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domingo, 3 de março de 2013

Procrastinação pode ser positiva

Nossa leitura de domingo procura sempre ser um pouco diferente, como a matéria abaixo, publicada na Folha Equilíbrio de 17/01/13:

Procrastinação pode ser produtiva; conheça estratégias

John Tierney

Nos últimos cinco anos --ou talvez até mesmo nos últimos dez-- fiquei pensando em publicar uma coluna de Ano Novo com uma resolução ousada para o ano que se inicia: "O poder da procrastinação positiva".

Bem, ainda estamos bem no início do ano e podemos tocar nesse assunto --especialmente se você ainda não pensou nas suas resoluções para 2013. Sim, você pode parar de se sentir culpado por procrastinar. Agora há argumentos científicos que confirmam isso.

Pesquisadores identificaram de modo independente o fenômeno da procrastinação positiva, embora não haja consenso quanto a essa denominação. "Procrastinação estruturada" é o termo preferido por John Perry, filósofo da Universidade de Stanford que publicou um livro sobre o tema no ano passado. É certo que não se trata de um livro longo (92 páginas com pouco texto), mas ele merece crédito: ele o escreveu, e apenas 17 anos depois de ter identificado o conceito.

Perry sentia raiva de si próprio porque procrastinava, o que é algo típico. Até que lhe ocorreu, em 1995, que ele não era totalmente preguiçoso. Enquanto adiava a correção de artigos, não ficava simplesmente de braços cruzados; ele apontava lápis, cuidava do jardim ou jogava pingue-pongue com os alunos. "Os procrastinadores", conta ele, "raramente ficam sem fazer nada".

Pode-se dizer que o ponto de vista de Perry é modesto, talvez, mas deixou a sua consciência mais leve e o fez deixar para trás a antiga ideia de que os procrastinadores devem assumir menos compromissos. A chave para a produtividade, afirma ele em "A Arte da procrastinação", é assumir mais compromissos --mas ser metódico ao fazê-lo.

No topo da sua lista de coisas a fazer, coloque tarefas difíceis, se não impossíveis, que soem vagamente importantes (mas que não o sejam de fato) e que pareçam ter prazos (mas que na verdade não tenham). Depois, em posições inferiores da lista, inclua algumas tarefas exequíveis que realmente importem.

"Cumprir essas tarefas se torna uma forma de não fazer as coisas que estão em posições mais altas na lista", escreve Perry. "Com esse tipo de estrutura apropriada de tarefas, o procrastinador se torna um cidadão útil. Na verdade, o procrastinador pode até mesmo adquirir, como eu, a fama de ser bastante produtivo".

Perry reconhece generosamente que se apoiou nos ombros de gigantes, em especial Robert Benchley, membro da Távola Redonda de Algonquin. Em 1930, Benchley revelou como reuniu força de vontade suficiente para ler revistas científicas e montar uma estante quando deveria estar escrevendo um artigo.

"O segredo de tanta energia e eficiência na execução de um trabalho é simples", escreveu ele. "O princípio psicológico é o seguinte: qualquer pessoa pode cumprir qualquer meta de trabalho, desde que não seja o trabalho que ela tem que fazer naquele dado momento".

Também podemos chamar isso de "procrastinação produtiva", o termo usado por Piers Steel, psicólogo da Universidade de Calgary. Essa é a sua técnica preferida entre as dezenas que ele catalogou enquanto pesquisava para escrever seu livro de 2011, "A Equação da Procrastinação".

"Para a maioria de nós, a procrastinação pode ser abatida, mas não inteiramente derrotada", disse-me Steel, descrevendo como levou uma década para escrever um de seus trabalhos acadêmicos sobre procrastinação. "O truque que melhor funciona para mim é fazer com que meus projetos concorram um com o outro, procrastinando em relação a um enquanto trabalho no outro".

Steel diz que isso se baseia em princípios consistentes de psicologia comportamental: "Estamos dispostos a exercer qualquer tarefa vil desde que ela nos permita fugir de algo pior". Ele diz que deve créditos teóricos ao Sir Francis Bacon, filósofo do século 17 cuja estratégia autocontrole era "colocar uma emoção contra a outra e dominar uma a uma, mesmo que nós cacemos uma besta com a outra".

Steel, que entrevistou mais de 24 mil pessoas em todo o mundo, diz que 95% das pessoas confessam procrastinar pelo menos ocasionalmente. (Você pode verificar se é um procrastinador participando da pesquisa) Aproximadamente 25% dos entrevistados são procrastinadores crônicos, índice cinco vezes maior que o registrado em 1970.

Ele atribui esse aumento à natureza mutável do local de trabalho: quanto mais flexíveis os trabalhos se tornam, mais há oportunidades de evitar tarefas desagradáveis. Atualmente, quem trabalha normalmente gasta um quarto do dia procrastinando; quem estuda gasta um terço. Os homens têm mais propensão à procrastinação crônica do que as mulheres --especialmente os homens jovens.

Quantos deles estão realmente tornando isso algo produtivo? Infelizmente, os dados não são bons, e hoje muitos pesquisadores da temática do autocontrole têm dúvidas quanto à procrastinação positiva. Mesmo quando ela funciona, dizem eles, ainda estamos desperdiçando energia ao nos preocuparmos, consciente ou inconscientemente, com a tarefa que estamos evitando.

E embora Robert Benchley possa ter montado aquela estante, muitos especialistas acham que Raymond Chandler é um modelo melhor. Chandler usou a mesma percepção de Perry – a de que os procrastinadores raramente ficam totalmente ociosos – para desenvolver uma estratégia que Roy F. Baumeister, psicólogo social da Universidade Estadual da Flórida (com quem escrevi um livro sobre a força de vontade) chama de "Alternativa do Nada". Chandler se forçou a escrever histórias de detetive, dedicando-se à tarefa durante quatro horas por dia e seguindo duas regras:

a) Você não tem que escrever.

b) Você não pode fazer nenhuma outra coisa.

"É o mesmo princípio da manutenção da ordem nas escolas", explicou Chandler. "Se fizermos os alunos se comportarem, eles acabam aprendendo alguma coisa só para não ficarem entediados."

Mesmo Perry diz que muitas vezes faz sentido seguir esse conselho clássico para procrastinadores: basta começar o que se deve fazer. Ele sabe que a sua estratégia é complicada.

"A procrastinação estruturada exige certa dose de autoengano, porque costumamos perpetrar esquemas em pirâmide em nós mesmos", escreve ele. "Precisamos ser capazes de reconhecer e assumir tarefas de valor superdimensionado e prazos irreais para acreditar que essas tarefas são importantes e urgentes".

Felizmente, observa ele, os procrastinadores podem ser ótimos ao se autoenganar, uma habilidade também observada por Steel.

"A procrastinação produtiva envolve um pouco de faz-de-conta. É como adiantar o relógio em cinco minutos em relação ao horário real", disse-me ele. "Nós sabemos que fomos nós que adiantamos o ponteiro, mas ainda assim fingimos que isso não aconteceu".

"Nem todo mundo é capaz de fazer isso. Acho que é algo que funciona melhor para quem sente culpa por sua procrastinação e precisa amenizar isso. Se você é do tipo de pessoa que fica fazendo faxina no quarto na véspera de uma prova, é provável que isso funcione".

No mínimo, você pode usar essa estratégia para parar de sentir tão mal quanto a um problema que todo mundo enfrenta. Ela é certamente mais sã do que o lugar-comum de nunca deixar para amanhã o que se pode fazer hoje. Seguindo essa lógica, nunca pararíamos de trabalhar --há sempre algo que pode ser feito hoje.

É melhor seguir a versão reescrita por Perry: nunca cumpra hoje uma tarefa que pode desaparecer amanhã.



Cá entre nós, a procrastinação básica (e bastante negativa) hoje funciona assim:






sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Hitler - a biografia por Ian Kershaw

“Hitler”, a monumental biografia escrita por Ian Kershaw (1.024 págs., Companhia das Letras, 2010), é um livro altamente recomendado para quem quer entender o século XX e – em especial – as profundezas da natureza humana. 

Confesso que o nazismo e Hitler são temas que despertam em mim um certo fascínio, menos pela morbidez propriamente dita que é atrelada a ambos e mais pelo interesse que tenho em - pelo menos - tentar entender a maldade humana em essência, e não há episódio histórico em que isto tenha acontecido com tamanha intensidade (e densas névoas) como no período em questão. 

 Entretanto, a sensação que fico é que a diferença entre o nazismo e os tristes episódios corriqueiros e individualizados de maldade cotidiana é apenas uma questão de escala. Sim... magnitude.

O ser humano é – felizmente - capaz de gestos de bondade e sacrifício extremos, mas – tristemente – também da pior crueldade elevada às mais macabras potências. 

Na Alemanha das primeiras décadas do século XX houve uma infeliz e colossal confluência de dramas e preconceitos individuais e coletivos que resultou numa bomba com imenso poder de destruição e prestes a explodir. 

Hitler teria sido, por assim dizer, o homem errado na hora errada e no lugar errado. Produto sórdido de uma conjunção letal de fatores e horrores.

Ian Kershaw deixa claro, logo de início, que julga impossível traçar um perfil psicológico detalhado e definitivo do líder nazista, ou dar razões claras para o amálgama perverso entre sua personalidade doentia e as aspirações nacionais do povo alemão. Neste diapasão, digamos, psicopatológico, a biografia escrita por Joachim Fest vai mais fundo.

Kershaw insiste que o que sobrou da personalidade de Hitler são pistas, nada mais do que isso. A não ser na remotíssima hipótese de algum pesquisador descobrir, no futuro, alguma revelação inédita e inusitada, o mundo não terá resposta conclusiva a respeito dessa reunião catastrófica de fatores pessoais e coletivos. 

Tudo indicava que Adolf Hitler passaria em medíocres nuvens por este mundo, com uma existência curta, insignificante e miserável. Nascido em Linz, na Áustria, com laços familiares frouxos e breves, talvez uma boa linha de investigação seja o seu desejo (tão humano, mas nele profundamente exacerbado) de pertencer a alguém ou a algum grupo em especial. 

A contradição é que não tinha, entretanto, traços afetivos que o ligassem a outros seres humanos. As únicas demonstrações de afeto testemunhadas por seus asseclas eram dirigidas aos seus cães da raça pastor alemão. 

Sua sexualidade também era objeto de curiosidade mórbida e os poucos que verbalizaram suas impressões, o chamavam de “esquisito”. Havia uma certa dose de misoginia na sua relação com as mulheres, já que ao mesmo tempo que nutria por elas um aparente desprezo, mostrava surpreendente interesse por mulheres de personalidade forte e – casadas! Sua relação com Eva Braun era também - no mínimo - estranha, já que Hitler era "casado" com a Alemanha. 

Eva foi sua amante por vários anos, mas foi cuidadosamente mantida longe dos holofotes públicos, de maneira que somente seu círculo íntimo sabia de sua existência até o último de seus dias, embora não ficasse claro que tipo de relação o casal tinha em privado. 

Entretanto, não havia sinais concretos de homossexualidade – ainda que reprimida - por parte do Führer, mesmo que tenha convivido e tolerado por muitos anos o comando homossexual assumido de Ernst Röhm e seus parceiros (de cama, inclusive) na SA (Sturmabteilung), o braço armado do partido nazista. Além disso, a homossexualidade não foi razão determinante na eliminação da liderança gay da SA na Noite das Longas Facas de 30 de junho de 1934, mas a disputa interna do poder no partido que havia recém assumido o governo alemão. 

Embora abominasse a homossexualidade de Röhm, enquanto este lhe foi útil Hitler fez vistas grossas e o tolerou. Os fins (a sobrevivência do partido e a manutenção da força e da coesão do grupo) justificavam os meios. 

Na série de entrevistas que concedeu posteriormente a Joachim Fest, compiladas em outro livro, Albert Speer disse que Hitler era tão ególatra que talvez seu perfil sexual mais adequado fosse o de um "masturbador compulsivo", ou "um onanista nato", [atualizamos] como traduz a edição brasileira de 2012 ("Conversas com Albert Speer", Ed. Nova Fronteira, pág. 35). 

A própria relação de Speer com Hitler foi vista como "estranha" por aqueles que compartilhavam do círculo íntimo do Führer, embora no que se refira ao supremo líder as palavras "amizade" e "intimidade" sejam impróprias. 

No livro de Joachim Fest se levanta a suspeita de que houvesse, sobretudo da parte de Hitler, um interesse platônico de cunho homoerótico por Speer, que era, afinal, o "galã" da alta cúpula nazista. 

Fest comenta a foto abaixo dizendo que, não fossem os personagens serem quem são (Speer e Hitler sentados pensativos e afastados num banco), qualquer pessoa diria que se tratava de uma evidente crise de um relacionamento romântico:


Speer e Hitler, uma relação delicada

Foi estranha, realmente, a atitude de Speer nos últimos dias do Terceiro Reich. 

No último aniversário de Hitler (20 de abril de 1945) ele esteve no bunker para parabenizar o Führer, quando os soviéticos estavam a poucos quilômetros dali. Desafiando todos os riscos, retornou dois dias depois para, segundo se justificaria mais tarde, não parecer covarde e e se despedir adequadamente do seu líder. 

Apesar do perigo a que se expôs e das poucas horas de conversa que o líder nazista lhe concedeu, o adeus foi frio e convencional. Havia algo, digamos, diferente no relacionamento entre os dois. 

Nada conclusivo ou levado às últimas consequências, entretanto. Hitler era, ao que tudo indica, incapaz de se relacionar ou de se sentir parte de um grupo ou um envolvimento amoroso de qualquer espécie, o que deixou sem solução este seu desejo mórbido de pertencer. 

Provavelmente, nenhuma imagem revele mais este sentimento (que representa - no fundo - o sonho do retorno a uma infância perdida e idealizada) do que a foto abaixo, em que observa a maquete da planejada reconstrução de sua cidade natal, Linz, feita às pressas pelo arquiteto Hermann Giesler em fevereiro de 1945, quando dois milhões e meio de soldados soviéticos já batiam às portas de Berlim. 


Hitler admira uma maquete enquanto a Berlim real desmorona

O arquiteto favorito Albert Speer tentava, então, garantir alguma sobrevida à indústria de armamentos, bem como (na surdina) convencer os oficiais e gauleiters (líderes provinciais) nazistas a não cumprirem a ordem que Hitler lhes dera para destruir toda a infraestrutura alemã, na sua "estratégia" final de terra arrasada, o famigerado "Decreto Nero" (Befehl betreffend Zerstörungsmaßnahmen im Reichsgebiet"). 

Enquanto pôde, Hitler passava horas admirando a maquete de sua cidade natal, não se importando para os milhares de soldados, jovens e idosos mal treinados, que defendiam as ruas destroçadas da capital alemã. 

Não se tratava só de escapismo, algo em que o Führer era viciado, por assim dizer, mas também um saudosismo extemporâneo que o fazia viver pateticamente a versão real (e covarde) do “rosebud” de Charles Foster Kane, o “Cidadão Kane”, filme de Orson Welles (1941).


No começo de sua história, nada indicava que Hitler teria o poder que alcançou. Era austríaco de nascimento, pobre e um candidato medíocre a artista (arquitetura e pintura eram suas paixões mal resolvidas). Lutou na Primeira Guerra Mundial pelo exército alemão, desempenhando funções de mensageiro nas trincheiras da França, tendo sido promovido a cabo no final do embate. 

Aliás, aí já poderia ter sido barrado seu progresso político, pois legalmente não podia ter se integrado às tropas alemãs por ser cidadão austríaco. Uma série de manipulações legais e omissões das autoridades (ir)responsáveis pavimentou o seu caminho político na Alemanha. 

Por outro lado, se tivesse sido aceito na escola de Belas Artes de Viena, o mundo teria sido poupado de suas atrocidades. Ainda antes da Primeira Guerra, viveu numa espécie de pensionato masculino de Viena, sustentando-se com suas pinturas sofríveis, que eram inclusive comercializadas por mercadores de arte judeus. 

Até então, não havia nenhum traço de antissemitismo no seu discurso, que ele exercitava nas reuniões comunais do Lar dos Homens de Viena. 

Tudo indica que tenha sido este relacionamento comercial com judeus que o fez querer se informar mais sobre eles, tendo caído em suas mãos farto material antissemita, mas este é um tema que ele só abordaria de forma sistemática e doutrinária (transformando-o em dogma) em Munique após a Primeira Guerra - Kershaw cita à p. 125 a referência explícita aos judeus em um único discurso de 1920 -, na formação do partido nazista e nas reuniões de cervejaria, numa das quais tentaria o golpe (“putsch”) de 9 de novembro de 1923. 

O fracasso do putsch e a prisão decorrente em Landsberg terminariam, por assim dizer, de “formatar” o seu pensamento radical. Nos seis meses em que ficou preso em Landsberg, dedicou-se à leitura de Darwin e Nietzche, e ali desenvolveu a sua versão tresloucada de “darwinismo social” que o acompanharia até o último dia no bunker, como bem mostra o filme “A Queda”, em que diz que se o povo alemão não fosse capaz de vencer a guerra, deveria ser extinto segundo a sua mórbida teoria de “seleção natural”. 

Ali em Landsberg, de certa forma, transformou-se na encarnação do Übermensch ("Super-Homem") de Nietzche, que faz o que quer sem compaixão e toma o máximo poder sem considerações ou limitações "menores" de cunho humanístico ou religioso.

Dali por diante, houve uma sucessão de infortúnios para a República de Weimar, a quem Hitler culpava pela rendição e decadência alemã pós-guerra. 

Fiel à sua política de tudo ou nada (que manteve até o final), bateu de frente com todos os demais partidos políticos alemães, que, por sua vez, perderam todas as muitas oportunidades que tiveram de barrar a radicalização nazista que chegou ao poder em 30 de janeiro de 1933, diga-se a seu favor (e por incrível que pareça), de forma legítima e democrática (dentro do que era possível ser "democrata" naqueles tempos). 

Hitler atribuía essa trajetória àquilo que ele chamava de “Providência”, embora não houvesse neste termo nenhuma referência religiosa de qualquer espécie, pois abominava tanto católicos como protestantes na Alemanha, vítimas constantes de suas catilinárias petit comité, mas não media esforços para manipulá-los, e estes se submetiam de bom grado, com raras (e facilmente extermináveis) exceções. 

O “deus” de Hitler era ele mesmo, e por “Providência” ele entendia a própria vontade, à qual misticamente reservava um “triunfo” final. 

Não por acaso, “O Triunfo da Vontade”, filme de Leni Riefenstahl (1935), filme autolaudatório nazista, reflete este tema recorrente dos discursos de Hitler, em que ele apelava para uma espécie de “destino manifesto” reservado para o Führer à frente da raça ariana, na forma daquilo que seria posteriormente conhecido por “pensamento positivo”, ou seja, bastava ele querer e pensar, que seus objetivos seriam magicamente alcançados, por mais maléficos ou impossíveis que parecessem a princípio. 

Lamentavelmente, qualquer semelhança com o discurso triunfalista atual, especialmente de cunho religioso, não é mera coincidência. 

Retórica, portanto, era a grande força de Hitler. Seus dotes teatrais não reconhecidos em Viena vinham agora à tona da pior forma possível. Alicerçou no antissemitismo o inimigo que despertou os instintos mais primitivos no povo alemão, encontrando enorme ressonância interna e externa, já que somente ele tinha coragem de dizer e transformar em política de Estado aquilo que boa parte da elite mundial pensava, mas temia admitir. 

Graças à astúcia e ao talento maligno de Goebbels (foto abaixo), por outro lado, soube - como ninguém antes dele – explorar os requintes sub-reptícios da propaganda. Goebbels se revelaria - também - um "profeta pela metade", já que em 1943 diria: "Ficaremos na história como os maiores estadistas de todos os tempos ou como seus maiores criminosos". A última opção venceu.
Goebbels, o "profeta" do mal


O que a biografia de Kershaw deixa claro é que havia, de fato, uma misteriosa “Providência” agindo na vida de Hitler e nos destinos do povo alemão. Não foi só a omissão e a estultícia dos políticos adversários que permitiram a ascensão de Hitler ao poder, numa autofagia imperceptivelmente programada da República de Weimar. 

As instituições alemãs foram se submetendo pouco a pouco aos delírios do Führer, sem que para isso ele precisasse fazer muita força. Basta dizer que o reles cabo do fim da Primeira Guerra Mundial (1918) viu cair no seu colo vinte anos depois, por incompetência e escândalos pessoais dos seus generais, o comando da Wehrmacht, o Exército alemão. 

Nas demais áreas, paradoxalmente, o seu estilo desastroso de liderança contribuiu em muito (instintiva e inadvertidamente) para que seu poder fosse reforçado. 

Hitler era um administrador medíocre, e por isso se cercava de várias esferas de poder que se sobrepunham e confundiam, mas estavam todas debaixo do guarda-chuvas de sua vontade suprema. 

Gente desocupada e desqualificada se agarrava ao partido para alcançar cargos aos quais jamais chegariam pelas vias regulares em tempos "normais". Seus "talentos" pessoais e laborais se circunscreviam à maldade e à perversão. 

Os muitos chefetes competiam não só pelo poder como pelos favores do Führer, e isto fazia com que todos tratassem de agradá-lo o máximo possível, desempenhando com afinco aquilo que ficou conhecido como “o trabalho de Hitler”. 

O líder nazista não precisava sujar as mãos na execução de suas ideias macabras, sobretudo quanto ao holocausto e à posterior "solução final" para os judeus. Havia uma legião de fanáticos aproveitadores sempre dispostos a auxiliá-lo e a se anteciparem às próprias vontades do líder-ídolo. 

Este, por sua vez, traçava as linhas gerais nos seus discursos de ódio, e sua corja de admiradores obsessivo-compulsivos tratava de levá-las a cabo (leia-se: "às últimas consequências"), interpretando nas entrelinhas o que correspondia à “vontade de Hitler”, o que provocou uma metástase em toda a sociedade alemã, já que indivíduos inexpressivos se sentiam autorizados a implementar medidas bizarras que entendiam como “sintonizadas” com os desejos mórbidos de seu líder supremo. 

Os objetivos do Estado alemão eram os objetivos de Hitler, o totalitarismo personificado que determinava a seu bel prazer os destinos de corações e mentes do país. 

É claro que houve uma tímida oposição à barbárie instalada no país, mas os adversários eram sumariamente eliminados ou presos. O fanatismo era a regra que contaminou praticamente toda a população alemã. 

A “Providência” se revelou ainda nas muitas oportunidades que houve para assassinar Hitler, única alternativa que restava aos poucos militantes contrários. Em todas as tentativas (a maioria não chegou a ser descoberta), sempre houve algum empecilho ou imprevisto de última hora que impossibilitou a consumação do atentado. 

O último deles, a famosa Operação Valquíria, conseguiu explodir uma bomba na Toca do Lobo em 20 de julho de 1944, mas Hitler escapou com apenas alguns arranhões, o que serviu para reforçar nele este apreço desmedido à tal “Providência” (leia-se: a sua própria vontade) que o protegia e o destinava a um triunfo final glorioso. 

Ele se sentia o "iluminado" e as circunstâncias externas apenas confirmavam (e reforçavam) sua autoimagem macabra. Por isso, não havia o que tergiversar: para o Führer era tudo ou nada, preto ou branco, mesmo que milhões de alemães (e dezenas de milhões de outros povos) morressem inutilmente durante este percurso trágico. O destino de todos, ainda que imaginário e individualmente pensado, já estava traçado na cabeça de Hitler. 

Talvez outro tipo de "Providência" tenha se revelado, entretanto, quando o Führer abortou o programa nuclear antes do começo da guerra, e tenha interferido tanto nos projetos do avião a jato e das bombas voadoras (V1 e V2) que eles sofreram um brutal atraso que só os tornou viáveis no fim do conflito e - pior para os alemães - quando não havia nem combustível suficiente para fazê-los voar. Tarde demais para o Terceiro Reich.

Propaganda russa contra Hitler
Numa tradução livre, diz algo como
"Destrua impiedosa e cruelmente o inimigo"
sobre um "доровор" ("dorovor" - tratado) rasgado entre URSS e Alemanha


O seu triunfo final, felizmente para a humanidade, não chegou. Todas as vitórias eram saboreadas e “faturadas” por Hitler como comprovação de sua fiel “Providência”, até chegar a Stalingrado, quando sofreu a primeira (e talvez maior) derrota em fevereiro de 1943. 

Daí por diante, as forças soviéticas empurraram rapidamente os exércitos alemães de volta a Berlim, num dominó fatídico de generais que foram perdendo suas cabeças e seus cargos, e a quem Hitler imputava a culpa pelos erros estratégicos que eram só dele, o ex-cabo promovido (por si mesmo) a chefe do Estado Maior das Forças Armadas. 

Seus quartéis generais foram se deslocando de Wehrwolf (em Vinnytsia, na Ucrânia), para a Toca do Lobo (Wolfsschanze) em Rastenburg, na Prússia Oriental (atual Kętrzyn, na Polônia), terminando por se enfurnar nos subterrâneos da outrora esplendorosa Chancelaria de Berlim, com sua ostentação de granitos e mármores que para nada mais serviam senão testemunhar gelidamente o fim de seu criador. 

Até seu último momento no bunker, esperou por uma virada do destino que não veio. A “Providência” finalmente lhe mostrou a cara, e lhe negou o beijo de despedida, porque simplesmente ela só existia nos seus delírios e em sua megalomania, provocados em larga escala (também) pelos muitos remédios que tomava, inclusive um misterioso colírio à base de cocaína. 

Justo ele que era vegetariano e prezava (e pregava) tanto os hábitos saudáveis, revelou ser também um hipocondríaco contumaz. 

Seu ocaso no bunker de Berlim revela a miséria humana de que era emocionalmente constituído, e também o cercava com seus asseclas procurando, como baratas tontas, uma via de escape. 

Os últimos dias de Hitler foram o de um rato preso na própria ratoeira, sem esperança de salvação. 

Atitudes patéticas foram tomadas, como movimentar exércitos imaginários em mapas defasados, condenar à morte traidores de última hora e assinar decretos inúteis que não seriam lidos nem cumpridos por ninguém. 

A última foto registrada de Hitler fora do bunker mostra o seu desalento final:


O fim

É muito fácil e cômodo chamar Hitler de “psicopata” ou “monstro”, mas lamento dizer que todas as evidências apontam no sentido de que ele era tão humano como qualquer um de nós. Demasiado humano, talvez.

Tende a se tornar perene a questão sobre como se deu essa mescla tenebrosa de vontades de um líder carismático com o seu povo. 

É este o enigma aparentemente insolúvel: como foi que milhões de pessoas "normais" se deixaram enredar e engolir pela máquina de destruição nazista, o maior turbilhão de maldade que a humanidade experimentou. 

O discurso incendiário de um único homem não seria capaz de fornecer ignição suficiente para tamanha fogueira. 

Afinal, a Alemanha já era à época um país sofisticado, de altos níveis de educação e cultura, ainda que humilhado pela derrota na Primeira Guerra e os graves problemas econômicos e sociais (sobretudo a hiperinflação) daí advindos. 

A busca do bode expiatório nos judeus e comunistas, estranhamente associados por Hitler, teve ampla aceitação popular que pode não ter sucumbido com a acachapante derrota final. 

Nesse aspecto é sintomática a declaração de Hanna Reitsch (foto abaixo), heroína aviadora reconhecida no mundo todo e que só veio a falecer em 1979. 

Quatro dias antes do suicídio de Hitler, após um voo e aterrissagem altamente perigosos e improváveis junto ao Portão de Brandenburgo, ela esteve no Führerbunker juntamente com Robert Ritter von Greim (que assumiria o lugar de Hermann Göring na Luftwaffe naquele mesmo dia), e muito a contragosto deixou o bunker a mando de Hitler dois dias depois, já que lhe devotava verdadeira adoração. 

Em 1970, ela se justificaria numa entrevista ao jornalista americano Ron Laytner de maneira contundente: "E o que nós temos agora na Alemanha? Uma terra de banqueiros e fabricantes de carros. Até o nosso grande exército se tornou suave. Soldados usam barbas e questionam ordens. Eu não estou envergonhada em dizer que eu acreditava no Nacional-Socialismo. Eu ainda visto a Cruz de Ferro com diamantes que Hitler me deu. Mas hoje em toda a Alemanha você não consegue encontrar uma simples pessoa que votou e levou Adolf Hitler ao poder... muitos alemães se sentem culpados pela guerra. Mas eles não explicitam a real culpa que nós compartilhamos - a de que nós perdemos..."


Hanna Reitsch cumprimenta Hitler


A meu ver, o conjunto da biografia de Ian Kershaw corresponde àquilo que outra Hannah - Hannah Arendt (1906-1975) -, a grande filósofa judia de origem alemã, com o seu refinado senso de humor (que beira o sarcasmo), consegue chegar ao âmago da questão da colaboração massiva da população alemã com os nazistas, no seu livro escrito em 1963, "Eichmann em Jerusalém - um relato sobre a banalidade do mal" (Companhia das Letras, 1999). 

Primeiramente, na constatação que Adolf Eichmann faz (contrariado) sobre Hitler na entrevista que havia concedido secretamente (em 1955) na Argentina, ao - colaborador nazista e também fugitivo - jornalista holandês Willem S. Sassen (pp. 142-143): "Muito típica disso foi sua última palavra sobre o assunto Hitler - a quem ele e seu camarada Sassen haviam combinado 'deixar de fora' em sua entrevista; Hitler, disse ele, 'pode ter estado errado do começo ao fim, mas uma coisa está acima de qualquer dúvida: esse homem conseguiu abrir seu caminho de cabo lanceiro do Exército alemão até Führer de um povo de quase 80 milhões [...] Bastava o seu sucesso para me provar que eu devia me subordinar a esse homem'. Sua consciência ficou efetivamente tranquila quando ele viu o zelo e o empenho com que a 'boa sociedade' de todas as partes reagia ao que ele fazia. Ele não precisava 'cerrar os ouvidos para a voz da consciência', como diz o preceito, não porque ele não tivesse nenhuma consciência, mas porque sua consciência falava com 'voz respeitável', com a voz da sociedade respeitável a sua volta". 

O relato de Hannah Arendt sobre Eichmann tem o surpreendente condão de revelar (e resumir) toda uma sociedade mediante a análise de um único indivíduo, como se percebe claramente às págs. 64-65 do seu livro referido acima:


Hannah Arendt
No entanto, o caso de Eichmann é diferente do criminoso comum, que só pode se proteger com eficácia da realidade do mundo não criminoso dentro dos estreitos limites de sua gangue. Bastava a Eichmann relembrar o seu passado para se sentir seguro de não estar mentindo e de não estar se enganando, pois ele e o mundo em que viveu marcharam um dia em perfeita harmonia. E a sociedade alemã de 80 milhões de pessoas se protegeu contra a realidade e os fatos exatamente da mesma maneira, com os mesmos auto-engano, mentira e estupidez que agora se viam impregnados na mentalidade de Eichmann. Essas mentiras mudavam de ano para ano, e frequentemente se contradiziam; além disso, não eram necessariamente as mesmas para todos os diversos níveis da hierarquia do Partido e para as pessoas em geral. Mas a prática do auto-engano tinha se tornado tão comum, quase um pré-requisito moral para a sobrevivência, que mesmo agora, dezoito anos depois do colapso do regime nazista, quando a maior parte do conteúdo específico de suas mentiras já foi esquecido, ainda é difícil às vezes não acreditar que a hipocrisia passou a ser parte integrante do caráter nacional alemão. Durante a guerra, a mentira que mais funcionou com a totalidade do povo alemão foi o slogan "a batalha pelo destino do povo alemão" [der Schicksalskampf des deutschen Volkes], cunhado por Hitler ou por Goebbels, e que tornou mais fácil o auto-engano sob três aspectos: sugeria, em primeiro lugar, que a guerra não era guerra; em segundo, que fora iniciada pelo destino e não pela Alemanha; e, em terceiro, que era questão de vida ou morte para os alemães, que tinham que aniquilar seus inimigos ou ser aniquilados.




A conclusão de Hannah Arendt é para mim, portanto, brilhante. Hitler e Goebbels conseguiram convencer os nazistas e - pior - o povo alemão de que ninguém era culpado por nada, mas a tal "Providência" os havia colocado naquela situação sem volta, o beco sem saída do destino triunfal ariano e antissemita, que o Führer chamava de busca do "espaço vital" (Lebensraum) pangermânico. 

Era este o Éden que prometia aos alemães: a colonização de toda a Europa, sem compaixão, escrúpulos ou culpa, e com todos os benefícios espúrios (e despojos) advindos da eliminação "pura" e simples de todas as populações concorrentes. Era esta a visão hitlerista do darwinismo. 

Por isso fica difícil "romantizar" a questão da participação coletiva dos alemães nessa empreitada fatídica, como se tivessem sido todos enganados por um único estelionatário carismático. 

Tanto os jovens soldados que morreram nos campos de batalha, como o povo que padecia e sucumbia aos constantes bombardeios aliados na segunda metade da guerra, realmente acreditavam nas ideias fascistas de seu Führer, e mesmo nos estertores do regime, ainda esperavam que a "sorte" (ou "Providência") que tanto auxiliara Hitler na sua ascensão ao poder e no início do conflito, reapareceria como que num passe de mágica, dando-lhes tempo para reagrupar as forças e eles continuariam lutando pelos mesmos objetivos racistas e totalitários que por pouco não os havia dizimado. 

Se havia descontentamento contra Hitler no final da guerra, era muito mais pelo custo humano que ela causava e pela evidente (e vergonhosa, para o espírito belicista alemão) impossibilidade de vitória, do que propriamente por discordância das ideias nefastas do Führer. 

Na metáfora que consigo captar de toda essa tragédia, a imagem funciona como se Hitler fosse o maquinista de um trem macabro que fez algumas paradas no início do trajeto, recolheu toda a população alemã e empreendeu alta velocidade com destino a Lebensraum

Conforme o comboio avançava (e perdia os freios), milhões de judeus e de outros excluídos foram sendo descartados nos precipícios que margeavam a ferrovia, enquanto outros tantos milhões de jovens soldados alemães, soviéticos e de outras nacionalidades eram impiedosamente atropelados pela enorme locomotiva nazista, a que Hitler batizara pelo eufemismo de "Providência". 

Já que estavam todos embarcados mesmo, não havia o que fazer, senão esperar o desfecho. Só que o maquinista - covardemente - se suicidou ao saltar da locomotiva no último momento, e por sorte - ou por outro tipo benfazejo de "Providência" - a composição conseguiu parar antes da aniquilação completa e ainda sobrou uma enorme população para reconstruir a Alemanha. 

Sintomático, contudo, que a população da Alemanha reunificada seja hoje praticamente a mesma que os 80 milhões à época do nazismo, como Hannah Arendt bem cita no texto acima.



Talvez a única contribuição do horror nazista à humanidade seja o fato de que tenhamos nos convencido de que o ser humano é capaz de perpetrar as mais inimagináveis atrocidades e as gerações posteriores de líderes mundiais tenham se tornado cientes de que uma nova guerra mundial também seria a última, e por isso evitassem a todo custo acender o derradeiro estopim. 

O mundo não se tornou mais seguro, entretanto, pois vivemos até hoje as consequências nefastas do conflito encerrado em 1945. 

Basta citar um exemplo: a fundação do Estado de Israel, que representou - de certo modo - o cumprimento da “profecia” de Hitler de que os judeus seriam “varridos da Europa”, continua influenciando os destinos do planeta. 

A recente crise no Egito reflete a insegurança causada pelos conflitos na Palestina e remete à besta religiosa que está sempre pronta a despertar. 

Por outro lado (e paradoxalmente), se o fator Hitler não tivesse existido as tensões então latentes poderiam ter se esgarçado bem mais tarde e de forma muito mais letal, dando destino terminal ao planeta. 

As máquinas e armas utilizadas na Segunda Guerra rapidamente se transformaram em peças de museu. Houvesse o conflito estourado uma década mais tarde, talvez não estivéssemos mais aqui contando a história. 

Enfim, o mundo continua tão perigoso e contraditório quanto era no nem tão longínquo ano de 1939. O caldeirão de ódio, fanatismo, preconceito e intolerância continua cozinhando em fogo brando, mas sempre pronto para estourar ao menor descuido. 

A diferença, para nossa acalentada esperança, é que hoje talvez haja muito mais gente atenta para identificar seus sinais e disposta a combatê-los. 

O nazismo não pode ser apenas uma pálida lembrança que a humanidade quer varrer para debaixo do tapete. 

Melhor seria, sem dúvida, nem ter que se preocupar com isso, mas a biografia de Ian Kershaw deve ser lida e recomendada como um alerta de que a História costuma não perder a chance de se repetir.




Leia também:

Hitler: biografias comparadas

Hitler - a biografia por Alan Bullock

Hitler - a biografia por Joachim Fest

sábado, 6 de março de 2010

Malafaia muda o discurso

No seu programa televisivo desta manhã, Silas Malafaia disse que a campanha dos 100x foi um tremendo sucesso, e arrecadou milhões com as ofertas de seus telespectadores. Embora insista em dizer que “não liga para as críticas”, Malafaia mudou o discurso e fez um novo desafio, mas desta vez mais comedido, talvez por - isto é incrível! - ter lido as críticas que lhe foram feitas, e esteja preocupado com o rombo que a campanha dos 100x mais pode fazer na economia brasileira. Afinal, se todo mês ele “liberar uma palavra” de que – no prazo de um ano - os contribuintes vão ganhar 100 x mais que o dinheiro ofertado, a já combalida economia mundial entrará no mais profundo e duradouro colapso. Como se já não bastassem os bancos e os terremotos. Desta vez, Malafaia foi menos, digamos, dadivoso: “liberou a palavra” de que aquele que contribuir com o seu programa neste mês, vai ter cura das enfermidades, vitórias na Justiça, prosperidade meia-boca, assim meio genérica, etc., enfim, todas essas coisas que normalmente acontecem na vida de qualquer pessoa durante um ano. Cá entre nós, a campanha dos 100x parece ter mais apelo popular, já que todo mundo sabe que o órgão mais sensível do corpo humano é o bolso, e poucas coisas na vida despertam mais as glândulas salivares do que o dinheiro fácil. Habacuque e os cassinos que o digam...

Malafaia ainda agradeceu algumas pessoas não crentes por serem grandes ofertantes, talvez esperando promover um concurso sobre quem contribui mais, os crentes ou descrentes. O fato é que ele sabe manipular como poucos a camuflada diferença que existe entre fé e vontade de crer. Ainda que este seja um tema que mereça ser mais aprofundado, ter fé – do ponto de vista cristão – é algo bem diferente da vontade de crer. A fé é espiritual, verdadeiro dom de Deus, que concede ao homem a capacidade de ver além dos limites físicos do mundo material, e assim enxergar a sua própria miséria. A vontade de crer é emocional, e pode ser dirigida a qualquer coisa, não necessariamente mística, como acontece, rotineiramente, no conto do bilhete premiado. No caso da “palavra liberada” por Malafaia hoje, por exemplo, de nada vai valer o juiz decidir o processo nos próximos meses, conforme ele mesmo se havia proposto, já que a parte vai entender isso como uma resposta à oferta ao pastor. Assim, fica fácil a “palavra liberada” funcionar, já que o autoengano está sempre a postos para convencer o autoenganado de que um fato corriqueiro da vida é um suposto milagre. E o pastor tem ainda o bônus de dizer que, se nada aconteceu, o ofertante não teve fé. Se nem percebem que o discurso do “imune a críticas” mudou, uai...

A experiência mostra que nem sempre é possível juntar a fé à vontade de crer, como acontece com suas primas distantes, a fome e a vontade de comer. Se bem que – pensando melhor - elas nem são tão distantes assim, já que tem muita gente na igreja querendo juntar essas duas últimas priminhas, né não?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Não precisa "unção": é só consultar a internet



Tive a oportunidade de ver um dos testemunhos que o Silas Malafaia recolheu - depois do vendaval de críticas - para mostrar à humanidade que a "unção" da Bíblia de 900 reais do Morris Cerullo realmente "funciona" para quem a comprou. 

Alerte-se, entretanto, que esses depoimentos e testemunhos devem ser analisados com a necessária reserva, pois qualquer religião que se preze está cheia de pessoas que fizeram as suas mandingas e cumpriram as suas superstições e tiveram os seus pedidos atendidos pela divindade que eles alegam servir. Nunca se deve desprezar o poder do auto-engano.

No testemunho em questão, um rapaz de Araras (SP) diz que comprou a Bíblia do Cerullo por 900 reais e depois de algum tempo recebeu a ligação de seu advogado, que lhe disse que determinada quantia, muitas vezes maior que o dinheiro aplicado na "unção", estava finalmente liberada para ele depois de uns 12 anos de trâmite judicial. 

Convenhamos: a Justiça brasileira tem a triste fama (justificada) de ser extremamente morosa, e 12 anos é um tempo mais que razoável para se chegar ao final de um processo e executar a sentença que lhe corresponde. 

Além disso, hoje todos os tribunais brasileiros, de todas as varas especializadas (Cível, Criminal, Trabalho, etc.) disponibilizam as informações de todos os processos na internet.

Bastaria ao rapaz em apreço consultar a internet para verificar em que estágio estava o seu processo e preparar, inclusive, para cobrar seu advogado quanto aos resultados, o que é um direito seu. 

Ou seja: não precisava comprar uma Bíblia a 900 reais pra que isso acontecesse. 

Mais dia, menos dia, o seu dinheiro seria liberado, como acabou acontecendo. 

Agora, obviamente, é natural que ele associe uma coisa à outra, numa espécie de auto-indulgência para se justificar mentalmente a si mesmo por ter gastado tanta grana numa Bíblia que ele já tinha. 

Afinal, nunca se deve desprezar o poder do auto-engano.

domingo, 16 de agosto de 2009

O conto do bilhete premiado


No meio da balbúrdia que assola a igreja evangélica no Brasil, tenho uma dúvida cruel: o que leva alguém a seguir um falso profeta e acreditar em tudo o que ele diz? Qual é a motivação que está por trás dessa conduta? 

Obviamente, há muitos fatores que influenciam uma pessoa a entrar num regime de obediência cega a um líder religioso, sem questionar o seu testemunho e a sua pregação. 

Chamar os seguidores de “fanáticos” me parece uma generalização inócua, que descamba para o pejorativo quando poderia (ou deveria) ser elucidativo. Banaliza mais do que explica. 

Proponho, portanto, algumas razões que me parecem cabíveis numa análise mais aprofundada, a título de contribuição para o debate. 

Esta lista não pretende ser exaustiva, mas exemplificativa de motivos que podem ser ampliados, intercambiados, mesclados e/ou recombinados, numa tentativa de dissecar este fenômeno:

1) instinto religioso – esta é uma questão ainda muito pouco estudada no meio acadêmico. Já existem alguns trabalhos bastante interessantes sobre o instinto moral, área em que Steven Pinker é o maior e melhor referencial (clique aqui para maiores detalhes). 

O fato, entretanto, é que o ser humano parece ser naturalmente condicionado a crer num poder superior, e mesmo aqueles que observam a questão do ponto de vista ateu, consideram o instinto religioso como um fator agregador da evolução, que deu aos primeiros ajuntamentos humanos um poder de coesão em torno de objetivos ditados por um ente superior através de seus enviados, o que lhes permitiram enfrentar os inimigos e as adversidades naturais de forma muito mais organizada e competente. 

É curioso verificar que até o ateísmo militante pode ser enquadrado numa espécie instinto (a-)religioso, ainda que de seu objetivo seja negar a divindade. Mesmo que a ciência não tenha chegado sequer perto de esclarecer a questão, as pessoas tendem a se comportar de maneira religiosa, e isto as predispõe, de certa forma, a se comportar de maneira submissa diante de uma divindade, o que nos leva ao segundo fator:

2) temor reverencial – em qualquer religião, toda pessoa que se diz intermediária de uma revelação específica e/ou se apresenta como um canal de comunicação com o divino - enfim, um “sacerdote” de um determinado deus -, assume uma posição de autoridade em relação aos seus seguidores, que estão, de certa forma, predispostos a confiar no seu líder e obedecer as suas determinações sem questioná-las a priori

Há, por assim dizer, uma “aura de divindade” na pessoa do sacerdote, que induz os seus fiéis a uma posição de submissão não só em relação ao ente superior do qual derivam sua autoridade, mas sobretudo quanto a si próprios. 

Em igrejas que se dizem cristãs, falsos profetas sabem manipular essa confusão para atingir os seus objetivos particulares e, muitas vezes, inconfessáveis.

3) o poder do auto-engano – o ser humano parece ter uma séria tendência ao auto-engano. 

Cada um de nós pode ver isso presente em nossas vidas fazendo um exercício muito simples: basta lembrar de um episódio trágico ou doloroso que aconteceu há muitos anos. 

Reparou como a lembrança hoje não dói tanto como efetivamente doeu à época dos fatos? 

Pois é, a nossa memória trata de “dourar a pílula” e ir pouco a pouco amenizando o fato, bem como a encontrar algum lado positivo, por mínimo que seja, no que aconteceu. 

Da mesma maneira – em diferente grau, é verdade – nos comportamos com relação aos fatos e às relações atuais. 

Há um misterioso processo de relativização das coisas, tornando tudo um pouco mais palatável e compreensível. 

Essa questão parece estar diretamente relacionada com o nosso autônomo instinto de sobrevivência. 

Seria muito difícil encarar a vida como ela é, os fatos como eles são, nus e crus, de maneira seca e hiper-realista. 

Por isso, quando o falso profeta prega algo herético, que soa mais a uma aberração, seus seguidores tendem a racionalizar o que ele disse e torná-lo, de alguma maneira, mais – digamos – digerível pelo intelecto. 

O auto-engano é algo tão poderoso que as pessoas fogem até da Bíblia para verificar se o que foi dito é realmente bíblico. Preferem simplesmente se “acostumarem” a elas, nem que para isso precisem repetir verdadeiros mantras evangélicos a si mesmos. 

Como diz Eduardo Gianetti em seu livro “Auto-Engano”, “nada é o que parece: assim como o homem primitivo viveu num mundo de sonho em relação aos fenômenos da natureza, também nós ainda vivemos num mundo de sonho em relação a nós mesmos e pouco ou nada sabemos sobre as causas verdadeiras de nossas ações na vida prática.”

4) o comportamento de manada – o auto-engano pode ser – muitas vezes – coletivo. Embora o comportamento de manada seja um fenômeno mais facilmente verificado no mercado financeiro, nas igrejas podemos constatá-lo em muitas situações. 

Por exemplo, diante de algo absurdo que o líder prega, o auto-engano já opera no indivíduo no sentido de amenizar o que ouviu, e ele busca no grupo uma espécie de “confirmação negativa” do seu comportamento, ou seja, ele não quer – verdadeiramente – que o grupo confirme as suas suspeitas de que está sendo enganado, mas o seu inconsciente lhe pergunta: “será que mais ninguém percebeu a barbaridade que eu acabei de ouvir?”. 

Diante da resposta negativa a essa questão íntima, suas emoções obtêm um alívio temporário e ele se sente – de novo – pertencente a um grupo, sem se dar conta de que muitos outros se fizeram a mesma pergunta, e todos preferiram o conforto ilusório de uma manada que seguirá incondicionalmente o seu líder e todos se atirarão no abismo, se preciso for.

5) a preguiça de pensar; 6) a falta de educação e 7) as carências sócio-econômicas – são 3 fatores que estão intimamente associados. 

Entenda-se por “educação” aqui a educação convencional, que deveria ser oferecida pelas escolas públicas, nas quais deveria ser (mas não é) formada a imensa maioria da população brasileira. 

Não é necessária uma detalhada pesquisa estatística para afirmar que existe no ser humano, genericamente considerado, uma tendência ao comodismo e uma aversão à introspecção e ao pensamento crítico. 

Os fatos falam por si mesmos. São poucos aqueles que se dedicam a questionar a própria existência, o grupo, a sociedade e o mundo em que estão inseridos. 

Larga parcela da população acha que fazer isso é pura perda de tempo, e os filósofos são pessoas que não têm nada melhor para fazer e têm tempo de sobra para investigar essas coisas. 

É claro que milhões de pessoas, no Brasil, têm que garantir a sua sobrevivência e a da família e, ainda que quisessem, não encontram tempo nem disposição para uma autocrítica, para a análise da sua situação sócio-econômica, e muito menos para agir visando modificar a situação. 

Por outro lado, muitas pessoas tiveram acesso a uma educação de qualidade e vivem em boas condições, mas se recusam a pensar, da mesma maneira que há outros que não tiveram nada disso e se tornam grandes pensadores, mas essas são exceções que, a meu ver, apenas confirmam a regra. Infelizmente, sempre há gente ingênua ou incauta, e o que varia é sua representatividade na população. 

De qualquer maneira, sempre há uma massa ignara pronta a ser manipulada por líderes religiosos inescrupulosos, e essas pessoas querem melhorar o seu nível social, e aí aberrações - como a teologia da prosperidade - caem como uma luva.

8) falta de instrução bíblica – no meio evangélico brasileiro, pode-se notar uma forte ênfase às revelações particulares dadas aos falsos profetas de plantão, em detrimento do ensino sistemático da Palavra. 

Curiosamente, o livre exame da Bíblia pelo crente foi um dos pilares da Reforma Protestante, já que, até então, este estudo era limitado a um número pequeno de pessoas e de centros de ensino. 

Atualmente, esta boa prática não é mais incentivada pela Igreja brasileira, que está muito mais próxima da heresia montanista do que da ortodoxia cristã. 

O montanismo foi um movimento do século II, fundado – como o nome indica – por Montano, cujos adeptos se diziam portadores de revelações particulares do Espírito Santo, às quais a igreja deveria se submeter. 

A seu favor, em comparação com as “profetadas” atuais, deve-se dizer que o cânon do Novo Testamento não existia – pelo menos como o conhecemos hoje – na época de Montano. 

Entretanto, os evangelhos e as cartas apostólicas já circulavam entre as igrejas, como uma maneira de uniformização do ensino e da pregação (a chamada “ortodoxia”). 

Na igreja evangélica brasileira do século XXI, o cânon já está fechado há quase 2 milênios, e mesmo assim sempre aparece alguém com uma revelação nova que pretende impô-la aos seus seguidores. 

“O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta conhecimento”, diz o Senhor (Oséias 4:6). E “toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça” (2 Timóteo 3:16). 

Os falsos profetas mantêm o povo afastado do estudo bíblico porque sabem que, se conhecerem a verdade, deles se libertarão (João 8:32). 

 Oferecem-lhes como alimento um leite estragado, envenenado pelos seus delírios. “Ora, qualquer que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, pois é criança; mas o alimento sólido é para os adultos, os quais têm, pela prática, as faculdades exercitadas para discernir tanto o bem como o mal” (Hebreus 5:13-14). 

É claro que muito desta desídia bíblica se explica (mas não se justifica) pelas deficiências culturais e sócio-econômicas, mas há que se destacar, também, a formação nominal como cristão do povo brasileiro, geralmente na Igreja Católica. 

Há, portanto, uma certa identificação de se pertencer a uma determinada religião, sem entretanto entendê-la ou praticá-la. 

Este é um fenômeno muito presente nas igrejas protestantes brasileiras, que não sabem de onde vêm, o que são, nem para onde vão, mas analisaremos isso um pouco mais no item seguinte:

9) o desprezo à ortodoxia – o próprio nome – ortodoxia – já gera uma certa confusão (quando não repulsa), por não se compreender o sentido exato do termo, hoje genericamente associado à tradição oriental da Igreja cristã. 

Por “ortodoxia” deve ser entendido o conjunto de doutrinas comuns a todos os ramos históricos da Igreja cristã, ou seja, os católicos, os ortodoxos orientais e os protestantes, por se tratar de um período em que a Igreja não estava dividida, quando aconteceram os primeiros concílios (Jerusalém, Nicéia, Constantinopla e Calcedônia), em que as bases fundamentais do cristianismo foram estabelecidas. 

A imensa maioria dos cristãos nominais brasileiros (católicos e evangélicos incluídos) simplesmente desconhece a História da Igreja. 

Sabem que existem doutrinas como a da Trindade, a da Encarnação, mas desconhecem o porquê de crer nelas. 

Se já não chegam à Igreja como criaturas pensantes, não é lá que vão aprender a pensar. 

Conhecer a História da Igreja é essencial para saber qual é a grande tradição ortodoxa comum a todas as confissões cristãs históricas e compará-las com o que estão pregando no culto das 19 horas. 

Até se pode argumentar que a Reforma Protestante combateu a tradição oral que serve de fundamento para muitas doutrinas católicas, mas mesmo as igrejas ditas “protestantes” mantiveram a fidelidade à ortodoxia, que hoje se deteriora devido às muitas interpretações particulares que extraem – a fórceps – significados totalmente esdrúxulos de textos fora de contexto, apenas para justificar os interesses escusos dos falsos profetas.

10) o bilhete premiado – não se pode esquecer do ser humano individualmente considerado. 

Muita gente decide seguir falsos profetas porque está obtendo alguma vantagem com isso, seja ela qual for. Tiago (1:14) já dizia que “cada um, porém, é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência”. 

A palavra grega traduzida por “engodado” - δελεάζω - deleazō - significa também “fisgado”. 

Líderes heréticos se aproveitam desse desejo tipicamente humano de se dar bem, para jogar a sua isca e arregimentar seguidores. 

Por isso, muita gente, embora não admita, vê a igreja como um negócio, não só para quem a dirige, como também para os seus liderados. 

Não se trata necessariamente de uma vantagem ilícita ou imoral, mas de algum conforto material ou emocional que advém do simples fato de se frequentar uma determinada igreja. 

Guardadas as devidas proporções, se assemelha muito com o famoso conto do bilhete premiado, em que um estelionatário se aproveita da cobiça do outro, que se julga esperto, e, fingindo uma ingenuidade bastante conveniente no momento, oferece um bilhete de loteria supostamente premiado porque não tem condições de receber o galardão. 

O pretenso esperto imediatamente se aproveita da aparente ignorância do coitadinho que tem o bilhete premiado, e o compra por uma quantia bem menor, e quando vai receber o prêmio, vê umas orelhas de burro crescendo instantaneamente na sua cabeça. 

Tentou se aproveitar da ingenuidade do outro e agora morre de vergonha por ter caído num golpe tão antigo. Assim são muitos crentes em relação aos falsos profetas que seguem. 

Estes últimos fingem que estão oferecendo um bilhete premiado, que não é necessariamente o céu, mas um paraíso fictício na Terra, de prosperidade e gozo de bens nesta vida, e seus seguidores se fazem de interessados e solícitos em adquirir o passaporte enquanto lhes convém. 

O risco é terminar sendo barrado no paraíso verdadeiro.

11) o silêncio dos justos – por muito tempo, no Brasil, os cristãos protestantes se calaram diante das aberrações que foram surgindo no seu meio, derivadas de divisões de igreja e falsos profetas oportunistas que começaram a inventar fábulas e revelações particulares para fundarem suas próprias igrejas. 

Havia um certo “esprit de corps”, um corporativismo evangélico, que impedia críticas e denúncias de grupos estranhos ao evangelho, que, entretanto, alegavam pregá-lo. Felizmente, este é um procedimento que vem sendo abandonado, só espero que não seja tarde demais.

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