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sábado, 28 de novembro de 2015

Rodovias brasileiras matam 1,3 milhão de animais silvestres por dia


A única notícia boa é que já tem gente estudando o absurdo massacre de animais nas estradas brasileiras, conforme já tivemos oportunidade de comentar aqui várias vezes sobre o tamanduá-bandeira (leia o artigo Bandeira 2 para o tamanduá para ter uma ideia de nossa militância em seu favor).

A trágica informação vem da BBC Brasil:

Por que o Brasil massacra 1 milhão de animais por dia em suas estradas?

Thiago Guimarães

BR-101, norte do Espírito Santo, setembro de 2015. Um caminhoneiro sente um cheiro forte e localiza uma anta – o maior mamífero terrestre brasileiro – na margem da pista, em estado avançado de decomposição.

Cinco meses antes, no mesmo trecho da rodovia, biólogos encontraram uma fêmea adulta de harpia, a maior ave de rapina das Américas, debilitada por fraturas e hematomas. Por ali, restos de retrovisor de caminhão. No mês anterior, a vítima fora uma onça-parda.

As cenas com espécies ameaçadas de extinção são um retrato de um filme que não sai de cartaz no Brasil: a matança de animais por atropelamentos em estradas.

Essa é, de longe, a principal causa de morte de bichos silvestres no país, superando caça ilegal, desmatamento e poluição. São 15 animais mortos por segundo, ou 1,3 milhão por dia e até 475 milhões por ano, segundo projeção do CBEE (Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas), da Universidade Federal de Lavras (MG).

Quem puxa a lista são os pequenos vertebrados, como sapos, cobras e aves de menor porte – respondem por 90% do massacre, ou 430 milhões de bichos. O restante se divide em animais de médio porte (macacos, gambás), com 40 milhões, e de grande porte (como antas, lobos e onças), com 5 milhões.

A situação, dizem especialistas, é o resultado natural para um país que desconsiderou os bichos ao planejar as rodovias e ainda dá os primeiros passos na adoção de medidas para minimizar os impactos das vias.

Corrida contra o tempo

"Está acontecendo uma desgraça total e não temos tempo nem de estudar o que ocorre", disse à BBC Brasil Áureo Banhos, professor do departamento de biologia da Universidade Federal do Espírito Santo.

Banhos coordena um time que monitora os atropelamentos no trecho de 25 km da BR-101 que corta uma das manchas verdes mais intactas do país. É um mosaico de 500 km² (ou um terço da cidade de São Paulo) de unidades de conservação rasgado pela pista única da via.

Um exemplo do alerta do professor: das 70 espécies de morcegos identificadas na região, 47 já foram atropeladas na estrada – e uma delas era desconhecida da ciência até então. Ao todo, 165 espécies de diferentes animais perderam a vida por ali (10 anfíbios, 21 répteis, 63 aves e 71 mamíferos) – são 50 mortes por dia apenas nesse ramo da rodovia, ou 20 mil por ano.

Essa floresta integra as reservas de mata atlântica da Costa do Descobrimento, patrimônio natural da humanidade desde 1999. Por ser um raro fragmento contínuo de mata, é o último refúgio na região para várias espécies ameaçadas, como a anta, a onça-pintada, o tatu-canastra e a harpia.

O fotógrafo Leonardo Merçon, do Instituto Últimos Refúgios, fez um trabalho de registro da Reserva Biológica de Sooretama, a maior peça do mosaico verde da região. Impressionado pelos atropelamentos, acabou se engajando nas ações de conscientização para a gravidade do problema.

"Você nem precisa de dados para ver o impacto real do problema", afirma ele. Um vídeo do instituto que registrou uma onça-parda atropelada na estrada teve mais de 1 milhão de visualizações.

Em locais como esse, a perda de um único indivíduo pode ter impacto muito grande sobre a biodiversidade. "Engenheira" dos ecossistemas, por dispersar sementes e servir de presa para grandes predadores, a anta, por exemplo, leva 13 meses na gestação (com um filhote por vez) e demora dois anos entre as concepções.

Um possível caminho para os animais cruzarem para o outro lado da via são os dutos de drenagem de água sob a pista, mas nem sempre é simples mudar seus hábitos.

"No parque nacional Banff, no Canadá, os ursos demoraram oito anos para começar a usar esse tipo de passagem", afirma Alex Bager, coordenador do CBEE. No caso da BR-101, apenas 15% dos bichos atropelados usam as manilhas.

Ou seja, talvez seja mais fácil mudar os hábitos dos motoristas, por meio de ações como redução de velocidade, radares inteligentes que multam pela média de velocidade (e não em apenas um ponto) e placas de advertência.

A Eco-101, concessionária responsável pelo trecho da BR-101 em questão, diz que o segmento tem dois radares fixos, velocidade máxima de 60 km/h (especialistas defendem 25 km/h) e dez placas educativas. Afirma ainda promover ações de conscientização e que estuda a "ampliação dos dispositivos de segurança para os animais silvestres".

Ausência de normas

A situação da BR-101 no Espírito Santo – que ainda enfrenta a perspectiva de duplicação até 2025 – é uma amostra aguda de um problema nacional. São mais de 15,5 mil km de estradas atravessando áreas federais de conservação.

Os pontos críticos estão por todo o Brasil. Um levantamento do Instituto de Pesquisas Ecológicas em três trechos de rodovias de Mato Grosso do Sul (1.161 km nas BRs 267, 262 e 163) entre abril de 2013 e março de 2014, por exemplo, localizou 1.124 carcaças de 25 espécies diferentes, como cachorro-do-mato (286 mortes), tamanduá-bandeira (136) e jaguatirica (7).

E não há normas nacionais específicas para a construção de rodovias que cortam reservas naturais. Tudo tramita como um licenciamento ambiental padrão. O problema vem mobilizando a classe acadêmica no país. Paralelamente a uma explosão nos estudos em ecologia de estradas, há articulações institucionais em curso no Congresso e em órgãos ambientais.

Um fruto recente desse debate é o PL (Projeto de Lei) 466/2015, do deputado federal Ricardo Izar (PSD-SP), que busca tornar obrigatórias ações como monitoramento e sinalização em áreas "quentes" de atropelamentos, além da criação de um cadastro nacional de acidentes com animais silvestres.

Sobre essa última medida, um esforço já partiu da própria academia, com a criação do Sistema Urubu, uma espécie de rede social para compartilhamento e validação de informações sobre atropelamentos de bichos.

No ar há um ano, a iniciativa do CBEE conta com um aplicativo gratuito pelo qual qualquer pessoa pode fotografar e enviar imagens de acidentes com animais. Os registros são enviados para uma base de dados central e são validados por especialistas cadastrados no sistema, tudo online.

Já são cerca de 15 mil usuários cadastrados e mais de 20 mil fotos enviadas. Para entrar no sistema, cada registro precisa ser validado por cinco especialistas, e ter o consenso de três deles sobre qual é a espécie em questão – são 800 "validadores" ativos na rede, cada um especializado numa classe animal.

"Muitas vezes, as pesquisas sobre o tema no Brasil são muito regionalizadas, restritas ao raio da universidade por falta de recursos. Com o sistema poderemos criar um mapa de áreas críticas de atropelamentos no país e usá-lo como política pública de conservação", afirma Alex Bager, do CBEE.

Diante da perspectiva da fase mais explosiva de construção de estradas na história, com pelo menos 25 milhões de km de novas rodovias no mundo até 2050, especialistas defendem que essas intervenções passem, cada vez mais, por estudos de custo-benefício.

Seria um modo de evitar a proliferação de vias em regiões de alto valor ambiental mas potencial agrícola apenas modesto, como a bacia Amazônica. "Construir estradas é abrir uma caixa de Pandora de problemas ambientais, e ainda estamos na pré-história da mitigação de impactos", afirma Banhos.



quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

E o massacre continua...

Passei de novo pela Rodovia Raposo Tavares no trecho entre Itapetininga e Paranapanema. Na segunda-feira, indo na direção da capital, havia um tamanduá-bandeira adulto atropelado no km 215. Hoje, na volta, havia outro exemplar adulto atropelado no km 276. Já perdi a conta de quantos tamanduás-bandeira eu vi atropelados naquele trecho, e pelo jeito, em breve estarão extintos no Sul do Estado de São Paulo. Enquanto isso, nosso querido governador está preocupado em cobrar pedágio no Rodoanel...
Atualização de 20/03/09: Passei pelo trecho em questão hoje e havia um tamanduá-bandeira morto, atropelado que foi no km 219.

domingo, 16 de novembro de 2008

Atropelágio

Enquanto o governo estadual paulista continua pensando somente em arranjar estradas para privatizar a tarifas estratosféricas, os tamanduás-bandeira da Rodovia Raposo Tavares continuam pagando o preço, que este blog já vem denunciando há tempos nos seguintes textos:

Bandeira 2 para o tamanduá

Uma bandeira para o tamanduá

Passei este fim-de-semana pela citada rodovia, e o trecho entre Angatuba e Paranapanema continua sendo o holocausto dos tamanduás, conforme mostram as tristes fotos abaixo, tiradas nos km 210 e 239, onde dois exemplares da espécie jaziam. 

Talvez o nosso querido governador Serra esteja esperando o extermínio dos tamanduás-bandeira das nascentes do Rio Paranapanema, para que eles não atrapalhem as nossas não menos queridas concessionárias de rodovias, e, para usar um verbo que tucano aprecia, os quase-extintos animais não "impactem" demais a planilha de custos de nossos dedicados cobradores de pedágio. 

Apesar disso, este blog seguirá tocando a corneta, alertando a consciência ecológica deste país, se é que ela existe (ou um dia existiu).








terça-feira, 29 de julho de 2008

Bandeira 2 para o tamanduá

Infelizmente, tenho que colocar a foto ao lado, tirada hoje, para tentar, mais uma vez, chamar a atenção para mais uma tragédia ecológica brasileira. 

Eu já escrevi um texto neste blog ("Uma bandeira para o tamanduá"), denunciando o massacre que os tamanduás-bandeira estão sofrendo na Rodovia Raposo Tavares (SP-270). 

Depois daquela data (28 de abril de 2008), eu já passei umas 3 vezes por esta estrada, ali no trecho entre Paranapanema e Itapetininga, e constatei que os pobres animais continuam sendo atropelados sem dó. 

Reclamei junto ao DER-SP e obtive resposta deles, dizendo que colocariam placas sinalizando a passagem de animais silvestres, entre Paranapanema e Angatuba. 

Obviamente, é uma medida mínima, mas pelo menos um órgão do governo respondeu. 

Passei ontem e hoje por lá, e verifiquei que existem duas placas, conforme as fotos abaixo. 

A primeira no km 240 (sentido capital), e a segunda no km 205 (sentido interior). 

Entretanto, ali no km 216, encontrei mais um tamanduá morto, conforme as fotos que ilustram e entristecem este texto. 

Só neste ano, contei sete animais mortos, isto em poucas passagens por aquela rodovia. 

Ergo de novo esta bandeira para o tamanduá, na esperança que ele nunca entre na lista dos animais em extinção da fauna brasileira, embora esteja muito próximo disso, infelizmente.




Veja uma atualização da situação do massacre dos tamanduás-bandeira na Rodovia Raposo Tavares no texto Atropelágio.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Uma bandeira para o tamanduá

Passo com uma certa freqüência pela Rodovia Raposo Tavares (SP-270), no trecho entre Paranapanema e Itapetininga, que ainda tem algumas poucas "ilhas" de mata atlântica em meio a canaviais e milharais, além da beleza sempre ameaçada do começo do Rio Paranapanema. 

No começo do ano, me surpreendi ao ver um enorme tamanduá-bandeira morto no acostamento da estrada, ali perto da primeira ponte do Paranapanema, quando ele ainda não é tão caudaloso. 

Primeiro, eu não imaginava que ainda existissem tamanduás-bandeira no Estado de São Paulo; e, segundo, se eles existem, deveriam ser protegidos. 

O tempo passou e no último domingo eu passei por este trecho de novo, e desta vez vi dois tamanduás-bandeira mortos no acostamento, sentido capital, um no Km 203 e outro ali pelo Km 175 (entre Angatuba e Itapetininga). 

São animais grandes, que parecem do tamanho de um bezerro. Têm hábitos noturnos e tudo indica que todos eles foram atropelados. 

Hoje eu passei de volta pela Raposo, e ali no Km 233 havia outro tamanduá morto, agora no acostamento sentido interior. 

Só eu contei três tamanduás atropelados em três dias. 

Alguma coisa muito errada está acontecendo na Raposo Tavares e ninguém está dando a mínima, já que o nosso querido governo tucano só pensa em pedágios para as rodovias. 

Eu sei que impedir os tamanduás de cruzar a pista é praticamente impossível, mas devia haver pelo menos muitas placas alertando sobre a travessia deles (não há nenhuma).

Talvez algum tipo de passagens subterrâneas nas áreas de maior incidência de atropelamentos. 

O fato é que algo precisa ser feito urgentemente pelos tamanduás-bandeira de São Paulo. 

Eu li no site do ZôoSP que se trata de uma espécie vulnerável, quase ameaçada de extinção. 

Queira Deus que não tenhamos que esperar que eles estejam à beira da extinção para alguém levantar uma bandeira pelos tamanduás. Pelo menos a minha eu vou levantar.


P.S.: Para uma atualização sobre esta situação, leia o texto "Bandeira 2 para o tamanduá" ou clique na tag "tamanduá-bandeira" na coluna direita desta página (De tudo um pouco).


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