Mostrando postagens com marcador existencialismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador existencialismo. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de outubro de 2015

A teologia de Paul Tillich, 50 anos após sua morte

Paul Johannes Oskar Tillich, alemão nascido em Starzeddel, então província de Brandenburgo, na Prússia, em 20 de agosto de 1886 (hoje Starosiedle, na Polônia), faleceu em Chicago, Illinois (EUA), em 22 de outubro de 1965.

Tillich foi um dos maiores teólogos protestantes do século XX, e 50 anos após sua morte a obra que ele produziu continua influente.

A matéria é do IHU:

A voz de Tillich contra Hitler


A cinquenta anos da morte, uma recordação do pensador protestante que dos Estados Unidos, onde tinha sido constrangido ao exílio pelas críticas ao nazismo, marcou fortemente a teologia do século vinte. Estimado por Thomas Mann pela sua aversão ao nazismo, estudado por Martin Luther King pela a sua atenção ao transcendente e ao mistério cristão e pelo seu “socialismo religioso”, mas em particular um pensador capaz de estar no limite dos saberes entre teologia, filosofia e psicologia e de apresentar-se quase sempre como a verdadeira contrapartida do pensamento de Karl Barth e de seu “Deus inacessível”. 

A reportagem é de Filippo Rizzi, publicada no jornal Avvenire, 21-10-2015. A tradução é de Benno Dischinger.


Nestas poucas linhas se condensa a cifra acadêmica do teólogo protestante alemão Paul Tillich (1886-1965) – de quem amanhã (22/10) recorrem os 50 anos da morte. Um pensador que marcou a história da teologia na segunda metade do Século Vinte, tanto em âmbito católico como naquele protestante; baste pensar em suas obras mais famosas, como O Futuro das Religiões, A Irrelevância, a relevância da mensagem cristã para a humanidade de hoje, sua obra prima Teologia Sistemática ou ainda o seu escrito autobiográfico mais significativo Sobre a Linha do Limite. Capelão militar durante a primeira guerra mundial, discípulo do idealismo alemão e do filósofo Schelling, Tillich se tornará subitamente uma das vozes mais críticas na Alemanha contra o advento do nascente nazismo e de sua ideologia pagã.

Por causa de sua crítica ao regime de Hitler – em particular após a publicação do ensaio A Decisão Socialista – será privado da cátedra na universidade de Frankfurt e a partir de 1933 começará o seu exílio da Alemanha: será constrangido a asilar-se nos Estados Unidos, onde atuará até sua morte, nas universidades de Colúmbia, Harvard e Chicago. E precisamente sobre sua firme crítica ao nazismo e ao seu paganismo se deterá o pastor valdense Paolo Ricca: “O seu [discurso] foi um gesto corajoso, sobretudo porque ele fazia parte do movimento dos “socialistas e religiosos”, que tinham como modelo de referência os pastores protestantes suíços Leonhard Ragaz e Hermann Kutter. Com o seu estilo Tillich não tomou parte ativa na luta da “Igreja confessante” que se opôs ao regime:

Toda a liderança terminou nos campos de concentração. Talvez também por esta sua escolha de viver além-mar, também após a guerra, a sua influência sobre a teologia protestante tem sido menos incisiva na Europa em relação à de Bonhoeffer, Karl Barth e Rudolph Bultmann. Ele é muito mais conhecido na América do que no Velho Continente. Eu mesmo descobri sua grandeza nos anos de minha maturidade acadêmica e por uma iniciativa pessoal minha”.

Elmar Salmann entrevê neste “pensador kairológico”, “embebido do pensamento de “Schelling”, do idealismo alemão e da teologia liberal de Ernest Troeltsch” o ponto de maior novidade de sua indagação sobre o existencialismo e sobre a sociedade. “Parte da unicidade deste intelectual – revela Salmann – é representada por vários fatores: é um estudioso que está no limiar, acompanha as passagens da história entre teologia e filosofia. É muito próximo às reformas sociais feitas na Alemanha nos anos vinte do século vinte. Talvez tudo isto explica por que Theodor Adorno decide fazer a sua tese universitária sobre Kierkegaard dirigida pelo professor Tillich”. O padre Salmann, à luz também deste aniversário, percebe pontos de encontro entre a teologia ‘tillichiana’ e a de Barth. “Embora tão diversos em sua impostação metodológica – observa – há em ambos uma forte veia socialista e social-democrática. Há, a meu juízo, uma afinidade eletiva oculta: basta reler sua interpretação da crise social da Alemanha após a primeira guerra mundial.

Em Tillich teve predomínio a veia liberal, fenomenológica, pneumatológica, enquanto em Barth a cristológica, que refere o todo à Revelação divina. Embora de ângulos diversos, ambos propõem um percurso de realização do cristianismo na realidade e na complexidade da vida humana e social”. Sua atenção aos interrogativos últimos como o seu campo de pesquisa para a psicanálise e o mistério do transcendente ou ainda a atualidade de um texto ‘tillichiano’ como a coragem de existir (The courage to be), são alguns dos aspectos do teólogo existencialista alemão que desde sempre mais têm fascinado Eugenia Scabini, docente de Psicologia Social da família na Católica de Milão e autora, entre outros, em 1967, de um ensaio sobre o pensamento de Paul Tillich: “Nele é fortíssima esta instância de pôr-se os interrogativos últimos, de ir ao essencial das questões últimas. E, no fundo, muito deste método e terminologia será retomado anos depois, com uma leitura original, pela socióloga Margaret Archer.

A pensadora Scabini, relendo a atualidade de Tillich, se detém sobre sua interpretação do conceito de ‘ânsia”. “Precisamente porque é um existencialista e um protestante puro faz as contas com Freud, relê em chave moderna este estado de ânimo, non esquecendo a condição antropológica e psicológica.

A ânsia reinterpretada por Tillich supera certo reducionismo psicológico e faz aflorar um estado de ânimo comum e típico de muitos seres humanos”. E releva um particular: “A meu juízo, parte de sua maior herança está no seu ensaio ‘A coragem de existir’, onde descreve um ato, no fundo, que leva à fé, um Deus que nos aceita e nos justifica, não obstante a angústia da culpa e da condenação. Como seguramente original é a sua interpretação do conceito de limite e de confim, aquele ele chama em alemão ‘Grenzen’. Naquela metáfora de estar no limite se pode estar abertos a algo diverso também porque somente quem está na borda pode olhar para frente e para trás. E é, portanto, uma condição privilegiada”.

Uma herança, portanto ainda atual e a aprofundar segundo o teólogo valdense Paolo Ricca: “O centro de sua pesquisa teológica é a correlação entre mensagem cristã e condição humana. Quando se toma em mãos o índice de sua obra mais famosa, a Teologia sistemática, se descobre tudo isto. A grandeza de Tillich – é a consideração final – é aquela de colocar-se no limite entre realidade e fantasia, entre teoria e práxis, entre Igreja e sociedade. Esta posição de limite implica e obriga Tillich a um repensar bastante radical da linguagem da fé. Basta pensar no conceito de pecado, relido nos termos de alienação de si mesmo, do próximo (que se torna um estranho), e de Deus, em relação ao qual não se consegue mais instaurar um diálogo com Ele. Há em tudo isto uma profunda renovação da linguagem da fé e emergem assim os aspectos mais prometedores, a meu juízo, de sua teologia”.



domingo, 10 de maio de 2015

Por que as pessoas fazem tatuagens idiotas?

Um artigo curioso e interessantíssimo publicado no Vice:

Um Psicólogo Explica Por Que as Pessoas Fazem Tatuagens Idiotas

Jules Suzdaltsev

Tatuagens dizem tudo que você precisa saber sobre a sociedade na qual elas foram feitas – e os EUA estão testemunhando uma epidemia de tatuagens escrotas. Não tenho números para sustentar essa afirmação, porque ninguém pensou em pesquisar isso, mas realmente parece que há mais tatuagens horríveis do que nunca. Por todo lado, você vê gente ostentando marcas clichês, citações idiotas, nomes de ex (lembra de "Winona Forever"?), frases mal traduzidas em outras línguas e, num caso muito bizarro, terríveis tatuagens faciais.

Mas por que as pessoas ainda estão tatuando arame farpado em volta do bíceps e borboletas no cóccix? Tentando entender melhor a questão, falei com Kirby Farrel, professor da Universidade de Massachusetts especializado em antropologia, psicologia e história relacionadas ao comportamento humano. Seu último livro, Berserk Style in American Culture, discute o vocabulário da cultura pós-trauma da sociedade norte-americana.

VICE: Qual é o seu interesse em tatuagens péssimas?
Kirby Farrel: Estou interessado principalmente no que você pode chamar de "a antropologia da autoestima e identidade". Penso nas tatuagens como um método que as pessoas usam para tentar se sentir significantes no mundo. Trabalho muito com Ernest Becker – você já ouviu falar do livro dele? Acho que ele ganhou um prêmio Pulitzer com esse livro chamado A Negação da Morte.

Sim, já ouvi falar.
Bom, ele argumenta que somos únicos entre os animais, porque somos sobrecarregados com a consciência do futuro, da futilidade, da morte e assim por diante. Estamos constantemente inventando defesas. A cultura é uma defesa contra o sentimento de opressão, futilidade e perdição. Culturas estão cheias de valores e belezas que te fazem sentir que sua vida é significativa e que tem um significado duradouro, mesmo que limitado. Então, você pode dizer que tatuagens são expressões culturais de heroísmo e individualidade.

Logo, isso se traduz numa epidemia de tatuagens idiotas?
Muitas pessoas dizem que fizeram uma tatuagem como uma lembrança de alguém ou algum evento. Por exemplo, tatuar a letra de uma música. As frases, claro, acabam sendo os maiores clichês. Mas elas estão te exortando a ser um indivíduo forte, imitando todos os outros animais que também pintam clichês na própria pele.

E onde esses caminhos se cruzam? Por um lado, a pessoa quer algo que lhe dê a sensação de significância e autoexpressão, mas acaba fazendo exatamente o oposto disso (o que consideramos uma "tatuagem ruim" ou uma "tatuagem clichê")?
Acho que a fantasia de ser especial, único, importante e heroico, que é do que estamos falando, é complicada quando vivemos numa cultura que celebra esses valores. Estamos sempre bombardeando outros países para preservar nossa "liberdade", o que presumivelmente significa individualidade. Mas, ao mesmo tempo, nossa cultura é intensamente conformista. Temos empresas constantemente tentando imprimir sua marca na consciência popular. Então, por exemplo, se você está tatuando algum clichê bobo de uma música pop, como "Vou te amar para sempre" ou "Não seja um imitador", na verdade você está se marcando com entretenimento industrial, porque grupos de rock, como sabemos, são basicamente máquinas de fazer dinheiro, empregando modelos financiados pela indústria do entretenimento.

Então por que as pessoas fazem isso?
Uma resposta é que somos animais incrivelmente sociais. Você tem de ter em mente que o eu não é uma coisa. É um evento. Se você está em sono profundo, o eu realmente não existe. A neuroquímica do eu não está ali. Desse ponto de vista, nos sentimos mais reais quando outras pessoas nos afirmam, reasseguram e reforçam nossa identidade. Nos rituais sociais pelos quais passamos, como dizer "Oi, como vai? Bem, e você?", você não espera ouvir qualquer informação pessoal. É só uma confirmação de que vocês dois existem e reconhecem um ao outro. De certa maneira, tatuagens também funcionam assim. Elas chamam atenção para você e fazem você se sentir real, mesmo se essa atenção fizer você se sentir membro de um grande grupo. Uma tatuagem te diz que você é parte de uma tribo de colegas tatuados, uma tribo linda e significativa. Você pode até compartilhar símbolos com outra pessoa! Ao mesmo tempo, por causa do fenômeno das marcas, isso faz você se sentir mais esperto do que o cara ao lado, que não sabe o suficiente para comprar seu produto em particular ou sua moda em particular.

Parece que você está dizendo que a própria cultura é clichê. Assim, tentando emular essa cultura social, fazemos essas tatuagens ruins.
A cultura está constantemente nos tentando com fantasias de singularidade e heroísmo. Você é tentado a comprar uma nova BMW, porque isso promete te fazer sentir heroico nas ruas. Você vai se destacar na multidão. A multidão é formada de pessoas comuns, elas vão morrer um dia e serão esquecidas. Mas todo mundo está olhando para você, você está sob os holofotes, você é o herói. E, ao mesmo tempo, se você ajustar a perspectiva sutilmente, eles estão fazendo as pessoas comuns acharem que é OK adorar heróis. Você é convidado a identificar e admirar o rico, o heroico, o prestigioso – e, se você os admira, isso se torna "minha música", "meu cabelo" ou "meu produto". Na verdade, você compartilha o glamour com o poder fetichista das coisas que admira.

Você está dizendo que isso é ser enganado por um movimento social de adoração ao herói?
Bom, se você está ou não sendo "enganado", depende de como você se sente sobre a validade e o pertencimento dos clichês. Quando você quer se tatuar com um verso da sua música favorita, você certamente está sentindo um tipo de excitação emocional e admiração por essa música. Um tipo de êxtase romântico. Você ouve as pessoas dizerem "Isso tem um significado especial para mim". É como uma auréola emocional em torno desse objeto.

Por que esse sentimento é significativo para nossa identidade própria?
Acho que, no geral, as pessoas estão com medo do futuro e se agarram a um ritual, um lema, um clichê familiar que elas acham significativo. É como um cobertor de segurança para dar sentido à sua vida, principalmente quando sua moral está sob pressão ou você está realmente empolgado com algo bom. Mas a questão é que, em qualquer um desses eventos, o clichê não parece ser um clichê. Isso parece ter um significado especial.

OK. Mudando um pouco de assunto: tatuagem é uma coisa que existe há milhares de anos. Alguns dos primeiros humanos já tinham tatuagens. Você acha que existe algo inerente à natureza humana que nos faz querer nos tatuar?
Claro. O cadáver que foi encontrado congelado e preservado nos Alpes, que acho que tem uns 5 mil anos – ele está num museu na Itália, você pode passar para dar um oi –, a última pesquisa mostra que esse corpo tem várias tatuagens. Elas tendem a ter um desenho abstrato. Baseado na localização delas, a hipótese é que elas serviam para se distrair de coisas físicas desconfortáveis, como artrite. Ou elas provavelmente tinham algum tipo de significado mágico. Pensando nisso, de certa maneira, todos os nossos comportamentos tendem a ser muito mágicos. Imaginamos que há algum poder especial em nossos símbolos, em nossos lemas, em nossas marcas, que isso de alguma forma eleva nosso humor, nos faz sentir mais fortes, mais capazes e melhores sobre nós mesmos.

E você acha que isso é algo inerente à humanidade?
Claro. Como pessoas, estamos regularmente à beira do pânico existencial. Becker disse que, se você visse o mundo realisticamente (quão vulnerável e totalmente insignificante você é, considerando o cosmo), você ficaria louco. Então, você precisa constantemente de histórias que constroem sua autoestima e fazem você se sentir significante, o que é fornecido pela cultura.

Logo, essas tatuagens escrotas são uma representação desse mecanismo de defesa?
Sim, exatamente. São representações físicas e artísticas de valores com que você se identifica. Vivemos nesse mundo onde existe um tipo de racismo recorrente e repentino, que vemos desde os anos 60 ou até desde a Guerra Civil. As condições de trabalho são extremamente punitivas, exigentes e despersonalizantes para quem está na base. Você não sente que tem direito à própria identidade. Então, as pessoas se sentem especialmente pressionadas para tentar encontrar seu próprio reforço mágico, porque há coisas em que a cultura não pode te ajudar. Você vê dinheiro, morte e culpa quando as pessoas querem se sentir seguras e como se estivessem no comando em termos de autoestima e bem-estar.

Muitas tatuagens parecem um tanto inconsequentes. Como as pessoas racionalizam a permanência de uma tatuagem em relação à própria mortalidade?
Muitas pessoas, especialmente quando são jovens, imaginam que serão jovens para sempre. Afinal de contas, se a mágica de que estamos falando sobre a cultura realmente funcionar, então, você pode se sentir invencível e imortal, por assim dizer. E é um clichê adolescente achar que você vai viver para sempre – é por isso que eles se arriscam, usam drogas, etc. Eles não conseguem imaginar que vão crescer e parecer diferentes do ideal cultural. Você nunca teve de se preocupar em ficar doente nem nunca esteve em apuros. Você nunca teve de se preocupar em ficar velho e ter de aceitar diminuir suas perspectivas, seus poderes, suas fantasias.

Você acha que isso é uma reação ao medo, ou na verdade resultado da falta de experiência?
Bom, você não acha que são as duas coisas?

Acho que sim.
Você tem medo, mas não admite isso, porque poderia prejudicar sua moral frágil. Uma moral danificada te torna menos eficiente, menos seguro, menos produtivo, etc. Então, você nega que tem medo. Provavelmente, o mecanismo básico da cultura é fingir que tudo está bem e que você não está com medo.

Mas estamos com medo.
Sim, com certeza. Estamos vivendo um momento em que as pessoas estão tão famintas por autoestima, aprovação e confiança, que estão dispostas a dizer e fazer coisas realmente bizarras e idiotas, porque com isso elas se sentem diferentes. Assim, elas se sentem únicas, significativas e vivas.



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 8

 Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 7

Eclesiastes 8 segue o discurso prático do capítulo anterior, começando com uma pergunta ("Quem é como o sábio?") que se liga à frase imediatamente posterior, "que sabe a interpretação das coisas", colocando como uma espécie de enigma a ser decifrado o provérbio "a sabedoria do homem faz reluzir o seu rosto, e muda-se a dureza da sua face" (v. 1).

Ora, de imediato, no capítulo 8, o Pregador diz que há, sim, um benefício na sabedoria, que é o brilho do rosto e a leveza da face.

Há outro componente simbólico que deve ser analisado: um rosto brilhante significa, em linguagem bíblica, uma proximidade de Deus.

A face de Moisés resplandecia de tal maneira quando falava com Deus no monte, que teve que usar um véu (Êxodo 34:35).

Quando Daniel tem a visão de um anjo (que boa parte da antiga tradição judaica diz ser o arcanjo Gabriel), este tem o rosto como um relâmpago (Daniel 10:6), o que se parece muito com a glória de Deus (Ezequiel 1:26-28; Apocalipse 1:12-16).

Davi também tinha essa idéia de que era Deus a fonte da sabedoria que ilumina o rosto dos seus filhos: "Quem nos dará a conhecer o bem? Senhor, levanta sobre nós a luz do teu rosto" (Salmo 4:6).

O próprio Salomão fizera conhecido um dos seus provérbios em que associa a dureza do rosto à impiedade: "o homem perverso mostra dureza no rosto, mas o reto considera o seu caminho" (Provérbios 21:29).

É esta "consideração do caminho", de todos nós, este "conhecimento do bem", que podemos chamar de sabedoria, conforme o provérbio seguinte ensina: "não há sabedoria, nem inteligência, nem mesmo conselho CONTRA o Senhor" (Prov. 21:30).

O sábio "conhece o tempo e o modo, porque para todo propósito há tempo e modo" (Ecl 8:4-5). O início do capítulo 8 fala de como devemos nos comportar diante do rei, e é possível interpretar esses versículos como sendo o rei o próprio Deus.

De fato, um rei (aqui com um significado bem abrangente, de líder, presidente, governador, etc.) deve se cercar de homens sábios como conselheiros, mas o Pregador coloca um juramento divino como garantidor da fidelidade a Deus, juramento este que mostra o rei (no caso, Salomão) como alguém ungido por Deus para esta função e este domínio sobre o povo.

A Bíblia de Jerusalém entende este juramento como uma possível interpolação do texto por alguém da época em que os Ptolomeus dominavam o Egito e a Palestina (séc. II a. C.), mas isso é mera suposição, sem nenhuma evidência mais concreta.

O fato é que, a meu ver, este juramento se encaixa dentro do propósito do Pregador, que no começo do capítulo 5 já havia advertido quanto às palavras e aos votos feitos ao Senhor.

Assim como não devemos nos apressar a pronunciar palavra alguma diante de Deus (5:2), não devemos nos apressar em deixar a presença do rei (8:3), pois ele faz o que bem entende. Pressa não combina com realeza e soberania.

Já o homem tem que carregar uma espécie de "peso do mal" sobre ele (v. 6), "porque este não sabe o que há de suceder; e, como há de ser, ninguém há que lho declare" (v. 7).

Este deve ser um versículo que todos os clarividentes e prognosticadores certamente não gostariam de ler, pois aí está bem claro que não existe adivinhação do futuro mediante uma bola de cristal (pelo menos que seja aprovada e atestada por Deus).

O v. 8 merece um pouco mais de atenção, pois há um problema de tradução com relação à palavra רוּח (rûach ) na expressão "não há nenhum homem que tenha domínio sobre o rûach para o reter".

A versão Almeida Revista e Atualizada traduz a palavra por "vento", enquanto a Revista e Corrigida e a NVI traduzem-na por "espírito". A Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) diz que "ninguém pode dominar o vento, nem segurá-lo".

As Bíblias católicas têm uma visão um pouco diferente, mas ainda na linha de "alma", "espírito". A Bíblia de Jerusalém diz "Homem algum é senhor do sopro, para reter esse sopro" e a Bíblia do Peregrino é mais poética: "O homem não é dono de sua vida, nem pode encarcerar seu alento". A Tradução Ecumênica segue o mesmo caminho: "Ninguém tem poder sobre o sopro vital para reter esse sopro".

É bom lembrar, também, que no capítulo 1 já discutimos a tradução da palavra vaidade como uma inútil "corrida atrás do vento".

Esta diversidade de traduções para a mesma palavra já foi discutida no capítulo 3 e a sua importância teológica é para o debate entre aqueles que creem na existência e na imortalidade da alma, e aqueles outros que a negam peremptoriamente.

A mim me parece que o contexto imediato favorece a primeira posição, pois o raciocínio do mesmo versículo é completado com a expressão "nem tampouco tem ele poder sobre o dia da morte".

Logo, me parece que a melhor tradução realmente seja "espírito", já que no dia da morte, ninguém pode reter a alma, o espírito.

Ainda nesse contexto, o v. 8 é completado com a frase "nem tampouco a perversidade livrará aquele que a ela se entrega". Por "entregar-se" aqui deve ser entendido "tornar-se escravo", conforme indica a palavra hebraica בּעל - ba‛al .

Logo, quem se torna escravo do mal, da perversidade, nesta vida, não se livrará dela, mas ¿só nesta vida?

Ainda que não exista aqui nenhuma referência explícita a uma sobrevivência da alma após a morte, nem seja possível desenvolver uma teologia do inferno a partir dessa expressão, a meu ver ela se encaixa dentro do espírito do v. 8, de que realmente há uma alma, um espírito que sobrevive à decadência do corpo e que, mesmo após a morte, ainda é escravizada, subjugada de alguma forma, ao mal e à perversidade.

A seguir, o v. 9 fala do poder do rei, e aqui numa visão já bastante terrena, no sentido de que todo aquele que lidera, que governa, e que, de alguma forma, abusa deste poder, além de arruinar os outros, termina prejudicando a si mesmo. Isto viria a ser verdade do reinado do filho de Salomão, Roboão, quando o reino se dividiu em Norte e Sul (1 Reis 12).

O v. 10 fala das injustiças da vida, muito comuns até hoje, em que pessoas más e belicosas são sepultadas com todas as honras (indevidas), enquanto pessoas boas e pacíficas são deixadas no mais completo abandono e esquecimento.

No v. 11 vemos um problema bem atual da sociedade, em especial a brasileira, já ter sido tratado quase 3 milênios atrás: a impunidade. A NTLH assim traduz: "Por que será que as pessoas cometem crimes com tanta facilidade? É porque os criminosos não são castigados logo".

No versículo seguinte, ainda na NTLH, o sábio diz que "um criminoso pode cometer cem crimes e continuar a viver", mas ainda que permaneça impune do ponto de vista legal, humano, do que isso lhe adiantará em termos transcendentais?

O v. 12 fala da inclinação do coração do homem para o mal, ocasião em que o Pregador faz uma pequena pausa para falar de coisas concretas, que realmente preocupam o crente ao ver a injustiça do mundo, realçando um dos pilares de Eclesiastes, que é o temor a Deus.

De fato, diz Qohélet, "bem sucede aos que temem a Deus", enquanto o perverso, que não teme a Deus, terminará sendo punido de alguma forma (v. 13).

Isso não elimina a confusão que muitas vezes percebemos, entre justos a quem ocorrem coisas más, e perversos a quem ocorrem coisas boas, mas preocupar-se com essa, digamos, aleatoriedade do destino - diz o Pregador – também é vaidade, ilusão, "correr atrás do vento" (v. 14).

Voltando ao seu padrão existencialista – na melhor acepção da palavra –, no v. 15 o Pregador repete pela terceira vez um conselho que já havia dito antes (2:24 e 5:18): vivam com alegria! Comam, bebam e alegrem-se! Divertir-se faz parte do dom da vida que Deus nos deu.

Agora é a providência divina que está em foco. Por fim, já tendo falado dos pilares da sabedoria, do temor de Deus e da providência, resta o último pilar do discurso de Qohélet: a eternidade.

E, para destacá-la, ele termina o capítulo 8 repetindo, de certa forma, Eclesiastes 3:11, dizendo que o homem não consegue compreender toda a obra de Deus, nem o sábio a pode achar, pois ela não tem princípio nem fim, como que se estivesse escondida debaixo do véu da eternidade, esta mesma eternidade que foi colocada por Deus no coração do homem.




Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 9



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 7



Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 6



O capítulo 7 é o mais longo de Eclesiastes, e talvez seja o mais belo e o mais injustiçado, já que muita atenção se dá a Eclesiastes 3 em detrimento da profundidade dos ensinamentos do Pregador em Eclesiastes 7. 

Para mim, este é o momento de sua pregação em que aquilo que parecia etéreo, excêntrico, digamos, "filosófico demais", começa a ter uma aplicação mais prática, mais "pé no chão". 

Assim, ele lista uma série de situações em que a nossa vaidade é despertada, em que nos sentimos importantes e especiais, como no caso de um ungüento precioso (7:1), o banquete na casa (7:2), a canção do insensato (7:5), e a cada uma dessas circunstâncias específicas em que a vaidade é realçada, o Pregador contrapõe outra situação em que a sabedoria verdadeira está sendo negligenciada. 

Temos, portanto, uma sabedoria prática, aplicada às cenas cotidianas que todos nós vivenciamos, e este é o momento em que o Pregador começa a dizer a que veio, e qual é sua real intenção.

Assim, a preocupação do primeiro versículo é com a reputação, com a "boa fama", a qual o Pregador considera melhor do que um perfume caro, o "ungüento precioso", o que não deixa de ser uma comparação bastante atual, já que muitas pessoas preferem camuflar a sua reputação atrás de perfumes e roupas caríssimas, como se elas tivessem o condão de modificar o que lhes vai por dentro. 

A estes Jesus chamaria de "sepulcros caiados" (Mateus 23:27), e alguns de nós poderiam usar o provérbio "por fora bela viola, por dentro pão bolorento". 

Na sabedoria prática de Qohélet, é melhor o dia da morte do que o do nascimento, porque a morte, sobretudo para o cristão, não deixa de ser um momento de redenção, uma tarefa cumprida, uma volta para casa, um encontro com a eternidade, enquanto o nascimento é apenas o começo de uma vida sujeita a todas as vaidades debaixo do sol. 

Neste diapasão, é melhor ir a um velório do que a um banquete (v. 2), pois diante da morte do outro (seja ele querido ou não) é que compartilhamos da humanidade que nos une, do destino comum a todos nós, e aí podemos refletir como estamos, de fato, levando a nossa própria vida. 

Afinal, só temos um vaguíssimo vislumbre da morte pela experiência dela pelo outro.  Curiosamente, nenhum de nós passará - em vida - pela experiência da morte, razão pela qual ninguém sabe exatamente o que seja o fim que a todos é reservado, e é nos velórios que somos lembrados de que ela existe e nos espera. 

Não que os banquetes não sejam bons, mas a comida e a bebida tendem a entorpecer os nossos verdadeiros objetivos nesta vida. E, ainda que não nos demos conta disso, as festas não deixam de ser - também - uma fuga da tomada de consciência da finitude que é inerente a todos nós

Ainda nesta lógica, digamos, esquisita, é melhor magoar-se do que rir (v. 3), permitindo-nos inferir que a mágoa (conforme traduzido na versão Atualizada), em geral, é conseqüência do conhecimento de algo ou de alguém que até então se apresentava (dissimuladamente) como verdadeiro e agora vemos que é falso, enquanto rir pode ser algo meramente inútil e inconsequente. 

Entretanto, "mágoa" talvez não seja a melhor tradução para a palavra hebraica כּעס (ka‛as). A NVI a traduz por "tristeza". As versões católicas são mais felizes ao captar o real significado do v. 3:


Mais vale o desgosto do que o riso,
pois pode-se ter a face triste e o coração alegre.
(Bíblia de Jerusalém)

É melhor sofrer do que rir,
pois dor por fora cura por dentro.
(Bíblia do Peregrino)

O sofrimento, o desgosto e a dor, se devidamente encarados, vividos, apreendidos e aprendidos, sem vitimização ou alarido, purificam e nos fazem crescer. É por isso que "o coração dos sábios está na casa do luto, mas o dos insensatos, na casa da alegria" (v. 4). 

Repare que há uma palavra que não está escrita no capítulo 7 de Eclesiastes (ela só aparece uma vez em 9:17), mas que está diretamente relacionada ao, digamos, "ambiente" desse contexto de luto: o silêncio.

Saber silenciar-se numa hora de dor, mágoa e sofrimento, para - no tempo oportuno - se recompor, isto sim é uma arte que todos podem e devem aprender.

Embora a maioria das pessoas não goste, é melhor ser repreendido pelo sábio do que juntar-se à cantoria dos insensatos (v. 5), cujas gargalhadas se comparam a espinhos crepitando debaixo de uma panela (v. 6). 

Ora, o que mantém o fogo acesso são as achas de lenha e não os espinhos, que apenas crepitam, fazendo o efeito sonoro irritante que, além de disturbar o silêncio, é inútil para o cozinhar.

A seguir, o Pregador volta a um tema que lhe preocupa bastante durante todo o livro de Eclesiastes, a opressão, que chega a enlouquecer o sábio, e a corrupção dos subornos (v. 7). 

O mundo é corrupto, o sábio não se cansa de dizer, e ninguém está imune a se ver diante de uma situação que pode corrompê-lo ou em que ele pode corromper alguém.

"Melhor é o fim das coisas do que o seu princípio" (v. 8), o que contraria, até certo ponto, o senso comum, de que o fim das coisas é sempre triste, mas Qohélet tem outros olhos para isso, pois vê as coisas de outra perspectiva, que é a eternidade, como já havia deixado claro em Eclesiastes 3:11. 

Nesse prisma, as coisas que realmente importam não têm princípio nem fim, pertencem a outra dimensão, a qual tocamos rapidamente em nossa passagem pelo planeta, mas neste mundo tudo é temporal e se desgasta naturalmente. 

Ele ainda encontra lugar para nos admoestar de que devemos ser tardios em irar-nos (v. 9), uma característica geralmente atribuída a Deus no Velho Testamento (Números 14:18; Salmos 103:8, 145:8; Joel 2:13, por exemplo) e que Tiago (1:19) nos aconselha a cultivar. 

Salomão já havia dito isso em Provérbios 19:11 – "a sabedoria do homem lhe dá paciência; sua glória é ignorar as ofensas" – NVI. Então, no v. 10, o Pregador dá um conselho que contraria ainda mais aquilo que estamos acostumados a pensar:


"Jamais digas: Por que foram os dias passados melhores do que estes? Pois não é sábio perguntar assim."

No nosso mundo, a juventude é admirada, louvada, apreciada, benquista. O envelhecimento é tido como algo feio, sujo, ruim, malvado, que devemos evitar a todo custo, embora seja o curso natural (e inevitável) das nossas vidas. 

Por isso mesmo, nos cercamos de saudosismo e nostalgia. Ficamos a nos lembrar, morbidamente, de como éramos felizes e não sabíamos, de como o que passou tem mais valor do que o que estamos vivendo, de como o passado é melhor do que o presente. 

O Pregador se indigna com este tipo de pensamento, e eu acho que ele está certo. O envelhecimento, visto como amadurecimento, é uma bênção de Deus

Não podemos nos trancar no baú de recordações do passado, recusando-nos a envelhecer e, assim, nos esquecermos de que temos que viver o hoje, e hoje a nossa vida - devida e friamente considerada - é mais feliz e completa do que foi alguns ou muitos anos atrás. 

Não podemos nos esquecer, também, de que a memória é traiçoeira, e ela tende a apagar e relativizar os maus momentos e reforçar, adoçar, açucarar mesmo as boas lembranças. 

Qohélet se insurge contra esta atitude na vida, pois o que verdadeiramente importa é o hoje, o presente. Como eu já havia dito no primeiro capítulo, o Pregador é existencialista no melhor sentido da palavra, e o que lhe importa é o aqui e o agora, não o que passou. 

O elixir da juventude é a eternidade no nosso coração.

Nos vv. 11 e 12, o Pregador faz uma comparação interessante entre sabedoria e dinheiro. Pela primeira vez, ele diz que herança e dinheiro podem ser coisas boas, para aqueles que veem o sol, mas somente a sabedoria preserva a vida. 

Muitas vezes, tanto a herança como o dinheiro causam a morte de quem os recebe. A sabedoria é muito melhor. 

O v. 13 mostra a impotência do homem diante dos decretos de Deus, já que ninguém pode endireitar o que ele torceu. 

É no v. 14 que o Pregador retoma um dos pilares de seu discurso, a providência divina, pois Deus tanto faz o dia da prosperidade como o da adversidade. 

Os bons morrem, e muitos maus vivem bastante (v. 15), logo não há razão para imaginar que a providência de Deus seja uma lógica matemática. 

Somente Ele sabe os seus desígnios e, principalmente, o que se passa dentro de cada coração humano. Portanto, o equilíbrio deve ser buscado em tudo na vida. Todos os extremismos devem ser evitados. 

Não devemos ser demasiadamente justos nem exageradamente sábios (v. 16), mas também não podemos ser demasiadamente perversos ou loucos (v. 17). Estes dois versículos deviam ser mais lidos na igreja para evitar tanto o farisaísmo como a licenciosidade. 

É o equilíbrio que, por assim dizer, constitui o amálgama dos 4 pilares onde se sustenta Eclesiastes: a sabedoria, a providência divina, a eternidade e o temor de Deus, pois "quem teme a Deus de tudo isso sai ileso" (v. 18). 

No v. 20, está uma declaração que embasa também o pensamento de Paulo em Romanos 3:10, pois "não há homem justo sobre a terra que faça o bem e que não peque". 

Para quê, então, viver à espreita de quem possa estar cometendo um erro ou falando mal de nós (v. 21), se somos todos sujeitos aos mesmos pecados (v. 22)?


Ainda com relação a Eclesiastes 7:16-17, sobre não ser demasiadamente justo, a palavra hebraica traduzida por justo aí é צדּיק - tsaddîyq - que quer dizer basicamente justo, legal, correto, no sentido de algo que está de acordo com a lei. 

Eu acho que "justo" não é uma boa tradução, já que ninguém pode definir exatamente o que seja justiça. Aquilo que é justo para um pode ser injusto para outro. Além disso, há muitas leis injustas. 

Martinho Lutero, por sinal, seguindo seus primeiros ensinamentos de Direito antes da Teologia, vai por esta linha ao comentar Eclesiastes 7:16
É melhor ter paz e sossego, ainda que com desvantagem e direito menor, do que buscar com intranquilidade e desassossego interminável o direito mais exigente e rigoroso. De qualquer modo, até aí jamais chegaremos. Pois não é necessário que um bom atirador acerte sempre na baliza ou na mosca. Quem acerta bem próximo da mosca ou várias vezes no alvo também é bom atirador. Todos os grandes sábios e também a experiência confirmam que existem e diariamente vão surgindo muito mais litígios e casos do que se pudesse abranger com leis e direito. Por isso também dizem que a lei rigorosa é a maior injustiça, como também diz Salomão: "Não sejas demasiadamente justo, para não quebrares a cabeça".
(Bíblia Sagrada com Reflexões de Lutero, p. 624)
Então, parece que estão com a razão alguns comentaristas que dizem que deve se entender essa palavra por legal, legalista, que cumpre a lei ao pé da letra. Desta maneira, não devemos ser legalistas como os fariseus, por exemplo. 

Com relação ao "exageradamente sábio", o significado me parece que seja também de não querer ser o sabe-tudo, o dono da verdade, alguém que não só dita mas detém o monopólio da interpretação das regras como se fosse o próprio Deus. 

Além disso, bem no espírito de Eclesiastes, o Pregador quer que se viva a vida sem grandes obrigações de ser a mais certinha das pessoas. O lema dele é "viva por prazer e não por obrigação". 

Por "demasiadamente perverso ou louco", eu acho que o contexto indica que não devemos ser alucinadamente materialistas, ou seja, que vivamos única e exclusivamente em função de aumentar o nosso prazer material, esquecendo-nos do espiritual e dos pequenos prazeres da vida. 

E entenda-se por "prazer material" aí tanto os excessos carnais como tudo aquilo que desrespeita, rouba, fere e mata os outros, apenas para que consigamos atingir os nossos objetivos mundanos pisando neles. 

É na mescla de todas essas qualidades que o sábio sugere que devemos encontrar o equilíbrio na vida.

Como o Pregador já havia dito logo no começo (1:8), muito conhecimento é enfado. Logo, perseguir a sabedoria apenas por perseguir também é vaidade, pois ela sempre se afasta de nós (v. 23). 

Quanto mais sábios ficamos, menos sabemos, o que lembra a frase atribuída a Sócrates: "só sei que nada sei!". Ser sábio é ter consciência das próprias limitações e a elas se acomodar. 

Isto também tem uma aplicação prática e corriqueira. Por que se preocupar tanto em saber, com minúcias, o que acontece com certa pessoa ou situação? Qual benefício advém de focar a vida unicamente em algo ou alguém?

Querer saber demais nos põe em contato com a perversidade, a insensatez e a loucura (v. 25). Talvez por isso Deus tenha dito a Moisés que "as coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus" (Deuteronômio 29:29) e Jesus tenha dito aos discípulos: "ainda tenho muito que vos dizer; mas vós não o podeis suportar agora" (João 16:12). 

Por fim, Qohélet faz um ataque aparentemente genérico às mulheres no v. 26, mas que deve ser entendido como uma autocrítica de Salomão a respeito de suas mulheres, o momento de introspecção de alguém que tinha 700 mulheres e 300 concubinas, "que lhe perverteram o coração" (1 Reis 11:3). 

As mulheres não devem se sentir desprestigiadas por esse trecho final do capítulo 7, mas há que entender a amargura de um homem poderoso que, no fim da vida, se viu "metido em muitas astúcias" (v. 29) que ele próprio causou.



Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 8






quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Nietzche x Eclesiastes

No próximo domingo, dia 2 de fevereiro de 2013, comemoraremos o 5º aniversário do blog, e resolvemos fazê-lo de uma maneira um pouco diferente.

É que em 2008, publicamos aqui uma série de estudos sobre o livro de Eclesiastes, que - apesar de não termos naquela época a grande frequência diária que temos hoje - continuam tendo uma visitação bem significativa e comentada.

Decidimos, portanto, revisitar o livro de Eclesiastes nos próximos dias e semanas, para inclusive reavaliar o que escrevemos e - se for o caso - reformular alguns conceitos e interpretações, também com o objetivo de que os novos leitores assíduos possam contribuir com suas críticas e sugestões. Eclesiastes nunca é demais.

Começamos, entretanto, com o texto bastante estimulante e provocativo de outro autor, o Justin do blog Wine, Cheese and Theology, que gentilmente autorizou a tradução do seu artigo para ser publicada aqui:




Eu tenho escrito e pensado bastante sobre alguns temas nietzcheanos na arte e no livro de Eclesiastes.

Ambos dizem que nós deveríamos desfrutar a vida aqui e agora. Ambos apontam contradições e dilemas na vida.

Nietzche propõe uma experimentação intelectual na sua doutrina do Eterno Retorno.

E se - ele especula - o conjunto da história é cíclico, e você fosse destinado a viver a sua vida repetitiva e exatamente da mesma maneira? Ele diz o seguinte:

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela? [1]

Trevor Hart explica a doutrina de Nietzche desta maneira:

A idéia do eterno retorno funciona como um tipo de iluminação daquilo que realmente significaria aceitar completamente a falta de sentido e propósito no mundo. Viver sem uma metanarrativa , liberado do sonho moderno e cristão de uma realidade diferente daquela que de fato aí está, deveria significar, por outro lado, ser capaz de afirmar a totalidade da vida tal qual ela é.

Nietzche não está atrás de uma saída, um escape, para aquilo que seria uma maldição na vida. Ele busca um tipo de aceitação, ou afirmação desta vida, por amor ao destino.

O livro de Eclesiastes abre com o Professor, Qohelet, anunciando que tudo é hebel. Esta palavra pode ser traduzida como "vaidade", "vapor", ou "inútil". O erudito Michael Fox a traduz como "absurdo". Fox trabalha sobre a definição de absurdo dada pelo filósofo existencialista Albert Camus. Para Camus, o Absurdo é a desconexão entre pretensão e realidade, entre aquilo que nós esperamos ser o caso, e o que ele realmente é. Para Camus, é um fato empírico que nós esperamos certas coisas do mundo. Nós temos um desejo, ou uma aspiração por justiça, para dar um aspecto pessoal ao universo, e para que as coisas façam sentido. Mas não é isso que nós constatamos. Em vez disso, nós encontramos um mundo cheio de injustiça, e o universo é profundamente indiferente à nossa presença.

Da mesma maneira, em Eclesiastes, Qohelet explora as áreas da vida em que a pretensão se desliga da realidade. Nós pensamos que o conhecimento e a sabedoria deveriam levar à felicidade, mas, em vez disso, eles geralmente terminam em tristeza (1:16-18). O prazer deveria levar à felicidade, mas ele é passageiro e, em última instância, descartável (2:1-3, 2:10-11). O trabalho deveria levar à plena satisfação, mas, em vez disso, nós descobrimos que as suas recompensas são passageiras quando comparadas ao esforço que colocamos para ganhá-las (2:4-8, 18-19, 21). Não somente o nosso trabalho é passageiro e temporário, mas nós também somos; a morte é inescapável (2:16, 3:21). A justiça deveria ser recompensada e a maldade punida (8:12-13), ainda que freqüentemente parece que as coisas funcionam da maneira contrária (3:16-21, 4:1-3, 7:15, 10:7). Talvez a desconexão última resida no fato de que "[Deus] colocou a eternidade no coração do homem, ainda que ele não possa descobrir a obra que Deus fez do início até o final" (3:11). De alguma maneira, nós ansiamos ou esperamos "eternidade" dentro desta vida. Nós não conseguimos, como Camus diz, "reduzir o mundo a um princípio racional" ou explicar todos os meandros aleatórios da vida (as suas injustiças, dúvidas, opressões e sofrimentos). O mundo é simplesmente muito grande para nós organizarmos tudo e somos finitos por natureza (3:1-8, 8:6-7, 8:16-17, 9:11-12).

Entretanto, antes de se desesperar, Qohelet conclui que Deus, no meio de tantos absurdos, em tempos finites, concede alegrias temporárias. Esses prazeres passageiros existem para serem desfrutados como dons (2:24-25, 3:12-13, 22, 5:18-20, 8:15, 9:7-9). Desta maneira, podemos abraçar a nossa humanidade com a sua temporalidade, finitude e mesmo o sofrimento. E nós fazemos isso quando desfrutamos esses dons com gratidão e esperança.No fundo, nós encontramos uma fé fundamental nos escritos de Qohelet, apesar dos absurdos da vida. Nós somos capazes de desfrutar os prazeres temporais da vida precisamente porque nós sabemos que eles vêm de Deus. Além disso, ainda que seja verdade que, da nossa perspectiva, o mundo é absurdo, Qohelet advoga uma fé no Deus que tem uma visão muito mais abrangente (5:1-7, 12:13-14). Dons que se evaporam, prazeres fugitivos e belezas que se desvanecem são vista como apropriadas para o nosso "quinhão" na vida em virtude da distinção entre Criador e criatura.

Assim é quando Qohelet focaliza a natureza cíclica da vida (1:4-11, 12:7, 3:15). Ele ao mesmo tempo abraça um elemento prospectivo e esperançoso. Mesmo que seja verdade que, do nosso ponto de vista, a injustiça reina, o prazer seja uma ilusão, e os paradoxos abundem, nós temos a idéia de que Deus está sempre disposto a algo muito maior do que nós possamos conceber. "Então contemplei toda obra de Deus, e vi que o homem não pode compreender a obra que se faz debaixo do sol; pois por mais que o homem trabalhe para a descobrir, não a achará; embora o sábio queira conhecê-la, nem por isso a poderá compreender" (8:17). "Não há nada melhor para o homem do que comer e beber, e fazer que a sua alma goze do bem do seu trabalho. Vi que também isso vem da mão de Deus" (2:24). De novo, Qohelet justapõe essas duas realidades, frisando os absurdos da vida e então nos aconselha a desfrutar o nosso quinhão na vida (não menos que seis vezes, pelas minhas contas, nos capítulos 2 a 9). Finalmente, ele finaliza o livro com a admoestação de temer a Deus e uma referência ao juízo final (12:13-14). Peter Leithart coloca as coisas da seguinte maneira:


Como acontece nos capítulos finais de Jó, Eclesiastes ensina que há mais coisas no céu e na terra do que aquilo que é sonhado na nossa filosofia ou teologia, que Deus se propõe a muito mais do que nós possamos conceber e que, limitados e finitos como somos, é tão-somente natural que o nosso entendimento do padrão a história é parcial e o nosso controle da vida é limitado... a alegria salomônica é um hedonismo que nasce da confiança de que o mundo está sempre debaixo do controle de Yahweh.... em vez de se impacientar com a nossa finitude e ansiedade por sermos deuses, Salomão aconselha que nós devemos nos regozijar no nossos limites e em toda a efêmera vida que nos foi dada.

Então, qual é a diferença fundamental entre Nietzche e Qohelet? Nesses dois pensadores nós encontramos imperativos idênticos com indicativos opostos. Para Nietzche, nós devemos desfrutar a vida (imperativo) porque ela é tudo que existe (indicativo). Para Qohelet, nós devemos desfrutar a vida (imperativo) precisamente porque aquilo que nós vemos não é tudo o que existe (indicativo).


[1] NIETZCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Nova Cultural, Círculo do Livro, 1996. Coleção "Os Pensadores", p. 193




quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Pensamento negativo pode ser bom

Oh céus! Oh vida! Artigo do The Wall Street Journal traduzido por Guilherme de Souza para o HypeScience:

O poder do pensamento negativo

Frases como “tudo vai ficar bem” e “no fim tudo dá certo” podem parecer consoladoras a princípio, mas nem sempre são capazes de trazer paz de espírito e diminuir a ansiedade.

Em seu livro “The Antidote: Happiness for People Who Can’t Stand Positive Thinking” (“O Antídoto: Felicidade para Pessoas que não Suportam Pensamento Positivo”, sem edição no Brasil), lançado recentemente, o jornalista Oliver Burkeman mostra como uma boa dose de “pensamento negativo” pode ajudar as pessoas a não se preocupar demais com as dificuldades que virão.

“Pensar tranquilamente e em detalhes a respeito dos piores cenários possíveis pode ajudar a tirar do futuro seu poder de gerar ansiedade”, garante Burkeman.

Ele recorda o trabalho do psicoterapeuta Albert Ellis, um dos pioneiros do “caminho negativo”, que redescobriu na filosofia estoica ideias práticas para lidar com o futuro. O filósofo romano Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.), por exemplo, recomendava que quem tivesse medo de perder seus bens materiais “separasse um determinado número de dias em que se contentaria com o mínimo necessário, dizendo a si mesmo ‘essa é a condição que eu temia?’”.

Quando algum paciente lhe dizia que tinha medo de passar vergonha diante dos outros, Ellis o aconselhava a viajar no metrô de Nova York falando em voz alta o nome das estações conforme passasse por elas. Burkeman testou a ideia e, depois de alguns momentos de agonia por causa da vergonha, percebeu que não aconteceu nada demais, e que “pagar mico” não mata ninguém.

Pés no chão

A prática de pensar no pior que poderia acontecer era chamada pelos estoicos de “premeditação dos males” e, segundo Burkeman, faz contraste com o pensamento positivo, “aquele esforço para se convencer de que tudo vai ficar bem, que pode reforçar a crença de que será absolutamente terrível se não ficar”.

Ele aponta que o “culto à positividade” leva empresas estadunidenses a estabelecer metas grandes e audaciosas e incentivar os funcionários a buscá-las. “Mas o consenso pró-metas está começando a ruir”, diz. O primeiro problema que ele menciona é o encorajamento que metas rígidas demais podem gerar atitudes anti-éticas.

Burkeman cita como exemplo um estudo conduzido pela pesquisadora Lisa Ordóñez e por colegas, em que os participantes tinham que formar palavras a partir de um conjunto de letras aleatórias e informar os resultados à equipe. Aqueles que foram instruídos a atingir uma meta específica mentiram com muito mais frequência do que aqueles aos quais foi dito apenas “façam o melhor que puderem”.

Outro problema apontado pelo autor: metas podem fazer com que a pessoa se contente com resultados medíocres. “Muitos taxistas de Nova York, concluiu uma equipe de economistas, ganham menos dinheiro em dias chuvosos do que poderiam porque param de trabalhar logo que atingem o que consideram um bom lucro diário”.

De acordo com o professor de administração Christopher Kayes, da Universidade George Washington (EUA), focar em uma meta às custas de outros fatores pode distorcer uma missão corporativa ou mesmo a vida de uma pessoa. Certa vez, Kayes conversou com um executivo que lhe disse que seu objetivo era se tornar milionário aos 40 anos… e que ele conseguiu. Mas ele também estava divorciado, tinha problemas de saúde, e seus filhos não queriam mais falar com ele. O professor acredita que, por trás dessa mentalidade focada em metas, está um desconforto em relação ao sentimento de incerteza.

Em um estudo conduzido pela pesquisadora Saras Sarasvathy, da Universidade de Virgínia (EUA), foram entrevistados 45 empresários bem-sucedidos. Os resultados levam a crer que aprender a “acomodar” a incerteza pode não apenas levar a uma vida mais equilibrada, mas também ao sucesso profissional: entre os participantes, quase nenhum se apoiou em extensas pesquisas de mercado, nem traçou planos de negócio extremamente detalhados – havia uma certa tranquilidade em relação a imprevistos.

Esses empresários fizeram o que Sarasvathy chama de “efetuação”: no lugar de traçar metas e planos para atingi-las, eles avaliaram os recursos disponíveis e imaginaram os cenários possíveis, dando espaço à flexibilidade. A “efetuação” inclui também o que Sarasvathy chama de “perda acessível”: a pessoa pensa no que ela perderá se seu empreendimento for um fracasso; se puder pagar esse preço, segue em frente.

Por fim, Burkeman lembra que o maior valor do “caminho negativo” é o realismo: sempre podem acontecer imprevistos, e as coisas podem tanto dar certo como dar errado. Encarar essa realidade, ao invés de negá-la, é fundamental, especialmente porque “há fatos que mesmo os pensamentos positivos mais fortes não podem mudar”.



segunda-feira, 11 de junho de 2012

Espiritualidade sem fé e a era do desencanto

O filósofo francês Luc Ferry escreveu vários livros instigantes, entre eles "A Tentação do Cristianismo", e o caderno Sabático do Estadão do último sábado, 09/06/12, publicou uma longa entrevista com ele, imperdível para quem quiser - pelo menos - tentar entender o mundo atual e ter uma visão global de que caminho ele está tomando:

Uma nova ordem mundial

O francês Luc Ferry fala, em entrevista ao ‘Estado’, sobre a revolução provocada com o estabelecimento de uma espiritualidade laica - a filosofia do amor, que domina seu pensamento

Em 1979, quando o filósofo francês Jean-François Lyotard lançou A Condição Pós-Moderna, ensaio que abordava o declínio da ideia de emancipação e de outras metanarrativas nascidas com o Iluminismo, a crítica acadêmica internacional se fissurou. De um lado, seguiram os fiéis ao projeto moderno, calcado na construção de um futuro melhor e na ideia de um “dever ser”; de outro, os que abandonaram as ideologias, e adotaram a convicção de que o hedonismo e o presente são a melhor resposta às obsessões totalitárias.

Há 40 anos, essa segunda “tendência” acadêmica era marginalizada. Hoje, o curso da história lhes dá razão. E, em lugar de controvérsia, autores que advertem para os efeitos da ruptura das metanarrativas e dos valores tradicionais são premiados com o sucesso. Esse é o caso do filósofo francês Luc Ferry, autor de pelo menos dois best-sellers acadêmicos, Pensamento 68 – Ensaio Sobre o Antihumanismo Contemporâneo (1985) e A Nova Ordem Ecológica (1992), que lança no Brasil o ensaio A Revolução do Amor – Por uma Espiritualidade Laica (Objetiva) e O Anticonformista – Uma Autobiografia Intelectual (Difel).

Publicado em 2010 na França, A Revolução... teve acolhida calorosa de crítica e público. Esse sucesso talvez se explique pelo fato de que Ferry mergulha em um universo com o qual nos identificamos. Mesmo que se valha de autores como Rousseau, Kant, Nietzsche, Sartre, Husserl e Heidegger para construir sua argumentação, o livro é simples e não é difícil concordar com sua ideia básica: vivemos uma era de ruptura, e não estamos mais dispostos a nos sacrificar em nome de grandes ideias alheias, de utopias, mas sim em nome de nossos pais, filhos ou amigos. Um humanismo secular; uma espiritualidade sem fé. “Existem dois tipos diferentes de espiritualidade. Um age por meio de Deus e é, certamente, o conjunto das religiões; o outro, sem Deus, é o grupo das grandes filosofias”, explica ele no livro.

O Anticonformista, que Ferry lançou em seu país no ano passado, resulta de uma série de conversas com Alexandra Laignel-Lavastine, doutora em filosofia e especialista na história da intelectualidade. Dos anos de formação aos embates entre direita e esquerda, passando por sua experiência como ministro da Educação da França (2002-2004), a obra sublinha que a espiritualidade laica “constitui a pedra angular que hoje subentende toda a minha filosofia”. Não por acaso, A Revolução do Amor conduz a entrevista a seguir, concedida por e-mail pelo pensador ao Sabático.

Sua tese é de que o amor, ou melhor, o casamento por amor, e não mais por interesses, está no centro da nova ordem social. Ela gera uma segunda globalização, que sucede à do Iluminismo. A Revolução..., embora otimista, não é uma obra ingênua. É forte, não só pela temática e análise da desconstrução dos valores tradicionais, mas também por uma constatação: a de que as revoluções em curso, pelo menos no Ocidente, prosseguem – e sem armas.

Sobre A Revolução do Amor, comecemos por sua ideia de base: algo de revolucionário teria acontecido há alguns séculos: a invenção do casamento por amor na Europa. Qual é a amplitude desta revolução?

É imensa! A “revolução do amor” é o nascimento da família moderna, ou seja, a passagem do casamento arranjado ao escolhido. Esta revolução exige uma nova filosofia. Mas também chacoalha nossa relação com a coletividade. É o que chamo de “segundo humanismo”. O primeiro foi o da lei e da razão. Era o do Iluminismo e dos direitos humanos, dos republicanos franceses e de Kant. O segundo humanismo é da fraternidade. Existe desde então uma única visão do mundo movida por este sopro de uma utopia possível. Porque o ideal que ela visa a realizar não é o das ideias revolucionárias. Não se trata mais de organizar os grandes massacres em nome de princípios mortíferos, mas de preparar o futuro para os que nós amamos, as gerações futuras.

Essa revolução produziu efeitos sobre a arte e a moral, mas há efeitos ainda em progresso, como a evolução da condição da mulher e dos homossexuais, por exemplo. Quais são os indícios desta revolução hoje?

Esta revolução do casamento de amor, escolhido e não imposto, começa na Europa e se estende a todo o mundo cultural ocidental. Isso quer dizer que no resto do mundo o casamento imposto continua a ser a regra. No Ocidente, temos vivido desde o século 20 a desconstrução dos valores tradicionais. Ela teve efeitos negativos, mas também formidavelmente positivos, em especial para os homossexuais e as mulheres. Observe que um país como a Suíça, o último cantão a conceder o direito de voto às mulheres o fez, pense bem, em 29 de abril de 1991! Isso quer dizer que, até então, as mulheres ainda eram vistas como crianças. Na França, foi um pouco mais cedo, mas, enfim, foi preciso esperar o fim da 2.ª Guerra para que as mulheres tivessem direito de voto. Quanto aos homossexuais, lembre-se o que a Organização Mundial da Saúde definia a homossexualidade como doença até 1990! Sim, nosso mundo ocidental mudou mais nos 50 anos da segunda metade do século 20 do que nos 500 anos anteriores!

Tratemos agora da destruição dos valores tradicionais. No seu entender, parte desse processo vem do fato de que as ideias não merecem mais sacrifício, só o humano. É isso o retorno da “sacralização”, do reencantamento do mundo?

Como a “consciência infeliz” da qual falava Hegel, nós temos sempre a tendência de nos dar conta na história do que se destrói e morre, quase nunca do que toma forma e vida. Logo, temos uma propensão ao pessimismo. Ao contrário do otimismo, sempre um pouco simplório, ele confere à primeira vista uma presunção de inteligência. Às vésperas do século 21, é verdade, a maior parte dos valores tradicionais, em especial a nação de direito e a revolução de esquerda, desmoronaram, ao menos na Europa. Logo, devemos constatar, pelo menos na Europa, que os motivos tradicionais do sacrifício coletivo foram liquidados. Quem desejaria hoje, ao menos nos países de cultura europeia, morrer por Deus, pela pátria ou revolução? Não muita gente. É uma grande notícia. Quanto à estupidez mortífera do maoismo, com dezenas de milhões de mortos, quem, fora alguns intelectuais corroídos pelo desejo de se pretender interessantes, poderia não se felicitar da sua liquidação?

Isso não quer dizer que vivemos a era do desencantamento do mundo? Há mesmo lugar ainda, hoje, para alguma espiritualidade?

Não creio que vivamos uma era do desencantamento do mundo. Aí está até mesmo a ilusão arquetipal desta consciência infeliz que adora tanto não adorar. O que nós vivemos não é de forma alguma a liquidação do sagrado, o eclipse dos valores (da espiritualidade), mas sua encarnação em nova face, a da humanidade. Questione-se honestamente: por quem ou pelo que você estaria pronto a arriscar sua vida? Em outros termos, o que considera sagrado no sentido próprio, como digno de sacrifício? A resposta para a imensa maior parte seria: é o homem que é sagrado, o próximo, mas também o seu contrário, o seguinte. Em todo caso, não são as abstrações vazias da religião e da política tradicionais. Vivemos o nascimento de uma nova face do humanismo, que não é mais aquele de Voltaire e Kant, dos direitos do homem e da razão, desses iluminismos que portaram, é verdade, um vasto projeto de emancipação, mas que conduziram também ao imperialismo. Trata-se, ao contrário, de um humanismo pós-colonial e pós-metafísico, da transcendência do outro e do amor. Precisaremos, então, dessas novas categorias filosóficas (uma espiritualidade sem Deus) para refletir sobre suas armadilhas e perspectivas.

O senhor diz que a globalização tem um papel na desconstrução dos valores. Estamos na era do consumo de massa e da economia global, o que causa um impacto social e altera nossa maneira de ver o mundo, certo?

Sim. O verdadeiro motor da desconstrução dos valores tradicionais foi o capitalismo moderno. Marx já dizia que o capitalismo era a revolução permanente. Por quê? Porque a competição leva à lógica da inovação permanente. Uma empresa que não inova o tempo todo está fadada a morrer. Mas há mais do que isso. Os que desconstruíram os valores tradicionais no século 20 eram com frequência de esquerda. A verdade do século é que esta grande desconstrução serviu aos interesses do capitalismo.

Fale mais sobre isso.

Foi necessário que os valores e as autoridades tradicionais fossem desconstruídas pelos boêmios, jovens de cabelos longos, libertários, para que o capitalismo, ele também moderno e fadado à inovação pela inovação, pudesse fazer entrar nossos filhos na era do grande consumo de massa sem o qual seu futuro globalizado não teria sido possível. Eis uma verdade que vai crescer no século que está aí. Se nossos filhos tivessem os mesmos valores que nossos avós, eles não comprariam um telefone celular por ano, ou MP3. Do contrário, se nossos antepassados pudessem ver um grande centro comercial, achariam provavelmente que estes novos templos edificados ao deus do consumo escoam besteiras. Talvez pensassem que estas bugigangas que transbordam das vitrines nos distanciam dos verdadeiros valores. Logo, foi necessário que as visões tradicionais do mundo fossem desconstruídas para que pudéssemos nos consagrar ao consumo sem complexos, ao menos no limite de nosso poder de compra.

Sua ideia de reencantamento é um paradoxo à de Max Weber, que falava no início do século 20 do desencantamento do mundo. Minha questão é: o reencantamento é só positivo, ou também tem sua “parte do diabo”?

Tem razão, há uma parte do diabo. Quando falo da revolução do casamento escolhido, não quero dizer que entramos no mundo ideal. Antes de mais nada, porque o reverso da medalha do amor, é o ódio. Não há rosas sem espinhos, nem amor sem ódio. Além disso, o amor dos seus, dos próximos, pode levar a um egoísmo louco. O amor que dá sentido a nossas vidas não é mais o amor pela nação, revolução. A questão que as gerações futuras vão definir, como os ecologistas já compreenderam, é: que mundo vamos deixar a nossos filhos? Essa nova questão política não diz respeito só à ecologia, mas à dívida pública, ao futuro da proteção social na época da globalização ou à regulação financeira.

Quando falamos em um mundo no qual o casamento de amor está no centro de uma revolução, como devemos ver as civilizações em que ele ainda é determinado por interesses?

Sem defender o eurocentrismo, é preciso reconhecer que nosso velho continente inventou algo único: a cultura da autonomia dos indivíduos, de sair dessa “menoridade” infantil – como dizia Kant sobre o Iluminismo – mantida por todas as civilizações religiosas, teocracias e regimes autoritários. Este movimento caminha em direção à autonomia, como aconteceu primeiro com a arte, desde o século 17, quando deixou de ser exclusivamente religiosa, depois se infiltrou em toda a civilização europeia, da filosofia, racionalista, à política, laica e democrática, passando pela ciência, hostil aos dogmatismos clericais, e pela vida privada, quando o casamento decidido pelo amor substitui o casamento racional imposto pelos pais. Este é o gênio da Europa que acabaria por abolir a escravidão e a colonização, por se desfazer dos totalitarismos, por se desfazer dos totalitarismos. Nada, nesta valorização da civilização europeia, implica menor racismo, menor tendência neocolonial. Outras civilizações são igualmente grandiosas, mas a europeia inventou a autonomia política, como a democracia, assim como a autonomia privada, como o casamento por amor e a família escolhida.

O senhor diz que o sagrado reencarna na cultura ocidental. Mas e as revoluções no mundo árabe, marcadas por princípios modernos, como a liberdade e a democracia? Devemos esperar uma nova onda de revoluções? A dinâmica do Ocidente é válida para todo o mundo?

Sim. As revoluções árabes, embora corram o risco de serem apropriadas pelo islamismo radical, são apesar de tudo uma novidade magnífica. Observe como o mundo evoluiu nos últimos 50 anos. Quando eu era criança, a Europa estava tomada por ditaduras. Franco ainda era vivo e a Grécia sofria o regime fascista dos coronéis! A Rússia e os países do leste viviam na pior tirania, e a América Latina estava povoada de ditaduras. Tudo mudou para melhor. O paradoxo é: vamos viver um declínio econômico e social na Europa, mas ao mesmo tempo uma vitória dos valores da democracia europeia. Estou certo que um “segundo humanismo” vai se seguir ao primeiro.



LinkWithin

Related Posts with Thumbnails