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sábado, 23 de abril de 2011

Atirador do Realengo foi enterrado como indigente


Wellington Menezes de Oliveira, apesar de ter sua identidade - infelizmente - conhecida como o assassino de 12 crianças na escola de Realengo, foi finalmente enterrado como indigente, segundo informa o UOL Notícias (vide abaixo), já que seu corpo não foi reclamado por ninguém da família, cumprindo o destino que as autoridades haviam predito alguns dias atrás. Wellington termina assim sua trágica passagem por este mundo, como um indigente enterrado numa cova rasa qualquer. Pena que tenha levado tanta gente inocente junto, e - para os que ficam - a dor causada por seu ato tresloucado jamais irá passar...

Duas semanas depois do massacre, atirador de Realengo é enterrado no Rio como corpo não-reclamado

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias

Em São Paulo


Duas semanas depois do massacre em Realengo, o atirador Wellington Menezes de Oliveira, 23, foi enterrado na manhã esta sexta-feira (22) no cemitério São Francisco Xavier, mais conhecido como cemitério do Caju, na zona norte do Rio de Janeiro, como corpo não-reclamado. O enterro foi feito pela Santa Casa em cova rasa, sem lápide, na quadra 49. Nenhum parente compareceu ao sepultamento.

O corpo estava no IML (Instituto Médico Legal) Afrânio Peixoto, no centro do Rio, desde a quinta-feira do crime, dia 7, mas nenhum parente apareceu para fazer o reconhecimento. Os familiares tinham 15 dias para retirar o corpo e o prazo acabou hoje.

A Polícia Civil do Rio chegou a cogitar a possibilidade de estender o prazo, por se tratar de um morto publicamente conhecido e para dar mais tempo a família dele, que podia estar se sentindo ameaçada.

O corpo também seria enterrado como indigente no cemitério de Santa Cruz, na zona oeste da cidade, mas por conta do feriado prolongado ele foi levado para o Caju.

Wellington foi adotado ainda bebê. A casa onde viveu com a família em Realengo está abandonada e a irmã, que mora no imóvel, não foi mais encontrada desde o dia do crime. Vizinhos dizem que ela foi para Brasília, onde mora um irmão. Em setembro do ano passado a mãe adotiva morreu, o que fez com que ele fosse morar em uma casa em Sepetiba, também na zona oeste. O pai já havia morrido há alguns anos.

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sexta-feira, 15 de abril de 2011

O reality show do Realengo

Hoje foram divulgadas mais vídeos, fotos, cartas, manuscritos, etc., do atirador do massacre do Realengo, Wellington Menezes de Oliveira. Como a maioria das pessoas, acredito, eu também estou cansado de ver essa espetacularização midiática a respeito desta tragédia, e por isso mesmo não vou republicar aqui nenhuma dessas porcarias deixadas pelo maluco. Quem ainda se dispuser a vê-las, é fácil encontrá-las nos grandes portais brasileiros da internet. Acho que a notícia já foi dada, a tragédia infelizmente aconteceu, e já não há mais nada que fazer senão lamentar as vítimas mortas e esperar que o país se prepare melhor para que não sejamos obrigados a sofrer novas ocorrências da espécie.

A cobertura jornalística, entretanto, se tornou refém da loucura do atirador de Realengo, trazendo à tona o seu lado Sonia Abrão. Na sua mente perturbada, segundo os novos vídeos indicam, ele preparou tudo como se estivesse confinado numa espécie de reality show, o Big Brother Brasil de Sepetiba, local onde morou sozinho nos últimos meses. Uma espécie bizarra de pay-per-view macabro que, lamentavelmente, a mídia caiu na arapuca e está disponibilizando grátis à população. A cada dia que passa, novos vídeos, cartas e manuscritos vêm à luz do dia e a imprensa os celebra como se fôssemos todos espectadores de uma competição fúnebre de extremo mau gosto. Em seu livro "O Vida Filme" (Companhia das Letras, 1999), Neal Gabler já tratou do fenômeno tipicamente moderno da transformação da vida privada em espetáculo e entretenimento públicos. Wellington do Realengo não deve ter lido o livro de Gabler, mas transformou sua morte e os inocentes que levou consigo numa "diversão" mórbida que somos obrigados a engolir no exato momento em que ligamos a televisão ou vemos as primeiras páginas dos jornais e portais. Não dá nem tempo de virar a cara ou mudar de canal. Lá está Wellington Menezes em suas múltiplas facetas sempre disposto a nos assombrar com seus delírios patrocinados pela mídia brasileira.

O circo de horrores virou reality show. O problema é que não dá mais tempo pra mandar Wellington pro paredão. É que todos nós fomos eliminados...





Atualização de 18/04/11:

Coluna de Fernando de Barros e Silva (pág. A2) na Folha de S. Paulo de hoje:


O jornalista e o assassino

SÃO PAULO - Há notícias que são de interesse público e há notícias que são de interesse do público. Se a celebridade "x" está saindo com o ator "y", isso não tem nenhum interesse público. Mas, dependendo de quem sejam "x" e "y", é de enorme interesse do público, ou de um certo público (numeroso), pelo menos.

As decisões do BC para conter a inflação têm óbvio interesse público. Mas quase não despertam interesse, a não ser dos entendidos.

O jornalismo transita entre essas duas exigências, desafiado a atender as demandas de uma sociedade ao mesmo tempo massificada e segmentada, de um leitor que gravita cada vez mais apenas em torno de seus interesses particulares.

Um caso como a tragédia de Realengo reúne interesse público e interesse do público em grau máximo. Como combater a circulação de armas no país? Como aumentar a segurança nas escolas? Como enfrentar o problema do bullying? São questões de interesse público e de interesse difuso do público.

Aquém delas, porém, há o fato trágico. Como fazer sua cobertura? Até onde saciar a curiosidade (mórbida) das pessoas? Até onde devassar o sofrimento das famílias? Deve-se expor sem limites os vídeos "preparatórios" do assassino? Deve-se preservar as crianças disso tudo? Até que ponto? E como?

Não há respostas conclusivas a essas perguntas. Mas não fazê-las, sob pretexto de que seriam ingênuas numa época de informação instantânea, equivaleria a deixar o jornalismo e suas opções fora do debate público. É preciso refletir melhor sobre os nossos critérios.

Sobretudo quando o jornalismo se converte em "infotainment" e parece inclinado a se guiar quase exclusivamente pelos interesses "do público". A superexposição midiática, apelativa e, afinal, monótona do assassino serve bem de exemplo. Nunca um vídeo foi tão visto e comentado. É contra esse espetáculo que deveríamos nos opor. Mesmo, ou principalmente, que isso nos pareça uma batalha perdida.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Sobre referendos e cidadãos desarmados

Sinto-me autorizado a comentar de maneira razoavelmente isenta a proposta de novo referendo para a proibição (ou não) do comércio de armas no Brasil. Votei pela proibição no referendo de 2005 e manterei esta posição se houver nova consulta popular quanto ao Estatuto do Desarmamento. Entretanto, aquela era uma ocasião em que o referendo se justificava, e a resposta do povo foi uma contundente liberação das armas no país, ainda que contrariamente à minha vontade. Se o povo votou mal ou não, faz parte do jogo democrático e não há o que questionar. Se houve uma deliberada manipulação da pergunta proposta no referendo ou se a grande imprensa tomou partido da liberação das armas apenas para se contrapor a seu eterno inimigo Lula, também não vem ao caso. O jogo foi limpo, o resultado foi claro, e não dá pra fazer democracia direta com 200 milhões de pessoas todo ano. A questão, a meu ver, é de fundo: nossas autoridades constituídas não só não funcionam como não estão nem um pouco preocupadas por não funcionarem. Lembro-me, por exemplo, de estar subindo de carro a Rua Augusta em São Paulo numa tarde quente de um dezembro qualquer alguns anos atrás, trânsito parado, vidros abertos, e um policial que estava muito próximo, na calçada, se inclinou na janela e me disse para tomar cuidado com o celular que estava no banco do passageiro, porque - novidade! – havia muitos furtos na região. Apenas por gentileza agradeci o aviso, porque não adiantava argumentar com ele aquilo que eu já pensava muito antes de sua abordagem: ele está sendo pago para me dar proteção e garantir que a população não corra sequer o risco de ser assaltada.

Esta é apenas a base da pirâmide de autoridades governamentais e funcionários públicos que se esquecem – convenientemente - de que são pagos para garantir um mínimo aceitável de segurança à população. No entanto, comportam-se (quase) todos como se estivessem apenas nos fazendo um favor, já que – para muitos deles – o único compromisso com que se preocupam é o salário no fim do mês. Se fosse só o salário, até que seria ótimo, mas outros, infelizmente, se valem de sua posição de autoridade para obter outro tipo de benesses, geralmente impublicáveis e – lamentavelmente – impuníveis. Toda vez que há uma comoção nacional como a que estamos momentaneamente atravessando por causa do massacre da escola de Realengo, promessas são feitas e atitudes paliativas são tomadas, sem que haja uma real preocupação em atacar o cerne do problema, que é o improviso sistemático e o desinteresse em políticas públicas estruturais que deem conta do problema da segurança no país. Gestos provocados por uma indignação fingida (como se a culpa fosse nossa por sermos roubados e massacrados), mas que não costumam durar até o fim da estação (já que rotineiramente nos adaptamos aos níveis estratosféricos de violência e impunidade), e que são sempre retomados na próxima ceifa de vidas e esperanças inocentes. Nem percebem que o discurso de “desarmar os espíritos” se torna risível diante do espírito da lei que favorece descaradamente a impunidade, transferindo-nos os ônus de nos defendermos por nós mesmos, enquanto eles recebem os bônus mensais e ocasionais mesmo que – hipocritamente – não tenham feito nada para merecê-lo.

Eu gostaria, de verdade, que as armas fossem proibidas ao cidadão comum. Nunca entendi (nem experimentei) a razão que leva um cidadão a ter armas em casa ou a portá-las na rua. É algo inconcebível à minha ingenuidade civil. Entretanto, sei que, diante da conjuntura atual, tanto faz se o comércio delas for proibido ou liberado, ou se nos submetam diariamente a referendo ou plebiscito. As pessoas de má índole e mau caráter continuarão comprando-as livremente no mercado negro e cobrando insaciavelmente o nosso tributo de sangue, porque, a exemplo do policial a que me referi acima, as autoridades constituídas não vão coibir ou reprimir o seu comércio, apenas chegarão pela janela da TV de nossas salas e nos perguntarão se trancamos a porta. Como se a consciência deles não pesasse tanto e suas mãos estivessem menos sujas do nosso sangue por causa deste inútil aviso.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Uma réstia de sensatez no Realengo

Em meio à comoção coletiva gerada pelo atentado à escola de Realengo, os vizinhos da família do atirador Wellington Menezes de Oliveira, auxiliados por ex-alunos da Escola Tasso da Silveira, tiveram hoje uma atitude surpreendente por destoar da reação emocional (e algumas vezes - compreensivelmente - histérica) de muitas pessoas ao bárbaro crime. Depois da casa da família de Wellington, que fica no mesmo bairro, ter sido pixada e vandalizada, a comunidade machucada, ainda lambendo as feridas, se uniu num mutirão para pintá-la de branco, "reparar" os portões com cartolina branca e - principalmente - pedir paz, segundo noticia o site iG (vide abaixo). Um pequeno gesto que revela que o Brasil está caminhando (ainda que timidamente) no sentido de se tornar uma democracia amadurecida e com cidadãos responsáveis. Quando pessoas diretamente afetadas por um ato insano percebem que não vale a pena a retaliação vingativa e despropositada contra parentes inocentes de um psicopata, estamos dando mostras de que, como sociedade, sabemos diferenciar o joio do trigo, e mesmo num país em que a lei preza e beneficia a impunidade, ainda há esperança de dias melhores, apesar de tudo, respondendo à insensatez com tão-somente sensatez:

Vizinhos pedem paz e pintam de branco muro da casa da família de atirador

Casa onde irmã de Wellington Oliveira mora havia sido pichada e depredada no final de semana

Depois de ter sido arrombada e ter o muro pichado com os dizeres “assassino e covarde” no fim de semana, a casa da família do atirador Wellington Oliveira teve o muro pintado de branco por vizinhos e ex-alunos da escola Tasso da Silveira na manhã desta segunda-feira (11). Os portões que haviam sido arrombados foram fechados com cartolina branca. Vizinhos também colocaram em frente à casa um cartaz pedindo paz.

“A culpa não é do estado, a culpa não é dos parentes, a culpa não é das crianças, a culpa não é dos funcionários da escola. A dor é de todos. Nosso bairro é pacífico”, diz o cartaz.

Uma patrulha da Polícia Militar está estacionada em frente à casa para evitar que novos atos de vandalismo ocorram.

Até o dia do massacre, na quinta-feira (7), a casa era ocupada pela família da irmã de Wellington, que desde então não foi mais vista.

Wellington Oliveira entrou na Escola Municipal Tasso da Silveira, na rua General Bernardino, em Realengo, zona oeste da cidade, e, com dois revólveres, entrou nas salas de aula e atirou na direção de crianças. Doze morreram e dez continuam internadas.






Fotos: iG e JB

O fanatismo religioso do atirador de Realengo

Wellington Menezes de Oliveira, o agora macabramente famoso "atirador de Realengo", nos seus delírios religiosos, fez uma estranha transição de adepto (ou simpatizante) das testemunhas de Jeová ao islamismo, com pitadas não menos sinistras de apologia ao terrorismo, segundo a matéria que foi ao ar no programa Fantástico da Rede Globo ontem à noite. Fica difícil ver algum sentido nessa conexão bizarra entre duas visões religiosas tão distintas, assim como acreditar piamente que esses contatos e personagens sejam reais e não imaginários, sobretudo por serem frutos podres de uma mente tão fragmentada, mas pelo menos teremos mais dados para tentar entender aquilo que permanecerá incompreensível para sempre. Veja a matéria do site G1:

Manuscritos de atirador mostram fixação por terrorismo

Polícia diz que não vai investigar possível ligação com extremistas.
‘Fantástico’ teve acesso a documentos encontrados na casa do criminoso.


Livros espalhados sobre a cama estão entre as cenas que chamaram a atenção dos peritos que entraram na casa do atirador Wellington Menezes de Oliveira na quinta-feira (7), dia em que ele matou 12 crianças em uma escola em Realengo. São volumes como "Estudo perspicaz das escrituras", "Anuário das testemunhas de Jeová", "O segredo de uma família feliz" e "Tradução das escrituras sagradas".

Para Paulo José Tapajós, professor de teologia da PUC do Rio de Janeiro, não são obras que permitem um estudo profundo de religiões. “Você não vai encontrar nesses livros um lado mais radical, um lado mais fundamentalista, pode até encontrar, mas de uma forma muito subliminar", explica.

O “Fantástico” teve acesso a manuscritos encontrados na casa do assassino. Há um exercício de inglês, anotações soltas, e o principal deles: uma espécie de carta - aparentemente dirigida a uma mulher, escrita provavelmente antes da morte da mãe, há dois anos.

Há muitas referências religiosas e sinais de tendências suicidas: "Os prazeres e o reconhecimento deste mundo são coisas passageiras e o que importa é ser reconhecido por Deus, porque não será com as pessoas limitadas desse mundo que viverei eternamente e sim com Deus".

Wellington é de uma família de testemunhas de Jeová, e critica os pais por não seguirem os preceitos da religião estritamente: "Meus pais têm fé em Jeová, mas deixam de cumprir com as exigências da congregação”. Ele relata sua rotina: "Infelizmente tenho que dividir meu tempo com tarefas de colégios, limpeza da casa, e ir à igreja das testemunhas de Jeová".

Em nota, a liderança das testemunhas de Jeová no Rio de Janeiro diz que "o homem que cometeu os crimes bárbaros na Escola Municipal Tasso da Silveira não era membro da religião das testemunhas de Jeová". E expressa "solidariedade às famílias das vítimas".

Interesse pelo islamismo

Nos últimos anos, Wellington parece se interessar também por outra religião: o islamismo. Uma das irmãs do atirador disse à polícia, em depoimento, que Wellington passou a frequentar uma mesquita no Centro do Rio. Na carta, ele relata um conflito: "Já errei com minha família, mas eu mudei com o alcorão e eles não confiam em mim".

Wellington faz referência ao que seria um grupo. E relata dividir o próprio tempo entre orações e reflexões sobre o terrorismo. "Estou fora do grupo, mas faço todos os dias a minha oração do meio-dia que é a do reconhecimento a Deus e as outras cinco que são da dedicação a Deus e umas quatro horas do dia passo lendo o alcorão. Não o livro, porque ficou com o grupo, mas partes que eu copiei para mim. E o resto do tempo eu fico meditando no lido e algumas vezes meditando no onze de setembro".

Para o professor de teologia, a mudança é um sinal claro da confusão mental de Wellington. “Acharia muito difícil um testemunha de Jeová realmente trocar Jesus por Maomé. Não é que seja contraditório, que seja um contra o outro, mas acho meio complicado um fanático por Jesus ser fanático por Maomé, acho difícil acontecer”, diz Tapajós.

O sheik Jihad Hassan diz que Wellington não era muçulmano e afirma categoricamente: “A religião islâmica proíbe esses atos. Ela não dá amparo, não ensina, ela não dá esses ensinamentos, ela não acolhe esse tipo de pessoa, esse tipo de pensamentos, ela ensina o bem. Ensina a preservar a vida, e não a tirar a vida”, diz Hassan.

Apesar de viver em aparente isolamento, Wellington Menezes de Oliveira deixou muitas pistas que precisam ser seguidas para entender qual foi o caminho que o levou a praticar tal barbaridade. Analisar essas pistas não é um trabalho fácil, porque é preciso separar o que é fato, verdade e o que ficção.

Documentos como os que o "Fantástico" apresentou levantam muitas perguntas, que precisam ser respondidas. Por exemplo: Wellington participou de algum grupo extremista, com ligações até no exterior, como diz nos papéis? Ou isso é apenas fruto de uma mente doentia?

No manuscrito, Wellington volta a citar o "grupo" -- e o nome de alguém que teria vindo do estrangeiro se repete, Abdul: “Tenho certeza que foi o meu pai quem os mandou aqui no Brasil ele reconheceu o Abdul e mandou que ele ‘viec’ com os outros precisamente ao Rio... porque quando eu os conheci e revelei ‘tudo’ a eles eu fui ‘muito’ bem recebido e houve uma grande comemoração”.

No mesmo trecho, ele diz algo que pode ser uma referência ao atentado de 11 de setembro. O tal Abdul parece ter se vangloriado de quase ter participado do atentado às torres gêmeas, uma fanfarronice para impressionar Wellington, se for verdadeira essa interpretação: "E o Abdul teve uma conversa comigo e me revelou que conheceu meu pai e que chegou a comprar uma passagem para um dos voos, mas não fazia parte do plano e usou uma identidade com algum dado incorreto pensando no futuro para não reconhecerem ele".

Mais adiante, surge um novo nome, Phillip. E sinais de desentendimento dentro do grupo: "Tive uma briga com o Abdul e descobri que o Phillip usava meu PC para ver pornografia. Com respeito ao Phillip, eu já esperava isso (...) Mas do Abdul eu não esperava isso... Nos dávamos bem e ele sempre foi flexível nas nossas conversas e dessa vez ele foi muito rígido".

O motivo da briga teria sido uma menina, de uma certa igreja, que Wellington teria tentado levar ao grupo: "É que eu resolvi falar sobre a menina que me convidou a ir a igreja dela e antes de eu terminar ele já foi cortar logo no início ao invés de ouvi-la depois disso ele me ligou umas vezes e eu disse que estou saindo por respeito ao grupo".

Obcecado por atentados

Wellington também manifesta vontade em conhecer países de população islâmica: "...pretendo trabalhar pra sair desse estado ou talvez irei direto ao Egito". Além da carta, a polícia encontrou uma folha com anotações soltas, e uma referência à Malásia, um país de maioria islâmica, onde há alguns dos edifícios mais altos do mundo.

Ele anota que é preciso verificar as condições climáticas da Malásia em setembro, mês dos ataques de 2001 em Nova York. Sinais de uma mente delirante, obcecada por atentados. Nas anotações há expressões como "torres gêmeas”, "retornar fotos e dados sobre tais condições climáticas na malásia no mês de setembro", "clima", "torres altas", "procurar aviões da malásia", "voos" e "aeroportos".

A fixação pelo terrorismo tinha sido percebida por pessoas que conviviam com Wellington, como o barbeiro que o atendia há sete anos. À polícia, ele disse que "no último ano Wellington passou a deixar a barba crescer, atingindo o comprimento até o peito". Quando brincou com Wellington, dizendo que cortaria a barba dele, o cliente o impediu , dizendo "vou ser expulso".

O barbeiro entendeu que Wellington se referia ao grupo de islamismo, pois ele dizia que o islã era a religião mais correta, e que estava estudando o alcorão. As reuniões, segundo o depoimento, aconteceriam na Barra da Tijuca ou no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro.

O responsável pelo inquérito não considera necessário abrir essa linha de investigação. "Tudo o afasta de grupos extremáticos. É sim um louco, que de forma covarde resolveu atingir a vida de crianças indefesas para depois se suicidar como ocorreu", diz o delegado Felipe Ettore.

Líderes espirituais e especialistas concordam que atos como o do assassino Wellington nada têm a ver com religião. "A coisa mais complexa quando alguém pode ter uma conduta fanática é que ele não consegue enxergar a si mesmo como alguém que está num nível equivalente a outros seres humanos. Ele se considera ou um escolhido, ou um eleito, ou uma pessoa especial. Esta autoimagem muito completa, aquela que não tem críticas sobre si mesmo, ela dá uma convicção e a convicção vira obsessão e a obsessão pode gerar uma conduta horrorosa, como a que nós tivemos", diz o filósofo e professor Mario Sérgio Cortella, especialista em estudos da religião.

"Acho muito importante as pessoas saberem diferenciar esses discursos ultrarradicais, intolerantes, das tradições das religiões, que na verdade são de milhões de pessoas pelo mundo inteiro, que não se pautam por esse nível de violência, não se pautam por nada que tenha essa função destrutiva", diz o rabino Nilton Bonder.



Atualização de 12/04/11:

Abaixo o vídeo mostrado pelo Jornal Nacional da TV Globo nesta data, em que o atirador do Realengo tenta explicar os motivos de sua atitude inexplicável, invertendo os valores e se autointitulando "inocente" enquanto chama de "covardes" os verdadeiros inocentes que ia covardemente matar. É uma pena que a TV ainda continue dando espaço a este tipo de manifestação de uma mente completamente desequilibrada. Vendo o seu olhar maluco, seco e fixo, agora a gente fica pensando como é que ninguém relativamente próximo encaminhou esse rapaz a um tratamento adequado que teria evitado toda essa tragédia inominável:



sábado, 9 de abril de 2011

Atirador do Realengo tinha histórico de bullying e fanatismo religioso



Novas informações surgem dando conta de que o matador do triste episódio na escola de Realengo já sofria de esquizofrenia desde os 6 anos de idade, época em que já tomava remédios controlados e os pais adotivos o teriam trazido para casa cientes de sua condição, o que - se confirmado - revela uma atitude amorosa e elogiável. O problema maior foi Wellington Menezes de Oliveira ter parado com a medicação aos 14 anos de idade. Familiares revelam ainda que o assassino sofreu bullying na mesma escola onde praticou o atentado e teria fascinação pelo Velho Testamento da Bíblia e também pelos terroristas islâmicos, segundo informa o jornal O Estado de S. Paulo na edição de hoje:

Atirador sofreu bullying, diz irmão

Vannildo Mendes / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo

Desajeitado e arredio, o atirador Wellington Menezes de Oliveira era alvo de chacotas de colegas da Escola Municipal Tasso da Silveira, palco do massacre. Na adolescência, foi rejeitado pelas meninas. "Desde pequeno ele tinha distúrbio mental e sofria isso que chamam de bullying", diz A., seu irmão adotivo de 44 anos.

Sob compromisso de não ser identificado - a Secretaria de Segurança do Rio lhe alertou que pode sofrer retaliação -, A. contou ao Estado que, ainda criança, Wellington recebeu diagnóstico de esquizofrenia. Ele foi adotado pela tia, Dicéia de Oliveira, mãe de A. "Lembro do dia em que ela chegou com aquela criança assustada no colo. Ele tinha de 6 a 7 anos quando começou a tomar remédios controlados."

Por volta dos 13 ou 14 - idade das vítimas -, Wellington abandonou os remédios. "Desde então sua esquisitice só piorou. Ele tinha obsessão pelo Velho Testamento da Bíblia", relatou A., negando que o irmão tivesse ligação com o Islamismo, como se especulou após a chacina.

A preocupação da família cresceu quando Dicéia percebeu que Wellington, já então viciado em internet, passou a ler manuais de fabricação de explosivos e manuseio de armas, além de pesquisar atentados terroristas, com predileção por homens-bomba do Oriente Médio. Segundo A., Wellington tinha preferência mórbida por cenas violentas e foi censurado pela família por comentar com empolgação o atentado contra Nova York, em 2001.

Os problemas se agravaram com a morte do pai adotivo, há cinco anos. E Wellington se isolou de vez após a morte de Dicéia, há dois, quando foi morar em Sepetiba, na casa deixada pelo pai. Especula-se que a partir daí passou a planejar o massacre. "Fiquei perplexo, como todo mundo, quando vi na TV a habilidade com que ele usava armas", diz A. Para ele, Wellington aprendeu tudo na internet.

Nicéia teve cinco filhos biológicos - três vivem no Distrito Federal. Taxista por mais de 20 anos, quase todo o tempo morando em Realengo, A. divorciou-se há três e mudou para o Entorno do Distrito Federal, onde vive há mais de 15 anos seu irmão mais velho, P., de 59. Uma irmã é dona de casa e vive com o marido, professor, há dez anos em Brasília. Outros dois irmãos ainda moram no Rio, um no Realengo.

Os Oliveira Alves, irmãos adotivos de Wellington, conheciam a maioria das famílias de adolescentes atacados. "Sou pai e avô e posso sentir o tamanho da dor dessas famílias. A única coisa que podemos fazer é lamentar do fundo do coração."

Retaliação. A vida da família está destruída. Ontem A. foi avisado pela empresa que está compulsoriamente de férias e deve aguardar em casa. Hipertenso e doente renal, P. teve ontem de ser internado. Pai de santo, ele comanda a Casa Afro-Cultural e Assistencial São Jorge, entidade filantrópica com registro ativo no governo federal, que recebe dinheiro público para atividades assistenciais. Por determinação policial, que considera elevado o risco de atentados, ele fechou o local por tempo indeterminado.

Matador do Realengo pode ser enterrado como indigente

O massacre de inocentes na escola de Realengo, no Rio de Janeiro, por mais inexplicável e injustificável que pareça (e seja) aos nossos olhos, desperta em nós os instintos mais primitivos, como diria um ex-deputado cassado, também carioca. À medida em que as horas e os dias passam, tentamos, entretanto, procurar explicações e nos deparamos com a gigantesca miséria humana à qual julgávamos estar imunes, e que nos afeta a todos, democrática e lamentavelmente. A notícia do jornal O Globo, de que o corpo do responsável pela barbárie, Wellington Menezes de Oliveira, permanece no Instituto Médico Legal sem que ninguém o reclame, acrescenta uma pitada de indigência ao enredo macabro, que mesmo assim não deixa de ter relevância.

Segundo os primeiros relatos, ao que tudo indica, Wellington era um rapaz tímido e desajustado socialmente embora este desajuste não se traduzisse em atos de rebeldia ou violência perceptíveis a olho nu. Filho adotivo de uma família humilde do subúrbio carioca, cuja mãe biológica já era esquizofrênica, foi criado e educado aparentemente com todo o carinho e cuidado possíveis a uma família nessas condições. ¡Que estranho desajuste emocional e social que é este que fica cozinhando em fogo brando por mais de 20 anos! As informações são desencontradas ainda, já que os familiares e amigos próximos, compreensivelmente, evitam aparecer e dar declarações sobre a história pregressa do hoje facínora. Fica difícil, portanto, traçar um perfil psicológico detalhado de Wellington, mas, a julgar pela carta que deixou (vide abaixo), ele teria tido sérios problemas de sexualidade e misticismo religioso que se juntaram no caldeirão de desgraças estruturais da sua personalidade, e resultaram no massacre do último dia 7 de abril.

O corpo de Wellington permanece no IML e, se ninguém reclamá-lo nos 15 dias seguintes à sua morte, ele será enterrado como indigente. O desejo de muitos hoje seria matá-lo tantas vezes quantas fosse possível antes de enterrá-lo, mas temos que aproveitar o momento para refletir sobre que tipo de sociedade estamos vivendo, com todas nossas carências e omissões. Muitos Wellingtons vivem à nossa volta sem que nós percebamos que são pessoas doentes que precisam de tratamento especializado. É claro que 99,9999% desses Wellingtons que conhecemos ou trombamos na rua jamais farão uma loucura como a do Wellington de Realengo, mas precisamos desenvolver uma maneira coletiva de identificar possíveis Wellingtons e cuidadosamente orientá-los e encaminhá-los a pessoas, psicólogos, psiquiatras, instituições, etc., que possam dar um pouco de coesão a essas personalidades tão fragmentadas e dissociadas de um sentimento comunitário razoavelmente solidário e significativo.

Ainda que as invocações cerimoniais religiosas de Wellington quanto ao seu sepultamento sejam apenas um fruto diletante dos seus delírios automistificadores - e agradasse ao nosso íntimo a ideia de que seu corpo fosse atirado num lixão qualquer -, a sociedade não pode permitir que ele seja enterrado como indigente. Ainda que nos cause náusea a sua figura, ele tem rosto, nome, RG, CPF e - principalmente - uma triste história de vida empanada pela morte inútil e trágica. Podia ter ido embora sozinho e anônimo, é o que todos nós pensamos agora, mas na sua insana busca de fama (e infâmia) levou crianças inocentes e traumatizou todo um país. Ao conceder a Wellington um enterro de gente, não só promovemos um ritual e a catarse de sua descida ao inferno (que começou em vida) como estamos nos comprometendo conosco mesmos, coletivamente, de que também somos gente e vamos tratar os muitos desajustados à nossa volta como gente, dentro do possível que cada um pode fazer, para evitar que tenhamos que descer a novos infernos como este. O momento exige coragem para enfrentarmos os novos fantasmas e exorcizarmos os nossos medos. Coragem para, apesar da dor, ainda cantar o refrão de "Divino, Maravilhoso", letra de Caetano Veloso e Gilberto Gil, na interpretação de Gal Costa: "é preciso estar atento e forte, não temos que temer a morte".


(clique na imagem para ampliá-la)



sexta-feira, 8 de abril de 2011

A passeata das formigas contra a violência

Ok, a passeata das formiguinhas do vídeo abaixo é contra a matança causada pelo inseticida Baygon, mas, nesses dias difíceis depois da tragédia na escola do Rio de Janeiro, bem que a gente podia se inspirar no exemplo delas e fazer nosso trabalho de formiguinha com muitas passeatas pela paz:

quinta-feira, 7 de abril de 2011

De Columbine ao Realengo

O alerta vermelho já está aceso há muito tempo. Talvez agora alguém o veja piscando, embora a atenção esteja voltada para socorrer os feridos e consolar as famílias dos mortos (11 até as 11 hs. do dia 07 de abril, mas tudo indica que - infelizmente - o número aumentará no decorrer das horas). Depois, durante o rescaldo da tragédia, pararemos para pensar e avaliar melhor a razão de tudo isso. O momento é de reação, porque a ação já devia ter sido tomada por governos e autoridades há muito tempo, e como pouco ou nada fizeram, a "ação" foi tomada refém por um atirador de 24 anos de idade, identificado como Wellington Menezes de Oliveira, ex-aluno da escola Tasso da Silveira, na rua General Bernardino de Matos, em Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro (RJ), que retornou à instituição dizendo que ia dar uma palestra e terminou atirando a esmo com vários pentes de revolver calibre 38, segundo informa o UOL Notícias.

Pensávamos que estávamos imunes a este tipo de ocorrência, que isso era coisa de norteamericanos, mais afeitos às armas e ao militarismo, e os Estados Unidos seriam o local em que esta bomba, rotineiramente, estouraria. Afinal, foi também num mês de abril (dia 20) de 1999 que aconteceu o massacre da escola de Columbine, no Estado do Colorado, com 13 mortos e 21 feridos, que se tornou um símbolo da luta contra a loucura das armas e de uma sociedade em que a vida se tornou banal e não tem sentido algum vivê-la. O documentário "Tiros em Columbine" de Michael Moore (Oscar de melhor documentário em 2003) retrata bem essa tragédia americana.

Entretanto, as semelhanças entre o Sul e o Norte da América param por aí. Se é verdade que os Estados Unidos têm uma legislação bastante permissiva para porte de armas de fogo, lá também eles têm um sistema legal e judiciário que funciona, e onde a sociedade tem uma "certeza razoável" (com o perdão da aparente contradição) de que existe prevenção, repressão, investigação e punição para o crime. O aparato legal e legislativo no Brasil é de dar dó, em que a ideologia dominante é a da impunidade. Somos todos um bando de fingidores. O Congresso finge que promulga leis que fingimos todos que são boas; os chamados "operadores do Direito" fingem que executam a tarefa de aplicar a lei; e o povo finge que está tudo bem, já que tem a garantia de que ninguém será punido de maneira justa, isto quando for punido. Esta ideologia da impunidade funciona como um acordo tácito entre governantes de todos os partidos e todas as esferas (que sabem que não serão punidos por seus atos de corrupção) e aqueles que votam neles (que sabem que, talvez, tenham que pagar uma cesta básica por um homicídio culposo, mas só se forem pegos ou não puderem pagar um bom advogado).

Nossas escolas públicas são, então, verdadeiros depósitos de crianças e adolescentes provindos de famílias pobres, numa vã tentativa de tirá-los da rua e permitir que seus pais trabalhem para sustentá-los, mas sem garantir um nível aceitável de boa educação. Deveriam ter um mínimo de infraestrutura e segurança, mas tudo é feito para maquiar a realidade de uma situação caótica e paliativa. E nisso há que culpar todas as esferas de governo e todos os partidos políticos. O discurso da educação costuma aparecer nas campanhas eleitorais, mas pouco ou nada é feito durante a administração dos eleitos. O destino do povão é a ignorância. Felizes os que fogem dela e aqueles que conseguem fugir das balas atiradas por sociopatas. Enquanto outros tipos dissimulados de sociopatas continuarem sendo eleitos, teremos que nos abraçar e nos consolar na nossa triste dor.

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