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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Reforma no Código Penal do Nepal quer impedir conversões religiosas

Cristãos nepaleses: duas palavras ameaçadas de não andarem mais juntas no Nepal.

Até rimou, mas a graça acaba aí onde começa a ameaça aos 20% dos 31 milhões de nepaleses que não professam o hinduísmo, segundo alerta a Rádio Vaticano:

Nepal: preocupação dos cristãos 
com lei que pune conversões

Katmandu (RV) – Uma modificação no Código Penal do Nepal que pune todas as conversões religiosas e as atividades de evangelização e proselitismo, trouxe grande preocupação à comunidade cristã local.

A lei, que entrará em vigor a partir de agosto de 2018, estabelece que qualquer pessoa que for “pega em flagrante” fazendo ações de proselitismo com o objetivo de converter uma pessoa “ou a minar a religião, a fé ou o credo de outra casta, grupo étnico ou comunidade”, poderá ser punido com até cinco anos de detenção.

Ademais, qualquer pessoa que ”ofender o sentimento religioso” (de um outro grupo confessional), poderá ser condenada a dois anos de prisão e ao pagamento de uma multa de 2 mil rúpias nepalesas (cerca de 16 euros).

A pena será aplicada quer aos cidadãos como aos estrangeiros, incluindo os missionários.

Diversos expoentes cristãos nepaleses expressaram à Agência Asianews o temor de que a nova normativa possa levar a uma reviravolta em relação à liberdade religiosa, que em teoria, é garantida pela Constituição laica e democrática aprovada em 2015.

Entre esses, está Dom Paul Simick, Vigário Apostólico do Nepal, para quem “existe a possibilidade de que seja limitado o direito dos sacerdotes de exercer o próprio credo e obrigações”.

Na tentativa de justificar a reforma, o Ministro da Justiça Agni Kharel, afirmou que “o controle se aplica também aos hinduístas e aos budistas e não somente aos cristãos”.

Também o Conselheiro do Primeiro Ministro, Dinesh Bhattarai, assegurou que a nova normativa “não quer atingir de maneira particular uma fé ou algum fiel”.

Opinião diferente tem o Presidente da Federação Cristã nepalesa, C. B. Gahatraj. Para ele o objetivo do novo Código Penal é “controlar a liberdade religiosa e de conversão. Condenamos este controle”, afirmou com veemência.

O líder cristão denuncia que “os partidos políticos estão tentando controlar o crescente interesse das pessoas em se converter ao cristianismo”, reiterando que “nós não obrigamos ninguém e ao mesmo tempo não pedimos que ninguém mude de religião”.

(JE/LZ)



sábado, 5 de julho de 2014

Quando um lama morre no Brasil e é cremado no Nepal


Artigo de Ricardo Anderáos para o Brasil Post:

Da morte à vida: cremação e reencarnação no Himalaia

Na décima terceira Lua após sua morte no Brasil, o lama tibetano Chagdud Rinpoche foi cremado no Nepal. Eu participei do retiro de Yoga da Morte durante o qual ele faleceu em Três Coroas, no Rio Grande do Sul. E não hesitei em cruzar o mundo para fazer parte da cerimônia de cremação que aconteceu ao ar livre, nas encostas do Himalaia. Lá, no altar do templo localizado defronte à pira funerária em forma de estupa, seu cadáver coberto com vestes rituais permanecia sentado em posição de meditação, exatamente como estava quando seu coração parou de bater.

Quando o Rinpoche morreu exatamente? E quem é o garoto que foi identificado alguns anos depois como sua reencarnação? As perguntas da nossa mente racional ficam em segundo plano face a tudo que vivenciei nesse processo. Continuo com minha estratégia de suspensão da descrença: o que acredito ou deixo de acreditar perde importância diante dos ganhos que a meditação me dá no meu relacionamento comigo mesmo e com todos ao meu redor. Numa palavra: Bodhichitta.

Ficamos hospedados em um monastério em Boudanath, nos arredores de Kathmandu, ao lado da gigantesca estupa que é um dos templos budistas mais sagrados do mundo. À volta desse enorme monumento branco em forma de disco, do tamanho de um estádio, milhares de pessoas circulam, rezam e fazem prostrações incessantemente. Nos seis dias seguintes nossa rotina se repete: liderados pela lama Tsering Everest acordamos antes do amanhecer, viajamos duas horas de ônibus numa estradinha assustadora que serpenteia até o alto das montanhas, chegamos ao templo e praticamos meditação durante todo o dia aos pés do kudun do Rinpoche. No fim do dia voltamos a Boudanath, circumbulamos a grande estupa algumas vezes recitando mantras, jantamos e despencamos na cama.

Meditar é uma tarefa às vezes fácil, às vezes dificílima. Mas nunca antes nem depois daqueles dias consegui tamanha clareza e profundidade em minha prática. Não sou uma pessoa dada ao misticismo, e resisto a aceitar explicações mágicas para as coisas. Mas sou obrigado a confessar que meditar perto do corpo do Rinpoche, tanto dentro quanto fora daquele templo, com temperaturas próximas de zero, foi uma experiência transcendental. Ainda hoje, passados mais de dez anos, me alimento das lembranças e insights daqueles dias quando enfrento dificuldade para relaxar a mente e meditar. Depois de seis dias de purificação e meditação, chegou o grande momento para cerca de 300 pessoas que saíram de várias partes do mundo para participar da cremação. Alguns vieram do Tibete, cruzando os Himalaias, enfrentando a neve e fugindo da polícia de fronteira chinesa para estar ali. Muitos vieram da Índia, do Butão e de várias partes do Nepal. Outros tantos eram alunos dos EUA e do Brasil, países onde o incansável Chagdud Rinpoche havia construído redes com dezenas de templos e centros de prática.

Quatro lamas ficaram ao redor da estupa crematória, marcando os quatro pontos cardeais. Ao lado de cada um deles, monjes e praticantes avançados empunhavam instrumentos musicais, sinos, vajras e outros objetos de prática. Os praticantes mais juniores, como era o meu caso, completavam o círculo. A estupa foi totalmente recheada com flores, ervas aromáticas e madeira. Na base, uma grande mandala pintada em pergaminho também demarcava os pontos cardeais.

O corpo do Rinpoche foi finalmente retirado do altar, colocado em uma liteira e levado em procissão ao redor da estupa. Por fim, foi depositado dentro da pira funerária, acima das ervas e da madeira. Todos sentamos e meditamos longamente, até que os quatro lamas começaram a conduzir a elaborada cerimônia. Depois de muitos mantras e cânticos, cada um enviou seu emissário com o fogo que foi colocado na base da estupa. Em pouco tempo as labaredas começaram a crepitar. Uma densa fumaça tomou conta do ambiente e subir ao céu, obscurecendo a luz do Sol.

O aroma que nos envolveu é inesquecível. Nunca me senti tão só e simultaneamente tão integrado ao universo. Os insights se sucediam de maneira ao mesmo tempo vigorosa e calma. Era claro que eu estava vivendo um dos momentos-chave de minha vida. O nascimento de meus filhos, a morte de meu pai e algumas imagens que povoam minha mente desde a mais tenra infância passavam diante de meus olhos. Nunca tão aqui, nunca tão agora...

Não tenho mais palavras. Deixo as imagens mais abaixo falarem por si:


Cerca de 4 anos depois daquele inesquecível 8 de dezembro de 2003, soubemos que o yangsi de Chagdud Rinpoche - sua reencarnação em uma criança - foi identificada no Tibete. Os quatro lamas que conduziram sua cremação haviam, finalmente, concluído a última etapa do misterioso ritual. Ganhamos uma foto do menino, mas nenhuma outra informação foi fornecida, como forma de proteção da criança. Em 3 de agosto desse mesmo ano, o decreto número 5 do Escritório Governamental para Assuntos Religiosos do Governo da China no Tibete tornou obrigatório o cadastramento junto ao governo de todas as crianças reconhecidas como reencarnações de lamas tibetanos, sob pena de acusação de fraude e prisão.



domingo, 4 de setembro de 2011

Nepal quer proteger hinduísmo e proibir conversões

A notícia é da agência católica Zenit:

Nepal: minorias contra projeto de lei anticonversão

Pedem que se aplique separação constitucional entre hinduísmo e Estado


KATMANDU, quarta-feira, 31 de agosto de 2011 (ZENIT.org) – Enquanto o Nepal se dispõe a finalizar rapidamente sua nova constituição – cuja data-limite foi estabelecida para hoje, mas foi prorrogada –, as minorias religiosas se mobilizam contra um projeto de lei anticonversão que se debate no Parlamento.

Apresentado pela comissão encarregada de reformar o Código Penal nepalês, o artigo 160 prevê sancionar toda tentativa de conversão ou desvio da religião hindu “por qualquer método”, informou o boletim Eglises D'Asie em 22 de agosto.

Se aprovado, qualquer pessoa que for flagrada pregando outra religião diferente do hinduísmo ou distribuindo textos religiosos não-hindus, poderá ser condenada a pagar uma multa de 50 mil rúpias (cerca de 485 euros) e a cinco anos de prisão. A mesma sanção é contemplada para todo indivíduo que tenha abatido um bovino para utilizar ou consumir sua carne, uma prática proibida pelo hinduísmo. Se a pessoa que desobedece a lei for estrangeira, será imediatamente expulsa.

Estas medidas, sublinham algumas organizações não-governamentais – como Christian Solidarity Worldwide, protestante –, são ainda mais restritivas que as leis anticonversão em vigor atualmente em alguns estados da Índia.

Tanto para os cristãos, que se sabem especialmente no alvo destas medidas, como para os partidários de um Estado leigo no Nepal, isso supõe uma regressão de mais de meio século, antes da “abertura ao mundo exterior” de um estado monárquico em que o hinduísmo era a única religião reconhecida e autorizada.

Um dia depois da sessão parlamentar de 14 de agosto, na qual o projeto suscitou vivos debates, as minorias religiosas no Nepal anunciaram o lançamento de uma grande campanha contra o artigo 160, temendo que este não seja votado na urgência de concluir a Constituição e em razão do caos político causado pela demissão do primeiro-ministro nepalês, Jhala Nath Khanal, e sua sucessão pelo maoísta Baburam Bhattarai.

Esta operação de sensibilização foi decidida após uma reunião realizada em Katmandu na semana anterior, por iniciativa da Igreja Católica e sob a égide do Interreligious Secularism Protection Movement (IRSPM).

Reunindo responsáveis cristãos, muçulmanos, budistas e baha'i, representantes das principais comunidades religiosas aborígenes, assim como diferentes partidos políticos, esta assembleia interconfissional representa uma grande novidade no Nepal.

Os participantes lançaram um apelo ao governo, recordando-lhe que se dispõe a violar os fundamentos sobre os que se apoia a nova república nepalês e sua Constituição provisória, que proclamou em 2006 a liberdade religiosa e a laicidade do Estado.

“Esta proposição de lei vai contra a laicidade do Estado, já inscrita na Constituição provisória”, afirmou Nazrul Hussain Falahi, líder muçulmano e coordenador adjunto do IRSPM.

“Apesar de que o Nepal tenha se proclamado um país leigo, continua excluindo as minorias religiosas”, afirmou Palsang Vajra Lama, monge budista e coordenador da campanha do IRSPM. Unindo-se a outras minorias religiosas do país, denunciou o fato de que somente as instituições hindus recebem ajudas do Estado, não sendo reconhecidos como instituições religiosas os mosteiros budistas, igrejas, templos e mesquitas devido à falta de um estatuto jurídico claro.

Os líderes religiosos e políticos exortaram também o governo a fazer prevalecer, como estava previsto na Constituição, as liberdades de religião, expressão e opinião na futura Constituição nepalês, e a criar uma Comissão de Assuntos Religiosos, que contemple a representação das minorias não-hindus, faça que se reconheçam juridicamente e as proteja de toda discriminação.

Às vésperas da promulgação da Constituição nepalês, a mudança recente da situação político-religiosa veio alimentar os temores das minorias. Após a euforia que seguiu à queda da monarquia e o rápido aumento das religiões não-hindus, sob o efeito da laicização do Estado – especialmente as comunidades evangélicas e pentecostais –, a escalada do extremismo hindu, proporcional ao avanço do cristianismo, rapidamente marcou o fim da tolerância religiosa ainda incipiente no Nepal.

A manifestação visível desta violência antirreligiosa foi o atentado mortal perpetrado em março de 2009 na igreja católica da Assunção, de Katmandu, por parte do Nepal Defence Army (NDA), um grupo nacionalista que promulga a volta à monarquia e à religião hindu.

O projeto do artigo 160 se apoia na convicção, reiterada pelos hindus, de que os cristãos realizam conversões forçadas – uma afirmação refutada por todas as comunidades cristãs. “É uma teoria sem fundamento e é escandaloso que o governo a apoie”, indignou-se Isu Jang Karki, que lidera a Nepal Christian Society, a mais importante federação de igrejas protestantes do país.

“A lei não é contra os cristãos que realizam grandes serviços ao nosso país – disse à agência AsiaNews o ministro da Justiça, Prabhu Sah –, mas contra a hegemonia crescente do cristianismo.” Informou que os hindus e budistas se lamentam pelas práticas agressivas de conversão de algumas comunidades protestantes. “Estas queixas não se referem aos católicos”, esclareceu.

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