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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 9



Primeiro Mandamento 

NÃO TERÁS OUTROS DEUSES


Isto é: considerarás somente a mim como teu Deus. Que significa isso e como se deve entendê-lo? Que significa ter um Deus, ou, que é Deus? Resposta: Deus designa aquilo de que se deve esperar todo o bem e em que devemos refugiar-nos em toda apertura. Portanto, ter um Deus outra coisa não é senão confiar e crer nele de todo coração. Repetidas vezes já disse que apenas o confiar e crer de coração faz tanto Deus como ídolo. Se é verdadeira a fé e a confiança, verdadeiro também é o teu Deus. Inversamente, onde a confiança é falsa e errônea, aí também não está o Deus verdadeiro. Fé e Deus não se podem divorciar. Aquilo, pois, a que prendes o coração e te confias, isso, digo, é propriamente o teu Deus.

Por isso, o sentido desse mandamento é exigir fé genuína e confiança de coração, que vai certeiramente ao verdadeiro e único Deus e se apega exclusivamente a ele. Isso quer dizer tanto como: toma cuidado no sentido de, apenas, eu ser o teu Deus e de forma nenhuma procures outro. Isto é: o que te falta em matéria de coisas boas, espera-o de mim e procura junto a mim, e se sofres desdita e angústia, arrasta-te para junto de mim e apega-te comigo. EU, eu quero dar-te o suficiente e livrar-te de todo aperto. Tão-só não prendas a nenhum outro o coração, nem o deixes em outro descansar.

Devo explanar isso algo mais claramente, a fim de que se entenda e perceba a coisa à luz de exemplos cotidianos de comportamento oposto. Há muito quem pensa que tem Deus e o bastante de tudo quando possui dinheiro e bens. Tão inabalável e confiadamente deles se fia e jacta que ninguém lhe vale coisa nenhuma. Eis que tal homem também tem um deus, Mamon, de nome, isto é, dinheiro e bens, em que põe o coração todo. Esse, aliás, é o ídolo mais comum na terra. Quem possui dinheiro e bens sabe-se em segurança, e é alegre e destemido como se estivesse assentado no meio do paraíso. Por outro lado, quem nada possui, duvida e desespera, como se de nenhum Deus tivesse notícia. Pois a gente vai encontrar bem poucas pessoas que estejam de bom ânimo e não se lastimem nem se queixem quando não têm Mamon. Isto se gruda e adere à natureza até a sepultura.

Assim, também, aquele que se vangloria de grande erudição, inteligência, poder, apreço, parentela e honra, e nisso põe sua confiança: esse também tem um deus; não, porém, o Deus verdadeiro e único. Isso, por sua vez, o percebes, quando se torna aparente, quão presunçoso, seguro e orgulhoso se é em razão desses bens, e quão pusilânime quando inexistem ou deles se é privado. Repito, por isso, que a explicação correta desse ponto é: ter um Deus significa ter algo em que o coração confia inteiramente.

Considera, outrossim, o que praticamos e fizemos até agora na cegueira sob o papado. Se alguém estava com dor de dente, jejuava em honra de Santa Apolônia; se temia incêndio, fazia de São Lourenço seu padroeiro; se pestilência, fazia votos a São Sebastião ou São Roque, e número incontável de semelhantes abominações, cada qual escolhendo o seu santo, adorando-o e invocando-lhe a ajuda em aperturas. Para cá também pertence a atividade excessivamente grosseira daqueles que fazem pacto com o diabo, a fim de que lhes dê dinheiro a rodo, ou lhes ajude em amores, proteja-lhes o gado, recupere-lhes bens perdidos, como fazem, por exemplo, os magos e os bruxos. Pois todos esses põem seu coração e confiança em outra coisa que não no Deus verdadeiro. Nada de bom esperam dele, nem junto a ele o procuram.

Assim entenderás com facilidade o que e quanto esse mandamento requer, a saber, o coração todo do homem e a confiança inteira, exclusivamente para Deus e mais ninguém. Para ter Deus – fácil te será inferi-lo – não se pode pegar e contê-lo com os dedos, nem é possível metê-lo em bolsa ou encerrá-lo em cofre. Quando o coração o alcança e lhe adere, isto sim, chama-se apreendê-lo. Mas aderir-lhe com o coração outra coisa não é senão confiar inteiramente nele. Por isso quer desviar-nos de tudo o mais, fora dele, e atrair-nos para si, visto ser o único e eterno bem. É como se dissesse: O que anteriormente procuraste junto aos santos ou confiaste receber do Mamon ou de qualquer outra coisa, espera-o tudo de mim e considera-me como aquele que te quer ajudar e derramar copiosamente sobre ti tudo o que é bom.

Eis que aqui tens o que é a verdadeira honra e culto divino agradável a Deus e por ele ordenado sob pena de ira eterna, a saber, que o coração não conheça outro consolo e confiança senão a ele. E disso não se deixará arrebatar, mas, sim, há de, sobre isso, arriscar e pospor tudo quanto existe na terra. Fácil te será compreender e julgar, em contraste com isso, como o mundo pratica apenas falso culto a Deus e idolatria. Porque jamais um povo foi tão ímpio que não instituísse e observasse algum culto divino. Cada um erigiu em deus especial aquele de quem fiava coisas boas, ajuda e consolo.

Assim, por exemplo, aqueles gentios que punham sua confiança em poder e domínio erigiram o seu Júpiter em deus supremo; os outros, que aspiravam a riqueza, felicidade ou prazer e dias bons, a Hércules, Mercúrio, Vênus ou outros; as mulheres grávidas a Diana ou Lucina, e assim por diante. Cada qual erigia em deus para si aquilo a que o atraía o coração. De sorte que, realmente, também na opinião de todos os pagãos ter um deus quer dizer confiar e crer. O erro, porém, está em que seu confiar é falso e errado, porquanto não se dirige ao único Deus, além do qual, na verdade, não há Deus, nem no céu, nem na terra. Por isso, os gentios, efetivamente, transformam sua própria fantasia e sonho a respeito de Deus em ídolo e fiam no puro nada. É o que se dá com toda a idolatria. Pois ela não consiste apenas em erigir uma imagem e adorá-la, mas, principalmente, num coração que pasma a vista em outras coisas e busca auxílio e consolo junto às criaturas, santos ou diabos, e não faz caso de Deus, nem espera dele este tanto de bem: que ele queria ajudar. Também não crê que procede de Deus o que de bem lhe sucede.

Existe, além disso, outro culto falso. Trata-se da maior idolatria que até agora praticamos, e ela ainda impera no mundo. Nela, também se fundamentam todas as ordens religiosas. Diz respeito apenas à consciência, quando essa procura ajuda, consolo e salvação em suas próprias obras e presume de forçar a Deus a lhe abrir as portas do céu, e calcula quantas doações fez, o número de vezes que jejuou, rezou missa, etc. Nessas coisas põe sua confiança e delas se abona, como se nada quisesse receber gratuitamente de Deus, mas obtê-lo por esforço próprio ou merecê-lo de modo supererrogatório [supérfluo], exatamente como se Deus estivesse de estar a nosso serviço e ser nosso devedor, nós, porém, os seus senhores feudais. Que é isso senão fazer de Deus um ídolo, sim um deus-maçã, e a si mesmo reputar-se Deus e em tal se erigir? Mas isso aí é um tanto erudito demais, impróprio para alunos de pouca idade.

Todavia, a fim de notarem e reterem bem o sentido desse mandamento, diga-se aos simples este tanto: deve confiar-se exclusivamente em Deus e dele prometer-se e esperar apenas coisas boas. Pois é ele quem nos dá corpo, vida, comida, bebida, nutrição, saúde, proteção, paz e todo o necessário em bens temporais e eternos. Além do que nos preserva de infortúnios e, quando algo nos sobrevém, ele nos salva e liberta. De forma que só Deus – conforme bastantemente se disse – é aquele de quem se recebe todo o bem e por quem se é livrado de todo infortúnio. A meu ver, essa também é a razão por que nós, alemães, desde tempos antigos, designamos a Deus precisamente com esse nome – mais fina e apropriadamente que qualquer outra língia – da palavra “gut”, por ser ele fonte eterna que transborda de pura bondade e do qual mana tudo o que é e se chama “bom”.

Pois, ainda que, de resto, muita coisa boa nos venha de homens, todavia, é receber de Deus tudo quanto se recebe por seu mandado e ordem. Nossos pais e todas as autoridades e, a mais disso, cada um relativamente ao seu próximo têm ordem de nos fazerem toda sorte de bem. De maneira que não o recebemos deles, senão de Deus, por intermédio deles. As criaturas são apenas a mão, o canal e o meio através de que Deus tudo concede, assim como dá seios e leite à mãe para dá-los à criança e dá grãos e toda espécie de frutos da terra para alimentação. Criatura nenhuma pode produzir, por si mesma, um só que seja desses bens. Homem algum se atreva, por isso, a tomar ou a dar algo, a menos que Deus o haja ordenado, a fim de reconhecermos que são dádivas de Deus e que também não se rejeitarão esses meios de receber bens através das criaturas, nem se procurarão, presunçosamente, maneiras e caminhos diversos dos que Deus ordenou. Isso não seria receber Deus, senão procurar de si mesmo.

Atente, pois, cada qual em si mesmo, para que esse preceito seja magnificado e exaltado acima de todas as coisas e não seja levado de galhofa. Inquire e esquadrinha o teu próprio coração miudamente. Descobrirás, então, se se apega ou não com Deus apenas. Se tens um coração que é capaz de esperar somente coisas boas de Deus, especialmente em aflições e penúria, e que, a mais disso, sabe renunciar e abandonar tudo o que não é Deus, então tens o único e verdadeiro Deus. Se, inversamente, o coração se apega em outra coisa, de que se promete, a título de consolo, mais bem e socorro que de Deus, e se, ao se encontrar situação desesperadora, foge dele em vez de para ele refugir, então tens um outro deus, um ídolo.

A fim de que se advirta, por conseguinte, que Deus não quer ver isso tratado de resto, porém, seriamente, quer velar no seu cumprimento, juntou ao preceito, primeiro, uma terrível ameaça, em seguida, uma bela e confortadora promessa, que também se devem inculcar bem e, nelas, martelar junto à mocidade, para que as tome a peito e as lembre.

(Catecismo Maior de Martinho Lutero, in “Livro de ConcórdiaAs Confissões da Igreja Evangélica Luterana”, Editoras Concórdia/Sinodal/Ulbra, 6ª ed., 2006, pp. 394-399)



domingo, 17 de setembro de 2017

Igreja da Suécia elege hoje pelo voto direto quem lhe comandará nos próximos 4 anos

Bispos eleitos nas eleições gerais de 2013 da Igreja da Suécia, de confissão luterana.

A matéria é da BBC Brasil:

Suécia terá eleições neste domingo para eleger a cúpula da Igreja

Claudia Wallin

Na democracia sueca, a Igreja também tem seu dia de eleições gerais: no próximo domingo, cidadãos suecos vão às urnas para escolher os representantes da cúpula da Igreja da Suécia (Svenska kyrkan), a instituição protestante de confissão luterana que é a maior organização religiosa do país.

A cada quatro anos, os cidadãos filiados à instituição elegem uma espécie de "Parlamento" da Igreja Sueca - que é composto tanto por representantes do clero como por leigos. E este Parlamento eclesiástico tem o poder de decidir não só questões mundanas, assim como a reforma das paróquias e o valor de doações a países pobres, como também assuntos de ordem teológica - a exemplo do casamento entre pessoas do mesmo sexo, aprovado pela Igreja Sueca em 2009.

"A Constituição sueca é clara: a Igreja deve ser democrática e aberta", diz à BBC Brasil a padre sueca Jenny Sjögren, chefe do Departamento de Teologia e Ecumenismo da Igreja Sueca.

"Pode-se dizer que a Igreja Sueca tem um sistema eleitoral único no mundo, no sentido de que todas as instâncias do poder decisório da instituição são eleitas de forma direta. Embora as igrejas protestantes de países como a Noruega realizem algum tipo de eleições, em geral os pleitos ocorrem apenas a nível paroquial. Já na Suécia, desde a virada do milênio o próprio Sínodo Geral, que pode ser definido como o Parlamento da Igreja Sueca, é eleito nas urnas", acrescenta Sjögren, que se tornou padre há 17 anos: desde 1958, a Igreja da Suécia aceita a ordenação feminina.

Para participar das eleições - seja como eleitor, ou como candidato -, o cidadão deve ser membro da Igreja Sueca. A idade mínima para votar é de 16 anos, e a partir de 18 anos é possível se candidatar ao pleito.

No total, cerca de 5,2 milhões de suecos têm direito a votar nas eleições do próximo domingo, neste país de pouco mais de 10 milhões de habitantes.

Também a eleição de bispos e arcebispos na Suécia costuma ser realizada com a participação popular: 50 por cento do eleitorado deve ser composto por leigos.

"Em várias partes do mundo protestante, as eleições de bispos e arcebispos se dão através do voto tanto de clérigos como de leigos. Isto se dá por razões históricas: ao contrário do que ocorre no Catolicismo, a participação de leigos nos processos decisórios representa um papel importante nas igrejas luteranas, e nas congregações protestantes em geral", diz Jenny Sjögren.

Em 2013, a Suécia elegeu elegeu pela primeira vez uma mulher como arcebispa - a até então bispa da cidade de Lund, Antje Jackelén.

Campanha Eleitoral

Na mídia sueca, a cobertura da campanha para as eleições gerais da Igreja segue, ainda que em menor dimensão, o figurino dos pleitos políticos. Nesta reta final da corrida eleitoral, candidatos leigos e religiosos duelam na TV e no rádio, jornais debatem as diferentes propostas, e os "partidos" - chamados de "grupos" - apresentam filmes de campanha publicitária. Nas ruas, cartazes e panfletos reforçam o clima de eleição.

"Todo o processo das eleições eclesiásticas é muito semelhante ao processo eleitoral para o Parlamento, assim como as regras democráticas que regem o funcionamento das assembléias eleitas pelos membros da Igreja", diz à BBC Brasil o membro da Igreja David Axelson Fisk, que participou do comitê organizador das primeiras eleições gerais, na virada do milênio.

"Até o ano 2000, a Igreja Sueca realizava apenas eleições a nível paroquial, como ocorre em outros países protestantes. Mas quando a separação entre Igreja e Estado entrou em vigor, naquele ano, entendeu-se que a forma mais democrática de gerir a instituição deveria ser através de eleições gerais e diretas para todas as instâncias do poder eclesiástico", observa David.

As eleições da Igreja Sueca são organizadas em três níveis, num único dia de votação: a nível local, os membros de cada uma das 2.225 paróquias do país elegem uma Assembléia da Paróquia (Kyrkofullmäktige). A nível regional, os eleitores das 13 dioceses escolhem a Assembléia da Diocese (Stiftsfullmäktige), com 81 representantes. E a nível nacional, é eleito o Sínodo Geral da Igreja da Suécia (Kyrkomötet) - a mais alta instância da instituição, composta por 251 integrantes.

A Arcebispa sueca é a representante da Igreja para eventos ecumênicos e conferências internacionais, mas a autoridade máxima de poder decisório da instituição é o Sínodo Geral. E pelas regras suecas, os bispos não fazem parte do Sínodo, embora devam estar presentes nas sessões do órgão.

"Os 13 bispos do país podem se pronunciar ou apresentar propostas nas sessões do Sínodo, mas não estão autorizados a votar", esclarece Ewa Almqvist, do departamento de Comunicação da Igreja sueca. Por outro lado, segundo Jenny Sjögren, os bispos detêm influência no poderoso Comitê Doutrinário do Sínodo.

Em sua composição atual, 187 dos 251 assentos do Sínodo Geral são ocupados por representantes leigos. Entre os 64 clérigos da assembléia, estão 61 padres e três diáconos. Os valores suecos da igualdade de gênero também se refletem na formação da assembléia nacional eleita no último pleito: são 124 mulheres e 127 homens, segundo dados fornecidos à BBC Brasil pela Igreja da Suécia.

Os representantes eleitos não ganham salário: recebem apenas compensação pelas horas que deixam de trabalhar em seus empregos regulares, a fim de exercer suas atividades do Sínodo. E em cumprimento às práticas suecas de transparência, as atividades e finanças da Igreja Sueca também são disponibilizadas para a fiscalização pública.

Críticas

Um dos principais temas do debate da campanha eleitoral deste ano foi o questionamento sobre a participação política nas eleições da Igreja. Embora as agremiações que concorrem ao voto não tenham a denominação de "partido", o fato é que três dos oito partidos políticos tradicionais do país disputam o pleito com suas próprias legendas, ao lado de grupos independentes - o Partido Social-Democrata, o Partido do Centro e o Democratas da Suécia, de extrema-direita.

"Há diferentes pontos de vista, e o tema é complexo", diz a padre sueca Jenny Sjögren.

"Um eleitor pouco familiarizado com as questões da Igreja, por exemplo, pode sentir-se mais seguro ao votar no candidato de um partido político com o qual ele tem afinidade. Este seria um lado positivo de se ter representantes de partidos políticos tradicionais na disputa. Por outro lado, muitos começam a questionar esse envolvimento político na Igreja. Mas cada vez mais, surgem novos grupos independentes que não possuem conexão com partidos. Portanto, este é um processo em evolução", ela ressalta.

Êxodo

Apesar do caro e complexo aparato democrático para a realização de eleções diretas nos três níveis decisórios da Igreja, o comparecimento às urnas tem sido relativamente baixo. Especialmente nestes novos tempos, em que a Igreja Sueca enfrenta uma perda considerável de seu rebanho.

Nas últimas eleições gerais da Igreja, em 2013, apenas 700 mil pessoas votaram. O índice de comparecimento às urnas não costuma ultrapassar 15% do eleitorado - em claro contraste com o percentual registrado nas eleições políticas para o Parlamento sueco, que costuma girar em torno de 86%.

O êxodo têm preocupado as autoridades eclesiásticas. Em 2016, mais de 90 mil pessoas deixaram de ser membros da Igreja - praticamente o dobro do índice registrado no ano anterior. Segundo pesquisa conduzida pelo instituto sueco Norstat, o principal argumento dos fiéis que decidiram abandonar a instituição é franco: eles não acreditam em Deus.

A Igreja da Suécia abandonou a Igreja Católica Romana no século XVI, quando aderiu à Reforma Protestante.

Na virada do milênio, quando a Suécia se tornou oficialmente um Estado laico, 82% dos suecos eram membros da Igreja Sueca - mais por tradição, segundo muitos comentam, do que por uma real afirmação de fé. Atualmente, segundo os números oficiais, a instituição possui 6,1 milhões de membros (cerca de 62% da população). Mas cada vez mais, a tradição religiosa perde força neste país de descrentes.

Até meados da década de 90, os filhos de membros da Igreja Sueca se tornavam automaticamente, ao nascer, também membros da instituição. Na era do Estado laico, a nova geração tende a desfazer esses tênues laços religiosos: hoje, pelos cálculos da agência central de estatísticas da Suécia (Statistiska centralbyrån), somente cinco por cento dos suecos costumam frequentar algum tipo de igreja.

Apenas 29% da população afirma ter alguma crença religiosa. E na hora de casar, um em cada três casais optam por uma cerimônia civil.



sábado, 24 de junho de 2017

TJRS condena padre por impedir enterro de luterano em cemitério católico


Houve um tempo no Brasil em que cada religião tinha seu próprio cemitério, mas isso hoje só é possível observar nas cidades mais antigas, já que a prática - felizmente - caiu em desuso.

Por isso, certas notícias são inacreditáveis no ano em que se comemora o 500º aniversário da Reforma Protestante, como esta publicada no Consultor Jurídico:

Impedir enterro de luterano em cemitério católico é discriminação religiosa

Jomar Martins

Impedir o enterro de pessoa que professa fé diferente da congregação religiosa que administra o cemitério atenta contra direitos de personalidade previstos no artigo 5º da Constituição.

O fundamento levou a 9ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul a condenar em dano moral, solidariamente, um padre e sua diocese, que não permitiram o enterro de um luterano, morto no mesmo acidente que vitimou sua família católica. A filha dele, autora da ação indenizatória, irá receber R$ 15 mil de indenização.

Segundo o acórdão, ao lado do direito natural de prestar honras fúnebres aos entes familiares, existe o direito fundamental, presente nos textos constitucionais, de não sofrer qualquer discriminação em razão de opção religiosa. E este direito vigora não só em face do ente público, mas também nas relações entre particulares.

Para o relator da Apelação, desembargador Eugênio Facchini Neto, faltou sensibilidade ao representante da Igreja Católica, que não reconheceu a excepcionalidade da situação. E o pior: os depoimentos mostram que o real motivo para não autorizar o enterro era religioso, e não porque o morto não era associado da congregação ou deixou de contribuir para a manutenção do cemitério – causa alegada pelos réus.

“No caso em tela, tenho que a conduta do padre demandado fez com que a morte efetivamente separasse o que em vida foi um belo e cristão exemplo de ecumenismo — união amorosa e frutuosa de uma católica com um luterano, cada qual seguindo a sua crença íntima e observando seus cultos religiosos, sem que isso consistisse em empecilho para uma vida em comum, ambos observando os mesmos mandamentos oriundos de um mesmo Senhor, aprendidos na mesma Bíblia sagrada”, discorreu no acórdão o relator.

Facchini Neto afirmou que os líderes religiosos, especialmente os que atuam em pequenas comunidades fortemente divididas no aspecto religioso, devem difundir a cultura da tolerância e do acolhimento. “Com isso, se contribuirá para que as religiões possam ser efetivamente uma fonte de consolo interno e esperança para os crentes, sem descambar para as intolerâncias religiosas que, em grau exacerbado, tanta destruição e barbárie já causaram ao longo da história da humanidade, desde priscas eras até os nossos tempos”, concluiu. O acórdão foi lavrado na sessão de 24 de maio.

Impasse religioso

Todo o imbróglio teve início quando os pais e a avó materna da autora, ao retornarem do município de Poço das Antas, no Feriado de Finados de 2011, morreram em consequência de um acidente automobilístico ocorrido na altura do quilômetro 377 da rodovia Tabaí-Lajeado (BR-386). O casal, que vivia em união estável, e a sogra moravam em Porto Alegre.

Avisada do acidente, a autora tomou as providências para o enterro dos três no cemitério católico de Poço das Antas, terra natal das duas mulheres. O padre responsável pela paróquia, no entanto, não autorizou o enterro do pai da autora, que professava a fé luterana, ao contrário das duas, que eram católicas. “É uma norma da Igreja que não podemos quebrar. Só podemos sepultar em nosso cemitério pessoas católicas que contribuem e estejam em dia com a taxa anual”, explicou o padre à família da autora. Impasse firmado, o jeito foi enterrar o homem no cemitério do município de Teutônia, cidade natal dele.

Além da dor pela perda dos entes queridos, a autora ficou ainda mais abalada com a negativa da paróquia, pois teve de providenciar, às pressas, outro local para enterrar o pai. Seu desejo era de que todos fossem enterrados num mesmo lugar, pois, apesar de professarem fé distinta, viviam em plena harmonia familiar e social. O caso teve repercussão nacional, à época, e motivou ação indenizatória contra o padre e a Diocese de Montenegro, que reponde pelo cemitério católico de Poço das Antas.

Sentença improcedente

No primeiro grau, a juíza Patrícia Stelmar Netto, da 2ª Vara Judicial da Comarca de Teutônia, negou a reparação moral, por ausência de ato ilícito. Para a juíza, o cemitério, propriedade da Mitra Diocesana de Montenegro, por ser privado, pode estabelecer critérios e requisitos para aqueles que pretendem usufruir dos serviços funerários. Em síntese, quem pretende enterrar algum familiar no cemitério católico deve, pois, atender ao regulamento fixado pela comunidade que o administra.

“As testemunhas arroladas pelos demandados, todos residentes e domiciliados em Poço das Antas e membros da comunidade católica, afirmaram que o local é administrado pela Igreja Católica, sem auxílio do Poder Público municipal, sendo que o costume e tradição do local é de somente enterrar os sócios da comunidade, os quais pagam duas mensalidades anuais”, escreveu na sentença.

Assim, conforme a julgadora, a exigência do cumprimento de regras estabelecidas pela comunidade católica não poderia ser vista como discriminação religiosa. É que a negativa não se deu em virtude da crença religiosa, mas por faltar a condição de membro da comunidade, a qual pressupõe o pagamento de contribuição. Afinal, a liberdade religiosa é direito fundamental, garantido de forma expressa no artigo 5º, incisos VI e VIII, da Constituição.

Clique aqui para ler a sentença.
Clique aqui para ler o acórdão.



quarta-feira, 31 de maio de 2017

Luteranos lançam pastor-robô para celebrar 500 anos da Reforma Protestante


A informação é d'O Globo:

Pastor robô’ cita trechos bíblicos 
e abençoa em cinco línguas

O BlessU-2 lança debate sobre o potencial da inteligência artificial para a fé

RIO — Cinco séculos após Martinho Lutero publicar as 95 Teses que deram início à Reforma Protestante, a cidade alemã de Wittenberg presencia um novo desafio à tradição religiosa. Trata-se do BlessU-2, um “pastor robô” capaz de dar a benção em cinco línguas diferentes. O experimento foi realizado pela Igreja Protestante de Hesse-Nassau como forma de debater o futuro da Igreja e o potencial da inteligência artificial para a fé.

— Nós queríamos que as pessoas considerassem a possibilidade de serem abençoadas por uma máquina, ou se o ser humano é necessário — disse Stephan Krebs, criador do BlessU-2, em entrevista ao “Guardian”.

O robô está sendo apresentado num evento em Wittenberg para celebrar o aniversário de 500 anos do início da Reforma, movimento religioso, político e cultural que se espalhou pela Europa após Lutero divulgar as 95 Teses.

O BlessU-2 tem no peito uma tela sensível ao toque, dois braços e uma cabeça. Os fiéis podem escolher ouvir a pregação em alemão, inglês, francês, espanhol e polonês, tanto por uma voz masculina como feminina. O robô levanta os braços, suas mãos brilham e recita versos bíblicos encerrados com a frase: “Deus lhe abençoe e proteja”. O texto dito pela máquina pode ser impresso, caso o fiel queira levar como recordação.

— A ideia é provocar o debate — disse Krebs. — As pessoas estão demonstrando curiosidade, espanto e interesse. Elas estão realmente participando, e são muito positivas. Mas dentro da Igreja, algumas pessoas pensam que nós queremos substituir os pastores pelas máquina.

Krebs e seus colegas estão coletando a resposta do público para análises futuras, mas ele não acredita que os robôs possam ser a solução para a falta de padres e pastores nos países europeus. Um robô “nunca poderia substituir o cuidado pastoral”, destacou Krebs.

— Nós não queremos robotizar o trabalho da nossa Igreja, mas ver se podemos levar uma perspectiva teológica para uma máquina — disse Krebs.




sexta-feira, 21 de abril de 2017

Papa canonizará 30 brasileiros em outubro


Conforme anunciamos aqui no mês passado, o papa Francisco marcou a canonização de 30 brasileiros para o próximo mês de outubro.

Os 30 brasileiros foram mortos pelos protestantes calvinistas holandeses em 1645, e não escapa ao observador mais atento o fato de que essa canonização coincide com o mês em que se comemora os 500 anos da Reforma Protestante iniciada por Martinho Lutero.

Provavelmente, é uma forma do papa se contrapor à crescente onde conservadora dentro do Vaticano que o critica, enquanto estende a mão para os luteranos numa celebração conjunta da Reforma.

A notícia é da Agência Brasil:

Papa canonizará em outubro os primeiros mártires brasileiros

O papa Francisco canonizará no dia 15 de outubro deste ano, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, os primeiros mártires brasileiros, os sacerdotes André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro e o laico Mateus Moreira, além de outras 27 pessoas assassinadas em 1645.

O anúncio foi realizado hoje (20), durante assembleia de cardeais dirigida pelo papa, onde foram definidas as datas das cerimônias de canonização de vários futuros santos.

Para que sejam canonizados, eles não necessitaram nenhum milagre, apenas o parecer positivo dos membros da Congregação para as Causas dos Santos, que reiterou o assassinato por "ódio à fé".

Eles são os primeiros mártires e santos brasileiros assassinados entre os dias 16 de julho e 3 de outubro de 1645 pelos protestantes calvinistas holandeses instalados em Brasil naquela época.

Muitos foram assassinados em Cunhaú e Uruacu, no Rio Grande do Norte, durante uma missa dominical celebrada por André de Soveral. Eles tinham sido beatificados pelo papa João Paulo II em março de 2000, na Basílica de São Pedro.

Os mártires brasileiros serão canonizados em uma cerimônia ao lado de dois meninos mexicanos conhecidos como Mártires de Tlaxcala; o espanhol Faustino Miguez, fundador do Instituto Calasancio Filhas da Divina Pastora e o sacerdote franciscano italiano Luca Antonio Falcone.

Papa canonizará crianças que viram aparição da Virgem Maria

O papa canonizará no próximo dia 13 de maio, durante sua viagem a Portugal, Francisco e Jacinta Marto, os irmãos pastores que, segundo a Igreja católica, presenciaram, ao lado da prima Lúcia, a aparição da Virgem Maria.

O anúncio foi realizado hoje, durante assembleia de cardeais dirigida pelo papa, onde foram definidas as datas das cerimônias de canonização de vários futuros santos.

No dia 23 de março, o pontífice tinha aprovado os decretos para canonizar as duas crianças, de 9 e 10 anos, que morreram pouco depois das aparições, entre maio e outubro de 1917, e que serão as primeiras crianças não mártires declaradas santos.

Francisco viajará para Fátima onde participará dos atos em comemoração do centenário das aparições, nos próximos dias 12 e 13 de maio. A cerimônia de canonização será no sábado (13), quando está prevista uma missa multitudinária na esplanada do santuário mariano.

O milagre pela intercessão dos irmãos que pode decretar a canonização, segundo as normas católicas, é o da suposta cura de uma criança brasileira.

Francisco (1908-1919) e Jacinta Marto (1910-1920), que junto com sua prima Lúcia, que se tornou freira e a única que sobreviveu, presenciaram as aparições na Cova da Iria e foram beatificados no dia 13 de maio de 2000, por João Paulo II, em Fátima.

As três crianças portuguesas garantiram que testemunharam as aparições da Virgem, e quem revelou a elas os chamados três Segredos de Fátima, relatados por Lúcia, que morreu em 2005, para quem também foi aberto um processo de beatificação.

O papa Francisco chegará ao Santuário de Fátima na sexta-feira, dia 12 de maio, e, na base aérea de Monte Real, terá um encontro privado com o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa.

No dia seguinte, visitará a Basílica de Nossa Senhora do Rosário e celebrará uma missa na esplanada do santuário e onde canonizará as duas crianças. Francisco será o quarto pontífice que visitará Portugal, depois de Paulo VI (1967), João Paulo II (1982, 1991 e 2000) e Bento XVI (2010).

Edição: Kleber Sampaio



segunda-feira, 10 de abril de 2017

Caderno 2 do Estadão resenha Bíblia de Estudo da Reforma da SBB


É raro, para não dizer "inédito", que a edição de uma Bíblia (ainda mais de tradição protestante) consiga penetrar no catálogo secular de resenhas literárias publicadas na imprensa em geral.

Parece que os 500 anos da Reforma Protestante, a serem comemorados no próximo mês de outubro, já produziram este primeiro milagre em terras tupiniquins.

Quem rompeu este cerco sagrado no sábado passado foi a Bíblia de Estudo da Reforma, com uma interessante e honesta resenha que pode ser lida no Estadão:

'Bíblia de Estudo da Reforma' traz ampla biografia de Martinho Lutero

Obra faz homenagem ao monge alemão

José Maria Mayrink

O mais novo lançamento da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) é uma homenagem a Martinho Lutero, por sua dedicação às Escrituras Sagradas, centro e base de sua espiritualidade e de sua teologia. O luxuoso volume da Bíblia de Estudo da Reforma, de 2.304 páginas, abre com minuciosa biografia do monge agostiniano alemão que rachou a Igreja Católica no século 16 e inaugurou uma nova comunidade cristã, embora não fosse sua intenção se separar de Roma.

Além da vida de Lutero, ilustrada por belas gravuras dele, de sua mulher Catarina von Bora, de seus pais e de vários personagens da época, aliados ou adversários, com fotografias das casas, conventos e igrejas, essa edição da Bíblia reproduz os prefácios que o reformador escreveu para cada livro do Antigo e do Novo Testamento.

É uma edição rica na apresentação, capa em couro sintético, e riquíssima no conteúdo. Mais de 40 mil notas de rodapé, cerca de 120 quadros, mapas e diagramas, 220 artigos e introduções aos textos bíblicos e citações dos pais ou padres da igreja, a começar por São Jerônimo, autor da Vulgata, em latim, são fruto do trabalho de tradutores e revisores da Sociedade Bíblica do Brasil. O original de todo esse material é da The Lutheran Study Bible, publicado em 2009 pela Concordia Publishing House, nos Estados Unidos. A tradução do texto bíblico é de João Ferreira de Almeida, revista e atualizada. O mesmo texto, portanto, usado em todas as edições SBB.

A história de Lutero narra cronologicamente em detalhes os primeiros passos de sua vocação religiosa, a rotina no convento de Erfurt, a viagem a Roma, o combate à venda de indulgências, o casamento com a ex-monja Catarina von Bora e a propagação pela Europa da doutrina evangélica que ficou conhecida como protestantismo. Por tabela, o texto divulga o perfil de papas, príncipes e teólogos no cenário político da Alemanha. É uma biografia densa, suficiente para dar aos leitores uma visão clara e, enquanto possível, imparcial de Martinho Luder, sobrenome que ele mudou para Lutero, ou Elêuteros, em grego, cujo significado se traduz por livre ou independente.

“Essa edição é uma contribuição grande para as igrejas evangélicas na comemoração dos 500 anos da Reforma pelas abundantes citações de Lutero e pela transcrição de textos dele”, disse o reverendo Erni Walter Seibert, secretário de Comunicação, Ação Social e Arrecadação, da Sociedade Bíblica do Brasil. Lançada em fevereiro com 11 mil exemplares, a Bíblia de Estudo da Reforma deverá dobrar a tiragem até o fim do ano. Conforme observa Seibert, o reformador Martinho Lutero provocou uma revolução na teologia, com repercussão na política e na educação. Sua tradução da Bíblia para o vernáculo, contribuiu para a unificação da língua alemã e deu ao povo a possibilidade de ler os textos sagrados, antes só disponíveis em latim.

Algumas observações na narração da vida de Lutero são particularmente interessantes. Por exemplo, a suspeita de que não foi do próprio reformador, mas de seguidores seus, a iniciativa de afixar as 95 teses contra as indulgências na porta da igreja do Castelo de Wittenberg, onde ele costumava pregar. Outra informação, curiosa e honesta para um texto quase hagiográfico, é o registro da aversão de Lutero aos judeus. Depois de ter aconselhado uma mudança de atitude em relação ao povo judaico nos anos 1520, ele escreveu a obra A Respeito dos Judeus e de Suas Mentiras, publicada em 1543, na qual afirma que os judeus não passam de filhos de Satanás e que a presença deles entre os cristãos representaria um grande perigo para todos os crentes.

“Hoje, essas ofensas que Lutero, ao final de sua vida, proferiu contra os judeus são vistas como a principal mácula na biografia do Reformador”, observa o texto da Bíblia de Estudo da Reforma, acrescentando que “por ter sido tão rigoroso em seus juízos e pronunciamentos, Lutero não foi seguido em tudo, nem mesmo por seus contemporâneos e enquanto ele ainda vivia”.

O professor luterano Lauri Wirth contou ao Estado que, ao ler na sala de aula trechos do que Lutero escreveu sobre os judeus, seus alunos da Universidade Metodista de São Bernardo do Campo disseram que não sabiam quem era o autor, mas que só podia ser um nazista.

A Bíblia de Estudo da Reforma soma-se à Bíblia Sagrada com Reflexões de Lutero, lançada em 2012 pela SBB, que também apresenta uma breve biografia, comentários sobre alguns trechos dos dois Testamentos, o Catecismo Menor para pastores e pregadores indoutos e, uma preciosidade, uma seleção de hinos compostos por Martinho Lutero, com a transcrição de letra e partitura.

BÍBLIA DE ESTUDO DA REFORMA
Tradução: Almeida Revista e Atualizada
Editora: Sociedade Bíblica do Brasil (2.304 págs.,R$ 159,90)



sábado, 8 de abril de 2017

Thor é o cara! Paganismo nórdico avança na Islândia


Por Odin! Parece que a linda e enigmática Islândia quer se conformar à letra de "Eduardo e Mônica", do Legião Urbana, especialmente naquele verso "festa estranha, com gente esquisita"...

A informação é da BBC Brasil:

Com ascensão de paganismo nórdico, número de adoradores de Thor duplica na Islândia

Nos últimos anos, a Islândia tem registrado um aumento significativo no número de seguidores de um movimento pagão chamado Associação Asatru. Trata-se hoje da religião que mais cresce no país.

Segundo estatísticas do governo, a igreja Luterana continua sendo a dominante no país, com 237.938 fiéis - o equivalente a 70% da população, um número que se mantém estável há décadas.

Mas o número de islandeses que reverenciam Odin, Thor e a deusa Freyja teve um aumento de 50% desde 2014, chegando a 3.583 fiéis, o dobro em relação ao período anterior àquele ano, segundo o jornal local Morgunbladid.

Estatísticas do governo islandês indicam que havia apenas 879 fiéis em 2005.

A maior autoridade da Associação Asatru é o compositor Hilmar Orn Hilmarsson, que é conhecido no exterior pelo seu trabalho com bandas como a Sigur Rós. De acordo ele, o aumento do número de seguidores tem a ver com a cobertura midiática das coloridas cerimônias da Asatru. "Mais pessoas estão vendo o que fazemos, e elas gostam disso", diz.

"Não recrutamos membros, apenas encorajamos as pessoas a participarem caso estejam interessadas. Nossas cerimônias são abertas a todos."

Templo pagão

Diferentemente de outras associações neopaganistas em outras partes da Escandinávia, a Asatru é aberta a todos independentemente de cor, sexualidade e gênero e trabalha com outros grupos para promover direitos civis e conscientização ambiental.

A última iniciativa do movimento foi iniciar a construção de um templo na montanha de Oskjuhlid, que fica perto da capital Reykjavik, onde vivem mais de um terço dos islandeses.

Hilmarsson diz que o primeiro templo pagão no país em mil anos terá capacidade para 250 pessoas e será usado para realizar casamentos, cerimônias de batismo e funerais.

Construído por meio de doações em um terreno doado pelo governo local de Reykjavik, o templo deve ficar pronto até o começo de 2018. E não há dúvidas de que o líder da Associação garantirá uma intensa cobertura midiática da abertura.

Clandestinidade

O paganismo nórdico era a crença mais comum na Islândia até o ano 1000, quando o país acatou a exigência do Cristianismo de se tornar a religião oficial do país.

Esse acordo evitou uma guerra civil no país e a única condição por parte dos pagãos foi poder praticar sua religião de maneira independente.

Mas uma vez que o Cristianismo foi estabelecido no país, o paganismo acabou oprimido e levado à clandestinidade.

Mesmo assim, a mitologia nórdica foi preservada e a poesias pagãs épicas, mantidas como parte da cultura nacional.

A Asatru é uma religião politeísta com vários deuses e deusas - na Islândia, os mais populares são Thor, o deus dos céus e dos trovões, e Freyja, deusa do amor e da fertilidade. Seus princípios são não autoritários e descentralizados, sem um texto sagrado ou fundador oficial.

Sua filosofia promove a tolerância e liberdades individuais, e as principais celebrações acontecem nos solstícios de verão e de inverno e nos dois equinócios.



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Papa é oficialmente convidado para celebrar os 500 anos da Reforma Protestante

É o que informa o IHU:

Igreja Evangélica alemã faz convite histórico ao Papa Francisco


Pela primeira vez desde a Reforma, a Igreja Evangélica na Alemanha, que representa a grande maioria dos protestantes alemães, convidou o papa a visitar o país, local onde a se iniciou a Reforma. Uma delegação ecumênica da Alemanha visitou o Papa Francisco no Vaticano em 6 de fevereiro como parte da comemoração do 500º aniversário do evento religioso que dividiu o cristianismo ocidental. 

A reportagem é de Gerard O’Connell, publicada por America, 06-02-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.


“Papa Francisco, o senhor desencadeou um sentimento de bondade e misericórdia a todas as pessoas” e “como irmãs e irmãos em Cristo estamos felizes pela clara orientação que nos tem dado”, disse o Bispo Heinrich Bedford-Strohm antes de fazer o convite a Francisco. Bedford-Strohm preside o Conselho da Igreja Evangélica (Evangelische Kirche in Deutschland – EKD) na Alemanha.

O Cardeal Reinhard Marx, presidente da Conferência dos Bispos Católicos Alemães, acompanhava a delegação. Marx sublinhou a significação histórica do convite e expressou a esperança fervorosa de que o papa possa respondê-lo.

O Papa Francisco já participou de uma comemoração católico-luterana conjunta em torno da Reforma em Lund, na Suécia, em outubro do ano passado, mas este convite é mais significativo ainda.

Embora não tenha dado uma resposta ao convite durante a audiência, é possível que o Papa Francisco o aceite. Ele conhece a Alemanha, fala alemão e está ciente da importância do convite.

Saudando a delegação alemã em sua biblioteca particular, Francisco procurou impulsionar os esforços em direção à unidade dos cristãos. Ao considerar uma iniciativa ecumênica, convidou os evangélicos e católicos a se perguntarem: “Podemos partilhar junto com os nossos irmãos e irmãs em Cristo? Será que conseguiremos percorrer mais um outro trecho do caminho juntos?”

“Temos o mesmo batismo: devemos andar juntos, sem nos cansar”, disse Francisco. Não tem caminho de volta no trajeto para a unidade, garantiu o papa à delegação; os católicos e os evangélicos devem “continuar a testemunhar juntos o Evangelho e continuar no caminho da unidade plena”.

O papa descreveu as “diferenças” que ainda existem entre as igrejas em questões como a fé e a moral como sendo “desafios” no percurso à unidade visível almejada pelos fiéis. “Os casais que pertencem a confissões diferentes” sentem particularmente “a dor” da divisão, disse, aludindo ao problema de as famílias não poderem participar juntos da Eucaristia.

O pontífice convidou os católicos a evangélicos a trabalharem para “superar os obstáculos ainda existentes”, perseverando com “oração incessante (...) com todas as nossas forças” e “intensificando o diálogo teológico e reforçando a colaboração entre nós”.

Bedford-Strohm disse ao papa: “Às vezes é uma realidade dolorosa nas famílias: casais que compartilham filhos, netos e amigos ficam divididos na mesa do Senhor”. Ele reconheceu que foi feito um progresso “no espírito da reconciliação”, acrescentando que as igrejas estão trabalhando juntas “para encontrar o caminho para uma parceria eucarística ainda maior”.

Falou que esse tema surgiu em vários diálogos com o Vaticano. O Cardeal Marx confirmou essa iniciativa em uma coletiva de imprensa em Roma com os líderes evangélicos alemães ocorrida na sequência do encontro com o papa. Ele falou que ambos os lados estão trabalhando juntos para “descobrir se podemos alcançar uma linha comum”.

O Papa Francisco saudou o fato de que os católicos e os evangélicos estão comemorando os eventos históricos da Reforma juntos “a fim de pôr, mais uma vez, Cristo no centro das nossas relações”. Ele lembrou que, no fundo, os reformadores estavam “animados e inquietos” sobre como “indicar a estrada para Cristo”. Disse que isso deveria estar no centro dos esforços católicos e evangélicos, hoje, quando caminham na direção da unidade.

O Papa Francisco deu as boas-vindas a uma iniciativa evangélico-católica conjunta na Alemanha para realizar uma cerimônia de Penitência e Reconciliação porque “curar a memória, testemunhar a Cristo” é uma tarefa ecumênica.

Na coletiva de imprensa, Annette Kurschus, da delegação alemã, salientou a importância da “diversidade reconciliada” e enfatizou que a visita ecumênica a Roma – “a cidade global do catolicismo” –, no 500º aniversário da Reforma, também tem uma “significação” para o mundo protestante no percurso à unidade.

A Igreja Evangélica na Alemanha é uma federação de igrejas e denominações luteranas, reformadas (calvinistas) e protestantes unidas regionais na Alemanha, com aproximadamente 24 milhões de membros. Ao saudar o papa, Bedford-Strohm disse: “As nossas igrejas sentem uma responsabilidade especial em desenvolver o ecumenismo, uma vez que as divisões começaram conosco na Alemanha”.

A EKA busca “um diálogo mais profundo” com a Igreja Católica “sobre o batismo e sua significação para os próximos passos ecumênicos” e deseja “seguir uma nova abordagem para garantir que o diálogo não fique estagnado”, acrescentou.

Tanto o papa quanto o bispo destacaram a importância de os católicos e evangélicos darem um testemunho comum a Cristo num mundo marcado pela violência e polarização. Francisco disse que “o chamado urgente de Jesus à unidade” convida os membros de ambas as igrejas a agirem juntos “quando vivenciamos graves dilacerações e novas formas de exclusão e marginalização”. Aqui “a nossa responsabilidade é grande”, disse.

O Bispo Heinrich Bedford-Strohm concordou, acrescentando: “Onde são negadas a misericórdia e a compaixão, o ‘pecado social’ ameaça a vida humana consecutivamente”. Ele observou que “alguns agora aspiram conter a nossa humanidade dentro de muros. Um novo populismo em diferentes países glorifica o país dos seus apoiadores e exclui grandes grupos de pessoas”.

Ele destacou também a situação dos refugiados e migrantes – uma questão cara ao Papa Francisco. Disse que “em 2017, as igrejas cristãs deveriam erguer suas vozes juntas no mundo inteiro no intuito de encorajar os nossos países a demonstrar solidariedade com os refugiados do terror e da guerra, e a distribuir os fardos da maneira mais ampla possível”.



segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Exatos 499 anos após a Reforma, papa visita luteranos na Suécia

A matéria é da Rádio Vaticano:

Suécia acolhe o Papa para os 500 anos da Reforma Luterana

Nesta segunda-feira dia 31 de outubro o Papa Francisco está na Suécia para assinalar a histórica Comemoração Conjunta Luterano-Católica nos 500 anos da Reforma que se celebram em 2017. O Santo Padre estará em Malmö e Lund.

A Reforma começou quando Martinho Lutero, monge agostiniano germânico e professor de teologia, pregou as suas 95 teses em 1517 contestando, em particular, a doutrina de que o perdão de Deus poderia ser adquirido pelo comércio das indulgências. O Papa Leão X pediu-lhe para se retratar, mas em 1520 perante a recusa de Lutero foi decretada a sua excomunhão da Igreja Romana.

A Suécia, que se separou da Igreja Católica no século XVI, tem uma forte herança luterana e uma minoria católica sendo, contudo, um dos países mais secularizados do mundo. Com 450.295 km2 onde abundam as florestas, sobretudo no norte, a Suécia é o terceiro maior país da União Europeia em termos de área e com uma população total de cerca de 9 milhões de habitantes. Este país assume o regime de uma monarquia constitucional cuja capital é Estocolmo e é país independente desde a Idade Média. Segundo a prestigiada revista “The Economist” é o quarto país do mundo em índice de democracia, logo a seguir, à Islândia, à Dinamarca e à Noruega.

Esta viagem marca o regresso de um Pontífice a este país escandinavo após a visita de S. João Paulo II há 27 anos tendo visitado a Suécia e celebrado missa para 16 mil pessoas no Globe Arena de Estocolmo, em 1989. S. João Paulo II também fez uma visita ao túmulo de Santa Brígida, primeira santa da Suécia.

De recordar que no passado mês de junho, no dia 5, uma delegação ecuménica da Suécia esteve no Vaticano para a canonização de Maria Isabel Hesselblad, fundadora da Ordem do Santíssimo Salvador de Santa Brígida que tinha sido beatificada por S. João Paulo II a 9 de abril do ano 2000.

Santa Maria Isabel Hesselblad, destacou-se pelo serviço aos mais pobres, em particular, durante a II Guerra Mundial em Roma, ajudando os judeus perseguidos a quem deu refúgio fazendo da sua casa religiosa um autêntico centro de ajuda e de distribuição de alimentos e roupas aos mais necessitados.

O Papa Francisco na Suécia celebra os 500 anos da Reforma mas também os 50 anos de diálogo entre luteranos e católicos, iniciado em 1967, como salientou na semana passada o Cardeal Kurt Koch, presidente do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos na apresentação desta Viagem Apostólica do Santo Padre.

De salientar que nesse mesmo encontro com os jornalistas estiveram presentes pela Federação Luterana Mundial o presidente, bispo Munib Younan e o secretário-geral o Rev. Martin Junge que sublinharam que graças ao diálogo e à confiança “o tempo está maduro para tentar passar do conflito à comunhão”.

Na Suécia por estes dias será dado mais um grande passo para procurar a unidade entre os cristãos.



sábado, 15 de outubro de 2016

Peregrinos luteranos visitaram o papa no Vaticano

Quem diria que um dia Lutero iria virar estátua no Vaticano?

A matéria é da Rádio Vaticano:

Papa Francisco encontra os peregrinos luteranos

O Papa Francisco recebeu na manhã desta quinta-feira, dia 13 de Outubro, na Aula Paulo VI, do Vaticano, cerca de mil membros que participam da peregrinação luterana em Roma. “Estou feliz por vos receber por ocasião da vossa peregrinação ecuménica, iniciada na região de Lutero, em Alemanha, e terminada aqui junto da Sede do Bispo de Roma”, disse o Santo Padre no seu discurso sublinhando sobretudo a necessidade de “dar graças a Deus, disse, porque hoje, luteranos e católicos, estamos caminhando juntos pelas vias que vão do conflito à comunhão. Já percorremos, juntos, um importante percurso de estrada. Ao longo do caminho provamos sentimentos contrastantes: dor pela divisão que ainda existe entre nós, mas também a alegria pela fraternidade reencontrada. A vossa presença aqui, no Vaticano, assim, tão numerosa e tão entusiástica, é um sinal evidente desta fraternidade e nos enche de esperança que podemos continuar a fazer crescer a compreensão recíproca” entre nós sublinhou Francisco.

Francisco aproveitou da ocasião para informar aos presentes que, se Deus quiser, no fim deste mês de Outubro, efectuará uma visita apostólica a Lund, na Suécia, para, juntamente com a Federação Luterana Mundial, prestar homenagem à memória dos cinco séculos do início da Reforma de Lutero e agradecer ao Senhor pelos cinquenta anos de diálogo oficial entre luteranos e católicos.

O santo Padre sublinhou que esta comemoração terá essencialmente o olhar orientado para o futuro, com vista a dar juntos, um autêntico testemunho cristão ao nosso mundo de hoje, que necessita tanto de Deus e da Sua misericórdia e que deste ponto de vista, disse Francisco, o mundo de hoje “espera que sejamos capazes de tornar visível a misericórdia de Deus para connosco através do serviço aos mais pobres, aos doentes, aos que abandonaram as suas terras para procurar um futuro melhor para si e para os seus entes queridos. E em pormos juntos ao serviço dos mais necessitados, nós experimentamos de estar já unidos: é a misericórdia de Deus que nos une”, disse o Santo Padre, que concluiu assim o seu discurso dirigindo-se aos numerosos jovens presentes na delegação:

"Queridos jovens, eu vos encorajo a ser testemunhas da misericórdia. Enquanto os teólogos levam avante o diálogo no âmbito doutrinal, vós continuais a procurar com insistência, ocasiões para encontrar-vos, para se conhecerem. Melhor, rezar juntos e ajudar-vos uns aos outros e a todos aqueles que estão em situação de necessidade. Assim, livres de qualquer preconceito e confiando unicamente do Evangelho de Jesus Cristo, que anuncia a paz e a reconciliação, sereis verdadeiros protagonistas de uma nova estação deste caminho, que com a ajuda de Deus, conduzirá à plena comunhão. Eu vos asseguro a minha oração, e por favor rezais por mim, que preciso tanto da vossa oração. Muito obrigado."



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