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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O pastor que virou caminhoneiro crossdresser


A notícia é da BBC Brasil:

A história do caminhoneiro que se assumiu crossdresser e roda o Brasil de salto alto

Vinícius Lemos

O caminhão Mercedes, de cor azul bebê, estaciona e abre as portas. A motorista, Afrodite, de 68 anos, desce com destreza em cima de um par de saltos, habilidade conquistada nas décadas em que utilizou o calçado escondida de todos. Seu vestido é de cor preta, uma forma de luto, em respeito à morte do homem que foi um dia.

Afrodite nasceu Heraldo Almeida Araújo - nome que consta em todos os seus documentos -, mas há cerca de seis meses pede para ser chamada pelo nome feminino, escolhido por conta da admiração que nutre pela deusa grega do amor, da beleza e da sexualidade.

Em meados do ano passado, decidiu se assumir como crossdresser, prática na qual homens utilizam roupas e acessórios considerados femininos.

"Desde criança, sempre me senti mulher. Perguntava para a minha mãe por que meus seios não cresciam e ela dizia que homens não têm seios. Nunca entendi por que nasci assim", revela.

Afrodite se considera heterossexual e parou de se envolver com mulheres há alguns anos. Em meio às mudanças dos últimos meses, espera virar transexual e passar a se interessar por homens, deixando para trás uma vida que avalia como triste, por não ter conseguido ser quem realmente é.

Já foi cabo do Exército, caminhoneiro, eletricista, empresário e pastor. Casou-se duas vezes e teve uma filha. E arrumava formas para suprir os desejos escondidos.

"Na infância, eu pegava roupas de algumas primas e usava. Depois, quando adulta, eu mesma costurava minhas roupas, escondida, ou comprava algumas peças. E usava roupas íntimas femininas, como calcinha ou sutiã, por baixo das roupas masculinas."

Usou roupas de mulher pela primeira vez aos 13 anos, quando pediu às primas que a vestissem e maquiassem. Agora, mais de cinco décadas depois, decidiu que irá fazer a cirurgia de redesignação sexual. "O procedimento, junto com o silicone que pretendo colocar, vão fazer com que eu complete esse ciclo", diz.

A vida de Afrodite assemelha-se à de diversas crossdressers brasileiras. Conforme Cristina Camps, uma das diretoras do Brazilian Crossdresser Club - dedicado a praticantes do crossdressing e transgêneros -, muitas demoram décadas para se assumir.

"Normalmente, essa vontade surge na infância, mas em função dos padrões da sociedade, somente na faixa adulta irão compreendê-lo. Geralmente, os homens se assumem entre quatro paredes, pelo receio de serem descobertos e perderem as conquistas profissionais e sociais."

Não há levantamentos sobre o número de crossdressers no Brasil. Entretanto, Cristina explica que mais de 3 mil homens já passaram pelo Brazilian Club. "O crossdressing, no Brasil, ainda é embrionário. Nós somos o primeiro clube voltado a esse fetiche no país. Surgimos em 1997, mas, antes disso, certamente centenas de pessoas já eram adeptas da prática. É difícil mensurar", comenta.

Casamentos

Nascida em Jacarezinho (PR), Afrodite hoje vive em Cuiabá (MT). Durante a infância no Paraná, ela se recorda que sempre teve tendência a escolher atividades relacionadas às meninas, o que a tornava alvo de comentários dos colegas de classe. "Ele riam de mim, por causa do meu jeito mais delicado."

Na puberdade, teve uma crise de identidade. "Fiquei revoltada quando nasceram os primeiros pelos em mim e minha voz engrossou. Foi estudando anatomia que passei a entender que não poderia ter seios. Mas ainda assim, mantive meu sonho de um dia me tornar mulher", declara.

Quando se mudou para São Paulo, ainda na adolescência, começou a trabalhar em uma tecelagem e passou a costurar roupas femininas para si, quando ficava sozinha. E usava-as apenas dentro da fábrica, porque não tinha coragem de sair à rua.

Manteve o costume de usar, secretamente, roupas íntimas femininas nos períodos em que serviu o Exército, em que foi funcionária pública em Corumbá (MS) e, posteriormente, caminhoneira. Na cidade sul-mato-grossense, conheceu sua primeira mulher, de quem escondeu o fetiche. Eles se casaram em 1974.

"Muitas vezes, eu tinha que viajar de caminhão, a trabalho, e usava lingeries. Mas nunca usei nada na frente dela", relata. Certa vez, a mulher encontrou, no bolso de uma calça de Heraldo, calcinhas que haviam sido utilizadas pelo próprio marido. "Talvez ela desconfiasse, mas não falou nada."

Foi também nesse período que Afrodite teve a única filha, Tatiana, um ano após o casamento. Foi um dos momentos mais importantes de sua vida.

"Eu sempre quis ter uma filha, porque acreditava que me identificaria mais", comenta.

O casamento durou 16 anos e terminou após Afrodite engatar um romance com outra mulher. Depois desse relacionamento, pela primeira vez, ela arriscou sair na rua com roupas femininas.

"Eram coisas discretas. Comecei no fim de 1995. Eu não conhecia sobre crossdresser nem transgênero, só tinha muita vontade de andar vestida de mulher e de ser uma", relata.

Ela deixou de esconder os desejos aos amigos mais próximos, mas logo desistiu de usar roupas femininas em público. "O preconceito era muito grande nas ruas. Não cheguei a ser alvo de nenhuma agressão, mas ouvia comentários como 'bicha' ou 'viado'. Então, decidi me preservar e também desisti, temporariamente, dos meus planos de mudar de sexo."

O segundo casamento durou 14 anos e terminou em 2013. Um dos motivos do rompimento, diz a crossdresser, era a vida sexual do casal - Afrodite diz que sempre teve dificuldade em se relacionar com mulheres, mas tampouco se interessa por homens. "Eu me considero heterossexual, porque pessoas do mesmo sexo nunca me atraíram. Às vezes penso que posso ser assexual."

A carreira de pastor

Durante o segundo casamento, Heraldo, espírita kardecista desde a infância, decidiu conhecer mais sobre a religião da companheira, que era evangélica. Acabou se tornando pastor, função que exerceu por mais de 10 anos na Assembleia de Deus em Cuiabá.

"Eu pregava, dava testemunhos e falava sobre a palavra de Deus. Eu fazia até culto em minha residência, para 150 pessoas. Gostava muito". E costumava liderar cerimônias religiosas com roupas íntimas femininas. "Ninguém percebia, mas eu usava, porque me sentia bem."

Com o passar dos anos, passou a se questionar sobre como a religião enxergaria o fato de se sentir como uma mulher. "As minhas fantasias continuavam e, muitas vezes, perguntei a Deus se eu estava errada. Mas me sentia em paz com minha consciência e isso me tranquilizava."

Em 2013, após decidir que iria se tornar crossdresser, deixou a Assembleia de Deus. "Muitas coisas iam contra os meus princípios e me sentia muito reprimida. Eu acho que não deveria ter ficado tanto tempo (na igreja). Hoje penso que não deveria ter retardado tanto a minha felicidade."

Relação com a família

Afrodite conta que tinha uma boa relação com seus irmãos - com quem chegou a formar uma sociedade em uma empresa eletrotécnica - até ela passar a usar roupas femininas abertamente.

"Falaram que eu estava ficando maluca. Foram me isolando e até me proibiram de atender clientes", afirma.

Afrodite chegou a registrar boletim de ocorrência contra parentes, alegando sofrer ameaças de agressão. E abriu um processo contra os dois irmãos por injúria e difamação. "Já tivemos algumas audiências e a juíza orientou que a gente faça acompanhamento psicológico", diz.

A doutora em psicologia social Sandra Elena Sposito afirma que o acompanhamento psicológico pode auxiliar uma crossdresser a se entender melhor. "Essas pessoas podem precisar, talvez, de algum amparo para enfrentar situações de estigma e preconceito. Não pelo crossdressing em si, mas para que compreendam que essa situação não precisa gerar sofrimento. A dificuldade vem da forma de estar no mundo e não ser reconhecida, não poder transitar na sociedade nem se expressar socialmente."

O preconceito dentro da própria família foi justamente a parte mais difícil para Afrodite. "Eram pessoas que eu esperava que, ao menos, me respeitassem. Não imaginava que fossem me atacar dessa forma", lamenta. No entanto, ela afirma ter recebido apoio dos sobrinhos e do pai. "Ele agiu normalmente comigo. Não fez nenhum comentário quando me viu de mulher pela primeira vez."

Ao recordar-se da mãe, já falecida, ela se emociona. "Ela me amaria ainda mais. Sei que ela me assiste, porque nada dá errado para mim. Sei que estou conseguindo vencer. Hoje, sinto a presença dela me encorajando", diz, entre lágrimas.

Outro apoio importante veio da filha, a dona de casa Tatiana Rodrigues, de 42 anos. "Ela lidou tranquilamente com isso. Na primeira vez em que ela me viu, só me deu um conselho: 'não pinta a unha de cor muito forte quando estiver trabalhando'. Mas eu disse que gosto de cores assim, pois escondem a sujeira da unha, por conta do meu trabalho como caminhoneira."

Rodrigues conta que, até 2017, nunca havia identificado no pai um interesse em se transformar em mulher. "Nunca pensei nisso. Meu pai não era aquela figura extremamente machista, mas nunca demonstrou tendência afeminada. Era um senhor comum", explica.

"Não posso dizer que (vê-lo vestido de mulher) foi algo que você olha e pensa: 'tudo bem'. A primeira coisa que pensei foi: 'nossa, é o meu pai. Aquela imagem que eu tinha antes não existe mais'. Mas a essência dele é a mesma e é isso que importa. Depois do primeiro impacto, passei a encarar normalmente, porque meu pai para mim é um tesouro, junto com a minha mãe", conta.

Preconceito e mudança de gênero

Mas a filha teme pela integridade física do pai. "O meu medo é que ele sofra algum tipo de violência, porque o mundo está cada vez mais perigoso e existem muitas pessoas intolerantes", diz.

É o mesmo temor do pai. "Nunca fui agredida fisicamente, mas esse é o meu maior medo", conta Afrodite.

Desde que se assumiu como crossdresser, ela passou a enfrentar comentários maldosos e situações constrangedoras. "Já levei empurrões em bares, mas outras pessoas entraram para me defender. Eu também já fui impedida de entrar em alguns estabelecimentos. O preconceito agora faz parte da minha rotina. As pessoas torcem o nariz, às vezes levantam e vão sentar em outro lugar. Eu ignoro, mas isso tudo machuca."

Um dos momentos mais difíceis é quando precisa utilizar banheiro em algum estabelecimento público. "Muitos não me deixam entrar no feminino e eu tenho que ir ao masculino. É ruim, porque eu uso meia-calça, tenho que usar o mictório e acabo tendo que levantar o vestido. Me sinto exposta, porque sempre tem alguém que me constrange ou me xinga dentro do sanitário", lamenta.

Afrodite gostaria de realizar a cirurgia de mudança de sexo ainda neste ano. Antes, porém, deverá fazer acompanhamento terapêutico, para que possa receber laudo psicológico/psiquiátrico favorável e o diagnóstico de transexualidade.

Enquanto isso, ela entrou com uma ação na Justiça para que o nome Afrodite passe a constar em seus documentos. "Expliquei para a juíza que eu não sou homossexual, sou transexual. No Fórum, todos me chamavam de Afrodite", relata. O processo ainda está em tramitação.

Atualmente, Afrodite se classifica como crossdresser, por não ter feito nenhuma modificação em seu corpo. Quando fizer a cirurgia de mudança de sexo, passará a se considerar transexual. "Eu quero chegar o mais próximo possível de uma mulher, que é como eu realmente me sinto", conta.

Crossdresser há cerca de dez anos, a psicóloga e artista plástica Fe Maidel argumenta que o crossdressing não necessariamente precede uma mudança de gênero: "Cada pessoa tem uma maneira única de se expressar no mundo. Ser crossdresser pode ser o começo de um processo de conhecimento, que pode culminar na transição de gênero, ou não".

A vontade de concluir a fase de transição é tamanha que Afrodite tem tomado hormônios por conta própria, sem consultar um médico, há cinco meses. "A minha filha já me deu bronca. Ela falou: 'papai, eu convivi com o Heraldo por 42 anos e quero viver o mesmo período com a Afrodite'", comenta. A crossdresser prometeu suspender o medicamento até a devida indicação médica.

A redesignação sexual será, segundo ela, o começo de uma nova vida. "É um sonho que tenho desde criança. Eu preciso muito dessa cirurgia", diz. E, mesmo antes disso, Afrodite já decretou a morte do homem que era desde a infância. "As pessoas me perguntam o porquê de eu gostar tanto de preto. É porque estou de luto, em respeito ao Heraldo, que morreu."

A crossdresser leva uma vida solitária. Sua rotina se resume a alguns fretes no caminhão, ir a lojas comprar roupas e frequentar bares, nas noites em que está feliz. A maior parte de seus dias ela tem passado em casa, onde mora sozinha, junto com 16 gatos. Diz que há poucas pessoas com as quais pode contar. "É triste, mas eu sei que acabam se afastando de mim. Só tenho a minha filha, minha neta, meu genro e minha primeira esposa."

Mesmo assim, Afrodite não se arrepende de ter se assumido crossdresser. "Eu só me culpo por não ter feito isso antes. O que me deixa triste é que sei que já estou velha e não vou ter tanto tempo para desfrutar desse meu sonho."



segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 30


SOBRE O CASAMENTO E O CELIBATO


S. Paulo escreve: É bom para os viúvos e as viúvas que permaneçam no estado em que também eu vivo. Caso, porém, não se dominem, que se casem. É melhor casar do que viver abrasado. [1 Cor 7.8-9]

Sem dúvida, é bom permanecer como S. Paulo. No entanto, coloca ao lado disso a razão por que não é bom permanecer assim, e por que é melhor casar-se de novo do que permanecer viúvo. S. Paulo resumiu todas as razões para o casamento num só ponto e delimitou toda a glorificação da castidade nas palavras: “Caso, porém, não se dominem, que se casem”. Isso significa: a necessidade te obriga a casar. Por mais que se glorifique a castidade, e por mais nobre que seja a dádiva da castidade, a necessidade a impede, de maneira que poucos são aptos para ela, pois não se dominam. Embora sejamos cristãos e tenhamos o Espírito de Deus na fé, nem por isso está eliminada a criatura de Deus, tu como mulher, eu como homem. Apesar disso o Espírito deixa ao corpo sua natureza e suas funções naturais, como comer, beber, dormir, digerir, defecar, como o faz o corpo de qualquer pessoa.

Da mesma forma também não elimina os caracteres femininos ou masculinos, seu instinto, sua fecundidade e capacidade de procriar. O corpo de um cristão se procria e se multiplica da mesma forma como o de outros seres humanos, pássaros e todos os animais, para o que foi criado por Deus (Gn 1.28). Por isso um homem tem que se unir à mulher e a mulher ao homem por necessidade, quando Deus não faz um milagre por meio de um dom especial, impedindo [a destinação de] sua criatura. É isso que S. Paulo quer dizer aqui: “Quem não se domina, que se case”, como a dizer: A quem Deus não conceder o dom especial, mas deixa ao corpo, seu gênero e natureza, para este é melhor, sim, necessário, que se case, e que não permaneça nem viúvo nem virgem. Ora, Deus não tem a intenção de dar essa graça às pessoas em geral; o comum há de ser o casamento, tal como o instituiu uma vez e como criou ambos os corpos. Não anulará ou bloqueará em todas as pessoas os caracteres recebidos na criação.

Além do mais, um cristão é espírito e carne. Por causa do espírito ele não necessita de matrimônio. Visto, porém, que sua carne é carne comum, corrompida em Adão e Eva, cheia de maus desejos, ele necessita do matrimônio por causa dessa mesma enfermidade e não está em seu poder livrar-se dele. Pois seu corpo tumultua, arde e tem o desejo de procriar como o corpo de qualquer outra pessoa, se não lhe vem em socorro e o dominar com o devido remédio o matrimônio. Deus tolera esse tumultuar por causa do matrimônio e seu fruto. Pois revelou em Gn 3.16 o que está disposto a tolerar no homem, ao não revogar a bênção da multiplicação, pelo contrário, a confirmou, embora soubesse que a natureza corrupta, cheia de maus desejos, não seria capaz de efetuar essa benção sem pecado.

Querer desprezar o estado matrimonial, afastar dele e querer atrair as pessoas para a castidade, visto que acarreta muito sofrimento e incômodos, de nada adianta e não vale, é um empreendimento louco e maldoso. Pois assim não se resolve o problema, porque a necessidade sempre se interpõe e diz: Não pode ser, não é possível, a gente não consegue viver neste céu. Como diz S. Paulo: “Quem não se domina, que se case”. Por outro lado, também não resolve glorificar o estado matrimonial, pois de fato é algo divino, cheio de bens espirituais, pois ninguém ou somente poucos se deixariam comover ao casamento por causa de tais bens. A natureza teme esforço e trabalho.

Existem muitos motivos para casar. Alguns se casam por causa de dinheiro e bens; grande parte casa-se por paixão, à procura de prazer e satisfação; outros ainda para gerar herdeiros. S. Paulo aponta este um, e em princípio não conheço outro mais forte do que este: a necessidade. Sim, necessidade. A natureza procura realizar-se, quer fecundar e multiplicar-se e Deus não quer que isso aconteça fora do matrimônio. Portanto, por causa dessa necessidade, todos têm que procurar o matrimônio, se quiserem viver de boa consciência e orientar-se em Deus. Além dessa necessidade, todas as demais, evidentemente, farão um mau matrimônio, especialmente a paixão que leva as pessoas doidas a entrarem levianamente num estado tão sério, necessário e divino, para logo depois se darem conta do que prepararam para si mesmos.

No entanto, que significa: “Casar-se é melhor do que viver abrasado”? Sem dúvida, toda pessoa que quer viver sem matrimônio e castamente sem a graça [especial] entenderá essa palavra e saberá o que significa. Pois S. Paulo não fala de segredos, mas dos sentimentos comuns e evidentes daqueles que vivem castamente sem serem casados e que, não obstante, não receberam a graça para tanto. Pois diz que vivem abrasados todos os que vivem na castidade sem possuírem a graça, e aponta como único remédio o matrimônio. Se isso não fosse algo tão comum ou se existisse outra solução, não teria aconselhado o matrimônio, embora em alemão se fale do “sofrimento oculto”, que não seria tão comum se fosse um mal oculto.

Também é indubitável que aqueles que têm a graça da castidade não obstante sentem às vezes o mau desejo e são tentados. Mas é algo passageiro, por isso não se pode falar em ardor. Resumidamente, viver abrasado é o ardor da carne que não cessa de tumultuar, é a atração diária pela mulher ou pelo homem que existe em toda parte onde não há gosto e amor pela castidade, de maneira que são tão poucos os que não vivem abrasados, como são poucos os que receberam a graça de Deus para a castidade. Esse ardor é mais forte num, mais brando no outro. Alguns o sentem com tanta violência que se satisfazem a si mesmos. O lugar de todos esses é o casamento. Ouso até dizer: Para cada pessoa casta deve haver mais do que cem mil pessoas casadas.

Nada melhor do que um exemplo: S. Jerônimo, que glorifica a castidade da forma mais exagerada, confessa que não conseguiu dominar sua carne nem com jejum nem com vigílias, de modo que sua castidade se lhe tomou extremamente amarga. Quantas horas boas deve ter perdido com pensamentos carnais! Insistia em que a castidade deve ser trabalhada e que é algo comum. Ora, o homem vivia abrasado e devia ter-se casado. Aí percebes o que significa viver abrasado. Ele foi um daqueles que devia ter casado, e injustiçou-se e fez sofrer a si mesmo pelo fato de não ter-se casado. Há muitos desses exemplos nas biografias dos pais.

S. Paulo chega à seguinte conclusão: Onde não existe o especial dom de Deus, há que se viver abrasado ou casar-se. Em todo o caso (diz Paulo) é melhor casar do que viver abrasado. Por quê? Viver abrasado é castidade inexistente, ainda que não se concretize em atos, porque não é vivida com prazer e boa vontade, mas com grande desgosto, aversão e sob coerção. Desse modo ela é considerada incastidade perante Deus, pois o coração é incasto embora o corpo não ouse ser incasto. De que adianta sustentares uma castidade inexistente e incasta com grande, amargo sacrifício contra tua vontade? Em todos os casos seria melhor ser casado e fugir desse dissabor. Embora também o matrimônio tenha seus desgostos e dissabores, é possível aceita-los e de vez em quando ter seus dias de sossego e prazer. E onde, fora do matrimônio, não existe a graça [especial], é impossível consentir com a castidade e viver nela com prazer.

Aí vês quão tolos mestres e governantes são esses que em toda parte obrigam a juventude à castidade e ainda pretextam que quanto mais amarga e quanto maior a resistência, tanto melhor seria a castidade. Brinca desse jeito com outros assuntos, mas não com a castidade, pois ninguém pode aceder prazerosamente a ela quando não tiver a graça especial. Todas as demais coisas podem ser aceitas prazerosamente, desde que haja fé. Procedem como os judeus que queimavam seus filhos em sacrifício ao ídolo Moloque [cfe. Jr 32.35], de modo que até parece que S. Paulo usou o termo “arder” porque quis apontar e denunciar essa abominação. Pois que diferença existe entre manter um jovem abrasado a vida inteira num convento ou de outra forma e queimar uma criança em honra ao diabo, somente para manter uma miserável castidade inexistente?

Em homenagem a esses mestres e governantes tenho que contar o que ouvi certa vez a respeito de um homem valente, para que essas grosseiras cabeças cegas compreendam com que sabedoria procedem em seu governo. Um desses pregadores escrevera certa vez que quem quisesse prestar um serviço a Deus, deveria empreender algo grande e machucar bastante a si mesmo. Para tanto cita como exemplo a Simeão de Vitae Patrum [*], que ficou um ano inteiro apoiado numa só perna sobre uma alta coluna, orando sem cessar, nem comer nem beber, até que se desenvolveram vermes em seu pé. Ao caírem, os vermes se transformaram em pedras preciosas. É assim que deves proceder contigo, se quiseres servir a Deus (disse dito pregador). É próprio desses pregadores pregar essas mentias que o diabo sem dúvida inventou outrora por meio de malvados patifes para zombar dos cristãos, para acabar com seus milagres que faziam em grande número naqueles tempos, como se todos eles não passassem de tais ludíbrios.

Um desses pregadores doidos teve por discípulo outro doido, conforme o provérbio: “Um louco produz mais outros dez”. Este quis servir a Deus e resolveu torturar-se a si mesmo e começou a reter a urina. Tendo retido a urina por quatro dias, ficou doente; mas ninguém conseguiu dissuadi-lo e quis morrer. Até que Deus inspirou alguém que elogiou seu intento e o apoiou dizendo que ele estava certo (como se deve falar com loucos, para que o entendam, diz Salomão [cfe. Pv 26.5]). “No entanto”, disse ele, “estás fazendo isso por pura vaidade. Se assim for, de nada vale”. Ouvindo isso, desistiu de seu intento e disse: “Se é como me acabais de explicar, desisto”.

Ora, isso é uma loucura grosseira, mas não se deve desprezá-la simplesmente. Com isso Deus mostrou (como disse) o que esses mestres e governantes são capazes de aprontar. Vamos sublinhar o seguinte: a realidade é como a ensina a Escritura e toda a experiência: esta vida na terra é miserável, cheia de miséria e sofrimento, qualquer que seja a posição social que venhas a escolher (desde que seja divina). No entanto, ninguém é tão miserável como aquele a quem se ordena reter a urina ou as fezes. Seria preferível escolher qualquer das condições [de miséria e sofrimento] do que sujeitar-se a algo tão impossível. Visto que ninguém tem obrigação de cumprir tal mandamento, as pessoas não percebem o quanto é agradável urinar e defecar; enquanto isso ficam contemplando e lamentando a miséria em sua condição, que não é a décima parte do que seria essa miséria.

A mesma coisa acontece com esse fogo. Pois os casados estão livres dele, podem apagar seu fogo e esquecem o sofrimento (do mesmo modo como a mulher pensa de maneira muito diferente depois do parto do que antes e durante o parto), e passam a olhar somente para as dificuldades e dissabores de seu estado. Pois ninguém dá atenção às coisas boas que tem, e as coisas más se esquecem depois que passaram. Aqueles, porém, que vivem abrasados e não têm perspectivas, só podem zombar e chamar de loucos aqueles que são casados e, não obstante, se queixam do matrimônio. Pois estão obrigados a dominar o que não se pode dominar, e ainda deverão dominá-lo em vão e perder toda essa amarga fadiga. Sem dúvida, uma desgraça lamentável! O quanto preferiram suportar todos os dissabores do matrimônio do que esse fogo. É isso que S. Paulo quer dizer com: “É melhor casar do que viver abrasado”, querendo significar: casar é ruim, mas viver abrasado é pior. Em resumo: o matrimônio cheio de dissabores é melhor do que a castidade cheia de dissabores. O matrimônio amargo e difícil é melhor do que a castidade amarga e difícil. Motivo: esta de nada vale, aquele pode ser útil.

Digo isso a respeito do fogo que sofrem os que se dominam, que são muito poucos, pois a maioria não suporta esse ardor e não se domina, mas encontram maneiras para se livrarem dele. Disso, porém, não pretendo escrever agora. Quando, porém, se livram dele fora do matrimônio, logo a consciência os acusa, o que é a desgraça mais insuportável e a mais miserável condição na terra. O resultado final de tudo é que a maior parte dos solteiros e dos que vivem na castidade sem terem o dom para isso são constrangidos e obrigados a pecar fisicamente com incastidade, e os demais são obrigados a viver castos exteriormente e incastos interiormente. Dessa maneira aqueles levam uma vida condenável e estes, uma vida desgraçada e sem sentido. E onde estão os governantes espirituais e seculares que se preocupam com esse sofrimento das pobres almas? Com sua incitação e constrangimento [à castidade] apenas ajudam ao diabo a multiplicar diariamente essa miséria.

[*] Vitae patrum. Migne, Patrol. Lat. Tom. 73, cl. 328s. A citação refere-se a Simeão, o Estilita (390-459), que levou a vida eremita e ascética a um certo auge, vivendo sobre uma coluna [em grego stylos - "pilar"] de 20 metros. Do alto dela dirigia-se aos que o procuravam, tendo grande influência em seus dias com suas pregações de acento calcedonense [o Concílio da Calcedônia foi realizado no ano 451 d. C.].

(LUTERO, Martinho. O 7º Capítulo de S. Paulo aos Coríntios. 1523. Tradução de Ilson Kayser. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. 1995. Vol. 5, págs. 204-208)



domingo, 10 de janeiro de 2016

O mundo diferente dos assexuados


Matéria publicada na BBC Brasil:

Jovem aborda tabu de viver sem desejo sexual: 'Não acho que eu esteja perdendo alguma coisa'

Robin tem 23 anos, é virgem, diz que não tem desejo sexual por nenhuma outra pessoa e que nunca beijou ninguém.

"Eu não tenho nenhum desejo sexual por ninguém. Eu nunca fiquei excitado fisicamente ou mentalmente por outro ser humano... E eu não acredito que eu esteja perdendo alguma coisa", disse ele, em entrevista à rádio 5 da BBC.

"Eu nunca me apaixonei. Eu amo minha família e eu sei como esse sentimento é".

Essa é a assexualidade, que significa não sentir atração sexual. É uma orientação sexual e não uma opção como o celibato.

"Eu me classifico como arromântico e assexuado, o que significa que eu nunca tive interesse em ter envolvimento emocional com alguém. Eu nunca senti isso por alguém. Pode acontecer algum dia, eu não descarto isso".

A comunidade de assexuais tem crescido nos últimos 10 anos, com a criação de fóruns e grupos na internet. Mas pesquisas e dados são limitados e é difícil estimar quantas pessoas no mundo se consideram assexuais.

Ainda não se sabe, por exemplo, se a assexualidade é alguma coisa que dura por toda a vida ou apenas por um período.

No Reino Unido, estima-se que 1% da população se identifique assim, disse Matt Dawson, professor de Sociologia da Universidade de Glasgow.

Ele integrou um grupo que entrevistou, por dois anos, 50 pessoas assexuais sobre suas experiências. Para muitos, sexo e romance são duas coisas distintas: alguns têm relacionamentos bem próximos, outros têm relacionamentos românticos mas não sexuais.

"De forma alguma se trata de pessoas sem relacionamentos íntimos", disse ele.

Mas ainda há problemas na aceitação de assexualidade. Um estudo sugeriu que estas pessoas são vistas de forma mais negativa do que aquelas com outras orientações sexuais.

George Norman é ativista assexual e estudante da Universidade de York. Segundo ele, as pessoas "tendem a fazer conclusões" sobre as pessoas assexuais.

"Você tem reações negativas mas, em geral, especialmente entre os mais jovens, é cada vez mais positivo", disse ele.

"É importante para todo mundo entender que sexo e romance não são necessariamente a mesma coisa. Podem ser coisas distintas".

Românticos e arromânticos

Tom tem 26 anos e também é virgem. Disse que nunca se apaixonou e acredita que isso provalmente não mudará.

Ele não gosta de tocar outras pessoas e considera muitas músicas "demasiadamente românticas". Cenas de sexo em filmes são uma interrupção desnecessária do roteiro, diz.

"Eu cresci no tradicional 'você não pode fazer sexo antes do casamento'", disse ele.

Só aos 22 anos que ele descobriu sua assexualidade. "Minha família não entende e eles não querem falar sobre isso, mas alguns dos meus amigos sabem".

"Um gay só precisa mencionar o namorado e ficará óbvio que eles são gays. É mais difícil se você é assexual".

"Às vezes eu fico triste - é pior quando eu estou doente e em casa sozinho, seria legal ter alguém".

Assim como Robin, Tom também se considera um "assexuado arromântico".

O sociólogo Mark Carrigan, da Universidade de Warwick, diz que há uma diferença entre assexuados arromânticos e românticos.

"Os arromânticos não têm qualquer atração romântica, então, em muitos casos, eles não querem ser tocados, não querem nenhuma intimidade física", disse.

"Os românticos não têm atração sexual, mas têm atração romântica. Então, eles olham para alguém e não respondem sexualmente, mas querem chegar perto, descobrir um pouco mais, compartilhar coisas".

Mas Robin rebate aqueles que acreditam que ele mudaria se pudesse: "Não gostaria que fosse diferente".



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