto deixou todo mundo paralisado e sem rumo. A terra se abriu. Eu não sei se se trata de um renascimento ou do Armagedom. Espero que seja um renascimento, e que Deus esteja falando.


Curioso é verificar, conforme constata o jornal britânico The Guardian, que a última erupção do vulcão Eyjafjallajoekull, de 8 de junho de 1783 a meados de fevereiro de 1784, despejou lava e lançou cinzas na atmosfera de maneira que 1/4 da população islandesa morreu de fome nos anos seguintes, devastando não só a agricultura local como a da Europa como um todo. A catástrofe climática resultante teria sido um dos estopins da Revolução Francesa de 1789. O contraste não deixa de ser interessante, afinal toda a democracia moderna é tributária, de alguma forma, das conquistas políticas e de direitos humanos da Revolução Francesa, ou seja, naquele caso, o vulcão Eyjafjallajoekull teria sido uma bênção de Deus para a humanidade, e agora é uma maldição para o Obama. Vai entender...


Eu fico imaginando o que aconteceria se todos nós fizéssemos este mórbido exercício de ficar associando tudo quanto é desgraça e desastres naturais a um castigo preciso e pontual de Deus, ¿a quantas conclusões diferentes chegaríamos? Acho que pelo menos no caso do vulcão todos concordaríamos num aspecto: este nome Eyjafjallajoekull é um tanto quanto apocalíptico mesmo, né não?




aeroportos fechados em 18/04/10
checar no NYTimes

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Neoconservadorismo à brasileira


No seu blog, Luís Nassif vem fazendo uma análise da linha editorial (na verdade, mais política do que editorial) da revista Veja. Nassif (que, assim como Matinas Suzuki e este que vos escreve, é fã da antiga música caipira de raiz de Cascatinha e Inhana) inicia a sua matéria falando do fenômeno dos "neocons" na política e na imprensa americana. Os "neocons" são os "neoconservatives" ou, em bom português, os "neo-conservadores", responsáveis – em boa parte - pela ascensão do George W. Bush e seus falcões (Dick Cheney à frente) ao poder, e pelo sucesso de emissoras conservadoras como a Fox News, do império de comunicação de Rupert Murdoch, e da qual Bill O'Reilly talvez seja o maior expoente. Quem tem acesso a TV a cabo ou por satélite, e entende inglês, não pode perder "The O'Reilly Factor" na Fox News, que é um show de conservadorismo no melhor (ou pior) estilo americano. Ainda que seja uma figura polêmica, algo deve ser dito a favor de O'Reilly: o cara é bom de debate. Quem quer se especializar em (boas) técnicas de argumentação, mesmo que odeie suas opiniões, deve tomar umas aulinhas com o tio Bill. Outro pilar deste fenômeno conservador nos EUA é o fundamentalismo evangélico, que, assustado com a abertura dos democratas a temas como aborto e casamento gay, aos quais se acrescentaram os escândalos sexuais do Bill Clinton na Casa Branca, bandeou-se de mala e cuia para os neocons republicanos.

Retomando o tema que inicia a matéria do Nassif sobre a Veja, ele comenta:

O estilo neocon

De um lado, há fenômenos gerais, que modificaram profundamente a imprensa mundial nos últimos anos. A linguagem ofensiva, herança dos “neocons” americanos foi adotada por parte da imprensa brasileira, como se fosse a última moda.


Durante todos os anos 90, Veja havia desenvolvido um estilo jornalístico onde campeavam alusões a defeitos físicos, agressões e manipulação de declarações de fonte. Quando o estilo “neocon” ganhou espaço nos EUA, não foi difícil à revista radicalizar seu próprio estilo.

Esse tal "estilo neocon" é mais um daqueles modismos americanos constantemente exportados para a periferia global, da qual fazemos triste parte, e sempre encontra respaldo em brasileiros "descolados" que, entre uma e outra balada na Vila Olímpia, se sentem americanos exilados no Terceiro Mundo; e que, para reconverter a sua dura realidade à almejada Flórida dos sonhos consumistas, encampam o discurso neocon sem ao menos questioná-lo e criticá-lo, para ver se é adequado à realidade brasileira. Afinal, hoje é bonito citar algumas máximas conservadoras e desfilar uma série de pensamentos liberais, pelo simples prazer de se sentir aceito numa classe média alta brasileira que continua mais preocupada com o próprio umbigo do que com aquele pentacentenário projeto de nação.

Isso provoca algumas situações inusitadas. Embora a direita em geral, e a extrema-direita em particular, sejam terrenos privativos do fundamentalismo religioso interdenominacional, há situações como a do meu amigo Moisés que, mesmo sendo ateu, vem seguidamente postando artigos neoliberais e anticomunistas no fórum Atos. Como somos amigos (sim, eu tenho amigos ateus e os prezo muito!), eu brinquei com o Moisés, dizendo que pediria para o Supremo Concílio dos Ateus expurgá-lo dos seus quadros, já que, como diria o Padre Quevedo, "non ecziste" ateu de extrema-direita. Essa "conversa" se deu num dos artigos postados pelo Moisés (ver aqui), assinado por João Mellão Neto e publicado no Estadão, de profundo mau gosto (no melhor estilo neocon), que iniciava e terminava assim:

"Ensinamento ministrado numa aula de Filosofia do Direito para alunos do 7º semestre de uma conceituada universidade paulistana: “Vocês, que só transaram com ‘patricinhas’ burguesas, não sabem de fato o que é sexo. Essas meninas se preocupam exclusivamente com sua aparência e nunca se permitem entregar-se por inteiro aos prazeres da carne. Se vocês querem saber o que é sexo de verdade, tenham relações com moças da periferia. Estas estão livres dos condicionamentos e valores burgueses e por isso sabem de fato como se pratica um ato sexual.”
...
Quanto ao professor universitário que citei nos preâmbulos, devo confessar que, apesar de seus eloqüentes argumentos, continuo vendo mais encantos nas “patricinhas”..."

(artigo completo no site do Estadão)

Como não costumo resistir a trogloditas deste jaez, comentei o seguinte:

Este senhor que atende pelo sobrenome de Mellão é figurinha antiga e desbotada da direita brasileira. Foi secretário da prefeitura de Jânio Quadros, e apoiador de primeira hora da campanha do Collor, de quem foi ministro da Administração. Ele até tinha uma certa admiração da direita brasileira até então, e defendia com unhas e dentes os dois tristes exemplos da política brasileira aí em cima. Depois que o filme deles queimaram, o Mellão sumiu.... talvez envergonhado por ter vendido ao país uma idéia de modernidade tão nefasta como Fernando Collor. Como a memória do Brasil é reconhecidamente curta, depois de passar muito tempo no ostracismo, hoje ele ainda tem um certo trânsito na direita brasileira, mais pelo jornal em que ele é articulista (o Estadão) do que propriamente por méritos pessoais.

De fato, ele atravessa uma fase de decadência constrangedora. Só o exemplo com que ele começa e termina o seu artigo é de um mau gosto que articulistas de direita jamais cometeriam. Talvez ele quisesse realçar a sua condição de privilegiado, por ter filhos que estudam em universidade e podem transar com patricinhas.... vai saber... a idade deve ter chegado, e a virilidade típica dos machistas tende a se projetar nos filhos, ainda mais se eles puderem reproduzir a velha tradição colonial dos filhos de senhores-de-engenho que se iniciavam sexualmente com as escravas negras. Freud explica!

Igualmente infeliz é a ligação que Mellão tenta fazer entre o malfadado exemplo das patricinhas e o amontoado de idéias desconexas que despeja sobre o leitor a seguir. Como participante de governos em que os comandantes não reservaram à posteridade uma imagem de bons gestores públicos (pra dizer o mínimo), soaria engraçado ele falar de desperdício de verbas públicas, não fosse trágico. Cita eleições livres, como se não fosse estranho o Bush ter assumido o primeiro mandato tendo menos votos do que Al Gore, sendo que a contagem dos votos na Flórida foi varrida pra debaixo do tapete. Cita tribunais de contas como garantia de lisura na administração pública, como se os tribunais de contas do Brasil não fossem compostos de juízes e conselheiros nomeados pelos próprios governantes que deveriam investigar (vide o atual escândalo de corrupção no TCE de São Paulo). Fala da globalização como se fosse uma concessão da suprema bondade dos países ricos aos pobres, e não uma necessidade da economia deles que permita a desova do excedente de produção nos mercados marginais, a fim de não haver desemprego LÁ. Se os países pobres terão boa parte de sua população tirada dos bolsões de miséria, isso se trata de mero efeito colateral desejável, pois garante o incremento da produção e da riqueza dos países ricos nas próximas décadas. Obviamente, embora o seu sobrenome até inspirasse a lembrança, Mellão não fala nada dos subsídios agrícolas e das barreiras fitossanitárias que os países ricos impõem aos pobres. Tampouco fala da fiscalização das suas políticas econômicas pelo FMI, que obriga os pobres a seguir sua cartilha, mas faz vistas grossas aos constantes e seguidos déficits das economias maiores, como os EUA, tão próximos de uma recessão, e, agora (pasmem!), ameaçado pelo FMI com uma investigação nas suas contas. O remédio é amargo, mas deixe que os outros tomem.

Enfim, Mellão não continua o mesmo, piorou muito! Atualmente tem uma certa dificuldade em concatenar idéias e o ranço do seu passado oligárquico e collorido contamina o seu texto e a sua percepção do mundo, das patricinhas e das moças da periferia. Estas, se pudessem falar, se tivessem vez e voz, talvez pudessem lembrar aquela velha frase que, me parece, foi originalmente proferida por Rui Barbosa: "os canalhas também envelhecem".

Chego à conclusão, portanto, de que o estilo neocon é muito mais nocivo do que parece, embora tenha vida curta. O próprio Francis Fukuyama, que havia celebremente decretado "O Fim da História" no seu livro de mesmo nome, após a derrocada do comunismo, agora lança o livro "After the Neocons" ("Depois dos Neocons"), culpando-os por sua frustrada profetada. A atual tragédia no Iraque e a falência das contas públicas e privadas nos EUA tendem a jogar uma pá de cal na fase neocon americana. Infelizmente, modismos gringos costumam sobreviver por algum tempo em países periféricos como o nosso. Até o seu sepultamento no hemisfério sul, padeceremos mais alguns anos debaixo desta mórbida influência. Até lá, entretanto, veremos muitos católicos, evangélicos e ateus entrando pela porta estreita que conduz ao reino paradisíaco (e passageiro) das políticas liberais, um fenômeno tipicamente brasileiro, onde a identidade religiosa não é tão importante como em outras plagas. Eis um prato cheio para os sociólogos pós-FHC investigarem.

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