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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O pastor que virou caminhoneiro crossdresser


A notícia é da BBC Brasil:

A história do caminhoneiro que se assumiu crossdresser e roda o Brasil de salto alto

Vinícius Lemos

O caminhão Mercedes, de cor azul bebê, estaciona e abre as portas. A motorista, Afrodite, de 68 anos, desce com destreza em cima de um par de saltos, habilidade conquistada nas décadas em que utilizou o calçado escondida de todos. Seu vestido é de cor preta, uma forma de luto, em respeito à morte do homem que foi um dia.

Afrodite nasceu Heraldo Almeida Araújo - nome que consta em todos os seus documentos -, mas há cerca de seis meses pede para ser chamada pelo nome feminino, escolhido por conta da admiração que nutre pela deusa grega do amor, da beleza e da sexualidade.

Em meados do ano passado, decidiu se assumir como crossdresser, prática na qual homens utilizam roupas e acessórios considerados femininos.

"Desde criança, sempre me senti mulher. Perguntava para a minha mãe por que meus seios não cresciam e ela dizia que homens não têm seios. Nunca entendi por que nasci assim", revela.

Afrodite se considera heterossexual e parou de se envolver com mulheres há alguns anos. Em meio às mudanças dos últimos meses, espera virar transexual e passar a se interessar por homens, deixando para trás uma vida que avalia como triste, por não ter conseguido ser quem realmente é.

Já foi cabo do Exército, caminhoneiro, eletricista, empresário e pastor. Casou-se duas vezes e teve uma filha. E arrumava formas para suprir os desejos escondidos.

"Na infância, eu pegava roupas de algumas primas e usava. Depois, quando adulta, eu mesma costurava minhas roupas, escondida, ou comprava algumas peças. E usava roupas íntimas femininas, como calcinha ou sutiã, por baixo das roupas masculinas."

Usou roupas de mulher pela primeira vez aos 13 anos, quando pediu às primas que a vestissem e maquiassem. Agora, mais de cinco décadas depois, decidiu que irá fazer a cirurgia de redesignação sexual. "O procedimento, junto com o silicone que pretendo colocar, vão fazer com que eu complete esse ciclo", diz.

A vida de Afrodite assemelha-se à de diversas crossdressers brasileiras. Conforme Cristina Camps, uma das diretoras do Brazilian Crossdresser Club - dedicado a praticantes do crossdressing e transgêneros -, muitas demoram décadas para se assumir.

"Normalmente, essa vontade surge na infância, mas em função dos padrões da sociedade, somente na faixa adulta irão compreendê-lo. Geralmente, os homens se assumem entre quatro paredes, pelo receio de serem descobertos e perderem as conquistas profissionais e sociais."

Não há levantamentos sobre o número de crossdressers no Brasil. Entretanto, Cristina explica que mais de 3 mil homens já passaram pelo Brazilian Club. "O crossdressing, no Brasil, ainda é embrionário. Nós somos o primeiro clube voltado a esse fetiche no país. Surgimos em 1997, mas, antes disso, certamente centenas de pessoas já eram adeptas da prática. É difícil mensurar", comenta.

Casamentos

Nascida em Jacarezinho (PR), Afrodite hoje vive em Cuiabá (MT). Durante a infância no Paraná, ela se recorda que sempre teve tendência a escolher atividades relacionadas às meninas, o que a tornava alvo de comentários dos colegas de classe. "Ele riam de mim, por causa do meu jeito mais delicado."

Na puberdade, teve uma crise de identidade. "Fiquei revoltada quando nasceram os primeiros pelos em mim e minha voz engrossou. Foi estudando anatomia que passei a entender que não poderia ter seios. Mas ainda assim, mantive meu sonho de um dia me tornar mulher", declara.

Quando se mudou para São Paulo, ainda na adolescência, começou a trabalhar em uma tecelagem e passou a costurar roupas femininas para si, quando ficava sozinha. E usava-as apenas dentro da fábrica, porque não tinha coragem de sair à rua.

Manteve o costume de usar, secretamente, roupas íntimas femininas nos períodos em que serviu o Exército, em que foi funcionária pública em Corumbá (MS) e, posteriormente, caminhoneira. Na cidade sul-mato-grossense, conheceu sua primeira mulher, de quem escondeu o fetiche. Eles se casaram em 1974.

"Muitas vezes, eu tinha que viajar de caminhão, a trabalho, e usava lingeries. Mas nunca usei nada na frente dela", relata. Certa vez, a mulher encontrou, no bolso de uma calça de Heraldo, calcinhas que haviam sido utilizadas pelo próprio marido. "Talvez ela desconfiasse, mas não falou nada."

Foi também nesse período que Afrodite teve a única filha, Tatiana, um ano após o casamento. Foi um dos momentos mais importantes de sua vida.

"Eu sempre quis ter uma filha, porque acreditava que me identificaria mais", comenta.

O casamento durou 16 anos e terminou após Afrodite engatar um romance com outra mulher. Depois desse relacionamento, pela primeira vez, ela arriscou sair na rua com roupas femininas.

"Eram coisas discretas. Comecei no fim de 1995. Eu não conhecia sobre crossdresser nem transgênero, só tinha muita vontade de andar vestida de mulher e de ser uma", relata.

Ela deixou de esconder os desejos aos amigos mais próximos, mas logo desistiu de usar roupas femininas em público. "O preconceito era muito grande nas ruas. Não cheguei a ser alvo de nenhuma agressão, mas ouvia comentários como 'bicha' ou 'viado'. Então, decidi me preservar e também desisti, temporariamente, dos meus planos de mudar de sexo."

O segundo casamento durou 14 anos e terminou em 2013. Um dos motivos do rompimento, diz a crossdresser, era a vida sexual do casal - Afrodite diz que sempre teve dificuldade em se relacionar com mulheres, mas tampouco se interessa por homens. "Eu me considero heterossexual, porque pessoas do mesmo sexo nunca me atraíram. Às vezes penso que posso ser assexual."

A carreira de pastor

Durante o segundo casamento, Heraldo, espírita kardecista desde a infância, decidiu conhecer mais sobre a religião da companheira, que era evangélica. Acabou se tornando pastor, função que exerceu por mais de 10 anos na Assembleia de Deus em Cuiabá.

"Eu pregava, dava testemunhos e falava sobre a palavra de Deus. Eu fazia até culto em minha residência, para 150 pessoas. Gostava muito". E costumava liderar cerimônias religiosas com roupas íntimas femininas. "Ninguém percebia, mas eu usava, porque me sentia bem."

Com o passar dos anos, passou a se questionar sobre como a religião enxergaria o fato de se sentir como uma mulher. "As minhas fantasias continuavam e, muitas vezes, perguntei a Deus se eu estava errada. Mas me sentia em paz com minha consciência e isso me tranquilizava."

Em 2013, após decidir que iria se tornar crossdresser, deixou a Assembleia de Deus. "Muitas coisas iam contra os meus princípios e me sentia muito reprimida. Eu acho que não deveria ter ficado tanto tempo (na igreja). Hoje penso que não deveria ter retardado tanto a minha felicidade."

Relação com a família

Afrodite conta que tinha uma boa relação com seus irmãos - com quem chegou a formar uma sociedade em uma empresa eletrotécnica - até ela passar a usar roupas femininas abertamente.

"Falaram que eu estava ficando maluca. Foram me isolando e até me proibiram de atender clientes", afirma.

Afrodite chegou a registrar boletim de ocorrência contra parentes, alegando sofrer ameaças de agressão. E abriu um processo contra os dois irmãos por injúria e difamação. "Já tivemos algumas audiências e a juíza orientou que a gente faça acompanhamento psicológico", diz.

A doutora em psicologia social Sandra Elena Sposito afirma que o acompanhamento psicológico pode auxiliar uma crossdresser a se entender melhor. "Essas pessoas podem precisar, talvez, de algum amparo para enfrentar situações de estigma e preconceito. Não pelo crossdressing em si, mas para que compreendam que essa situação não precisa gerar sofrimento. A dificuldade vem da forma de estar no mundo e não ser reconhecida, não poder transitar na sociedade nem se expressar socialmente."

O preconceito dentro da própria família foi justamente a parte mais difícil para Afrodite. "Eram pessoas que eu esperava que, ao menos, me respeitassem. Não imaginava que fossem me atacar dessa forma", lamenta. No entanto, ela afirma ter recebido apoio dos sobrinhos e do pai. "Ele agiu normalmente comigo. Não fez nenhum comentário quando me viu de mulher pela primeira vez."

Ao recordar-se da mãe, já falecida, ela se emociona. "Ela me amaria ainda mais. Sei que ela me assiste, porque nada dá errado para mim. Sei que estou conseguindo vencer. Hoje, sinto a presença dela me encorajando", diz, entre lágrimas.

Outro apoio importante veio da filha, a dona de casa Tatiana Rodrigues, de 42 anos. "Ela lidou tranquilamente com isso. Na primeira vez em que ela me viu, só me deu um conselho: 'não pinta a unha de cor muito forte quando estiver trabalhando'. Mas eu disse que gosto de cores assim, pois escondem a sujeira da unha, por conta do meu trabalho como caminhoneira."

Rodrigues conta que, até 2017, nunca havia identificado no pai um interesse em se transformar em mulher. "Nunca pensei nisso. Meu pai não era aquela figura extremamente machista, mas nunca demonstrou tendência afeminada. Era um senhor comum", explica.

"Não posso dizer que (vê-lo vestido de mulher) foi algo que você olha e pensa: 'tudo bem'. A primeira coisa que pensei foi: 'nossa, é o meu pai. Aquela imagem que eu tinha antes não existe mais'. Mas a essência dele é a mesma e é isso que importa. Depois do primeiro impacto, passei a encarar normalmente, porque meu pai para mim é um tesouro, junto com a minha mãe", conta.

Preconceito e mudança de gênero

Mas a filha teme pela integridade física do pai. "O meu medo é que ele sofra algum tipo de violência, porque o mundo está cada vez mais perigoso e existem muitas pessoas intolerantes", diz.

É o mesmo temor do pai. "Nunca fui agredida fisicamente, mas esse é o meu maior medo", conta Afrodite.

Desde que se assumiu como crossdresser, ela passou a enfrentar comentários maldosos e situações constrangedoras. "Já levei empurrões em bares, mas outras pessoas entraram para me defender. Eu também já fui impedida de entrar em alguns estabelecimentos. O preconceito agora faz parte da minha rotina. As pessoas torcem o nariz, às vezes levantam e vão sentar em outro lugar. Eu ignoro, mas isso tudo machuca."

Um dos momentos mais difíceis é quando precisa utilizar banheiro em algum estabelecimento público. "Muitos não me deixam entrar no feminino e eu tenho que ir ao masculino. É ruim, porque eu uso meia-calça, tenho que usar o mictório e acabo tendo que levantar o vestido. Me sinto exposta, porque sempre tem alguém que me constrange ou me xinga dentro do sanitário", lamenta.

Afrodite gostaria de realizar a cirurgia de mudança de sexo ainda neste ano. Antes, porém, deverá fazer acompanhamento terapêutico, para que possa receber laudo psicológico/psiquiátrico favorável e o diagnóstico de transexualidade.

Enquanto isso, ela entrou com uma ação na Justiça para que o nome Afrodite passe a constar em seus documentos. "Expliquei para a juíza que eu não sou homossexual, sou transexual. No Fórum, todos me chamavam de Afrodite", relata. O processo ainda está em tramitação.

Atualmente, Afrodite se classifica como crossdresser, por não ter feito nenhuma modificação em seu corpo. Quando fizer a cirurgia de mudança de sexo, passará a se considerar transexual. "Eu quero chegar o mais próximo possível de uma mulher, que é como eu realmente me sinto", conta.

Crossdresser há cerca de dez anos, a psicóloga e artista plástica Fe Maidel argumenta que o crossdressing não necessariamente precede uma mudança de gênero: "Cada pessoa tem uma maneira única de se expressar no mundo. Ser crossdresser pode ser o começo de um processo de conhecimento, que pode culminar na transição de gênero, ou não".

A vontade de concluir a fase de transição é tamanha que Afrodite tem tomado hormônios por conta própria, sem consultar um médico, há cinco meses. "A minha filha já me deu bronca. Ela falou: 'papai, eu convivi com o Heraldo por 42 anos e quero viver o mesmo período com a Afrodite'", comenta. A crossdresser prometeu suspender o medicamento até a devida indicação médica.

A redesignação sexual será, segundo ela, o começo de uma nova vida. "É um sonho que tenho desde criança. Eu preciso muito dessa cirurgia", diz. E, mesmo antes disso, Afrodite já decretou a morte do homem que era desde a infância. "As pessoas me perguntam o porquê de eu gostar tanto de preto. É porque estou de luto, em respeito ao Heraldo, que morreu."

A crossdresser leva uma vida solitária. Sua rotina se resume a alguns fretes no caminhão, ir a lojas comprar roupas e frequentar bares, nas noites em que está feliz. A maior parte de seus dias ela tem passado em casa, onde mora sozinha, junto com 16 gatos. Diz que há poucas pessoas com as quais pode contar. "É triste, mas eu sei que acabam se afastando de mim. Só tenho a minha filha, minha neta, meu genro e minha primeira esposa."

Mesmo assim, Afrodite não se arrepende de ter se assumido crossdresser. "Eu só me culpo por não ter feito isso antes. O que me deixa triste é que sei que já estou velha e não vou ter tanto tempo para desfrutar desse meu sonho."



sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O cachorro que trocou o pastor evangélico pelo padre



A história é antiga, a reportagem é de 2015, mas continua atual e divertida. Confira no vídeo abaixo:




terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Justiça reconhece vínculo empregatício de bispo da igreja Fonte da Vida


A informação foi publicada no portal Jusbrasil:

Bispo tem reconhecido vínculo empregatício com Igreja Evangélica

Sentença é do TRT/SP

Davi D'lírio

Um bispo que trabalhou para a Igreja Apostólica Fonte da Vida, durante o período de 10/2/1990 a 22/9/2015, conseguiu o reconhecimento do vínculo empregatício, com determinação de registro em carteira.

A decisão é do juiz do Trabalho Diego Cunha Maeso Montes, da 39ª vara de São Paulo/SP, refutou o argumento da igreja de que o reclamante atuava como sacerdote.

Conforme o magistrado, não há qualquer óbice que impeça o reconhecimento do vínculo empregatício desde que preenchidos os requisitos previstos na CLT.
“Com efeito, a onerosidade está presente no fato do autor ter recebido valores mensais da ré, a pessoalidade se faz presente no fato do autor não poder se fazer substituir por outra pessoa, a habitualidade e a subordinação também se fazem presentes, inclusive com a testemunha indicada pela própria ré ter afirmado que o "reclamante fazia a abertura do salão para o início do culto; ... que o reclamante fazia parte de um conselho de bispos, coordenado pelo apóstolo, que definia a forma como a igreja de responsabilidade do autor seria dirigida, coordenada".
Em decorrência do vínculo, o julgador determinou o pagamento ao bispo do saldo de salário, férias vencidas simples e em dobro, décimo terceiro salário, FGTS de todo o período trabalhado e restituição de contribuição compulsória e ministerial que lhe era imposta.

O advogado Eli Alves da Silva, do escritório Eli Alves da Silva Advogados Associados, patrocinou a ação do reclamante.




sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Guilherme Pádua é consagrado "pastor" em BH


Sim, é verdade, as pessoas podem mudar da água para o vinho, inclusive os piores criminosos. Mas "reputação" é um pré-requisito incontornável para quem deseja alcançar o ministério cristão.

Portanto, daí a se tornar um pastor cristão vai uma longa estrada e gigantesca diferença.

Entretanto, conforme a igreja evangélica vai se impondo ao país como ideologia, certos versículos bíblicos vão se tornando "letra morta", lamentavelmente, como

“Escolhei, pois, irmãos dentre vós, sete homens de boa reputação…” 
Atos 6.3 (na escolha de diáconos para a igreja primitiva, a primeira de que se tem notícia na Bíblia)

1 Timóteo 3

2 É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, sóbrio, prudente, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar;
7 Também deve ter boa reputação perante os de fora, para que não caia em descrédito nem na cilada do diabo.

A matéria é d'O Povo:

Guilherme Pádua, assassino de Daniella Perez, se torna pastor evangélico

Em 1992, Pádua e a ex-mulher, Paula Thomaz, armaram uma emboscada para atriz, filha da autora Glória Perez, e a mataram com tesouradas

O ex-ator Guilherme de Pádua, 48 anos, se tornou pastor de uma igreja evangélica, em Belo Horizonte, cidade onde mora. O condenado pela morte de Daniella Perez se converteu à religião em 2002, um ano depois de sair da prisão em que cumpria a pena. Formado em teologia ao lado da nova companheira, Juliana Lacerda, no fim de novembro, Pádua foi nomeado pastor neste fim de semana.

“Enfim, agora Pastor Guilherme! Ele esperou mais que 15 anos para que esse dia chegasse, mas como nós dizemos, tudo no tempo do Senhor. Chegou o seu tempo meu amor", escreveu Lacerda em sua rede social.

No Instagram, Guilherme compartilhou a imagem de sua formatura. "Glória a Deus por mais esta benção. A palavra de Deus é sempre mais do que imaginávamos", escreveu ele.

Em 1992, Pádua e a ex-mulher, Paula Thomaz, armaram uma emboscada para atriz Daniella Perez, filha da autora Glória Perez, e a mataram com tesouradas. O casal foi condenado por homicídio qualidicado depois de cinco anos do crime.



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 26


SOBRE OS PREGADORES ITINERANTES E CLANDESTINOS - PARTE 4

(este texto é continuação do anterior, que pode ser lido clicando aqui)

Resumindo: São Paulo não tolera a petulância e insolência de alguém intrometer-se em algum ministério alheio; cada qual observe a ordem e o ofício recebido e se dedique a ele, deixando intacto e em paz o ofício do outro. No mais, pode instruir-se, ensinar, cantar, ler, explicar a não querer mais, desde que tenha o direito e autorização para isso. Se Deus quiser fazer algo especial, fora e acima dessa ordem dos ministérios e da vocação, e suscitar alguém que esteja acima dos profetas, ele o demonstrará com sinais e feitos, como falou através da jumenta e repreendeu os profetas de Baal, seu senhor. Quando não fizer isso, queremos ater-nos aos ministérios e mandatos instituídos. Se [seus titulares] não ensinarem corretamente, que tens tu a ver com isso? Tu não precisas prestar contas disso.

Por essa razão, São Paulo usa mais vezes o termo “comunidade” neste capítulo, fazendo certa distinção entre os profetas e o povo. Os profetas falam, a comunidade ouve. Pois diz: “Quem profetiza edifica a comunidade” [1 Co 14.4], e mais abaixo: “Procurai edificar a comunidade, para que tenhais plena suficiência” [v. 12]. Quem são esses que devem edificar a comunidade? Acaso não são os profetas e (na expressão dele) os que falam em línguas, isto é, os que leem e cantam o texto, enquanto a comunidade ouve? São os profetas que devem explicar o texto para a edificação a comunidade? Ora, está suficientemente claro que aqui ele ordena à comunidade que ouça e se edifique, e não à doutrina nem ao ministério da pregação. E faz mais outra distinção clara, chamando a comunidade de “leigos”, dizendo: “Se bendisseres no espírito, como poderá aquele que ocupa o lugar do leigo dizer “amém”, visto que não entende o que dizes? Com efeito, dás graças de maneira maravilhosa, mas o outro não é edificado” [1 Co 14.16s]. Aí se estabelece uma vez mais uma diferença entre pregador e leigo. Mas que necessidade temos de muitas palavras? O teto está aí e, também, a razão ensina que não se deve interferir em um ministério alheio.

Pois São Paulo diz: “Que falem dois ou três profetas e os outros julguem”, etc. [1 Co 14.29]. Aqui não se fala de outra coisa senão dos profetas, dos quais um ou dois devem falar, enquanto os outros julgam. Quem são esses “outros”? O povo? De forma alguma! Trata-se dos outros profetas que devem auxiliar na pregação na Igreja e edificar a comunidade. Esses devem julgar e ajudar a cuidar, para que se pregue corretamente. E se um dos profetas ou pregadores conseguir expressar-se com acerto, o primeiro deve consentir e dizer: É verdade, tens razão: eu não havia entendido corretamente o assunto – como acontece em torno de uma mesa ou em outro assunto qualquer, onde um dá razão ao outro (também em questões seculares). Da mesma forma, um deve ceder tanto mais ao outro no presente caso.

Aí se vê de que modo maravilhoso e diligente os intrusos leram as palavras de São Paulo, das quais deduzem para si o direito de se manifestarem em todas as igrejas, ou seja, de agredir a todos os pregadores da cristandade inteira, julgar e ofendê-los, arvorando-se eles mesmos em pessoas ordenadas e juízes de púlpitos alheios. São verdadeiros assaltantes e assassinos os que interferem criminosa e violentamente no ministério alheio. Contra isso, São Pedro ensina em 1 Pe 4[.15]: “Nenhum de vós sofra como malfeitor ou como quem se intromete em negócio alheio”.

Embora haja caído no esquecimento o costume de os profetas ou pregadores estarem sentados na igreja e falarem alternadamente (como São Paulo diz aqui), ainda restou um pequeno indício e vestígio disso no canto alternado do coro e das leituras alternadas, cantando-se depois uma antífona, um hino ou responsório em conjunto; ou quando um pregador interpreta a leitura do outro e um terceiro, a explica ou prega sobre ela. Portanto, a maneira correta de se ensinar na Igreja seria essa referida por São Paulo. Aí um cantaria ou leria em línguas, outro profetizaria ou interpretaria, o terceiro o explicaria, mais outro, por sua vez, o confirmaria ou explicitaria melhor com citações e exemplos, como o fez São Tiago em Atos 15[.13ss], e São Paulo em Atos 13[.14s.]. Isso seria melhor que a mera leitura da perícope [passagem bíblica para pregação], ou do que cantá-la em latim, numa língua desconhecida, como as freiras rezam o Saltério. Embora São Paulo não condenasse a glossolalia para si mesmo, não a recomenda nem ordena na igreja sem interpretação.

Não quero, porém, aconselhar a reintrodução desse procedimento e a eliminação do púlpito; antes quero defendê-lo, pois hoje as pessoas são demasiadamente intempestivas e intrometidas, e poderia insinuar-se um diabo entre pastor, pregador e capelão, de modo que um quisesse estar acima do outro, passando eles a brigar e ofender-se diante do povo, querendo cada qual ser o melhor. Por isso é melhor conservar o púlpito, pois aí as coisas acontecem, como ensina São Paulo, de modo decente. Basta que numa paróquia os pregadores preguem um depois do outro e, se quiserem, alternadamente nos diferentes lugares, que um deles explica à tarde ou pela manhã o que o outro recitou ou leu na matutina ou na missa, como se faz, de vez em quando, com o Evangelho e a Epístola. Pois São Paulo não insiste tanto em que se devesse adotar a mesma prática, mas em que tudo seja feito em ordem e decência, dando um exemplo. Visto que nossa prática de pregação é mais ordeira entre nosso povo louco do que aquela, queremos mantê-la.

Nos tempos dos apóstolos foi fácil manter a prática de os profetas estarem sentados [no meio do povo], pois era um antigo costume de prática diária entre o disciplinado povo do sacerdócio levítico, observado desde Moisés. Mas não seria aconselhável reintroduzi-la hoje entre este povo rude, indisciplinado e insolente.

Isso a respeito do dito de São Paulo. Resumindo: os intrusos e pregadores clandestinos são apóstolos do diabo, dos quais São Paulo sempre se queixa [cfe. Tt 1.10], que entram nas casas e as perturbam, ensinando sempre sem saberem o que estão dizendo ou afirmando. Por isso advirto e admoesto o poder espiritual, advirto e admoesto o poder secular, advirto a todos os cristãos e a todos os súditos: acautelai-vos deles e não lhes deis ouvidos. Quem os tolera e lhes dá ouvidos, saiba que está ouvindo o maldito diabo em pessoa, do mesmo modo como fala através de uma pessoa possessa. Fiz minha parte e também falei sobre esse assunto na explicação do Salmo 82. Estou desculpado. O sangue de cada um que não aceita um conselho bom e sincero recaia sobre sua cabeça. Com isso encomendo, caro senhor e amigo, a vós e os seus à graça e misericórdia de Deus. A ele glória e gratidão, honra e louvor em eternidade, em Jesus Cristo, nosso amado Senhor e Salvador. AMÉM.

(LUTERO, Martinho. Carta do Dr. Mart. Lutero sobre os Intrusos e Pregadores Clandestinos. 1532. Tradução de Ilson Kayser. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2009, vol. 7, págs. 122-124)



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 25


SOBRE OS PREGADORES ITINERANTES E CLANDESTINOS - PARTE 3


(este texto é continuação do anterior, que pode ser lido clicando aqui)


É verdade que há os que argumentam que, em 1 Cor 14[.30], São Paulo teria concedido a qualquer um a liberdade de pregar na comunidade e, inclusive, contestar o pregador ordenado, ao dizer: “Se o que está sentado tiver uma revelação, cale-se o primeiro”. Por isso os intrusos acreditam terem a autoridade e o direito de julgar o pregador de qualquer igreja em que entram e de pregar diferente. Isso, porém, é um grande engano. Os intrusos não observam bem o texto e tiram dele, ou melhor, introduzem nele o que querem. Na referida passagem, São Paulo fala dos profetas que devem ensinar, e não do povo que escuta. Profetas, porém, são mestres detentores do ministério da pregação na Igreja. Se assim não fosse, por que se chamaria alguém de profeta? Portanto, peça ao intruso que primeiro prove ser profeta ou mestre na Igreja à qual chega, e quem lhe confiou esse ministério. Depois disso se há de ouvi-lo, de acordo com o ensinamento de São Paulo. Se não o conseguir provar, manda-o para o diabo, que o enviou e lhe deu a ordem de usurpar um ministério da pregação alheio, numa igreja à qual também não pertence como ouvinte ou discípulo, que dirá como profeta e mestre.

Que modelo fabuloso daria isso se qualquer pessoa tivesse o direito de interromper o discurso do pastor e de começar a discutir com ele! E logo mais, um terceiro se intrometeria no debate dos dois, mandando também calar a esse segundo. E depois, ainda viria um bêbado da bodega da esquina e interviria na discussão desses três, mandando também ao terceiro calar-se. Por fim, inclusive, as mulheres quereriam fazer uso desse direito, como “a que está sentada” [cfe. 1 Co 14.30], mandando os homens calar, e depois uma mulher a outra – que algazarra, que gritaria de bodega, que festa popular daria isso! Até num chiqueiro as coisas seriam mais ordeiras do que numa igreja dessas. Que o diabo seja pregador em meu lugar! Os cegos intrusos, porém, não pensam nessas coisas. Acham que somente eles são “os que estão sentados” e não percebem que qualquer um dentre os demais deveria ter o mesmo direito, e também poderia manda-los calar. Eles próprios não sabem o que dizem, o que significa “estar sentado” ou “falar”, o que significa “profeta” ou “leigo” nessa palavra de São Paulo.

Quem quiser, leia todo o capítulo e descobrirá que nele São Paulo se refere à profecia, à instrução e pregação na comunidade ou igreja. Ele não ordena à comunidade pregar, mas está falando com os pregadores que pregam na comunidade ou na reunião. Do contrário, não poderia proibir às mulheres que preguem, pois também elas são parte da comunidade cristã. A deduzir do texto, a situação era a seguinte: na igreja, os profetas, como os legítimos pastores e pregadores, estavam sentados no meio do povo, e um ou dois deles recitavam ou liam o texto, como ainda hoje é costume, por ocasião das grandes festas, em algumas igrejas, que duas pessoas cantem o Evangelho.

Em seguida, um dos profetas, que estava na vez, passava a discursar sobre esse texto, explicando-o, a exemplo do que foram as homilias na Igreja romana. Tendo esse acabado de falar, outro podia acrescentar algo, confirmar ou explicar [ainda melhor] o que disse o precedente, como fez São Tiago em Atos 15[.13ss.], respondendo ao discurso de São Pedro, confirmando e explicando-o. Do mesmo modo procedeu São Paulo nas sinagogas, especialmente, em Antioquia da Pisídia. Lucas relata que, após a leitura da Lei, os chefes da sinagoga também permitiram que Paulo falasse. Paulo então se levantou e falou, no entanto, na qualidade de apóstolo comissionado; além disso, fora convidado pelo chefe da sinagoga e não, como intruso. Fica, pois, evidente que a expressão “estar sentado” se refere somente aos profetas e pregadores ordenados: aquele que dentre eles deveria falar, erguia-se, ou então ficava sentado, dependendo da importância do assunto.

Isso se compara a um príncipe reunido com seus conselheiros, ou a um burgomestre reunido com seus colegas conselheiros. Aí um deles se levanta e faz seu discurso e depois, outro. Por fim, aceitam unanimemente aquele que fez a melhor proposta. Assim um ajuda ao outro com seu conselho e tudo acontece de forma ordeira. No mesmo sentido, os profetas eram como que o conselho da Igreja, para ensinar a Escritura e governar e prover a comunidade. Acaso se deveria admitir que um vagabundo e estranho qualquer viesse, ou um cidadão sem mandato se infiltrasse para recriminar e instruir o burgomestre? Isso não acabaria bem. A gente deveria agarrá-lo pelo cangote e entrega-lo a Mestre João [o encarregado da disciplina]. Esse lhe mostraria seu devido lugar.

Muito menos se deve tolerar que um intruso estranho se insinue num conselho espiritual, isso é, no ministério da pregação, ou que um leigo se arrogue a pregar em sua igreja paroquial sem ser chamado. Isso deve ser e permanecer incumbência dos profetas. Eles é que deverão cuidar da doutrina, ensinar um após o outro e sempre ajudar-se fielmente uns aos outros, de modo que tudo se desenrole de forma decente e ordeira, diz São Paulo. Como, porém, as coisas podem ser feitas de modo decente e ordeiro onde cada qual interfere no ministério alheio, que não lhe foi ordenado e, se todo leigo quer levantar-se na igreja, querendo pregar?

Admira-me, porém, visto serem espiritualmente tão instruídos, por que não aduzem os exemplos onde também mulheres profetizaram, governando, desse modo, os homens, terra e gente, como Débora, em Juízes 4, que derrotou o Rei Jabim e Sísera, e governou a Israel; e a profetisa de Abel-Bete-Maaca, que viveu no tempo de Davi, conforme 2 Reis 20 [sc. 2 Samuel 20.13ss.]; e a profetisa Hulda, na época de Josias, em 4 Reis 22 [sc. 2 Rs 22.14ss.]; e muito antes, Sara, que instruiu a seu senhor Abraão que expulsasse a Ismael com a mãe Hagar; e Deus ordenou que lhe obedecesse. E outras ainda, como, por exemplo, a viúva Ana, Lc 2[.36ss.], e a virgem Maria, Lc 1[.46ss.]. Aí eles teriam argumentos e poderiam autorizar também as mulheres a pregar na Igreja. Quanto mais poderiam os homens pregar, onde e quando quisessem, segundo esses exemplos.

Não queremos discutir aqui o direito que essas mulheres do Antigo Testamento tiveram para ensinar e governar. Naturalmente não o fizeram como intrusas, sem chamado e por iniciativa religiosa própria, ou por presunção. Se assim fosse, Deus não teria confirmado seu ministério e obra com milagres e grandes feitos. No Novo Testamento, porém, o Espírito Santo ordena, através de São Paulo, que as mulheres devem silenciar na Igreja [cfe. 1 Co 14.34] ou na comunidade, e diz que isso é mandamento do SENHOR [cfe. 1 Co 7.10]. Não obstante, ele sabia perfeitamente que Joel havia anunciado que Deus iria derramar seu Espírito também sobre suas servas; além disso, sabia que as quatro filhas de Filipe haviam profetizado, Atos 21[.8ss.]. Na comunidade ou Igreja, porém, onde existe o ministério da pregação, elas deveriam silenciar e não pregar. No mais, podem perfeitamente acompanhar as orações, o canto e dizer o “amém”, ler em casa e instruir, admoestar, consola-se mutuamente; também podem interpretar a Escritura da melhor maneira possível.

(para acessar a continuação deste texto, clique aqui)

(LUTERO, Martinho. Carta do Dr. Mart. Lutero sobre os Intrusos e Pregadores Clandestinos. 1532. Tradução de Ilson Kayser. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2009, vol. 7, págs. 119-122)



terça-feira, 24 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 24


SOBRE OS PREGADORES ITINERANTES E CLANDESTINOS - PARTE 2


(este texto continua o anterior, que pode ser lido clicando aqui)


A autoridade secular também deve empenhar-se, pois, visto que esses intrusos são mensageiros do diabo, pregam mero veneno e mentiras; e visto que o diabo não é apenas mentiroso, mas também assassino, não pode dar outra: com esses seus mensageiros quer provocar tumulto e matança (ainda que se abstenha disso por algum tempo e se mostre pacífico), para, desse modo, derrubar ambos os regimes, o espiritual e o secular, em oposição a Deus. Ele não pode proceder de outro modo, pois sua natureza é mentir e assassinar. Por isso os seus, possessos dele, não têm domínio sobre si; eles têm que agir como ele os impele.

Por essa razão, magistrados, juízes e as demais autoridades governamentais deveriam saber e ter a certeza de que esses intrusos não apenas são suspeitos de falsa doutrina, mas também, de assassinato e tumulto, porque sabem que essas pessoas são cavalgadas pelo diabo. Através de seus funcionários deveriam reunir os súditos, esclarecer-lhes essas coisas, adverti-los contra esses patifes e ordenar solenemente, sob pena de severo castigo, que cada súdito denuncie esses intrusos, como aliás, é dever dos súditos, se não quiserem tornar-se cúmplices de toda a matança e tumulto que o diabo tem em mente, etc. Da mesma forma, também a autoridade espiritual deve insistir na vocação e perguntar ao intruso ou seu hospedeiro: De onde vens? Quem te enviou?, etc., como acima. E perguntar ao hospedeiro: Quem te ordenou hospedar esse intruso, ouvir sua pregação clandestina? De onde sabes que ele tem a ordem de instruir-te e que tens que aprender dele? Por que não informaste o pastor ou a nós? Por que abandonas tua Igreja, na qual foste batizado, instruído e recebeste a comunhão, e onde é teu lugar pela ordem de Deus e mergulhas na clandestinidade? Por que instituis algo novo, clandestinamente e sem teres recebido a ordem para isso? Quem te deu poder para dividir esta paróquia e provocar tumultos entre nós? Quem te ordenou desprezar teu pastor, a julgar e condená-lo à revelia, antes mesmo de ter sido ouvido ou acusado? De onde tens a autoridade para te arvorares em juiz de teu pastor, sim, inclusive em teu próprio juiz?

Pois são esses os vícios e outros mais que comete todo aquele que adere aos intrusos, e é justo que se o chame à responsabilidade. Tenho grande esperança de que, se a autoridade se empenhasse nesse sentido, isso resultaria em grande proveito, e muitas pessoas cristãs se acautelariam e ajudariam a expulsar esses patifes, caso soubessem que os intrusos constituem um perigo tão grande e que a vocação e a ordem é algo importante. Pois, caso não se insistir na vocação ou ordem, por fim, não sobrará mais Igreja em parte alguma. Pois da mesma maneira como os intrusos se infiltram cá entre nós, querem causar separação em nossa Igreja e destruí-la, depois apareceriam outros intrusos nas igrejas deles, causando separação e destruindo-as. E daí uma infiltração e cisão sucederia à outra, sem fim, ou então, nada mais sobraria de qualquer Igreja na terra. É justamente isso que o diabo gostaria de conseguir e tenta por meio desses espíritos tumultuadores e intrusos.

Por isso, o procedimento é o seguinte: ou provai que fostes chamados e que tendes a ordem para pregar, ou silenciai imediatamente. Estais proibidos de pregar, porque aqui se trata de um ministério, sim, de um ministério da pregação. Ora, ninguém pode ser detentor de um ministério fora ou sem ordem e vocação. Por isso Cristo diz na parábola de Mateus 25 que o patrão não confiou os talentos a seus empregados, para negociarem com eles, antes de os ter chamado e dado a ordem de negociar. Vocatis servis, diz o texto, et negotiemini, etc. – “Convocou seus empregados”, diz ele, “e lhes ordenou que negociassem com seu dinheiro”. Que o intruso também apresente uma vocação e ordem nesse sentido, ou então, deixe o dinheiro do SENHOR em paz; do contrário será considerado ladrão e charlatão. Da mesma forma, os trabalhadores não entraram na vinha do patrão, Mateus 20[1-16], antes de os ter contratado e lhes ter ordenado ir. Antes de receberem a ordem e a vocação, andaram ociosos o dia inteiro.

A mesma coisa diz Deus a respeito desses intrusos: “Eles correm, sem que eu os tivesse enviado; pregam, sem que eu lho tivesse ordenado” [Jr 23.21]. Ainda há que se empenhar muito esforço e trabalho para conseguir que preguem retamente e se atenham à reta doutrina os que têm o chamado e receberam a ordem legítima do próprio Deus, ou foram chamados e receberam a ordem por homens em nome de Deus. Se esse é o caso, como será quando se prega sem ordem de Deus, sim, contra a ordem e a proibição de Deus, somente por estímulo e iniciativa do diabo? Aí nenhuma pregação será bem-vinda a não ser a inspirada pelo espírito do mal, e só pode haver doutrina do diabo, por mais brilhante que seja.

Quem teve um chamado mais claro e legítimo do que Arão, o primeiro sumo sacerdote? Não obstante, caiu na idolatria e ordenou aos judeus que fizessem o bezerro de ouro. Posteriormente, a maioria do sacerdócio levítico se entregou à idolatria e, além disso, perseguiram a Palavra de Deus e todos os verdadeiros profetas. Também o rei Salomão fora chamado e confirmado de modo maravilhoso. Mesmo assim, entregou-se à idolatria na velhice. Acaso os bispos e papas não têm um chamado e ordem maravilhosos? Não estão eles sentados nas cátedras dos apóstolos e no lugar de Cristo? Não obstante, todos eles são os piores inimigos do Evangelho, muito menos se pode esperar deles que ensinem corretamente e realizem verdadeiro culto a Deus.

Ora, se o diabo é capaz de enganar os mestres que o próprio Deus chamou, instituiu e ordenou, a ponto de ensinarem falsamente e perseguirem a verdade, como ensinaria algo de bom por meio dos mestres que ele impulsiona e ordenou sem e até contra a ordem de Deus, e não muito antes, a pura mentira diabólica? Já disse muitas vezes e torno a dizer: Não aceitaria os bens do mundo inteiro em troca de meu título de doutor. Pois, sem dúvida, por fim eu teria que desanimar e desesperar em face da grande e pesada obra que pesa sobre mim, se eu a tivesse iniciado como intruso, sem chamado e ordem. No entanto, Deus, e o mundo são minhas testemunhas de que a empreendi publicamente em meu ministério de doutor e da pregação, e assim a conduzi até agora com a graça e ajuda de Deus.


(este texto tem continuação que pode ser lida clicando aqui)

(LUTERO, Martinho. Carta do Dr. Mart. Lutero sobre os Intrusos e Pregadores Clandestinos. 1532. Tradução de Ilson Kayser. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2009, vol. 7, págs. 117-119)



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 23


SOBRE OS PREGADORES ITINERANTES E CLANDESTINOS - PARTE 1

Carta do Dr. Mart. Lutero sobre os Intrusos e Pregadores Clandestinos

1532

INTRODUÇÃO

Lutero se dirige a Eberhard von der Tann [Administrador do Wartburgo] que, juntamente com Justo Mênio [pastor e superintendente de Eisenach e mais tarde de Gotha], se destacou como adversário dos “anabatistas”(*). Durante alguns anos ambos observavam atentamente as atividades destes. Inclusive, Mênio interrogou em 1531 diversas pessoas diretamente ligadas a eles. Aí se evidenciou que foram novamente batizadas em casas de particulares, por pregadores ambulantes que ganhavam a vida como trabalhadores rurais sazonais. O contato com estes “intrusos e pregadores clandestinos” tinha como consequência que as pessoas desistiam de participar do culto comunitário e dos sacramentos. Esperavam para logo que Deus iria punir o mundo, salvando, porém, a elas. Além disso, em parte, rejeitavam qualquer forma de governo. Já em 1525, Lutero tinha explicado que pregador, ou é diretamente enviado da parte de Deus e então, por este confirmado mediante milagres, ou é vocacionado ordenadamente por uma comunidade ou autoridade civil, favorável à Reforma. Em Von der Widdertauffe an zween Pfarherrn (1528) [“Sobre o Rebatismo, a Dois Pastores”], tomou posição frente à doutrina dos “anabatistas” até onde ele a havia percebido, ressaltando o Batismo de crianças como veículo precípuo da graça de Deus. Agora, no escrito “Carta do Dr. Mart. Lutero sobre os Intrusos e Pregadores Clandestinos”, vê o erro básico deles no fato de se imiscuírem nas comunidades sem terem sido vocacionados formalmente. Em contraposição, enfatiza sobremaneira a ordenação e a vocação, a autoridade e responsabilidade dos ordenados e vocacionados pela pura doutrina e pregação. Não é novo o fato de Lutero se referir a isso. Nunca, no entanto, insistira na ordenação e vocação com tanta energia como o faz no presente escrito. Sem estas “não sobrará mais Igreja em parte alguma”.




Ao severo e firme Eberhard von der Tannen, administrador do Wartburgo, meu benevolente senhor e amigo.

Graça e paz em Cristo, nosso Senhor e Salvador. Amém. Fiquei sabendo, prezado senhor e amigo, que aí entre vós e na circunvizinhança, os anabatistas gostam de infiltrar-se, querendo infectar os nossos com seu veneno. Sei muito bem que estais suficientemente instruídos e advertidos pelo livro de Justo Mênio e também que exerceis vosso ofício de modo honesto e louvável contra esses mensageiros do diabo. O diabo, porém, não desiste facilmente, e há muitos que, tendo dado uma lida superficial num livro, atiram-no num canto e esquecem todas as advertências. Aí se necessitaria de alguém que os admoestasse diariamente, sem cessar. Por isso me propus, com a presente carta a vós, a rogar e advertir uma vez mais os magistrados, cidades e senhores, a embargarem a atividade desses intrusos, para fazermos nossa parte.

O primeiro ponto em que se pode apanhá-los facilmente é o seguinte: quando se pergunta por sua vocação, quem os teria enviado para cá sorrateiramente a pregar na clandestinidade, eles não têm resposta, nem são capazes de apresentar sua credencial. E eu vos digo: mesmo que esses intrusos não tivessem outro defeito e fossem santos perfeitos, esse único ponto (o fato de se infiltrarem sem terem recebido uma ordem e sem terem sido chamados) prova, com clareza, que são mensageiros e mestres do diabo. Pois o Espírito Santo não se infiltra na clandestinidade, mas desce publicamente do céu. As cobras se aproximam sorrateiramente, mas as pombas voam. Por isso essa infiltração clandestina é a legítima forma de o diabo se aproximar, isso é certo!

Ouvi dizer que os intrusos se infiltram entre os segadores e pregam no campo durante o trabalho. Da mesma forma, infiltram-se entre os carvoeiros e se aproximam de pessoas individualmente nas florestas, semeando em toda parte, espalhando seu veneno e afastando as pessoas de suas igrejas paroquiais. Eis aí a maneira legítima de o diabo se movimentar e agarrar as pessoas, como teme a luz e age no escuro. Quem seria tão atrasado a ponto de não perceber que se trata de verdadeiros mensageiros do diabo? Se fossem de Deus e honestos, procurariam, antes de mais nada, o pastor, para negociar com ele: apresentariam seu mandado, lhe exporiam suas convicções de fé e perguntariam se ele estaria disposto a admiti-los como pregadores públicos. Caso o pastor não os admitisse, estariam desculpados perante Deus. Poderiam então sacudir o pó de seus pés etc. Pois o púlpito, a administração do Batismo e do Sacramento são da responsabilidade do pastor, e toda a cura d’almas lhe foi confiada. Agora, porém, querem desalojar o pastor clandestinamente com todo seu mandato, sem, no entanto, revelarem seu mandato secreto. Esses são autênticos ladrões e assassinos de almas, blasfemadores e inimigos de Cristo e sua Igreja.

Aqui, com efeito, a única solução é que ambas as autoridades, a espiritual e a secular, se empenhem com afinco. A autoridade espiritual tem que instruir o povo permanentemente, com todo o empenho, incutir os pontos supramencionados, que não admitam nenhum intruso e o identifiquem com segurança como mensageiro do diabo, e lhes ensine a perguntar: De onde vens? Quem te enviou? Quem te deu a ordem de pregar-me? Onde tens credenciais seladas que provem que foste enviado por homens? Onde estão teus sinais milagrosos que provem que Deus te enviou? Por que não procuras nosso pastor? Por que me procuras clandestinamente e te escondes nos cantos? Por que não atuas publicamente? Se és filho da luz, por que temes a luz? Com essas perguntas deveria ser fácil embarga-los (a meu ver), pois não têm como provar sua vocação. E se nós pudéssemos incutir no povo esse conceito de vocação, seria fácil desembaraçar-se desses intrusos. Também é preciso instruir e adverti-los sempre no sentido de denunciarem esses intrusos ao pastor. Isso é sua obrigação, se querem ser cristãos e salvar-se. Pois, se não o fizerem, colaboram com o mensageiro do diabo e intruso a roubar sorrateiramente do pastor (sim, do próprio Deus) seu ministério de pregação, o Batismo, o Sacramento e a cura d’almas e, além disso, aliciar seus paroquianos, devastando e destruindo, desse modo, a paróquia (que Deus instituiu). Se ouvissem e tomassem conhecimento dessa advertência quanto ao conceito de vocação, alguns corações cristãos certamente iriam denunciar esses pregadores clandestinos e traiçoeiros ao pastor. Porque, como dito: quando se insiste na vocação, certamente se pode intimidar o diabo. Um pastor, afinal, pode gloriar-se de ocupar pública e legitimamente o ministério da pregação, do Batismo, do Sacramento e da cura d’almas, e que esse lhe foi confiado o que, aliás, se deve exigir e esperar dele. Os traiçoeiros e estranhos intrusos, porém, não podem gloriar-se disso e têm que confessar que vêm como estranhos e que invadem um ministério alheio. Isso não pode ser obra do Espírito Santo, mas deve ser obra do tinhoso diabo.

(para ler a continuação deste texto, clique aqui)


(*) o termo “anabatista(s)”, derivado do grego, significa literalmente “o(s) que batiza(m) de novo”. Denominava-se de anabatistas um grupo de pessoas de linha entusiasta ou espiritualista. Inspiradas pela Reforma, entendiam que teriam que aprofundá-la. Um dos seus líderes era Tomás Müntzer. Entre outras peculiaridades, como inspiração direta do céu, defendiam o rebatismo e o Batismo de adultos, opondo-se ao Batismo de crianças.

(LUTERO, Martinho. Carta do Dr. Mart. Lutero sobre os Intrusos e Pregadores Clandestinos. 1532. Tradução de Ilson Kayser. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2009, vol. 7, págs. 114-117)



domingo, 1 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 1

Começamos hoje uma série de postagens especiais no mês que culmina com a celebração dos 500 anos da Reforma Protestante, a ser comemorada no dia 31 de outubro de 2017, tendo como protagonista o pensamento de Martinho Lutero acerca de questões da vida e da teologia que seguem motivando os debates atuais. Bom proveito a todos!

A ORAÇÃO - PARTE I

Em verdade, em verdade eu vos digo, se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome. [João 16:23]

Cristo acabou de pregar seu sermão e disse aos discípulos o que deveriam saber. Agora, ele quer concluir, fazendo, por fim, uma exortação à oração. Ele falou-lhes longamente a respeito de muitos e grandes sofrimentos, da perseguição, do medo e da tristeza que lhes sobreviriam no mundo por causa dele e mostra-lhes tanto o conforto quanto a força que lhes permitirão lidar com isso e, também, promete-lhes ajuda para superá-lo mediante o Espírito Santo. Mas, por saber quão grande e dura é essa batalha e que a carne e o sangue são fracos demais para apreender esse consolo e não percebem com tanta força essa ajuda, sentindo, muitas vezes, que o oposto é verdadeiro – por isso, ele lhes aconselha, aqui, que recorram à oração e comecem a soluçar e a clamar a Deus, quando sentem a fraqueza que faz com que careçam de consolo, força e vigor para suportar e superar o sofrimento, o medo e a tristeza.

Falamos frequentemente da oração, de como ela é necessária e poderosa. Pois não basta que tenhamos a Palavra, saibamos e compreendamos tudo que deveríamos – tanto sobre a doutrina da fé quanto sobre o consolo e a vitória em todas as dificuldades. Requer-se algo mais, a saber, a ação, para que, subsequentemente, também vivamos como a doutrina e o conhecimento nos ensinam e nos orientam. Pois a sabedoria de Deus (isto é, a Palavra de Deus nos diz em Provérbios [8:14]: “Meu é o conselho, meu também é o executar”. Para que a doutrina seja autêntica, é necessário que Deus a revele e a outorgue; mesmo que já a tenhamos e saibamos tudo que se deveria ensinar e crer, e nada mais necessitemos, isso não significa que se tenha obtido o resultado desejado. Ainda falta muito para que pratiquemos aquilo que pregamos e aquilo para o qual exortamos.

Isso também se evidencia na vida e na atividade dos apóstolos. Veja-se como S. Pedro, João e Paulo (nos Atos dos Apóstolos), antes de terem sucesso na propagação do Evangelho, tiveram de se esforçar e batalhar em seu ministério. Pois o diabo está de prontidão com toa a força e faz o possível para impedir e obstruir o Evangelho. Ademais, ele possui a vantagem de ter como aliado, dentro de nossos próprios corações, a grande parcela de Adão que, por natureza, é preguiçosa, indolente e enfastiada demais para se engajar numa batalha como essa e sempre nos puxa para trás, tornando, assim, especialmente duro e desagradável continuar se opondo a tantos tipos de obstáculos e lutar até o fim.

O profeta Habacuque também fala disso em seu cântico, dizendo que embora os cavalos e carros de Deus sejam bem-aventurados e vitoriosos, ele marcha com eles pelo mar, pelas massas de grandes águas. A condição da cristandade é comparada a tais cavalos e veículos; aqui, animais e carros têm de passar em charcos profundos, onde há constante resistência, obstrução e atoleiro. No entanto, eles precisam passar e, como diz o profeta, ser quadrigae salutis [‘carros de salvação”, Hab 3:8], tais carros de combate e cavalos que detêm a vitória.

Por isso Cristo diz agora: “Embora esteja chegando o dia em que, de novo, os verei e vocês se alegrarão eternamente e não mais necessitarão perguntar-me coisa alguma, pois saberão tudo que devem saber sobre mim, vocês carecerão do poder de cumprir o que deveriam e gostariam de realizar, não somente por causa do diabo e do mundo, mas, também, por causa de sua própria carne”, como confessa e lamenta S. Paulo em relação a si mesmo, em Rm 7 [:18-19]: “Encontro dentro de mim [a vontade de fazer] o que eu conheço e gostaria de fazer, [isto é], o que é bom e o que me dá prazer e alegria. Sinto, porém, um outro mestre no meu corpo e nos meus membros que me freia e me torna renitente, de modo que tal [boa] ação não se realiza”. Diz, igualmente, em Gl 6 [sc. 5:17]: “O desejo da carne é contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, de modo que vocês não fazem o que querem”, etc.

Ele [Paulo] também gostaria de que tudo funcionasse adequadamente em toda parte, exatamente como nós gostaríamos de estar livres de tristeza, preocupação, impaciência e pensamentos maus; [gostaríamos] de encontrar constante consolo e alegria no Evangelho, de ver a graça e o poder do Espírito para que todos fossem íntegros, devotados ao Evangelho e agissem de acordo com seus ensinamentos. Com esse propósito, oramos, exortamos e suplicamos com toda diligência e fidelidade e fazemos tudo que está ao nosso alcance. Mas, mesmo assim, tudo acontece como pode [acontecer]. Sempre há obstrução e obstáculo; quanto mais tempo passa tanto mais eles aumentam. Que, então, devemos fazer, neste lamaçal pelo qual precisamos passar e viajar, [no qual precisamos] lutar e temer, sem, no entanto, conseguir sair dele?

“Não há outro conselho” (diz Cristo) “senão erguer imediatamente os olhos e o coração em direção ao céu e começar a orar a meu Pai Celestial. Depois que ensinaram, exortaram e fizeram tudo que seu ofício exige, e, mesmo assim, as coisas não andam e não conseguem progredir, então procurem ajuda, busquem [nova] força, ajudem-se todos uns aos outros, com gritos e exclamações, a levantar e a empurrar o carro. Pois é isso que Deus quer, isto é, que não só conheçam a doutrina e o que vocês já possuem como tendo sido dado por ele, mas também, que procurem junto a ele aquilo de que ainda necessitam e carecem, e descubram que não podem fazer coisa alguma, mas que tudo – o começar e o terminar, o querer e o realizar – deve ser buscado junto a ele e dado por ele”, como [diz] S. Paulo [Fp 2:13], etc.

É aqui que começa, realmente, a batalha contra o abominável diabo que, da mesma maneira como ele resiste em toda parte a Cristo e ficaria contente se o Evangelho não fosse ouvido em lugar algum, e não se cresse nele ou que não se constituísse um guia para a vida e a conduta, assim, ele também impede essa ação, fazendo com que não se goste de orar e dificilmente se recorra à oração. Pois ele, igualmente, tem plena consciência da força e da eficácia da oração bem como de que os cristãos não possuem defesa maior e mais forte contra todo o poder dele. Não estou falando, agora, daqueles que não são cristãos, pois a única maneira que esses têm de orar é tagarelar e grasnar o saltério, que mais parece um bando de gansos comendo aveia. Estou dizendo, isso sim, que é excessivamente difícil para cristãos e crentes orar de forma adequada. Foi por isso que alguns dos antigos Pais disseram que nenhum trabalho na terra é tão penoso quanto orar apropriadamente.

Embora o ministério da pregação também seja duro e acarrete muita dificuldade e preocupação, ele tem a grande vantagem de fazer com que eu, apesar de não ter capacidade nem ser digno de pregar, tenha coragem de pegar o Livro e, em nome de Deus dizer a meu próximo: “Meu caro amigo, está escrito aqui. Estás escutando a Palavra de Deus, não a minha; tua própria salvação e bem-aventurança estão em jogo, não a minha”. Tendo dito isso, fiz o meu dever; a responsabilidade de aceitar ou não aquilo que lhe digo é dele. Mas quando devo falar e orar a Deus por mim mesmo, logo se apresentam cem mil obstáculos antes que eu possa começar. O diabo é capaz de colocar todo tipo de motivos no caminho e pode me criar caminho e não penso mais na oração. Tente fazê-lo aquele que jamais o experimentou. Decide-te seriamente a orar e verás como pensamentos, os mais diferentes possíveis, te assaltarão para que te distraias e não possas começar a orar adequadamente.

Se falarmos aqui tão-somente dos obstáculos maiores e principais, o primeiro impedimento é pensarmos, inspirados pelo diabo: “Ah, tu, agora, ainda não estás pronto para orar! Espera uma meia hora ou um dia até que estejas mais preparado ou até que tenhas realizados antes isso ou aquilo”. Entrementes, aparece o diabo e te distrai naquela meia hora, de modo que durante o dia todo não mais pensas em orar. Dia após dia, ele te mantém ocupado com outros negócios e impede [que ores]. Esse também é, praticamente, o obstáculo mais comum, constituindo uma perfídia e um ardil extremamente perniciosos do diabo (que ele, muitas vezes, tenta comigo e com outros). Ademais, nossa carne e nosso sangue que, em si, já são negligentes e frios, dão-lhe uma vantagem e nos impedem de orar como nós mesmos gostaríamos. Embora possamos estar prestes a começar [a orar], mas logo desistimos [porque somos desviados por] pensamentos estranhos e inúteis, de modo que deixamos a oração de lado.

Em segundo lugar, também se insinuam, naturalmente, pensamentos como estes: “Como podes orar a Deus e dizer ‘Pai nosso’? És indigno demais e vives diariamente em pecado. Espera até que te tornes mais piedoso, tenhas ido à confissão e ao Sacramento, até que não somente estejas disposto e preparado para orar, mas também sintas um desejo ardente para orar e, assim, possas te dirigir a Deus com confiança e dizer ‘Pai nosso’ de todo teu coração”. Esse é o verdadeiro e grave obstáculo, por excelência, com que o coração precisa lutar e sob o qual precisa se contorcer até que tenha removido a grande pedra e possa apresentar-se diante de Deus e invoca-lo a despeito de se sentir indigno. Cada qual tente isso e me diga como é fácil para ele espantar esses pensamentos e dizer com toda a sinceridade: “Meu amado Pai celeste!”, etc.

Na comunidade e em grandes grupos, é um pouco mais fácil [orar], pois nos reunimos todos e dizemos “Pai nosso”. Mas não é tão fácil quando estamos sozinho e cada qual deve orar por si mesmo, quando nosso coração nos diz o contrário e o diabo atiça estes pensamentos e os transforma numa labareda: “És uma pessoa infame e não mereces viver. Portanto, como ousas apresentar-te diante de Deus e chama-lo de Pai?” Por isso, é extraordinariamente difícil e a maior de todas as artes orar de maneira correta, não por causa das palavras ou da boca, mas para o coração poder chegar a uma conclusão certa e firme e apresentar-se diante de Deus com toda a confiança e dizer: “Pai nosso”. Pois aquele que pode alcançar um pouco de tal confiança na graça já passou pelo pior e já colocou a primeira pedra para [começar a] orar. Depois, tudo anda como deve.

Em terceiro lugar, o diabo aplica um golpe adicional visando a inutilizar tua oração por meio de pensamentos como estes: “Meu caro, por que estás orando? Escuta como tudo está quieto em tua volta. Achas que Deus escuta e leva em consideração aquilo que oras?”, despertando em ti a dúvida, para que desprezes tua oração e a deixes de lado, e jamais descubras o que é aa oração e do que ela é capaz. Experimentei o que isso significa e também o observei em outros, sobretudo em S. Bernardo, que admoestou muito diligentemente os seus [ouvintes] para que não fossem à Igreja orar com tal dúvida, sem a certeza de que Deus leva em consideração e escuta a oração deles. Pois, verdadeiramente, não se deve zombar de Deus dirigindo-se a dele como as palavras “amado Pai celeste” sem crer que ele seja isso.

Por isso (como eu disse e o próprio Cristo indica aqui), para resistir a todas as insinuações do diabo e a nossos próprios pensamentos, é necessário lutar energicamente contra [a voz d]o coração e dizer: “Diabo nojento, se é isso que queres, leva um patife malfeitor, não a mim! Se não estou suficientemente preparado e disposto e se não sou piedoso que chega neste momento ou hoje, muito menos estarei preparado em meia hora ou em uma semana. Colocando de lado, pois, essa falta de preparação, vou orar, entrementes, um Pai nosso antes que eu me torne ainda menos preparado”. Acostuma-te, pois, a orar cada noite, ao ires para a cama, antes de dormir, o Pai nosso, e, de novo, ora antes de fazer qualquer outra coisa. Dessa maneira, de surpresa e sem aviso, antecipas-te ao diabo, não importa se estás preparado ou não, antes que ele te surpreenda e faça com que proteles [a oração]. Porque é melhor que ores agora, quando estás meio preparado, do que mais tarde, quando não estás preparado em absoluto, e que comeces a orar apenas para desgosto e aborrecimento do diabo, mesmo que consideres a oração algo muito difícil e que penses não estar, de forma alguma, preparado para ela.

(para ler a parte 2 clique aqui)

(Martinho Lutero, “Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado”, 1537/1538, tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer, in MARTINHO LUTERO, Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre; Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 401-406)



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