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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Revisitando Eclesiastes - capítulo 2

Leitura anterior: Revisitando Eclesiastes - capítulo 1

Depois de passar o capítulo 1 "desconstruindo" algumas verdades que as pessoas têm por inquestionáveis na vida, no início do capítulo 2 de Eclesiastes, o Pregador passa à construção de alguns pilares do seu ensino. 

Primeiro, ele começa a experimentar algumas hipóteses para ver se alguma delas se encaixa no bem supremo da vida, que deve ser buscado e alcançado pelos mortais. 

A primeira hipótese que ele, digamos, "testa", é a do hedonismo, antes mesmo que o hedonismo viesse a ser especulado pelos filósofos pós-socráticos na Grécia na transição do século V para o IV antes de Cristo. 

O hedonismo, muito simplificadamente, é uma corrente filosófica que defende a busca do prazer imediato, aqui e agora, o prazer pelo prazer, como a suprema felicidade. 

Logo no v. 1, o Pregador testa esta hipótese, mas também considera o hedonismo como vaidade, pois, para ele, o riso é loucura (ou tolice) e a alegria de nada serve (v. 2). 

O Pregador cogita, então, de se entregar ao vinho e à loucura, mas preservando a sabedoria (v. 3). Isto não significa propriamente embriagar-se, mas permitir algum tipo de privação mínima dos sentidos, como aquele que toma algumas taças de vinho, e começa a rir e falar imoderadamente, mas também nisso o Pregador não encontrou resposta aos seus anseios. 

Desde já, entretanto, apresenta a sabedoria como uma espécie de moderadora, controladora, desta busca. E, a seguir, testa as riquezas, a ostentação, o consumismo, o "ter" em vez de "ser", como uma possível razão para a felicidade (vv. 4-11), mas tudo era também "vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol" (v. 11). 

O estranho é que muitos pregadores atuais encontram somente no "ter" sinais distintivos de um verdadeiro cristão. Certamente, não leem ou não vivem nem pregam Eclesiastes.

Todas essas coisas eram vistas àquela época, e continuam sendo vistas assim até hoje, como aquilo que uma palavra só consegue definir: o "sucesso". 


O sucesso sempre foi um critério mundano para se definir, à primeira vista, se uma pessoa é ou não é feliz. O sucesso desperta a inveja, mas este é um tema que guardaremos para outra oportunidade. Por ora basta constatar que, como a própria experiência atual nos mostra, o sucesso não é duradouro, e muitas vezes faz mal. 

O exemplo de artistas que não conseguiram lidar com o sucesso, e muitas vezes sucumbiram a ele, está estampado todos os dias nos jornais e na televisão. 

Quando ninguém os conhece, eles querem atingir o sucesso a todo custo, a qualquer preço, e quando finalmente o conseguem, vêem que não lhes basta, há algo mais do que o sucesso a ser buscado, este sucesso que não consegue preencher o vazio que eles têm. 

O mesmo acontece com aquele que busca o prazer pelo prazer. Os hedonistas sabem que mesmo o "máximo prazer" nunca é suficiente, e é sempre necessário algo mais, daí a razão de muitos se entregarem à luxúria, às drogas, à violência, e se perderem pelo caminho. 

O paradoxo hedonista é que, quanto mais se busca o prazer, menos ele é encontrado (ou, pelo menos, mais ele foge). 

Tudo isto é, como o Pregador diz, "correr atrás do vento", e como Jesus também disse, "o vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai" (João 3:8).

A partir do v. 12, o Pregador passa a considerar a sabedoria, que já lhe havia servido como moderadora da embriaguez e da loucura (v. 3). Aqui, o Pregador já vê na sabedoria algo melhor do que a estultícia, já que "a luz traz mais proveito do que as trevas" (v. 13). 


Entretanto, tanto o sábio como o estulto terminam do mesmo jeito (vv. 14-15). Logo, por que buscar a sabedoria? Não seria isto também vaidade? 

Dentro da sua dialética toda peculiar, o Pregador primeiro vê alguma vantagem na sabedoria, mas depois volta atrás e se pergunta se ela é realmente tão vantajosa assim e, tanto a memória do sábio como a do estulto não durará para sempre, pois passado algum tempo, "tudo cai no esquecimento" (inclusive o momentâneo sucesso pelo qual alguns querem ser lembrados após sua partida deste mundo). 

Pela primeira vez, o Pregador fala da morte no seu discurso (v. 16). Aqui, a meu ver, ele passa a delinear uma resposta às suas questões, e começa a erguer dois pilares para sustentar seu pensamento e suas conclusões que só apresentará no final do livro. 

Um desses pilares, bastante claro, é a sabedoria. O outro é a eternidade. Ele vem falando da inutilidade do sucesso, e no v. 16 mostra que a tendência natural do mundo é que tudo e todos sejam esquecidos. 

Num paralelo neotestamentário, em Filipenses 3:4-6 o apóstolo Paulo lista uma série de qualidades pelas quais ele poderia ser considerado um homem de sucesso para o seu tempo e dentro da sua comunidade.

Entretanto, nos vv. 7 a 11, ele considera todos esses atributos humanamente valiosos como "perda", "refugo" ("estrume" nas versões mais antigas) quando os compara à eternidade que Cristo lhe garante.

A morte nos nivela a todos, indistintamente. É necessário, então, já adiantar um pouco nosso estudo e ligar este versículo com outro do capítulo 3, aquele que diz que Deus "pôs a eternidade no coração do homem" (3:11). 

Por um certo tempo da minha vida, por uma série de razões profissionais e sociais, eu convivi com muitas pessoas famosas, daquelas que integram o glamoroso mundo das celebridades. Pessoas de sucesso, portanto, que o atingiram segundo padrões humanos nem sempre muito claros.

Naquela época, eu comecei a pensar sobre o que significava a fama, afinal. O que é esta tal de fama, umbilicalmente ligada ao "sucesso", que tanta gente busca, mas nunca se sacia? 

Foi aí que eu percebi que todos aqueles que buscam a fama, no fundo, buscam uma maneira de se eternizar

Diante da mortalidade que nos limita a todos (e cuja constatação a tantos sufoca), e diante também deste desejo de eternidade que Deus colocou no coração do homem, a fama é um recurso que muitos buscam para tentar driblar a mortalidade e inscrever-se na eternidade. 

É verdade que muitos conseguem ser recordados e cultuados por algum tempo, mas a sua lembrança vai gradualmente se desfazendo e desaparecendo da memória coletiva. 

Quantas vezes ouvimos que "o brasileiro tem memória curta", mas será só o brasileiro que se esquece fácil e rapidamente? 

Penso que a verdade está com Davi, que teve coragem de dizer: "Sou esquecido como um morto de quem não há memória; sou como um vaso quebrado" (Salmo 31:12). O Pregador retornará a este tema em Eclesiastes 9:5, quando dirá que a memória dos mortos "jaz no esquecimento".

A partir do v. 18, o Pregador começa a finalizar o capítulo 2 de Eclesiastes falando sobre o trabalho e a herança. De que vale, afinal, trabalhar tanto? Quem se dedica ao trabalho a ponto de se tornar um "workaholic" é sábio ou estulto? 

De que adianta trabalhar tanto, morrer de repente e deixar tudo para quem não derramou uma gota de suor para merecer a herança? (vv. 18-21). 

Como Jesus disse numa de suas parábolas, sobre o homem rico que queria construir mais celeiros: "Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?" (Lucas 12:20). 

De que adianta levar trabalho do escritório à noite para casa (v. 23)? Ou seja, o "debaixo do sol" de que tanto fala o Pregador, corre o risco de se tornar "debaixo da lua" (v. 22). 

Deve o homem, então, simplesmente parar de trabalhar e esperar o tempo passar? "Não", é a resposta do Pregador. 

O homem deve trabalhar e conseguir o suficiente para "comer, beber e fazer com que a sua alma goze o bem do seu trabalho", sempre reconhecendo que é a mão de Deus que lhe proporciona estas alegrias simples, esses pequenos deleites da vida (v. 24). 

Aqui, o Pregador constrói um terceiro pilar para sustentar suas conclusões: a providência divina

É Deus, afinal, quem "dá sabedoria, conhecimento e prazer ao homem que lhe agrada", ressalvando que "ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte e amontoe, a fim de dar àquele que agrada a Deus" (v. 26). 

O trabalho não é nenhum mal em si, mas é o seu uso deturpado, ou a sua valorização excessiva, que o torna uma pedra de tropeço (e muitas vezes, de morte) para o ser humano.



Leitura seguinte: Revisitando Eclesiastes - capítulo 3



segunda-feira, 11 de junho de 2012

Espiritualidade sem fé e a era do desencanto

O filósofo francês Luc Ferry escreveu vários livros instigantes, entre eles "A Tentação do Cristianismo", e o caderno Sabático do Estadão do último sábado, 09/06/12, publicou uma longa entrevista com ele, imperdível para quem quiser - pelo menos - tentar entender o mundo atual e ter uma visão global de que caminho ele está tomando:

Uma nova ordem mundial

O francês Luc Ferry fala, em entrevista ao ‘Estado’, sobre a revolução provocada com o estabelecimento de uma espiritualidade laica - a filosofia do amor, que domina seu pensamento

Em 1979, quando o filósofo francês Jean-François Lyotard lançou A Condição Pós-Moderna, ensaio que abordava o declínio da ideia de emancipação e de outras metanarrativas nascidas com o Iluminismo, a crítica acadêmica internacional se fissurou. De um lado, seguiram os fiéis ao projeto moderno, calcado na construção de um futuro melhor e na ideia de um “dever ser”; de outro, os que abandonaram as ideologias, e adotaram a convicção de que o hedonismo e o presente são a melhor resposta às obsessões totalitárias.

Há 40 anos, essa segunda “tendência” acadêmica era marginalizada. Hoje, o curso da história lhes dá razão. E, em lugar de controvérsia, autores que advertem para os efeitos da ruptura das metanarrativas e dos valores tradicionais são premiados com o sucesso. Esse é o caso do filósofo francês Luc Ferry, autor de pelo menos dois best-sellers acadêmicos, Pensamento 68 – Ensaio Sobre o Antihumanismo Contemporâneo (1985) e A Nova Ordem Ecológica (1992), que lança no Brasil o ensaio A Revolução do Amor – Por uma Espiritualidade Laica (Objetiva) e O Anticonformista – Uma Autobiografia Intelectual (Difel).

Publicado em 2010 na França, A Revolução... teve acolhida calorosa de crítica e público. Esse sucesso talvez se explique pelo fato de que Ferry mergulha em um universo com o qual nos identificamos. Mesmo que se valha de autores como Rousseau, Kant, Nietzsche, Sartre, Husserl e Heidegger para construir sua argumentação, o livro é simples e não é difícil concordar com sua ideia básica: vivemos uma era de ruptura, e não estamos mais dispostos a nos sacrificar em nome de grandes ideias alheias, de utopias, mas sim em nome de nossos pais, filhos ou amigos. Um humanismo secular; uma espiritualidade sem fé. “Existem dois tipos diferentes de espiritualidade. Um age por meio de Deus e é, certamente, o conjunto das religiões; o outro, sem Deus, é o grupo das grandes filosofias”, explica ele no livro.

O Anticonformista, que Ferry lançou em seu país no ano passado, resulta de uma série de conversas com Alexandra Laignel-Lavastine, doutora em filosofia e especialista na história da intelectualidade. Dos anos de formação aos embates entre direita e esquerda, passando por sua experiência como ministro da Educação da França (2002-2004), a obra sublinha que a espiritualidade laica “constitui a pedra angular que hoje subentende toda a minha filosofia”. Não por acaso, A Revolução do Amor conduz a entrevista a seguir, concedida por e-mail pelo pensador ao Sabático.

Sua tese é de que o amor, ou melhor, o casamento por amor, e não mais por interesses, está no centro da nova ordem social. Ela gera uma segunda globalização, que sucede à do Iluminismo. A Revolução..., embora otimista, não é uma obra ingênua. É forte, não só pela temática e análise da desconstrução dos valores tradicionais, mas também por uma constatação: a de que as revoluções em curso, pelo menos no Ocidente, prosseguem – e sem armas.

Sobre A Revolução do Amor, comecemos por sua ideia de base: algo de revolucionário teria acontecido há alguns séculos: a invenção do casamento por amor na Europa. Qual é a amplitude desta revolução?

É imensa! A “revolução do amor” é o nascimento da família moderna, ou seja, a passagem do casamento arranjado ao escolhido. Esta revolução exige uma nova filosofia. Mas também chacoalha nossa relação com a coletividade. É o que chamo de “segundo humanismo”. O primeiro foi o da lei e da razão. Era o do Iluminismo e dos direitos humanos, dos republicanos franceses e de Kant. O segundo humanismo é da fraternidade. Existe desde então uma única visão do mundo movida por este sopro de uma utopia possível. Porque o ideal que ela visa a realizar não é o das ideias revolucionárias. Não se trata mais de organizar os grandes massacres em nome de princípios mortíferos, mas de preparar o futuro para os que nós amamos, as gerações futuras.

Essa revolução produziu efeitos sobre a arte e a moral, mas há efeitos ainda em progresso, como a evolução da condição da mulher e dos homossexuais, por exemplo. Quais são os indícios desta revolução hoje?

Esta revolução do casamento de amor, escolhido e não imposto, começa na Europa e se estende a todo o mundo cultural ocidental. Isso quer dizer que no resto do mundo o casamento imposto continua a ser a regra. No Ocidente, temos vivido desde o século 20 a desconstrução dos valores tradicionais. Ela teve efeitos negativos, mas também formidavelmente positivos, em especial para os homossexuais e as mulheres. Observe que um país como a Suíça, o último cantão a conceder o direito de voto às mulheres o fez, pense bem, em 29 de abril de 1991! Isso quer dizer que, até então, as mulheres ainda eram vistas como crianças. Na França, foi um pouco mais cedo, mas, enfim, foi preciso esperar o fim da 2.ª Guerra para que as mulheres tivessem direito de voto. Quanto aos homossexuais, lembre-se o que a Organização Mundial da Saúde definia a homossexualidade como doença até 1990! Sim, nosso mundo ocidental mudou mais nos 50 anos da segunda metade do século 20 do que nos 500 anos anteriores!

Tratemos agora da destruição dos valores tradicionais. No seu entender, parte desse processo vem do fato de que as ideias não merecem mais sacrifício, só o humano. É isso o retorno da “sacralização”, do reencantamento do mundo?

Como a “consciência infeliz” da qual falava Hegel, nós temos sempre a tendência de nos dar conta na história do que se destrói e morre, quase nunca do que toma forma e vida. Logo, temos uma propensão ao pessimismo. Ao contrário do otimismo, sempre um pouco simplório, ele confere à primeira vista uma presunção de inteligência. Às vésperas do século 21, é verdade, a maior parte dos valores tradicionais, em especial a nação de direito e a revolução de esquerda, desmoronaram, ao menos na Europa. Logo, devemos constatar, pelo menos na Europa, que os motivos tradicionais do sacrifício coletivo foram liquidados. Quem desejaria hoje, ao menos nos países de cultura europeia, morrer por Deus, pela pátria ou revolução? Não muita gente. É uma grande notícia. Quanto à estupidez mortífera do maoismo, com dezenas de milhões de mortos, quem, fora alguns intelectuais corroídos pelo desejo de se pretender interessantes, poderia não se felicitar da sua liquidação?

Isso não quer dizer que vivemos a era do desencantamento do mundo? Há mesmo lugar ainda, hoje, para alguma espiritualidade?

Não creio que vivamos uma era do desencantamento do mundo. Aí está até mesmo a ilusão arquetipal desta consciência infeliz que adora tanto não adorar. O que nós vivemos não é de forma alguma a liquidação do sagrado, o eclipse dos valores (da espiritualidade), mas sua encarnação em nova face, a da humanidade. Questione-se honestamente: por quem ou pelo que você estaria pronto a arriscar sua vida? Em outros termos, o que considera sagrado no sentido próprio, como digno de sacrifício? A resposta para a imensa maior parte seria: é o homem que é sagrado, o próximo, mas também o seu contrário, o seguinte. Em todo caso, não são as abstrações vazias da religião e da política tradicionais. Vivemos o nascimento de uma nova face do humanismo, que não é mais aquele de Voltaire e Kant, dos direitos do homem e da razão, desses iluminismos que portaram, é verdade, um vasto projeto de emancipação, mas que conduziram também ao imperialismo. Trata-se, ao contrário, de um humanismo pós-colonial e pós-metafísico, da transcendência do outro e do amor. Precisaremos, então, dessas novas categorias filosóficas (uma espiritualidade sem Deus) para refletir sobre suas armadilhas e perspectivas.

O senhor diz que a globalização tem um papel na desconstrução dos valores. Estamos na era do consumo de massa e da economia global, o que causa um impacto social e altera nossa maneira de ver o mundo, certo?

Sim. O verdadeiro motor da desconstrução dos valores tradicionais foi o capitalismo moderno. Marx já dizia que o capitalismo era a revolução permanente. Por quê? Porque a competição leva à lógica da inovação permanente. Uma empresa que não inova o tempo todo está fadada a morrer. Mas há mais do que isso. Os que desconstruíram os valores tradicionais no século 20 eram com frequência de esquerda. A verdade do século é que esta grande desconstrução serviu aos interesses do capitalismo.

Fale mais sobre isso.

Foi necessário que os valores e as autoridades tradicionais fossem desconstruídas pelos boêmios, jovens de cabelos longos, libertários, para que o capitalismo, ele também moderno e fadado à inovação pela inovação, pudesse fazer entrar nossos filhos na era do grande consumo de massa sem o qual seu futuro globalizado não teria sido possível. Eis uma verdade que vai crescer no século que está aí. Se nossos filhos tivessem os mesmos valores que nossos avós, eles não comprariam um telefone celular por ano, ou MP3. Do contrário, se nossos antepassados pudessem ver um grande centro comercial, achariam provavelmente que estes novos templos edificados ao deus do consumo escoam besteiras. Talvez pensassem que estas bugigangas que transbordam das vitrines nos distanciam dos verdadeiros valores. Logo, foi necessário que as visões tradicionais do mundo fossem desconstruídas para que pudéssemos nos consagrar ao consumo sem complexos, ao menos no limite de nosso poder de compra.

Sua ideia de reencantamento é um paradoxo à de Max Weber, que falava no início do século 20 do desencantamento do mundo. Minha questão é: o reencantamento é só positivo, ou também tem sua “parte do diabo”?

Tem razão, há uma parte do diabo. Quando falo da revolução do casamento escolhido, não quero dizer que entramos no mundo ideal. Antes de mais nada, porque o reverso da medalha do amor, é o ódio. Não há rosas sem espinhos, nem amor sem ódio. Além disso, o amor dos seus, dos próximos, pode levar a um egoísmo louco. O amor que dá sentido a nossas vidas não é mais o amor pela nação, revolução. A questão que as gerações futuras vão definir, como os ecologistas já compreenderam, é: que mundo vamos deixar a nossos filhos? Essa nova questão política não diz respeito só à ecologia, mas à dívida pública, ao futuro da proteção social na época da globalização ou à regulação financeira.

Quando falamos em um mundo no qual o casamento de amor está no centro de uma revolução, como devemos ver as civilizações em que ele ainda é determinado por interesses?

Sem defender o eurocentrismo, é preciso reconhecer que nosso velho continente inventou algo único: a cultura da autonomia dos indivíduos, de sair dessa “menoridade” infantil – como dizia Kant sobre o Iluminismo – mantida por todas as civilizações religiosas, teocracias e regimes autoritários. Este movimento caminha em direção à autonomia, como aconteceu primeiro com a arte, desde o século 17, quando deixou de ser exclusivamente religiosa, depois se infiltrou em toda a civilização europeia, da filosofia, racionalista, à política, laica e democrática, passando pela ciência, hostil aos dogmatismos clericais, e pela vida privada, quando o casamento decidido pelo amor substitui o casamento racional imposto pelos pais. Este é o gênio da Europa que acabaria por abolir a escravidão e a colonização, por se desfazer dos totalitarismos, por se desfazer dos totalitarismos. Nada, nesta valorização da civilização europeia, implica menor racismo, menor tendência neocolonial. Outras civilizações são igualmente grandiosas, mas a europeia inventou a autonomia política, como a democracia, assim como a autonomia privada, como o casamento por amor e a família escolhida.

O senhor diz que o sagrado reencarna na cultura ocidental. Mas e as revoluções no mundo árabe, marcadas por princípios modernos, como a liberdade e a democracia? Devemos esperar uma nova onda de revoluções? A dinâmica do Ocidente é válida para todo o mundo?

Sim. As revoluções árabes, embora corram o risco de serem apropriadas pelo islamismo radical, são apesar de tudo uma novidade magnífica. Observe como o mundo evoluiu nos últimos 50 anos. Quando eu era criança, a Europa estava tomada por ditaduras. Franco ainda era vivo e a Grécia sofria o regime fascista dos coronéis! A Rússia e os países do leste viviam na pior tirania, e a América Latina estava povoada de ditaduras. Tudo mudou para melhor. O paradoxo é: vamos viver um declínio econômico e social na Europa, mas ao mesmo tempo uma vitória dos valores da democracia europeia. Estou certo que um “segundo humanismo” vai se seguir ao primeiro.



terça-feira, 29 de junho de 2010

Hermenêutica e Homossexualidade


Artigo de Alexander De Bona Stahlhoefer no excelente blog Collegia Pietatis:

HERMENÊUTICA E HOMOSSEXUALIDADE

Há alguns anos atrás li no jornal A Notícia (RBS, Joinville) o desabafo de um médico cansado de receber publicações da pesquisa médica atual com flagrantes contradições entre si. Imagine que você é medico e receba um estudo dizendo que o famoso Acido Acetilsalicílico (Aspirina) é prejudicial. Na outra semana você recebe outro estudo mostrando os benefícios de tal medicamento. Claro que toda droga tem seu efeito positivo aliado à possíveis danos (leia a bula e veja isto). Mas o que chamou à atenção daquele médico foi que as pesquisas eram favoráveis na medida em que eram patrocinadas pelo laboratório fabricante do medicamento. Desta forma a concorrência alertava os males de um medicamento, enquanto que o fabricante tratava de lançar um estudo sobre seus benefícios. Existe então objetividade e autonomia científica?

Desde a virada lingüística na filosofia, aprendemos que cada pessoa é condicionada pela sua experiência de vida. Logo, a minha história de vida influencia diretamente na forma como eu leio a realidade e me posiciono diante dela. Não existe um relato puro de um fato real, existem apenas interpretações da realidade. Portanto, aquela histórica de que "a ciência diz", "pesquisas comprovam" são apenas chavões, deveriam dizer que "existe alguma probabilidade de...". Afinal de contas, desde Heisenberg muita coisa tem mudado no dogma ex-catedra da objetividade científica.

Um exemplo da influência das experiências pessoais é o famoso relatório Kinsey que trata da homossexualidade. O tal relatório proclamou uma revolução sexual, dizendo que os seres humanos são bissexuais e não existe qualquer forma de impedimento natural para relações homo(bi)sexuais, o prazer é o limite. O hedonismo sexual do relatório Kinsey deve-se às experiências sexuais do seu autor. E o mercado se aproveita da "ciência" para fazer dinheiro. Foi esta a "grande sacada"de Hugh Hefner ao fundar Playboy. A grande revista da liberdade sexual foi quem patrocinou a educação sexual para crianças e jovens nos EUA, além de pagar estudos na área de sexualidade humana. Mas para quê a revista pagou estudos e medidas educacionais? Para mudar a consciência puritana e cristã dos EUA. Desta forma conseguiria alcançar uma geração toda para o seu negócio. Parece que conseguiu.

Poderíamos extrapolar este exercício para todas as áreas do conhecimento, e provavelmente, teríamos o mesmo resultado. Por isto reflita sobre sua formação pessoal, seu conjunto de crenças, pois tudo isto influencia a forma como você decide, e age. Não vivemos numa bolha, não somos autônomos, tudo nos influência e a muitos influenciamos. De que forma você quer influenciar e ser influenciado? Seja crítico, não aceite tudo que te dizem como verdade científica, pesquise mais, leia mais, forme a sua opinião.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Prazer e desespero

por Philip Yancey:

“O relato de decadência da pessoa mais rica, mais sábia e mais talentosa do mundo serve de alegoria perfeita para o que pode acontecer quando perdemos de vista o Doador, de cujas boas dádivas usufruímos. O prazer representa um grande bem, mas também um grave perigo. Se começarmos a perseguir o prazer como um fim em si mesmo, podemos perder de vista no caminho aquele que nos deu coisas boas como o desejo sexual, as células sensitivas do paladar e a capacidade de apreciar a beleza. Nesse caso, como diz Eclesiastes, a devoção exagerada ao prazer paradoxalmente conduzirá a um estado de total desespero.

Eclesiastes insiste em afirmar que até as pedras em que tropeçamos são boas em si. “Tudo fez formoso em seu tempo” (3:11). Mas, ao assumirmos um fardo para o qual não fomos feitos, transformamos nudez em pornografia, vinho em alcoolismo, comida em glutonaria e diversidade humana em racismo e preconceito. O desespero toma conta à medida que abusamos das boas dádivas de Deus; já não parecem dádivas, e muito menos boas.”

(Philip Yancey, “A Bíblia que Jesus Lia”, Ed. Vida, pág. 153)

quarta-feira, 11 de março de 2009

Ceticismo, Cristianismo e Hedonismo



por Paul Tillich:


Esse vasto projeto dos filósofos gregos de criar um mundo de significados começou a desmoronar no apagar das luzes do mundo antigo e produziu o que chamo de epílogo cético do desenvolvimento antigo. Originalmente, o termo skepsis queria dizer "observar as coisas". Mas assumiu um sentido negativo de examinar os dogmas, até mesmo as dogmata das escolas gregas de filosofia, para rejeitá-los. Os céticos, assim, duvidaram de todas as formulações das escolas de filosofia. Não que essas escolas não contivessem em seu ensino boa parte desses elementos céticos, como, por exemplo, a academia platônica. O ceticismo não conseguiu avançar além do probabilismo enquanto que as outras escolas tornaram-se pragmáticas. Assim, essa atmosfera cética invadiu todas as escolas e permeou a vida toda no mundo antigo de então. Tratava-se de assunto vital e muito sério. Não se tratava novamente de se sentar em mesas de estudo para descobrir que se podia duvidar de todas as coisas. Essa tarefa seria comparativamente fácil. Na verdade, esse movimento significava o desabamento de todas as convicções. A conseqüência dessa atitude – bastante característica da mentalidade grega – foi uma espécie de paralisia da ação. Se não somos mais capazes de pronunciar juízos teóricos, não podemos agir na prática. Portanto, introduziram a doutrina da epoché, "suspensão de juízo, reserva, não julgar nem agir, não decidir nem teórica nem praticamente". A doutrina da epoché significava a resignação do juízo em todos os aspectos. Por isso, os céticos retiraram-se para os desertos vestidos de uma simples túnica ou manto. Os monges cristãos, mais tarde, seguiram-nos nessa atitude, porque eles também se desesperaram sobre a possibilidade de se viver neste mundo. Alguns céticos da igreja primitiva eram sérios e agiam de acordo, ao contrário de certos céticos esnobes de nossos dias que não se animam a arcar com as conseqüências de seu ceticismo, que levam vidas alegres e confortáveis enquanto duvidam de todas as coisas. Os céticos gregos retiraram-se da vida e assim mostraram-se consistentes.

O ceticismo foi, pois, um dos importantes elementos para a preparação do cristianismo. As escolas gregas, como os epicuristas, os estóicos, os acadêmicos, os peripatéticos e os neopitagóricos, não eram escolas no sentido em que temos hoje escolas filosóficas, como a escola de Dewey ou a de Whitehead. As escolas filosóficas gregas eram também comunidades cúlticas; eram meio rituais e meio filosóficas. Seus membros queriam viver de acordo com as doutrinas de seus mestres. Quando surgiu o movimento cético, procuravam acima de tudo a certeza; queriam-na para poder viver. Acreditavam que os grandes mestres, Platão ou Aristóteles, o estóico Zenão ou Epicuro, e mais tarde Plotino, não eram apenas pensadores ou professores, mas homens inspirados. Muito antes do cristianismo existir, a idéia de inspiração já se desenvolvia nessas escolas gregas: seus fundadores eram inspirados. Quando membros dessas escolas entraram mais tarde em discussão com cristãos, diziam, por exemplo, que não era Moisés o inspirado, mas Heráclito. Essa doutrina da inspiração também ajudou o cristianismo a entrar no mundo. A razão pura não era capaz de construir a realidade na qual se pudesse viver.

O que se dizia sobre os fundadores dessas escolas filosóficas era semelhante ao que os cristãos diziam a respeito do fundador de sua igreja. É curioso notar que um homem como Epicuro – de tal maneira atacado pelos cristãos que só restam dele poucos fragmentos – era chamado soter pelos discípulos. Essa palavra era usada no Novo Testamento para significar "salvador". Assim, o filósofo Epicuro era conhecido como salvador. Por quê? Em geral, Epicuro é considerado um homem que sempre viveu bem nos seus agradáveis jardins e que ensinou uma filosofia hedonista rejeitada pelos cristãos. Mas o mundo antigo não tinha essa idéia sobre Epicuro. Era chamado de soter porque fizera a coisa mais importante que alguém poderia fazer pelos seus seguidores: libertava-os da angústia. Epicuro, com seu sistema materialista de átomos, libertava as pessoas dos demônios presentes na totalidade da vida do mundo antigo. Vê-se bem que a filosofia era assunto muito sério nessa época.

Outra conseqüência desse espírito cético era o que os estóicos chamaram de apatheia (apatia), que significa ausência de sentimentos em relação às forças e impulsos da vida, como desejos, alegrias, dores, indo-se além de tudo isso ao estado da sabedoria. Sabiam que somente algumas pessoas conseguiram alcançar esse estado. Os céticos que se retiraram para os desertos demonstravam até certo ponto essa capacidade. Por trás de tudo isso, naturalmente, situava-se a crítica anterior aos deuses mitológicos e aos ritos tradicionais. A crítica da mitologia deu-se na Grécia cerca da mesma época em que o Segundo Isaías fazia o mesmo na Judéia. Essa atividade crítica minava a crença nos deuses do politeísmo.



(TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão. São Paulo: ASTE, 2000, 2ª ed., pp. 26-28)

domingo, 4 de maio de 2008

Eclesiastes - capítulo 2

Leitura anterior: Eclesiastes - capítulo 1

Depois de passar o capítulo 1 "desconstruindo" algumas verdades que as pessoas têm por inquestionáveis na vida, no início do capítulo 2 de Eclesiastes, o Pregador passa à construção de alguns pilares do seu ensino. 

Primeiro, ele começa a experimentar algumas hipóteses para ver se alguma delas se encaixa no bem supremo da vida, que deve ser buscado e alcançado pelos mortais. 

A primeira hipótese que ele, digamos, "testa", é a do hedonismo, antes mesmo que o hedonismo viesse a ser especulado pelos filósofos pós-socráticos na Grécia na transição do século V para o IV antes de Cristo. 

O hedonismo, muito simplificadamente, é uma corrente filosófica que defende a busca do prazer imediato, aqui e agora, o prazer pelo prazer, como a suprema felicidade. 

Logo no v. 1, o Pregador testa esta hipótese, mas também considera o hedonismo como vaidade, pois, para ele, o riso é loucura (ou tolice) e a alegria de nada serve (v. 2). 

O Pregador cogita, então, de se entregar ao vinho e à loucura, mas preservando a sabedoria (v. 3). 

Isto não significa propriamente embriagar-se, mas permitir algum tipo de privação mínima dos sentidos, como aquele que toma algumas taças de vinho, e começa a rir e falar imoderadamente, mas também nisso o Pregador não encontrou resposta aos seus anseios. 

Desde já, entretanto, apresenta a sabedoria como uma espécie de moderadora, controladora, desta busca. 

E, a seguir, testa as riquezas, a ostentação, o consumismo, o "ter" em vez de "ser", como uma possível razão para a felicidade (vv. 4-11), mas tudo era também "vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol" (v. 11). 

O estranho é que muitos pregadores atuais encontram somente no "ter" sinais distintivos de um verdadeiro cristão. Certamente, não leem ou não pregam Eclesiastes.

Todas essas coisas eram vistas àquela época, e continuam sendo vistas assim até hoje, como aquilo que uma palavra só consegue definir: o "sucesso". 

O sucesso sempre foi um critério mundano para se definir, à primeira vista, se uma pessoa é ou não é feliz. 

O sucesso desperta a inveja, mas este é um tema que guardaremos para outra oportunidade. 

Por ora basta constatar que, como a própria experiência atual nos mostra, o sucesso não é duradouro, e muitas vezes faz mal. 

O exemplo de artistas que não conseguiram lidar com o sucesso, e muitas vezes sucumbiram a ele, está estampado todos os dias nos jornais e na televisão. 

Quando ninguém os conhece, eles querem atingir o sucesso a todo custo, a qualquer preço, e quando finalmente o conseguem, vêem que não lhes basta, há algo mais do que o sucesso a ser buscado, este sucesso que não consegue preencher o vazio que eles têm. 

O mesmo acontece com aquele que busca o prazer pelo prazer. Os hedonistas sabem que o prazer nunca é suficiente, e é sempre necessário algo mais, daí a razão de muitos se entregarem à luxúria, às drogas, à violência, e se perderem pelo caminho. 

O paradoxo hedonista é que, quanto mais se busca o prazer, menos ele é encontrado (ou, pelo menos, mais ele foge). 

Tudo isto é, como o Pregador diz, "correr atrás do vento", e como Jesus também disse, "o vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai" (João 3:8).

A partir do v. 12, o Pregador passa a considerar a sabedoria, que já lhe havia servido como moderadora da embriaguez e da loucura (v. 3). 

Aqui, o Pregador já vê na sabedoria algo melhor do que a estultícia, já que "a luz traz mais proveito do que as trevas" (v. 13). Entretanto, tanto o sábio como o estulto terminam do mesmo jeito (vv. 14-15). Logo, por que buscar a sabedoria? Não seria isto também vaidade? 

Dentro da sua dialética toda peculiar, o Pregador primeiro vê alguma vantagem na sabedoria, mas depois volta atrás e se pergunta se ela é realmente tão vantajosa assim e, tanto a memória do sábio como a do estulto não durará para sempre, pois passado algum tempo, "tudo cai no esquecimento". 

Pela primeira vez, o Pregador fala da morte no seu discurso (v. 16). Aqui, a meu ver, ele passa a delinear uma resposta às suas questões, e começa a erguer dois pilares para sustentar seu pensamento e suas conclusões que só apresentará no final do livro. 

Um desses pilares, bastante claro, é a sabedoria. O outro é a eternidade

Ele vem falando da inutilidade do sucesso, e no v. 16 mostra que a tendência natural do mundo é que tudo e todos sejam esquecidos. A morte nos nivela a todos, indistintamente. 

É necessário, então, ligar este versículo com outro do capítulo 3, aquele que diz que Deus "pôs a eternidade no coração do homem" (3:11). 

Por um certo tempo da minha vida, por uma série de razões profissionais e sociais, eu convivi com muitas pessoas famosas, daquelas que integram o glamoroso mundo das celebridades. 

Naquela época, eu comecei a pensar sobre o que significava a fama, afinal. O que é esta tal de fama, que tanta gente busca, mas nunca se sacia? Foi aí que eu percebi que todos aqueles que buscam a fama, no fundo, buscam uma maneira de se eternizar. 

Diante da mortalidade que nos limita a todos (e cuja constatação a tantos sufoca), e diante também deste desejo de eternidade que Deus colocou no coração do homem, a fama é um recurso que muitos buscam para tentar driblar a mortalidade e inscrever-se na eternidade. 

É verdade que muitos conseguem ser recordados e cultuados por algum tempo, mas a sua lembrança vai gradualmente se desfazendo e desaparecendo da memória coletiva. 

Quantas vezes ouvimos que "o brasileiro tem memória curta", mas será só o brasileiro que se esquece fácil e rapidamente? 

Penso que a verdade está com Davi, que teve coragem de dizer: "Sou esquecido como um morto de quem não há memória; sou como um vaso quebrado" (Salmo 31:12). 

O Pregador retornará a este tema em Eclesiastes 9:5, quando dirá que a memória dos mortos "jaz no esquecimento".

A partir do v. 18, o Pregador começa a finalizar o capítulo 2 de Eclesiastes falando sobre o trabalho e a herança. De que vale, afinal, trabalhar tanto? Quem se dedica ao trabalho a ponto de se tornar um "workaholic" é sábio ou estulto? 

De que adianta trabalhar tanto, morrer de repente e deixar tudo para quem não derramou uma gota de suor para merecer a herança? (vv. 18-21). 

Como Jesus disse numa de suas parábolas, sobre o homem rico que queria construir mais celeiros: "Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?" (Lucas 12:20). 

De que adianta levar trabalho do escritório à noite para casa (v. 23)? Ou seja, o "debaixo do sol" de que tanto fala o Pregador, corre o risco de se tornar "debaixo da lua" (v. 22). 

Deve o homem, então, simplesmente parar de trabalhar e esperar o tempo passar? "Não", é a resposta do Pregador. 

O homem deve trabalhar e conseguir o suficiente para "comer, beber e fazer com que a sua alma goze o bem do seu trabalho", sempre reconhecendo que é a mão de Deus que lhe proporciona estas alegrias simples da vida (v. 24). 

Aqui, o Pregador constrói um terceiro pilar para sustentar suas conclusões: a providência divina

É Deus, afinal, quem "dá sabedoria, conhecimento e prazer ao homem que lhe agrada", ressalvando que "ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte e amontoe, a fim de dar àquele que agrada a Deus" (v. 26). 

O trabalho não é nenhum mal em si, mas é o seu uso deturpado, ou a sua valorização excessiva, que o torna uma pedra de tropeço (e muitas vezes, de morte) para o ser humano.



Leitura seguinte: Eclesiastes - capítulo 3


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