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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Iranianos reelegem presidente o reformista Rouhani



Manja o Irã, aquela república islâmica tão criticada? Pois é, lá tem eleição direta para presidente e o candidato do manda-chuva do país, o aiatolá Ali Khamenei, perdeu para o atual presidente Hassan Rouhani (ou Rohani, há divergências quanto à grafia), que concorreu à reeleição.


Logo, ao contrário do Brasil varonil, bons ventos políticos e econômicos sopram no Irã, segundo informa o Estadão:

Reformista Rohani é reeleito no Irã

Com 57% dos votos, presidente que selou pacto nuclear com Ocidente ganha mais quatro anos no cargo em meio à recuperação econômica

Renata Tranches

TEERÃ - O reformista Hassan Rohani foi reeleito neste sábado, 20, presidente do Irã com 57% dos votos, em uma votação que mostrou o apoio dos iranianos ao pacto nuclear com o Ocidente, o fim de mais de uma década de isolamento internacional e um princípio de recuperação econômica.

O anúncio da vitória foi feito na manhã de ontem pelo Ministério do Interior. Seu rival na disputa, o juiz conservador Ebrahim Raisi - próximo do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, teve 38% dos votos.

O acordo negociado em 2015 estipulou regras para o país desenvolver seu programa nuclear, que incluem inspeções internacionais e limites para o enriquecimento de urânio. O Irã alega que o programa, que começou a ser desenvolvido nos anos 50, antes da Revolução Islâmica de 1979, tem objetivos pacíficos, enquanto seus críticos argumentam que teria ambição militar, para construir bombas.

No começo dos anos 2000, EUA e ONU impuseram sanções econômicas ao país, alegando falta de transparência. As medidas afetaram a economia iraniana. A retórica do então presidente, Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013), pregando a destruição de Israel, não ajudou.

O clérigo Rohani foi eleito em 2013 com o aval do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, para levar adiante a negociação, mesmo diante da forte resistência dos linhas-duras. O presidente prometeu que, com o pacto, viria a transformação econômica.

Com o levantamento das sanções, o país começou a acumular algumas vitórias. Voltou a exportar petróleo - segundo o embaixador iraniano no Brasil, Seyed Ali Saghaeyan, a produção foi de 1 milhão para 2,5 milhões de barris por dia, entre 2015 e este ano (mais informações nesta página), e a inflação caiu de 37,7% para 7,2%. O país fechou ainda acordos bilionários com companhias europeias e até americanas, principalmente na área de aviação. Mas o desemprego não cedeu e subiu de 10,4%, em 2013, para 11,2%, este ano.

A explicação, segundo o especialista Pejman Abdolmohammadi, pesquisador da London School of Economics, é que o presidente não influenciou drasticamente a condição econômica iraniana, apesar de ter conseguido algumas aberturas que ajudarão no longo prazo. O baixo preço do petróleo, no momento em que o país volta a exportar, limitou os ganhos do acordo.

O fim da “doutrina Obama”, de aproximação com Teerã, foi outro fator negativo e está influenciando os assuntos domésticos, segundo Abdolmohammadi. O especialista da Texas Christian University, Manocher Dorraj, acrescenta que há um lobby de Arábia Saudita e Israel - rivais iranianos - para que Trump não alivie nenhuma sanção fundamental que possa trazer prosperidade à economia do país.

Durante a campanha para tentar um novo mandato, em votação feita na sexta-feira contra Raisi, o presidente foi criticado por seus partidários por não promover a ampliação dos direitos civis e liberdades com as quais se comprometeu. “As pessoas realmente esperavam que ele pudesse fazer algo nesse sentido”, explica o pesquisador da London School. Ele foi cobrado também por não ter criado condições para libertar dois líderes reformistas em prisão domiciliar desde 2011: Hossein Mousavi e Mehdi Karroubi.

Como chefe de governo, Rohani alega que há limites para o que pode fazer. No Irã, quem dá a última palavra é o líder supremo. Mas o argumento não foi suficiente e críticas têm se repetido, como a da premiada atriz Baran Kosari, que fez campanha para Rohani em 2013. “Simplesmente dizer que ele (o governo) está sob pressão não é aceitável”, disse.

De qualquer forma, para especialistas Rohani teve um papel fundamental para mudar a imagem internacional do Irã. “Ele foi um dos presidentes mais influentes da república islâmica, mais até, eu diria, que (Mohammed) Khatami”, disse Abdolmohammadi, em referência ao histórico líder reformista. / COM REUTERS





sábado, 22 de outubro de 2016

Com voto do Brasil, UNESCO desagrada Israel quanto a Jerusalém


Parece que a onda gospel não chegou no Itamarati de José Serra. A informação é do Estadão:

Unesco ignora queixa e adota texto sobre Muro das Lamentações

Resolução proposta por países árabes renega vínculo religioso entre sítio histórico e judeus; Brasil votou a favor

PARIS - Apesar da indignação israelense, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) aprovou formalmente nesta terça-feira, 18, a resolução sobre a Cidade Velha de Jerusalém que, segundo Israel, nega o vínculo milenar entre os judeus e o local. O documento causou polêmica em Israel por usar nomes árabes para se referir a locais sagrados, incluindo o Muro das Lamentações.

O texto foi apresentado por países árabes em nome da “proteção do patrimônio cultural palestino”. A resolução foi aprovada por 24 dos 58 membros do Conselho Executivo da organização, entre eles o Brasil, na quinta-feira, em uma apreciação inicial. Seis países votaram contra – Alemanha, Estônia, EUA, Lituânia, Holanda e Grã-Bretanha – e 28 se abstiveram. Hoje, ela foi adotada formalmente pela entidade. O texto foi proposto por Argélia, Egito, Líbano, Marrocos, Omã, Catar e Sudão.

A adoção provocou irritação em Israel e seu governo anunciou imediatamente a suspensão de sua cooperação com a Unesco em sinal de protesto. Hoje, nenhum dos Estados-membros do Conselho, reunidos em assembleia plenária, pediu a reabertura do debate e, dessa forma, o texto foi confirmado sem a necessidade de uma nova votação.

A resolução, intitulada Palestina Ocupada, critica Israel por restringir o acesso de muçulmanos a um local sagrado na Cidade Velha de Jerusalém e se refere à área somente por seu nome muçulmano. Na interpretação das autoridades e da imprensa israelense, o texto nega a importância do local para a religião judaica ao se referir ao muro e localidades adjacentes, como a Mesquita de Al-Aqsa, pela nomenclatura pela qual é conhecida no mundo muçulmano.

O texto reafirma a importância da Cidade Velha para as três religiões monoteístas – o judaísmo, o cristianismo e o islamismo –, mas teria tomado partido “anti-Israel” ao ignorar os laços dos judeus com o sítio.

A Cidade Velha está dentro dos limites de Jerusalém Oriental, parte palestina da cidade ocupada desde 1967 por Israel, e anexada posteriormente.

A ONU considera ilegal esta anexação de Jerusalém Oriental, que abriga a Cidade Velha e suas muralhas, local inscrito na lista de patrimônio mundial da Unesco. Na Cidade Velha está localizada a Esplanada das Mesquitas, terceiro lugar mais sagrado do Islã, mas também o local mais sagrado para os judeus, que o chamam de Monte do Templo, e onde fica o Muro das Lamentações. Em virtude de uma herança histórica, a Jordânia administra a Esplanada, mas Israel controla seus acessos.



quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Presidente do Irã visita o papa


A notícia é da Agência Brasil:

Papa Francisco recebe o presidente do Irã

O papa Francisco recebeu, no fim da manhã desta terça-feira (26), o presidente do Irã, Hassan Rohani. A audiência com o pontífice faz parte da primeira viagem do líder iraniano à Europa após a remoção das sanções internacionais sobre o programa nuclear de Teerã.

Ao final do encontro, Rohani pediu que o papa reze por ele. "Peço-vos que rezeis por mim. Gostei muito deste encontro e desejo-lhe bom trabalho", respondeu, em farsi (idioma mais falado no Irã, conhecido como língua persa), o presidente iraniano.

O papa Francisco pede com frequência a seus convidados que rezem por ele.

O último presidente iraniano a visitar o Vaticano foi Mohammad Khatami, que esteve em 1999 com o papa João Paulo II.

Em nota, a Sala de Imprensa da Santa Sé diz que, durante a visita, "os cordiais colóquios" entre o papa e o líder iraniano evidenciaram os valores espirituais em comum e o bom estado das relações entre a Santa Sé e a República Islâmica do Irã.

As delegações diplomáticas também abordaram a recente conclusão e aplicação do acordo nuclear, destacado o "importante papel" que o Irã foi chamado a desempenhar, junto com os outros países da região, para promover soluções políticas adequadas aos problemas que afligem o Oriente Médio, "contrastando a difusão do terrorismo e o tráfico de armas".

Os representantes do Vaticano e do Irã ressaltaram ainda "a importância do diálogo inter-religioso e a responsabilidade das comunidades religiosas na promoção da reconciliação, da tolerância e da paz".

Roma

Rohani chegou ontem (25) a Roma, sob forte esquema de segurança, mas com grandes expectativas diplomáticas e econômicas. O presidente iraniano encontrou-se o presidente italiano, Sergio Mattarella, e com o primeiro-ministro Matteo Renzi. Rohani disse que o acordo nuclear pode se tornar um exemplo a ser aplicado no Oriente Médio, na África e no sul do Mediterrâneo e pediu coesão internacional para derrotar o terrorismo.

Também Renzi destacou que o acordo nuclear pode ser o primeiro passo rumo a uma nova era de paz e prosperidade em toda a região. Segundo o primeiro-ministro, com o Irã nas mesas internacionais, será mais fácil vencer o terrorismo, um conceito que havia sido reiterado pelo presidente Mattarella.

Nas próximas horas, Itália e Irã vão assinar uma série de acordos econômicos significativos no setor de mineração. Permanecem, porém, entre os dois países, diferenças sobre os direitos humanos. "Mas demonstramos a capacidade de discutir e dialogar", afirmou Renzi.

Em Roma, Hassan Rohani iraniano visita ainda o Coliseu, antes de partir para Paris, onde é esperado pelo presidente francês, François Hollande. Na capital francesa, o presidente iraniano deverá se encontrar com dezenas de empresários.



sábado, 9 de janeiro de 2016

Estilistas ocidentais investem na moda islâmica


Mulheres muçulmanas gastam mais de R$ 1 trilhão em roupas todo ano, segundo a informação do El País:

Dolce e Gabbana lança sua primeira coleção para mulheres muçulmanas

Empresa dá ao lançamento o nome de 'Abaya', em referência às túnicas que cobrem o corpo

A companhia italiana de luxo Dolce e; Gabbana lançou a sua primeira coleção dedicada às mulheres muçulmanas. Os estilistas lhe deram o nome de Abaya, que faz referência às túnicas escuras usadas por algumas mulheres muçulmanas e que cobrem o corpo inteiro, com exceção da cabeça, pés e mãos.

Trata-se de uma coleção de túnicas (abaya) e véus (hijab) para ocasiões especiais em que predominam o preto e os tons neutros, embora sempre com os matizes sicilianos típicos da ilha onde nasceu Domenico Dolce. São conjuntos de túnica e véu adornados com pedras, encaixes, rendados e bordados, embora também haja peças mais ousadas, como túnicas com transparências e saias mais curtas que o habitual, sempre acompanhadas de saltos altos e acessórios elegantes, como carteiras, bolsas, óculos escuros e joias.

Além de ser o seu primeiro lançamento exclusivo para mulheres muçulmanas, Dolce e Gabbana conseguiu fazer algo especial, que é desenhar a coleção em sintonia com sua aposta para a primavera europeia deste ano. As duas coleções compartilham detalhes como as margaridas, limões e as exuberantes rosas vermelhas que adornam as peças e os acessórios.

A Abaya foi apresentada na edição digital da Vogue Arábia Saudita, em que se anuncia que a série, repleta de superposições, adaptará ao mundo árabe o estilo da dolce vita italiana. A coleção também foi apresentada, em seu perfil do Instagram, pelo estilista Stefano Gabbana, e a polêmica não se fez esperar. Dezenas de comentários surgiram criticando os estilistas italianos por desenharem peças que simbolizam a opressão das mulheres, enquanto outros afirmavam que a ostentação vai de encontro aos ideais do Islã. Muitos comemoraram o fato de que uma das empresas de luxo mais famosas do mundo faça uma aposta dirigida para as mulheres muçulmanas.

Dolce e Gabbana foi a última empresa de moda a se voltar para o mercado muçulmano, um negócio de grandes proporções que se encontra em plena redefinição. Segundo a revista Fortune, as mulheres muçulmanas gastaram 266 bilhões de euros (cerca 1,1 trilhão de reais) em moda em 2013 (mais do que o Japão e a Itália reunidos). A expectativa é que esse valor seja duplicado até 2019.

As marcas de luxo, que captaram nesse mercado uma grande oportunidade, já começaram, há anos, a adaptar suas coleções às necessidades do público islâmico. Algumas, como Armani, Calvin Klein e Prada, produzem linhas de lenços especialmente concebidos para cobrir a cabeça. A Valentino também procurou conquistar uma parte do mercado muçulmano e dispõe de um serviço especializado que permite criar novas túnicas.

O boom do mercado islâmico também foi detectado pela DKNY (Donna Karan New York), que lançou em julho de 2014 a sua coleção Ramadan, com peças que cumprem as normas islâmicas de discrição das roupas femininas. Antes da Dolce e Gabbana, a última empresa a voltar os olhos para as muçulmanas foi a firma têxtil sueca H e M, que contratou Mariah Idrissi, primeira modelo com véu islâmico a estrelar uma campanha de moda ocidental.



domingo, 12 de janeiro de 2014

Ariel Sharon morre 31 anos depois do massacre de Sabra e Chatila


Faleceu ontem em Tel Aviv, aos 85 anos de idade, o comandante militar e ex-primeiro ministro de Israel Ariel Sharon, após passar 8 anos em coma em decorrência de um acidente vascular cerebral.

Figura controversa no já complicadíssimo tabuleiro do jogo político no Oriente Médio, Sharon passa para a história responsabilizado pelo massacre dos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, no Líbano, um horroroso episódio que, por mais que tenham tentado abafar, jamais se descolará de sua biografia.

Naquele dia 16 de setembro de 1982, Sabra e Chatila representaram a conjunção tenebrosa de todos os fatores políticos e religiosos que continuam alimentando a guerra na chamada "Terra Santa".

Guga Chacra, colunista do Estadão e da Globo News e - ele próprio - descendente de cristãos libaneses , publicou em seu blog sua opinião sobre esse vergonhoso episódio que a humanidade nunca se esquecerá:

Qual o papel de Sharon (1928-2014) no massacre de Sabra e Shatila, cometido por cristãos libaneses?

Ariel Sharon morreu hoje, aos 85 anos, depois de passar os últimos oito em coma. Será sempre lembrado como herói por alguns e como criminoso de guerra por outros. Inclusive, dentro de Israel, sua imagem variou de acordo com o período. Há dezenas de ótimos obituários sobre a vida dele. Muitos neutros, alguns defendendo, outros atacando. Em português, recomendo o ótimo texto do Caio Blinder, na Veja . Eu vou me concentrar apenas no massacre de Sabra e Chatila porque já estive nestes campos três vezes, entrevistei sobreviventes e também milicianos cristãos envolvidos nas mortes.

Israel entrou no Líbano em 1982 supostamente por 48 horas para se vingar da morte de um diplomata israelense em Londres em ação atribuída à OLP. No fim, permaneceu em partes do território até 2000. O comando palestino, incluindo Yasser Arafat, estava no Líbano desde os anos 1970. A Guerra Civil libanesa havia se iniciado em 1975 e tinha diferentes facções cristãs, sunitas, xiitas e drusas, além do envolvimento do Exército da Síria.

Uma vez dentro do Líbano, Israel ocupou Beirute e levou adiante uma aliança com a facção cristã Phalange, fundada em 1936 com inspiração no Estado nazista de Hitler, comandada por Bashir Gemayel, então, com apenas 34 anos. O objetivo de Sharon era consolidar seus aliados cristãos no poder e assinar um acordo de paz com eles.

Gemayel foi eleito presidente do Líbano e, três semanas mais tarde, morreu em atentado terrorista. Seus seguidores, que atribuíram o ataque aos palestinos, decidiram se vingar. Ariel Sharon era ministro da Defesa de Israel, que controlava os campos de Sabra e Shatila e não impediu os cristãos falangistas de entrarem para cometer o massacre. Foram cerca de 2.000 mortos, incluindo mulheres e crianças, muitas vezes cortadas em pedaços pelos milicianos cristãos. Os soldados israelenses em nenhum momento os interromperam.

Posteriormente, o governo de Israel estabeleceu uma comissão investigadora comandada pelo juiz Yitzhac Kahan, que recomendou a saída de Sharon do posto de ministro da Defesa. Ele não foi considerado responsável direto, mas deveria, de acordo com o chefe da Justiça de Israel, ter previsto o que poderia ocorrer ao permitir a entrada dos cristãos falangistas, liderados por guerrilheiros de vinte e poucos anos.

Resumo– Israel controlava os campos de Sabra e Shatila. Quem cometeu os massacres foram os cristãos libanesas (em tempo, eu tenho origem cristã libanesa). Segundo a Justiça israelense, Sharon deveria ter previsto que os milicianos cristãos cometeriam os massacres



sábado, 4 de janeiro de 2014

Primeira visita de um papa à Terra Santa faz 50 anos hoje

Selo jordaniano comemorava o 1º aniversário da visita de Paulo VI à Terra Santa

Exatos cinquenta anos atrás, no dia 4 de janeiro de 2014, chegava a Amã, capital da Jordânia, o primeiro papa a fazer uma visita à Terra Santa.

Paulo VI foi recebido pelo então rei jordaniano, Hussein I, que providenciou toda a logística para que o pontífice católico pudesse visitar Jerusalém em segurança.

O ano era 1964, e a Jordânia ainda tinha o controle do território da Cisjordânia, onde está compreendida Jerusalém, então dividida em suas partes Oriental (sob controle jordaniano) e Ocidental (sob controle israelense).

Ainda que Jerusalém tivesse sido declarada como capital quando da formação do Estado de Israel, a capital de fato era Tel-Aviv.

Só após a Guerra dos Seis dias de 1967 é que Israel finalmente encamparia Jerusalém como parte do seu território.

Foi nesse contexto que o papa Paulo VI decidiu peregrinar à Terra Santa, sabendo dos problemas que o esperavam.

Entretanto, ao contrário da impressão que os dados acima possam apontar, a tônica da visita papal não foi a política ou a diplomacia entre judeus e árabes.

A ênfase da viagem do papa foi encontrar e se reconciliar com os ortodoxos orientais, os dois grandes ramos do cristianismo que haviam se separado no cisma de 1.054 d. C.

A ida do papa ao Oriente Médio havia sido anunciada somente um mês antes, em 4 de dezembro de 1963, num período em que o Vaticano e Israel ainda não tinham selado laços diplomáticos.

O motivo oficial anunciado pelo Vaticano era "honrar os lugares santos onde Cristo nasceu, viveu, morreu e ressuscitou, e subiu ao céu".

Assim, em sua oração na Basílica do Santo Sepulcro, Paulo VI pediu perdão pelos erros do passado e exortou os ouvintes a "tomarem consciência de nossos pecados, dos pecados de nossos pais, dos pecados da história passada e dos pecados de nossa época".

Além do rei Hussein I da Jordânia, o papa ainda se encontrou com o presidente israelense, Zalman Shazar e os patriarcas armênio e ecumênico de Jerusalém.

O ponto alto da visita, entretanto, foi o encontro de Paulo VI com Atenágoras I, o patriarca ecumênico de Constantinopla, no último dia de sua visita à Terra Santa, em 6 de janeiro de 1964.

O abraço entre os dois líderes abriu um caminho de diálogo e reconciliação entre católicos e ortodoxos que, ainda que não tenha acabado com o cisma até hoje, produziu frutos perenes como a revogação dos decretos de excomunhão mútua de 1.054, que o papa Leão IX e o patriarca Miguel I haviam dirigido um ao outro.

Essa revogação se deu quase 2 anos depois, no dia 7 de dezembro de 1965, com a Declaração de União Católico-Ortodoxa, que anulou as excomunhões recíprocas de 5 séculos antes.

De certa forma, o encontro entre Paulo VI e Atenágoras I marcou todo o diálogo ecumênico que se seguiu. O papa criou naquele mesmo ano de 1964 o Secretariado para as Religiões Não-Cristãs e em 1967 fundaria o Pontifício Conselho Justiça e Paz.

Todo esse esforço de reconciliação era produto, também, do trauma da Segunda Guerra Mundial, em que a religião foi usada para as maiores atrocidades contra os judeus e outras minorias segregadas.

Quando ainda era o padre Giovanni Battista Montini, Paulo VI sentiu na carne os horrores do fascismo na Itália na década de 1920 e, como secretário de Pio XII durante a Segunda Guerra,  viu a que ponto a barbárie nazista podia chegar, como de fato chegou.

Desarmar os espíritos era, portanto, imperativo, e tanto o papa como o patriarca de Constantinopla souberam entender o momentum e começaram a desativar a bomba do fanatismo e da intolerância religiosa, que, lamentavelmente, ainda não foram desarticulados por completo.

Outro fator que pode ser cogitado como causa da reaproximação entre as duas igrejas foi a Guerra Fria que se seguiu ao conflito global.

A ameaça comunista era um fenômeno muito real para ser ignorado por ambas, e os ressentimentos do passado deviam ser abandonados em prol de uma estratégia possível de sobrevivência e convivência.

Demorou bastante, entretanto, para que as relações entre católicos e judeus se estabilizassem e chegassem a um denominador comum.

As relações diplomáticas entre Vaticano e Israel somente foram estabelecidas em 1994, e o papa Francisco visitará Israel, Jordânia e Palestina entre 24 e 26 de maio de 2014 para celebrar os vinte anos de amizade oficial entre os dois Estados e os cinquenta anos da visita histórica de Paulo VI.



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Inscrição mais antiga já encontrada em Jerusalém pode confirmar relato bíblico


O jornal israelense Haaretz informou na sua edição de 02/01/14 que a inscrição de um pote encontrado em Jerusalém pertence ao tempo do Rei Salomão, o que o tornaria a mais antiga inscrição já descoberta na capital de Israel.

Quem a decifrou foi Gershon Galil, professor de Estudos Bíblicos e História Antiga na Universidade de Haifa.

Sua importância deriva do fato de que está escrita em hebraico arcaico e porque mostra que já havia o domínio do alfabeto em Israel no século X a. C.

O que pode ser ainda mais interessante, dependendo do ponto de vista com que se analise a descoberta, é que o pote era utilizado para guardar vinho, e a palavra "halak" nele inscrito significa "vinho barato".

"Halak" era um termo enológico na língua ugarítica, de Ugarit, no norte da região onde hoje se localiza a Síria.

Na época, havia três tipos de vinho, o de boa qualidade, o - digamos - "regular" - e o "vinho barato", de má qualidade.

De acordo com o professor Galil, o vinho "halak", muito provavelmente, era destinado aos milhares de operários que trabalharam nas grandes obras do reino de Salomão, como o primeiro Templo de Jerusalém, por exemplo.

O Primeiro Livro de Reis, no Velho Testamento, informa em seu versículo 5:15 que "tinha também Salomão setenta mil que levavam as cargas, e oitenta mil que talhavam pedras nas montanhas".

Um dos grandes questionamentos que os céticos opõem ao texto bíblico diz respeito à magnitude dos reinos de Davi e de Salomão, que, segundo alegam, não eram tão grandes como o relato bíblico faz crer.

Muitos chegam a afirmar que Jerusalém mal passava de uma vila pequena e desinteressante, sem qualquer importância no contexto do mundo antigo.

A se confirmarem as observações do professor Galil, o reino de Salomão passará a ser visto como bem administrado e que tinha um comércio internacional altamente significativo para a época.

Não se pode esquecer, entretanto, que outro grupo de arqueólogos alegou ter encontrado outra inscrição mais antiga de Jerusalém, conforme comentamos aqui no blog em julho de 2013.

Não fica claro, pela matéria do Haaretz, se se trata da mesma descoberta, então atribuída ao reino de Davi (também no século X a. C.), mas - ao que tudo indica até agora - parece se tratar do mesmo artefato.

Segue esta linha de raciocínio o Times of Israel, que teve acesso ao parecer do pesquisador e se adianta dizendo que se trata realmente daquela inscrição que foi descoberta em julho de 2013 (vide abaixo).

Aguardemos, então, maiores detalhes e análises independentes para saber se estamos realmente diante de uma descoberta espetacular para a arqueologia bíblica.






terça-feira, 24 de dezembro de 2013

2000 anos depois, uma mulher ainda dá à luz numa caverna em Israel


É muito provável que a manjedoura de Jesus estivesse localizada numa caverna, junto com os animais, perto da estalagem em Belém na qual "não havia lugar para eles" (Lucas 2:7)

É, portanto, muito curioso que crianças continuem nascendo numa caverna na região que hoje engloba Israel, Palestina e Jordânia.

E, apesar de Herodes ter morrido há mais de 2.000 anos, ainda é muito arriscado para uma mulher criar filhos numa certa caverna da região.

Ela é muçulmana, se chama Sarah Nawajah, e foi numa caverna que ela deu à luz a seus filhos, em meio à conturbada zona de guerra que é o Oriente Médio.

Não há lugar para eles...

E todos nós precisamos mais do que nunca do Príncipe da Paz:
Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o governo estará sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz.
Isaías 9:6
A interessante matéria foi publicada na Folha de S. Paulo de 22/12/13:



Mulher das cavernas

Muçulmana que mora há 45 anos como beduína relata ataques de autoridades israelenses contra sua família

RESUMO Sarah Nawajah é conhecida no acampamento de Susya, na Cisjordânia, como "a peregrina", por ter ido a Meca, cidade sagrada para o islamismo, na Arábia Saudita. "Mas esta terra também é sagrada", diz, sobre a caverna em que vive - apesar da animosidade dos vizinhos, colonos israelenses de Qyriat Arba.

(...) Depoimento a
DIOGO BERCITO
ENVIADO ESPECIAL A SUSYA (CISJORDÂNIA)

Venho de um vilarejo ocupado, perto de Beer Sheva, tomado em 1948. Meus filhos nasceram aqui, na caverna. É um modo de vida beduíno. Nós vivemos com as ovelhas.

Mudei para cá com meu marido em 1968. Os colonos israelenses tentam nos expulsar. Sofremos muito. Um dia, há cinco anos, eles vieram com seus jipes e destruíram tudo o que nós temos. Eu perdi meu azeite, eles levaram a comida das ovelhas.

No ano passado, estávamos plantando quando nos atacaram. Queimaram nossas videiras, mataram 50 de nossas ovelhas com seus rifles. Eu corria e gritava todo o tempo quando vi aquilo.

Fui reclamar no vilarejo vizinho de Qyriat Arba. Quiseram que eu assinasse um papel dizendo que sou uma causadora de distúrbios. Meus filhos foram presos. Tive de pagar [o equivalente a] R$ 3.500 para tirá-los da prisão.

Há uma torre de vigia aqui perto. Só posso ficar no vale. Se os colonos veem que eu saí, vêm tomar minha casa.

Toda vez que eles me veem, dizem que sou uma puta. Querem tomar a terra.

Tudo o que você vê aqui tem uma ordem de demolição. Não querem que a gente fique aqui. Mas eles, sim, podem ficar. Podem sair. Podem construir. Eu não. Pedi várias vezes ao governo para ter permissão, nunca me deram nada. Querem demolir até o nosso poço de água.

PECADO

Temos dificuldade para trazer ambulâncias. Um dia, meu marido, que já morreu, teve ataque de asma, e o Exército não deixou a ambulância vir. Nós o pusemos em um burro para ir ao hospital.

Dois anos atrás, os israelenses vieram e atiraram um... como se diz? Coquetel molotov. Eles não sabem o que é "haram" [pecado].

Esta é a minha terra. Não quero que tomem de mim. Posso fazer azeite dessas oliveiras e viver disso. Tenho 70 anos. Por quanto tempo consigo lidar com essa situação?

Antes de eles destruírem a caverna, era muito bonito aqui. Nos sentávamos aqui no verão, era lindo. É muito fresco no verão e quente no inverno. Mas eles não querem que a gente viva aqui.

Eu moro na tenda, agora, durante o verão. No inverno, fica frio, então arrumo um canto e venho à caverna.

O governo palestino não pode fazer nada. Nem podem vir até aqui.

SAGRADO

Eu acordo de manhã, rezo, sirvo o café da manhã para as ovelhas e começo o meu dia com os animais. Depois, levo eles para os campos, limpo minha casa e cozinho.

Na temporada, faço manteiga e iogurte do leite das ovelhas. Também planto trigo. Então temos as colheitas.

Na primavera, às vezes a colheita não é boa, então tenho de alimentar os burros com as azeitonas colhidas.

Nossa terra é valiosa. Não vamos entregar aos judeus. Só saio daqui quando morrer. Estou feliz, e só consigo dormir quando estou aqui.

Vou ficar feliz, também, quando todos os colonos forem embora. São monstros.

Uma vez, bati em um soldado. Ele veio nos dizer para sair. Eu atirei um sapato de plástico na cabeça dele. Eles estavam me empurrando!

Fui para a cidade sagrada de Meca duas vezes, por isso me chamam de "hajja [peregrina] Sarah". Mas aqui, esta terra, também é sagrada.

As dificuldades seriam outras se Maria e José
se dirigissem a Belém nos dias atuais...




segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Israel proíbe árvore de Natal no Parlamento

Não que a árvore seja o suprassumo da simbologia do Natal, o que de fato não é, mas enquanto isso, símbolo por símbolo, hordas de turistas cristãos do Brasil e de todo o mundo levam bilhões de cédulas com a efígie de George Washington a Israel e acham que estão abafando...

Alguns "bispos" e "apóstolos" "evangélicos" brasileiros até se especializaram em organizar caravanas rechonchudas o ano todo para Israel, inclusive para fazer supostas "fogueiras" à base de lenha e do engodo dos fiéis incautos.

Já que a desculpa oficial é que a árvore de Natal ficaria instalada por "tempo demais", os turistas e seus dólares poderiam passar lá por "tempo de menos", não é mesmo?

A notícia é do Estadão:

Parlamento de Israel proíbe árvore de Natal

O presidente do Parlamento de Israel, Yuli Edelstein, rejeitou a requisição de um deputado cristão para armar uma árvore de Natal em uma área pública da sede do legislativo.

O pedido foi feito por Hanna Swaid, deputado de oposição ao governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Segundo ele, a intenção era promover o multiculturalismo e a liberdade religiosa. Representante da minoria árabe-israelense, Swaid é cristão ortodoxo.

Eran Sidis, porta-voz de Edelstein, negou que a rejeição ao pedido de Swaid tenha relação com a preservação do caráter judaico de Israel e disse que o deputado pode montá-la em seu gabinete e no escritório de seu partido se assim desejar.

De acordo com ele, a rejeição ocorreu porque a árvore teria que ficar montada por "tempo demais".



Adeus a Peter O'Toole, o Lawrence da Arábia do cinema

Para tristeza de todos os fãs da sétima arte, morreu no dia 14/12/13 o grande ator irlandês Peter O'Toole, aos 81 anos de idade.

Ainda que relativamente desconhecido para os jovens apreciadores do cinema, felizmente, não passou despercebido o seu falecimento.

Homenagens mais que merecidas foram feitas ao redor do mundo.

Alguns críticos de cinema e cinéfilos dizem que - curiosamente - o "grande pecado" de O'Toole foi ter começado por cima.

Tendo iniciado sua carreira na telona em 1960, já em 1962, aos 30 anos de idade, emplacou o papel-título pelo qual ficaria eternamente conhecido: Lawrence da Arábia.

Com apenas dois anos de filmografia, portanto, Peter O'Toole já havia alcançado o ápice a que um ator com sua fleuma e seu gabarito poderia almejar.

A partir daí, suas atuações em tantos outros filmes como "O Homem de La Mancha" (1972), "Calígula" (1979), "O Último Imperador" (1987) e "Troia" (2004), ou a brilhante e esquecida obra televisiva "O Caçador" ("Rogue Male", 1977), se tornaram meras notas de rodapé à sua inesquecível encarnação de "Lawrence da Arábia", dirigido por David Lean e inspirado no vulto histórico T. E. Lawrence, personagem real de uma das grandes aventuras da época da Primeira Guerra Mundial.

O que pouca gente sabe é que tanto Peter O'Toole como T. E. Lawrence, a quem ele deu vida no cinema a ponto se ser confundido com o personagem, tinham profundas raízes cristãs, que, cada um a seu modo e tempo, foram sendo diluídas durante suas trajetórias no planeta.

De origem galesa, T. E. Lawrence (1888-1935), que passou para a posteridade como o "Lawrence da Arábia", foi uma das mais emblemáticas figuras que emergiram do primeiro conflito que envolveu o mundo todo, de 1914 a 1918.

Numa época em que o colonialismo europeu iniciava sua decadência e aquela certa dose de, digamos, "cavalheirismo" medieval cedia vez à barbárie da (ainda incipiente) tecnologia moderna de guerra, T. E. Lawrence viajou em 1911 à Arábia, então pertencente ao Império Otomano (hoje Turquia), como assistente nas escavações arqueológicas promovidas pelo Museu Britânico.

Ainda que seu trabalho no Oriente Médio tenha se concentrado nas ruínas dos hititas e das Cruzadas, seu esforço científico lançou as bases da moderna arqueologia bíblica naquelas terras.

As profundas raízes cristãs de sua família - enfronhada em Oxford - fizeram com que Lawrence, desde a mais tenra idade, se interessasse pelos relatos bíblicos, e já em 1909 a sua correspondência enviada à Grã-Bretanha dava conta de que ele havia visitado e esquadrinhado 36 castelos e fortalezas (a maioria em ruínas) na região da Síria, Líbano e Palestina.

Com o estouro da Primeira Grande Guerra, em 1914, Lawrence, então na Inglaterra, é chamado de volta pelo exército britânico para trabalhar no Oriente Médio, que ele conhecia tão bem.

Seus laços com a comunidade nativa árabe, cultivados durante suas viagens nômades e seu trabalho arqueológico, fizeram com que Lawrence, insuflado pelos britânicos, os estimulasse a lutar contra o imperialismo otomano, que, aliado à Alemanha, era o inimigo comum de ambos os povos naquela zona conflagrada.

Antes de T. E. Lawrence morrer por
traumatismo craniano decorrente de um
acidente de motocicleta, ninguém pensava
em usar esse tal "capacete".
Depois de ajudar a consolidar a independência dos países árabes em relação à nascente Turquia, embora colocando-os sob a esfera britânica, Lawrence voltou para a Inglaterra, onde levou uma vida relativamente pacata até morrer num acidente de motocicleta em 19 de maio de 1935.

Curiosamente, outra de suas contribuições para a humanidade, ainda que involuntária, é que somente depois de sua morte o governo britânico investiu na cultura do capacete para motociclistas, o que veio a salvar milhões de vidas no mundo todo a partir de então.

Peter O'Toole, por seu lado, foi criado como católico na anglicana Leeds, tendo inclusive estudado num colégio de freiras durante os bombardeios nazistas da Segunda Guerra Mundial, embora tenha abandonado a fé a partir de sua adolescência.

Além de "Lawrence da Arábia", foi indicado 8 vezes ao Oscar da Academia de Hollywood, sendo sempre preterido até que finalmente, cônscios de seu erro, lhe outorgaram um Oscar honorário pelo conjunto de sua obra em 2003.

Entretanto, o já consagrado ator não conseguiu deixar a lembrança de Jesus para trás. Mais tarde, confessou: "Ninguém consegue tirar Jesus de mim... não há qualquer dúvida que ele foi uma figura histórica de tremenda importância, com enormes ensinamentos. Como a paz, por exemplo".

Não se sabe a extensão exata da fé de O'Toole e Lawrence, mas a feliz congruência desses dois grandes homens num personagem cinematográfico da maior relevância neste mundo moderno tão contraditório e ansioso por símbolos de fé e de coragem, faz com que a gente agradeça o privilégio de  ter conhecido as suas histórias de vida.

Peter O'Toole no papel-título de "Lawrence da Arábia" (1962)

Foto autografada de Peter O'Toole no papel de um dos três
anjos que visitam Abraão no épico "A Bíblia" (1966)



terça-feira, 5 de novembro de 2013

Míssil atinge embaixada do Vaticano na Síria

A Nunciatura Apostólica ("embaixada") do Vaticano em Damasco, capital da Síria, foi atingida por um míssil na manhã desta terça-feira, 5 de novembro de 2013, segundo informações da Agência Misna.

Eram 6:45h da manhã quando se ouviu um barulho ensurdecedor e - em seguida - se deu o impacto do artefato - uma espécie de morteiro - com um setor da embaixada no qual não havia ninguém naquele momento.

A nunciatura está localizada no exclusivo bairro de Abu Roumanneh, não muito distante do centro de Damasco.

O núncio apostólico Mario Zenari foi imediatamente verificar a extensão dos danos num muro que caiu e na parte superior do edifício, que, felizmente, se restringiram a prejuízos materiais.

Zenari comentou ainda que, se o ataque tivesse acontecido duas horas mais tarde, certamente haveria muitas vítimas fatais.

Não está claro, pelo menos no momento, se o míssil foi realmente direcionado com o fim específico de atingir a embaixada do Vaticano, já que os ataques com mísseis são relativamente comuns no atual estágio da barbárie por que passa a Síria.

O episódio é apenas mais um na guerra civil que assola o país, em que a minoria cristã, aliada do governo de Bashar al-Assad e da maioria muçulmana alauita, virou alvo das facções islâmicas radicais que querem tomar o poder a qualquer custo.

As fontes da informação aqui reproduzida são a ABC News e o Religión Digital.



sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Síria se desintegra em meio a sexo, mentiras e videotape


O jornalista americano Boake Carter disse, em 1938, que "em tempos de guerra, a primeira vítima é a verdade", frase que se tornou célebre e foi confirmada por todas as guerras seguintes.

Enquanto a Síria se esfacela como nação, fica quase impossível saber o que é verdade ou mentira nas notícias que saem de lá, conforme artigo publicado no Estadão de 13/10/13:

A jihad do sexo

As principais mentiras elaboradas pela campanha de desinformação do ditador sírio, Bashar Assad

Christoph Reuters, do Der Spiegel

Sexo vende. E a Al-Qeda está impaciente por chamar a atenção. Mas a combinação de ambos - sexo e jihad - é irresistível. Dezenas de jovens mulheres estão se oferecendo aos jihadistas, segundo uma das mais recentes histórias de horror da mídia procedentes da Síria. Um xeque da Arábia Saudita teria emitido uma fatwa que permite que adolescentes proporcionem alívio a combatentes sexualmente frustrados.

No fim de setembro, Rawan Qadah, de 16 anos, apareceu na TV síria e deu um relato detalhado de como teve de satisfazer sexualmente um insurgente extremista. Quando o ministro do Interior da Tunísia informou que as jovens do seu país estavam viajando para a Síria para a jihad do sexo - e mantinham relações sexuais com 20, 30 e até mesmo 100 rebeldes -, a história ganhou as manchetes dos jornais alemães. Na Alemanha, os sites do Bild, tabloide de grande circulação, e da revista Focus atraem os leitores com artigos sobre essa "prática bizarra".

Na esteira do massacre com gás tóxico, dia 21 de agosto, Damasco lançou uma importante ofensiva de relações públicas. Mas, além da propaganda oficial, há uma segunda campanha: uma iniciativa secreta e cuidadosamente elaborada para semear a dúvida e desviar a atenção dos crimes do governo. Como muitos desses artigos fictícios, as histórias da jihad do sexo tentam convencer os críticos no exterior da monstruosa depravação dos rebeldes.

Nenhum outro líder da região - nem Saddam Hussein, no Iraque, nem Muamar Kadafi, na Líbia - recorreu a uma propaganda tão maciça quanto Bashar Assad. Sua equipe de relações públicas divulga incessantemente notícias parcialmente ou completamente fabricadas, referentes a atos terroristas contra cristãos, aumento do poderio da Al-Qaeda e a iminente desestabilização da região. As histórias, veiculadas por TVs russas e iranianas e por emissoras cristãs, acabaram sendo transmitidas pela mídia ocidental.

Um exemplo é a lenda das orgias realizadas com terroristas. A menina de 16 anos apresentada na TV estatal pertence a uma destacada família da oposição, em Deraa. Como o regime não conseguiu capturar seu pai, ela foi sequestrada pelas forças de segurança quando voltava da escola, em novembro de 2012.

No mesmo programa, uma segunda mulher confessou que teve de se submeter a práticas sexuais em grupo com membros da fanática Frente Nusra. Entretanto, segundo a família da jovem, ela foi presa na Universidade de Damasco enquanto participava de um protesto contra Assad. Ambas estão desaparecidas. Suas famílias dizem que foram forçadas a fazer declarações na TV, que a história da jihad do sexo é mentira.

Uma suposta jihadista do sexo da Tunísia também desmentiu as notícias quando foi ouvida pela mídia árabe. "É tudo mentira", afirmou. Ela admitiu que esteve na Síria, mas como enfermeira. Diz que é casada e, desde então, fugiu para a Jordânia.

Duas organizações de defesa dos direitos humanos tentaram averiguar as informações sobre a jihad do sexo, mas não conseguiram nada de concreto. Parece que o ministro do Interior da Tunísia tinha outros motivos para acreditar no boato: centenas de islamistas deixaram seu país e viajaram para a Síria - e ele tenta conter essa migração desacreditando os combatentes. O xeque Mohamed al-Arifi, que estaria por trás da fatwa da jihad do sexo, desmente tudo. "Ninguém em seu juízo perfeito aprovaria isso."

É difícil checar todas as histórias de horror na guerra síria. Isso ocorre quando elas são difundidas de maneira indireta, como o caso da maioria dos relatos sobre a perseguição de cristãos. Isso inclui a foto de uma mulher amarrada a um pilar em Alepo, que apareceu no site LiveLeak, em setembro, como se fosse uma cristã que havia sido sequestrada por rebeldes da Al-Qaeda. Na realidade, embora a foto tenha sido tirada em Alepo, ela data do período em que as tropas de Assad ainda controlavam a cidade. Um vídeo da cena, postado no YouTube no dia 12 de junho de 2012, mostra milícias leais ao regime repreendendo energicamente a mulher.

O regime também forjou a lenda da destruição da aldeia cristã de Maaloula. No início de setembro, rebeldes pertencentes grupos radicais atacaram dois postos militares nos arredores da cidade controlada pelas milícias Shabiha, leais a Assad. Em seguida, os rebeldes se retiraram. O regime, porém, deu a seguinte versão, que chegou a ser publicada pela Associated Press: Terroristas estrangeiros saquearam, queimaram igrejas e ameaçaram decapitar cristãos que se recusaram a converter-se ao Islã.

A história não correspondia aos relatos das freiras do convento de Thekla, em Maaloula, e do patriarca grego ortodoxo de Antioquia. Eles disseram que nada foi danificado e ninguém foi ameaçado. Um repórter russo esclareceu involuntariamente a confusão. Enquanto acompanhava o Exército sírio, ele filmou o ataque a Maaloula, no qual o mosteiro foi bombardeado.

A atual interpretação dos eventos é uma política consciente. A maioria das publicações evita os riscos e o esforço de checar as histórias. Os fatos verdadeiros, como aquele em que os jihadistas queimaram uma igreja na cidade de Rakka, no sul da Síria, mesclam-se com as atrocidades inventadas para influenciar a opinião global.

Até as inconsistências mais gritantes são aceitas sem questionamentos. Quando a mídia oficial noticiou que o imã Mohamed al-Buti, que apoia Assad, foi morto por um suicida em sua mesquita, em 21 de março, todos os rebeldes negaram envolvimento com o ataque. É claro que isso não significa muita coisa, mas mesmo um olho pouco treinado perceberia que as fotos não mostravam sinais de explosão: lustres, ventiladores, tapetes estavam intactos.

Havia, porém, buracos de bala numa parede de mármore e poças de sangue mostravam onde os corpos foram encontrados. Muitas das vítimas estavam com sapatos, o que é extremamente inusitado numa mesquita. Também não havia testemunhas. Tudo alimenta a suspeita de que as vítimas tenham sido forçadas a entrar no edifício e foram assassinadas, para montar o cenário de um ataque que nunca ocorreu.

Depois do ataque com gás sarin, em agosto, a propaganda falhou. Enfrentando uma onda global de indignação, o regime fracassou em explicar a situação. Em primeiro lugar, Assad disse que nada ocorrera. Então, a TV estatal mostrou imagens de um esconderijo rebelde com um tambor com o letreiro descaradamente óbvio "Made in Saudia (sic)". A notícia dizia que se tratava de gás da Arábia Saudita para os "terroristas", que inadvertidamente teriam se envenenado e morrido.

A fonte da história era um site desconhecido, o Mint Press, de Minnesota, norte dos EUA. Um dos autores disse que não tinha nada a ver com o caso. O outro, um jovem jordaniano que usa vários pseudônimos, limitou-se a dizer que estudava no Irã. Entretanto, em um comentário online a um artigo do jornal britânico Daily Mail, ele deu os detalhes que faltavam.

"Algumas pessoas chegaram a Damasco provenientes da Rússia. Fiz amizade com uma delas - que me contou que tinha provas de que os rebeldes haviam usado armas químicas." Dias mais tarde, o chanceler russo citou o artigo como prova da inocência de Assad.

Uma explicação diferente foi apresentada à TV britânica Sky News pela assessora de Assad, Buthaina Shaaban. Ela disse que terroristas haviam sequestrado 300 crianças alauitas, que foram levadas para Damasco e assassinadas para que pudessem ser apresentadas como vítimas. Agora, surge uma nova linha de defesa. Em entrevista à Der Spiegel, Assad diz que o sarin é um gás "de cozinha", porque pode ser feito "em qualquer lugar".

Embora Assad acoberte seus crimes com uma intensa campanha da mídia, ele prefere uma reunião com a imprensa para contar diretamente sua versão. Assim, ele apresenta seu regime como o último baluarte contra o terror global, embora costume ordenar ataques que atribui aos seus adversários. (Tradução de Anna Capovilla)



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