Mostrando postagens com marcador Goiânia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Goiânia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Justiça reconhece vínculo empregatício de bispo da igreja Fonte da Vida


A informação foi publicada no portal Jusbrasil:

Bispo tem reconhecido vínculo empregatício com Igreja Evangélica

Sentença é do TRT/SP

Davi D'lírio

Um bispo que trabalhou para a Igreja Apostólica Fonte da Vida, durante o período de 10/2/1990 a 22/9/2015, conseguiu o reconhecimento do vínculo empregatício, com determinação de registro em carteira.

A decisão é do juiz do Trabalho Diego Cunha Maeso Montes, da 39ª vara de São Paulo/SP, refutou o argumento da igreja de que o reclamante atuava como sacerdote.

Conforme o magistrado, não há qualquer óbice que impeça o reconhecimento do vínculo empregatício desde que preenchidos os requisitos previstos na CLT.
“Com efeito, a onerosidade está presente no fato do autor ter recebido valores mensais da ré, a pessoalidade se faz presente no fato do autor não poder se fazer substituir por outra pessoa, a habitualidade e a subordinação também se fazem presentes, inclusive com a testemunha indicada pela própria ré ter afirmado que o "reclamante fazia a abertura do salão para o início do culto; ... que o reclamante fazia parte de um conselho de bispos, coordenado pelo apóstolo, que definia a forma como a igreja de responsabilidade do autor seria dirigida, coordenada".
Em decorrência do vínculo, o julgador determinou o pagamento ao bispo do saldo de salário, férias vencidas simples e em dobro, décimo terceiro salário, FGTS de todo o período trabalhado e restituição de contribuição compulsória e ministerial que lhe era imposta.

O advogado Eli Alves da Silva, do escritório Eli Alves da Silva Advogados Associados, patrocinou a ação do reclamante.




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Imagens pop revoltam católicos de Goiânia


O caso aconteceu no ano passado e passou meio despercebido, mas ainda levanta polêmica sobre os tênues limites entre arte e blasfêmia.

A matéria foi publicada no Vice em 31/05/16:

A Justiça proibiu uma artista brasiliense de produzir e comercializar suas estátuas de santos pop

DEBORA LOPES

Ofendido, um religioso da Arquidiocese de Goiânia entrou com ação na Justiça e ganhou o caso.

Em fevereiro deste ano, religiosos se incomodaram com as imagens de santos costumizadas pela artista brasiliense Ana Smile, criadora da marca Santa Blasfêmia. Em nota publicada nesta quinta (31), o Tribunal de Justiça de Goiás proibiu a artista de fabricar e comercializar suas estátuas de gesso inspiradas em personagens da cultura pop como Mulher Maravilha, Frida Kahlo, Batman e Galinha Pintadinha. A ação foi impetrada por dom Washington Cruz, religioso da Arquidiocese de Goiânia.

Caso descumpra a ordem, Ana estará sujeita a uma multa de R$ 50 mil. A decisão obrigou também que os perfis da Santa Blasfêmia no Facebook e no Instagram fossem deletados – o que já aconteceu –, e também a retirada dos produtos de uma loja física em Brasília. A decisão cabe recurso.

Na época, o Ministério Público do Distrito Federal recebeu diversas denúncias feitas por religiosos que ficaram ofendidos com as obras. Quando o assunto viralizou na internet, Ana afirmou que estava sendo perseguida e ameaçada nas redes sociais e até mesmo pelo WhatsApp. "Recebi comentários como 'Por que você não faz uma santa com a sua cara sendo penetrada?'", disse a artista para a VICE em fevereiro.

Para Abílio Wolney Aires Neto, juiz da 9ª Vara Cível de Goiânia, ao confeccionar imagens satirizadas dos santos representantes da Igreja Católica, Ana "está deliberadamente extrapolando ao seu direito Constitucional e obstando o direito de imagem da requerente [Igreja]".

A artista Ana Smile foi procurada pela VICE, mas não atendeu as ligações até a publicação desta reportagem.



terça-feira, 5 de julho de 2016

Lei obriga oração do "Pai Nosso" em escolas de cidade goiana

Caro político evangélico, quando você apresenta e/ou aprova um projeto de lei como esse, a mensagem que você está passando é que Deus não é Todo-Poderoso para alcançar Seus santos objetivos neste mundo, e precisa desesperadamente dessa criatura maravilhosa (você, nobre vereador/deputado) para Se fazer Conhecido e Soberano. Entendeu?

Bem, na verdade, todos nós sabemos... o que você quer é se promover, não é mesmo?

Conseguiu! uhulll

A matéria é do G1 Goiás:

Lei obriga alunos da rede pública a rezarem ‘Pai Nosso’ e gera polêmica


Medida foi aprovada e dividiu opiniões em Aparecida de Goiânia, GO.

OAB-GO afirmou que projeto pode ser considerado inconstitucional.

Uma lei que torna obrigatória a oração do “Pai Nosso” antes das aulas das escolas municipais de Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital, causou polêmica entre os moradores da cidade. O projeto foi aprovado e publicado no Diário Oficial da cidade no último dia 23 de junho, mas só deve ser colocado em prática no mês de agosto deste ano.

A lei afirma que “fica estabelecida a obrigatoriedade da realização da Oração Universal do Pai Nosso, nas Escolas Municipais de Ensino Fundamental, Cmeis Públicos e Conveniados do Município de Aparecida de Goiânia”. Ainda conforme o texto, a oração deve ser feita em todas as salas antes do início das aulas.

O vereador Francisco Gaguinho (PSC) é o autor da lei e explicou que criou o projeto pensando na maioria. “Nós vivemos em um país em que 95% das pessoas são cristãs”, afirmou.

O vereador William Ludovico (PTB), no entanto, membro da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal da cidade, acredita que a medida pode ser considerada inconstitucional. “O nosso voto é em respeito à constituição, uma vez que é vedado ao poder legislativo interferir nas competências exclusivas do poder executivo. Por outro lado, a questão que está lá esculpida é de que o país é laico”, afirmou.

A Ordem dos Advogados do Brasil em Goiás (OAB-GO) informou à TV Anhanguera que a lei mistura estado e religião, o que pode ser considerado inconstitucional. A OAB-GO afirmou ainda que quer propor uma votação, mas a previsão é que esta aconteça somente em agosto. Nesta época, a lei já deve entrar em vigor.

Polêmica

Os moradores da cidade tiveram opiniões diversas a respeito da obrigatoriedade. A comerciante Isabel Ana Zanatta afirmou que concorda com a lei. “Você tem que agradecer a Deus e realmente, eu não sou contra não, tem que fazer sim”, disse.

Já o mototaxista Ionei Pereira dos Santos discorda e afirma que a oração não deveria ser obrigatória. “Não tem que ser obrigado não, tem que fazer um convite mesmo. Quem quiser participar, participa, quem não quiser [não participa]”, disse.



quinta-feira, 18 de abril de 2013

Ninguém liga para os mendigos assassinados em Goiânia


Enquanto a imprensa (o Jornal Nacional da Globo sobretudo) gasta linhas e horas falando do atentado em Boston, o "mendigo gato" de Curitiba vira celebridade, evangélicos e gays se digladiam no Congresso, moradores de rua morrem indefesos em Goiânia, sem que ninguém se alarme com o fato, conforme comenta a coluna da Eliane Cantanhêde na Folha de São Paulo de hoje, 18/04/13:

3 versus 30

BRASÍLIA - Com a Comissão de Direitos Humanos da Câmara fechada e 93% dos paulistanos defendendo a redução da idade penal, 29 moradores de rua e mais um viciado são mortos em Goiânia, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Com razão, o planeta está em choque com a morte de três pessoas na maratona nos EUA. E quem está em choque com a morte de 30 infelizes sem amor-próprio e sem proteção do Estado brasileiro?

Ontem, houve uma debandada de deputados da Comissão de Direitos Humanos e dezenas de pessoas continuaram gritando para afugentar o deputado e pastor Marco Feliciano. Nem a portas fechadas a comissão consegue funcionar.

Do outro lado, 40 evangélicos decidiram dar um troco e invadiram a Comissão de Constituição e Justiça para exigir a saída dos deputados José Genoino e João Paulo Cunha, condenados pelo mensalão.

Ao que se saiba, nem os deputados, nem os evangélicos, nem os manifestantes contra Feliciano estão discutindo o que realmente interessa nem a questão mais urgente de direitos humanos: um possível grupo de extermínio na capital de Goiás.

A única estridência partiu da ministra Maria do Rosário, pedindo à Procuradoria-Geral da República que a Polícia Federal entre em ação. A ministra é do PT, e o governador Marconi Perillo, do PSDB, mas a questão não é partidária nem apenas local.

Com tantas mortes há oito meses, não é absurdo supor que a polícia estadual esteja, no mínimo, lavando as mãos; no máximo, envolvida.

Os moradores de rua vêm sendo atacados a tiros, a facadas e espancados até a morte, um atrás do outro, e nada acontece. Até ontem, quando alguns suspeitos foram presos, não havia gritaria, nem manifestações, nem a presença do Congresso e nem mesmo operações diligentes.

É como se as vítimas, já tão punidas pela vida, não fossem nada, apenas um fardo, um acidente. E os direitos humanos, onde ficam?



terça-feira, 24 de julho de 2012

Pai de Cachoeira diz que filho é "um Cristo"


Considerando a quantidade de pilantras que andam tomando o nome de Jesus em vão, não é surpresa que outros se sintam autorizados a fazer a mesma coisa, segundo noticia o UOL:

"Meu filho é um Cristo", diz pai de Carlinhos Cachoeira antes de audiências em Goiânia

Lourdes Souza e Rafhael Borges

A família de Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlos Cachoeira, defende a inocência do bicheiro antes do início das audiências no Tribunal da Justiça Federal, em Goiânia, nesta terça-feira (24). Na chegada ao prédio da Justiça Federal em Goiânia, o pai de Carlos Cachoeira, Sebastião Almeida Ramos, conhecido como "Tião Cachoeira", 82, afirmou que a investigação da Operação Monte Carlo teria sido encomendada pelos réus do mensalão, entre eles o ex-ministro José Dirceu e Delúbio Soares.

"Meu filho é um Cristo, ele está passando por um massacre e seria um bonde expiatório do sistema." Ao afirmar que tem certeza sobre a inocência do filho, ele disse que é a pessoa que mais o conhece. "Sei da sua inocência porque fui eu quem deu tudo pra ele."

Tião Cachoeira passou mal e deixou o prédio do Tribunal da Justiça Federal. Acompanhado de uma filha, ele saiu sem falar com a imprensa. Ele teria sentido falta de ar e não conseguiu acompanhar as audiências. O pai do bicheiro não ficou uma hora dentro do prédio.

A mulher de Cachoeira, Andressa Mendonça, disse que o marido está sendo injustiçado. Para ela, a prisão tem cunho político e provocou a debilidade da saúde do marido, que estaria deprimido. Ela vai acompanhar os depoimentos ao lado de duas irmãs de Cachoeira.

Carlos Cachoeira chegou ao prédio do Tribunal da Justiça Federal às 8h25, escoltado por três carros da Polícia Federal. As audiências foram abertas por volta das 9 horas, com os pedidos dos advogados.

O primeiro a prestar depoimento está sendo Fábio Alvarez Cho, agente da Polícia Federal que coordenou as escutas. O advogado de defesa Ney Moura Teles se opôs a qualquer tipo de imagem porque, segundo ele, os réus foram desrespeitados em um prédio público onde não estão por livre vontade.

Moura disse ainda que a imprensa já julgou sumariamente os réus. “A Justiça Federal não pode compactuar com o julgamento que eles (jornalistas) fazem.”

Desmembramento

Os advogados que defendem os acusados, incluindo Geovani, foragido, pediram para rever o desmembramento do processo para não causar prejuízo aos demais réus. Idalberto, José Olímpio e Lenine não teriam sido intimados, conforme os advogados. Por isso pediram o adiamento.

Representantes do Ministério Público Federal (MPF) se manifestaram pela continuação do processo da forma como está. O juiz federal Alderico Rocha Santos negou pedido de adiamento da audiência sob o fundamento da falta de intimação dos co-réus.

O magistrado também indeferiu o pedido de Lenine tendo em vista que já havia impetrado habeas corpus no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1). A advogada de Carlos Cachoeira, Dora Cavalcanti, pediu a suspensão da audiência até que todos os documentos estejam no processo. A defesa discorda quanto ao mecanismo da senha genérica, que não teria sido juntada ao processo.

Segundo ela, essa senha mostra quem são os reais assinantes das linhas telefônicas. O MPF entende que em alegações finais poderão ser levantadas todas estas questões e também com a oitiva das testemunhas. Por isso, não haveria motivo para adiamento da audiência pelos argumentos apresentados.

Acusados de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e outros delitos pela investigação da Operação Monte Carlo, os réus foram investigados pela Polícia Federal, na Operação Monte Carlo. Hoje (terça 24), 14 testemunhas devem prestar depoimentos, sendo quatro de acusação e dez de defesa.

Amanhã (quarta 25), a expectativa gira em torno dos interrogatórios do bicheiro, Gleyb Ferreira da Cruz, Idalberto Matias de Araujo (o Dadá), José Olímpio de Queiroga Neto, Lenine Araújo de Souza, Raimundo Washington de Sousa Queiroga e Wladimir Garcez. Geovani Pereira da Silva também é réu no processo, mas está foragido.



sábado, 27 de agosto de 2011

Evangélica que se dizia virgem casa grávida e tem casamento anulado

É verdade, você tem razão, é difícil dar um título a este fato com poucas palavras, fica mesmo meio confuso, mas você vai entender. Primeiro, o fato não aconteceu muito tempo atrás em um país distante com costumes religiosos esquisitos. Aconteceu recentemente em Goiânia (GO) mesmo. É que a noiva evangélica passou todo o namoro e noivado dizendo que queria se casar virgem, teve sua vontade respeitada pelo noivo (que não sabemos se era virgem ou não, não fica claro no texto da notícia), só que em plena lua-de-mel - pimba! - ela se revelou grávida. "Cuma"???!!! Isso sim é que é lua-de-fel, não é mesmo?

O passo seguinte foi a anulação do casamento, pedida pelo agora ex-marido e deferida pela juíza da causa, segundo noticia o Consultor Jurídico:

Marido virgem anula casamento com a mulher grávida

A juíza Sirlei Martins da Costa, da 2ª Vara de Família e Sucessões de Goiânia, julgou procedente o pedido de anulação de casamento realizado por um rapaz recém-casado. O autor da ação alega que, embora não mantivesse relações sexuais com a então noiva, descobriu, durante a lua-de-mel, que a esposa estava grávida.

Citada na ação, a esposa contestou a alegação do marido. Durante a audiência, porém, reconheceu os fatos, dizendo que, durante o namoro, era seguidora de uma igreja evangélica. Disse que, com base em sua crença religiosa, convenceu o noivo de que não podia manter relações com ele antes do casamento. Ainda de acordo com a mulher, ela casou-se grávida, mas só descobriu a gravidez durante a lua-de-mel, e assumiu que o marido não podia ser o pai.

Para a juíza, o depoimento pessoal da mulher é prova da existência de um dos requisitos para a anulação do casamento. A juíza determinou a expedição de documentos necessários para que o cartório anule o casamento e condenou a mulherao pagamento das custas e despesas processuais, além dos honorários advocatícios. Com informações da Assessoria de Imprensa do TJ-GO.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Pedófilo tricolor pego no flagra em Goiânia

Os times deviam exigir que seus torcedores só usassem as suas camisas nos estádios, e ainda assim sob estrita vigilância, para evitar associações infelizes como a do vídeo abaixo (com a nota correspondente do jornal O Popular), que mostra como dois homens maiores de idade (um deles são-paulino) foram presos em flagrante por fazer sexo em banheiro público do terminal de ônibus Padre Pelágio, em Goiânia (GO). Para surpresa dos policiais, um dos homens tinha uma câmera digital que registrava fotos de abusos que havia cometido contra um garoto de 12 anos de idade. Pelo menos o incidente serviu para tirar (mais) um pedófilo das ruas.



Notícia d'O Popular:

Sexo no banheiro leva 2 homens para a cadeia

Macloys Aquino

Policiais militares flagraram dois homens, de 21 e de 44 anos, fazendo sexo no banheiro do Terminal Padre Pelágio, ontem. Ao abordá-los, os PMs encontraram uma câmera digital com fotografias do mais velho fazendo sexo com uma criança de 11 anos.

Os dois foram autuados por ato obsceno - artigo 233 do Código Penal - e o mais velho, que tem passagem por furto, responderá em liberdade por estupro de vulnerável, em inquérito instaurado na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).

Um dos policiais disse ter estranhado a movimentação quando entrou no banheiro. "Estavam muito envolvidos, deu impressão de uma pessoa tendo convulsão, batendo na porta do box do banheiro", disse o sargento Valdivino Rosário, do 7º Batalhão da Polícia Militar (BPM).

Ele disse ter percebido quando um dos acusados se exaltou e tentou fugir no momento em que os policiais encontraram a câmera numa mochila. Ele teve de ser rendido para que o levassem à delegacia. "Tinha cena da criança fazendo sexo oral nele e dele sendo penetrado pela criança", detalhou.

Ambos foram liberados por causa da nova Lei 12.403, que alterou o Código de Processo Penal quanto à prisão processual, fiança, flagrante e outras medidas cautelares. Na lei anterior, eles permaneceriam presos.

O acusado disse que a criança das fotografias é filho de um amigo morador da cidade de Nova Glória, cidade a 206 quilômetros da capital. A DPCA apura as informações e pode pedir a prisão do acusado, se comprovado crime contra a criança.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Juiz goiano que cancelou união gay diz que agiu por inspiração divina

A notícia é da Folha.com:

Juiz que cancelou união gay diz que agiu por Deus

JOHANNA NUBLAT
DE BRASÍLIA


"Deus me incomodou, como que me impingiu a decidir", disse o juiz Jeronymo Villas Boas, que cancelou um registro de união estável de um casal de homens na semana passada, em Goiânia.

A declaração do magistrado foi dada na manhã desta quarta-feira, na Câmara dos Deputados, em um ato das frentes parlamentares Evangélica e da Família e de lideranças evangélicas em defesa do juiz.

Apesar de afirmar que sua decisão não é discriminatória e "se resume ao controle de legalidade do ato" específico do casal de Goiânia, que não teria preenchido todos os requisitos necessários para o registro da união, Villas Boas deixou claro seu descontentamento com a decisão do STF que reconheceu a união estável para casais gays. "Eu respeito a Constituição como ela foi escrita."

Em vários momentos de sua fala, o juiz fez referências a Deus e à fé dos presentes. Ao argumentar que um juiz não pode ter medo ao proferir suas decisões, disse temer "a Deus, não aos homens".

Após o ato, questionado sobre a eventual influência da religião na sua decisão, Villas Boas se irritou e ensaiou deixar o local. "Eu, como você, tenho direito a expressar a minha fé e sou livre para exercer o meu ministério. Isso não interfere nos meus julgamentos. Mas sou pastor da Assembleia de Deus Madureira. E não nego a minha fé."

O juiz disse ainda que está tranquilo e seguro da decisão que tomou e que, se não for "impedido por decisão superior", vai fazer o mesmo controle com outros registros de uniões homoafetivas.

Deputados da bancada evangélica presentes declararam apoio irrestrito ao magistrado. "Essa desobediência santa nos inspira", afirmou o deputado Anthony Garotinho (PR-RJ).


Atualização de 23/06/11:

Matéria do Estadão de hoje:

Juiz que anulou casamento gay será julgado

Rubens Santos - O Estado de S.Paulo


O juiz Jerônymo Pedro Villas Boas, de 45 anos, titular da 1ª Vara da Fazenda Pública Municipal e de Registros de Goiânia, será julgado por Corte Especial, anunciou a desembargadora Beatriz Figueiredo Franco, também corregedora do Tribunal de Justiça de Goiás. Ela anulou um ofício do juiz que suspendia o primeiro contrato de união estável homoafetiva da capital de Goiás. Beatriz também determinou que todos os cartórios de registro da cidade produzam o documento.

Segundo a desembargadora, "a leitura (do ofício do juiz) demonstra vício de competência a contaminar a decisão". Ela explicou que à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) não caberia contestação e sim submissão. Quando assim não ocorre, cabe "apuração disciplinar".

"Não fui notificado. Não posso ser julgado à revelia", disse o juiz. Mineiro de Uberaba, ex-militante do PT, Villas Boas diz ter deixado a política quando assumiu como magistrado, há 19 anos. Membro da Igreja Assembleia de Deus, também é vice-presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB).

Ele disse ao Estado que, embora seja evangélico, sua fé não o influenciou. "Frequento a igreja, mas não misturo as duas coisas", afirmou. "Assim como tenho o direito de manifestar a minha fé, não discrimino pessoas e minhas decisões são tomadas à luz da lei."

O deputado federal João Campos (PSDB-GO), líder da Frente Parlamentar Evangélica, divulgou uma moção pública em favor de Villas Boas.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Não quero mais ser evangélico

Artigo do pastor Gilson Souto Maior Junior, da Igreja Batista do Estoril, em Bauru (SP), publicado no Jornal da Cidade:


NÃO QUERO MAIS SER EVANGÉLICO


Não estou brincando! A indignação toma conta de meu ser, pois não dá mais. Evangélico no Brasil virou sinônimo de movimento financeiro religioso, algo meio sem ética – ou totalmente se preferir – em que se rouba e depois ora pedindo perdão a Deus. O “mensalão” de Brasília revela não apenas o que há de pior na política brasileira, mas algo cheira mal na fé evangélica também (ou plagiando o filme, “Fé de mais não cheira bem”). Como é possível alguém orar e dizer que o “financiador” é uma bênção para a cidade? A verdade é que hoje a cristandade está com a síndrome de Geazi, servo do profeta Eliseu (2Reis 5:20-27). Correndo atrás dos tesouros de Naamã, a cristandade gananciosa (2Reis 5:20) mente e camufla situações para justificar seus pecados (2Reis 5:22); pior, esconde o pecado (2Reis 5:24), mostrando a hipocrisia em que vivem (2Reis 5:25). Desta vez foi a gota d’água, ver um pastor, que é deputado distrital – o que já é incoerente, pois ou é pastor ou deputado – e o presidente da Câmara, orando e pedindo a Deus pelo gestor das fraudes, chamando-o de “instrumento de bênção para nossas vidas e para a cidade”. Para a cidade de Brasília eu não sei, mas parece que o gestor financeiro do mensalão foi uma “bênção” para outros. Não é apenas isso (ou tudo isso), mas a Igreja Evangélica no Brasil virou um monstrengo, uma colcha de retalhos, que mistura “alhos com bugalhos”, Bíblia com água e óleo ungido. Os pastores deixaram de ser homens de reconhecida piedade para serem executivos da fé; jogaram no lixo a orientação de Paulo para serem ministros de Cristo, que se ocupassem da leitura da Escritura, “à exortação e ao ensino” (1Timóteo 4:12,13), para serem ministros de si mesmo, onde a “escritura” agora é auto-ajuda, e a exortação e o ensino viraram barganha de promessas. Não me escandalizo mais, pois o que sinto é uma revolta contra aqueles que “seguiram pelo caminho de Caim, e por causa do lucro se lançaram no erro de Balaão...” (Judas 11).

Por isso não me chamem de “evangélico”, pois este termo implicava numa atitude baseada no Evangelho de Cristo. Mas hoje isso virou um termo jocoso e maldoso. Não quero mais compactuar com pastores que vendem e compram igrejas (isso mesmo!) como se fossem propriedades privadas, investimentos financeiros lucrosos. Não quero mais saber deste evangelicalismo sem ética, sem doutrina e que está mandando milhares para o inferno. Chega deste evangelho de faz-de-conta, em que Jesus é apresentado como um “amigão”, mas nunca como Senhor. Chega deste “evangelho” sem cruz, sem vergonha e mentiroso. Com certeza, Pedro está certo quando afirma pelo Espírito Santo: “... Tais homens têm prazer na luxúria à luz do dia... enganam os inconstantes e têm o coração exercitado na ganância. São malditos. Eles se desviaram, deixando o caminho reto e seguindo o caminho de Balaão, filho de Beor, que amou o prêmio da injustiça” (2Pedro 2:13-15).

E agora? Onde estão os apóstolos que pedem dinheiro e se envolvem com as maracutaias religiosas? Onde estão aqueles que oram pelo dinheiro sujo e pedem em nome de Deus que os abençoe? Onde estão aqueles que vendem igrejas com membros e tudo mais? Que pedem “trízimo” (não estou brincando), ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo? Onde estão os profetas com suas “profetadas” e palavras “ungidas”? Onde está a Igreja que diz proclamar em alta voz que o Brasil é do Senhor Jesus? Ouçamos Isaías: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal; que transformam trevas em luz e luz em trevas, e ao amargo em doce, e o doce em amargo!... Por isso a ira do SENHOR acendeu-se contra o seu povo, e o SENHOR estendeu a mão contra ele e o feriu...” (Isaías 5:20,25a).

Aqui não é um julgamento. Que ninguém me venha com a falácia de “Não julgueis para não serdes julgados”, pois isso é um simplismo de que se aproveitam muitos daqueles que são desonestos e usam a Bíblia para justificar suas ações. Diante da injustiça não podemos nos calar, seja ela de um evangélico ou não. Não me chamem de evangélico, pois não quero este evangelho mercadológico. Quero apenas ser cristão, quero apenas seguir a Cristo e viver para Ele.

O autor, Gilson Souto Maior Junior, é pastor sênior da Igreja Batista do Estoril e professor de Antigo Testamento e Hebraico da Faculdade Teológica Batista de Bauru - Fateo

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

As crônicas de Marvin - 14

Sentimentos em comum

Rapidamente subimos a ruazinha e caminhávamos em direção ao Shopping que ficava ali perto.
- Hummm... Então estamos indo para o Shopping, Marvin?
- Bem, não exatamente. – respondi.
Continuamos andando enquanto ela tentava descobrir nosso destino antes de chegarmos. Foi então que chegamos à entrada do Shopping. Do lado de fora, existe um terreno vago, onde geralmente se instalam circos ou parques de diversão. Naquele dia, estava um parque que geralmente se instalava ali todo ano. Era setembro ainda. Não havia muitas chuvas naquela época, por isto era uma época boa de se instalar parques de diversão. Sem chuva, mais clientes.
- Muito bem, aqui estamos...
- O parque? – perguntava Amanda.
- Sim, o parque. Achei que seria legal nos divertirmos um pouco... Afinal de contas, não dá para ficar trancado em casa por todo o feriado...
- É, você tem razão... Mas Marvin, eu não posso entrar neste parque...
A declaração me assustou... Será que havia alguma regra maluca por trás disto? Mas é estranho, este parque já esteve em Goiânia outras vezes e me lembro bem de alguns irmãos comentarem sobre como se divertiram ali...
- Ué, Amanda... Por quê?
- É que eu estou de vestido... Estávamos em uma visita, lembra-se? Bem, vestidos não combinam muito com parques de diversão...
- Ah, você tem razão... Hummmm...
- Se você tivesse me avisado, eu estaria preparada. – me respondeu com um sorriso...
- Não seja por isto. Estamos na frente de um Shopping... Vamos comprar algo mais adequado então!
- O quê?
Antes que ela rejeitasse esta opção, peguei ela pela mão e a levei para o Shopping. Ela bem que tentou negar, mas não teve jeito: fomos até uma loja de roupas, procurar algo para ela.
Bem, neste momento eu tenho que confessar que não poderia ter cometido erro maior que este. A combinação de mulheres mais lojas de roupas nunca foi tão desastrosa para os homens que as acompanham. É como se acontecesse um distúrbio no espaço-tempo, fazendo com que o tempo para as mulheres ficasse pelo menos umas três vezes mais rápido, enquanto que para os homens ficasse umas quarenta vezes mais lento. E na verdade não posso reclamar muito disto, pois afinal, o mesmo efeito deve acontecer ao contrário, quando chamamos elas para ir a um boteco para conversarmos com nossos amigos. E assim como há homens que não vão a butecos, também há mulheres que não demoram muito tempo em uma loja de roupas. Infelizmente as exceções são poucas para ambos os lados. E eu não tive esta sorte.
A tarefa era simplesmente encontrar uma calça e uma blusa que fossem mais apropriados para se ir a um parque de diversões. Bem, não era tão simples assim... Ela levou um bom tempo escolhendo tudo.
- Puxa, Marvin, me desculpe pela indecisão... É que eu não consigo achar algo que me agrade...
- Está tudo bem, Amanda... – respondi, sorrindo.
Ela me parecia meio tensa... Talvez pensasse que a demora dela pudesse me fazer mudar de idéia. Eu entendia o lado dela. Às vezes é fácil para nós criticarmos as pessoas quando elas fazem algo que gostam, mas que nós mesmos não gostamos. Uma pessoa que não goste de xadrez pode não achar sentido nenhum em estudar livros e livros de jogadas de xadrez. Mas para aquele que gosta, estudar aqueles livros é prazeroso. E muitas vezes há discussões desnecessárias simplesmente por que as pessoas não conseguem ver isto. Mas eu não a trouxe ali para que ela ficasse nervosa ou tensa, eu queria que ela se divertisse. Então enquanto ela escolhia uma calça, peguei um chapéu de praia que estava ali por perto e o coloquei.
- Ei, que tal estou? – disse fazendo caretas...
Imediatamente quando ela me viu, começou a rir...
- Hahaha, Marvin, você está uma graça... Mas eu acho que não faz seu estilo, hahaha...
- Tem razão, mas nesta loja não se vendem sombreros mexicanos...
- Ah, é claro... Eles certamente fazem seu estilo, não é? – disse ela, rindo, talvez me achando com cara de Mariachi fake.
E pelos próximos minutos, ela ficou bem mais descontraída. Claro, eu ia fazendo minhas palhaçadas enquanto ela escolhia... Eu escolhia roupas estranhas, gerando mais risos por parte dela... Fico me perguntando como é que tais roupas são criadas... Será que os costureiros um dia acordam, dizendo “Puxa, hoje vou fazer a roupa mais estranha que eu puder” e fazem?
Então, começamos a provar as roupas, esperando a opinião do outro, como em um filme hollywoodiano. Comecei então a entender por que algumas vezes aparecem cenas como estas... Geralmente se pede a opinião sobre uma roupa a pessoas que confiamos, que queremos de certa forma, agradar. E depois de uma hora, ela já havia escolhido tudo que queria. Pediu para uma das atendentes para que pudesse trocar de roupa nos provadores depois de pagar e a atendente deixou. Então fomos ao caixa, onde eu peguei tudo que ela escolheu e disse:
- Pode deixar, eu pago.
- Você? Não, Marvin, não posso deixar você fazer isto.
- Ora, Amanda, fui eu quem te obrigou a vir até aqui... É o mínimo que eu posso fazer...
- Não, não posso aceitar isto... Você não precisa pagar nada...
- Ei... Não faço isto por que preciso, mas por que eu quero te dar isto de presente...
Ela ficou um pouco tímida com isto.
- Puxa, não é todo mundo que tem a vontade de me dar presentes assim...
- É, eu sei... Mas não faz mal a ninguém dar presentes de vez em quando, não é?
- Mesmo sendo caros?
- Dinheiro é o de menos agora e eu não tenho muito com que gastar... O que importa é agradar as pessoas de quem você gosta.
- Puxa... Obrigada então... – disse ela um pouco tímida...
Paguei a conta dela e ela rapidamente foi se trocar. O vestido a deixava um pouco velha, devo confessar. Agora com calça jeans e camiseta, ela parecia novamente uma jovem. Hora da diversão!
Corremos para o parque que ainda estava um pouco vazio. Ainda era dia, e as pessoas preferiam vir mais tarde. Assim, pagamos rápido pela entrada e em pouco tempo já estavamos tentando nos decidir sobre qual o primeiro brinquedo que iríamos...
- Vamos na montanha russa!!! – disse eu.
- Pu... Puxa, você tem certeza?
Só pelo gaguejar dela, eu já tinha certeza. A intenção era assustar mesmo.
- Sim, claro!
Então fomos para a fila. Não demorou muito tempo e os carrinhos chegaram. Entramos, Amanda ainda meio desconfiada. Colocamos todos os equipamentos de segurança e em pouco tempo o carrinho estava partindo.
Eu nunca tinha andado de montanha russa na vida. E aquela foi a experiência mais assustadora que tive. Depois de subir até a parte mais alta, lentamente, o carrinho desceu, de uma vez, até chegar próximo ao solo. É como se a fôssemos jogados de um desfiladeiro. Confesso que não apreciei o loop, minha cabeça foi parar junto aos pés. E não entendo por que o pessoal gosta de gritar tantooo... O quê é aquilo????
- AAAAAAhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!
Desci acabado... Que viagem... Só depois de pisar em terra firme, tive a oportunidade de reparar na Amanda...
- Uau, adorei!!! Vamos de novo!!!
- O quê?????
- Vamos de novo!!! Eu gostei demais, é muito legal... Nunca imaginei que fosse tão bom!
- Você está brincando?
- Claro que não!!! Vamos??
Então ela me puxou pela mão e subimos novamente no carrinho da montanha russa. O pior é que não tinha fila, não tive tempo nem de respirar direito.
Depois de cinco voltas na montanha russa, a Amanda finalmente concordou em experimentar os outros brinquedos. Bom para mim, agora poderia ver se encontrava algum brinquedo que ela não gostasse (e eu sim). Não, não se trata de revanche... Ah, se trata sim!!! Fui direto naquele brinquedo que te faz girar em cima de um grande prato.
- Marvin, você tem certeza?
- Ei, não precisa perguntar se eu tenho certeza toda vez que formos em um brinquedo novo. Este aqui será diferente.
E o pior é que foi mesmo. Agora eu poderia saber como se sente uma roupa em uma máquina de lavar... O brinquedo começou lentamente a girar, mas logo ele girava tão rápido, mas tão rápido, que eu não conseguia mais desgrudar a minha cabeça do equipamento de segurança... E todos gritavam sem nenhum motivo, então decidi me juntar a eles...
- aaaaaaaaaaaaaaaAAAAAAAAAaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaAAAAAaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaAAAAAHHH!!!!
Foi uma experiência única! Vai ser a única vez na minha vida que vou neste brinquedo. Isto não é um brinquedo, é uma máquina de tortura chinesa... Como é que alguém consegue gostar disto???
- Puxa, eu gostei demais deste também!!!!
- O quê???
- Ah, Marvin, fala que você não gostou nem um pouquinho?
- Não gostei nem um pouquinho...
- Hummm, não seja mal-humorado... Hehehehe...
- Está bem, então vamos em qual agora?
Ela deu uma risadinha, olhando para algo atrás de mim...
- O que foi?
Me virei e tudo que vi foi um carrossel.
- Ah, então você está curtindo com a minha cara, não é?
- Hehehe... Só um pouquinho, Marvin...
- Humpf... Tenho certeza que no próximo brinquedo, eu me darei bem.
Desta vez fomos ao barco pirata. Não, eu não me dei bem, principalmente quando ele chegava nos pontos mais altos... Nenhuma diferença para a montanha russa...
- Muito legal este também, Marvin!!! – disse Amanda, com um grande sorriso no rosto.
Nunca a vi tão feliz em todo tempo que a conheço.
- Puxa, acho que preciso de um tempo... – respondi.
- Hehehe, tudo bem.
- Hummm, acho que sei de um brinquedo que será bom para mim...
- Ah, é? Qual?
Corri à uma das poucas barracas que não envolvia te chacoalhar, te jogar para cima ou te colocar de cabeça para baixo: a barraca de tiro. E nestas horas compensou todo aquele tempo ocioso desperdiçado com meus jogos de tiro ao alvo, escondidos dos anciãos, para não levar um chamado de atenção.
Comprei cinco rolhas, e fui capaz de ganhar uns dois chocolates. Eu sei que aquilo ali é difícil pois os prêmios são bem presos, mas o que vale é a diversão. Fiquei com um chocolate, o outro dei para Amanda.
- Humm, estava bom... Mas agora fiquei com vontade de comer mais alguma coisa...
- Puxa vida, mesmo depois de chacoalhada para todos os lados?
- Hehehehe, sim! Que tal um sorvete?
- Está bem... Eu também vou querer...
Compramos o sorvete e nos sentamos em um lugar, à sombra. Ficamos calados por cinco minutos, tomando o sorvete.
- Marvin...
- Sim?
- Eu queria te agradecer... por me trazer aqui... eu gostei muito...
- Hehehehe, embora eu esteja parecendo um rabugento, eu também estou gostando de estar por aqui... Esta hora eu poderia estar em casa, sozinho, fazendo qualquer coisa para matar o tempo...
- Hummmm... É mesmo, você mora sozinho... E seus pais?
- Bem... eles morreram há algum tempo...
- Oh... Sinto muito...
- Não tem problema... Você iria saber de uma forma ou de outra, não?
- Sim...
Houve um pequeno momento de silêncio.
- Eles morreram de acidente de carro... Estavam viajando à noite, quando um caminhoneiro que dormiu ao volante invadiu a pista deles...
- Puxa... Que pena.
- É... Sabe, eu sempre fui muito distante deles... Meu pai sempre trabalhava muito, só chegava à noite... Minha mãe se sentia muito carente por isto. Você poderia até pensar que ela teria suprido esta carência com seu filho, mas não foi assim comigo. Ela estava muito preocupada com o próprio casamento... Cresci sem o costume de conversar com eles... E eu nunca pensei que fosse sentir a falta deles, até que aconteceu o acidente... Na época, eu vivia para meu trabalho, assim como meu pai. Hoje acho que foi a única coisa que ele me ensinou, viver para o trabalho. Quando eles morreram, eu percebi que estava cometendo os mesmos erros que meu pai, então mudei minha vida completamente... Deixei um bom emprego e uma vida de luxo para viver uma vida mais simples...
Amanda ficou em silêncio por pelo menos um minuto, refletindo. Estava visivelmente melancólica e não era para menos.
- Sempre me lembro de um certo dia, quando estávamos esperando começar a reunião. Eu ainda tentava me enturmar com as outras irmãs, embora elas não me quisessem como amiga. Era uma noite de verão e fazia tanto calor!! Estava triste por causa de meu pai também, das brigas dele com minha mãe... Então apareceu uma nova pessoa no salão, um estudante. Ele era tão tímido... Assim como eu... E embora eu soubesse que ele era muito inteligente, ele nunca se vangloriou disto. Ele nunca tentou ser melhor que ninguém. Cada dia me surpreendo mais com ele, pois eu nem mesmo sabia que ele suportava sozinho a morte dos pais... Ele deve ser realmente forte por suportar isto de forma racional...
Lentamente virei meu rosto e olhei para aquela moça, que agora olhava para o chão.
- Sabe, este estudante... É por tudo isto que eu... que eu gosto tanto dele... E por isto estou tão feliz de estar perto dele...
Senti um frio na barriga, uma sensação que não poderia descrever... Uma parte de mim parecia não acreditar que estava acontecendo aquilo. Parecia irreal, fantástico. Esta parte cética precisava encontrar algo errado naquilo tudo.
- Amanda... como você poderia gostar deste estudante? Ele nunca atraiu ninguém, ele sempre foi feio e esquisito...
- Marvin... Esta beleza que você se refere é apenas um castelo de areia contruído na praia. Um dia vem a onda da idade e leva tudo. Mas a praia sem o castelo pode continuar sendo bela... E na verdade o que importa é a praia, não o castelo. Podemos fazer mais castelos, do jeito que quisermos, desde que a praia seja boa para isto. O que importa são as pessoas, as aparências mudam sempre. Talvez Jeová em sua grande sabedoria tenha permitido que as coisas fossem assim, para podermos entender que há muitas formas de beleza e que nem sempre o nosso imperfeito deixa de ser belo.
- Puxa, belas palavras... Nunca li algo assim na Sentinela...
- Hummmm... Não leu mesmo... São resultado de minhas reflexões. Eu gosto muito de pensar nas coisas da vida, mas não comento elas com ninguém, por que tenho medo de dizer besteira e ser repreendida.
A velha censura, muito peculiar às ditaduras. Ela não estava com medo de meras repreensões do tipo “você está errada neste ponto X”, mas daquelas acompanhadas por comissões e afins.
De repente, ela se levantou.
- Ei, tem mais um brinquedo que eu quero ir! Vamos?
Então ela me pegou pela mão e me puxou até os carrinhos de bate-bate. Havia muito tempo que não brincava em um destes. Peguei um preto e ela um azul. Logo que se iniciou, parti em direção a ela com toda a força que o carrinho poderia me oferecer. Bati com tanta força que ela até tombou para o lado.
- Ah, é assim, é? – disse ela com tom de revanche.
- Sim, é assim mesmo!
Ela não teve jeito de fazer nada, pois os moleques que estavam na pista se aproveitaram do fato dela estar meio presa para acabar de prendê-la. Dei a ré e fiz a volta na pista, para pegar embalo para mais um choque. Ela tentava ainda se livrar dos outros.
Enquanto isto, vários pensamentos passavam por minha cabeça. Todos eles se relacionavam com minha surpresa há pouco, nossa conversa. Eu sempre me senti sozinho e de alguma forma sempre quis resolver isto, sendo reconhecido por alguém. Até agora, não tinha tido sucesso. Por isto pensei que sempre seria um grande solitário cercado pela sociedade.
Mas com o tempo, percebi que eu estava errado. Eu não era um em um milhão, eu não era um tipo raro de pessoa. Na verdade, a grande parte do mundo é que é solitária. O mundo está cheio de pessoas tentando ser amadas, tentando ser reconhecidas. Não é para menos, pois a cada dia deixamos mais e mais de ser seres humanos. Nossa dor, nosso amor, nossa tristeza ou alegria não passam de algum tipo de reação química. Somos operários obrigados a fazer tudo que nossos patrões pedem por medo de sermos substituídos ou para mostrar (provar) que somos bons naquilo que fazemos. Somos brinquedos manuseados por crianças de 3 anos, soltando os pedaços. Ficamos sozinhos em nossa insignificância e assim como eu quis combater minha solidão com reconhecimento, todo mundo quis.
Por um momento quase acertei o carrinho dela novamente.
- Hahahaha, escapei!! – disse ela.
- Não por muito tempo!
Este combate da solidão então promoveu a maior onda de idiotices da história humana. Havia todo tipo de tentativa para se tornar famoso. Tinha gente com a capacidade de fazer músicas com duas notas musicais apenas. Letras de músicas obrigatoriamente tinham que estar relacionadas com sexo. Então começou a aparecer mulheres dançando ao lado deles... Alguém lançou a mania de apelidar mulheres de frutas e em pouco tempo não havia mais nome para usar (vocês deveriam ter conhecido a mulher jaca). Foi aí que começaram a pegar o nome de qualquer animal, planta, planeta, marca de cigarro... Tinha até a mulher Colgate, já imaginaram? Aquilo não parecia ter fim. Uma pobre mulher estava tentando bater o recorde já estabelecido de ser a mulher com mais silicone nos seios. Fico imaginando qual a razão disto. Talvez as milhares de mensagens de sua coleção de fãs pervertidos em todo o mundo a fizessem se sentir melhor. Devia ser muito triste chegar no seu quarto à noite e dar-se conta de que todo mundo é fã do seu silicone. Deveria ser muito triste alguém se esforçar tanto em seu trabalho para ser reconhecido pelos seus patrões, mas nunca receber sequer um obrigado.
- Ahá!!!! Te peguei, Marvin!
Era Amanda atingindo meu carrinho com grande força...
- Isto não vai ficar assim!
- Ah, você não vai mais me pegar!
Analisando estas tentativas, me dei conta que na verdade a simples busca pelo reconhecimento não valia de nada. Não era o simples reconhecimento, mas O Reconhecimento, aquele que se admira a pessoa de uma forma inexplicável, assim como não conseguia explicar o que senti ao ouvir Amanda me dizendo que gostava de mim. Então percebi que os dois de fato eram a mesma coisa, que eu acabei de achar o que procurava. Percebi que mais uma vez eu estava enganado... Pensei que saberia exatamente como era ser querido, mas me enganei completamente... Era um sentimento completamente diferente, incontrolável. Não era a resposta a um problema que eu encontrei, pois seria injusto tratar algo tão auto-suficiente em função de algo tão negativo.
Meu carrinho mais uma vez batia com força no dela, fazendo ela ir para frente.
- Hahahaha, eu te disse que te pegaria!
Logo a sirene tocou.
- Ah, isto não é justo!! O tempo já acabou!!
Lentamente nos levantamos dos carrinhos e saímos da pista. Eu estava feliz pela alegria dela.
- Hehehehe, isto foi muito legal!!! Mas infelizmente nós temos que ir... Não avisei meus pais que eu ficaria tanto tempo fora, e já são sete horas... Eu só gostaria de ir em mais um brinquedo...
- Ah, é? Qual?
Então ela apontou para o velho e bom trem fantasma que estava no canto do parque, convidando a todos para visitá-lo. Do lado de fora tocava Thriller e me lembrei que o cantor um dia foi testemunha de Jeová também... Certamente por isto que ele declarou não defender o ocultismo com esta música... Eu diria que os fantasmas assombram mais as testemunhas de Jeová do que as pessoas comuns.
- O trem fantasma? Humm, não me parece muito assustador, parece mais para crianças...
- Ah, mas eu sempre quis ir em um... Vamos, vamos??? – insistia ela como alguém que quer finalmente desfrutar de um prazer totalmente proibido.
- Está bem, então vamos.
Como eu esperava, o trem fantasma não era tão assustador assim. Eles assustavam mais quando eu era pequeno. Mas devo confessar que eles conseguem produzir efeitos muito bons. Foi ótimo reviver tudo aquilo. Foi ótima a companhia. Mas o melhor de tudo aquilo é que esta história era minha. Não era a história de ninguém. Eu não precisei me basear na história de ninguém, não esperava que fosse igual à história de ninguém.
Saímos do brinquedo e nos dirigimos à saída. Caminhávamos devagar, como que curtindo o caminho de volta. Ela olhava para baixo, pensando em alguma coisa que eu não sabia o que era. Eu, a olhava pelo canto dos olhos, às vezes diretamente. E aconteceu que ela percebeu que eu a olhava de maneira diferente e ficou um pouco tímida...
- O...O que foi, Marvin?
- Sabe, o que você me disse antes... O quanto você gosta deste estudante?
A vergonha dela aumentou bastante com a pergunta e eu pensei que ela não iria me responder. Logo percebi sua respiração mais forte.
- ... mais do que você imagina... muito mais.
Logo pegamos o ônibus, dirigindo-nos para casa. Ficamos um bom tempo calados durante a viagem, sérios, pensativos... O que acontecia? O que ela estava pensando agora? O que eu faço?
Feriado prolongado, sete horas da noite... Este tipo de combinação fazia bairros inteiros ficarem desertos. E nunca em toda a minha eu tinha visto a rua da casa de Amanda tão perfeitamente deserta. Não havia ninguém ali, especialmente testemunhas de Jeová. Paramos em frente ao portão de Amanda.
- Marvin... Muito obrigado de novo por tudo... Eu gostei demais do passeio.
- Eu também gostei muito, Amanda...
Ela sorriu.
- Que bom... Então.... Boa noite, Marvin.
- Boa noite... Amanda...
Então ela lentamente caminhou até a porta. Eu tinha que fazer algo.
- Ei, Amanda, espere.
Corri até ela. Ficamos cara a cara.
- Eu preciso te dizer uma coisa.
- Precisa? O quê?
Como eu tinha mencionado no início, era setembro. Não havia muita chuva nesta época. O céu estava sem muitas nuvens, por isto podia-se ver as estrelas iluminando o céu. E como havia estrelas! Como a lua iluminava tão bem aquela noite! Mesmo assim, algumas partes daquela rua ainda ficavam um pouco escuras, envolvendo tudo em mistério.
Não havia ninguém além dela e eu. Coloquei minha mão esquerda em seu rosto suavemente, enquanto a direita segurava seu ombro. Não lhe disse nada, pois eu sabia que um ato vale mais do que mil palavras. O beijo que lhe dei, este disse tudo.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

As crônicas de Marvin - 11

A busca pelo reconhecimento


Embora estivéssemos em época de seca, havia algumas nuvens no céu ainda. Às vezes a lua se escondia por trás de alguma nuvem, mas nada que pudesse impedi-la de reinar na escuridão da noite, deixando tudo bem mais claro. À medida que me afastava do núcleo da festa, menos ouvia o barulho de pessoas, e mais ouvia os grilos, em sua religiosa sinfonia noturna. Às margens do lago, eventualmente algum sapo se juntava a eles.
Naquela mesma margem, uma pessoa olhava fixa e melancolicamente para a água. Sua identidade ficava cada vez mais clara para mim, embora ela estivesse bem diferente do que eu estava acostumado a ver... Eu tentava imaginar o que ela fazia ali então o fato dela parecer ser uma pessoa solitária como eu passou pela minha cabeça...
- A... Amanda?
Ela se assustou tanto, que eu poderia jurar que ela tinha visto um fantasma, caso ela acreditasse nisto. Com o susto, ela se virou para mim, então pude perceber como estava diferente. Usava um vestido azul longo, que a deixava com ares de princesa. Agora estava com cabelos soltos, revelando belos cabelos cacheados, que combinavam muito bem com seus olhos verdes, não mais escondidos por aqueles óculos que ela sempre usava. Estava realmente bonita, embora me parecesse triste.
- Ma... Marvin? Irmão, o que faz... aqui?
- Bem... Eu vim aqui refletir um pouco sobre a vida... Puxa irmã, você está muito bonita hoje!!
Seu rosto ficou levemente corado pelo elogio. Enquanto desviava seus olhos de mim, sorria discretamente. Um sorriso que naquela noite, me parecia muito mais belo.
- Obrigada, irmão... Você também está muito elegante.
- Obrigado... Sabe, eu queria ficar sozinho, mas pensando bem foi até bom te encontrar por aqui. Mas me diga, irmã, o que faz sozinha por aqui?
Ela pensou um pouco, depois me respondeu.
- Bem, eu não tenho tantos amigos assim... Então resolvi caminhar por aí...
- Ora, por quê não me procurou? Eu sou seu amigo, você sabe disto...
- Sim, mas... Bem, você já estava acompanhado pela irmã Priscila, então resolvi não incomodar...
O sorriso do rosto dela desapareceu por alguns instantes. De certa forma eu a entendia, assim como eu, ela tinha dificuldade em se aproximar das pessoas. Eu não tinha sido um bom amigo para ela ainda... Só tinha feito promessas e eu, como testemunha de Jeová desprogramada, sei que promessas não cumpridas são frustantes. Estávamos longe de todos. Por isto, sem receios, resolvi pegar na mão dela, olhando em seus olhos:
- Irmã, sinto muito por te deixar sozinha assim... Te prometo que serei um amigo melhor daqui em diante... E para provar isto, farei companhia a você o resto da noite...
Pude perceber que mais uma vez seu rosto ficou vermelho, quando peguei em sua mão. Falei em amizade para não ser mal-entendido...
- Ah... Ma... Mas, irmão, não precisa me acompanhar... Tem muitos irmãos aqui para você dar atenção...
- Sim... Mas de todos eles, você é a mais importante para mim.
Deixei ela sem palavras com isto. Mas eu entendia que o que eu dizia era o que ela precisava ouvir. Mais do que ninguém, eu a entendia. Eu sabia que uma pessoa solitária, em seus momentos de baixa estima, precisa de elogios, precisa se sentir importante para alguém. Era aquilo que eu estava precisando naquele momento, e que as bajulações das outras pessoas da festa não conseguiram transmitir para mim.
Então sorri para ela, soltando a sua mão lentamente.
- Não se preocupe. Gosto de sua companhia.
Ela então me olhou, ficando em silêncio por um tempo... Então mais uma vez um sorriso se formou em seu rosto...
- E então, o que achou da festa, irmão?
- A festa?? Hummmm... Bem, para te dizer a verdade, quando o irmão Osvaldo entrou naquela estrada de chão, eu pensei que estava sendo sequestrado, hehehehe... A festa foi uma surpresa e um alívio...
Ela sorriu em resposta.
- Ah, mas vai me dizer que não gostou? Trabalhamos duro para arrumar tudo!!
- Hummm, se gostei? Deixe-me pensar...
- Ei, não seja malvado!!!
- Hahaha, está bem... Claro que gostei. Ninguém nunca fez uma festa para me homenagear...
- Entendo como se sente... Ninguém também nunca me disse que sou importante... – disse, sorrindo.
- Sério? Nem sua família?
- Nem eles... Sabe, eles brigam muito entre si, e tem aquele problema com meu pai... Eu sempre quis ter uma família normal, mas nem todo mundo tem este privilégio...
- E... Namorado?
- Ah, irmão... eu nunca namorei ninguém...
- Sério? Nem antes de estudar a Bíblia (eu odiava esta expressão usada por testemunhas de Jeová como sinônimo de “iniciação”, mas eu tinha que usar o vocabulário delas)?
- Não... Eu sempre fui tímida... e você?
- Ah, ainda estou tentando descobrir se o que tive foi um namoro ou não... Eu mais financiava os gastos dela do que outra coisa...
- Hummm... Você está falando daquela moça...
- Sim, a Kátia... Nem me lembre dela...
- É engraçado como as pessoas hoje em dia gostam mais dos meios do que os fins... - disse ela pensativa.
- Hum? Como assim?
- Bem, o natural seria amar pessoas, pessoas por completo. Mas as pessoas parecem gostar mais de coisas secundárias. Dinheiro e o que você faz com ele deveria servir apenas para manter o amor, seja qual for o tipo de amor... Mas eu já presenciei coisas absurdas, como uma mãe ensinando sua filha de 5 anos a procurar homens com muito dinheiro... As pessoas deixaram de ser a finalidade de qualquer relação, para serem os meios.
- Hehehe, você tem razão.
- Além do mais, a gente tem o péssimo hábito de procurar pessoas perfeitas, livres de defeitos... Acho que por isto muitas pessoas se decepcionam umas com as outras... Por isto eu disse que deveríamos ver a pessoa por completo, e esperar que ela possua alguma coisa que vai nos incomodar... Todos somos assim, cheios de manias e defeitos. Deixamos de procurar pessoas para procurar características... Andamos de um lado para outro, nunca satisfeitos. Mas eu acho também que muita gente consegue amar pessoas, e este sentimento acaba acima de qualquer defeito... Elas se completam, de uma forma inexplicável.
- É por isto que dizem por aí que o amor é cego...
- Provavelmente... – disse ela sorrindo.
Continuamos caminhando, contemplando a lagoa, que agora estava iluminada pela luz da lua.
- Veja!! – disse Amanda.
Eram cisnes. Provavelmente o dono da chácara os criava, para “enfeitar” mais o lugar. Os coitados estavam acordados, provavelmente por causa do barulho da festa. Alguns, sem ter o que fazer, resolveram até nadar. Amanda os observava com alegria, dizendo como eram belos. Ela tentou se aproximar deles para vê-los de perto, enquanto eu, parado no mesmo lugar, a observava de longe. Não muito tempo, ouvi um barulho em alguns arbustos ali perto. Ainda fui capaz de perceber o vulto humano que saía correndo dos arbustos, voltando para a festa. Estavam nos observando, como era de se esperar.
- Ei, acho melhor voltarmos... Antes que pensem algo errado de nós...
Amanda então se virou, voltando para onde eu estava. Caminhamos de volta, subindo um pequeno morro ali perto. Já estávamos perto novamente da festa...
- Irmão Marvin...
- Ei... me faz um favor?
- Hum? Sim, claro, o quê seria?
- Me chame apenas de Marvin...
Ela ficou um pouco vermelha com isto...
- Hummmm... Es... está bem então... Marvin...?
- Sim, Amanda?
- Eu só queria te dizer que não me importo muito sobre o que eles vão pensar de nós...
Certamente eu deveria estar mais vermelho que ela agora... Não esperava este comentário... Foi a multidão que impediu que nós continuássemos esta conversa. Havíamos chegado, e havia muita gente ali, dançando, conversando...
- Ei, Amanda, você já comeu?
- Ainda não... Vamos?
Por onde passávamos as pessoas paravam para nos observar, como se tivéssemos fazendo algo muito errado. E quem sabe era isto o que passava pelas mentes torpes deles. Amanda tinha razão, não valia a pena se preocupar com o que tais mentes poderiam estar pensando...
- Que gracinha os dois juntos!!! – disse alguém.
É isto aí... Para mim chega... Não queria fazer isto, mas serei obrigado a fazer. Além do mais, vou conseguir movimentar a festa mais... Tipo, festa de irmãos era sempre a mesma coisa: comer, dançar (para os casados), conversar... Tudo girava entre estes três verbos. Vamos mudar um pouco...
- Irmãos, gostaria de dizer algo a vocês...
A Amanda me olhou assustada, um pouco envergonhada também.
- Marvin, o quê você vai fazer?
- Não se preocupe, Amanda... É algo que há muito tempo precisava dizer...
A festa deveria estar tão chata já, que todo mundo se reuniu em minha frente em um piscar de olhos. Nem em treinamento de bombeiros se vê tanta eficiência.
- Muito bem, irmãos. Primeiro, gostaria de agradecer esta maravilhosa festa. Sei que todos trabalharam duro para isto.
- Não foi nada, irmão!! – respondeu alguém da multidão.
Estavam todos alegres. Que ótimo!
- Mas isto não dá o direito a ninguém ficar especulando sobre o que eu faço ou deixo de fazer... Por quê cada um não se ocupa de seus próprios afazeres, e deixa para se preocupar com minha vida, na medida que eu partilhar dela com os outros? Eu digo uma coisa: se vocês possuem tanto tempo livre, certamente poderiam dedicar-se mais tempo ao seu estudo pessoal. Se estivessem estudando mesmo, eu tenho certeza que saberiam que fofoca é algo desaconselhável por Jeová, como a primeira carta de Pedro, capítulo 4 versículo 15 mesmo serve de exemplo.
Uma multidão de gente sem-graça estava na minha frente. Tinha feito meu papel. Logo um rapazinho se levantou, dizendo:
- Ah, que paia. Pensei que ele fosse se declarar!!
- Ei, você! – disse eu, apontando o dedo para ele.
- O que foi? – respondeu com desprezo.
- Já que você é tão engraçadinho, vamos fazer o seguinte. Na entrada tem um espelho. Vá até lá e tire par ou ímpar com ele até dar ímpar!
- Ok, estou indo...
E lá se foi o garoto, sem se dar conta do problema que teria...
- Mais alguém?
Ninguém respondeu.
- Tudo bem, então podemos voltar aos festejos, sim?
Todo mundo então voltou ao que estava fazendo, sem ficar nos olhando com aquela cara de curiosidade tejotina. Fomos até o final da fila, onde mais uma vez as pessoas quiseram ceder sua vez para nós, o que rejeitei de imediato. Não muito tempo depois, alguém conhecido apareceu.
- Ah, então aí estão os dois. Marvin, você está mal-humorado, hein!! Pagando sapo em festa é coisa de gente chata...
- Sei... E brigar por ciúmes, Estêvão? Seria coisa de playboy bêbado, não é?
- Hahaha, Marvin, você é engraçado mesmo... Ciúmes, eu?? Eu estou sendo apenas um líder exemplar! Mas deixa pra lá... Ei, Amanda? Puxa, como você está bonita hoje!!! Eu tinha vindo ver quem estava com o Marvin... Já que é você, que tal se juntar a nós ali para conversar?
Como é? Isto era muito estranho... Estêvão nunca deu muita moral para a Amanda... Agora que ela estava comigo e estávamos conversando, ele veio convidá-la? Ele não estava com a Priscila?
Era uma atitude muito suspeita. Eu não poderia deixar de suspeitar de Estêvão, principalmente depois dos acontecimentos daquela manhã. Qual o interesse dele em me deixar sozinho?
- Irmão Estêvão... Hummm, sinto muito, mas não posso. Estou acompanhando o Marvin. Fica para uma outra vez...
- M...Marvin? – disse ele, surpreso.
Eu também me surpreendi com a resposta, o que me fez estimar mais ainda a companhia daquela jovem.
- Ahh... Você tem certeza?
- Sim, tenho. Gosto muito da companhia dele. – respondeu sorrindo.
- Hummm, então está bem... Até mais.
Estêvão nos deixou então, com um ar de seriedade. Muito esquisito. Terei que vigiá-lo. De todos que conheço na organização, ele é o único que possui poder suficiente para mandar irmãos me vigiarem.
Finalmente nos servimos, depois nos sentamos. Conversamos ainda sobre muitas outras coisas. Aos poucos, as pessoas com carro iam deixando o lugar. Eu não tinha percebido quando cheguei, mas haviam alguns ônibus do lado de fora, alugados para aqueles que não tinham carro. Amanda tinha vindo em um deles, mas não deixei que voltasse ainda.
- Pode deixar, hoje te acompanho até em casa.
- Mas... Não há espaço no carro do irmão Osvaldo para mim.
- Sem problemas. Eu aviso ele que vou voltar de taxi.
Assim, avisei ao irmão Osvaldo que voltaria de taxi. Ele insistiu um pouco para que eu fosse com eles, mas recusei educadamente.
O taxi não demorou muito. Então nos dirigimos à entrada da chácara, onde um rapaz ficava apontando a mão para o espelho.
- Ei, não tem jeito de sair ímpar aqui não!!!
Tive piedade dele, dispensando-o. Entramos então no taxi, e voltamos pelo mesmo caminho que percorri com o irmão Osvaldo. As ruas estavam mais vazias, já era tarde. Paramos em frente à casa da Amanda.
- Muito bem, acho que por hoje é só...
- É... Marvin... Muito obrigada por esta noite. Eu gostei muito de conversar com você...
- Hehehe, sou eu quem agradeço... Estava um pouco triste quando te encontrei... E fiquei feliz de poder te acompanhar... Espero fazer isto mais vezes, hehehehe.
Ela sorriu, envergonhada. Então peguei novamente sua mão, e a beijei.
- Boa noite, Amanda.
- Boa noite, Marvin.
Ela logo entrou em casa e eu segui meu caminho, à pé mesmo, diante dos olhos daqueles que escondidos, me vigiavam...

Ponto de vista alternativo, 7 de setembro de 2051, 23:00

Era um parque, imerso pela escuridão da noite. Alguns postes faziam a precária tarefa de iluminar o local por onde passam as pessoas. Mas ninguém era suficientemente louco de passar por ali naquela hora. Somente as corujas em busca de alimento estavam por ali.
No entanto, 12 figuras encapuzadas estavam ali, de pé. Loucos? Talvez...
- Muito bem, parece que muita coisa aconteceu desde nossa primeira reunião... – disse um deles.
- Sim... No domingo passado, nossos espiões perderam o jovem de vista...
- Humpf... Incompetentes... Eu não podia esperar outra coisa de pessoas que se preocupam mais com a comemoração do Natal do que pregar contra a ganância... Eles não perceberam que o jovem estava despistando eles não?
- Segundo seu relatório, a velocidade alta do moto-taxista não os preocupou, já que todos os moto-taxistas são incontroláveis.
- Humm... Isto é verdade. Mesmo assim, eles precisam ser mais espertos. Provavelmente agora, o jovem está desconfiado... Mas este não é o motivo principal de nossa reunião... Yekhezqe'l conseguiu as informações que buscávamos... Por favor, Yekhezqe'l, compartilhe conosco o que você descobriu.
- Muito bem... O jovem chamado Marvin é realmente uma pessoa genial. Ele fez o curso técnico em eletrônica, depois fazendo engenharia elétrica. Sempre obteve as melhores notas, e sempre surpreendia os professores. Um currículo exemplar, foi financiado por grandes empresas em seus trabalhos...
- Não é por menos que este jovem conseguiu o controle sobre a Torre de Vigia...
- Sim, Moshe... Mas sua vida profissional deu um reviravolta com a morte dos pais... Ele abandonou as grandes empresas e passou a trabalhar com pequenos empregos. Passou a trabalhar com eletrônica apenas como passatempo. Ele ficou bem solitário depois disto... Nunca foi uma pessoa de grandes amizades. Agora sem os pais, ficou completamente só. Depois de uns dois anos assim, começou a estudar com as testemunhas de Jeová.
- Hummm, entendo... Provavelmente a morte dos pais despertou seu lado espiritual... Bem, há alguma coisa que podemos usar contra ele?
- Não. A vida dele foi muito pacata... Porém, por ser um aluno exemplar, ele tinha alguns rivais... Talvez alguns deles poderiam nos ajudar...
- Humm... é uma possibilidade... veja se você consegue entrar em contato com eles... E vamos ter que contar com isto...
- Espere! - Disse outro vulto.
- Deseja acrescentar alguma coisa, Eliyahu?
- Sim... Uma informação muito interessante...
- Pois bem, diga-nos...
- Não sei se é de conhecimento de todos, mas no último dia 3, as testemunhas da cidade de Goiânia organizaram uma festa para os dois “escolhidos”... Hehehehe...
- Sim, eu fiquei sabendo. – respondeu Moshe.
- Bem, gostaria de mencionar que nossos espiões ali descobriram que o jovem não está tão sozinho assim...
- Como é que é?
- Parece que ele estava se dando muito bem com uma jovem chamada Amanda Alves Rezende... Eles relataram até que ele a levou para casa...
- Hummmm, isto que você está me dizendo é muito interessante... Ela sabe alguma coisa sobre as ações dele?
- Não...
Houve silêncio por um instante... Este foi quebrado apenas pela risada, risada de satisfação de Moshe, que aos poucos foi ficando mais alta. Rapidamente os outros entenderam o plano...- Um homem sem família é difícil de controlar... Mas um homem com uma amada... Vigiem ela também... Ela será nossa chave, cavalheiros. Com ela, finalmente os Profetas de Sião controlarão a Torre de Vigia com mãos de ferro...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

As crônicas de Marvin - 10

Baile sem máscaras

3 de setembro de 2051, 16:00

Estava novamente em casa, depois de uma longa conversa. Não foi difícil perceber que já havia pessoas me esperando, escondidas, do lado de fora. Fiz de conta que não havia percebido nada, e entrei.
Imediatamente liguei o meu computador. Enquanto ligava, peguei meus equipamentos e fui testar minha linha telefônica. Fiquei chocado ao perceber que estava realmente grampeada. Teria que tomar cuidado com conversas pelo telefone.
Quem estaria por trás disto? Quem gostaria de me vigiar? Seja quem for, tinha poder suficiente dentro da Organização para colocar testemunhas de Jeová para me perseguir... Será que alguém desconfia de algo? Ou a minha posição atual tenha despertado a curiosidade de alguém?
O único que sabia de algo era o Estêvão... Ele ocupa uma posição estratégica agora, e poderia muito bem fazer aquilo... Mas por quais motivos ele me perseguiria? Eu teria que investigar isto mais profundamente...
Voltei a meu computador, e imediatamente comecei a comprar o material necessário para me garantir: FPGAs, memórias, interfaces de comunicação. Fiquei na dúvida entre comprar microcontroladores ou DSP’s, mas optei pelo segundo, já que iria trabalhar com o processamento de alguns sinais de sensores. E eu queria deixar os FPGAs para outras aplicações. A compra feita pela internet iria demorar um pouquinho, então já deveria me virar com os componentes que eu já tinha.
Chequei o meu sistema de segurança, para ver se todas as implementações estavam funcionando corretamente. Pelo visto ninguém havia tentado entrar em casa ainda.
Resolvi então buscar todos os meus projetos disponíveis na área de segurança, e os projetos mais “perigosos”. Se queriam me enfrentar, eu levaria isto até o fim. Foi durante minha busca, que o telefone tocou. Resolvi atender, poderia ser algo relacionado com o que havia acontecido hoje.
- Olá, irmão Marvin. Aqui é o irmão Osvaldo. Como vai você?
- Oi, irmão. Estou bem... Um pouco cansado, mas estou bem...
- Puxa, espero não estar atrapalhando nada. Só queria te fazer um convite...
- Um convite?
- Sim. Você e o irmão Estêvão estão convidados para uma festa que estamos fazendo em família. Não precisa se preocupar com a locomoção, pois nós os levaremos até lá.
- Hummmm, não sei se estou a fim de sair hoje, irmão... Estou cansado, e amanhã tenho trabalho a fazer...
- Bem, tenho certeza que você vai gostar. Além do mais, se está cansado, fará muito bem em ir, e mudar a rotina um pouco...
O Estêvão ia... Talvez eu pudesse descobrir se ele estava mandando aquelas testemunhas de Jeová me seguirem.
- Hum, então está bem. Quando será mesmo?
- Às 20:00. Eu busco vocês às 19:30, pode ser?
- Combinado.

3 de setembro de 2051, 19:30

O irmão Osvaldo foi pontual, como sempre. Notei a falta de alguns membros da família dele, na verdade todos.
- Irmão, onde está o pessoal da sua casa?
- Ah, eles já estão lá. Passamos o dia lá, então não havia a necessidade de voltar todo mundo.
Seguimos até a casa onde o Estêvão estava morando. De lá, saiu uma figura toda atrapalhada, que acabava de se arrumar enquanto trancava a porta.
- Puxa, vocês vieram rápido, hein...
- Bem, nós chegamos na hora combinada, não?
- Hahaha, é mesmo... Marvin, sempre muito pontual...
- E você quando não está adiantado, está atrasado... – disse com cara de desprezo.
- Esquenta não, irmão. O importante é chegar!!
Saímos da casa dele, e seguimos uma rua escura e íngreme, até chegarmos na marginal Norte. Entramos nela e nos dirigimos para a saída para Nerópolis. Havia poucos veículos ali, a maioria caminhões que aproveitavam o pouco tráfego para adiantar suas viagens. Em pouco tempo estávamos pegando a estrada em direção a Nerópolis.
- Irmão, onde é que mora exatamente sua família? – perguntei.
- Em uma chácara aqui perto... Já estamos chegando.
Em pouco tempo, o veículo estaria entrando em uma estrada de chão, e se dirigindo para uma casa escura. Depois do que havia me acontecido hoje, dizer que os piores pensamentos não me passaram pela mente seria uma mentira deslavada. Eu já não poderia confiar que aqueles irmãos agiriam conforme o padrão. Julguei-me um tolo por ter aceitado o convite sem ao menos ter alguma cautela.
O carro foi parando aos poucos diante daquela casa. Para minha surpresa, o Estêvão parecia tão surpreso quanto eu:
- Puxa, que escuro... Tem certeza que é aqui?
- Tenho sim, irmão. Às vezes ficamos sem energia por aqui... Deve ter faltado. Mas venham, eu os mostro o caminho...
Ele desceu do carro, encostou a porta e foi adiante. Assim que descemos, ativou o alarme, trancando as portas do carro. Assim, o seguimos. Era uma chácara bem arborizada, e bem decorada. O jardim da frente era impecável, com seus arbustos bem podados, grama aparada... As famílias TJ’s não costumavam ter dinheiro para cuidar de algo assim. E isto me deixou ainda mais apreensivo.
Entramos por um portão e nos dirigimos a um pátio. Estava muito escuro para ver alguma coisa ali. De repente, uma voz começou a dizer:
- Senhoras e Senhores, finalmente nossos convidados chegaram. Sabemos como eles são importantes, e como eles têm se dedicado à nossa comunidade. Desde que o irmão Estêvão chegou de São Paulo, estávamos pensando em organizar isto. Por favor, cumprimentem eles...
Então, as luzes se acenderam, revelando uma grande multidão (que nenhum homem podia contar) que em pé, aguardava nossa chegada. E todos disseram, a uma só voz:
- Sejam bem-vindos, irmãos!
Então, a pessoa que estava com um microfone e que eu não conhecia ainda, continuou:
- Irmãos, aqui estão todas as testemunhas da cidade de Goiânia e região. Nós decidimos organizar uma festa em homenagem aos dois irmãos que estão desempenhando um papel muito importante nos planos de Jeová. Os irmãos aqui presentes concordaram alegremente de contribuir para esta homenagem.
Certamente aquilo havia me surpreendido mais do que uma possível emboscada. Para quem não deveria dar honra indevida a humanos, aquilo era um pouco demais. Mas de fato, não era muito diferente das boas-vindas dadas a Superintendentes de Distrito em visita às comunidades. No fundo, fiquei feliz... Por mais duro que seja um coração, ele sempre sucumbe a uma demonstração de afeto. E muito embora aquelas pessoas pudessem ser falsas (muitas pessoas são mesmo), ali, naquele momento, elas estavam sinceramente felizes.
Logo nos rodearam, para conversar conosco. Aquele frenesi da nossa promoção já havia desaparecido um pouco, então não ficavam à nossa volta por muito tempo. Além do mais, a comida e a bebida exercia uma atração tão forte sobre elas quanto a nossa. De fato, a fila para a comida era maior que para falar conosco.
Logo que todos nos cumprimentaram, ficamos à vontade para andar pela chácara. Era um local bem arrumado. Eu estava espantado de ver como eles conseguiram organizar e arrumar tudo em tão pouco tempo. Na verdade, um dos irmãos me contou que assim que souberam da chegada do Estêvão, ainda na sexta, já começaram a entrar em contato com outros anciãos. Como era uma festa surpresa, não falaram nada para mim ou para o Estêvão. O assunto foi discutido nas reuniões de sábado à noite ou do domingo de manhã. Em nossa congregação, o assunto foi discutido em segredo no domingo de manhã, para que nem eu ou o Estêvão ficássemos sabendo. Curiosamente ninguém ficou envergonhado de mentir para nós até chegarmos à festa.
Era uma chácara alugada. A festa estava acontecendo em um pátio grande, onde havia piscina. Mais atrás começava um gramado, que foi iluminado para caber mais pessoas. Era ali que estavam as mesas do buffet, além de outras mesas para os convidados. Nem era preciso dizer que as panelinhas se formaram rapidamente, juntando mesas.
Eles reservaram o local perto da piscina como pista de dança, já que ali havia um piso de cerâmica. Não demorou muito para que a música começasse. Como era típico aqui na região, tocou-se basicamente o velho e bom forró, devidamente selecionado pela comissão de censura às músicas do mundo. Logo aqueles que eram casados se aproximaram para dançar, enquanto os solteiros dançavam sozinhos. Na verdade as solteiras, já que as mulheres tinham mais coragem de dançar sozinhas, ou até mesmo umas com as outras. Isto era natural por aqui. Homens não tinham este costume de dançar sozinhos, eles preferiam mais ficar sentados, conversando sobre os problemas do mundo, ou os problemas que eles, testemunhas de Jeová, enfrentavam no mundo.
Como já tinha sido liberado, resolvi ir comer alguma coisa também. Caminhando até a mesa de comida, avistei dois rostos familiares... Os dois jovens que me perseguiram de manhã. “É mesmo, aqui estão todos as testemunhas de Jeová d,a região”, pensei. Era hora de tirar aquilo à limpo. Rapidamente me aproximei dos dois. Quando perceberam que eu estava próximo deles, já era tarde demais...
- Boa noite para vocês.
- Ah... hum, boa noite, irmão. – disse o primeiro.
- Boa noite, irmão... – respondeu o outro.
- Gostaria de falar com vocês... De qual congregação vocês são?
- Hummm, somos do Garavelo...
- Ah, entendo... Eu me lembro de vê-los na Anhanguera hoje... O quê faziam por lá?
- Anhanguera? Hummm...
Eles pensaram um pouco antes de continuar... Finalmente, um deles teve uma idéia...
- Ah, nós estávamos indo para a casa de um irmão, para ajudar a organizar esta festa. Por isto estávamos correndo ali para pegar o ônibus que iria para a casa dele.
- Hummm, entendi...
Claramente ele estava mentindo para mim... Era uma boa desculpa, principalmente por que eles estavam de fato falando em uma festa quando entraram no ônibus. Mas eles estavam nervosos demais, e o lugar onde descemos não era o melhor lugar para se pegar ônibus. Afinal de contas, estávamos em um terminal, por quê eles iriam sair dele para pegar outro ônibus? Os principais ônibus ali perto já entravam no terminal. Ninguém seria suficientemente estúpido de pagar uma passagem a mais sem necessidade... Ou seriam estúpidos? Eu ia perguntar outra coisa a eles, quando fui interrompido...
- Marvin?
Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Priscila. Meus pensamentos mudaram completamente. Sua voz era suficiente para me fazer sorrir. Me virei para vê-la, deixando os dois jovens perplexos.
- Irmã? Puxa, como está bonita...
Ela estava com um vestido branco, que combinava com seus cabelos loiros. Incrivelmente bem maquiada.
- Ah, obrigada... Mas então, o que está achando da festa?
- Hum, estou gostando de tudo. Foi uma ótima surpresa.
Os dois espertinhos perceberam a brecha, e saíram de fininho. Não os veria mais na festa...
- Que bom que gostou. Foi tudo organizado muito rápido, nossa sorte foi encontrar este local tão bonito e livre para hoje.
- Puxa, não precisava de tudo isto...
- Claro que precisava. Vocês dois são pessoas muito importantes!
A velha timidez tomou conta de mim, buscando alguma coisa para falar naquela hora... Só uma coisa me veio à mente.
- E então, você já se serviu?
- Ainda não...
- Hummm, gostaria de me acompanhar? Eu dei uma olhada na mesa, e fiquei com vontade de experimentar um pouco de cada coisa...
Ela sorriu, aceitando meu convite... Então caminhamos para a fila, onde alguns tentaram me ceder a vez, enquanto eu recusava. Afinal, poderia ficar mais tempo falando com ela...
- Fiquei sabendo que está fazendo faculdade... Como estão os estudos?
- Puxa, faculdade é muito puxada... Além do mais, é difícil conciliar estudos com as Reuniões... Às vezes tenho que matar aulas muito importantes, mas eu já conversei bastante com os professores, e de uma forma ou de outra, eu estou conseguindo levar o curso adiante...
- Que bom. O importante é ter força de vontade...
O sorriso dela desapareceu por uns instantes, dando lugar a uma cara de preocupação...
- Hum, irmão?
- Sim?
- Bem, eu sempre fui desencorajada a fazer faculdade, para que os estudos não tirassem um tempo que eu poderia me dedicar mais a Jeová. Nestes últimos dias há uma pressão ainda maior sobre mim, já que com a proximidade do fim do mundo, não haveria motivos para que eu ingressasse em uma faculdade... Mas eu sempre quis ser odontóloga, e amo esta matéria... Você parece não se importar muito com isto...
Naquele instante me dei conta que nem todas as testemunhas de Jeová são fundamentalistas. Na verdade, as pessoas normais não são 100% fundamentalistas. Elas sempre criam regras rígidas naqueles pontos que não faz nenhuma importância para elas. Um pastor pode dizer que baterias são instrumentos musicais pagãos ao lembrar dos tambores tribais, e por isto proibi-los. Mas ele não usa a mesma rigidez ao usar o próprio calendário. E se depois de tudo, ainda houver aqueles que são 100% fundamentalistas, certamente poderão ser encontrados em suas casas em árvores, em algum canto escuro da floresta amazônica.
E ali, diante de mim, estava mais um exemplo de como estereótipos são injustos. Uma pessoa que gostava de estudar, e não via problemas entre os estudos e suas crenças. E era testemunha de Jeová. De fato, embora a sociedade se empenhe muito em impedir os jovens de estudar, eles não são 100% eficientes em seus sermões. E eu mesmo discordei sempre de todos eles. E o mais irônico de tudo isto é que quando esta moça se formar, todos os irmãos vão aproveitar-se dela. O problema agora era explicar por quê eu discordava de toda aquela argumentação, para uma testemunha de Jeová. E eu tinha que começar...
- Irmã, eu não vejo problema algum em se estudar em uma faculdade. Eu mesmo estudei muito na área de engenharia elétrica.
- E o quê pensa de estudar quando estamos se aproximando do fim?
- Bem, irmã, na minha opinião, não há diferença nenhuma.
- Não? – Perguntou, fazendo aquela carinha de quem não estava entendendo nada...
- Não. Veja, nós vivemos em um mundo onde não podemos prever o que poderá acontecer conosco. Eu estou nesta festa agora, mas amanhã posso nem estar vivo. No entanto, eu não me preocupo com isto o tempo inteiro. Nem ninguém. Todos nós trabalhamos, estudamos e amamos como se nossas vidas nunca fossem terminar. O fim do mundo está próximo? Ora, mas o fim da minha vida pode estar bem mais próximo que o fim do mundo, e isto nunca me impediu de viver a vida que eu sempre quis.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes, refletindo sobre o que eu falei. Não pude deixar de reparar um leve sorriso se formando em seu rosto, com o tempo... Aquilo começava a fazer sentido para ela...
- Mas e o tempo que eu poderia estar dedicando a Jeová?
Dei um pequeno sorriso, e me aproximei de seu ouvido para cochichar a resposta:
- E quem disse que estudar não pode ser algo dedicado a Jeová?
Ela afastou o rosto, e me olhou atônita.
- Como assim?
- Ora, não é o próprio apóstolo Paulo quem diz “quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei todas as coisas para a glória de Deus”? Para mim, isto significa que estas coisas, quando feitas de modo digno, são consideradas obras sagradas. Coisas feitas de modo digno são dedicadas a Jeová, e Paulo usa este princípio aplicando-o a beber e comer. Podemos aplicar isto ao estudo também, não acha?
Ela ficou meio apreensiva, mas podia-se ver que aquele expressão de incômodo havia passado... Olhava para o chão, refletindo mais sobre o que eu tinha acabado de falar.
Eu ainda admirava sua expressão, quando um jovem se aproximou de nós. Rapidamente ele me cumprimentou, e se dirigiu depois à Priscila:
- Olá, irmã... Gostaria de falar com você em particular, poderia ser?
Rapidamente ela levantou seu rosto, e fitou ele nos olhos. Curiosamente vi seu rosto ficar pálido, depois corado... Alguma coisa estava acontecendo.
- Ah... Pu-puxa, o quê seria, irmão?
- Eh... bem, não poderia falar aqui... Você vem?
Ela olhou rapidamente para mim, então pensou um pouco antes de responder...
- Hum, pode ir na frente, já estou indo...
- Eu te espero, não tem problema.
- Pode me esperar ali então. Não vou demorar.
O rapaz então concordou, caminhando lentamente para o local que ela apontou.
- Quem é ele? – perguntei.
- Este é o irmão Aldo. É de outra congregação...
- Humm... O quê será que ele quer tanto falar com você?
Ela ficou um pouco pensativa, antes de me responder...
- Eu não sei... Mas talvez...
- Talvez...?
- Há algum tempo atrás estávamos para nos casar...
A revelação me deixou surpreso... Então toda aquela reação dela... Será que ela sentia alguma coisa por ele? No entanto, eu ainda via dúvida nela.
- E não deu certo?
- Não, ele me achou alegre demais... Parece que ele queria uma esposa mais “exemplar”...
- Puxa, que belo exemplo de pessoa...
- Irmão, obrigada por me dizer tudo que disse. Vou pensar bastante em tudo que me falou, mas vou tentar levar meu curso adiante...
- Então, vai falar com ele?
- Sim. Não sei o que ele quer... Até mais!
- Até mais!
Eu a observei caminhar até o tal do Aldo. Mal educado ele, será que ele não sabe perceber quando duas pessoas estão conversando? Tem que vir atrapalhar tudo? Ainda mais ex-pretendente! Deu o fora nela e agora se acha o bam-bam-bam... Lá no íntimo ele deve estar pensando como ele é fodão, fazendo o que bem entender com a pobre da Priscila... Mas ele vai se ver comigo...
De repente, senti alguém cutucando meu ombro.
- Marvin, você está parecendo nervoso... O quê aconteceu?
Me virei para ver o Estêvão, com uma cara de preocupação...
- Ah, nada... Não foi nada...
- Nada? Quem é aquele cara que chamou a Priscilinha para conversar?
Não consegui conter a expressão de estranheza ao ouvir aquilo...
- Priscilinha??? Desde quando você tem toda esta intimidade?
- Marvin, eu não tenho culpa se você é tão devagar... Agora, me diga quem é aquele ali.
- Aquele ali é o ex-noivo da Priscila.
A feição de Estêvão mudou rapidamente...
- Ex-noivo?
- Sim, e disse que queria falar algo com ela em particular...
Estêvão ficou furioso...
- Mas que cabra sem-vergonha... Ele está pensando o quê da vida? A fila anda!! Vou lá falar com o folgado agora...
- Ei, você ficou maluco?
- Não, mas aquele ali ficou...
Então ele saiu pisando duro, igual a um foguete. Foi explodir perto dos dois... Não dava para se ouvir o que eles estavam falando, mas o Estêvão gesticulava mais do que político em palanque, enquanto o jovem o respondia como podia. A pobre Priscila apenas ouvia, às vezes tentava interferir. De longe, eu observava a cena, enquanto outros irmãos se aproximavam tentando acalmá-lo. Foi quando alguém me chamou:
- Irmão, acho melhor você ir falar com o irmão Estêvão...
Eu não sou o tipo de pessoa que gosta de agir como babá dos outros. Mas aquilo poderia ficar sério. Decidi deixar a fila quase perto de minha vez, para ir até lá. Tudo que eu ouvi foi Estêvão acusando aquele cara de ter abandonado a Priscila, e agora tentando confundi-la com uma nova proposta de casamento. Cheguei perto dele, e falei no ouvido dele:
- Estêvão, você está ficando maluco? Os irmãos aqui estão estranhando tal atitude de um dos dois profetas do Apocalipse... Lembre-se, temos um papel a desempenhar, e não podemos ir contra as expectativas dos irmãos, ou levantaremos suspeitas...
Ele rapidamente se deu conta que as atitudes dele poderiam colocar em risco toda nossa operação. Então, retomando o controle de si, virou-se para a Priscila e continuou:
- Irmã, me desculpe pela cena... Poderia te convidar para uma conversa, longe deste rapaz?
Talvez a vontade de terminar toda aquela discussão a pressionou a aceitar o convite. Mais uma vez, esquecido em meu canto, fiquei observando ela se afastar, desta vez com Estêvão, como se fosse em câmera lenta.
Ver aquilo trouxe à tona várias lembranças do meu passado... Lembranças que me recordaram como eu não conseguia ficar feliz em uma festa... As pessoas felizes em suas rodas de amigos, enquanto eu tentava me distrair com qualquer coisa... Nunca entendi por quê às vezes eu era chamado para festas, embora não participasse de nenhuma roda de amigos. Talvez eu fosse apenas um número, que o dono da festa repetiria orgulhoso ao contar como fez uma festa onde compareceram todos da sala, algo parecido com as reuniões cristãs das Testemunhas de Jeová. Sempre que eles mencionavam o número de pessoas que compareceram à algum evento, eu tinha calafrios.
Aquela velha tristeza que eu conhecia tão bem aos poucos foi tomando conta de mim. Não era apenas o sentimento de ser deixado para trás que me deixava assim, era também o sentimento de que uma das pessoas que eu gostava estava se afastando... Como sempre aconteceu... Eu sempre observei minhas amadas de longe, e nunca fui capaz de lutar por elas assim... Agora teria que lutar contra dois.
Estava ali, no meio da multidão. Os casados dançavam alegres ao lado das solteironas viciadas no forró. De longe, crianças com camisas e sapatinhos de couro bem engraxados corriam em volta do pequeno parquinho que havia na chácara. Enquanto isto, os mais gulosos estavam pela terceira vez na fila, enchendo seus pratos com salgadinhos suficientes para toda a família, que aguardava em uma mesa ali perto. Estavam todos tão ocupados com suas respectivas diversões, que não se preocupavam em manter aparências (embora eu saiba que haverá comentários maldosos em todas as Congregações depois desta festa). Estavam felizes, talvez por quê a imagem da velha Torre de Vigia não estava ali, a vigiar. Por um momento, estavam livres para ser eles mesmos. Era um perfeito baile sem máscaras, e imediatamente me perguntei se eu também não estava ali, sem a minha. Não seria eu na realidade aquela figura triste e solitária perdida em uma multidão, minha verdadeira personalidade?
Todos procuram reconhecimento. E eu sempre procurei desesperadamente o meu, até certo ponto em minha vida. A verdade é que eu desisti de procurar, e passei a fazer de conta que estava satisfeito com a solidão... Ou eu estava de fato? Não sei. O que sei é que às vezes eu queria ser o centro das atenções... Outras vezes, desejava a solidão, e isto quase sempre acontecia quando mais pessoas me procuravam. Sou um eterno inconstante, como uma folha levada pelo vento... Como eu poderia mudar aquelas pessoas, se eu mesmo não conseguia definir minhas convicções? Mudar...

“Mas se você quer mudar o mundo, você deve começar com você mesmo.”

As palavras ecoaram em minha mente, e nada pude fazer a não ser concordar... Eu precisava mudar a mim mesmo... Pelo menos eu precisava deixar de me lamentar diante das dificuldades... Nós sempre nos lamentamos dos problemas, não nos jubilamos dos momentos de alegria. Isto deveria deixar claro que os problemas são temporários, que os problemas são os “intrusos” em nossas vidas. Porém, eu ainda precisava de algum tempo para me recompor...Assim, decidi ir para um local mais afastado, onde eu pudesse pensar mais sobre minha vida. Havia uma lagoa ali perto, bem iluminada. Além do som da festa e o barulho de pessoas conversando, somente os grilos faziam algum barulho digno de se reparar. Fui caminhando lentamente até lá, cumprimentando aqueles que puxavam conversa comigo. Foi chegando perto da lagoa, que havia mais uma pessoa por ali. Estava tão sozinha quanto eu, observando a lagoa, mergulhada em seus pensamentos...

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails