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quinta-feira, 14 de março de 2013

Clodovis Boff defende Bento XVI e critica teologia da libertação

Ontem, 13/03/13, reproduzimos aqui um artigo de Leonardo Boff, em que ele critica a teologia do papa emérito Bento XVI.

Hoje é a vez de seu irmão, Clodovis Boff, defender o papa emérito e criticar a teologia da libertação em entrevista publicada na Folha de S. Paulo de 11/03/13:

Irmão de Leonardo Boff defende Bento 16 e critica Teologia da Libertação

ALEXANDRE GONÇALVES

Em maio de 1986, os irmãos Clodovis e Leonardo Boff publicaram uma carta aberta ao cardeal Joseph Ratzinger. O artigo analisava a instrução "Libertatis Conscientia", em que o futuro papa Bento 16 visava corrigir os supostos desvios da Teologia da Libertação na América Latina. Os religiosos brasileiros desaprovavam, com uma ponta de ironia e uma boa dose de audácia, a "linguagem com 30 anos de atraso" no texto.

Em 2007, o irmão mais novo de Leonardo Boff voltou à carga. Mas, dessa vez, o alvo foi a própria Teologia da Libertação --movimento do qual ele foi um dos principais teóricos e que defende a justiça social como compromisso cristão. Ele censurou a instrumentalização da fé pela política e enfureceu velhos colegas ao sugerir que teria sido melhor levar a sério a crítica de Ratzinger.

Em entrevista à Folha por telefone, frei Clodovis diz que Bento 16 defendeu o "projeto essencial" da Teologia da Libertação, mas o critica por superdimensionar a força do secularismo no mundo.

Folha - Bento 16 foi o grande inimigo da Teologia da Libertação?

Clodovis Boff - Isso é uma caricatura. Nos dois documentos que publicou, Ratzinger defendeu o projeto essencial da Teologia da Libertação: compromisso com os pobres como consequência da fé. Ao mesmo tempo, critica a influência marxista. Aliás, é uma das coisas que eu também critico.

No documento de 1986, ele aponta a primazia da libertação espiritual, perene, sobre a libertação social, que é histórica. As correntes hegemônicas da Teologia da Libertação preferiram não entender essa distinção. Isso fez com que, muitas vezes, a teologia degenerasse em ideologia.

E os processos inquisitoriais contra alguns teólogos?

Ele exprimia a essência da igreja, que não pode entrar em negociações quando se trata do núcleo da fé. A igreja não é como a sociedade civil, onde as pessoas podem falar o que bem entendem. Nós estamos vinculados a uma fé. Se alguém professa algo diferente dessa fé, está se autoexcluindo da igreja.

Na prática, a igreja não expulsa ninguém. Só declara que alguém se excluiu do corpo dos fiéis porque começou a professar uma fé diferente.

Não há margem para a caridade cristã?

O amor é lúcido, corrige quando julga necessário. [O jesuíta espanhol] Jon Sobrino diz: "A teologia nasce do pobre". Roma simplesmente responde: "Não, a fé nasce em Cristo e não pode nascer de outro jeito". Assino embaixo.

Quando o sr. se tornou crítico à Teologia da Libertação?

Desde o início, sempre fui claro sobre a importância de colocar Cristo como o fundamento de toda a teologia. No discurso hegemônico da Teologia da Libertação, no entanto, eu notava que essa fé em Cristo só aparecia em segundo plano. Mas eu reagia de forma condescendente: "Com o tempo, isso vai se acertar". Não se acertou.

"Não é a fé que confere um sentido sobrenatural ou divino à luta. É o inverso que ocorre: esse sentido objetivo e intrínseco confere à fé sua força." Ainda acredita nisso?

Eu abjuro essa frase boba. Foi minha fase rahneriana. [O teólogo alemão] Karl Rahner estava fascinado pelos avanços e valores do mundo moderno e, ao mesmo tempo, via que a modernidade se secularizava cada vez mais.

Rahner não podia aceitar a condenação de um mundo que amava e concebeu a teoria do "cristianismo anônimo": qualquer pessoa que lute pela justiça já é um cristão, mesmo sem acreditar explicitamente em Cristo. Os teólogos da libertação costumam cultivar a mesma admiração ingênua pela modernidade.

O "cristianismo anônimo" constituía uma ótima desculpa para, deixando de lado Cristo, a oração, os sacramentos e a missão, se dedicar à transformação das estruturas sociais. Com o tempo, vi que ele é insustentável por não ter bases suficientes no Evangelho, na grande tradição e no magistério da igreja.

Quando o sr. rompeu com o pensamento de Rahner?

Nos anos 70, o cardeal d. Eugênio Sales retirou minha licença para lecionar teologia na PUC do Rio. O teólogo que assessorava o cardeal, d. Karl Joseph Romer, veio conversar comigo: "Clodovis, acho que nisso você está equivocado. Não basta fazer o bem para ser cristão. A confissão da fé é essencial". Ele estava certo.

Assumi postura mais crítica e vi que, com o rahnerismo, a igreja se tornava absolutamente irrelevante. E não só ela: o próprio Cristo. Deus não precisaria se revelar em Jesus se quisesse simplesmente salvar o homem pela ética e pelo compromisso social.

Bento 16 sepultou os avanços do Concílio Vaticano 2º?

Quem afirma isso acredita que o Concílio Vaticano 2º criou uma nova igreja e rompeu com 2.000 anos de cristianismo. É um equívoco. O papa João 23 foi bem claro ao afirmar que o objetivo era, preservando a substância da fé, reapresentá-la sob roupagens mais oportunas para o homem contemporâneo.

Bento 16 garantiu a fidelidade ao concílio. Ao mesmo tempo, combateu tentativas de secularizar a igreja, porque uma igreja secularizada é irrelevante para a história e para os homens. Torna-se mais um partido, uma ONG.

Mas e a reabilitação da missa em latim? E a tentativa de reabilitação dos tradicionalistas que rejeitaram o Vaticano 2º?

Não podemos esquecer que a condição imposta aos tradicionalistas era exatamente que aceitassem o Vaticano 2º. O catolicismo é, por natureza, inclusivo. Há espaço para quem gosta de latim, para quem não gosta, para todas as tendências políticas e sociais, desde que não se contraponham à fé da igreja.

Quem se opõe a essa abertura manifesta um espírito anticatólico. Vários grupos considerados progressistas caíram nesse sectarismo.

Esses grupos não foram exceção. Bento 16 sofreu dura oposição em todo o pontificado.

A maioria das críticas internas a ele partiu de setores da igreja que se deixaram colonizar pelo espírito da modernidade hegemônica e que não admitem mais a centralidade de Deus na vida. Erigem a opinião pessoal como critério último de verdade e gostariam de decidir os artigos da fé na base do plebiscito.

Tais críticas só expressam a penetração do secularismo moderno nos espaços institucionais da igreja.

Como descreveria a relação de Bento 16 com a modernidade?

É possível identificar um certo pessimismo na sua reflexão. Ele não está só. Há um rio de literatura sobre a crise da modernidade, que remete até mesmo a autores como Nietzsche e Freud. O que ele tem de diferente? Propõe uma saída: a abertura ao transcendente.

Ainda assim, há pessimismo.

Há algo que ele precisaria corrigir: Bento 16 leva a sério demais o secularismo moderno. É uma tendência dos cristãos europeus. Eles esquecem que o secularismo é uma cultura de minorias. São poderosas, hegemônicas, mas ainda assim minorias.

A religião é a opção de 85% da humanidade. Os ateus não passam de 2,5%. Com os agnósticos, não chegam a 15%. Minoria culturalmente importante, sem dúvida: domina o microfone e a caneta, a mídia e a academia. Mas está perdendo o gás. Há um reavivamento do interesse pela espiritualidade entre os jovens.

Que outras críticas o sr. faria a Bento 16?

Ele preferiria resolver problemas teológicos a se debruçar sobre questões administrativas na Cúria. E isso gerou diversos constrangimentos no seu pontificado. Ele também não tem o carisma de um João Paulo 2º. De certa forma, era o esperado em um intelectual como ele.

Não está na hora de a igreja ficar mais próxima da realidade dos fiéis?

Bento 16 não resolveu um problema que se arrasta desde o Concílio Vaticano 2º: a necessidade de se criarem canais para a cúpula escutar e dialogar com as bases.

Os padres nas paróquias muitas vezes ficam prensados entre a letra fria que vem da cúpula e o cotidiano sofrido dos fiéis, que pode envolver dramas como aborto ou divórcio. Note que não sugiro mudanças no ensinamento da igreja. Mas acho que seria mais fácil para as pessoas viverem a doutrina católica se houvesse processos que facilitassem esse diálogo.

Como vê o futuro da igreja?

A modernidade não tem mais nada a dizer ao homem pós-moderno. Quais as ideologias que movem o mundo? Marxismo? Socialismo? Liberalismo? Neoliberalismo? Todas perderam credibilidade. Quem tem algo a dizer? As religiões e, sobretudo no Ocidente, a Igreja Católica.



segunda-feira, 11 de março de 2013

Novo papa pode ser "Jesus com MBA"

Artigo publicado na Folha de S. Paulo de 10/03/13:

Cardeais querem 'Jesus com MBA' no comando da igreja

THOMAS REESE
ESPECIAL PARA A "NATIONAL CATHOLIC REVIEW"

Nas reuniões entre os cardeais em Roma para discutir as características que eles procuram no novo papa, está surgindo um consenso.

Eles procuram alguém capaz de pregar os Evangelhos de forma compreensível e atraente para as pessoas do século 21.

Para que isso seja crível, o novo papa precisa ser um homem santo, que acredite no que prega e viva o que preconiza. Também precisa ser um brilhante intelectual, como os papas João Paulo 2º e Bento 16 -conhecedor da tradição e da teologia da igreja.

Mas a santidade e a inteligência não bastam. Ele precisa parecer santo e ser capaz de explicar os ensinamentos da igreja às pessoas de hoje em linguagem que elas compreendam. Por fim, ele precisa ser um bom administrador, capaz de reformar a burocracia do Vaticano.

Em outras palavras: eles querem Jesus Cristo com um MBA. O problema, claro, é que ele morreu, ascendeu dos mortos e deixou a cidade para trabalhar na empresa da família.

Francamente, não há pessoa alguma no Colégio de Cardeais que atenda à descrição acima. Jesus pode ter fundado a Igreja Católica, mas deixou a gestão dela a simples seres humanos.

Pio XII e seu sucessor João XXIII,
então patriarca de Veneza
E tampouco existe consenso sobre o que os termos citados significam. O que é santidade? Quando eu era menino, nos anos 50, todos pensávamos que o papa Pio 12 fosse um santo. Ele certamente parecia pio e ascético: magro, com as mãos postas em oração e os olhos voltados ao céu. Imaginávamos que seus pés nem tocassem o chão quando ele se movia.

João 23, por outro lado, era gordo e sorridente e tinha um brilho brincalhão no olhar. Eram duas pessoas muito diferentes, mas foram reverenciadas como santas por suas respectivas gerações.

Será que precisamos de um papa que se ajoelhe, carrancudo, em oração, bradando aos céus, ou de um papa que fique sentado no jardim do Vaticano, cantando louvores como são Francisco de Assis, enquanto assiste ao pôr do sol?

TEÓLOGOS LIVRES

Tampouco existe consenso sobre a espécie de intelectual de que o pontificado necessita. João Paulo 2º e Bento 16 tinham suas visões teológicas, mas há outros teólogos brilhantes na Igreja Católica que seguiram abordagens diferentes.

As diferenças entre Bento 16 e Hans Küng são conhecidas, mas há outros, como o padre jesuíta Karl Rahner e o padre dominicano Edward Schillebeeckx, que enfrentaram problemas no Vaticano.

O que a igreja precisa é um santo Agostinho de Hipona ou um são Tomás de Aquino do século 21. Os conservadores que gostam de citar esses teólogos não querem que os teólogos contemporâneos os imitem. Os dois tomaram o melhor do pensamento intelectual de suas eras e o usaram para explicar o cristianismo às suas gerações.

Agostinho empregou o neoplatonismo porque todas as pessoas inteligentes de sua era eram neoplatônicas. Aquino tomou os escritos de Aristóteles que haviam sido redescobertos e representavam o pensamento de vanguarda em sua era. Aquino era tão radical que o bispo de Paris queimou seus livros.

A dificuldade hoje é que boa parte da teologia é expressa na linguagem do pensamento clássico, mas quando foi a última vez que você encontrou na rua um neoplatônico ou um aristotélico?

Hoje, precisamos de teólogos livres que imitem, e não apenas citem, esses grandes santos. Isso não significa eleger outro intelectual, como os cardeais fizeram nos dois últimos conclaves, mas sim um líder que permita que todos os demais teólogos da igreja façam seu trabalho sem medo de perseguição.

É preciso um papa que ouça, além de ensinar; um papa que encoraje a criatividade e que não se sinta obrigado a ter todas as respostas; um papa competente em criar consensos, e não apenas em proferir ordens.

Por fim, os cardeais precisam buscar alguém capaz de reformar a Cúria Vaticana, o serviço central de administração da igreja.

Uma vez mais, não existe consenso quanto ao que isso significa. Mesmo as pessoas que trabalham na Cúria concordam em que ela precisa ser reformada, mas com isso querem dizer "me dê mais poder para fazer meu trabalho e reduza o poder daqueles que se opõem a mim".

Essas pessoas não veem problema em ter um homem adoentado e em declínio como papa, desde que ele se disponha a lhes delegar autoridade. Dirigir a Igreja Católica em nome dele enquanto o pontífice presta testemunho sobre o sofrimento seria algo perfeitamente satisfatório para elas.

Por outro lado, muita gente gostaria de ver o poder da igreja descentralizado, o que causa repugnância ao Vaticano. Como uma reforma tributária, a reforma do Vaticano varia de acordo com as opiniões do observador. Minhas opiniões sobre a questão estão expostas em artigo que escrevi para a revista "Commonweal".

HOMEM PRÁTICO

O que os cardeais devem fazer caso não encontrem um Jesus Cristo com MBA?

Na época de são Bento, o fundador da ordem beneditina, um mosteiro enfrentou dilema semelhante e escreveu ao santo afirmando que havia divisão sobre a escolha de um abade. Um monge era renomado por sua santidade; um segundo era um teólogo brilhante; um terceiro candidato era um homem prático.

São Bento respondeu em uma carta: "Que o homem santo ore pelos monges, que o teólogo os ensine e que o homem prático os administre". Embora o papa não seja um abade, a recomendação não deixa de ser sábia.

THOMAS REESE, padre jesuíta e teólogo, é pesquisador do Centro Teológico Woodstock na Universidade de Georgetown (EUA) e ex-diretor da revista católica "America".

Tradução de PAULO MIGLIACCI



domingo, 24 de janeiro de 2010

O cristão do futuro

Karl Rahner (1904-1984) foi um teólogo católico alemão, um dos mais influentes do seu meio durante o Concílio Vaticano II e no século XX como um todo, que em 1965 publicou o livro “O Cristão do Futuro”, uma série de reflexões que fez sobre o resultado do concílio e suas expectativas para a Igreja e para os cristãos do futuro. 

Já no fim do livro, Rahner, mesmo não se reconhecendo como profeta, fez algumas previsões para o futuro da cristandade como ele vislumbrava naquela época, e é muito interessante reler este trecho, escrito em 1965, quando o mundo vivia o auge da guerra fria, o homem nem tinha chegado à lua, o computador dava seus primeiro passos (e sua versão pessoal só existia na ficção científica), os satélites começavam a ser utilizados, e Marshall MacLuhan lançaria seu livro sobre a ideia de uma “aldeia global” somente em 1968. 

Já em 1965, Rahner antevia um mundo integrado, com uma ideologia hegemônica, com poucas comunidades cristãs verdadeiramente significativas e ideologicamente independentes, em que não haveria nenhuma "vantagem terrena em ser cristão", bem ao contrário daqueles que hoje pregam que só se é cristão se houver algum benefício mundano envolvido.

Lá se vão 45 anos que o teólogo católico escreveu essas linhas, que mostram como ele estava à frente do seu tempo, e ainda que não se concorde com o seu posicionamento, faz-se necessário exercitar a nossa imaginação (por que não dizer “profecia”?) para ter um vislumbre da Igreja cristã daqui a algumas décadas, diante de tantos desafios que ela vem enfrentando hoje em dia. 

Afinal, o futuro para o Karl Rahner de 1965 é hoje, e não deixa de ser um excelente exercício mental (e espiritual) tentar imaginar como será a Igreja cristã de 2050 (se Jesus não tiver voltado antes).

Lembrando sempre, é claro, de Hebreus 3:13-14 (tradução NVI):

Pelo contrário, encorajem-se uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama "hoje", de modo que nenhum de vocês seja endurecido pelo engano do pecado, pois passamos a ser participantes de Cristo, desde que, de fato, nos apeguemos até o fim à confiança que tivemos no princípio.






A SITUAÇÃO DO CRISTÃO NO FUTURO

por Karl Rahner

Para promover o entendimento de algumas das características mais importantes deste decreto (visto que é impossível lidar com ele em sua inteireza, e visto que a maior parte dele já é familiar), talvez me deva ser permitido um pequeno experimento mental. Se for bem sucedido, estará tudo muito bem; se não, não tenho ninguém para responsabilizar senão a mim mesmo, e isso não é uma coisa ruim. Quero colocar-me na situação de um católico comum do futuro, particularmente o de um leigo, e perguntar o que especialmente o afeta neste documento. Não importa se a situação ocorrerá daqui a 20, 30 ou 100 anos. Não sou profeta, e se de fato estou tentando descrever essa situação de um católico futuro, com a pressuposição necessária do experimento, então a descrição não é uma profecia mas um sonho. Quer seja pesadelo, uma utopia feliz ou sem sentido, é uma questão que igualmente não precisa ser levantada.

Nesta data futura haverá comunidades católicas ou cristãs por todo o mundo, embora não distribuídas uniformemente. Por toda parte haverá um pequeno rebanho, porque a humanidade cresce mais rapidamente do que a cristandade e porque os homens não serão cristãos por costume e tradição, por causa das instituições e da história, ou por causa da homogeneidade de um ambiente social e opinião pública, mas – desconsiderando o zelo sagrado do exemplo paterno e a esfera íntima dos clãs, famílias e pequenos grupos – eles serão cristãos apenas por causa de seu próprio ato de fé, obtido numa luta difícil e continuamente reconquistado. Por toda parte, haverá diáspora. O estágio da história humana será uma unidade mais simples do que já é; todos serão vizinhos de todos, e a ação e a atitude de cada um contribuirá para determinar a situação histórica objetiva de todos. E “cada um” significa cada nação, civilização, realidade histórica e, proporcionalmente, cada indivíduo. Sem dúvida o campo da história universal será muito diferente em qualidade de lugar para lugar, com algumas partes em contradição, mas formará uma unidade na qual tudo interagirá historicamente. E visto que os cristãos formarão apenas uma minoria relativamente pequena, sem campo de existência histórica independente, eles, embora em graus variados, viverão na “diáspora dos gentios”. Em nenhuma parte haverá “nações católicas” que coloquem uma marca cristã sobre os homens antes de qualquer decisão pessoal. Por toda parte, os não cristãos e os anticristãos terão plenos e iguais direitos, e talvez possam pela ameaça e pressão contribuir para dar à sociedade seu caráter e até mesmo crescerem juntos em poder e jurisdições como sinais e manifestações do anticristo. E onde quer que, em nome da necessidade de educação e organização uniforme, o Estado ou talvez o futuro super-Estado estabeleça por imposição uma única ideologia, com todos os meios de pressão e formação modernas de enormes multidões de homens, não será uma filosofia cristã que será proclamada como ideologia oficial da sociedade. Os cristãos serão o pequeno rebanho do Evangelho, talvez respeitado, talvez perseguido, talvez dando testemunho da santa mensagem de seu Senhor com voz clara e respeitada no coro polifônico ou cacofônico do pluralismo ideológico, talvez apenas em uma voz baixa, de coração para coração. Eles estarão reunidos ao redor do altar, anunciando a morte do Senhor e confiando as trevas de sua própria sorte – uma escuridão de que ninguém será poupado mesmo no super-Estado de Bem-Estar do futuro – às trevas da morte de seu Senhor. Eles saberão que são como irmãos e irmãs um do outro, porque haverá poucos deles que não têm por sua própria decisão deliberada fixada em seu próprio coração e vida em Jesus, o Cristo, pois não haverá vantagem terrena em ser um cristão. Eles certamente preservarão fiel e incondicionalmente a estrutura de sua sagrada e não mundana comunidade de fé, esperança e amor, a Igreja, como é chamada, como Cristo a fundou. Eles certamente farão uso livre de tudo que o futuro lhes oferecer em termos de organização, comunicação de massa, tecnologia, etc.

A Igreja tem sido conduzida pelo Senhor da história para uma nova época. Ela dependerá em tudo da fé e do santo poder do coração, pois ela não será mais capaz de extrair alguma força, ou muito pouca, do que é puramente institucional, e que não mais sustentará o coração dos homens, mas a base de tudo que é institucional será o próprio coração dos homens. E assim, eles perceberão que são irmãos e irmãs, porque no edifício da Igreja cada um deles, quer ocupando o ofício, ou sem ofício, dependerá sempre do outro, e aqueles no ofício reverentemente receberão toda obediência dos outros como um maravilhoso dom livre e amoroso. Não será apenas o caso, mas também será claro e evidente ver que toda dignidade e todo ofício na Igreja é serviço não convencional, não levando consigo honra aos olhos do mundo, não tendo importância na sociedade secular. Mais aliviado de tal responsabilidade, talvez (quem sabe?) não mais constituirá uma profissão no sentido social e secular. A Igreja será um pequeno rebanho de irmãos da mesma fé, da mesma esperança e do mesmo amor. Ela não se orgulhará disso, e não pensará de si mesma como superior às épocas mais antigas da Igreja, mas obediente e agradecidamente aceitará sua própria época como a que é designada para ela por seu Senhor e por seu Espírito, e não meramente que é forçada a ela pelo mundo perverso.

(RAHNER, Karl. O Cristão do Futuro. São Paulo: Cristã Novo Século, 2004. pp. 78-81)

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