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sábado, 4 de novembro de 2017

Papa canonizou 30 brasileiros mortos pelos holandeses em 1645


Olá, amigos leitores!

Como vocês perceberam, passamos o mês de outubro relembrando alguns textos de Lutero, dentre as milhares (talvez milhões) de páginas de sua vasta obra, pra que pudéssemos ver  e ler um panorama multifacetado do seu pensamento, dentro do que foi possível organizá-lo e selecioná-lo.

Retornamos agora, então, com nossa "programação normal", relembrando um fato que aconteceu alguns dias atrás e que representou, de certa forma, um contraponto católico à celebração do quinto centenário da Reforma Protestante, o que demonstra, ainda que de maneira capciosa, que manobras religiosas são também políticas e ideológicas, é só uma questão de aproveitar a ocasião, manja?

Trata-se da canonização de trinta "santos" brasileiros, martirizados pelos holandeses calvinistas que invadiram a então colônia portuguesa do Brasil no século XVII.

A matéria foi publicada na BBC Brasil em 14 de outubro de 2017:

O massacre holandês há 372 anos que levou o papa Francisco a decretar a santidade de 30 brasileiros

Renata Moura

Uma missa de domingo em uma capela, ameaças em campo aberto às margens de um rio e 150 pessoas brutalmente assassinadas. Dois massacres registrados no Rio Grande do Norte e apontados como símbolos da intolerância religiosa de holandeses que dominavam o Nordeste brasileiro em 1645 renderam ao país, 372 anos depois, 30 novos santos - "os primeiros santos mártires do Brasil".

Os chamados "mártires de Cunhaú e Uruaçú" - nomes de duas localidades da época que hoje correspondem aos muncípios potiguares de Canguaretama e São Gonçalo do Amarante - foram beatificados no ano 2000 pelo Papa João Paulo II e canonizados neste domingo pelo Papa Francisco.

"Pela exaltação da fé católica e incremento da fé cristã, declaramos e definimos santos os padres André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, Mateus Moreira e seus 27 companheiros leigos", disse o papa.

Na mesma cerimônia, ele canonizou Cristobal, Antonio e Juan, mortos em 1527 e 1529, e considerados os Protomártires do México e de todo o continente americano; o sacerdote espanhol Faustino Míguez, fundador do Instituto Calasanzio, Filhas da Divina da Divina Pastora, e o Frade Menor Capuchinho italiano Angelo d'Acri.

Os 30 novos santos do Brasil são os únicos mortos identificados em dois massacres que deixaram um saldo de aproximadamente 150 vítimas. Por esse motivo, somente eles foram reconhecidos na cerimônia.

O caso é considerado emblemático, entre outros motivos, porque os massacrados teriam "dado a vida, derramado o sangue, na vivência de sua fé", segundo a Igreja.

Em Cunhaú, 70 teriam sido assassinados em 16 de julho de 1645. O episódio é apontado como retaliação holandesa aos que seguiam a fé católica e se recusavam a migrar para o movimento religioso protestante que difundiam, o calvinismo.

O livro "Beato Mateus Moreira e seus companheiros mártires", escrito pelo Monsenhor Francisco de Assis Pereira a partir de pesquisas históricas e dados que embasaram a beatificação, afirma que os holandeses contaram com a ajuda de indígenas para invadir uma capela da região, fechar as portas e matar quem estivesse dentro, em uma manhã de domingo.

Quase três meses depois desse episódio, em 3 de outubro, outras 80 pessoas também viraram alvos em outro cenário: às margens do rio Uruaçú, foram despidas e assassinadas por não terem se convertido ao protestantismo.

Nem crianças foram poupadas do ataque. Uma delas, com dois meses de vida, foi uma das vítimas, junto com uma irmã e o pai.

Também parte desse segundo grupo, o camponês Mateus Moreira acabou virando símbolo do martírio porque, no momento de sua morte, teria bradado: "Louvado seja o Santíssimo Sacramento". A louvação seria uma prova incontestável de sua fé, na visão católica. Ele foi morto ao ter o coração arrancado pelas costas.

A presença da igreja católica no Nordeste já era considerada "marcante" nessa época, como descreve o Monsenhor Pereira, postulador da causa da beatificação dos mártires, no livro. "Havia padres seculares (padres pertencentes a dioceses), numerosos conventos de franciscanos, carmelitas, jesuítas e beneditinos. Eram mais de 40 mil católicos", escreve ele.

Os holandeses aportaram na região em 1630. Eles chegaram nesse período a Pernambuco e assumiram o comando político e militar da área - estendendo o domínio posteriormente a outras capitanias, inclusive à do Rio Grande, como era chamado o Rio Grande do Norte.

Os colonizadores teriam perseguido e assassinado adeptos da religião católica que não aceitaram virar calvinistas. Na mesma época em que, por meio da Inquisição, a Igreja Católica ainda perseguia, julgava e punia acusados de heresia.

Adultos, jovens e crianças: quem são os mártires canonizados

A lista de novos santos inclui um total de 25 homens, entre eles dois padres, e cinco mulheres. Eram 16 adultos, 12 jovens e duas crianças - a mais nova, o bebê de dois meses de idade.

"A identificação dos canonizados não se dá tanto pelos nomes, mas também por identificação de parentesco e de amizade (das vítimas)", ressalta o padre Julio Cesar Souza Cavalcanti, responsável por encaminhar a canonização dos mártires na Arquidiocese de Natal.

A missa solene em que o papa Francisco proclamou a canonização, na Basílica de São Pedro, em Roma, aconteceu às 10h deste domingo, no horário local (5h no Brasil), com a praça completamente lotada.

A professora aposentada Sônia Nogueira, de 60 anos, ficou em Natal, a mais de sete mil quilômetros de distância da cerimônia, mas em vigília e "com o coração cheio de gratidão pelos mártires".

Ela diz que, por intermédio deles, pediu "a graça da cura e da libertação" para o marido, José Robério, que em 2002 começou a enfrentar as consequências de um câncer no cérebro.

Fortes dores de cabeça levaram o militar aposentado, hoje com 68 anos, ao diagnóstico.

O caminho trilhado a partir desse ponto foi marcado por "apreensão", mas também pelo que Sônia resume com letras maiúsculas em um texto: "MILAGRE DA SOBREVIDA!"

A frase foi escrita por ela em um relatório que enviou à Igreja Católica no Rio Grande do Norte, em 2016, para contar a história do marido em meio a exames, tratamentos de saúde, cirurgias e momentos de "fé".

Rezar foi a estratégia fundamental, segundo Nogueira, para que Robério resistisse à doença, que raramente possibilita sobrevida de mais de três anos aos pacientes após diagnóstico. No laudo médico que a professora apresentou para embasar cientificamente o que considera um milagre, o neurocirurgião que acompanhou o caso de Robério o coloca no rol de "exceções da medicina", porque ele sobreviveu.

"Já se vão 15 anos e 5 meses desde que soubemos do tumor", diz Sônia, em entrevista à BBC Brasil. Ela não tem dúvidas: "Foi um milagre. A medicina foi só um complemento".

Comprovação de milagres não foi exigida no processo

Robério e sua mulher estão entre os mais de cinco mil fiéis que já relataram à Arquidiocese de Natal "graças alcançadas" por meio dos "novos santos" do Brasil. Não foram necessários, porém, milagres para fundamentar a canonização.

"O papa Francisco, quando decidiu pela canonização com a dispensa do milagre, colocou como um ponto básico (para a aprovação) a antiguidade do martírio e a perpetuidade da devoção do povo aos mártires", explica o padre Julio.

Por meio do chamado processo de equipolência, o papa reconhece a santidade considerando três requisitos: a prova da constância e da antiguidade do culto aos candidatos a santos, o atestado histórico incontestável de sua fé católica e virtudes e a amplitude de sua devoção.

O mesmo processo, em que milagres foram dispensados, foi adotado para a canonização de São José de Anchieta, outro santo do Brasil.

Para Nogueira e Robério, no Rio Grande do Norte, o milagre que os mártires teriam realizado é, porém, inquestionável. "Robério foi bem aventurado no processo, por intercessão deles", justifica a aposentada. "Como um paciente pode chegar a (sobreviver) 15 anos tomando uma medicação que segura outros por no máximo três?".

Com dificuldades para falar e andar sem apoio, após a segunda e última cirurgia que fez, o marido faz coro: "Estava muito doente e os mártires me levantaram".

"Quem não vai ficar bom tendo um santo dentro de casa?", ele questiona, referindo- se ao fato de os novos santos terem origem no estado em que mora.

A canonização deste domingo eleva para 36 a quantidade de santos considerados nacionais. Até agora, só um deles, Santo Antônio de Sant'Ana Galvão, mais conhecido como Frei Galvão - santificado em 11 de maio de 2007 - é, porém, brasileiro de nascimento. Os outros cinco já oficializados, São Roque Gonzales, Santo Afonso Rodrigues, São João de Castilho, Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus e São José de Anchieta, são estrangeiros, mas desenvolveram missões no país. Eles são reconhecidos por milagres.

Para o padre Júlio, "a grande mensagem com a canonização é de reconhecer que mesmo pensando diferente, seja em qualquer campo, devemos sempre respeitar o outro e jamais destruir alguém, de nenhum modo".



sábado, 25 de março de 2017

Papa argentino fará 30 brasileiros se tornarem santos católicos


Sim, é isso mesmo o que você leu, numa só penada papal 30 brasileiros serão canonizados, ou seja, elevados aos altares para veneração católica, segundo informa o Estadão.

Depois dessa, pelo menos os católicos brasileiros (sobretudo os pernambucanos e potiguares) nunca mais permitirão que alguém fale mal de argentinos perto deles.

Para não perder a paródia futebolística, que envolve o bispo de Roma, os vilões da história são um punhado de holandeses e um alemão, protestantes e calvinistas, como (não) pedia a ocasião.

No fundo, a gente faz essas pequenas brincadeiras apenas para tentar atenuar um pouco (o que é impossível) o horror dos fatos ocorridos no século XVII, em nome da religião, durante as invasões holandesas do território (então português) hoje conhecido como Brasil.

Eis a matéria:

Brasil terá mais 30 santos católicos

Papa Francisco aprova canonização de beatos assassinados em 1645 em duas igrejas do Rio Grande do Norte, durante a ocupação holandesa

José Maria Mayrink

O papa Francisco aprovou nesta quinta-feira, 23, a canonização de 30 beatos brasileiros que foram massacrados em 1645 nas localidades de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte, durante a ocupação holandesa do Nordeste, por se negarem a abjurar da fé católica e aderir ao calvinismo, religião dos invasores. Os futuros santos serão André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, sacerdotes diocesanos, Mateus Moreira e outros 27 companheiros leigos.

“Ficamos muito felizes, pois esta canonização é uma grande bênção para a Igreja e com certeza vai reavivar a fé e a devoção dos fiéis”, disse o arcebispo de Natal, d. Jaime Vieira Rocha, após receber a notícia da aprovação do papa. Os 30 brasileiros foram beatificados em março de 2000 por João Paulo II. O cardeal d. Cláudio Hummes, que foi arcebispo de Fortaleza, ajudou a levar adiante a causa dos mártires e, no ano passado, confidenciou a d. Jaime que Francisco estava interessado na canonização.

Foram dois massacres coletivos: o primeiro em 15 de julho, em Cunhaú, atualmente município de Canguretama, e o segundo em 3 de outubro, em Uruaçu, hoje município de São Gonçalo do Amarante. Segundo relatos da época, mais de 70 pessoas foram assassinadas, mas a Congregação para as Causas dos Santos reconhece apenas o martírio daqueles cujos nomes são conhecidos. Na cerimônia de beatificação, João Paulo II chamou os novos beatos de protomártires e disse que eles eram exemplos e defensores da fé cristã.

Os massacres foram executados por índios tapuias e soldados holandeses, sob comando de Jacob Rabbi, um alemão a serviço da Companhia das Índias Ocidentais Holandesas. As vítimas foram mortas em um domingo, durante a missa celebrada pelo padre Ambrósio Ferro. Após a consagração da hóstia e do vinho, a tropa holandesa trancou as portas da igreja e, após um sinal de Rabbi, os índios chacinaram os fiéis.

Com a notícia das atrocidades em Cunhaú, o medo se espalhou pelo Rio Grande do Norte e capitanias vizinhas. Com razão. Outra vez sob as ordens de Jacob Rabbi, um grupo de dezenas de pessoas, entre as quais o padre André de Soveral, foi massacrado. Além dos padres André de Sandoval e Ambrósio Ferro, foram mortos os leigos Mateus Moreira e seus 27 companheiros que serão transformados em santos. O camponês Mateus Moreira teve o coração arrancado pelas costas, enquanto repetia a frase “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”.

Emissários do governo holandês enviados para investigar os massacres constataram a prática de violência, atrocidade e crueldade. Cronistas da época relatam que em Uruçu a crueldade foi maior. Os índios e a tropa holandesa fecharam as portas da igreja e mataram os católicos ferozmente. Arrancaram línguas, deceparam braços e pernas, cortaram crianças ao meio e degolaram corpos. A história dos massacres foi pesquisada na Torre do Tombo, em Portugal, e no Museu de Ajax, na Holanda. Segundo documentos levantados, os holandeses ofereceram aos católicos a opção de salvar a vida, se eles se convertessem ao calvinismo.

Data. D. Jaime pensou na hipótese de a canonização ser em outubro deste ano, se Francisco viesse ao Brasil por ocasião da comemoração dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Como não virá, a cerimônia deverá ser celebrada no Vaticano, em data a ser marcada. Milhares de devotos celebram a memória dos mártires nos meses de julho e de outubro. Há celebrações frequentes também nas quatro paróquias dedicadas aos beatos no Rio Grande do Norte.



sexta-feira, 24 de março de 2017

Papel-moeda entra em extinção no mundo

A matéria é da BBC Brasil:

Os países onde o dinheiro vivo está prestes a ser extinto

Lauren Comiteau

Em tempos de turbulência econômica, não é de se espantar que algumas pessoas prefiram guardar seu dinheiro à moda antiga: em espécie, em algum cofre ou em algum esconderijo. Pelo menos até a tempestade passar.

Mas em alguns países do mundo, como a Holanda, o dinheiro em espécie está praticamente em vias de extinção - a ponto de alguns estabelecimentos simplesmente recusarem cédulas ou moedas.

Da badalada rede de lojas de comida natural Marqt à padaria do bairro, todos preferem receber pagamentos em cartão de débito ou crédito. Alguns dos varejistas chegam a definir essa prática como "mais limpa" e "mais segura".

Eu fiz uma experiência: deixei o cartão em casa e tentei ver até onde poderia chegar com um punhado de dinheiro vivo em Amsterdã.

Espanto e resistência

Como era de se esperar, fui recebida com expressões de espanto e com resistência quando quis pagar meu aluguel em dinheiro.

"Não me lembro da última vez que recebemos pagamento em dinheiro", conta Marielle Groentjes, contadora da imobiliária que administra meu apartamento, há dez anos no cargo.

"Não gostamos de ter dinheiro aqui na agência. Não temos cofre e os bancos nos cobram para fazer um depósito."

Mas são itens menores e mais baratos que dão mais dor de cabeça. Se não sou impedida de fazer compras em lojas que só aceitam cartões, sou obrigada a ficar em uma fila enorme de pessoas pagando em dinheiro, enquanto vejo outras resolvendo suas vidas rapidamente nos caixas automáticos.

Os euros no meu bolso não servem para eu comprar um sanduíche nem para que eu estacione o carro em Amsterdã.

"Dinheiro em espécie é um dinossauro, mas ele ainda não vai ser extinto", afirma Michiel van Doeveren, conselheiro sênior no Banco Central holandês, o DNB.

Segundo ele, é a logística que está encarecendo as transações em dinheiro, uma vez que ele precisa ser transportado, vigiado, contado e registrado. "É importante que a economia eletrônica ganhe mais espaço porque queremos adotar pagamentos mais eficientes."

Como ganhar mais

Os pagamentos eletrônicos nas lojas e supermercados da Holanda ultrapassaram as transações em dinheiro pela primeira vez em 2015, por uma margem estreita: 50% delas em cartões de débito, 49,5% em dinheiro e 0,5% em cartões de crédito.

Um movimento conduzido por um grupo de bancos e varejistas holandeses quer que essa proporção suba para 60%-40% até 2018. Eles argumentam que pagamentos eletrônicos são mais baratos, mais seguros e mais convenientes.

Assim como a Holanda e seus vizinhos na Escandinávia, a Suécia está entre os primeiros na corrida pela erradicação do dinheiro vivo. Mas nem todo o mundo simpatiza com a ideia.

"Trata-se de um problema enorme. Para pequenas empresas, é muito caro depositar dinheiro no banco", afirma Guido Carinci, diretor da associação de pequenos empresários TOMER. Ele diz que tem que pagar uma taxa de 300 coroas suecas por mês (cerca de R$ 120) para uma empresa que está autorizada a fazer depósitos em sua conta.

Segundo ele, os bancos lucram bastante com a cobrança de taxas sobre transações eletrônicas, enquanto não faturam com o dinheiro vivo. Isso tira o incentivo para que eles aceitem cédulas ou moedas.

Muitas lojas suecas já despacharam suas caixas registradoras, incluindo a gigante das telecomunicações Telia, cujas 86 filiais pararam de aceitar dinheiro vivo em 2013. Os ônibus suecos já não aceitam pagamento em dinheiro há vários anos. E até os sem-tetos que vendem revistas na rua aceitam receber em cartão ou através de aplicativos de celular.

O problema se tornou tão grave que a maioria dos suecos enfrentam o dilema de o que fazer com a pilha de notas que os bancos não querem. Alguns estão até recorrendo a guardar tudo "embaixo do colchão", segundo Bjorn Eriksson, diretor da empresa de segurança Säkerhetsbranschen.

Laços culturais

Apesar disso, as atitudes variam bastante dentro da Europa e em outras regiões do mundo. Algumas culturas relutam firmemente em desistir do dinheiro em espécie. É o caso, por exemplo, da Alemanha, cujos consumidores acreditam que o dinheiro vivo os ajuda a controlar melhor seus gastos, segundo um estudo realizado recentemente pelo Banco Central alemão.

Na superpotência da Europa, mais de 75% dos pagamentos ainda são feitos em dinheiro. A Itália é ainda menos adepta das transações eletrônicas, com 83% dos pagamentos em dinheiro.

E por mais que os americanos adorem suas notas verdinhas, o país está começando a viver um movimento no sentido de se tornar mais eletrônico. No ano passado, eles adotaram cartões de crédito com chip - uma década depois de muitos países europeus.

Em janeiro passado, várias filiais da rede de lanchonetes Sweetgreen pararam de aceitar dinheiro vivo, inclusive em sua loja em Wall Street, onde a maioria dos jovens executivos usam aplicativos de "carteira" em seus celulares, como o Apple Pay, por exemplo.

Os avanços na tecnologia móvel também está mudando costumes em alguns países da África. No Quênia e na Tanzânia, o serviço digital M-Pesa permite que milhões de pessoas hoje paguem suas contas, cobrem seus salários e realizem pequenas transações em mercados locais através de suas contas em seus celulares.



sexta-feira, 17 de julho de 2015

20 anos é pouco tempo para a reconciliação na Bósnia


O genocídio de Srebrenica, na Bósnia-Herzegovina, é um daqueles trágicos episódios da história da humanidade que não podem ser esquecidos para que jamais se repitam.

Entretanto, parece que a memória do massacre ainda está recente demais para que muçulmanos bósnios (as vítimas) e ortodoxos sérvios (os algozes) encontrem uma saída para vencer o ódio.

A matéria foi publicada pela BBC Brasil em 11/07/15:

Premiê sérvio é atacado em cerimônia dos 20 anos do massacre de Srebrenica

O primeiro-ministro da Sérvia, Aleksandar Vucic, foi atacado por uma multidão durante uma cerimônia para marcar o 20º aniversário do genocídio de Srebrenica na Bósnia-Herzegovina.

Garrafas, pedras, sapatos e outros objetos foram atirados contra o premiê, que teve de sair correndo, protegido por seus seguranças, do cemitério na região de Srebrenica - onde 136 vítimas do massacre estão enterradas.

Vucic foi atingido na cabeça por uma pedra e seus óculos foram quebrados, enquanto muitos gritavam ofensas ou palavras como "genocídio", em referência ao massacre.

O ministro do Interior da Sérvia, Nebojsa Stefanovic, descreveu o ataque ao premiê como "escandaloso", dizendo que foi comparável a uma tentativa de assassinato.

Em 1985, durante a Guerra da Bósnia (1992-1995), cerca de 8 mil homens e meninos muçulmanos foram mortos em Srebrenica pelo exército bósnio da Sérvia, no que é considerado a maior atrocidade já cometida na Europa desde a Segunda Guerra.

Na época, os bósnios muçulmanos buscaram abrigo junto às forças de paz holandesas ligadas à ONU, já que a organização havia declarado Srebrenica uma "área segura" para civis.

No entanto, os civis acabaram sendo mortos por forças sérvias que realizavam uma limpeza étnica na região.

No ano passado, o Tribunal de Haia considerou a Holanda culpada pela morte de mais de 300 homens e meninos muçulmanos bósnios em Srebrenica. No entanto, o Estado holandês foi eximido da culpa pelo destino de outros cerca de 7 mil homens que morreram na região mas que não buscaram abrigo no complexo e, em vez disso, fugiram para a mata nos arredores.

Genocídio

Vucic já havia divulgando um comunicado condenando as mortes e dizendo que o que ocorreu foi um "crime monstruoso". No entanto, ele evitou o termo genocídio.

De volta a Belgrado, capital da Sérvia, Vucic pediu aos sérvios que não odiassem os bósnios muçulmanos e que continuaria a trabalhar pela reconciliação dos dois povos.

Vucic é um ex-nacionalista racial sérvio que entre 1998 e 2000 foi ministro da Informação no governo de Solobodan Milosevic. Agora, ele é um político pró-Ocidente que busca integrar a Sérvia à União Europeia.

Clinton

O ex-presidente americano Bill Clinton, que está em Srebrenica, descreveu a presença de Vucic como um passo em direção à reconciliação.

Ele também se desculpou por ter demorado tanto para colocar um fim à guerra.

Segundo Guy Delauney, correspondente da BBC em Srebrenica, o ataque ao premiê ilustra bem o quanto é difícil a reconciliação na Bósnia e em toda a região.

"Dezenas de milhares de pessoas vieram aqui para homenagear as vítimas de Srebrenica e mostrar solidariedade a essa cidade. Eles ouviram líderes internacionais falarem das cenas de horror que ocorreram aqui e de como isso não deveria se repetir", disse Delauney.

"Mas muitos dos que estavam ali se revoltam com o fato de a Sérvia nunca usar o termo genocídio para Srebrenica. E, como já era esperado, Vucic foi hostilizado pela multidão. O imã que estava no local lembrou a todos que o momento era de se fazer orações. Mas o ódio aqui ainda permanece."

8372 sepulturas de vítimas inocentes ainda clamam por justiça em Srebrenica




quinta-feira, 6 de junho de 2013

Aqueles calvinistas beberrões do Recife

Artigo publicado na Revista de História:

Bebem, sim, e vão conquistando

Na tomada de Pernambuco, holandeses se embriagaram o quanto puderam, para espanto e reprovação dos luso-brasileiros

João Azevedo Fernandes

O Recife dos holandeses era “um burgo de beberrões. Pessoas da melhor posição social eram encontradas bêbadas pelas ruas. Os próprios observadores holandeses da época se espantavam do contraste entre sua gente e a luso-brasileira”, como relatou o escritor Gilberto Freyre. E essa característica própria dos invasores poderia ser vista desde o início da conquista de Pernambuco.

Ao subirem as íngremes ladeiras da vila de Olinda, os soldados da poderosa Companhia das Índias Ocidentais (Westindische Compagnie, ou WIC) estavam bem cansados. Além da longa travessia do oceano, eles haviam marchado mais de seis quilômetros pela praia, sob um sol escaldante e travando combates com uma resistência que se esvaía conforme se aproximavam da orgulhosa capital de Pernambuco.

Apesar das dificuldades, o ataque foi um total sucesso. Os poucos portugueses e habitantes da terra que não haviam fugido foram dominados, e às 4 horas da tarde de 16 de fevereiro de 1630, a bandeira holandesa estava erguida na parte mais alta da vila. Imediatamente, os soldados livraram-se da disciplina militar e trataram de saquear o que pudessem. As igrejas foram despojadas de suas riquezas e as casas dos grandes senhores olindenses invadidas. Dos vários produtos encontrados nas casas e armazéns, um em especial agradou em cheio ao gosto dos recém-chegados: o vinho, disponível em grande quantidade.

Durante três dias, soldados e oficiais se embriagaram à farta, afogando as agruras da viagem e dos combates. Protestantes em sua maioria, usavam os cálices sagrados como copos e os panos das igrejas como “capas” — com as quais imitavam e zombavam de portugueses e espanhóis, caindo de bêbados pelas ruas, dando rebates falsos de ataque, “como brutos irracionais”, no dizer de um relato da época. Posteriormente, tanto holandeses quanto portugueses afirmaram que, se os alcoolizados invasores tivessem sofrido um contra-ataque, acabariam expulsos da vila por sua absoluta falta de condições para reagir.

O que aconteceu naqueles dias não foi um fato isolado. Durante todo o período holandês no Brasil (1630-1654), os luso-brasileiros e os invasores travaram uma verdadeira batalha de culturas, para além das ações militares. O estranhamento entre conquistadores e conquistados começava pela religião e estendia-se para a própria definição do viver em sociedade, refletida nas práticas cotidianas — que incluíam os costumes etílicos dos holandeses, totalmente inusitados para os homens da terra.

Essa distância entre as práticas etílicas tinha origens milenares, separando duas áreas culturais desde os tempos de gregos e romanos. De um lado, os povos mediterrâneos, bebedores de vinho, que associavam a bebida aos alimentos e tendiam a valorizar a temperança e a moderação no beber. De outro lado, os povos do norte da Europa, herdeiros das culturas célticas e germânicas, bebedores de cerveja, que valorizavam a embriaguez como um ato nobre e próprio dos grandes heróis, como Beowulf, e deuses, como Thor e Odin. Não é por acaso que esses povos foram os primeiros a popularizar o uso de novas bebidas destiladas, como o conhaque e o gim, a partir de fins da Idade Média.

Os holandeses eram vistos como grandes concorrentes ao título de maiores bebedores da Europa. William Temple, embaixador inglês em Haia na segunda metade do século XVII, dizia que a bebida era indispensável àquele povo, para que o espírito pudesse ser despertado sob um “clima tão pesado”, e que as condições climáticas impediam que os efeitos da bebida fossem mais “calamitosos”. Para Temple, não existia holandês que não houvesse se embebedado pelo menos uma vez na vida, pois sua existência austera só conhecia uma alegria e um luxo: o álcool.

O ato de se reunir em banquetes, onde se bebia muito e bem, era parte integrante da identidade holandesa, construída em sua luta de independência: a Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648) contra os espanhóis, inimigos mortais do calvinismo e do modo de vida dos holandeses. Pintores como Jan Steen e Pieter de Hooch exibiam ricos mercadores e gente do povo divertindo-se em suntuosas salas de jantar e tabernas, misturando homens e mulheres que bebiam e se embriagavam. As bebedeiras eram tão típicas do “ser holandês” que o hábito comum de “animar” (com álcool) os soldados antes dos combates era chamado de dutch courage, “coragem holandesa”.

Ao conquistarem Pernambuco, a região açucareira mais rica do mundo, os holandeses trouxeram seu modo de vida para o Recife, urbanizado pelo conde Maurício de Nassau (1604-1679). Por mais que os naturais da terra devotassem simpatia a esse notável estadista, eles jamais deixaram de considerar os conquistadores como um povo herege, sem rei, governado por comerciantes sovinas, que dava excessiva liberdade às mulheres e que, para completar, se entregava de forma entusiasmada e descontrolada à bebida.

Os holandeses, por sua vez, afirmavam que, na raiz desta apartação cultural, estava a moderação e mesmo a abstinência de muitos luso-brasileiros. Relatórios holandeses observavam que “a bebida dos portugueses é principalmente água da fonte, que é muito boa e agradável”, ressaltando especialmente a abstinência feminina: “poucas são as que bebem vinho, e há muitas que em sua vida nunca provaram dele”.

Alguns funcionários da Companhia procuraram apresentar os costumes portugueses como um ideal a ser seguido por aqueles que desejassem prosperar no Brasil. Enquanto os luso-brasileiros viviam “de água, farinha, um pouco de bacalhau ou qualquer comida vulgar, de modo que em alguns engenhos não há vinho por muito tempo”, os neerlandeses não se contentavam “com tomar à mesa um trago de cerveja ou de vinho”, mas também se reuniam com os amigos, fazendo muitas despesas.

Entre os holandeses que tentavam coibir os costumes etílicos estavam os pregadores calvinistas. Dedicados à missão catequizadora, eles lamentavam o pendor dos índios para a embriaguez: quando bebiam, dizia um pregador, “passavam os dias e as noites pulando e cantarolando”, vício do qual nasciam “brigas e outros maus costumes”. Os religiosos chegaram a pedir para o Conselho dos XIX — responsável pela WIC em Amsterdã — que enviasse ao Brasil apenas “pessoas honradas para servir de mestres-escolas, não sendo pessoas inclinadas a bebidas já que os índios são muito chegados a este vício”. Mas essa preocupação estava longe de ser majoritária: o próprio Supremo Conselho do Recife costumava enviar “presentes de aguardente” aos índios. Em 1644, os holandeses desistiram oficialmente de seu ensaio de catequização.

Recepções, banquetes e jogos etílicos permaneceram no cotidiano dos conquistadores, tal como faziam na Holanda. O frade português Manuel Calado (1584-1654) — formalmente prisioneiro, mas íntimo de Nassau a ponto de frequentar sua casa e seus banquetes — dizia que a bebedeira era o “ordinário costume” dos holandeses. O que mais lhe chocava era a facilidade com que os homens, e ainda mais as mulheres, esvaziavam garrafas e copos.

O papel das mulheres nos “beberetes” era um dos principais motivos da repulsa luso-brasileira àqueles estranhos costumes, o que revela uma diferença marcante no papel social exercido por elas nas duas sociedades. Enquanto que nos Países Baixos as mulheres tinham ativa presença no mundo extra-doméstico, participando de festas de rua, indo às tavernas e recebendo convidados em casa, as portuguesas eram bastante segregadas e colocadas à parte dos assuntos públicos.

Quando o conde Maurício de Nassau convidou algumas mulheres luso-brasileiras para banquetear com ele, recebeu, segundo o frade Calado, a pronta resposta de que “não era uso, nem costume entre os portugueses comerem as mulheres, senão com seus maridos, e ainda com estes era quando não havia hóspedes em casa (...) porque nestes casos não se vinham assentar à mesa”. Essa postura era totalmente contrária à das estrangeiras do Recife. Nos banquetes que o conde ofereceu em homenagem à aclamação de D. João IV, em 1640, “as mais lindas damas que em Pernambuco havia”, holandesas, inglesas e francesas, bebiam alegremente, tanto ou mais do que os homens, dizendo que esse era “o costume de suas terras”.

Outra cerimônia presenciada pelo frade português, que também revela o abismo cultural entre conquistadores e conquistados, foi o funeral do irmão de Maurício de Nassau, conde João Ernesto, que morreu no mar e foi enterrado no Recife. Calado ficou impressionado com a gravidade da “diabólica cerimônia”, na qual “não havia música, nem preces, nem lágrimas”, mas o que o estarreceu de fato foi a enorme quantidade de alimentos e bebidas disponíveis aos convidados, algo típico nos funerais holandeses na Europa. Entre inúmeros brindes e discursos, foram esvaziados muitos frascos de vinho espanhol e francês, cerveja e aguardente, com as consequências previsíveis — “e estes eram os Pater Noster [Pai Nosso], e responsos, que rezavam pelo defunto”.

“Era o costume de suas terras”. Essas palavras, repetidas muitas vezes por Manuel Calado, eram um verdadeiro emblema da segregação auto-imposta pelos luso-brasileiros com relação aos invasores. Vivia-se uma luta entre dois mundos irremediavelmente separados, pela religião certamente, mas também pelas diferenças sobre o que fazer ao redor de uma mesa. E sobre o que fazer com uma garrafa.

João Azevedo Fernandesé professor da Universidade Federal da Paraíba e autor de “A contenção e o excesso: Bebida, embriaguez e identidades étnicas no Brasil Holandês (1630-1654)”, em Actas do Congresso Internacional Espaço Atlântico de Antigo Regime: poderes e sociedades (Lisboa, 2005, disponível em bit.ly/QFtL2M).

Saiba mais - Bibliografia

CALADO, Frei Manoel. O Valeroso Lucideno e o Triunfo da Liberdade. Recife: CEPE, 2004.
MELLO, Evaldo Cabral de (org.). O Brasil Holandês.São Paulo: Penguin Classics, 2010.
SCHAMA, Simon. O desconforto da riqueza: a cultura holandesa na Época de Ouro, uma interpretação. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.



quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Seedorf, o idealista

Ótima entrevista do jogador holandês Seedorf, atualmente no Botafogo, publicada n'O Globo de 25/11/12:

Seedorf, o homem que quer mudar o jogo

Craque do Botafogo se vê como missionário de um mundo melhor

RIO — Nascido no Suriname, terra de seus avós e de seus pais, educado e revelado na Holanda, onde se radicou, com passagens duradouras pela Espanha e pela Itália, Clarence Seedorf, 36 anos, parou no Brasil, ao menos por ora. Seu pai e sua mãe trabalhavam 18 horas por dia para dar um futuro melhor aos filhos, o que poderia explicar a obstinação do craque pelo trabalho, não fosse ele um cultor mais das ideias do que dos números, que vê no esporte um terreno para refleti-las na vida.

Protocolarmente, o atual ídolo do Botafogo e um de seus líderes vê-se como cidadão do mundo, homem internacional, cuja vida é condicionada pelos seus compromissos. Mas, feita a ressalva, conclui por garantir que no sangue, é terra natal dos antepassados que pulsa mais forte.

— Todo lugar é minha casa. Fico bem onde estiver morando, e me acostumei a hotéis. Mas é claro que cada um tem as suas origens, e a minha eu não esqueço, porque tenho família e tenho história. Tenho meu tambor e minha bateria, lembro das canções de meu pai, sou consciente do sofrimento de gerações. Mas a experiência multicultural de viver em vários lugares do mundo fez muito bem para a minha cabeça, que ficou mais aberta e diversificada.

Português na cabeça

Dono de sorriso franco mas de trato reservado, formal até, Seedorf chega ao restaurante do hotel Fasano, em Ipanema, num carro prateado e escolhe a sua mesa de sempre, num canto do salão. Criou apreço pelo lugar no qual passou as primeiras semanas desde que chegou à cidade, quando o apartamento no Leblon era reformado. Ao garçom, pede água. Recusa o couvert e solicita, educadamente, que o deixem concentrar-se por 45 minutos num jogo de um tempo só: a entrevista.

Mais preocupado com os conceitos do que com os detalhes, não gosta de falar muito da família (para não despertar “curiosidades que não importam”) e escolhe as palavras com calma. Empenhado em desenvolver seu português carregado de um sotaque indefinível, e já bem fluente, ele não recorre, jamais, aos outros idiomas que fala.

— Atualmente, minha cabeça só funciona em português. Nem adianta eu tentar, as palavras não vêm em outra língua, o que é ótimo.

A importância de cantar

Avesso a vícios que não sejam os de misturar frutas no liquidificador e tomar muita água, gosta de comida japonesa e italiana, come feijão com arroz e cozinha receitas do Suriname, parecidas com muita coisa que viu na Bahia. Garante que não bebe nem fuma. Mas gosta de rock, reggae, clássicos e algum samba e tem o hábito de cantar, desde que não seja num karaokê (“pois tira a espontaneidade”) ou desde que o estilo não seja o que ele define, genericamente, como batida techno e assemelhados.

— Cantar é muito importante. Limpa a alma. Tudo na vida é sempre uma escolha. Nunca usei drogas. Desde cedo, em Amsterdam, uma cidade complicada, escolhi dizer ‘não’ e as pessoas nem me ofereciam por saber disso. Não perdi meus amigos por me recusar a participar desse aspecto de suas vidas. Eu os respeitava e eles me respeitavam. Mas alguns acabaram tendo as vidas abreviadas.

Caxias assumido, Seedorf dedica a maior parte do tempo aos treinos, à forma física e a diversos assuntos do Botafogo, dentro e fora de campo. Suas baladas, para usar a expressão tão querida por alguns ídolos, limitam-se, aparentemente, a caminhar, quando as coisas estão mais tranquilas, no calçadão do eixo Ipanema-Leblon, ou a participar de reuniões de família e de amigos. Há poucos meses vivendo no país, apesar das constantes vindas nos últimos 12 anos, observa a cena local com a cautela de quem cresceu tendo consciência da luta de um povo pela liberdade.

— Meu avô era filho de escravos e o Brasil é um dos países que, infelizmente, conheceram a escravidão. Seria mentira dizer que não existe racismo aqui. São necessárias muitas gerações para se chegar a um nível diferente de convivência entre povos de várias origens e cores. Mas ainda não percebi claramente como isto ocorre na cidade, pois estou só há cinco meses vivendo no país. Ainda estou construindo minha vida e minha rotina aqui.

Seus ícones não são marcas de celular, popstars ou líderes de revoluções sangrentas, e sim nomes e sistemas mais identificados com transformações de mentalidade como Buda, Gandhi, Dalai Lama, Nelson Mandela, Osho. Admira o período de Bill Clinton à frente do governo americano e considera a eleição de Obama um fato inspirador.

— Vou acumulando frases, ideias e reflexões que recolho do pensamento e da vida de pessoas que mudaram o mundo e deixaram coisas grandes. Eles ajudaram a formar meu caráter e a despertar intuições que já estavam em mim. Tornei-me um idealista. O que não é sempre uma coisa fácil hoje em dia. Mas, apesar das dificuldades, não quero deixar de crer no bem, professar o bem e viver de maneira positiva. O foco hoje está muito no que é negativo. Por exemplo, há doze anos venho ao Rio. Para uma cidade de 6 milhões de pessoas com tantos contrastes, nunca achei a violência aqui tão grande como se diz por aí, ainda mais em comparação com vários lugares do mundo onde o perigo é generalizado.

Casado com a brasileira Luviana, que conheceu em Madri, há 14 anos, ele já tinha o país como uma dessas referências emancipatórias desde a infância, aficionado que era pela seleção a da geração de Zico, como a maioria do povo do Suriname. Muito pequeno para a Copa de 1982, o menino Seedorf chorou em 1986 com a eliminação para a França nas quartas de final, um dos fatos perturbadores de sua infância.

— Meu pai teve que me levar para fora de casa para me acalmar. A bola na trave do Julio Cesar foi um drama.

O choro aos 12 anos faz pensar em cena recente, estampada nas páginas dos jornais, nos sites e na televisão: o veterano de 36 anos que chorou ao deixar o campo contundido, emocionando a opinião pública ao dizer que o pranto era pelo tempo que teria que ficar afastado do time num momento de recuperação. A ovação quase unânime do choro de Seedorf é interessante se compararmos à chacota de que é motivo o Botafogo desde a comoção coletiva do plantel que perdeu para o Flamengo a final de Taça Guanabara de 2008. Qual o critério para se avaliar a qualidade ética de um chororô? Seedorf, de cara fechada como faz cada vez que seus princípios são contrariados, arrisca o diagnóstico.

— Não me toca essa história de chororô. Na verdade, não tenho nenhuma simpatia por ela. É muita falta de respeito. Choro é sinal de força. Quem chora tem coragem, e um atleta deve descarregar sua dor. O Botafogo foi um dos grandes produtores de talentos de uma geração de seleções que ganhou muitos títulos mundiais. É um patrimônio brasileiro importante e não merece ser tratado dessa maneira e nem tratar mal a si próprio. Os jornalistas botafoguenses não são nada bonzinhos com o time. Um Botafogo com autoestima baixa não é bom para o Brasil. Na minha vida, perdi mais do que ganhei. Com todo mundo é assim. Mas a vitória, mesmo, que fica, é a da constante superação e dos valores que passamos, independentemente dos números.

Construção de exemplos

Partidário da ideia de que o futebol é estruturante de comportamentos sociais e multiplicador de princípios éticos e morais, ele enxerga um viés negativo na maneira como muitas vezes é espelhado pelos responsáveis por sua gestão e também pelas mídias, que estariam, segundo ele, mais concentradas na degradação das personalidades do que na construção de exemplos. Confrontado com a possibilidade de o problema estar no futebol atual, ele usa como paradigma a postura geral frente aos esportes olímpicos.

— As Olimpíadas são sempre mostradas como um encontro que eleva as pessoas, e o mundo inteiro olha para a televisão com esse espírito. No futebol os valores mais justos que influenciam o comportamento das pessoas de dentro para fora dos estádios não são suficientemente enfatizados. Talvez por que seja um esporte tão popular. Mas deveria ser o oposto. O Adriano que conheci no exterior, por exemplo, era uma pessoa exemplar, de grande coração. Hoje sua figura se identifica com os minutos de TV que mostram seu drama. Isso não ajuda muito.

A história é agora

Visado pelos holandeses para assumir uma espécie de representação da seleção do seu país para a próxima Copa, e por uma corrente da torcida alvinegra como um possível redentor (e, talvez, futuro dirigente) dos anseios botafoguenses, ele admite que tem uma missão, mas uma missão para o mundo, ainda inespecífica em termos de planos e projetos a curto prazo.

— O futebol me dá a possibilidade de ajudar o mundo a melhorar. Quero dar minha parte. É algo que vou descobrir à medida que vou fazendo e que já está em mim desde pequeno. Neste minuto estou preocupado em fazer o Botafogo chegar em quinto no Brasileiro, seu melhor resultado em 17 anos. Mas estou torcendo pelo Corínthians no mundial. Não sou do tipo de torcer contra ninguém. Na final, pelo Milan, fui aplaudido pela torcida do Barcelona tendo jogado pelo Real Madrid. É esse espírito que levo para a vida, o da construção, não o da destruição, esteja eu no Botafogo ou em outro lugar. Quero para o Botafogo o que quero para o futebol brasileiro. Quero para mim o que quero para todos. É preciso parar de só olhar para o passado. O menino que quer jogar o jogo da vida tem que se inspirar em quem faz a história hoje, respeitando o passado, mas vivendo o presente. Ele não pode ficar com os olhos pregados só no que aconteceu há 40 anos. Uma divisão de base vitoriosa pode servir de exemplo tanto quanto um grande ídolo internacional. Todos fazem, sempre, história.



terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Marcas da guerra



A fotógrafa holandesa Claire Felicie teve a ideia de mostrar as marcas que uma guerra deixa nos rostos dos soldados. Para tanto, fotografou um grupo de fuzileiros navais da Holanda que serviram na província de Uruzgan, no Afeganistão, entre 2009 e 2010, antes, durante e depois de sua missão. O resultado do projeto intitulado Here Are The Young Men ("Aqui Estão os Rapazes") ficou bastante interessante, e se pode perceber por uma simples foto do tipo 3x4 o quanto pesa um conflito na expressão facial de um soldado. O trabalho pode ser conferido no sítio de Claire Felicie ou no Noordelicht.









quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Militante somali diz que cultura cristã é superior à islâmica

Uma entrevista polêmica da militante (ex-muçulmana, atual agnóstica) somali Ayaan Hirsi Ali a Gabriel Bonis, publicada na revista Carta Capital:

‘Cultura cristã é superior à islâmica’

Gabriel Bonis

Em 1992, Ayaan Hirsi Ali foi para a Holanda fugindo de um casamento arranjado pelo pai. No pequeno país europeu, onde viveu como refugiada e depois cidadã, a somali viu seus valores islâmicos entrarem em colapso. Passou de militante da Irmandade Muçulmana à agnóstica, parlamentar e crítica ao Islã.

Na Holanda, despertou a ira dos muçulmanos ao produzir o curta Submissão (2004), no qual uma muçulmana aparece vestida com uma burca parcialmente transparente, enquanto reza e critica o Islã. O vídeo resultou no assassinato de Theo van Gogh, diretor holandês do filme, por um extremista religioso.

Mutilada genitalmente na infância, a autora do best seller de memórias Infiel virou alvo de extremistas religiosos. Atualmente vive sob escolta nos EUA, de onde conversou com o site de CartaCapital, por telefone, sobre seu novo livro, Nômade (Companhia das Letras, 392 págs., R$ 46,00).

Em 1992, Ayaan Hirsi Ali foi para a Holanda fugindo de um casamento arranjado pelo pai. No pequeno país europeu, onde viveu como refugiada e depois cidadã, a somali viu seus valores islâmicos entrarem em colapso. Passou de militante da Irmandade Muçulmana à agnóstica, parlamentar e crítica ao Islã.

O trabalho traz uma postura polêmica da autora: o Ocidente precisa enxergar o perigo do Islã. Ali sugere também que o cristianismo conquiste os muçulmanos para conter os extremistas.

Na íntegra da entrevista abaixo, a somali fala, entre outros tópicos, sobre os valores que enxerga no cristianismo, a proibição do uso de trajes cobrindo o rosto em diversos países europeus e do sexo para as muçulmanas no Ocidente.

CartaCapital – No livro Nômade, a sra. afirma que o Ocidente precisa reconhecer a ameaça do Islã e sugere uma aproximação da Igreja Católica para converter imigrantes muçulmanos. Sua justifica é de que o cristianismo tem melhores valores que o Islã. Quais seriam esses valores?
Ayaan Hirsi Ali – Como analistas, podemos olhar para diversas religiões e culturas e dizer qual é melhor. Para os politicamente corretos, analisando a perspectiva do multiculturalismo, não há como compará-las, não se deve fazer isso. Contudo, creio que é um desperdício de oportunidade não fazê-lo devido aos desafios do Islã. Olho a cultura islâmica e a cristã e vejo que a cristã passou por um longo período de esclarecimento. As pessoas aceitaram a separação entre a religião, Estado e assuntos de sexualidade, embora isso não se aplique a todos os cristãos. Muitos deles são incapazes de fazer essa separação, mas em geral na cultura cristã ocidental essa separação foi reconhecida e aplicada. Neste sentido, creio que essa nova cultura cristã, que passou por uma reforma e esclarecimento, é superior à cultura islâmica, isenta desse processo. No Ocidente, a Igreja não é a legisladora, a lei é feita de forma independente no Parlamento e no Congresso. As pessoas que as produzem são eleitas por outras pessoas, o presidente dos EUA não é eleito por Deus. Isso é um grande progresso em termos de humanidade se compararmos o cristianismo ao islamismo, um progresso que os muçulmanos ainda não enfrentaram por completo.

CartaCapital – Mas esses itens apontados não estão relacionados apenas com o cristianismo, há aí valores da Revolução Francesa, por exemplo…
AHA – Na história do cristianismo quando a Igreja legislava, as pessoas se revoltaram e quiseram melhorar esse aspecto. Disseram que Deus não poderia legislar, porque quem fala por Deus? Se olharmos a propaganda islâmica e sua agenda, o que estão dizendo é que as pessoas têm que viver pela lei da Sharia, a lei divina. É claro que há lei secular e questões de liberdade e governos que não têm nada a ver com religião. Porém, é possível ter uma discussão e uma opinião diferente sobre os seculistas e problemas como governo e sexualidade, mas tradicionalmente o principal problema tem sido entre pessoas que querem a religião no centro da moralidade e do governo e as outras que dizem ‘não, a religião deveria ser pessoal’.

CartaCapital – A sra. sugere no livro uma forma mais “ocidentalizada” de Islã. O que seria e como criá-la?
AHA – Sugiro que o Islã se reconcilie com a modernidade. Os líderes islâmicos têm que reconhecer a liberdade dos membros das comunidades. Se eles quiserem podem aprender com a história do cristianismo, porque as pessoas foram reconhecidas não como inferiores à comunidade, mas o indivíduo é superior à comunidade. O indivíduo possui direitos e a liberdade para formar sua livre associação, sua própria comunidade. Nasci muçulmana e decidi não ser muçulmana, deveria ser decaptada por isso? É o que pensam os radicais muçulmanos. Você não pode deixar a fé? Isso é errado.

CartaCapital – Você vive agora nos EUA, como a sociedade americana enxerga os muçulmanos, especialmente após os dez anos dos atentados de 11 de setembro?
AHA – Creio que nos últimos dez anos, o 11 de Setembro mudou mais o Islã e os imigrantes muçulmanos neste país do que os EUA. Porque agora, pela primeira vez, os muçulmanos estão vivendo em um ambiente onde as pessoas perguntam sobre a fé, livros sobre o Islã são publicados e debates livres e discussões sobre o assunto são possíveis. Um fato profundo e extremamente raro na história do Islã.

CartaCapital – Há mais preconceito contra os muçulmanos nos EUA?
AHA – Não há mais preconceito e sim atenção. Antes de 11 de Setembro de 2001, havia pouca ou nenhuma atenção aos muçulmanos. Após os atentados, isso mudou e essa atenção é em parte positiva e negativa.

CartaCapital – Em julho, Anders Behring Breivik realizou dois atentados na Noruega, matando centenas de pessoas. Ele escreveu um manifesto justificando o seu ato como uma forma de combater a invasão do Islã na Europa. Não era cristão, mas dizia ser defensor de um cristianismo capaz de converter muçulmanos. Como você analisa as ideias dele?
AHA – Há muitos críticos do Islã e muitas pessoas que reconhecem o problema na Europa e culpam os muçulmanos por um lado e os não muçulmanos por outro. A grande diferença é que ele vê a violência como solução para o problema. Isso é algo que não proponho, assim como outros críticos do Islã. A resposta não é atirar em pessoas ou deportá-las, mas sim esclarecê-las e isso é um exercício de envolvimento na troca de ideias em uma sociedade livre. No livro, proponho que o cristianismo talvez seja mais atraente para os muçulmanos vivendo na Europa. Qualquer muçulmano pode concordar ou não, mas não proponho o uso da força. O uso da força da forma como ele propôs seria o fim da sociedade.

CartaCapital – Você acredita que as suas sugestões, caso colocadas em prática, poderiam aumentar a tensão entre muçulmanos e o Ocidente?
AHA – Em Nômade reconheço o que todos já haviam feito desde 11 de Setembro de 2001: há uma corrente muito radical no Islã, violenta e querendo uma guerra com o Ocidente. Isso não se aplica a todos os muçulmanos, ou a maioria deles. É uma minoria. Proponho que, para derrotar essa minoria, a maioria examine as idéias dos radicais e se essa sugestão significa adotar valores ocidentais, então seria ainda melhor. A maioria dos muçulmanos diz não gostar do pensamento radical, mas também não quer ser vista como ocidentalizada, uma traição aos valores islâmicos. Tento dizer que há outras opções disponíveis sem rótulos ocidentais. Muitos muçulmanos com quem encontro e converso, por exemplo, são atraídos pela ideia de libertar mulheres, mas crêem que isso seria trair o Alcorão e o profeta Maomé. Digo que é correto trair os seus ensinamentos por um bem maior: a liberdade das mulheres e sua igualdade perante a lei.

CartaCapital – Quando você diz libertar as mulheres, como explica aquelas que defendem o uso de trajes cobrindo os rostos em países como Bélgica, Itália e França, que já adotaram medidas para proibir o seu uso?
AHA – Quero destacar que na França, Suécia e Suíça elas vivem em uma cultura na qual podem identificar quais são os seus direitos e lutar por eles de acordo com a lei. Para a pessoa que é religiosa, tem que fazer um balanço. Tomar uma decisão, porque cobrir o rosto nesses países é contra a lei.

CartaCapital – Na sua opinião, uma lei que força pessoas de outras culturas a abandonarem seus valores é correta?
AHA – Os legisladores da França apresentaram diversas razões sérias para essa lei, que vem de um processo democrático pelo qual foi possível convencer a maioria dos franceses. Não sou uma legisladora francesa e quando estava na Holanda não votei pelo banimento do véu, mas nesse contexto é o que a maioria deseja. As mulheres muçulmanas têm que viver de acordo com essa lei. Além disso, a legislação vale para todas as demais pessoas religiosas. Houve um processo democrático e, neste caso, os valores religiosos pessoais devem passar para o segundo lugar.

CartaCapital – A sra. considera isso uma violação dos Direitos Humanos?
AHA – Não é uma questão de Direitos Humanos querer cobrir o seu rosto. Creio que os Direitos Humanos têm sido banalizados de tal forma que agora discutimos sobre assuntos como esse. Não há nenhum dano corporal ao se dizer a uma mulher que ela não pode usar o véu.

CartaCapital – Em Nômade, a sra. afirma que o multiculturalismo não funcionou e criou guetos. Porém, não seria possível a coexistência de culturas diferentes?
AHA – Quando pessoas de diferentes culturas se reúnem há sempre uma oportunidade de viver em harmonia, mas culturas também colidem. Não é especialmente a islâmica ou a ocidental. Valores diferentes colidem e isso cria uma cultura dominante, que neste momento é a ocidental. Há conflitos desses valores diariamente, com vitórias para os dois lados. É assim que devemos vê-los e não exagerar as diferenças culturais. Surge um problema quando determinado grupo diz que a única forma de acabar com essa situação é pela violência. É o que os radicais islâmicos estão propondo e a sociedade precisa ser cuidadosa para não ser pega entre esses extremistas.

CartaCapital – No Ocidente, as mulheres realizaram vários movimentos para conquistar mais direitos. A sra. vê isso acontecendo em países islâmicos?
AHA – Todos os dias vejo pequenas boas notícias. A última é que o rei da Arábia Saudita permitiu o voto às mulheres no nível municipal. No Ocidente isso é uma piada, porque as mulheres podem votar há décadas. Na Arábia Saudita, é outra piada porque ninguém pode votar, é uma monarquia. Mas o fato de reconhecer as mulheres, mesmo que simbolicamente, é importante.

CartaCapital – Como as muçulmanas no Ocidente lidam com o sexo?
AHA – Há três categorias de mulheres: aquelas nascidas em famílias muçulmanas nas quais os pais e irmãos as dão liberdade. Elas podem escolher quem amar ou casar, têm o direito de ir e vir, trabalhar ou não. Essa é uma porcentagem muito pequena, mas existe. Há uma segunda categoria de mulheres que vivem uma vida hipócrita. Desfrutam a liberdade ocidental quando saem de casa e ao retornar comportam-se conforme o Islã. Um exemplo é uma mulher que sai de casa com o hijab e quando chega à esquina, o tira. Isso é interessante, pois algumas famílias sabem e outras não, sendo impossível manter essa farsa por muito tempo. A terceira categoria, que acredito ser a maioria, inclui as mulheres obrigadas a obedecer aos desejos de suas famílias. Possuem irmãos como guardiões masculinos e essas famílias, mesmo sabendo que vivem no Ocidente livre, são excluídos da liberdade.

CartaCapital – A sra. se considera uma exceção?
AHA – Sou uma exceção no sentido de que fui até o final. Não pertenço à primeira categoria, porque meus pais não concordam com o meu estilo de vida. No momento não estou na segunda, pois me recuso a viver na hipocrisia, mas já o fiz no passado. Também não me enquadro na terceira, uma vez que obviamente me revoltei contra isso. Há ainda uma categoria de mulheres muito pequena, as que decidiram enfrentar os problemas. Precisamos garantir que elas tenham ajuda.



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