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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 18


O INFERNO E A IMORTALIDADE DA ALMA

Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. Mas, se Cristo não ressuscitou, a vossa fé é vã, vós ainda estais em vossos pecados e aqueles que adormeceram em Cristo estão perdidos. Se depositamos nossa esperança em Cristo apenas nessa vida, somos as mais miseráveis de todas as pessoas. [1ª Cor. 15.16-19]

[...]

Em sexto e último lugar, ele conclui: “Se depositamos nossa esperança em Cristo, apenas nesta vida, somos as mais miseráveis de todas as pessoas sobre a terra” [1 Co 15.19]. Isso equivale a dizer: se isso fosse verdade, que depois dessa vida não se seguiria outra, eu daria de ombros para o Batismo, o púlpito e toda a cristandade. Pois repara bem um cristão e compara-o com outras pessoas que não creem, vivem na gandaia, têm e fazem o que querem e, quando chegam ao fim da vida, diz Jó [4.21], descem num instante e nem se dão conta, jamais experimentam o que é verdadeiro sofrimento ou tristeza, aflição ou amargura. Em comparação com esses, nós, que querermos ser cristãos, temos que passar por toda sorte de tormento e infortúnio; [as pessoas] nos desprezam, repudiam-nos, caluniam-nos e nos xingam, hostilizam-nos e acham que não temos o direito de viver sobre a terra; temos que esperar, diariamente, o pior, como o diabo e o mundo possam nos prejudicar. Quem quereria cometer a besteira de tornar-se um cristão se a vida futura nada fosse? Quem não poderia dizer: já que aqueles têm vida boa e vivem na gandaia, também quero fazer como os outros! Para que vou me expor, para que me atormentem e eu tenha que aguentar esse sofrimento, ardil, ódio e inveja do mundo? Isso, sem mencionar que um cristão ainda tem que passar por tanta tristeza e pesar interior e tanto temor e pavor da morte, do pecado e da ira de Deus que, na verdade, são as verdadeiras tribulações.

Pois, aquele sofrimento exterior ainda é brincadeira e, apenas, o á-bê-cê da miséria e do sofrimento dos cristãos, [quando] o mundo os persegue, escorraça e aplica toda sorte de malignos ardis. Mas o que vai fundo é o medo que levam no coração ante a ira de Deus, temendo a morte eterna, que tenham que ser camaradas do diabo no abismo do inferno. Isso lhes oprime o coração dia e noite, têm que se bater com isso a ponto de suarem sangue, de modo que eu preferiria ficar encarcerado um ano inteiro, sofrendo fome e sede, a passar um dia, sequer, com esse medo infernal do diabo, com o qual ele acomete os cristãos que, afinal, creem e estão certos da futura ressurreição e vida eterna que lhes está preparada e, por outro lado, do juízo e do fogo eterno sobre os maus. E, justamente, por saberem disso, não têm descanso até serem salvos desse vale da desolação. Pois, aqui, têm diante de si dois caminhos, além do diabo e de sua própria consciência contra si, que lhes diz que não são pios e têm a Escritura por testemunha de que somos todos pecadores e merecemos a condenação; isso o diabo pode aproveitar para torturar a ponto de se suar frio, tendo que lutar para resistir contra isso na fé, para não afundar na depressão e no medo, mas permanecer confiante de que Deus lhe seja gracioso e o queira levar para o céu, para junto de si. Disso, a maioria nada sabe, não temem nem a ira nem o juízo de Deus, nem o diabo ou a morte; pensam que, quando morrerem, estará morrendo uma vaca e, em quanto isso, ficam seguros e alegres, nada experimentam desse tormento. Por isso o cristão, certamente, é uma pessoa extremamente miserável, acima de tudo que se possa chamar de miserável, porque seu coração tem que assar diariamente no fogo, constantemente apavorado e tremendo de medo sempre que lhe passa pela cabeça a morte e o rigoroso juízo de Deus, tendo que se preocupar constantemente se ele indignou a Deus e mereceu o inferno, ainda que seja reto e bem treinado na fé. Pois esses pensamentos não largam dele. Na verdade, parecem muito mais frequentes e fortes do que os pensamentos bons. Por isso, veem-se muitas pessoas profundamente deprimidas e abatidas nessa tribulação e aflição do coração, a ponto de não o dizerem a ninguém, nem terem prazer, nem alegria, nem terem desejo por esta vida.

Por isso, S. Paulo diz, agora: nós teríamos que estar loucos e ser bobos ao nos meter nessa aflição e tristeza, nesse medo e tormento, sem estar seguros da morte e do inferno um momento sequer, se não tivéssemos outra coisa senão esta vida! De que nos adiantaria obter todos os bens do mundo na terra, tornando-nos, para tal, cristãos e tomando sobre nós esse sofrimento? Quem suportaria passar a sua vida com desolação e tormento e nada receber em compensação senão esta vida?

Os pagãos disseram sabiamente: qui mortem metuit, quod vivit, perdit idipsum, tolo é quem tem medo da morte, pois, com isso, perde sua própria vida. Essas seriam palavras boas, se a gente conseguisse praticá-las. Pois isso todo mundo percebe muito bem por si mesmo que, com esse temor, não consegue mais do que estragar, ele próprio, esta vida e que ela para nada lhe serve e nunca mais o deixará contente, como se vê naqueles que se encontram em profundo pesar, não encontrando conforto nem alegria, ainda que a gente os enfeite com todas as joias de ouro, entupa da melhor comida e bebida e lhes apresente toda sorte de diversão e música. Pois não têm nenhum prazer na vida, só pensam na morte e já se encontram na morte. Por isso, dão o conselho de que o melhor é, simplesmente, despachar todo esse medo e tirá-lo da cabeça à força, pensando: para que vamos nos preocupar? Uma vez mortos, estamos mortos. É o que disseram (como S. Paulo apontou depois): “Comamos e bebamos, hoje ou amanhã estaremos mortos” [1 Co 15.32], etc. Isso não faz justiça à realidade e significa, simplesmente, ignorar a ira de Deus, o inferno e a condenação.

Mas isso os cristãos não podem fazer. Não se pode eliminar [este fato] desse jeito do coração, que gostaria de crer e que se sente mais forte à medida em que a fé luta para fortalecer-se. Isto equivale a dizer que, em nenhum momento, [o cristão] está [absolutamente] seguro da sua vida. Ele sempre tem diante dos olhos o julgamento de Deus e o fosso infernal. É preciso confortar as pessoas [nessa situação] com a seguinte pregação: meu caro, embora tu sintas isso e o fato de viver assim te doa incessantemente, sendo um pobre miserável, conforma-te e saibas que, necessariamente, é assim porque tu és um cristão. Caso contrário, não passarias por essa tortura. Não deves resistir a isso, mas, sim, assegurar-te com fé firme de que o teu Cristo que, também, ressuscitou dos mortos, passou por essa aflição e medo do inferno, mas, por sua ressurreição, tudo superou. Por isso, mesmo que eu seja um pecador digno da morte e do inferno, este deve ser o meu consolo e a minha vitória: meu Senhor Cristo vive e, além disso, ressuscitou para me livrar, enfim, do pecado, da morte e do inferno.

Com essa fé, os cristãos precisam mitigar seu sofrimento em manejar o infortúnio. Caso contrário, seria impossível confortar um coração entristecido e intimidado ou repelir os pensamentos com alguma alegria na terra. Mas o que permite isso é o fato de esse homem, Cristo, dizer que ele é o Deus e o Salvador dos miseráveis, não dos que vivem na devassidão, sem medo algum, e, sim, dos que temem o diabo e o inferno, estes devem aceitar o batismo, o púlpito e o evangelho e concluir o seguinte: o fato de eu sentir que tenho medo do inferno e do juízo de Deus é um sinal seguro de que, também, sou um cristão e tenho algo da fé; pois quem fica horrorizado com aqueles, com certeza, acredita na existência de um inferno e um céu; por outro lado, quem não tem esse medo, também nada crê. Por isso, justamente, nesse medo e pavor, vou me confortar e dar uma reviravolta pela fé, dizendo ao diabo e ao meu coração: tu me aterrorizas com pecado e inferno, mas Cristo me fala do céu, da justiça, da vida e da bem-aventurança eternos. Ele me valerá mais do que todo meu sentir e pensar. O que importa, então, é lutar sempre e prevenir-se dessa forma, agarrando e mantendo firme esse artigo, pois ele será necessário na vida e na morte.

(págs 326-331)

[...]

Pois, assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos também serão vivificados. [1ª Cor. 15.22]

S. Paulo fala, aqui, apenas dos cristãos, os quais ele quer ensinar e confortar com este artigo; pois, mesmo que todos tenham que ressuscitar, também, os não-cristãos, só que, para eles, [a ressurreição] não será conforto nem alegria, uma vez que ressurgirão não para a vida, mas, para o juízo. Por isso, também, agora, não se trata de uma pregação confortadora e alegre para o mundo e os ímpios, ao ouvirem esse artigo, conforme o senti em mim mesmo quando eu queria ser um mogne santo – e eu era o mais devoto, a ponto de preferir ouvir a respeito de todos os diabos no inferno a ouvir sobre o dia derradeiro e os meus cabelos ficavam em pé só de pensar nisso. Pois fora o fato de o mundo todo ter a mentalidade de não querer renunciar a esta vida e morrer, levando um susto quando se fala da morte ou da vida no além, nós, todos, participamos da baboseira da santidade própria, acreditando que, com nossa vida e obras, deveríamos saciar o juízo de Deus e merecer o céu, quando, na verdade, com isso, nada mais conseguíamos do que piorar e detestar ainda mais esse dia. Nem quero falar da outra multidão grosseira dos que, aqui, só buscam seu prazer e conforto, desprezam a Palavra de Deus e não dão um centavo por Deus e seu Reino. Se esses se sentem atormentados e não gostam de ouvir [falar] da bem-aventurada ressurreição, isso não causa surpresa. Mas, para nós, essa pregação é puro conforto e alegria, porque ouvimos que já temos, lá em cima, no céu, o nosso melhor tesouro no qual nos alegramos e, não por último, o fato de que ele [nos] ressuscitará e levará para lá, com a facilidade com que se desperta uma pessoa do sono, de modo que sofrimento e dor deixarão de ser e nem mundo nem diabo vão nos atormentar e nos entristecer mais. Ao invés, como agora eles nos perseguem e torturam, o jogo se inverterá, de modo que gritarão de dor eternamente, ao passo que nós nos alegraremos eternamente. Pois, como Cristo será juiz sobre retos e maus, eles, naqueles dias, também terão que aparecer, para receber seu juízo e punição por aquilo que cometeram em Cristo e em nós, por maldade impenitente e diabólica.

[pág.s 338-339]

(LUTERO, Martinho. O Capítulo 15 [da Primeira Carta] de S. Paulo aos Coríntios. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Ed. Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra. 2005, “O capítulo 15 da Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios”, vol. 9, tradução de Walter O. Schlupp, páginas indicadas no texto)



domingo, 8 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 8

                                                                                                                                                                                                                                                                        

O TEMPO E O SÁBADO - PARTE II

E Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nele tinha descansado de toda a obra que Deus criou, assim o fez.
( Gênesis 2:3)

Em Mateus 12 [sic. Mc 2.27], Cristo diz: “O sábado foi feito por causa do ser humano, não o ser humano por causa do sábado”. Contudo, aqui, Moisés silencia sobre o ser humano e não diz explicitamente que o sábado foi confiado às pessoas. [Limita-se, porém, a] dizer que Deus abençoou o sábado e o santificou para si. Isso, ele não fez com nenhuma outra criatura. Não santificou para si o céu, nem a terra, nem qualquer outra criatura, mas santificou para si o sétimo dia. Isso significa, de modo especial, que devemos entender que o sétimo dia deve ser usado principalmente para o culto a Deus. Pois santo é o que foi dedicado a Deus e separado de todos os usos profanos. Por isso, santificar significa escolher para usos sagrados ou para o culto a Deus. Desse modo, Moisés usa essa expressão mais vezes, também quando fala de vasos sagrados.

Logo, conclui-se dessa passagem: se Adão tivesse permanecido na inocência, ele teria mantido sagrado o sétimo dia, isto é, teria ensinado, neste dia, seus descendentes sobre a vontade de Deus e o culto a ele; teria louvado a Deus, dado graças, sacrificado etc. Nos outros dias, teria cultivado o campo, cuidado dos animais. Aliás, ele também manteve sagrado o sétimo dia, depois da queda, pois nele ensinou seus filhos, conforme atesta o sacrifício oferecido pelos seus filhos, Caim e Abel. Portanto, o sábado foi destinado ao culto a Deus desde o início do mundo.

Caso a natureza tivesse permanecido inocente, ela teria celebrado a glória e os benefícios de Deus. No sábado, os seres humanos teriam conversado [entre si] sobre a inestimável bondade do Criador; teriam sacrificado, orado etc. Pois é isso que significa o verbo “santificar”.

Além disso, inclui-se aqui também [o conceito d]a imortalidade do gênero humano, conforme atesta sabiamente a Carta aos Hebreus [3.18] ao se referir ao descanso de Deus com base no Salmo 95[.11]: “Não entrarão em meu descanso”. Ora, o descanso de Deus é eterno. Adão teria vivido um certo tempo no paraíso conforme a vontade de Deus; depois disso, teria sido arrebatado para aquele descanso divino que Deus não só quis indicar aos seres humanos, mas também entregá-lo a eles por meio da santificação do sábado. Nesse caso, a [própria] vida animal teria sido feliz e santa, espiritual e eterna. Agora, nós, miseráveis, perdemos essa felicidade da vida física por causa do pecado e, enquanto vivemos, estamos em meio à morte. No entanto, como o mandamento do sábado é dado à Igreja, indica-se que também aquela vida espiritual será restituída a nós por meio de Cristo. Assim, os profetas examinaram cuidadosamente aquelas passagens em que Moisés aponta secretamente para a ressurreição da carne e para a vida imortal.

Ademais, mostra-se aqui que o ser humano também foi criado principalmente para o conhecimento de Deus e o culto a ele. Pois o sábado não foi instituído por causa das ovelhas e dos bois, mas devido aos seres humanos, para que eles praticassem o conhecimento de Deus e crescessem nele. Portanto, mesmo que o ser humano tenha perdido o conhecimento de Deus por causa do pecado, Deus quis que o mandamento sobre a santificação do sábado permanecesse; que, no sétimo dia, fosse exercida a Palavra, fossem praticados outros cultos instituídos por ele, para que pensássemos, primeiramente, sobre a nossa condição, ou seja, que esta natureza foi criada principalmente para o conhecimento e a glorificação de Deus.

Além disso, [o sábado foi instituído] para que também retivéssemos o coração certa esperança da vida futura e eterna. Porque todas as coisas que Deus quis que fossem feitas no sábado são sinais claros de uma outra vida depois desta. [Caso contrário,] por que seria necessário que Deus falasse conosco por meio de sua Palavra se não fosse para viver numa vida futura e eterna? Se não se deve esperar uma vida futura, por que não vivemos como pessoas com quem Deus não fala e que não o conhecem? Mas como a majestade divina só fala com o ser humano, e só o ser humano o conhece e o apreende, segue-se, necessariamente, que há uma outra vida depois desta, a qual devemos alcançar mediante a Palavra e o conhecimento de Deus. Pois esta vida temporal e presente é uma vida animal, que todos os animais, que não conhecem a Palavra nem Deus, vivem.

É isso que significa o sábado ou o descanso divino, no qual Deus fala conosco através da sua Palavra e nós, por nossa vez, falamos com ele por meio de invocação e fé. Os animais, como cães, cavalos, ovelhas, bois, certamente também aprendem a ouvir e a entender a voz do ser humano e também são conservados e alimentados por ele. Mas nossa condição é melhor, pois ouvimos a Deus, conhecemos sua vontade e somos chamados para uma certa esperança de imortalidade. Estes são testemunhos claros das promessas sobre a vida eterna que Deus nos revelou por meio da sua Palavra, depois dessas indicações obscuras, como aquela relativa ao descanso de Deus e à santificação do sábado. Mas essas [revelações] sobre o sábado são bastante claras. Imagina se não houvesse [outra] vida depois desta. Não se concluiria que não temos necessidade de Deus nem da sua Palavra? Pois aquilo que necessitamos ou fazemos nesta vida também podemos ter [e fazer] sem a Palavra. Os animais pastam, vivem, se alimentam, embora não tenham a Palavra de Deus nem a ouçam. Por que se necessitaria da Palavra para o alimento e para a bebida, que já foram criados antes?

Portanto, o fato de Deus dar a Palavra, ordenar a que se a pratique, que se santifique o sábado e seu culto, tudo isso demonstra haver [outra] vida depois desta e que o ser humano foi criado não só para a vida corporal, como os outros animais, mas para a vida eterna, assim como Deus, que ordena e institui estas coisas, é eterno.

Mas aqui surge outra pergunta, que já tocamos acima, isto é, sobre a queda de Adão, ou seja: quando ele caiu, no sétimo ou num outro [dia]? Embora não se possa precisa-lo, tenho boas razões para imaginar que ele tenha caído no sétimo dia. Ele foi criado no sexto dia; Eva também foi criada na tarde ou no fim do sexto dia, enquanto Adão dormia. No sétimo dia, que fora santificado pelo Senhor, Deus fala, de manhã, com Adão, instrui-o quanto ao seu culto e proíbe-lhe de comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Pois esta é, em si, a função do sétimo dia, pregar e ouvir a Palavra de Deus. Desde então, permaneceu, na Escritura e no costume, a prática de se destinar o tempo da manhã para a oração e os cultos, como diz o Salmo 5[.3]: “De manhã estarei parado diante de ti e verei”.

Assim, na manhã do sétimo dia, Adão parece ter ouvido o Senhor que lhe confiou o cuidado da economia e da política, juntamente com a proibição do fruto. Satanás estava impaciente com essa belíssima criação e ordem e invejava tamanha felicidade do ser humano, que na terra e todas as coisas estivessem abundantemente a seu dispor e que, depois de uma vida corporal tão feliz, tivesse a esperança certa da vida eterna, que ele próprio, Satanás, havia perdido. Por isso, talvez por volta do meio-dia, depois da conversa de Deus, ele próprio também conversa com Eva. Assim costuma ser até hoje: onde está a Palavra de Deus, ali também Satanás se empenha em semear a mentira e a heresia, pois lhe dói que nós, por meio da Palavra, como Adão no paraíso, nos tornemos cidadãos dos céus. Por isso, ele seduz Eva para o pecado, e vence. O texto diz claramente que, quando o calor do dia já tinha cessado, o Senhor veio e condenou Adão à morte, juntamente com toda a sua descendência. Eu me convenço facilmente de que tudo isso aconteceu no sábado, no único dia – e este não completo – em que Adão viveu no paraíso e se alegrou com seus frutos.

Foi por essa razão que o ser humano perdeu essa felicidade devido ao pecado. Mas Adão não teria vivido ocioso no paraíso se tivesse permanecido na inocência: no sábado, ele teria instruído seus filhos; com a pregação bíblica, teria honrado a Deus com os merecidos louvores e, com a reflexão sobre as obras de Deus, teria estimulado a si e aos outros para a ação de graças. Nos outros dias, ele teria trabalhado, cultivando o campo ou caçando, mas de uma maneira bem diferente do que acontece hoje. Pois, para nós, o trabalho é um incômodo, mas para Adão teria sido um enorme prazer, mais agradável do que o ócio. Por isso, assim como as outras calamidades desta vida nos lembram do pecado e da ira de Deus, também o trabalho e a dificuldade de obter o sustento nos devem lembrar do pecado e convidar para a penitência.

(LUTERO, Martinho. Textos Selecionados da Preleção sobre Gênesis. MARTINHO LUTERO, Obras Selecionadas. 1535-1545. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2014, vol. 12, tradução de Geraldo Korndörfer, págs. 115-118)



sábado, 7 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 7


O TEMPO E O SÁBADO - PARTE I

E Deus concluiu no sétimo dia sua obra que fizera e descansou no sétimo dia de toda sua obra que fizera. 
Gênesis 2.2

Aqui surge uma pergunta. Moisés diz que no sétimo dia o Senhor descansou da obra que fizera, isto é, que ele parou de trabalhar no sétimo dia. Cristo, por seu turno, diz em Jo 5[.17]: “Meu pai trabalha até agora, e eu [também] trabalho”. Faz parte dessa passagem o que a Epístola aos Hebreus afirma nos capítulos 3[.18] e 4[.3] sobre o descanso: “Se entrarem”, certamente não na terra da promissão, mas “em meu descanso” etc.

A essa pergunta nós simplesmente respondemos desta maneira: a solução é dada pelo próprio texto, quando diz: “Foram concluídos os céus e a terra”. Pois o sábado ou o descanso do sábado significa que Deus parou por completo, não criando outro céu e outra terra. Isso não significa que Deus deixou de conservar e governar o céu e a terra que ele havia criado.

Portanto, a solução é fácil. Deus descansou do seu trabalho, isto é, estava contente com o céu e a terra criados através da Palavra; não criou novos céus, nem uma nova terra, nem novas estrelas, nem árvores novas. Contudo, Deus continua trabalhando até hoje. Ele, efetivamente, não abandonou a natureza que criou, mas a governa e a conserva mediante a força da sua Palavra. Ele terminou de criar, mas não cessou de governar o que havia criado. Com Adão, teve início o gênero humano; na terra, [iniciou todo o tipo de] animais, por assim dizer; no mar, iniciaram os peixes mas estes não cessaram [de se multiplicar]. Até hoje permanece a Palavra que foi dita sobre o gênero humano:> “Crescei e multiplicai-vos”; também permanece a Palavra: “O mar produza peixes e aves do céu”. Sua Palavra continua onipotente, pois é por seu poder e sua força que [ele] conserva e governa toda a criação.

Moisés estabeleceu, pois, com clareza, que no início estava a Palavra. Como todas as coisas crescem, se multiplicam, são conservadas e governadas da mesma forma como foi desde o início do mundo, segue-se, evidentemente, que a Palavra dura até agora e que ela não morreu. Portanto, o fato de dizer que “Deus descansou da ora” não se refere à evolução das coisas, ao modo como são conservadas e governadas, mas, simplesmente ao início, ou seja, [significa] que Deus cessou de [dar] ordens, como se diz em linguagem comum, e de [criar] novas espécies ou novas criaturas.

Se olhares para a minha pessoa, eu sou algo novo, porque sessenta anos atrás eu nada era. Assim julga o mundo. O julgamento de Deus, no entanto, é outro, porque diante dele eu fui gerado e multiplicado logo no início do mundo, pois a Palavra “E Deus disse: ‘Criemos o ser humano’” também criou a mim. Pois tudo que Deus criar, criou-o no momento em que falou. Nem tudo, porém, ficou visível aos nossos olhos. De forma semelhante como uma flecha ou um projétil, lançados de um canhão (que tem uma velocidade maior) atingem o alvo, por assim dizer, ao mesmo tempo e, no entanto, são lançados com um determinado intervalo, assim Deus percorre o mundo, através de sua Palavra, do início até seu fim. Pois para ele não existe antes e depois, mais rápido e mais lento, mas todas as coisas estão presentes diante dos seus olhos, porque ele está fora das dimensões do tempo.

Quando Moisés diz que o Senhor descansou, ele está se referindo à conjuntura original do mundo. Como não havia pecado, nada de novo foi criado nele. Não existiam cardos, nem espinhos, nem serpentes e nem sapos; caso tenham existido, eles não continham veneno e não tinham a intenção de prejudicar. [Moisés] refere-se, portanto, à criação de um mundo perfeito. No início, o mundo era, pois, puro e inocente, porque o ser humano era puro e inocente. Agora, quando o ser humano mudou devido ao pecado, também o mundo começou a ficar diferente, isto é, à queda do ser humano seguiu-se a corrupção e a maldição da criatura. “Maldita é a terra”, disse Deus a Adão, “por causa de ti; ela te produzirá espinhos e cardos” [Gn 3.17]. E, em vista de [uma pessoa] amaldiçoada, Caim, a terra é maldiçoada, de modo que, mesmo cultivada, ela não produz seus melhores frutos. Depois disso, em razão do pecado do mundo todo, veio o dilúvio, e o gênero humano inteiro é destruído, com exceção de alguns poucos justos, para que se cumprisse a promessa relativa a Cristo. Do mesmo modo como vemos que a terra foi deformada pelo pecado, assim eu também creio que a luz do sol era mais clara e mais bela porque foi criada antes do pecado do ser humano.

Nas escolas de Teologia é corrente dizer-se: “Discerne os tempos e colocarás em concordância as Escrituras”. Por isso é preciso falar muito diferente do mundo depois da catastrófica corrupção por causa do pecado do que falaríamos sobre o mundo original, puro e íntegro. Consideremos um exemplo que está diante dos olhos: aqueles que viram a terra da promissão em nossos dias dizem que ela em nada se assemelha ao louvor que se encontra nas Sagradas Escrituras. Por isso, depois que o conde Stolberg a tinha explorado com singular diligência, disse que preferia a terra que tinha na Alemanha. Pois, por causa do pecado, da impiedade e da maldade dos seres humanos, a terra se tornou uma salina, como diz o Sl 107[.34], assim como Sodoma era uma espécie de paraíso antes de perecer pelo fogo do céu, Gn 13[.10].

Em geral, a maldição se segue ao pecado, e a maldição [, por seu turno,] muda as coisas, de modo que de ótimas passam a ser ótimas passam a ser péssimas. Por isso, Moisés está falando sobre a perfeição das criaturas, como elas eram antes do pecado. Se o ser humano não tivesse pecado, todos os animais teriam permanecido obedientes até que Deus tivesse transferido o ser humano do paraíso ou da terra; depois do pecado, porém, todas as coisas mudaram para pior.

Desse modo, permanece a solução proposta acima: em seis dias, Deus terminou sua obra, isto é, deixou de criar novas criaturas, e fez tudo o que quis fazer. Ele não disse novamente: “Haja uma nova terra, um novo mar” etc. O benefício do qual fomos alvo pelo fato da virgem Maria ter dado à luz o Filho de Deus deixa claro que o recebemos por causa da desgraça em que caímos pelo pecado. Contudo, antes de realizar essa admirável e poderosa obra, anunciou, através da sua Palavra, que haveria de fazê-la, assim como também assinalou por meio da sua Palavra outros milagres que haveriam de acontecer.

Esta é a primeira questão que diz respeito à afirmação de que Deus concluiu o céu e a terra e, depois, nada fez de novo. Agora, para que também o aprendamos, é preciso explicar o que é o sábado, ou o descanso de Deus; de que modo Deus santificou o sábado, como diz o texto.

(LUTERO, Martinho. Textos Selecionados da Preleção sobre Gênesis. MARTINHO LUTERO, Obras Selecionadas. 1535-1545. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2014, vol. 12, tradução de Geraldo Korndörfer, págs. 113-115)


(continua...)


sábado, 23 de setembro de 2017

O médico e o monstro


Farah Jorge Farah, ao que tudo indica, se suicidou ontem, 22/09/17, em circunstâncias tão bizarras e mórbidas, cujos detalhes sórdidos decidimos poupar os nossos leitores, mas se alguém não resistir à tentação e curiosidade de saber o que aconteceu, recomendamos a leitura cautelosa do Vice, mas alertamos que as pessoas mais impressionáveis e/ou depressivas não devem ler o artigo.

Isto porque tanto a morte como o crime brutal que cometeu em 2003 indicam que Farah era uma alma perturbadíssima, em níveis bem maiores do que aquelas perturbações que assolam tantas pessoas por aí.

Por isso, decidimos relembrar uma matéria do portal R7 de abril de 2010, na qual ele se dizia adventista, mas parecia atormentado demais para ter algo que minimamente parecesse com "vida".

Farah cumpriu apenas 4 anos de cadeia. 

¿Haverá, em algum lugar do universo, compaixão para Farah?

Eis a matéria de 2010:


“Perante Deus, já paguei meus pecados”,

diz ex-médico que esquartejou paciente


Dois anos após condenação, Farah Jorge Farah diz esperar a hora da morte

João Varella, do R7

Farah Jorge Farah, 61 anos, estudante de direito e gerontologia [estudo de questões relacionadas à velhice], diz sentir falta de ternura e carinho. Ele sabe que, se não fosse pelo “ocorrido”, receberia mais abraços e beijos, demonstrações de afeto das quais diz ter saudade.

O “ocorrido” a que ele se refere é o assassinato da ex-amante Maria do Carmo Alves, em 2003, pelo qual Farah foi condenado a 13 anos de prisão por esquartejamento e ocultação do fígado e do coração da vítima. A decisão da Justiça, da qual ele apela em liberdade, completa dois anos neste sábado (17). Após quatro anos preso, o advogado de Farah, Roberto Podval, o mesmo do caso Isabella, conseguiu decisão judicial que permite ao condenado ficar solto até que se esgotem todos os recursos.

Não há data para o julgamento da apelação no STF (Supremo Tribunal Federal). Os processos de Farah não têm movimentação desde 2008 em todas as instâncias, segundo consultas processuais nos sites da Justiça.

Desde que o caso veio à tona, Farah passou a ser reconhecido como “estripador” ou “assassino”, rótulos que ele refuta por dar a ideia de “alguém que já cometeu vários crimes”. Apenas uma vez, ele matou e guardou os pedaços do corpo de Maria do Carmo em cinco sacos plásticos no porta-malas de seu do carro.

A reportagem do R7 almoçou com ele no refeitório da USP Leste (Universidade de São Paulo), onde Farah cursa gerontologia, e viu quando ao menos duas jovens apontaram o dedo para o condenado, do lado de fora do salão. Na Fuvest, o vestibular da USP, ele passou em 17º, entre os 210 admitidos no curso – o R7 noticiou com exclusividade a entrada dele no campus leste da instituição. Por ter sido aprovado, Farah teve que trancar a faculdade de filosofia que fazia na Unesp (Universidade Estadual Paulista).

Antes do crime, ele chamava atenção por suas habilidades como cirurgião plástico. Maria do Carmo conheceu Farah quando o então médico removeu uma marca da perna dela. Ele recorda como era respeitado por colegas de profissão e pela família.

– Eu era o grande doutor Farah. Hoje sou apontado como o esquartejador na rua.

Depois do crime, Farah foi expulso de todas as associações de que participava. Seu registro no CRM (Conselho Regional de Medicina) foi cassado em 2006. Com voz levemente aguda, Farah diz que é o mesmo homem de antes do crime, salvo pela decadência de seu corpo.

– Depois dos 60 anos, o corpo humano começa a definhar. Eu estou aqui fazendo hora extra no mundo. Estou esperando a hora da morte.

Farah tem uma carteirinha de posto de saúde cheia de registros de consultas. A saúde frágil fica clara já no caminhar. Ele usa uma bengala, porque teve um nódulo retirado das costas e, por isso, perdeu parte do equilíbrio da perna esquerda.

– Eu, não tenho a menor vergonha de admitir, estou usando fraldas desde o ano passado. Meus pais também usaram fraldas um ano antes de morrer.

Farah, que hoje vive sozinho num apartamento da Vila Mariana (zona sul), fica visivelmente agitado quando fala sobre os pais; o hábito de roçar as unhas compridas das mãos umas nas outras fica mais evidente. Mas, longe desse assunto, o ex-médico mistura, com propriedade, filosofia e questões cotidianas. Nas duas horas em que esteve com o R7, Farah citou os iluministas franceses Voltaire e Montesquieu e os pensadores gregos clássicos Platão e Sócrates – a este, chegou a chamar de “titio”. Quando usa um desses nomes difíceis, pede desculpa e diz que não quer parecer “esnobe”.

Os pais de Farah morreram enquanto ele cumpria pena na carceragem do 13º Distrito Policial, na zona norte de São Paulo. Ao saber da notícia, tentou se matar três vezes. Por isso, passou a ser vigiado 24 horas pelos policiais. Quando pensa no que o levou a tentar se matar, Farah diz não querer lembrar. E chora. Para ele, a pena de morte é melhor do que a vida na cadeia, "uma escola de criminosos que não ressocializa ninguém".

O crime

Sobre o assassinato, Farah conta que sua última lembrança foi a luta que travou com Maria do Carmo em seu consultório. Quando fala disso, Farah puxa uma folha da pasta em que carrega. É a notícia de um vereador que surtou e virou catador de papel, em 2007 - história que compara ao seu "surto". Farah e Maria do Carmo começaram uma relação atribulada em 1996, com vários registros de boletins de ocorrência de ameaças.

Ele diz que não é “anjinho” e que tem culpa. Questionado se a punição é suficiente, Farah tenta desviar do assunto, dizendo que ainda está estudando e não poderia avaliar o caso. Além do curso de gerontologia, o ex-médico está no terceiro ano de direito na Unip (Universidade Paulista). Promete que, “se estiver vivo, um dia vai concluir os todos os cursos” - a rotina se divide entre as faculdades e as consultas médicas.

Questionado mais uma vez sobre a condenação, Farah não altera a voz suave, em ritmo pausado, e vai ao ponto com apenas uma frase.

– Perante Deus, já paguei os meus pecados.

Adventista, Farah não deixou de frequentar os cultos, onde tem amigos. O ex-cirurgião, que também diz seguir alguns dogmas judaicos, afirma não ver incoerência na mistura ecumênica. Apesar de ser apontado nas ruas como "aquele" Farah Jorge Farah, o ex-médico não se intimida e segue em frente com a nova vida. Nas faculdades, diz ter sido discriminado quando os colegas se davam conta de seu passado. Já foi abordado por pessoas indignadas no ônibus e no metrô, mas não deixa de usar o transporte público.

– Aqui as pessoas não abraçam, não beijam. Na cadeia, eu recebia até mais carinho do que aqui fora.



segunda-feira, 4 de julho de 2016

TJSC não permite que adventista falte às aulas aos sábados


A informação procede do Tribunal de Justiça de Santa Catarina:

TJ rejeita lei que ampara religioso a não realizar atividades até o poente de sábado

A 4ª Câmara de Direito Público do TJ, em sessão nesta semana, reconheceu incidentalmente a inconstitucionalidade da Lei Estadual n. 11.225/99 e afastou condenação sofrida por universidade da Grande Florianópolis por suposto tratamento discriminatório em prejuízo de estudante de credo adventista.

Adepto de religião que prega a guarda sabática, consistente em não desenvolver atividades no período compreendido entre 18 horas de sexta-feira até o pôr do sol de sábado, o aluno ingressou no ensino superior com a promessa de que a universidade respeitaria tal preceito. Passado um tempo, sem justificativa ou consulta, a instituição alterou sua conduta, o que deu origem ao processo judicial.

O acadêmico baseou seu pedido em lei estadual que garante tratamento diferenciado aos adventistas, porém a legislação foi considerada inconstitucional pela câmara. "O fato de se dispensar tratamento distinto em face da opção religiosa é por si o sintoma da submissão que há muito não mais se admite, em que a igreja ¿ independentemente da orientação ¿ subordina a atividade do Estado, ainda que indiretamente", anotou o desembargador Ricardo Roesler, relator designado para a matéria.

Para o magistrado, pequenas deferências em nome da liberdade de expressão religiosa conflitam com o primado da igualdade, pois conferem a um ou outro grupo benefícios particulares, sem ressonância no plano coletivo. No caso concreto, entretanto, o julgador observou que a instituição de ensino alterou unilateralmente a avença firmada com o estudante. "Quando aprovado no vestibular, ao recorrido foi assegurado o tratamento distinto. Ainda que houvesse sido adiante revogado o benefício, a censura evidentemente não alcança o apelado, pois a ele se aplicam as regras vigentes ao tempo do ingresso na universidade", afirmou.

A câmara afastou, contudo, a indenização por danos morais arbitrada na sentença em R$ 10 mil, ao argumento de não ter vislumbrado cunho discriminatório na ação da universidade. O aluno, amparado em liminar, pôde concluir seu curso sem descumprir a guarda sabática. A decisão da câmara foi por maioria de votos, após intensos debates, com composição ampliada em observância ao artigo 942 do novo Código de Processo Civil

(AC n. 00215385020108240064).



quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

TJSP destaca trabalho dos desbravadores adventistas


"Clube de Desbravadores" é a versão adventista dos escoteiros-mirins, e o trabalho deles foi destaque no portal de notícias do Tribunal de Justiça de São Paulo:

DESBRAVADORES ATUAM PARA CONSOLIDAR TRÊS PILARES DA CONSTRUÇÃO DO CARÁTER DE UMA CRIANÇA

Em época de crise hídrica e destruição da natureza, contribuir para formar cidadãos de bem, éticos e morais e amantes da natureza é tarefa de suma importância para a continuidade de sobrevivência de seres humanos e animais, além da garantia de qualidade de vida às próximas gerações. O funcionário Ricardo Martins Takaki (Ricardinho), lotado no Cerimonial do Tribunal de Justiça de São Paulo, é um formador que se preocupa com o futuro da meninada e do mundo. Ele dedica horas da sua folga para coordenar a Regional de Desbravadores da Associação Paulista Leste (1ª Região), composto por 27 clubes com aproximadamente 900 crianças e adolescentes, meninos e meninas dos 10 aos 15 anos. Ricardo é o entrevistado deste mês do Projeto Jus_Social.

Os desbravadores têm como objetivo trabalhar em equipe e ser úteis para a comunidade. Eles prestam socorros em desastres naturais, participam ativamente de campanhas comunitárias e de ajuda aos carentes. Visitam hospitais, abrigos, orfanatos e asilos. Os integrantes do grupo se reúnem aos domingos para desenvolver atividades que contribuem para prepará-los a enfrentar a vida, servir à comunidade e preservar a natureza. Para isso, são executadas ações ao ar livre como acampamentos, caminhadas e escaladas. Aprende-se a cozinhar em meio à natureza e fazer fogo sem fósforo ou isqueiro. As atividades são compostas, ainda, de esportes, competições, construção de cadeiras e mesas com amarração e o aprendizado de vários tipos de nós. Há mais de 400 especialidades para serem desenvolvidas com os integrantes.

Em 1990, Ricardo iniciou sua vida forense como menor colaborador no Departamento Pessoal do TJSP. Filho de Dirce Martins Takaki (também funcionária do TJSP) e Roberto Takaki, Ricardo é casado com Vergínia Mariano Takaki e pai de três filhos: Rafael Takaki (16), Renata Takaki (14) e Vitor Takaki (4). A família inteira participa de acampamentos e expedições, mas é o caçulinha que se esbalda nas aventuras em sua cadeirinha-mochila em que o pai o carrega orgulhoso. Nas veias do garoto já corre o sangue de desbravador, pois ele veda os olhos do pai e diz que o guiará, mandando-o ir para esquerda ou direita, pular pedras e seguir o caminho que acredita esteja correto.

Desbravadores – Seguidor de uma religião evangélica, foi na escola que Ricardo conheceu um grupo que fazia as atividades semelhantes a dos escoteiros e achou tudo muito estranho. Não gostava do uniforme e dizia que jamais entraria naquela turma. Entretanto, seu caminho estava traçado e aos 17 anos, convidado por um amigo sergipano, participou, com toda a família, de um Campori (encontro dos desbravadores). O encontro aconteceu em Aracaju na missão Sergipe-Alagoas com cerca de quatro mil pessoas. Ricardo observou a alegria contagiante da galera, todos felizes, cantando e marchando ou competindo. “Fui contaminado pelo vírus desbravadorino!", brinca. Desde então iniciou seu trabalho com os desbravadores e começou a ajudar o Clube de Desbravadores, passou a conselheiro de unidades e prosseguiu como diretor associado, diretor do clube por de três anos. Acabou se afastando para cuidar dos filhos e anos depois, ao retornar, assumiu o cargo de distrital de desbravadores da Associação Paulistana e também da Associação Paulistana Leste, onde atualmente exerce o cargo. Para ter conhecimentos que contribuíssem com a criançada, Takaki buscou aperfeiçoamento para se tornar mais útil nas atividades. Fez cursos de técnico em enfermagem, bombeiro civil e é mestre em resgate. Chegou a ser professor de mergulho recreativo nos fins de semana. "A capacitação serve para ajudar a resolver os problemas. A segurança dos desbravadores tem que ser perfeita."

Depois que se contaminou pelo "vírus desbravadorino", passou a amar o uniforme e o lenço amarelo que diferencia o clube dos desbravadores dos demais grupos existentes. "A roupa pode mudar de acordo com faixa etária, mas o lenço não." Os desbravadores estão espalhados em mais de 140 países, com aproximadamente 90 mil clubes e quase dois milhões de participantes. No Estado de São Paulo são cerca de 30 mil desbravadores e cada igreja da congregação tem um clube, cada clube é composto por algumas unidades e cada unidade é formada por, no máximo, oito desbravadores (homens e mulheres) e dois conselheiros (um maior de idade), ambos ajudam nas funções dentro do clube e cuidam da meninada.

São inúmeros encontros realizados, há dois anos promoveram o Campori Sulamericano em Barretos, no Parque dos Peões. Vieram pessoas da América Latina totalizando 30 mil acampados, cada um com sua cozinha e barracas, mas com efetiva interação entre todos. De acordo com Takaki, há a preocupação de trabalhar com os desbravadores nos três pilares da construção do caráter de uma criança: desenvolvimento físico, mental e espiritual. No físico, a prática de esportes, competições, acampamentos e outras atividades. No mental, busca-se lidar com o raciocínio lógico, habilidades matemáticas, noções de conhecimentos de todas as áreas, um pouco de tudo, como por exemplo, na área da saúde, em que um profissional na área de enfermagem, médica ou por bombeiros ensina noções básicas de primeiro socorros, resgate básico, reanimação cardiorrespiratória, dentre outras. "No tripé espiritual, não é dado doutrina, falam sobre o amor de Deus de um modo geral e passam mensagens bíblicas, sem muito aprofundamento tendo em vista que o grupo é formado não somente por seguidores da congregação, mas por toda a comunidade de diferentes classes sociais, raça e crença", observa Takaki.

Mensagem – Ricardo Takaki elenca palavras bíblicas relacionadas à atividade exercida: “Em tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens” (Colossenses 3:23). "Precisamos dar atenção as nossas crianças, se quisermos um futuro melhor precisamos fazer a diferença nas vidas destes adolescentes e jovens."

Comunicação Social TJSP – LV (texto)



quinta-feira, 16 de julho de 2015

Justiça mantém demissão de militar adventista por não trabalhar aos sábados


A informação é do Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região (que jurisdiciona os Estados do Sul do Brasil - RS, SC e PR):

Militares de carreira não podem alegar crença religiosa para faltar missões

O Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) confirmou ontem (08/7) sentença de primeira instância que julgou legal a demissão de um sargento de carreira do Exército do município gaúcho de Jaguarão, no sul do estado, que se recusava a trabalhar nos sábados por questão religiosa.

O homem é adepto da religião Adventista do Sétimo Dia, na qual os fiéis devem guardar o sábado para descanso.

Em 2012, ele foi reprovado na avaliação de desempenho. Além de outras punições disciplinares, ficou preso por dois dias pela recusa de comparecer em missões aos sábados. O ex-militar, que ainda não havia adquirido estabilidade, não teve o seu contrato de prorrogação de serviço renovado.

A dispensa levou-o a ingressar com uma ação contra a União pedindo sua reintegração ao batalhão e indenização por danos morais pelo período em que ficou recluso. Alegou que teria avisado ao seu superior sobre o dogma religioso e que tal decisão viola o respeito à liberdade de crença.

O Exército argumenta que seria inconveniente para a instituição a renovação do contrato do sargento por este não poder trabalhar aos sábados, sendo sua crença religiosa incompatível com as atividades militares.

A Justiça Federal de Pelotas (RS) julgou a ação improcedente e o autor recorreu ao tribunal reafirmando o desrespeito à liberdade de crença.

A 4ª Turma negou o apelo. Segundo o desembargador federal Cândido Alfredo Silva Leal Junior, relator do processo, “o autor não pode pretender se valer de sua condição de sabatista para se eximir de obrigação inerente a sua condição militar. Sendo voluntária sua permanência nas Forças Armadas, não poderia deixar de se submeter à hierarquia e à disciplina prevista no Estatuto dos Militares”.

Leal Junior acrescentou ainda que não há nenhum requerimento formal solicitando diretamente ao comandante responsável sua dispensa, o qual poderia decidir ou não pelo remanejo das atividades aos sábados.

Liberdade de Crença

O inciso VIII do art. 5º da Constituição - segundo o qual ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em leis - só é aplicado em caso de serviço militar obrigatório, não sendo o caso daqueles que optam pela profissão de militar.



segunda-feira, 7 de julho de 2014

Justiça nega indenização a estudante adventista por confusão em vestibular

Um daqueles casos esquisitos que aparecem na Justiça de vez em sempre e confundem até a assessoria de imprensa, no caso do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, de onde procede a notícia.

O título da matéria não corresponde ao seu conteúdo, devemos alertar. Tem mais ó neste borogodó do que a nossa vã filosofia consegue alcançar:

Vestibulando adventista requer indenização por ter-lhe sido negado direito a realizar provas em dia diferente do sábado

Os dissabores decorrentes da não prestação de informação a candidato a vaga de universidade pública, quanto à sua aprovação no vestibular, não são suficientes para gerar indenização por danos morais. Assim decidiu, por maioria, a 5.ª Turma do TRF da 1.ª Região.

O caso deu-se em Brasília. Um candidato prestou vestibular, porém, quando não viu seu nome na lista de aprovados, foi buscar informações na universidade, não obtendo resposta. Após inúmeras tentativas infrutíferas, ele conseguiu obter, por medida judicial, a cópia do Boletim de Desempenho, pelo qual tomou conhecimento de que fora aprovado.

O aluno ajuizou ação em que pediu indenização por danos materiais, tendo em vista que, pela falta de informação de sua aprovação, voltou a frequentar curso preparatório para vestibular e teve gastos com transporte e com advogados, entre outros – e ainda por danos morais.

Em primeira instância teve sua pretensão rejeitada. A universidade pública alegou que o tumulto que resultou na desinformação fora criado pelo próprio candidato, que requereu apenas três dias antes da data marcada para a prova o direito de realizá-la no domingo, visto que sua religião – adventista – não o permitia realizar o exame no sábado. Segundo entendimento adotado pala sentença, apesar dos dissabores, o aluno foi matriculado no primeiro semestre do ano seguinte. Desse modo, o juiz julgou improcedente o pedido de indenização formulado pelo autor.

No TRF1, a relatora, juíza federal convocada Gilda Sigmaringa Seixas, considerou que o requerente ainda não havia concluído o ensino médio, pré-requisito essencial para que pudesse se matricular em uma instituição de ensino superior – IES. Além disso, ressaltou que os problemas decorrentes do atraso na informação, sofridos pelo aluno, acarretaram-lhe meros dissabores, que não induzem à indenização por dano moral.

Afirmou a magistrada em seu voto que: “(...) os transtornos sofridos pelo autor em relação à demora na obtenção do boletim de desempenho ou mesmo em relação à necessidade de ter o estudante que se socorrer da via judicial para tentar regularizar a situação do equívoco, não passam de mero aborrecimento da parte, o que não se mostra suficiente para evidenciar dano moral passível de reparação, conforme o entendimento jurisprudencial da Corte e do Superior Tribunal de Justiça a respeito do assunto”. A relatora acrescentou, ainda, vários acórdãos a esse respeito (AC 0051731-67.2010.4.01.3800/MG, AC 0016775-08.2003.4.01.3400/DF, AC 0001240-20.2005.4.01.3901/PA).

Divergiu desse entendimento o desembargador federal Souza Prudente, destacando que: “(...) há vasta inteligência jurisprudencial (...) no sentido de garantir o ingresso do estudante aplicado no curso superior, enquanto ainda está concluindo o curso médio e secundário, desde que comprove, no curso do processo judicial, a conclusão do segundo grau antes da sentença final. E esta me parece ser uma hipótese que se enquadra perfeitamente na situação destes autos, a revelar sob todos os ângulos que a postura teimosa e agressora da UnB em relação à imagem do estudante zeloso e aplicado, que fora aprovado no vestibular de 2004 (...) merece o ressarcimento pleiteado pelo autor, não só em termos de danos materiais, que podem ser perfeitamente apurados na fase de liquidação do julgado como também a fixação de danos morais (...)”.

O voto da relatora foi acompanhado pelo terceiro membro da Turma, sendo o posicionamento majoritário para a conclusão do julgamento.

Processo n.º 0025055-94.2005.4.01.3400
Data do julgamento 28/05/2014
Data da publicação 13/06/2014

PS

Assessoria de Comunicação Social
Tribunal Regional Federal da 1.ª Região



sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Adventistas perdem 43 membros antigos a cada 100 novos fiéis

Já tivemos oportunidade de abordar aqui no blog a dificuldade em se confiar nos discursos apresentados pelas denominações neopentecostais especializadas em alardear o seu sucesso no crescimento, pela absoluta falta de números que confirmem as suas alegações.

Sempre suspeitamos de que a preocupação dessas denominações com os que nelas "entram" é inversamente proporcional ao cuidado com os que "saem".

Não têm  qualquer consideração em relação àqueles que poderíamos chamar de "crentes de alta rotatividade", desde que  inflem sua propaganda e seus  cofres.

Em agosto de 2009, falamos dos "Feridos pelo caminho". Em agosto de 2011, comentamos sobre "o inchaço da igreja evangélica brasileira" e em dezembro daquele ano, analisamos um artigo do Le Monde Diplomatique sobre "religiosidade de passagem - o crescimento da igreja evangélica no Brasil".

Parecia-nos, como continua nos parecendo, que existe uma espécie de "fluxo migratório" entre as igrejas, de gente que não entende bem o que é evangelho, ou se acha "convertida" a algo ou alguém que não exatamente o Jesus Cristo tal como apresentado na cruz do Calvário.

Ninguém fala, portanto, em "crescimento vegetativo", que - demográfica e resumidamente falando - é a diferença quantitativa entre nascimentos e óbitos observados numa determinada comunidade, que pode ser positivo (quando se nasce mais do que se morre), negativo (o contrário) ou nulo (quando os dois números empatam).

No caso de uma entidade religiosa, falaríamos, por assim dizer, em conversões e defecções.

Uma igreja que se defina como cristã não se preocupa morbidamente com números nessa proporção, mas tem profundo cuidado para com os seus membros de maneira que não só os alimente espiritualmente mas também evite, tanto quanto possível, que eles saiam.

Claro que  é inevitável que algumas pessoas se integrem numa determinada denominação e - algum tempo depois - a rejeitem. 

Afinal, desde os primórdios do cristianismo, a apostasia sempre existiu e não há qualquer esperança de que desapareça até o fim dos tempos.

Por isso é bastante curiosa essa notícia do Christianity Today.

É que a administração mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia teve a coragem de fazer algo a que outras igrejas resistem bravamente: estatísticas confiáveis sobre a membresia e o crescimento da denominação.

O estudo foi conduzido nos Estados Unidos, e sua abrangência incluiu os 18 milhões de seguidores do adventismo no mundo, apresentando alguns resultados surpreendentes.

Os adventistas estão crescendo em regiões com o Sudeste da Ásia, a América Latina e o Sul da África, mas vêm perdendo território na Europa e no restante da Ásia.

Com os números na mão, entretanto, o pesquisador adventista Monte Sahlin chegou à conclusão de que a cada 100 novos membros, a igreja perde 43 seguidores antigos.

Não existe na prática denominacional, portanto, o que Sahlin chama de "retenção". E isto não se deve, segundo ele alega, a diferenças doutrinárias que os desertores eventualmente tenham com os adventistas, mas a problemas de natureza pessoal, como conflito conjugal e desemprego.

Importante salientar  que não fica claro na matéria como ele chegou a essa conclusão que exclui as peculiares doutrinas adventistas de uma eventual, digamos, "culpa" na saída de membros.

O artigo do Christianity Today acrescenta, por exemplo, que - no que diz respeito à doutrina -, a divisão norteamericana dos adventistas está fortemente inclinada a aceitar o sacerdócio feminino.

O fato (e de certa forma, a rotina) é que qualquer pessoa pode alegar divergências doutrinárias com qualquer denominação e simplesmente abandoná-la. Tristemente simples e repetitivo assim.

Entretanto, outras denominações - em especial as televisivas - deveriam seguir o exemplo dos adventistas pelo menos nesse particular, e verificar se o seu discurso triunfalista sobre crescimento numérico não está, na verdade, mascarando um contingente enorme de pessoas que abandonam a igreja, ou simplesmente cobiçam a grama momentaneamente mais verde (e igualmente desprovida de qualidades nutritivas) do rebanho ao lado.

É bem provável que, em vários casos, estejam afastando muito mais gente do evangelho puro e simples de Cristo do que atraindo para Aquele que dizem anunciar.



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 12

Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 11

O último capítulo de Eclesiastes é um poema belíssimo sobre a decadência inexorável da vida de cada um de nós.

O envelhecimento nos acomete a todos os que tivemos o prazer de passar pela juventude e ver os anos bons em que tínhamos força, curiosidade e vitalidade para experimentar os prazeres da vida, desde os mais simples até os mais complexos. 

O chamado constante do Pregador à sabedoria não deixa de ser um lembrete para que todos os jovens (de corpo, alma  e espírito) se preparem para o destino inevitável: a morte.

Quando este preparo é feito sabiamente, não deixa de ser uma espécie de "décadence avec élégance" ("decadência com elegância"), já que tolo é aquele que quer retardar indefinidamente ou se revolta contra o processo orgânico inevitável que nos leva ao fim da vida. 

E a morte deve ser vista, também, como uma celebração da vida, como um retorno à casa do Pai (12:7), por mais que seja doloroso pensar que existe um final para a existência, seja a nossa própria, seja a dos nossos queridos. 

É nesse espírito que o Pregador escreve as palavras finais de Eclesiastes, chamando a atenção do jovem para Deus, que é o grande Provedor de todas as coisas, que é o grande sustentador da vida, mas é também Aquele que nos recebe de braços abertos depois de uma vida entregue a Ele.

Assim, a primeira parte do capítulo 12 de Eclesiastes exorta o leitor a lembrar-se do Criador em três momentos (três "antes"), um no v. 1 (que mostra a perda da alegria de viver), outro nos versículos 2 a 5 (que falam da deterioração do corpo) e o terceiro nos versículos 6 e 7 (que se referem ao fim propriamente dito, à morte). 

No primeiro ANTES (v. 1), o Pregador fala da perda da alegria de viver, da importância de se lembrar de Deus e do dom da vida "antes que venham os maus dias" e cheguem os anos em que se possa dizer que neles não há mais prazer, alegria e felicidade. 

Este não deixa de ser um reforço à pregação que ele vinha fazendo, ou seja, de se aproveitar a vida, pelo simples fato de se existir, nos bons e maus momentos. 

Nos vv. 2-5, o Pregador diz que devemos lembrar do Criador ANTES que a decadência física seja incontornável, e a partir daí começa a descrever de uma maneira poética belíssima, como o nosso corpo – paulatina e definitivamente – não responde mais aos estímulos que no circundam. 

É claro que a tendência natural do ser humano é passar por uma fase de esplendor físico na juventude, e a partir de uma certa idade, o organismo começa, por assim dizer, a se desconstruir, assim como o Pregador vinha desconstruindo – nos capítulos anteriores - toda a percepção da vida que o senso comum dita. 

Há um momento final, entretanto, em que o corpo entra em colapso, e a partir daí a vista escurece, os ouvidos mal conseguem detectar o sussurro, o corpo treme, os dentes caem, o prazer sexual (o perecer do "apetite" do v. 5) se esvai, e o sono não serve mais de repouso (o "levantar-se à voz das aves" do v. 4). 

Depois dessa descrição triste, mas realista, vem o desenlace último, o terceiro ANTES (vv. 6), que é o rompimento do cordão de prata e do copo de ouro, o cântaro que quebra junto à fonte, e para mais nada serve senão ser jogado fora. 

Perde o seu viço e a sua utilidade, simplesmente não existe mais. 

Tudo poderia terminar por aí, mas Salomão conclui dizendo que ainda que o pó volte à terra, inservível para os propósitos humanos, por outro lado o espírito volta a Deus, que o deu (v. 7), porque "vaidade de vaidade, diz o pregador, tudo é vaidade" (v. 8). 

Não por acaso, esta é a sublime conclusão do discurso do Pregador, a mesma que ele já adiantara ao iniciá-lo (1:2). 

Mais que um discurso, este é um percurso que ele apresenta, o seu transcurso "debaixo do sol", expressão tão repetida em Eclesiastes, que dá a ideia de que a nossa vida é como um dia que amanhece, amadurece, desvanece e se despede ao escurecer:


1:3 Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?1:4 Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.1:5 Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu.1:6 O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos.1:7 Todos os rios vão para o mar, e contudo o mar não se enche; ao lugar para onde os rios vão, para ali tornam eles a correr.1:8 Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir.1:9 O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.

Felizmente, há um retornar, não mais para o mesmo dia terreno, onde há lida e dor, mas também alegria e felicidade. 

Há um retorno à casa do Pai, ao Deus criador, ao Pai que espera o filho pródigo voltar para seu lar (Lucas 15), para o dia perfeito, conforme Salomão diz em seus Provérbios:


Prov 4:18 Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito.Prov 4:19 O caminho dos ímpios é como a escuridão; nem sabem em que tropeçam.

Este dia perfeito, da luz divina, é o dia da alma imortal, conforme Calvino ensina:

2. ESPIRITUALIDADE E IMORTALIDADE DA ALMA, CONTUDO DISTINTA DO CORPO
Afinal, que o ser humano consta de alma e corpo, deve estar além de toda controvérsia. E pela palavra alma entendo uma essência imortal, contudo criada, que lhe é das duas a parte mais nobre. Por vezes também é chamada espírito. Ora, ainda que estes dois termos difiram entre si em sentido quando ocorre juntos, contudo, onde o termo espírito é empregado separadamente, equivale a alma, como quando Salomão, falando da morte, diz que "o espírito retorna então a Deus, que o deu" [Ec 12.7]. E Cristo, encomendando o espírito ao Pai [Lc 23.46], como também Estêvão o seu a Cristo [At 7.59], não entendem outra coisa senão isto: quando a alma é liberada do cárcere da carne, Deus lhe é o perpétuo guardião.
Entretanto, são absolutamente destituídos de senso aqueles que imaginam que a alma é denominada espírito por ser um sopro, ou força divinamente infundida nos corpos, a carecer, no entanto, de essência, comprovando-o não só a própria realidade, mas ainda toda a Escritura. Sem dúvida é verdade que, enquanto se apegam à terra mais do que é justo, os homens se fazem broncos; aliás, visto que se alienaram do Pai das Luzes [Tg 1.17], foram cegados pelas trevas, de sorte que não pensam que haverão de sobreviver à morte. Contudo, nem assim a luz lhes foi aniquilada nas trevas a tal ponto que não se sintam tangidos por algum senso de sua imortalidade. Sem dúvida que a consciência, que discernindo entre o bem e o mal responde ao juízo de Deus, é sinal indubitável do espírito imortal. Pois, como uma disposição sem essência poderia penetrar até o tribunal de Deus e a si incutiria terror de sua culpabilidade? Ademais, tampouco é o corpo afetado pelo temor de uma penalidade espiritual; ao contrário, só recai na alma, do quê se segue que a alma é dotada de essência.
Já o próprio conhecimento de Deus comprova sobejamente que as almas, que transcendem ao mundo, são imortais, visto que um alento evanescente não chegaria jamais à fonte da vida. Enfim, quando tantos dotes preclaros dos quais a mente humana está enriquecida proclamam sonoramente que algo divino lhe é impresso, são outros tantos testemunhos de uma essência imortal. Ora, a sensibilidade que se instila nos animais brutos não vai além do corpo, ou, pelo menos, não se estende mais longe que às coisas que lhes estão adiante. Também a versatilidade da mente humana, a perlustrar céu e terra e os arcanos da própria natureza, e quando a todos os séculos compendiou no intelecto e na memória, cada evento a dispor em sua ordem, e dos fatos passados a deduzir os futuros, demonstra claramente que no homem se aninha algo distinto do corpo. Mediante a inteligência concebemos o Deus invisível e os anjos, o que ao corpo escapa totalmente; aprendemos as coisas que são retas, justas e honrosas, o que não podemos fazer pelos sentidos corpóreos. Portanto, só o espírito pode ser a sede dessa inteligência. Aliás, o próprio sono, que entorpecendo o homem parece até mesmo privá-lo da vida, é uma testemunha não obscura da imortalidade, quando não só sugere pensamentos dessas coisas que jamais ocorreram, mas ainda presságios quanto ao porvir.
Estou abordando, apenas de leve, estes assuntos que mesmo os escritores profanos exaltam magnificamente, com estilo e expressão mais esplêndidos. Contudo, entre leitores piedosos será bastante um simples lembrete. Ora, se a alma não fosse algo essenciado, distinto do corpo, a Escritura não ensinaria que habitamos casas de barro e que na morte migramos do tabernáculo da carne, despojamo-nos do que é corruptível para que, por fim, no último dia recebamos a recompensa, em conformidade com o que, enquanto no corpo, cada um praticou.
Ora, por certo que essas referências e semelhantes a essas, que ocorrem com freqüência, não só distinguem claramente a alma do corpo, mas ainda lhe transferem o designativo homem, indicando ser ela a parte principal. Ora,quando Paulo exorta os fiéis [2 Co 7.1] a que se purifiquem de toda impureza da carne e do espírito, ele enuncia duas partes nas quais reside a sordidez do pecado. Também Pedro, chamando a Cristo "pastor e bispo das almas" [1 Pe 2.25], teria falado improcedentemente, se não existissem almas em relação às quais desempenhasse este ofício. Nem seria procedente, a não ser que as almas tivessem essência própria, o fato de que fala acerca da eterna salvação das almas, e que ordena purificar as almas, e que desejos depravados militam contra a alma [1 Pe 1.9; 2.11]; de igual modo, o autor da Epístola aos Hebreus [13.17] declara que os pastores velam para que prestem conta de nossas almas.
Com o mesmo propósito é o fato de Paulo [2 Co 1.23] invocar a Deus por testemunha contra sua própria alma, porquanto ela não se faria ré diante de Deus, se não fosse susceptível à penalidade. Isto expressa-se ainda mais claramente nas palavras de Cristo, quando ele manda que se tema àquele que, após haver matado o corpo, pode lançar a alma na Gehena de fogo [Mt 10.28; Lc 12.5]. Ora, quando o autor da Epístola aos Hebreus distingue Deus dos pais de nossa carne, como sendo o Pai dos espíritos, não poderia ele afirmar de modo mais claro a essência das almas.
Além disso, a não ser que as almas liberadas dos cárceres dos corpos continuassem a existir, seria absurdo Cristo representar a alma de Lázaro a desfrutar de bem-aventurança no seio de Abraão, e a alma do rico, por outro lado, destinada a horrendos tormentos [Lc 16.22,23]. Paulo confirma isso mesmo, ensinando que peregrinamos distanciados de Deus durante o tempo em que habitamos na carne; desfrutamos de sua presença, porém fora da carne. E, para que não me alongue mais em matéria de forma alguma obscura, acrescentarei apenas isto de Lucas [At 23.8]: ele menciona entre os erros dos saduceus o fato de não crerem na existência de espíritos e anjos.
(CALVINO, João. As Institutas. Edição Clássica. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 2. ed. vol. 1, pp. 180-182)

Tudo, portanto, que fazemos nesta vida interessa a Deus, em toda a extensão de nossa existência, e quanto antes nos lembrarmos para onde vamos (ou deveríamos ir), ou seja, quanto antes nos lembrarmos do nosso Criador, mais desfrutaremos esta vida aqui, com todas as suas limitações, mas também com todas as suas alegrias. 

Após ter promovido, pelo seu discurso-percurso, a desconstrução daquilo que era tido como sábio e proveitoso pela humanidade, o Pregador fincou 4 estacas sobre o terreno pantanoso e instável da vaidade humana, a saber: a sabedoria, a eternidade, a providência divina e o temor de Deus

Desses 4 pilares, apenas 2 têm o condão de tanto ser imanente como transcendente: a sabedoria e o temor de Deus. 

Os dois outros são transcendentes, estão acima das possibilidades do ser e do existir, e é nessa busca da sabedoria mediante o temor de Deus que podemos confiar que tanto a providência divina não nos faltará, como a eternidade nos está reservada pelo Pai que nos aguarda de braços abertos no final da jornada.

Os versículos finais de Eclesiastes (12:9-14), são uma espécie de assinatura do Pregador, um apelo à inspiração divina de suas palavras (vv. 10-11) e um último reforço ao conselho de temer a Deus (vv. 13-14). 

Conforme a experiência demonstra, sempre haverá novos e velhos conselhos a circular entre nós, e nunca os livros conseguirão dar conta deles, nem vale a pena ficar estudando-os tentando descobrir o segredo da vida(v. 12), pois a única coisa que realmente importa é viver e ser feliz com o que temos e alcançamos, e sempre temer a Deus e tê-lO em conta em todas as nossas atividades e em todos os nossos dias.

Se fosse possível resumir o ensino de Eclesiastes em poucas palavras, talvez elas seriam: "aproveite bem a sua vida e lembre-se de que a finitude é sua companheira inseparável, mas você pode ter o Infinito e o Eterno ao seu lado". Basta crer!



FIM



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