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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 4

Lutero perante Carlos V na Dieta de Worms em 1521

NINGUÉM SERÁ JUSTIFICADO PELAS OBRAS

Pois, por obras da lei, ninguém será justificado.
(Gálatas 2:16)

Até aqui, as palavras são de Paulo que falou a Pedro. Nelas, resumiu o artigo principal da doutrina cristã, que faz verdadeiros cristãos. Agora, ele muda o discurso aos gálatas a quem escreve e conclui, dizendo: “Como a situação é essa que somos justificados pela fé em Cristo, conclui-se que, por obras da lei, não será justificada toda carne”.

“Não toda carne” é um hebraísmo que peca contra a gramática. Lemos, Gn 4[.15]: “Para que não o matasse todo aquele que o encontrasse”. Os gregos e os latinos não falam assim. “Não todo aquele” quer dizer “ninguém”. “Não toda carne” quer dizer “nenhuma carne”. Mas, em latim, “não toda carne” significa “alguma carne”. O Espírito Santo, todavia, não observa tal rigor da gramática.

Carne, contudo, não significa, me Paulo, aqueles pecados grosseiros como os sofistas supõem, pois esses, ele costuma mencionar por seus nomes explícitos, como, por exemplo, adultério, fornicação, imundícia, etc., Gl 5[.19ss]. Para Paulo, carne significa o mesmo que para Cristo, que diz em Jo 3[.6]: “O que é nascido da carne é carne”. Carne, portanto, significa toda a natureza do homem, com a razão e todas as suas forças. “Essa carne”, diz, “não é justificada por obras, nem mesmo, por obras da lei”. Não diz: “A carne não é justificada por obras contra a lei, como violência, bebedeira, etc., mas por obras feitas segundo a lei, as quais são boas”. Para Paulo, portanto, carne significa a mais alta justiça, sabedoria, culto, religião, intelecto, vontade, por maiores que sejam nesse mundo. Por isso, o monge não é justificado por sua ordem, nem o sacerdote pela missa ou pelas horas canônicas, nem o filósofo pela sabedoria, nem o teólogo pela teologia, nem o turco pelo alcorão nem o judeu por Moisés. Em suma, por mais sábios e justos que sejam os homens, segundo a razão e a lei divina, não são justificados, contudo, por suas obras, méritos, missas, por sua mais alta justiça e pela prestação de cultos.

Os papistas não creem nisso, mas, cegos endurecidos, defendem suas abominações contra a consciência e perseveram nessa sua blasfêmia e, ainda, agora, vangloriam-se com estas palavras: “Quem faz essa e aquela obra merece a remissão dos pecados; prometemos, com certeza, a vida eterna a quem serve a essa ou àquela santa ordem”. É uma blasfêmia indizível e horrível atribuir às doutrinas dos demônios, aos estatutos e regras dos homens, às ímpias tradições do papa e às obras dos monges aquilo que Paulo, o apóstolo de Cristo, recusa a atribuir à lei divina e às suas obras. Se ninguém é justificado por obras da lei divina, segundo o testemunho do apóstolo, muito menos, alguém será justificado pelas regras de Benedito, de Francisco, etc., em que não se encontra nenhuma sílaba a respeito da fé em Cristo, mas, apenas, insiste-se nisto: “Quem observa essas coisas, tem a vida eterna”.

Por isso, sempre me admirei muito que, por tantos séculos, em que perduravam essas seitas da perdição, a Igreja pôde subsistir em meio a tantas trevas e erros. Houve alguns que deus chamou, simplesmente, pelo texto do Evangelho, que permanecia em seus sermões, e pelo Batismo. Esses andavam perante deus na simplicidade e humildade do coração, pensando que, somente, os monges e os que foram ordenados pelos bispos fossem santos e religiosos, mas eles, profanos e seculares que, de forma alguma, poderiam ser comparados com aqueles. Não encontrando eles em si mesmos, nem boas obras, nem méritos que pudessem contrapor à ira e ao juízo de Deus, refugiaram-se na paixão e morte de Cristo e, nessa simplicidade, foram salvos.

Horrível, porém, e infinita é a ira de Deus que, através de tantos séculos, puniu a ingratidão e o desprezo do Evangelho e de Cristo nos papistas, entregando-os a uma mente reprovável. Negando totalmente a Cristo no que diz respeito à necessidade dele e blasfemando-o, acolheram, no lugar do Evangelho, as abominações das regras e tradições humanas as quais, unicamente, veneraram e preferiram à Palavra de Deus até que, finalmente, foi-lhes proibido o matrimônio e foram forçados àquele celibato incestuoso. Então, também, foram poluídos, exteriormente, com toda a sorte de escândalos, adultério, devassidão, impureza, sodomia, etc. Esse era o fruto daquele celibato impuro. Assim, Deus, com justiça, entregou-os, interiormente, a uma mente reprovável e, exteriormente, permitiu que caíssem em tantos crimes, pois blasfemaram o unigênito Filho de Deus no qual o Pai quer ser glorificado, a quem entregou à morte, a fim de que os que nele creem fossem salvos por intermédio dele e não, pelas ordens deles. “Aos que me honram”, diz Deus em 1 Rs 2[sc. 1 Sm 2.30], “honrarei”. Mas Deus é honrado em seu Filho, Jo 5[.23]. Quem, pois, crê que o filho de Deus é nosso Mediador e Salvador, honra o Pai e Deus, por sua vez, o honra, isto é, orna-o com seus dons: a remissão dos pecados, a justiça, o Espírito Santo e a vida eterna. Do outro lado, “os que me desprezam”, diz Deus, “serão desmerecidos” [1 Sm 2.30].

A conclusão principal, portanto, é esta: “Por causa das obras da lei, ninguém será justificado”. Dando a essa conclusão dimensões mais abrangentes e percorrendo todas as posições sociais, concluirás que um monge não será justificado por sua ordem, nem uma freira pela castidade, nem um cidadão justificado por sua honradez, nem um príncipe por sua beneficência, etc. A lei de Deus é maior que o mundo inteiro, porque abrange todos os homens e as obras da lei excedem, extremamente, às obras seletivas dos homens de justiça própria. No entanto, diz Paulo, que nem a lei nem as obras da lei justificam. Uma vez estabelecida a proposição, o apóstolo começa, agora, a confirma-la com argumentos. E o primeiro argumento é, por assim dizer o oposto da conclusão.

(LUTERO, Martinho. Comentário à Epístola aos Gálatas, 1531. MARTINHO LUTERO, Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2008, Vol. 10, pág. 147-149)



sábado, 12 de agosto de 2017

A religiosidade brasileira e sua "fé de conveniência"

Interessante análise do jornalista britânico Tim Vickery, correspondente da BBC no Brasil (e talvez o mais brasileiro dos ingleses), sobre a religiosidade nacional (de lá e - principalmente - de cá), não por acaso publicada na BBC Brasil, como era de se imaginar:

Tim Vickery: A religiosidade brasileira muitas vezes é fé de conveniência

Estou sozinho agora na casa da minha mãe, nos arredores de Londres, porque ela foi à igreja - ela faz parte de uma minoria da sociedade britânica, de talvez 5%, que ainda tem o hábito de ir ao culto.

E essa fatia minúscula não é de fanáticos. Uma vez, numa visita anterior, eu (que não tenho nenhum sentimento religioso) comentei que não consigo ver a ligação entre a morte de Jesus Cristo e nossos pecados.

"Estranho", respondeu a minha mãe. "O meu pastor falou exatamente a mesma coisa na semana passada."

Trata-se de uma doutrina fundamental de qualquer religião cristã, mas até um empregado da Igreja Anglicana não acredita nele. A igreja dele tem pouco a ver com religião, mais a ver com uma missão vaga de ser "um bom sujeito".

Tudo isso, claro, nada mais é do que uma consequência do recuo da fé cega a partir do Iluminismo, no século 16, e a descoberta de que a Terra gira ao redor do Sol. Por que acreditar naqueles que afirmavam o contrário?

Uma pesquisa recente aponta que somente 28% da população britânica acredita em Deus ou em qualquer poder espiritual, ante 38% totalmente sem tal fé. Me lembra bem a minha época na escola, quando uma sessão de zombaria da professora sempre começava com a pergunta "Senhora, você acredita em Deus?"

Como a situação é diferente nas Américas! Nos Estados Unidos, por volta de 60% da população vai para a igreja. E, no Brasil, não acreditar em Deus é inconcebível para muitos.

As minhas enteadas ficavam tão fascinadas com o assunto que cada vez que alguém me visitava da Inglaterra isso sempre era a primeira pergunta que tinha que traduzir.

Uma vez a resposta a respeito de religiosidade foi "Não, não tenho nenhuma tolerância para superstições medievais", frase que foi um desafio e tanto para suas mentes então pré-adolescentes.

Mas - e estou ciente de estar entrando em uma generalização vasta e vulgar - se a crença na existência de Deus é quase total no Brasil, a fé, em muitos casos, parece bastante rasa.

Quando vejo políticos corruptos dando benção para dinheiro ilegal, ou jogadores de futebol louvando depois de cavar um pênalti, fico com a sensação de que a religiosidade brasileira, com frequência, trata-se de uma fé de conveniência.

É menos um código que determina como viver a vida e mais um recurso que se pega ou se larga conforme as circunstâncias.

Pode ser que seja uma extensão da tara brasileira por parentesco fictício. A figura do pai ausente é muito importante numa terra de padrinhos, onde o personagem político de mais destaque na formação do país, Getúlio Vargas, cultivava um tipo de fascismo benigno do tio universal.

É bastante factível que vários brasileiros imaginem Deus como uma espécie de Vargas celestial, bonzinho e indulgente.

Vargas também desempenhou um papel importante no desenvolvimento da religião no Brasil, e não me refiro à aproximação com a Igreja Católica que leva à estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro. Muito mais importante é a urbanização do país que ele promoveu.

O interessante aqui é que, no exemplo inglês, o crescimento das cidades foi um fator significativo no declínio da religião.

No caso da minha mãe, por exemplo, ela é uma mulher do interior que cresceu com o hábito de ir à igreja e nunca o perdeu. Mas não é de hoje que as igrejas nas cidades vivem vazias - na verdade, nunca encheram. A mudança para uma vida urbana acabou cortando a prática de ir à igreja.

No Brasil, entretanto, o que mais se vê na periferia das cidades são igrejas - só que nesse caso a Igreja Católica tradicional perdeu, mas as evangélicas novas ganharam espaço.

E seu público, em grande parte, são os migrantes internos, que trocaram a vida do campo pelas oportunidades da cidade grande - e também as suas complexidades, problemas a ameaças.

Nesse ambiente novo, complexo e confuso, as igrejas evangélicas não somente oferecem o conforto espiritual da fé, mas também uma rede de apoio social.

Nesse cenário, não é somente a ausência da figura paternal que impulsionou o crescimento da religião, mas também a ausência do Estado.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.



quinta-feira, 27 de abril de 2017

Filhos adotados por ativista gay recebem batismo católico em Curitiba


O casal Toni Reis e David Harrad e seus filhos Alyson (esquerda), Felipe (centro) e Jéssica (direita),
ao lado do padre Élio, em batizado no domingo, 23 de abril.
Foto: David Harrad/Arquivo Pessoal

Toni Reis é dos mais importantes ativistas dos direitos GBLT no Brasil, que ficou mais conhecido ainda quando participou de um debate com Silas Malafaia por ocasião de audiência pública que discutiu o Estatuto da Família no Congresso Nacional, isso em 25/06/15.

Naquela oportunidade, o gestual hitleriano de Malafaia gerou um meme que viralizou na internet, como observamos aqui na época e você pode rever abaixo.



Toni Reis mora em Curitiba e é casado com David Harrad, com quem adotou 3 filhos que, hoje adolescentes, pediram o batismo católico.

Não deixa de ser interessante o contraste entre a atitude do bispo católico de Curitiba e aquela de Malafaia, conforme você pode ler no artigo abaixo, publicado no Estadão:

Filhos de casal gay são batizados em igreja católica de Curitiba

SARA ABDO

O arquivista da igreja disse que a questão dos pais não infringe o sacramento das crianças

Na manhã do domingo, 23, o padre Élio Dall'Agnol realizou o batizado de três adolescentes, filhos adotivos do casal Toni Reis e David Harrad. Juntos há 27 anos, eles decidiram propor o batizado católico para os filhos e, no último fim de semana, participaram da cerimônia na Catedral Basílica de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, em Curitiba.

Em entrevista ao E+, o professor Toni Reis contou que o casal foi em quatro igrejas da capital paranaense e só ouvia não, fosse pela religião anglicana de David, fosse pela agenda, fosse por questões burocráticas. Quando falou com o Arcebispo Metropolitano de Curitiba, Dom José Antonio Peruzzo, Reis recebeu um sim imediatamente. O bispo autorizou o batismo e pediu para padre Élio realizar o sacramento de Alyson, de 16 anos, Jéssica, de 14 anos e Filipe, de 12 anos.

"Foi uma cerimônia muito emocionante", disse Toni, que é uma das lideranças da causa LGBT. Criado sob as concepções da igreja católica, ele disse ter chorado pelo menos três vezes ao se lembrar da mãe, uma mulher muito religiosa. "Na missa o padre falou muito sobre a importância da adoção e de sempre falar a verdade para os filhos".

A cerimônia de batismo, realizada às 11h do domingo, logo após da missa, durou 1h15. "Como nossos filhos já são adolescentes, o padre caprichou e explicou o porque do batismo. Ele fez muito esforço para que o significado do sacramento fosse entendível para os três", disse Harrad. Ele estava acostumado com os batizados de recém-nascidos nas igrejas anglicanas da Inglaterra. Compareceram à cerimônia 40 pessoas.

O arquivista da Catedral, Gabriel Forgati, disse à reportagem que a origem da criança e adolescente não infringe o sacramento. Segundo ele, se os filhos de David e Toni procurarem a mesma igreja para darem continuidade nos sacramentos católicos como catequese e crisma, serão recebidos normalmente. "Nem teria porque ser diferente".

Os cinco membros da família frequentam as missas, juntos, pelo menos todo 1º domingo do mês. Após o batizado, durante o jantar e enquanto tomavam sopa, os pais perguntaram aos adolescentes como se sentiam. Segundo relatou Toni, Alyson se descreveu 'purificado'. Jéssica, que sempre vai à missa, sentia-se incluída: "agora sou católica, com orgulho". O caçula, Felipe, afirmou que mais que nunca eram todos irmãos em Cristo.

O processo. Todo o processo de batismo dos filhos durou sete anos. Foi necessário alterar todos os documentos, dentre eles a certidão de nascimento, que agora registra filho de pai Toni Reis e pai David Harrad. A proposta do sacramento foi feita para os filhos, que não seriam batizados contra a própria vontade. Reis conta que os três são escoteiros, e isso os ajudou muito a valorizar a importância dos princípios e valores na vida.



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Quem nos protegerá de Trump?

Marcelo Rubens Paiva tenta responder essa angustiante questão em coluna interessante publicada no Estadão de 14 de janeiro de 2017:

Aprender com o erro

Foi a ameaça de extinção em massa que freou a corrida armamentista da Guerra Fria

Os genes humanos cederam sua primazia na evolução dos homens a um agente completamente novo, inédito, não biológico, a cultura. Mas não devemos nos esquecer que tal agente novo e original é completamente dependente dos anciões genes humanos para existir. Aliás, foi feito pelos genes humanos, ser social que começou entre grupos de caçadores e colhedores coletivos, e que passou a pintar cavernas, compor músicas e contar histórias. Este é um dos pilares da sociobiologia de Theodosius Dobzhansky e Edward Wilson. Mas o que é cultura? Música, poesia, pintura, dança, esporte, folclore, festas familiares, jogos, religião, filosofia, narrativas e muito mais.

É culinária, confecção, decoração, previsão do futuro, contrato social, casamento, compreensão dos astros, calendário, divisão do ano em estações, meses, dias, horas, controle do tempo, ter noção do antes e depois, da vida e da morte.

É altruísmo (por incrível que pareça, poucas espécies o tem), tabu do incesto (aqui, há divergências, já que alguns acreditam que haja uma aversão natural de se afastar de alguém com quem conviveu na infância por mais de seis anos, o que aumenta a chance de diversificação genética do grupo), divisão entre infância e puberdade, rituais que celebram o princípio da fertilidade, cura pela fé, mitologia, divisão em castas, análise de sonhos, medicina, drogas psicoativas, educação.

Cultura é penteado, tatuagem, colares, cocares, fabricação de armas, utensílios para caça, cozinha, higiene pessoal. E ética, governos, Estado, nomes, nomes familiares, classificação das coisas, das cores, números, regras de convívio, rituais, leis, sanções penais, exílio ou banimento, superstições, correspondências, sinais e documentos.

Antropólogos e os pioneiros da sociobiologia costumam delimitar os avanços da humanidade como parte do alcance genético. Todas as particularidades da cultura humana têm explicações genéticas, fazem parte da evolução. Como entender Trump pela Teoria da Evolução, já que pode levar ao colapso das relações sociais.

É famosa a hipótese de Robin Fox. Que foi reproduzida em termos no clássico O Senhor das Moscas, de William Golding (Nobel de 1983), e recentemente no filme alemão A Onda, em que um professor de história prova que é possível, sim, que o nazismo possa voltar à Alemanha do novo milênio, numa experiência radical pedagógica que serve àqueles que não acreditam que tamanha insanidade coletiva um dia ocorreu.

Como seria se mandássemos bebês a um cenário isolado, uma ilha, um planeta, em que sobrevivessem sem contato conosco? Como seria a civilização criada por eles? Aprenderiam a se comunicar uns com outros? Teriam fala, escrita? Seus descendentes teriam inventado uma língua completamente diferente das existentes entre nós? Esta língua teria vários troncos? Seria possível nós entendermos esta ou estas línguas? Seria possível traduzi-las? Elas seguem os mesmos princípios de uma linguagem humana?

Fox vai longe. Esses exilados autônomos, se sobrevivessem ao isolamento, construiriam uma sociedade que teria governo, leis de propriedade, regras sobre o casamento, costumes sobre tabus, métodos para resolver conflitos sem derramamento abusivo de sangue, crenças no transcendente e sobrenatural (religião), práticas religiosas, mitos e lendas, narrativas orais, educação, sistema de status social, cerimônia para iniciação dos jovens, práticas de corte como enfeites para homens e mulheres, pinturas corporais, jogos, regras, disputas, prêmios, indústria de fabricação de ferramentas, armas, adultério, suicídio, psicoses, neuroses, curandeiros, família, guerras e pacificação.

Se a roda não tivesse sido inventada, seja lá onde ela foi inventada, outro povo a inventaria. Se Gutenberg não tivesse inventado a prensa mecânica, alguém a inventaria. Se o tear mecânico não tivesse sido inventado, alguém o inventaria. O avião foi inventado ao mesmo tempo por Santos Dumont e pelos irmãos Wright. Assim como a Teoria da Evolução.

O mundo está assustado. Procura nos manuais de ciência política explicações para a eleição de Trump. Ele é uma releitura de Silvio Berlusconi, o empresário não político, que admira Nixon e Reagan, do ideário republicano radical, somado ao ódio histérico fomentado pelo macarthismo, que o desencanto com a política e com a elite liberal levou ao poder.

Trump é perigoso. Escolheu os imigrantes como o senador Joseph McCarthy escolheu os comunistas, para numa caça às bruxas governar sem projeto. É uma aberração política? É explicado pelo darwinismo social?

As crianças isoladas inventariam a República e a paz entre cidades, o reino e a promessa de estabilidade, a guerra total de Hitler e depois a paz, Trump, o conflito extremo, e a democracia e o Estado de bem social.

Trump é a razão para a existência de Trump: é preciso identificar e entender o ódio, eventualmente, para explicar como é fundamental para a sobrevivência da espécie a tolerância, a ética e o altruísmo.

Foi a ameaça de extinção em massa que freou a corrida armamentista da Guerra Fria. Foram as bombas de Hiroshima e Nagasaki que impediram a detonação rotineira de outras em cidades habitadas.



domingo, 27 de dezembro de 2015

Mosteiros são oásis de fé e silêncio em São Paulo


Artigo de Edison Veiga no seu blog no Estadão:

Fé faz centenas buscarem 
clausura em mosteiros de SP

Casas religiosas já receberam papas e duas foram residências de figuras que depois se tornaram santos: Madre Paulina e Frei Galvão

São oásis de tradição e tranquilidade dentro da barulhenta, caótica e estressante São Paulo. Dentro das várias casas religiosas que existem na capital paulista, no total, algumas poucas centenas de paulistanos vivem, em menor ou maior rigidez de clausura. As histórias delas são únicas – duas já receberam papas da Igreja Católica, João Paulo II e Bento XVI; duas foram residências de figuras que depois se tornaram santos da Igreja Católica: Madre Paulina e Frei Galvão.

Desde 1598, sempre um monge badala um sino às 5h05 da manhã no centro de São Paulo. É o começo da rotina do Mosteiro de São Bento, instituição encravada no coração da cidade. O repique tem a função de despertar os outros 41 religiosos que vivem no claustro. Em 25 minutos eles devem estar a postos no altar da ainda fechada Basílica de Nossa Senhora da Assunção, onde irão entoar o Ofício Divino, primeira das cinco orações do gênero celebradas diariamente.

O dia a dia dos beneditinos segue as orientações contidas nos 73 capítulos da Regra de São Bento, conjunto de normas cuja autoria é atribuída ao santo católico que viveu entre os anos 480 e 550.

Os monges de São Bento têm liberdade para entrar e sair da clausura, desde que com consciência. “Não há uma pré-definição de tempo. O mosteiro é um complexo. A clausura é um espaço físico dentro do mosteiro. O importante é o equilíbrio. Em via de regra o monge deve ter consciência deste transito e movimentação que há no mosteiro”, explica o monge João Baptista. “Temos um colégio e uma faculdade aqui. Há um teatro com eventos diversos. A Igreja é uma das mais visitadas de São Paulo. Nosso mosteiro é bem diferente dos demais, por conta de todos este contexto. Há, portanto, o desafio com o silêncio dentro desta cidade barulhenta. Estamos no centrão de São Paulo – a maior cidade do país – ao lado das ruas 25 de março e Santa Ifigênia. Há o metrô que passa em baixo e diversos helicópteros que sobrevoam nosso céu. Temos todo um diálogo com esta cidade e com o povo que circula e nos procura em busca de palavras espirituais.”

Dentro do mosteiro, as funções internas são distribuídas de acordo com a vocação. “Cargos e funções vão desde o administrativo, sacristia, formação interna dos monges e aulas na faculdade e colégio, padaria, cozinha, biblioteca…”, enumera Baptista. “Os cargos são distribuídos conforme aptidão de cada um. Se entra alguém com outra formação no mosteiro, como da área da saúde, geralmente trabalhará na enfermaria cuidando dos irmãos mais idosos e doentes ou ações do tipo. Se é um advogado trabalhará na área jurídica e assim por diante.”

Um dos pontos altos da história de mais de 400 anos dos beneditinos em São Paulo foi a visita do papa Bento XVI – coincidentemente, um papa chamado Bento, como o fundador da ordem – a São Paulo, em 2007. Ocasião esta em que foram eles os anfitriões do sumo pontífice. O quarto onde ele ficou hospedado se tornou um memorial, preservado exatamente como naqueles dias.

Vinte e sete anos antes, em 1980, quando o papa João Paulo II foi o primeiro líder máximo da Igreja Católica a visitar São Paulo, a honraria coube a outra abadia beneditina que existe em São Paulo: o Mosteiro São Geraldo, fundado em 1950 por monges beneditinos húngaros na região do Morumbi. Os aposentos que hospedaram João Paulo II também foram mantidos como um pequeno museu – uma relíquia que muito orgulha os 17 monges que vivem ali.

Além de papas, instituições religiosas do tipo também se tornaram conhecidas por serem residências de personalidades católicas que depois se tornaram santas reconhecidas pelo Vaticano. É o caso da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, onde viveu a religiosa Amabile Lucia Visintainer (1865-1942), mais conhecida como Madre Paulina, canonizada em 2002. Fundadora da congregação, o quarto onde ela morreu é preservado como um memorial. Atualmente, a casa abriga 12 religiosas.

“Em nossa organização interna, temos os momentos comuns para orações, celebrações, refeições, estudos, lazer, atividades diversas, onde todas são evolvidas. No que se refere a missão específica, cada Irmã tem uma área de atuação: coordenação da Congregação, animação missionária, evangelização, administração, serviços domésticos, acompanhamento as unidades educativas, centros de hospitalidade, centros de terapias naturais, santuário, serviço de assistência social e as comunidades da Congregação.”, explica Rosacy Soares Costa, vice-coordenadora geral da instituição.

Ali não há uma clausura. “Temos sim nossa privacidade, mas vivemos em uma casa normal”, conta a religiosa. “Nosso contato com o mundo se dar de várias formas, nos diversos espaços onde realizamos nossa missão tanto interna quanto externa. Também participamos de eventos sociais, como teatro, cinema, celebração de aniversário e outros. Administramos o tempo, tendo em vista os momentos comuns e as atividades individuais por meio do planejamento mensal e cronograma para facilitar a vivência comunitária e a realização da missão.”

Já no Mosteiro da Luz, no bairro da Luz, casa fundada e construída por Antônio de Sant’Ana Galvão (1739-1822), o Frei Galvão, franciscano de Guaratinguetá que se tornou santo em 2007, o silêncio e o isolamento são regra. As 14 religiosas que vivem ali só saem por três razões: saúde – consultas médicas e exames -, compras e um período de férias – geralmente 10 dias a cada dois anos. Mesmo assim, tudo somente sob autorização da abadessa e, geralmente, em duplas. “Também acabam sendo liberadas para participar de festas muito especiais da Igreja, como a procissão de Corpus Christi”, exemplifica o capelão do Mosteiro, padre José Arnaldo Juliano dos Santos.

E são pouquíssimas as pessoas, além das religiosas, que podem, eventualmente, entrar na clausura. “Autoridades religiosas, como o arcebispo, além do capelão e de um padre nomeado para auxiliá-las nas questões administrativas”, enumera padre Santos. “Outras pessoas, um médico por exemplo, apenas com autorização da abadessa.”

Mesmo o padre confessor das religiosas não entra ali. Elas são atendidas em uma sala chamada parlatório, onde ficam separadas do interlocutor por grades.

Natal. As monjas da Luz reforçam o momento de silêncio nos dias que antecedem as festas mais importantes da Igreja Católica, a Páscoa e o Natal. Elas costumam fazer um retiro por duas ou três semanas, com jejum e muita oração, como preparação para tais datas. “Elas têm uma espiritualidade própria, fruto da ordem monástica”, diz o capelão. A ordem, no caso, é a Imaculada Conceição – por isso elas são chamadas de monjas concepcionistas -, fundada na Europa pela Santa Beatriz da Silva (1424-1492).

No São Bento, o Natal é marcado pelas antífonas especiais, entre os dias 17 e 23. “São antífonas do Hino Evangélico do Magnificat, que sempre inicia com a exclamação ‘O’, louvando a realeza de Deus que irá nascer como homem”, afirma o monge João Baptista. “No dia 24, acontece a bênção de nosso presépio que fica exposto aos fiéis até o dia 6. A missa da noite é belíssima e muito concorrida, assim como a do Dia de Natal, às 10h.”

“Internamente temos nossa ceia só com os monges”, relata ele. “No dia 26 fazemos sempre uma confraternização. Ocasião em que todos podemos nos reunir.”

Por São Paulo, já passaram cinco santos

Ainda não há nenhum paulistano que tenha se tornado santo para a Igreja Católica. Mas alguns canonizados viveram ou pelo menos passaram pela cidade. É o caso do padre José de Anchieta (1534-1597), jesuíta espanhol que foi reconhecido como santo pelo Vaticano em 2014. Com outros religiosos, Anchieta subiu ao então Planalto de Piratininga em 1554 e, onde hoje é o Pátio do Colégio, fundou a vila que daria origem a São Paulo.

Outro muito ligado à capital foi Antônio de Sant’Ana Galvão (1739-1822), o Frei Galvão, franciscano de Guaratinguetá que se tornou o primeiro santo nascido no Brasil. Em São Paulo, onde passou boa parte da vida, ele construiu o Mosteiro da Luz – em cuja igreja, aliás, está sepultado.

Amabile Lucia Visintainer (1865-1942), mais conhecida como Madre Paulina, nasceu na Itália mas veio para o Brasil com 10 anos. Em 1903, mudou-se para São Paulo, onde ficaria até o fim da vida, no bairro do Ipiranga, cuidando de crianças órfãs e ex-escravos abandonados.

A capital paulista também recebeu a visita dos santos Josemaría Escrivá de Balaguer (1902-1975), padre espanhol fundador do Opus Dei, em 1974; e do papa João Paulo II (1920-2005), em 1980.

São Paulo já recebeu dois papas

João Paulo II visitou a cidade em 1980, na primeira das três viagens que fez ao Brasil. E Bento XVI veio para São Paulo em 2007. Papa Francisco limitou sua primeira viagem ao País, em 2013, ao Rio de Janeiro e Aparecida.



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Como a religiosidade influi nos tratamentos de saúde


Matéria publicada na Folha de S. Paulo:

Religião é benéfica para tratamento psiquiátrico, diz associação

CLÁUDIA COLLUCCI

"É mole? Vou ao médico tratar da depressão e ele me manda rezar!". A recomendação que gerou surpresa na médica e professora universitária Maria Inês Gomes, 67, agora tem aval da Associação Mundial de Psiquiatria.

No mês passado, a entidade aprovou documento declarando a importância de se incluir a espiritualidade no ensino, pesquisa e prática clínica da psiquiatria. A SBP (Sociedade Brasileira de Psiquiatria) ainda não se posicionou sobre o assunto.

A proposta, obviamente, não é "receitar" uma crença religiosa ao paciente, mas conversar sobre o assunto. O indexador de estudos científicos PubMed, do governo americano, lista mais de mil estudos sobre o tema.

Os recursos espirituais avaliados nesses trabalhos variam bastante, desde acreditar em Deus ou um poder superior, freqüentar alguma instituição religiosa ou mesmo participar de programas de meditação e de perdão espiritual, mas a grande maioria conclui que há correlação entre espiritualidade e bem-­estar.

O maior impacto positivo do envolvimento religioso na saúde mental é entre pessoas sob estresse ou em situações de fragilidade, como idosos, pessoas com deficiências e doenças clínicas.

Não se trata, claro, da prova científica da ação de Deus –uma hipótese dos pesquisadores é que religiosidade sirva, por exemplo, para reforçar laços sociais, reduzindo a incidência de solidão e depressão e amenizando o estresse causado por doenças ou perdas.

Três meta­-análises (revisões científicas) já realizadas sobre o tema indicam que, após controle de variáveis como estado de saúde da pessoa, a frequência a serviços religiosos esteve associada a um aumento médio 37% na probabilidade de sobrevida em doenças como o câncer. O desafio é entender exatamente como isso acontece.

Uma das explicações propostas é a ativação do chamado eixo "psiconeuroimunoendócrino", em que uma emoção positiva seria capaz de alterar a produção de hormônios que, por exemplo, reduziriam a pressão arterial.

"O impacto da religião e espiritualidade sobre a mortalidade tem se mostrado maior que a maioria das intervenções, como o tratamento medicamentoso da hipertensão arterial ou o uso de estatinas", afirma Alexander Moreira-Almeida, professor de psiquiatria da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Um outro estudo recente publicado na revista "Cancer", da Sociedade Americana de Câncer, revisou dados obtidos com mais de 44 mil pacientes e concluiu que são os aspectos emotivos da espiritualidade e da religiosidade aqueles que mais trazem benefícios para a saúde física e mental de pacientes com a doença. O mesmo não acontece quando o paciente se dedica a meramente estudar ou pesquisar sobre a religião.

EFEITO NEGATIVO

Ao mesmo tempo, segundo Almeida, as crenças religiosas também podem atuar de modo negativo, quando enfatizam a culpa e a aceitação acrítica de ideias ou transferem responsabilidades.

"Piores desfechos em saúde são observados quando há uma ênfase na culpa, punição, intolerância, abandono de tratamentos médicos. A existência de conflitos religiosos internos ao indivíduo ou em relação à sua comunidade religiosa também está associada a piores indicadores de saúde."

Por essa razão, é importante que os profissionais tenham em conta a dupla natureza da religião e espiritualidade, segundo Kenneth Pargament, professor de psicologia clínica na Bowling Green State University (Ohio).

"Elas [religião e espiritualidade] podem ser recursos vitais para a saúde e bem­estar, mas eles também podem ser fontes de perigo", diz ele, que esteve no Brasil neste mês falando sobre o assunto no início do mês no Congresso Brasileiro de Psiquiatria.

Ele lembra que, por muitos anos, psicólogos e psiquiatras evitaram a religião e a espiritualidade na prática clínica. Entre as razões, estaria a antipatia pela religião que sempre houve entre os ícones da psicologia, como Sigmund Freud.

Para Pargament, é importante a compreensão de que a religião e a espiritualidade são entrelaçadas no comportamento humano e que os profissionais precisam estar preparados para avaliar e abordar questões que surjam no tratamento.

"Para muitas pessoas, a religião e a espiritualidade são recursos-­chave que podem facilitar o seu crescimento. Para outros, são fontes de problemas que precisam ser abordadas durante o tratamento. Isso precisa ser compreendidopelos profissionais de saúde."

Entre as técnicas que estão sendo estudadas para essa abordagem estão programas, por exemplo, para ajudar pessoas divorciadas a lidar com amargura e raiva, ou vítimas de abuso sexual e mulheres com distúrbios alimentares. ­

ESTUDOS SOBRE FÉ, ESPIRITUALIDADE E SAÚDE

Religião, espiritualidade e saúde física em pacientes com câncer
- Publicação: 2015, no periódico "Cancer"
- Resumo: A meta­-análise congregou resultados obtidos com mais de 32 mil pacientes para concluir que a saúde física dos pacientes com câncer melhora com a experiência de religiosidade ou de espiritualidade. Isso ocorre mais pela relação emotiva do que por aquela mais racional com a religião/espiritualidade.

Caminhos distintos entre Religiosidade, Espiritualidade e Saúde
- Publicação: 2014, no periódico "Circulation"
- Resumo: Os autores do estudo propõem separar os efeitos na saúde física que poderiam ser atribuídos à religião e os que poderiam ser atribuídos à espiritualidade. A proposta é que a religião poderia fomentar hábitos saudáveis, enquanto a espiritualidade traria melhor equilíbrio emocional

Doenças mentais, religião e espiritualidade
- Publicação: 2013, no periódico "Journal of Religion and Health"
- Resumo: A meta­-análise analisou 43 estudos do período entre 1990 e 2010 e viu que 72% deles mostram resultados positivos entre a dimensão espiritual/religiosa e a saúde física, especialmente para demência, depressão e dependência química. A Esquizofrenia e o transtorno bipolar não são afetados



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Ex-Globeleza diz que teve "encontro mágico" com Deus

No final da entrevista concedida a Bruno Astuto, colunista da revista Época, publicada em novembro de 2014, a ex-Globeleza Valéria Valenssa conseguiu expressar em poucas palavras muito do que caracteriza o atual movimento evangélico brasileiro. Eis a frase:
Não tinha uma religião e tive um encontro mágico com Deus. Passei a ler mais a Bíblia e hoje tenho uma Igreja Batista.
Esta frase está no contexto de uma resposta de Valéria à pergunta sobre se sentia falta da época em que era uma celebridade carnavalesca.

Não estamos aqui querendo analisar a experiência de conversão da celebridade em questão, até porque não a conhecemos pessoalmente e sinceramente esperamos que ela tenha tido um verdadeiro encontro com Deus.

Portanto, não há nenhuma crítica pessoal a ela, que pode, inclusive, passar a escolher melhor as palavras daqui por diante.

O que nos chama a atenção no discurso de Valéria Valenssa é a presença de dois lugares comuns no fenômeno evangélico considerado como um todo no país.

O primeiro lugar comum é o "encontro mágico" com Deus.

Parece que muitos evangélicos (não só no Brasil, diga-se de passagem) pautam sua vida pelo "pensamento mágico", do qual o "pensamento positivo" é uma subespécie e a teologia da prosperidade o seu tentáculo mais visível.

Grande parte dos evangélicos não está preocupada no que creem, mas "como" creem. É o discurso utilitarista da "fé na fé", conforme já tivemos oportunidade de abordar aqui.

O segundo lugar comum é o "hoje tenho uma Igreja Batista". Talvez tenha sido um ato falho de Valéria Valenssa, mas boa parte dos líderes evangélicos brasileiros realmente pensa assim: eles têm uma igreja para chamar de sua, e isso no sentido mais possessivo e patrimonialista da palavra.

Muitas denominações hoje são verdadeiros conglomerados familiares, pequenos ou grandes feudos em que o poder (supostamente vindo do alto) é mundanamente hereditário. Passa de pai a filho sem pudor algum.

É de se duvidar que Deus realmente precise dessa profusão de nomes e placas de igreja, que escancaram a incapacidade de seus caciques de se submeterem a uma doutrina firmemente estabelecida, daí não terem vergonha alguma de inventar as suas próprias "teologias", geralmente copiando as heresias que estão dando certo na denominação concorrente da rua de trás (as tais "igrejas customizadas", sobre as quais escrevemos em 2010).

Cá entre nós, no fundo é uma ofensa a Ele ver que seus supostos "servos" precisam "ter" uma igreja sem necessariamente "serem" cristãos.

É muito provável que Valéria Valenssa tenha apenas escolhido mal as palavras, que eventualmente não correspondam à sua vivência espiritual nem expressem com precisão o que ela pensa do cristianismo, mas o seu discurso enviesado nos permite enxergar um pouco mais além do óbvio ululante que motiva muitos movimentos evangélicos no Brasil.



terça-feira, 30 de abril de 2013

Pesquisa revela que ateus não conseguem se desvencilhar da ideia de Deus

Psicólogos finlandeses realizaram uma pesquisa que revelou que ateus se sentem especialmente desconfortáveis quando se propõe que eles desafiem Deus a fazer coisas terríveis diretamente relacionadas a eles ou pessoas que lhes são queridas.

A equipe, liderada por Marjaana Lindaman, da Universidade de Helsinki, concluiu que "os resultados permitem inferir que as atitudes dos ateus em relação a Deus são ambíguas, no sentido de que as suas convicções explícitas conflitam com a sua resposta afetiva".

A metodologia da pesquisa - publicada no International Journal for the Psychology of Religion - consistiu de dois experimentos de pequena escala, sendo que o primeiro envolveu 17 pessoas da própria Finlândia que foram recrutadas via internet, e que apresentavam altos níveis de crença ou descrença em Deus.

Eletrodos foram ajustados em dois dedos de cada participante para coletar os dados enquanto eles liam em voz alta uma série de frases previamente elaboradas e com forte conteúdo, digamos, intimidador.

Algumas das declarações eram desafios à divindade como "eu desafio Deus a fazer com que meus pais se afoguem" e outras igualmente desagradáveis, como "não há nenhum problema em chutar a cara de um cachorrinho". Havia ainda afirmações neutras como "espero que não chova hoje".

Os resultados mostraram que os padrões de comoção de crentes e descrentes seguiram precisamente o mesmo padrão: alto tanto para Deus como para as declarações desagradáveis, e baixo para as neutras.

Depois de realizada a experiência, os crentes disseram se sentir muito desconfortáveis recitando os desafios a Deus, mas a leitura dos dados obtidos pelos eletrodos mostrou que as reações dos dois grupos foram exatamente as mesmas.

Isto mostra que o ato de "desafiar Deus" fez com que os participantes ateus se sentissem mais nervosos do que eles admitiam, inclusive para si próprios.

Alguém poderia objetar, por exemplo, que as reações dos ateus se deram não propriamente pelo fato de haver uma entidade divina incluída na frase que falavam, mas pelas situações desagradáveis ali associadas.

Antecipando-se a essa objeção, os pesquisadores finlandeses já haviam acrescentado um segundo experimento para testar essa hipótese.

Desta vez foram recrutados 19 ateus que tomaram parte numa versão expandida do primeiro experimento, agora incluindo dez variações dos "desafios a Deus" com o detalhe de que elas excluíam qualquer menção a forças sobrenaturais.

Por exemplo, além de declarar "eu desafio Deus a fazer todos os meus amigos se virarem contra mim", eles também liam em voz alta a frase "eu queria que todos os meus amigos se virassem contra mim".

Os resultados mostraram que os ateus sentiram maior comoção enquanto liam as declarações relacionadas a Deus do que quando proferiam as frases quase idênticas que omitiam a divindade.

A conclusão a que os pesquisadores chegaram foi a de que "mesmo os ateus têm dificuldade em desafiar Deus a provocar danos a eles próprios e a seus queridos".

Entretanto, não pararam por aí e procuraram também encontrar explicações para essa atitude, o que os fez chegar a 4 prováveis razões:

1) a mais provocativa é que as crenças explícitas dos ateus podem diferir das reações implícitas que existem fora do alcance de sua consciência;

2) por outro lado, eles podem dar muito valor à palavra "Deus" pela observação constante que têm do respeito que seus amigos e familiares crentes têm para com a prática séria de sua religião;

3) os ateus podem ainda ter achado a ideia de "Deus" absurda ou aversiva, o que os levou a uma resposta emocional alterada;

4) outra razão plausível é que os ateus guardam, ainda, reflexos de suas crenças anteriores e não conseguiram abandoná-las completamente, e elas ainda produzem uma espécie de "eco" em suas consciências.


A fonte da notícia é a revista Pacific Standard. Pede-se ao portal gospel ou ateu que vier aqui copiar a matéria, que cite as fontes indicadas com os respectivos links e faça a sua própria tradução.



sexta-feira, 26 de abril de 2013

Vivendo com fé e paralisia cerebral


Conheça Roger Flournoy Junior. Ele tem paralisia cerebral e mora em Austin, no Texas. No vídeo abaixo, ele fala sobre as dificuldades que enfrenta no seu dia-a-dia e como a fé em Jesus Cristo lhe faz encontrar sentido na vida. A tradução das legendas em inglês está logo a seguir:



Eu tenho paralisia cerebral.

Viver com paralisia cerebral definitivamente não é algo fácil.

Um monte de pessoas não entendem o que é paralisia cerebral e eles me tratam diferente.

Um monte de gente inclusive tem medo de mim ou se sentem muito desconfortáveis ao meu lado.

E isto me machuca porque eu quero ser amigo de todo mundo.

E eu não posso evitar o fato de que tenho paralisia cerebral.

O meu nome é Roger Flournoy Jr. e eu moro no centro de Austin (Texas).

Viva os “longhorns” (como são conhecidos os atletas de diferentes esportes da Universidade do Texas que fica em Austin).

Algumas das lutas que eu enfrento com a paralisia cerebral é que eu tenho que fazer coisas que uma pessoa normal nunca vai ter que fazer, como engatinhar no carpete todo dia, algumas vezes ele fica grudado em mim.

Eu utilizo um computador com um aparelho que se chama “head pointer” e eu digito no teclado como se estivesse catando milho.

Eu me locomovo pela cidade com uma cadeira de rodas elétrica. Ele me permite ter liberdade de me locomover por minha própria conta.v A pior coisa é a solidão.

Eu me transformo no meu pior inimigo quando me deixo sentir solidão.

Mas Jesus significa tudo para mim.

Sem Jesus eu sei que já teria cometido suicídio, porque viver sem Jesus não vale a pena.

Tempos difíceis aparecem todos os dias. Na maioria das vezes eu tento nocauteá-los porque o evangelho mudou a minha vida de uma maneira maravilhosa que eu nunca conseguirei entender em sua plenitude.

A adoração é a minha vida.

Deus me criou para adorar.

Jesus pagou o máximo preço e se eu não adorá-lo totalmente é como se eu não agradecesse por Ele ter morrido por mim.

E isto é tão poderoso.

Um dia eu estarei na eternidade com Deus.



quinta-feira, 18 de abril de 2013

Uma homenagem aos cristãos anônimos


É uma pena que, quando se ouve a palavra “evangélico” no Brasil, imediatamente se associe o termo a uma série de líderes vaidosos e gananciosos mais preocupados com batalhas políticas, dinheiro e poder, além do séquito de pessoas que os defendem cegamente.

Imediatamente também se esquece de uma legião de homens e mulheres simples e anônimos, que levam o amor e a Palavra de Deus a milhares, talvez milhões de pessoas, sem esperar nada em troca.

Fazem isso não só pelo prazeroso dever de compartilhar o evangelho, mas principalmente pelo amor que o Espírito Santo lhes derramou no coração (Romanos 5:5).

Na mesma carta aos Romanos, no capítulo 16, Paulo listou várias pessoas que, se não ficaram exatamente anônimas, foram reconhecidas pelo apóstolo e tiveram os seus nomes associados ao verdadeiro significado de ser cristão.

Poucos atentaram para os seus nomes, mas estão lá Febe, Prisca, Áquila, Epêneto, Maria, Andrônico, Júnias, Ampliato, Urbano, Estáquis, Apeles, Aristóbulo, Herodião, Narciso, Trifena, Trifosa, Pérside, Rufo, Asíncrito, Flegonte, Hermas, Pátrobas, Hermes, Filólogo, Júlia, Nereu e sua irmã, Olimpas, Timóteo, Lúcio, Jáson, Sosípatro, Tércio, Gaio, Erasto e Quarto.

Com exceção de Timóteo e de Hermas (a quem se atribui o antigo livro “O Pastor”), todos os demais pouco ou nenhum destaque tiveram na história registrada da igreja cristã.

Muito provavelmente nem Paulo nem seus acompanhantes se lembravam do nome da irmã de Nereu, mas o apóstolo fez questão de mencioná-la para que ninguém se esquecesse da sua humilde existência e do seu trabalho simples e valoroso.

Da mesma maneira, milhares, talvez milhões de crentes, hoje estão fazendo seus trabalhos simples, sem esperar reconhecimento, poder ou dinheiro.

Eles levam a preciosa semente da mensagem da cruz de Cristo (Salmo 126:6) a todo lugar, indistintamente, de porta em porta, de pessoa em pessoa, sem negociá-la com as trevas.

É quase impossível que pelo menos alguns de seus nomes venham a ser conhecidos na imensa balbúrdia em que se tornou a militância ideológica evangélica no Brasil, mas o seu valoroso anonimato merece ser homenageado assim como Paulo fez com seus anônimos cooperadores da Roma de 20 séculos atrás.

Desconfio, porém, que é por amor a esses pastores e crentes fiéis (e àqueles a quem eles servem piedosa e silenciosamente) que Deus – na Sua infinita misericórdia - ainda não trouxe a destruição que merecem todos os usurpadores da fé que profanam Seu nome por aqui.



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